Blog de terezamalcher_17966

Tempo de Natal

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Às vésperas de Natal, resolvi passear sobre poemas natalinos a fim de captar mensagens, querendo experimentar esse tempo enriquecido pelos versos dos poetas que admiro. As minhas palavras expressam certas tristezas e fogem um pouco do clima festivo posto que emergem de um canto da minha alma que sente o mundo carente de bondades.  Vou começar por Manuel Bandeira (1886-1968) com uma estrofe do poema “Canto de Natal”:

“O nosso menino

Nasceu em Belém

Nasceu tão-somente

Para fazer o bem.”

 

Às vésperas de Natal, resolvi passear sobre poemas natalinos a fim de captar mensagens, querendo experimentar esse tempo enriquecido pelos versos dos poetas que admiro. As minhas palavras expressam certas tristezas e fogem um pouco do clima festivo posto que emergem de um canto da minha alma que sente o mundo carente de bondades.  Vou começar por Manuel Bandeira (1886-1968) com uma estrofe do poema “Canto de Natal”:

“O nosso menino

Nasceu em Belém

Nasceu tão-somente

Para fazer o bem.”

 

A história da nossa civilização é traçada por modos de pensar que ferem o respeito à vida e à cultura dos povos. O mesmo acontece com histórias de famílias, grupos de trabalho e comunidades. Nestas datas tanto se deseja a paz! A paz não é mais do que uma esperança que reina em nosso imaginário, como uma luz universal que nos faz mover para realizar desejos, que, até de maneira inconsciente, colocam a paz como finalidade última. Então, minhas reflexões me fazem aportar em ”Poema de Natal”, de Vinícius de Moraes.

“Pois para isso fomos feitos:

Para a esperança no milagre

Para a participação da poesia

Para ver a face da morte –

De repente nunca mais esperaremos...

Hoje à noite é jovem; da morte apenas

Nascemos, intensamente.

 

Para a cultura cristã, o Natal faz parte da vida e expressa um momento de nascimento, ou melhor, de renascimento. O trajeto que os destinos percorrem é desafiador e exaustivo em que a esperança é a estrela-guia, um símbolo que brilha no meio do caos. Tal qual é a poesia que busca a beleza das palavras para interpretar os fatos da vida. O Natal é o momento em que cada país, cada cidade e  cada um possa olhar para o seu interior, visando reabastecer forças, acalentar dores e perdas e superar vulnerabilidades. Para reencontrar o que é essencial.

Logo agora, depois de colocar o ponto final no parágrafo, os versos de Fernando Pessoa em “Natal” sorriem para mim.

Natal, na Província neva.

Nos lares aconchegados

Um sentimento conserva

Os sentimentos passados

 

Coração, oposto ao mundo

─ Como a família é verdade!

Meu pensamento é profundo,

Estou só e sonho saudade.

 

Como é branca de graça

A paisagem que não sei,

Vista de trás da vidraça

Do lar que nunca terei!”

 

Ah, o Natal! Não é uma convenção nem uma data comercial. Está entre todos os dias do ano em que o sol nasce e se põe. Vinte e quatro horas de encontro com a intimidade e a verdade. Quem já não sentiu ou sente saudade e solidão no Natal mesmo estando cercado de pessoas queridas? E os que tanto olham solitários ou carentes para outras pessoas que brindam o Natal com alegria?

Para terminar, deixo a estrofe do poema “Natal 2011, Cantiga dos Pastores”, de Adélia Prado.

“Que noite bonita é esta

Em que a vida fica mansa,

Em que tudo vira festa

E o mundo inteiro descansa?”

 

E os monges cantam lindas canções para nos iluminar e energizar porque no dia 26 a vida continua mais uma vez. E a gente precisa dos anjos. É tempo de orar por e para eles.

Desejo a todos um dia de encorajamento e renascimento.

Salve o Natal!

Publicidade
TAGS:

A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

Os caminhos do afeto entre gerações

terça-feira, 23 de dezembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Certa vez, numa cerimônia religiosa, escutei que vivemos para aprender a amar. Saber amar é um dos aprendizados mais complexos que existem e um desafio que experimentamos em cada momento do nosso dia a dia. Nas conversas do nosso grupo no Clube Vivências, durante a leitura do livro de Lázaro Ramos, “Na nossa pele”, editado pela Objetiva, em 2025, foi ressaltado que as relações afetivas em que os pais ou aqueles que ocupam estes lugares estabelecem com os filhos influenciam os modos como estes irão se relacionar com os seus próprios filhos.

Certa vez, numa cerimônia religiosa, escutei que vivemos para aprender a amar. Saber amar é um dos aprendizados mais complexos que existem e um desafio que experimentamos em cada momento do nosso dia a dia. Nas conversas do nosso grupo no Clube Vivências, durante a leitura do livro de Lázaro Ramos, “Na nossa pele”, editado pela Objetiva, em 2025, foi ressaltado que as relações afetivas em que os pais ou aqueles que ocupam estes lugares estabelecem com os filhos influenciam os modos como estes irão se relacionar com os seus próprios filhos. O afeto é um fio condutor que liga uma geração a outra.

Aqui não quero falar de modelos que delineiam comportamentos. Mas do sentimento natural que brota nos pais, no sentido de expressar aos filhos o sentimento de amar, a emoção que faz uma pessoa desejar e fazer o bem a outra. No amor, o afeto se direciona ao outro através de gestos e atitudes que acolhem, nos modos de estar presente para compartilhar, cuidar e educar. Na capacidade de percebê-lo em suas qualidades e limitações, bem como em estabelecer relações verdadeiras e de confiança.

Amar é um conceito refletido pela civilização humana desde os seus primórdios. Até hoje tem sido estudado, debatido e conceituado. É como um raio de sol que atinge alguém quando parte da luz é absorvida e outra é refletida. Ou seja, uma parte do amor energiza a pessoa, enquanto a outra é por ela usada para energizar outra. Simples assim.

O amor é um sentimento intenso que transforma os pais e os filhos simultaneamente. Os homens e as mulheres que se tornam pais e mães têm suas identidades modificadas a cada experiência. São grandes influenciadores dos filhos e atuam diretamente na construção de suas identidades. Que seja através do olhar e abraçar, do conversar e brincar, dos modos de ser e viver, eles vão interagindo afetivamente, criando registros vivos na memória de cada um. Vão se influenciar mutuamente nos modos de ser, pensar e de estar na vida. O homem e a mulher não serão os mesmos depois que se tornarem pais.

O amor é o elo que une as gerações através de relações afetivas, contínuas e dinâmicas, em que histórias de vida são contadas, as culturas familiar, comunitária e social são transmitidas e internalizadas, os hábitos e modos de viver são apreendidos. Um dos meios que faz com que a coesão histórica e social se estabeleça ao longo do tempo é através das relações de amor entre pais e filhos.

Não há regras para os pais experimentarem laços de amor com seus filhos. Cada um é cada um. Contudo é um desafio vivenciá-los posto ser delicado compartilhar a intimidade. Sim. Acredito que seja difícil lidar com a diferença; pais e filhos são diferentes entre si em vários aspectos, como nos hábitos, vontades e nos projetos de vida, principalmente quando a idade dos pais avança e os filhos chegam na adolescência ou adultez. É um amor que exige diversas formas de resiliência, dedicação e doação.

E os filhos, por sua vez, não retribuirão aos pais exatamente o que receberam, mas darão aos seus filhos; vão amá-los não do mesmo jeito, mas com a mesma profundidade. É uma doação contínua, que vai passando de geração a geração. É um processo em que os modos de amar possuem possibilidades de amadurecimento por mais que os caminhos percorridos se mostrem tortuosos. A grande beleza dessa relação é quando o amor ilumina, respeita a liberdade de ser, dá limites saudáveis e aponta para conquistas que engrandeçam a humanidade existente em cada um.

Quantos pais passam a vida aprendendo a amar seus filhos?

Quantos filhos não entendem o amor que recebem dos pais?

Acredito que os pais morrem em paz quando experimentaram a certeza de terem amado seus filhos durante a vida.

Enfim, não são condições financeiras que promovem e reforçam os elos afetivos entre gerações. É a certeza de que os filhos têm do amor que seus pais sentem por eles. 

Publicidade
TAGS:

A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

O dicionário e o colar de pérolas

terça-feira, 16 de dezembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Já escrevi tantas colunas e ainda não falei do meu inseparável amigo, o dicionário. Ah, a nossa Língua Portuguesa é de uma riqueza admirável. Autêntica, romântica e independente, é para o brasileiro um “valor” maior posto que é a sua língua materna e é nela que habita, casa que o faz humano e ser quem é. Brasileiro, inclusive. Falando e ouvindo, lendo e escrevendo, apreende o conhecimento, compartilha a cultura e o mundo se aproxima das suas mãos.

Dominá-la é uma dignidade!

Já escrevi tantas colunas e ainda não falei do meu inseparável amigo, o dicionário. Ah, a nossa Língua Portuguesa é de uma riqueza admirável. Autêntica, romântica e independente, é para o brasileiro um “valor” maior posto que é a sua língua materna e é nela que habita, casa que o faz humano e ser quem é. Brasileiro, inclusive. Falando e ouvindo, lendo e escrevendo, apreende o conhecimento, compartilha a cultura e o mundo se aproxima das suas mãos.

Dominá-la é uma dignidade!

A comunicação verbal e escrita são capacidades que construímos ao longo da vida, começando com a convivência no ambiente familiar, no aprendizado escolar e na leitura de diferentes estilos literários.  Além do mais, nosso pensamento é estruturado em forma de linguagem; a língua explode através do falar como um porta-voz. Pensando, somos capazes de compreender, criticar e, especialmente, construir significados.

“É que para falar dela preciso usar da linguagem dos homens

Que dá personalidade às cousas,

E impõe nome às cousas.”

Fernando Pessoa

A fluência na língua nos possibilita interagir em todas as situações através de uma comunicação clara, precisa e contínua, sem os erros que tanto a prejudicam. Não ficamos restritos a espaços, nem com problemas guardados nos bolsos. Ninguém pode se esquecer de que a nossa língua é a de Camões, Guimarães Rosa, Monteiro Lobato, Clarice Lispector e de tantos escritores que souberam usá-la com genialidade e arte. Ultrapassaram o tempo. Em que época os versos de Vinícius serão obsoletos?

Então, meu amigo leitor, o dicionário ganha destaque nesta análise como um recurso capaz de oferecer excelentes benefícios ao uso da língua.  As palavras, na maioria das vezes, possuem significados diversos, que podemos não os conhecer ou os compreender com maior abrangência. O cidadão precisa da língua para se fazer entender através das palavras com que expõem ideias e sentimentos. O seu domínio aprimora o vocabulário, estimula as atividades mentais, possibilita a compreensão dos fatos e fundamenta a construção das identidades individual, familiar, cultural e profissional, a cada etapa da vida. Nosso destino é traduzido e compreendido por meio das palavras, o quotidiano se realiza através da interação verbal entre as pessoas, o sujeito se define pelas palavras que pensa, ouve, lê e fala.

Além do que as definições, os sinônimos e antônimos que o dicionário oferece enriquecem a produção textual e a expressão oral, como também possibilitam que outras ideias sejam exploradas, pensadas e repensadas. Toda palavra pode ter diferentes aplicações práticas quando está contextualizada em uma frase, sendo que cada frase compõe um parágrafo, que, por sua vez, faz parte da estrutura de um texto. A exposição de ideias faladas ou escritas exige coerência e continuidade. Ou seja, as palavras devem estar encadeadas como as pérolas num colar. E como são lindas quando essas pérolas estão harmoniosas.

O emprego da ortografia correta é essencial para a clareza e preservação da língua escrita e falada, o que permite que as ideias sejam apresentadas de modo eficiente, garantindo a compreensão mútua. Quando se escreve errado e fala-se errado, um erro vai puxando o outro, e as ideias podem ficar confusas e se perderem num discurso ou texto difícil de ser compreendido. Quem fala, fala para o outro e não para si mesmo, num discurso isolado.

O dicionário também informa a classe gramatical das palavras, cujo domínio favorece a compreensão de toda e qualquer expressão escrita e falada, evitando ambiguidades. O seu entendimento é essencial para a interpretação de textos, seja em leituras quotidianas e prazerosas, seja em estudos e textos informativos.

Hoje, estamos tão acostumados com gírias, abreviações e a busca de textos rápidos ao passo que as leituras enriquecedoras têm sido evitadas. Consequentemente, o vocabulário se reduz a palavras genéricas e a expressões repetitivas seja por falta de interesse ou mesmo preguiça em buscar expressões alternativas. Ou ainda pior, por modismo e para não se expressar de modo diferente.

O uso do dicionário é um hábito que se desenvolve e consolida na medida em que se reconhece que o domínio da língua é o nosso grande suporte para a sobrevivência, conquista dos sonhos e construção do nosso quotidiano. Valoriza-se o sapato da vitrine, o carro da esquina e a viagem de férias.  Será que o brasileiro tem ciência do valor da Língua Portuguesa para sua vida?

Publicidade
TAGS:

A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

Reflexões sobre a generosidade, o amor e a educação

terça-feira, 09 de dezembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

O livro “A árvore generosa”, de Shel Silverstein (1930 – 1999), publicado pela primeira vez em 1964, pela editora Haper & Row, nos Estados Unidos e no Brasil, em 2006, pela Cosacnaif, e em 2017, pela Companhia das Letrinhas, é um clássico da literatura infantil que nos motiva a fazer reflexões sobre a relação dos pais, parentes, professores e outros adultos envolvidos afetivamente com a criança.

O livro “A árvore generosa”, de Shel Silverstein (1930 – 1999), publicado pela primeira vez em 1964, pela editora Haper & Row, nos Estados Unidos e no Brasil, em 2006, pela Cosacnaif, e em 2017, pela Companhia das Letrinhas, é um clássico da literatura infantil que nos motiva a fazer reflexões sobre a relação dos pais, parentes, professores e outros adultos envolvidos afetivamente com a criança.

Silverstein foi poeta, compositor, músico, cartunista e autor de livros para crianças. “A árvore generosa” se tornou um clássico da literatura mundial por abordar um tema sobre a essência dos relacionamentos humanos: o amor e a generosidade. O texto conta a história da relação entre uma árvore e um menino. Quando pequeno, o menino tinha prazer em descansar à sombra da árvore, brincar com seus galhos e comer seus frutos. E a árvore, afetuosa e muito apegada a ele, fazia-lhe todas as vontades. Com o tempo e na medida em que ia crescendo, o menino passou a fazer mais e mais exigências à árvore, pedindo seus frutos para vendê-los e ganhar dinheiro, cortar os galhos para construir uma casa, usar seu tronco para fazer um barco para viajar e assim por diante. A árvore foi cedendo e cedendo, deixando-se cortar, até ser reduzida a um toco, renunciando à própria vida.

Por amor e generosidade pode se fazer tudo pelo outro até porque ambas as virtudes estão relacionadas e se alimentam mutuamente. Quem ama genuinamente deseja o melhor e faz o bem a quem ama, fica na arquibancada, torcendo para que nada de mal aconteça. O amor é expresso através de vínculos afetivos que envolvem presença, convivência, respeito, carinho, cuidado, carinho dentre atitudes em que uma pessoa transfere para a outra afeto e apoio emocional, como também objetos e bens materiais. Doa-se.

Quem o faz para somente cumprir obrigações não ama. Estar junto significa estar presente e não ao lado. O professor tem um olhar atento a cada aluno, conhece-o, sabe o que fazer para ensinar conteúdos e valores. Quem ama vê, percebe e enriquece. O amor é praticado, não falado. A generosidade não exige recompensas. Quem é generoso sabe dividir seu tempo, recursos e atenção. O amor e a generosidade são profundas virtudes e expressam o maior talento humano através das relações afetivas, familiares, sociais e profissionais.

A criança precisa de amor para crescer e tornar-se um adulto pronto a enfrentar a vida. Portanto, posso afirmar que a educação é um processo alicerçado nessas talentosas virtudes, na postura responsável para oferecer condições saudáveis de acolhimento, aprendizagem e convivência.  

Como tudo na vida, os limites precisam ser respeitados para garantir a saúde do relacionamento e o bem-estar individual. Por tanto amar, a pessoa pode se sacrificar em suas necessidades, desejos e até em sua identidade, colocando-se, inclusive, em último lugar para atender ao outro como fez a árvore.

Shel Silverstein foi claro, lúdico e objetivo nas frases que compôs e nos desenhos que criou para mostrar o egoísmo, a exploração do outro e a ingratidão como algumas das consequências que a generosidade sem limites pode causar. Além de limitar as possibilidades de crescimento dos potenciais existentes em alguém.

A generosidade ilimitada tende a criar monstros!

O texto com as ilustrações pode ser facilmente encontrado na internet (Google). Vale a pena ler e refletir. Para se conquistar a felicidade é preciso aprender a dizer e a escutar o não com inteligência, amor e sensatez!

Publicidade
TAGS:

A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

O primeiro amor

terça-feira, 02 de dezembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Noutro dia, falando a respeito do primeiro amor, uma questão rondou a conversa: será que o primeiro amor, hoje, possui o mesmo encantamento, pureza e intensidade do que em tempos passados? É uma questão a observar.

Noutro dia, falando a respeito do primeiro amor, uma questão rondou a conversa: será que o primeiro amor, hoje, possui o mesmo encantamento, pureza e intensidade do que em tempos passados? É uma questão a observar.

Busquei leituras que abordassem o tema. Escolhi dois contos: um clássico russo e um atual, brasileiro. O clássico é do escritor russo, Ivan Turguêniev. “O Primeiro Amor”, uma obra de ficção respeitada, envolvente e impactante, publicada em 1860, narra o despertar do amor de um jovem de 16 anos por sua vizinha mais velha. O autor retrata a riqueza das emoções, expondo com maestria os sentimentos do protagonista, Wladimir Petrovich. 

Já o conto brasileiro é “Meu primeiro amor”, de Alana Dornelas, uma história comovente mostra a coragem de amar de dois adolescentes, Lucas e Marina, que precisam lidar com conflitos relacionados à escolha dos caminhos futuros, incompatíveis com o relacionamento amoroso.

Em todos os tempos, o primeiro amor acontece naturalmente e é inesquecível. De um modo geral, a flecha do cupido adentra o coração em plena adolescência quando ele e ela estão experimentando o turbilhão de transformações biológicas, psicológicas e sociais simultâneas e reconstruindo a identidade individual não mais como criança, mas como pessoa em processo de adultez. A sexualidade desponta intensamente, fortalecendo os elos afetivos. Mergulhado em universos cheios de mistérios, descobertas e fantasias, o primeiro amor não é banal; a vida ganha novas cores, contornos e vibrações. Não há receitas para experimentar esse momento, que enleva e provoca um dos mais fortes sentimentos no adolescente, deixando marcas, influenciando, inclusive, os futuros modos de amar, mesmo se o primeiro amor se estabelecer ao longo da vida.

O primeiro amor acontece naturalmente. Não é imposto. Simplesmente surge num entardecer, numa visita ou num acaso, podendo ser recordado em detalhes. Os momentos que seguem podem ser surpreendentes e desconcertantes, fazer o coração palpitar e o sangue fermentar nas veias. O desejo de estar junto é crescente, deixando os amados suspirosos e invadidos por fantasias. Se correspondido ou não, o primeiro amor tanto pode caber em todas as páginas de um livro, como resumido em uma folha de papel.  Em todos os casos, sempre é único.

A figura da pessoa amada é um espetáculo que faz o amado ficar em estado de êxtase. É uma imagem para se ver e tocar, admirar e sonhar. Os modos de olhar para o ser adorado ganham um brilho especial, até do semblante evaporam os ares da paixão. Para o adolescente, é um momento de vida que pode ser experimentado com grandes alegrias e dores. As lágrimas e os risos são abundantes. Momentos em que o imaginário e a realidade se mesclam em uma dinâmica furta-cor; a imaginação conduz as ações e estas oferecem subsídios à fantasia.

O primeiro amor jamais prescinde de beijos suaves e delicados, fortes e intensos. O toque das mãos e dos lábios, o abraço e o carinho, as conversas bobas e os planos para o futuro alimentam o clima de paixão, cheios de purpurina, confetes e explosões. É possível, pelo amor, caminhar sobre brasas, comer panqueca de pimenta no café da manhã e fazer serenata embaixo da janela em noites chuvosas.

 Hoje, os jovens, têm acesso às redes sociais carregadas de estímulos e informações sobre a sexualidade, conceitos pouco éticos, liberdade para vivenciar relacionamentos amorosos. Como podem, então, experimentar o primeiro amor? Ou melhor, qual o espaço que esse fato, carregado de nuances, brilho e histórias, tem para despontar e eclodir?

Aproveitando as palavras de Vinicius de Moraes ao tema, me arrisco a escrever: quem ama quer ir além da beleza, quer encontrar no outro algo a mais que faça sentir saudades, torne a alma desejante do amor de quem ama. Sente-se estimulado a compartilhar alegrias e entristecimentos, a ouvir histórias e contar segredos. É ter alguém por quem tenha motivos para construir a própria vida.

Coincidentemente, hoje, ao atravessar a Praça Getúlio Vargas, vi um casal que se beijava longamente, dando a impressão a quem passava, de estarem tomados por sentimentos profundos de amor. Ofereciam à cidade uma imagem bonita que valia a pena admirar.

Publicidade
TAGS:

A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

A flor amarela

terça-feira, 25 de novembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Hoje, escrever um conto de memória, inspirada em um momento que vivenciei, aparentemente banal, mas que me tocou. Quando situações assim acontecem, é importante que pensemos a respeito, quer falando ou escrevendo, até mesmo sonhando posto que podemos nos rever para melhorar a pessoa que somos. Acredito que nada o que aconteça seja por acaso; tudo tem sentido. Pena que existem significativos fatos que se diluem no quotidiano e são apagados pelo tempo quando não são registrados.

***

Hoje, escrever um conto de memória, inspirada em um momento que vivenciei, aparentemente banal, mas que me tocou. Quando situações assim acontecem, é importante que pensemos a respeito, quer falando ou escrevendo, até mesmo sonhando posto que podemos nos rever para melhorar a pessoa que somos. Acredito que nada o que aconteça seja por acaso; tudo tem sentido. Pena que existem significativos fatos que se diluem no quotidiano e são apagados pelo tempo quando não são registrados.

***

Cheguei à casa de minha mãe, carregada de expectativas depois de mais de mês sem vê-la, tendo que dar atenção à sua afetuosa e alegre cachorrinha, desfazer a pequena mala e presenteá-la com os queijos que trouxe de uma viagem que fiz à Minas Gerais. Eram novidades a contar e a saber, abraços e beijos a trocar. Um momento para apaziguar as saudades e saldar a vontade que minha mãe tem para viver seus 94 anos. Ela me recebeu com elegância; batom e sombra nos olhos, brinco, colar, pulseira e sapato de salto baixo. 

Entre afetos, um relance foi o suficiente para que eu percebesse uma flor amarela desabrochada num vaso de porcelana em cima da mesa da varanda. Estava soberba e serena na ponta de um galho, amparado por uma pequena madeira para não quebrar. Sem conter a vaidade, a flor dançava ao vento suave, refletindo as vibrações da casa. Quase imperceptível em meio à paisagem da varanda e da vida familiar, era um dos mais belos e sutis milagres da natureza.

Naquele final de tarde, o céu ainda estava azul, cheio de nuvens brancas. Eu, sentindo aquele calorzinho carioca, nem me atentei para a possibilidade de mudança no tempo. O vento veio chegando ao anoitecer, junto com um mormaço crescente. Na sala, a conversa seguia. Eu, volta e meia, em mais um e outro relance, de longe, admirava a flor que se mostrava sem timidez.

O vento se tornou ventania, passando pela varanda com rajadas intermitentes cada vez mais fortes, fazendo balançar os vidros e as plantas, causando ruídos que se misturavam com os da casa. Cansada e com sono, depois de assistir com mamãe a um filme na televisão, me entreguei ao sono. Durante a madrugada, o ciclone extratropical se fez imperador do clima, nos acordando. Fomos à varanda. E... Também num outro relance, vi a flor caída no canto atrás de um vaso. Com as mãos em concha, peguei-a tomada pelo dó, fazendo a tristeza me adentrar com a mesma ferocidade da ventania. Considerando o quanto ela tinha lutado para sobreviver, comecei, então, a me perguntar por que não tirei o vaso da varanda assim que o vento chegou. Peguei o vaso, coloquei num lugar protegido na sala e ajeitei o galho para que não quebrasse. Por sorte e para meu alívio vi um tímido broto despontando junto das folhas.

Passei o resto do dia me perguntando os motivos pelos quais não a protegi e deixei-a ser arrancada do galho e morrer no canto da varanda. O que pode existir dentro de mim que me faz, às vezes, não tomar providências que possam proteger o que gosto e admiro. A flor amarela morreu abandonada às intempéries da natureza.

De certo, nos acostumamos a tornar banais situações que de fato não são. Se cuidasse da flor, teria sentido paz e orgulho de mim. Mas a minha passividade me violentou e me fez sentir irresponsável. Triste. Com sentimentos desamparados tal qual deixei a flor amarela ficar.

Ao longo do dia perguntas iam e vinham deixando a tristeza culposa me rondar. Até que uma questão se achegou e me fez parar: o que é felicidade. A flor estava tão bela e feliz, e eu também a admirava com satisfação. Mas, de repente, ela se desprendeu tragicamente do galho e morreu. Se a vida pode mudar numa fração de segundos, transformando a alegria em dor, o que é felicidade?! Será um conceito que descreve um estado de encantamento, enlevando o espírito a um estado de sublimação, mas que torna invisível as dificuldades e limites presentes na vida?

Muitos pensadores consideram que o bem-estar emocional pressupõe a aceitação da realidade como ponto de partida para a superação de limites ou dificuldades. Eis que a flor me mostrou que olhar para o outro em toda sua felicidade não é suficiente para preservá-lo.

E a flor foi uma linda guerreira mais feliz do que eu.

Publicidade
TAGS:

A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

Começar um livro pelas últimas páginas?!

terça-feira, 18 de novembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Será possível isto acontecer?! Pois é. Aconteceu comigo durante muitos anos. A minha avó Carmem era tradutora de romances de bolso da Editora Bruguera, fundada em 1910, e que hoje não existe mais. Vovó tinha uma coleção desses romances, e eu, já entrando na adolescência, os lia com frequência quando estava em sua casa, posto que as histórias alimentavam meus sonhos ingênuos e apaixonados*. Porém quando os conflitos surgiam na trama, eu buscava as duas últimas páginas para saber se a história teria um final feliz. Com o tempo, antes mesmo de começar a ler, eu abria o livro no final.

Será possível isto acontecer?! Pois é. Aconteceu comigo durante muitos anos. A minha avó Carmem era tradutora de romances de bolso da Editora Bruguera, fundada em 1910, e que hoje não existe mais. Vovó tinha uma coleção desses romances, e eu, já entrando na adolescência, os lia com frequência quando estava em sua casa, posto que as histórias alimentavam meus sonhos ingênuos e apaixonados*. Porém quando os conflitos surgiam na trama, eu buscava as duas últimas páginas para saber se a história teria um final feliz. Com o tempo, antes mesmo de começar a ler, eu abria o livro no final. Se o final não me enternecesse, eu deixava o livro de lado e procurava outro. Agora, narrando esse fato inusitado, me dou conta que aquele jeito de começar a ler favoreceu a construção e o desenvolvimento do meu hábito de ler e gosto pela leitura.

No Clube de Leitura Vivências, lendo o livro de Lázaro Ramos, “Na nossa pele”, lançado pela Objetiva, ele aborda uma situação similar. Ao ler em voz alta para sua mãe acamada, descobriu que ela gostava de saber logo o final pelas mesmas razões que as minhas.

Aí, meus amigos leitores, fiquei com a pergunta; “por que eu não queria ler uma história que terminasse com tristezas?”. De fato, quando assisto a um filme ou leio uma história que não acaba bem, não gosto. Guardei esse sentimento ao longo da vida sem ter me dado conta da maneira como encaro a tristeza, a perda e a maldade.  Enfim, tudo o que caminha para o infortúnio eu tento me afastar. É uma dificuldade que trago no meu íntimo. E, confesso, me prejudica!

Logicamente, é possível começar a ler conhecendo o final; hábito, que acredito ser mais comum do que se possa imaginar. Sabendo que a história vai acabar bem, é um modo de garantir, durante a leitura, a tranquilidade de passar pelos conflitos e dores dos personagens, o que não deixa de permitir que o leitor aproveite melhor os fatos sem que sentimentos angustiantes dominem a leitura. Afinal de contas, a leitura tem de ser prazerosa, um dos conceitos básicos da formação do leitor.

Pode até mesmo favorecer que o leitor pule etapas da leitura para evitar aqueles trechos entediantes devido a descrições longas, abordagens de narrativas pouco relevantes. Também nos casos em que o leitor teve que parar de ler por um período e não sinta necessidade de retornar a páginas anteriores.

Quando fazia oficinas literárias de escrita criativa, fui orientada a planejar a história que eu iria criar. No planejamento era importante visualizar o final para saber como iria construir as etapas centrais do enredo. Aliás um dos requisitos principais da produção textual de ficção é a coerência dos fatos. Todo o enredo, do começo ao fim, precisa estar interligado com lógica, clareza e sentido. Nada pode ser incongruente, sem nexo. A não ser que os acontecimentos imprevistos na trama estejam propostos no planejamento. Pode até ocorrer que durante o processo de escrita surja uma situação nova, que vai exigir uma revisão do texto já escrito e do planejamento.

Um romance de ficção atraente ao leitor há de ter um fio condutor causado pela superação de uma situação conflituosa, que normalmente acontece no início da trama e muda a vida dos personagens. O suspense é fundamental para atrair a atenção do leitor, fazendo-o virar as páginas até chegar ao final. Se nada acontece, se a vida deles transcorre na total felicidade e tranquilidade, não há uma história interessante a contar. Os personagens são impedidos de mostrar suas características, seus defeitos e qualidades, suas ações heroicas, pacificadoras ou resilientes, maldosas ou pérfidas.

Se a literatura espelha a vida, e a vida não poupa ninguém, temos que lidar com as dificuldades, com as finalizações tristes ou trágicas.  Não buscar as últimas páginas antes de ler as primeiras é um amadurecimento da postura de enfrentamento das situações de vida.

A literatura salva!

  • Há sessenta anos, as meninas eram sonhadoras. Não havia celular, a televisão era em preto e branco e, ainda, existiam as novelas de rádio, quando as pessoas se reuniam para escutá-las. Era comum os adolescentes guardarem amores platônicos, e o beijo ser um sonho guardado com fitas de cetim.
Publicidade
TAGS:

A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

A música e a lei de causa e efeito

terça-feira, 11 de novembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Há pouco tempo acabamos de ler, no Clube de Leitura Vivências, o livro “Véspera”, de Carla Madeira, editado pela Record. É uma história desencadeada por um acontecimento trágico como consequência da história de vida de uma família. Escrito com maestria, a autora vai tecendo os fatos com minúcias, compondo cuidadosamente as causas de uma situação crítica e criminosa.

Há pouco tempo acabamos de ler, no Clube de Leitura Vivências, o livro “Véspera”, de Carla Madeira, editado pela Record. É uma história desencadeada por um acontecimento trágico como consequência da história de vida de uma família. Escrito com maestria, a autora vai tecendo os fatos com minúcias, compondo cuidadosamente as causas de uma situação crítica e criminosa.

Acredito que a obra tenha sido uma história de ficção planejada, certamente inspirada em fatos, que, quando acontecem marcam a história dos bairros, cidades, famílias e de pessoas. Ao longo da leitura e dos debates que o texto provocava, comecei a pensar na lei universal de causa e efeito: toda ação (causa) gera uma reação (efeito) correspondente. Segundo seus princípios não existem acidentes, mas decisões pessoais e ações consequentes que interferem na vida e na sequência do destino.

A lei de causa e efeito é descrita em várias religiões, como o budismo e o espiritismo. Em filosofias, como na hermética, baseada nos ensinamentos de Hermes Trismegisto, que busca o conhecimento das forças cósmicas e mentais, e descreve que tudo o que acontece tem uma causa, tendo o acaso leis desconhecidas. É um pensamento que enfatiza a responsabilidade individual nos acontecimentos diários. Como também Aristóteles considerou, ao refletir sobre a existência das coisas, que o efeito é sempre dependente da causa.

O conceito budista a respeito do carma é relevante quando o descreve como consequência da tríade pensamento-palavra-ação. Na medida em que o pensamento é modificado, o carma também ganha outras dimensões. Não é algo que o sujeito esteja submetido ao longo da vida, mas que pode ser modificado a qualquer momento.

Nossa história é feita como uma corrente de elos em que um vai se unindo ao outro e, assim, cada um vai dando prosseguimento ao seu destino. Não nascemos prontos e muito menos vivemos num mundo finalizado. O tempo nos é transitório. Então, surge o poder criativo existente em nós, por mais que sejamos sujeitados. A criatividade resulta da coragem para mudar, propor novos modos de ser, estar e fazer. A lei de causa e efeito exerce uma forte influência sobre o sujeito. É uma força imperiosa, como a gravidade.  Ser criativo requer impedir que o medo e a ansiedade limitem nossas possibilidades, evitar que sentimentos derrotistas acompanhem os novos passos, fazendo crescer a autoconfiança antes mesmo da primeira conquista.

Rollo May (1909 – 1994), psicólogo americano, estudioso em psicologia existencial, considerou que a criatividade surge no encontro da experiência subjetiva do sujeito com a realidade externa em que algo original é idealizado e realizado. Diferente do escapismo, quando a interação entre o sujeito e a realidade é evitada, trazendo o conformismo à cena.

Criar pressupõe, em primeira instância, estabelecer novas relações de causa e efeito. “Véspera” mostra essa dualidade entre os personagens: o conformismo e o enfrentamento da vida, que acaba por desencadear os passos da tragédia, enredados por toda a sorte de sentimentos e comportamentos dos personagens. A obra nos motiva a refletir sobre situações que acontecem no dia a dia, como as expectativas dos pais que cercam dois ou mais filhos com características diferentes

Talvez se os personagens escutassem música que os acolhesse e os fizessem perceber a dureza da vida com criatividade, liberdade e amor, o enredo fosse outro. A rudeza da história indicou a falta de compreensão e como a maldade vai sendo construída em função de sofrimentos que poderiam ser evitados.

Como tantas coisas na vida. Enfim...

“Sem a música, a vida seria um erro.”  (Friedrich Nietzsche)

Publicidade
TAGS:

A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

Cada um é cada um

terça-feira, 04 de novembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Hoje vou visitar o roteiro, texto que, apesar de não ser considerado literário no sentido tradicional, é um texto técnico-criativo criado para fundamentar o desenrolar de um filme através da indicação das cenas, cenário, ação dos personagens e diálogo entre eles. Como também informar os demais elementos presentes nas cenas. O texto literário é um produto finalizado, já o roteiro, mesmo se utilizando da linguagem escrita, é a base da obra cinematográfica. Entretanto há filmes que expressam tamanha sensibilidade, que, a meu ver, são verdadeiras poesias.

Hoje vou visitar o roteiro, texto que, apesar de não ser considerado literário no sentido tradicional, é um texto técnico-criativo criado para fundamentar o desenrolar de um filme através da indicação das cenas, cenário, ação dos personagens e diálogo entre eles. Como também informar os demais elementos presentes nas cenas. O texto literário é um produto finalizado, já o roteiro, mesmo se utilizando da linguagem escrita, é a base da obra cinematográfica. Entretanto há filmes que expressam tamanha sensibilidade, que, a meu ver, são verdadeiras poesias.

Com a morte de Robert Redford, conversando com minha irmã Lygia a respeito dos seus filmes, “Nosso amor de ontem” tomou conta das nossas recordações. Assisti novamente o filme e percebi a relevância de uma das mensagens contidas na história que me fez refletir por ter atualidade.

O filme foi considerado uma das mais belas e tristes histórias de amor do cinema. De fato, os atores, Robert Redford e Barbra Streisand, interpretam com delicadeza ímpar o sentimento que vão desenvolvendo um pelo outro ao longo das cenas. O tema central é o conflituado amor entre um homem e uma mulher diferentes em seus modos de pensar e de viver. Durante a faculdade, Katie, ativista política, conhece Hubbell, um jovem que leva a vida com descontração e aspira ser escritor, e se encantam mutuamente. Desde sempre as diferenças entre eles se tornam dia a dia mais evidentes. Anos mais tarde, eles se reencontram e vivem uma relação de amor intensa, porém o ativismo dela interfere na vida profissional dele como escritor. Eles acabam se afastando, mas não deixam de amar um ao outro.

Novamente, alguns anos depois, eles se encontram. Cada um com sua vida estabelecida e cientes da impossibilidade de reestabelecerem a relação amorosa, mesmo guardando um profundo sentimento de amor, trocam algumas palavras e seguem com suas vidas com novos parceiros. A interpretação deles nos toca na alma e nos trazem emoções fortes.

O filme me trouxe uma indagação essencial: o afeto consegue superar as diferenças nos modos de pensar e viver? É capaz de modificar modos de ser? É interessante observar que o roteiro foi escrito Arthur Laurents, sendo inspirado em sua experiência pessoal, enquanto ativista político nos tempos universitários.

É um tema a ser pensado com seriedade dado que o mundo está vivendo um momento em que as pessoas estão se distanciando e separando por questões políticas. Ou seja, o afeto está sendo colocado em segundo plano.

O que é mais importante?!

Deixo com vocês a letra traduzida da linda música “The way we were”, composta pelo compositor e maestro Marvin Hamlisch e interpretada por Barbra Streisand.

 

As lembranças iluminam os cantos da minha mente

Memórias suaves como aquarela

De como a gente era

Fotos espalhadas dos sorrisos que deixamos para trás

Sorrisos que trocávamos um com o outro

Pelo jeito que a gente era

Será que era tudo tão simples naquela época

Ou o tempo escreveu cada linha?

Se a gente tivesse a chance de viver tudo de novo

Me diga, a gente viveria? A gente conseguiria?

As lembranças podem ser lindas, e ainda assim

O que é doloroso demais para recordar

A gente prefere esquecer

Então é do riso que a gente vai lembrar

De como a gente era

Publicidade
TAGS:

A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

Ora bolas, isso não acontece com qualquer mortal!?

terça-feira, 28 de outubro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

O interessante nesta coluna, por ser um espaço literário, é que me sinto à vontade para compartilhar este momento, um tanto inusitado e angustiante, um quase desabafo: não saber o que escrever! É uma circunstância embaraçosa em que fico um tanto quanto sem graça porque quem vai me ler, quer saber o que vou dizer. Aliás, estamos cercados de expectativas. E quando não temos como atendê-las ficamos assim, procurando um riso escondido num canto qualquer do rosto.

O interessante nesta coluna, por ser um espaço literário, é que me sinto à vontade para compartilhar este momento, um tanto inusitado e angustiante, um quase desabafo: não saber o que escrever! É uma circunstância embaraçosa em que fico um tanto quanto sem graça porque quem vai me ler, quer saber o que vou dizer. Aliás, estamos cercados de expectativas. E quando não temos como atendê-las ficamos assim, procurando um riso escondido num canto qualquer do rosto.

Quando fazia oficinas literárias, li “A louca da casa”, de Rosa Montero, um livro que fala da literatura, dos escritores, do processo criativo, dentre outros temas interessantes a quem se propõe a escrever. Num dos primeiros capítulos, ela relata que certa vez quis começar a escrever de manhã. Entretanto, tão logo abriu o computador, começou a ler mensagens, falou no telefone e fez um turbilhão de coisas, menos o que tinha se proposto. Mas no dia seguinte, ela cumpriu suas metas.

Hoje estou com a esperança de que amanhã me venham ideias boas e possa desenvolver novas colunas. Mas, aproveitando o ensejo, vou falar sobre isso, posto se tratar de uma circunstância comum em nossos dias. É aquele momento em que a gente tem de parar, nem que seja para descansar ou procurar rumos diferentes. Não saber o que fazer é, eventualmente, saudável.

Saí procurando ideias e me deparei com “Romeu e Julieta” de Shakespeare, um dos romances de amor mais conhecidos. Segui para o roteiro do filme “Nosso amor de ontem”, uma belíssima história de amor, encenado por Barbra Streisand e Robert Redford, cuja música “The way we Were” foi ganhadora do Oscar em 1974. Não satisfeita visitei o livro de Anton Tchekhov, “Contos”. As três obras maravilhosas poderiam me oferecer excelentes subsídios ao desenvolvimento de ideias, mas não. Nada me tocou a ponto de me fazer sentar, pesquisar e escrever.

Mergulhada no “noves fora, zero”, parei no meio da escada da minha casa e algo em mim gritou alto: “Tereza, sua mente está em branco reluzente”. Que alívio. Que maravilhoso poder chegar a uma conclusão e me sentir livre para explorar um tema que na verdade não é simples. Difícil é reconhecer que suas ideias resolveram passear por outras bandas. Acho que se me encontrasse com Woody Allen e lhe confessasse a minha situação momentânea, quem sabe ele imaginaria uma história engraçada e sutil.

Quando o que escrevemos é baseado em pesquisas, como na maioria das vezes faço, há facilidades. Mas compor uma narrativa em cima de um tema escorregadio como “o não saber o que escrever” é enfrentar as várias facetas da insegurança, trilhar uma caminhada nada linear, além de permitir que a criatividade e a curiosidade sejam dominantes. Mas que curiosidade? Eis o desafio: descobrir o que existe em minhas vontades de ser autora através da exploração de ideias e questionamentos.

Escrever uma coluna requer uma responsabilidade maior do que se pode imaginar. As palavras têm força, exercem influência, tocam o leitor de diferentes modos. Há sempre uma conexão entre o escritor e o leitor e ambos se modificam nessa interação. É um processo de comunicação informativo, filosófico e afetivo. No entanto, se o escritor não escreve com afeto e o leitor não lê com interesse, o texto se torna frio, distante, podendo se perder dentre tantas leituras. Escrever uma coluna é como escrever uma carta a alguém especial. Sim. Tudo o que fazemos na vida tem que ser baseado em um vínculo de dedicação. E, acima de tudo, a gente deve acreditar no que está pondo no papel ou na tela do computador.

E, aí, sentada numa nuvem reluzentemente branca, estou fazendo uma revisão no meu papel de escritora. Elaborar uma coluna para um jornal, como “A Voz da Serra”, é um modo que tenho de cumprimentar a vida, de encorajar o meu leitor a enfrentar seus desafios diários. Na verdade, há poucos minutos, também eu experimentava essa dificuldade de não saber por onde caminhar para escrever essa coluna. E me parece que estou começando a saber. Vou me soltar mais. Estou experimentando uma maior liberdade de expressão. É prazeroso bater nas teclas do computador com posse total do livre-arbítrio.

Por outro lado, me dou conta, mais uma vez, o quanto meu leitor é importante. Mesmo que eu seja lida por apenas um leitor já é suficiente para me sentir feliz e me encorajar para continuar. É aquela sensação maravilhosa de que o dia seguinte vai existir, a mais forte sensação de confiança que se pode ter.

Porém, é importante saber que o leitor está inserido na realidade concreta e eu não posso criar um texto alternativo. Aqui não é um espaço de ficção. E ele vai compreender e interpretar cada frase do texto que eu decidi expor por aqui. Vai refletir e encontrará satisfação ao abrir a página do jornal virtual ou material. Pronto. Aí se revela o desafio que me deparo sempre quando escrevo a primeira palavra do texto, aquela que desencadeia um processo de avaliação profunda para identificar as implicações de cada decisão que vou tomar na produção textual.

Mas, agora, com alegria de haver assumido o desafio de não saber o que escrever, acabo de compor uma coluna, de me expor ao meu amigo leitor. Aliás, meu bom companheiro das terças-feiras.

Salve!

Publicidade
TAGS:

A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.