Blog de terezamalcher_17966

O Ó do borogodó!

terça-feira, 04 de fevereiro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Mais uma semana terminando, e a mente começa a procurar um novo tema a abordar. Essa é a sina do escritor: imaginar e produzir textos literários. Não lhe é permitido escrever qualquer coisa e de qualquer maneira. É uma rotina que beira ao delírio em que a imaginação tem de viajar sobre uma quantidade indeterminada de ideias, se concisas ou conflitantes, discordantes ou desajustadas. É um movimento em que tudo encontra sentido desde que a produção do texto seja concluída com qualidade.

Mais uma semana terminando, e a mente começa a procurar um novo tema a abordar. Essa é a sina do escritor: imaginar e produzir textos literários. Não lhe é permitido escrever qualquer coisa e de qualquer maneira. É uma rotina que beira ao delírio em que a imaginação tem de viajar sobre uma quantidade indeterminada de ideias, se concisas ou conflitantes, discordantes ou desajustadas. É um movimento em que tudo encontra sentido desde que a produção do texto seja concluída com qualidade. A sorte do escritor é que a literatura lhe oferece licenças, podendo, ele, inclusive, usar a pontuação aos seus critérios ou inventar palavras; brincar com a Língua Portuguesa e empregá-la com inventividade. Para tal é preciso conhecê-la com perfeita intimidade. 

Semelhante a qualquer outro momento da vida em que temos de preencher vazios, a página em branco ou a tela do computador iluminada, com apenas as marcações da página é o “Ó do borogodó!” Uma situação, ao mesmo tempo é atraente à imaginação — posto que o autor pode abrir suas asas e criar com liberdade — mas também repleta de instantes em que o escritor suspira e exclama: “E agora, José? E o pobre José, com a mão no queixo, responde com todas as incertezas do mundo: “É mole não...”

E o relógio corre destemido, sem olhar para trás a escutar “peraí!” ou “tô indo”, a súplica daquele que tem prazos e não sabe o que escrever, porém deseja produzir um texto que seja inteligente, atraente ao leitor e contenha valores humanos.

Hoje, resolvi, sem cerimônias falar deste momento inusitado quando todos nós (e não somente o escritor) desconhecemos qual o caminho que vamos seguir. E de que modo vamos fazê-lo: se vamos pegar um barco, um trem ou um avião; se vamos a pé, a nado ou de charrete. E superar os medos! O escritor precisa abrir suas caixas de receios e liberá-los como chaminés que soltam vapores em intensidades diferentes.

Às vezes, é possível que o leitor pense que o escritor não passe por momentos de indefinição essencial. Pois sim! Produzir um texto de qualidade é o mesmo que construir uma ponte sobre um rio caudaloso com cimento, tijolos, argamassa e milhões de outros etecéteras. Sim, senhor!, como dizia Alice, de Lewis Carroll, acima de tudo, o ato de imaginar é trabalhoso!

Vamos supor que na imaginação esteja a síntese da história de vida do escritor e das vidas de pessoas significativas a ele, dos lugares onde ele mora ou habitou, da herança familiar e genética, de todas as suas leituras e escutas. O imaginário guarda universos infinitos e distintos, visitados neste momento em que o “Ó do borogodó” é imperador. Se o imaginário é empobrecido, o texto não sai do lugar comum e não supera o banal.

E, agora, que superei a vergonha de mostrar minhas inseguranças, resolvo confessar ao meu leitor que não quero abordar um assunto que vá além das minhas fragilidades. E, falando delas, acabo escrevendo sobre este instante original e que o reitero como crucial.

Uau! Escrevi este texto numa tacada só, me sentindo à vontade para empregar expressões não usuais e encontrei bagagens interessantes nesse momento indesejado e carregado de incertezas. De certo, o não-saber pode ser o início da construção de novos saberes e identidades.

Aproveito e vou ler Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Lewis Carroll e James Joyce... 

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A literatura nos traz a vida dos mestres

terça-feira, 28 de janeiro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Passei a semana me sentindo lisonjeada com a crônica de Robério Canto intitulada “Imitando Tereza”, em que ele faz um singelo elogio à minha pessoa e ao meu trabalho de escritora. Nessa coluna ele se refere a um texto que publiquei no ano passado sobre as letras de músicas.

Passei a semana me sentindo lisonjeada com a crônica de Robério Canto intitulada “Imitando Tereza”, em que ele faz um singelo elogio à minha pessoa e ao meu trabalho de escritora. Nessa coluna ele se refere a um texto que publiquei no ano passado sobre as letras de músicas.

Ao pensar sobre o que escrever estava com a ideia da música em mente e escutava Noturne (Op. 9 N.2), de Frédéric Chopin (1810-1849), uma melodia suave e intensa, que nos faz viajar em suas notas e perder no tempo. Logo comecei a agradecer à literatura por nos trazer, para os dias de hoje e a qualquer tempo futuro, a vida dos grandes mestres que se destacaram em várias áreas da atividade humana. Inclusive, as biografias, os romances e os contos, permitem que outras expressões artísticas, como o cinema e o teatro, produzam suas obras.

Muitos artistas viveram poucos anos, porém tiveram tempo para construir obras que se eternizaram e superaram tendências e modismos. Infelizmente, hoje, não se cultiva, como se deveria, o legado que os mestres nos deixaram, como Chopin em seus 39 anos de vida.

Há uns dez anos quando fui à Varsóvia, capital da Polônia, visitei a casa de Chopin e assisti a um recital apresentado por dois pianistas. Ali, fazendo parte de uma plateia, em silêncio absoluto, tive a impressão de que estava no século XIX. Ainda não li sua biografia, um compositor que, nos poucos anos em que viveu, compôs sua imortalidade. Mas vou fazê-lo tão logo termine a coletânea que estou lendo, “Antes que o café esfrie”, do autor japonês, Toshikazu Kawaguchi.

De repente, uma ideia me assalta: tantos milhares de jovens têm seus potenciais mal explorados. Como, no início do século XIX, uma época, comparada com a de hoje, com tantas impossibilidades, amparou gênios? Será que na atualidade aqueles que se destacam irão ganhar semelhante imortalidade?

O que havia naquele tempo que hoje não temos? É uma questão a se pensar com seriedade, posto que a modernidade está aí cheia de Inteligências Artificiais, mundos virtuais, aviões, telefonia. Enfim, esses aparatos, inimagináveis há cem ou duzentos anos, acabam trazendo acomodações, ausências de necessidades e inspirações. Não posso deixar de ressaltar que apenas 12 alunos, dentre todos os participantes em todo o país, tiraram nota máxima em redação no Enem.

Mas, enfim, a literatura está aí para cutucar, ao mostrar a vida dos grandes mestres que não tinham computador nem celular e o principal meio de transporte eram cavalos.

Para finalizar saúdo Robério José Canto, grande amigo e mestre, que passou a vida ensinando ao Friburguense o nosso bem maior, a Língua Portuguesa.

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No tempo das cartas

terça-feira, 21 de janeiro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Ao assistir ao filme “Pelotão 6888”, baseado em um fato que aconteceu durante a Segunda Guerra, quando um batalhão de mulheres negras do exército norte-americano assumiu a missão de entregar as cartas dos soldados aos seus familiares que estavam acumuladas nos galpões. Essa quase impossível tarefa levou conforto e esperança aos que as recebiam. Fiquei tocada com o filme, quando pude, mais uma vez, constatar o valor das cartas. O filme me fez voltar ao tempo em que as enviava e recebia.

Ao assistir ao filme “Pelotão 6888”, baseado em um fato que aconteceu durante a Segunda Guerra, quando um batalhão de mulheres negras do exército norte-americano assumiu a missão de entregar as cartas dos soldados aos seus familiares que estavam acumuladas nos galpões. Essa quase impossível tarefa levou conforto e esperança aos que as recebiam. Fiquei tocada com o filme, quando pude, mais uma vez, constatar o valor das cartas. O filme me fez voltar ao tempo em que as enviava e recebia.

A internet trouxe facilidades, mas levou antigos hábitos que haviam perdurado séculos: as cartas. Aquela carta aguardada, carregada de afetos e informações, escrita à mão não existe mais. Que pena. Quanta saudade daquela maneira de recebê-la pelos correios, cheirar e abrir com cuidado para não rasgar, sentar num canto isolado para ler com tranquilidade e sem interferências. Esse costume querido ficou no tempo.

Receber e enviar cartas, além de ter sido uma felicidade, era um ritual, do qual fazia parte ir à papelaria para comprar o papel e o envelope de carta, que poderia variar, de acordo para quem fôssemos enviar; escrever, reescrever o texto e passar a limpo com letra bonita e sem rasuras; sair de casa, mesmo em dias de chuva, e enfrentar a demorada fila dos Correios; ficar imaginando o trajeto da carta e a reação para quem a enviamos. Além da expectativa de receber a resposta. As cartas faziam parte da rotina da vida, até porque as ligações interurbanas eram custosas. E o mundo virtual ainda não existia!

Havia inspiração, criatividade e emoções para escrever a alguém com quem mantínhamos uma relação afetiva. Minha mãe guardou as cartas que recebeu de papai em uma caixa, amarradas com fitas, que ainda são verdadeiras relíquias para ela. Quando eu as leio, fico emocionada não somente pelo conteúdo, mas porque ainda preservam o sentimento deles: dois namorados que estavam longe um do outro por causa de estudos e trabalho. É tão diferente ler uma mensagem via WhatsApp do que abrir um envelope de carta, passar a mão sobre as frases escritas que faziam marcas no papel. Observar a letra, registro único e individual, que preserva o afeto ao longo do tempo. Até hoje tenho gosto de ver a letra da minha avó nas cartas que ela escrevia para mim, praticamente desenhadas, principalmente no primeiro parágrafo.

Hoje utilizamos a palavra “mensagem” para nos referir à troca de ideias, afetos ou informações entre pessoas. Comumente são textos rápidos, com palavras reduzidas em abreviações ou gírias. No tempo das cartas, havia cuidados com o emprego da Língua Portuguesa; a preposição para não virava pra e nem a conjunção porque era escrita pq. Muito menos o pronome você virava vc.

Será que o tempo, ao levar as cartas, levou um pouco da beleza dos afetos?

Será que, ao simplificar as palavras e frases nas mensagens, as pessoas estão se esquecendo da beleza da nossa Língua?

O que deixamos para trás nas cartas e, hoje, não encontramos mais na internet?

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Ah, se eu pudesse viajar no tempo e visitar o meu passado...

terça-feira, 14 de janeiro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Seria uma jornada e tanto, mais do que uma aventura. Um resgate? Ou uma forma de compreender melhor o presente, que é a síntese do que vivemos. Nunca conseguimos compreender com plenitude o presente. Há indagações, questões mal resolvidas, sonhos longe de ser realizados, mágoas. Há várias brechas que tentamos preencher no presente. Enfim... Saber lidar com as dores e os hiatos do passado é uma sabedoria.

Seria uma jornada e tanto, mais do que uma aventura. Um resgate? Ou uma forma de compreender melhor o presente, que é a síntese do que vivemos. Nunca conseguimos compreender com plenitude o presente. Há indagações, questões mal resolvidas, sonhos longe de ser realizados, mágoas. Há várias brechas que tentamos preencher no presente. Enfim... Saber lidar com as dores e os hiatos do passado é uma sabedoria.

Estou impactada com os livros “Antes que o café esfrie – volumes 1 e 2”, do autor japonês, Toshikazu Kawaguchi, que não consigo parar de ler. Já li o primeiro volume e mais do que depressa passei para o segundo. O livro aborda uma breve viagem no tempo de personagens que sentem a necessidade de esclarecer algo que lhes aconteceu. Eles não podem modificar o passado, nem o presente, mas, nos poucos minutos que a viagem dura, entendem melhor as situações que ficaram sem solução, o que lhes vêm causando inquietações ao longo da vida.

Apesar da história ser fictícia, mexeu comigo a ponto de levar recordações para meus sonhos e compartilhá-las com o meu travesseiro. Não me despedi de tantas pessoas como eu queria. Se pudesse faria vários retornos para dizer o que não disse, ficar em silêncio, pedir perdão, abraçar, falar do meu amor, dizer não, concordar e outros gestos, atitudes e decisões. A vida é cheia de partidas... É efêmera!

O afeto, a perda, a gratidão, a amizade, o arrependimento dentre outros sentimentos universais e atemporais são intrínsecos à experiência existencial de cada um. “Antes que o café esfrie” é construído em estilo literário fantástico posto que viajar no tempo é fantasia. No entanto, a história nos mostra que não podemos deixar para depois o que é preciso fazer em cada momento. A vida é um acontecer que não permite repetições, pois nada acontece da mesma forma. O que passou, passou. Ponto final. Será que percebemos, nas entranhas de cada instante, a profundidade das situações e dos afetos? Os fatos, as reações das pessoas, as intenções estão misturadas e carregadas de sutilezas. O verdadeiro significado das coisas pode ficar perdido dentre tantas circunstâncias que nos cercam.

Muitas vezes não entendemos a simplicidade das situações, sempre guardada nos pequenos e imperceptíveis detalhes. Um olhar pode mostrar o que um discurso não diz ou basta uma palavra, apenas uma, para revelar a verdade. A memória guarda uma imensidade de percepções que, possivelmente, tempos depois é que vamos nos dar conta dos fatos.

Se eu fosse um personagem do livro gostaria de viajar no tempo para abraçar meu filho mais uma vez. Ao revermos o passado encontramos lacunas que nos deixam triste por não termos tido decisão ou atitude diferente da que tivemos.

De todo modo, através construção do presente vamos aprendendo a nos amar, a lidar com dificuldades e considerar quem está ao nosso lado.

“Era ainda jovem demais para saber que a memória do coração elimina as más lembranças e enaltece as boas e que graças a esse artifício conseguimos suportar o passado”

(Gabriel Garcia Marquez)

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Começando 2025 com Júlio Verne

terça-feira, 07 de janeiro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Eis que amanheci o primeiro dia de 2025 pensando no tema com o qual deveria brindar o novo ano. Não precisou de muito tempo para que Júlio Verne (1828 – 1905), romancista francês, dramaturgo e poeta, tomasse conta das minhas ideias. Perguntei-me com certa surpresa: por que voltar no tempo em mais de cem anos se hoje há tantas questões relevantes? A resposta logo me veio com clareza pelo modo como estou vendo o mundo na era da Inteligência Artificial.

Eis que amanheci o primeiro dia de 2025 pensando no tema com o qual deveria brindar o novo ano. Não precisou de muito tempo para que Júlio Verne (1828 – 1905), romancista francês, dramaturgo e poeta, tomasse conta das minhas ideias. Perguntei-me com certa surpresa: por que voltar no tempo em mais de cem anos se hoje há tantas questões relevantes? A resposta logo me veio com clareza pelo modo como estou vendo o mundo na era da Inteligência Artificial. Segundo a obra de James Bridle “Maneiras de ser: a busca por uma inteligência planetária” o grande desafio é utilizá-la para estabelecer uma melhor interação da tecnologia com a vida sustentável, proteger a natureza, evitar a degradação e o esgotamento do Planeta. Mas, infelizmente, a Inteligência Artificial está percorrendo caminhos para atingir outras finalidades.   

Júlio Verne, pioneiro na ficção científica, através das suas histórias, fez previsões para o futuro com precisão, como o Projeto Apollo, programa espacial da NASA, com a finalidade de levar o homem à lua, mais especialmente ao espaço, o transporte aéreo, o emprego da energia elétrica em equipamentos, dentre outras.

Suas histórias estão vivas, sendo, hoje, lidas e filmadas. Atraem a atenção de crianças, jovens e adultos pelo caráter de realismo com que elaborou seus enredos. Sua obra foi fundamentada em sua capacidade inventiva e inteligente, em pesquisas metódicas e na elaboração de um trabalho literário sério e consistente. Seus protagonistas se tornaram heróis conhecidos, como o Capitão Nemo, personagem das “Vinte Mil Léguas Submarinas” (1870) e da “A Ilha Misteriosa” (1874).

Quando ele tinha 11 anos, fugiu de casa e quis embarcar num navio para conhecer o mundo, mas seu pai impediu. Acredito que a ideia tenha permanecido em suas vontades, e, aos dezoito anos, escreveu seu primeiro conto de ficção “A Viagem em um Balão” (1951). Mesmo formado em advocacia, abraçou a escrita e produziu uma vasta obra de ficção, em torno de 45 livros, com enredos cheios de aventuras.

Vale apena ressaltar “Cinco Semanas em um Balão” (1863), “Viagem ao Centro da Terra” (1864), “Da Terra à Lua” (1865), “Vinte Mil Léguas Submarinas” (1870), “A Volta ao Mundo em Oitenta Dias” (1872). Júlio Verne viajou mundo afora, chegando a alcançar o espaço através da imaginação.

Com um pensamento criativo e liberto, foi capaz de imaginar o que os homens das gerações futuras fariam, além de mostrar ao mundo que o perigo estaria em tudo e, principalmente, que os obstáculos existem para serem vencidos.

Talvez seja esse sentimento destemido que gostaria que amparasse todas as nossas decisões e realizações.

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Reflexões sobre 2025

terça-feira, 31 de dezembro de 2024
por Jornal A Voz da Serra

Estamos chegando em 2025, e estou mergulhada em reflexões, o que é comum acontecer nesses tempos. Não gostaria de pensar nas coisas que gostaria de adquirir ou alcançar, já que durante anos fiz relações intermináveis de finalidades pessoais, profissionais e materiais.

Estamos chegando em 2025, e estou mergulhada em reflexões, o que é comum acontecer nesses tempos. Não gostaria de pensar nas coisas que gostaria de adquirir ou alcançar, já que durante anos fiz relações intermináveis de finalidades pessoais, profissionais e materiais.

Talvez pelo fato de estar avançando na década dos setenta, o sentido da vida ganha espaço em minhas indagações. Comumente, dia ou outro, essa questão me invade, porém nunca chego a uma conclusão. É saudável tê-la voejando na mente porque a cada momento da vida um sentido nos orienta. Todavia existe uma finalidade maior e vamos nos esforçando para interpretá-la ao longo das experiências. Não vou me espantar se terminar a vida sem conseguir chegar a uma proposição exata.

No meio de tantos pensamentos, inclusive desencontrados, até porque as questões mais robustas nos fazem ter redemoinhos de ideias, o conto de Jorge Luis Borges, escritor, ensaísta e poeta argentino (1899-1986), “O Aleph”, embala meus pensamentos. Nas mãos de um mestre da literatura, a história descreve o encontro do protagonista com o Aleph, que é a primeira letra do alfabeto hebraico. O conto tem tamanha profundidade que certamente vou precisar relê-lo mais vezes para compreender o significado da letra que representa o começo e o fim de tudo, onde estão todos os lugares do planeta vistos por todos os ângulos, onde tudo se junta e não se confunde. O Aleph é um dos pontos do espaço que contém os outros pontos e que reúne as fontes de luz. É o símbolo dos números infinitos, em que o todo não é maior que uma das partes.

Ao perceber o Aleph num porão de uma casa que seria demolida, Borges vê claramente todos os pontos do universo, o mar, a alvorada, as multidões, uma teia de aranha, olhos, espelhos, ruas, casa, vapor de água, jardins, grão de areia, pessoas, mulheres, as gavetas da sua escrivaninha, as formigas, os exércitos, as sombras de algumas samambaias, a circulação do próprio sangue, a engrenagem do amor, a transformação da morte. Ao ver a multiplicidade e a unidade da vida, ele chora.  Ao retornar à rua, nada mais o impressiona.

Através do conto, apenas consigo sentir meus esforços para perceber a minha interação com a energia de todas as coisas, quando eu possa me encontrar com Deus. A vida de cada um de nós é única, plural e vai se realizando a cada momento através da força que emerge de nossos corpos, da capacidade de liderar o próprio caminhar em todo seu modo e sentido.

Assim quero, em 2025, conceder-me a disponibilidade para antever a revelação da vida em seus ínfimos detalhes. Não pretendo me apiedar nem me intimidar, mas ter serenidade para tirar conclusões e constatar que cada vida não é casual e que sou o centro da minha história; que vou continuar a construí-la em algum ponto do universo, onde vou receber forças e doar minha energia ao universo; que as minhas palavras vão se misturar com as de todos os seres.

Possivelmente, 2025 será um ano desafiador. Só espero poder vislumbrar o meu melhor senso de ser gente.

É o que desejo a todos! 

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Nova Friburgo e a beleza do Natal

terça-feira, 24 de dezembro de 2024
por Jornal A Voz da Serra

A arte abraça o Natal com luzes, enfeites, árvores e presépios. Mas a grande beleza está por trás dos nossos olhos, na disposição em apreciar o encantamento que embala cada instante natalino.

A literatura, em todos seus estilos, abraça o Natal. Poesias, contos, romances, crônicas acenam com palavras a comemoração do nascimento de Jesus. Aqui, nesta coluna, vou brindar a cidade de Nova Friburgo pelo modo como está festejando este tempo religioso com tanta criatividade.

A arte abraça o Natal com luzes, enfeites, árvores e presépios. Mas a grande beleza está por trás dos nossos olhos, na disposição em apreciar o encantamento que embala cada instante natalino.

A literatura, em todos seus estilos, abraça o Natal. Poesias, contos, romances, crônicas acenam com palavras a comemoração do nascimento de Jesus. Aqui, nesta coluna, vou brindar a cidade de Nova Friburgo pelo modo como está festejando este tempo religioso com tanta criatividade.

Ao passear pelas ruas iluminadas com cores brilhantes, senti vontade de passar a noite admirando cada lugar que estivesse cuidadosamente enfeitado, como as Estrelas de Belém em ambas as margens do rio Bengalas. Logo viajei para a infância e me lembrei da casa da minha madrinha, que ornamentava sua casa em todos os Natais. Ela me abraçou suavemente através das recordações, que amenizaram um pouco as saudades que deixou. O Natal guarda ocasiões em que voltamos ao passado para estar com pessoas que fizeram parte das nossas vidas e partiram para o universo.

Faz bem ter alguns momentos durante o ano em que podemos resgatar coisas que o tempo não teve o cuidado de nos preservar. Cada presépio e árvore enfeitada com bolas coloridas e luzes cintilantes nos oferecem a sensação de que todos os nossos sonhos estão ali, nos acenando. Mesmo sendo apenas uma impressão, é um sentimento que reanima e fortalece. Por isso no Natal queremos consertar os afetos machucados e as relações conturbadas, queremos dar as mãos e trocar sentimentos.

Quem planejou o Natal em Nova Friburgo deveria ter isso em mente; tinha a intenção de dar felicidade a sua gente, oferecendo, a quem anda pelas ruas do centro da cidade, alegria e o desejo de compartilhar emoções. De abraçar.

A Alberto Braune contém um convite aos pais a dar as mãos aos filhos para um simples e afetivo passeio natalino que pode deixar recordações a serem visitadas a qualquer momento da vida.

A beleza do Natal nos permite sonhar com o amanhã, enquanto esperança viva e produtiva para realizar projetos. Viver é mais do que idealizar, é ter ânimo e disposição para enfrentar as situações desafiadoras, superar medos e inseguranças para concretizá-los. 

Que as luzes natalinas que brilham na cidade sejam inspiradoras e encorajadoras para cada cidadão friburguense. Afinal de contas, viver é experimentar um constante porvir!

Feliz Natal!   

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A mais nobre das palavras

terça-feira, 17 de dezembro de 2024
por Jornal A Voz da Serra

O nome é a mais nobre das palavras por traduzir uma identidade, identificar uma personalidade e contar uma história.

Ao fazer literatura, experimentamos situações que emergem do quotidiano, as quais passam despercebidas por serem comuns. E não são! São as mais importantes, mas não a consideramos desta forma sempre que lidamos com ela. O nome. Mesmo possuindo valor inestimável, quantas vezes alguém pergunta meu nome e eu respondo até sem pensar: Tereza. Em quantas situações não considerei, como deveria, o valor do meu nome para minha história de vida? E o de outras pessoas?

O nome é a mais nobre das palavras por traduzir uma identidade, identificar uma personalidade e contar uma história.

Ao fazer literatura, experimentamos situações que emergem do quotidiano, as quais passam despercebidas por serem comuns. E não são! São as mais importantes, mas não a consideramos desta forma sempre que lidamos com ela. O nome. Mesmo possuindo valor inestimável, quantas vezes alguém pergunta meu nome e eu respondo até sem pensar: Tereza. Em quantas situações não considerei, como deveria, o valor do meu nome para minha história de vida? E o de outras pessoas?

Quando comecei a escrever “Um cão cheio de ideias”, os personagens foram surgindo durante a construção da história e, repentinamente, como se uma campainha soasse, reconheci a necessidade de nomeá-los. Não foi uma tarefa fácil posto que tinha de encontrar um nome que representasse cada um deles. Veio a mim um forte argumento: sem nome, cada um deles poderia ser um tal, um qualquer ou um ninguém. Como todos tinham uma identidade definida, não poderiam ser reconhecidos como aquele lá. A partir de então, quando vou criar uma história, declaro o nome do protagonista na primeira linha e o dos personagens tão logo surgem no enredo.

O nome é a palavra que vai além da imagem, já que descreve um significado que expressa o que a pessoa é, bem como o que os outros gostariam que fosse. Recebemos um nome ao nascer que podemos considerá-lo como um marco inicial da construção de nossa identidade. Ao dar um nome a um filho, os pais nele colocam afetos, desejos e esperanças. Vivemos em um mundo feito de sentidos. Construímos significados nas relações em que vivemos, o qual sempre é identificado pelo nome.

Quando somos nomeados temos um pretexto para ser alguém que se refere ao nome que recebemos: “Tu és!” A questão é que nem sempre queremos o nome que recebemos porque, ao nos nomearmos, não engrandecemos a pessoa que somos como gostaríamos: “Eu sou!” Todavia, o nome que recebemos na certidão de nascimento delineia um direito a uma personalidade protegida pelo código civil. É a marca que vai nos acompanhar ao longo da vida.

O mesmo acontece com os personagens que foram definidos pelo autor e ganharam eternidade, como Jean Valjean, Dom Quixote e Hamlet, que se tornaram referências pelas suas qualidades e, até hoje, nos oferecem parâmetros de avaliação.

As pessoas, dia a dia, vão desenvolvendo a própria identidade fundamentada no nome, da mesma forma os personagens são construídos a partir do nome que recebem do autor. A cada etapa da história, que seja vivida ou narrada, o nome vai ganhando valor pela sua representatividade decorrente dos registros que a pessoa e o personagem vão deixando nos contextos em que estão inseridos.

A força do nome é dinâmica e vai se transformando, daí a importância de cuidar da palavra que nos nomeia. É a dialética fundamental que nos faz ser o que somos a todos os instantes: pensamento, palavra e ação. 

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Naquele instante

terça-feira, 10 de dezembro de 2024
por Jornal A Voz da Serra

— o segredo —

— o segredo —

Os versos de Cecília Meireles, que compõem o poema “Motivo“ (Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa...)” expressam o que quero dizer nesta coluna. Houve um instante em que senti que havia me tornado escritora. Foi numa brevidade, não mais que um momento de passagem, como tantos outros que vivemos, em que as transformações se efetivam. Aconteceu numa tarde de quarta-feira, durante a oficina literária da qual participava, quando me esforçava para aprender a escrever literatura, tarefa árdua e delicada em que o emprego das palavras envolve tarefas desafiadoras. Durante um exercício corriqueiro as enfrentei e ganhei como prêmio uma constatação, que guardei como segredo: superei os primeiros níveis de aprendizagem.

Vou trazer o texto aqui para compartilhar com os leitores a experiência. Quem sabe alguém possa estar vivendo situação parecida e...

Neste instante tenho que adotar um objeto sobre o qual terei de escrever. Adotar, quero dizer que vou trazer algo para dentro de mim e que está distante. Será? Algo que meu olhar possa tocar e me faça sensibilizar. Estou cercada de tantos “algos”: livros, enfeites, claridade do sol, vozes. Só preciso adotar um mínimo pedaço dentro deste tudo; gostar, observá-lo e nele buscar inspiração. De repente, o som do acordeom subverte meu desejo de ver, me invade e me faz esquecer de tudo à minha volta. A música é um personagem abstrato e intocável de uma peça teatral, que convida o espectador a compô-lo com os demais elementos das cenas. A música tem riqueza de significados que são interpretados particularmente por quem se deixa inebriar. Sou, também, neste instante, adotada pelas notas musicais que me enlevam e me fazem sublimar o ranço quotidiano. Levada pelos sons, sou descortinada e torno-me amante dos acordes. A música me transcende, embala minha franzina existência e encanta meu ralo pensamento com elegância. Sua sonoridade ecoa no ambiente, cujas notas me chegam cheias e intensas, sem pedirem licença para adentrar meu corpo. Sou invadida pela beleza de “Adiós Nonino”, de Astor Piazolla, que compôs um adeus ao seu avô, uma melodia solitária e indivisível, solidária nos vazios da saudade. Tantos outros compositores tocam meus pensamentos ao som das lágrimas dos instrumentos da orquestra que acompanham o acordeom de Piazolla, como a força da composição de O Quebra-Nozes, de Tchaikovsky, que faz vibrar o balé nos palcos dos teatros. A beleza do Concerto de Aranjuez – Adágio, de Juaquín Rodrigo. A maturidade musical de Mozart em seus jovens anos. A cadência lenta e sentimental do Bolero de Ravel, de Maurice Ravel. Ao procurar captar os sentimentos que moveram esses autores a criarem músicas que estarão vivas no infinito universal, entrei em contato com a divindade da arte que surgiu nas células dos seus criadores como um óleo que umedece os sentidos, que seduz os fios da alma e empodera a inventividade única de cada ser. Ao se inspirarem, eles conseguiram escutar os sons que exalam de todas as formas e expressões do amor. E, neste instante, sinto uma voz ecoar das minhas entranhas. É a minha voz narrativa.”

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A sabedoria e a beleza das letras de músicas brasileiras

terça-feira, 03 de dezembro de 2024
por Jornal A Voz da Serra

Tenho um grupo de amigas desde os primeiros anos de colégio com o qual compartilho, até hoje, uma bela amizade. Semana passada, delas recebi uma mensagem em que algumas letras de músicas eram recitadas e poderiam ser aplicadas a momentos especiais, como a exaltação da amizade, do amor e da saudade. Concluí que as letras continham, além da beleza, a sabedoria simples que pode nos sustentar, esclarecer, estimular. Não é à toa que as pessoas cantarolam músicas, inclusive quando realizam tarefas rotineiras.

Tenho um grupo de amigas desde os primeiros anos de colégio com o qual compartilho, até hoje, uma bela amizade. Semana passada, delas recebi uma mensagem em que algumas letras de músicas eram recitadas e poderiam ser aplicadas a momentos especiais, como a exaltação da amizade, do amor e da saudade. Concluí que as letras continham, além da beleza, a sabedoria simples que pode nos sustentar, esclarecer, estimular. Não é à toa que as pessoas cantarolam músicas, inclusive quando realizam tarefas rotineiras. Ao mesmo tempo em que melodias preenchem o quotidiano, dando graça, ocupando os vazios e distraindo, suas letras fazem pensar.

O brasileiro é um povo miscigenado, romântico e expressa na música sua diversidade posto que seus sentimentos, esperanças e tristezas não cabem no limite de suas emoções e explodem através da arte. Os autores escrevem as letras com poesia para revelar o encantamento que sentem pelas diversas formas de amor, pelo modo corajoso com que a vida é enfrentada, além de exprimir o gargalhar, as lágrimas correndo pelas faces e os sonhos que buscam melhores oportunidades para a aventura diária.

Vou trazer alguns versos que gostaria de colar nas paredes da minha casa, nos postes da cidade, nas curvas das estradas para evidenciar valores que todos nós deveríamos preservar.

 

Pra você guardei o amor

Que aprendi vendo os meus pais

O amor que tive e recebi

E hoje posso dar livre e feliz

Nando Reis, “Pra você guardei o amor”

 

E o que me importa é não estar vencido

Minha vida, meus mortos, meu sangue latino, meus caminhos tortos

 João Ricardo e Paulinho Mendonça, “Sangue Latino”

 

Devia ter amado mais

Ter chorado mais

Ter visto o sol nascer

Devia ter arriscado mais

E até errado mais

Ter feito o que queria fazer

Queria ter aceitado

As pessoas como elas são

Cada um sabe a alegria

E a dor que traz no coração

Sérgio Britto, “Epitáfio”     

 

A paz invadiu meu coração

De repente me encheu de paz

Como se o vento de um tufão

Arrancasse meus pés do chão

Gilberto Gil, “A paz”

 

Deixa a vida me levar (vida, leva eu)

Sou feliz e agradeço por tudo o que Deus me deu

Serginho Meriti, “Deixa a vida me levar”

 

Coração de estudante

Há de se cuidar da vida

Há de se cuidar do mundo

Wagner Tiso e Milton Nascimento, “Coração de estudante”

 

Se preenchesse páginas e páginas com versos de músicas, declamaria a vida por inteiro e descortinaria os desafios do viver. A música é a amiga que nos conforta, fala com naturalidade e torna as situações mais fáceis.

Se todos fossem iguais a você

Que maravilha viver

 Jobim e Vinicius de Moraes, “Se todos fossem iguais a você”. 

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