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A música e a lei de causa e efeito

terça-feira, 11 de novembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Há pouco tempo acabamos de ler, no Clube de Leitura Vivências, o livro “Véspera”, de Carla Madeira, editado pela Record. É uma história desencadeada por um acontecimento trágico como consequência da história de vida de uma família. Escrito com maestria, a autora vai tecendo os fatos com minúcias, compondo cuidadosamente as causas de uma situação crítica e criminosa.

Há pouco tempo acabamos de ler, no Clube de Leitura Vivências, o livro “Véspera”, de Carla Madeira, editado pela Record. É uma história desencadeada por um acontecimento trágico como consequência da história de vida de uma família. Escrito com maestria, a autora vai tecendo os fatos com minúcias, compondo cuidadosamente as causas de uma situação crítica e criminosa.

Acredito que a obra tenha sido uma história de ficção planejada, certamente inspirada em fatos, que, quando acontecem marcam a história dos bairros, cidades, famílias e de pessoas. Ao longo da leitura e dos debates que o texto provocava, comecei a pensar na lei universal de causa e efeito: toda ação (causa) gera uma reação (efeito) correspondente. Segundo seus princípios não existem acidentes, mas decisões pessoais e ações consequentes que interferem na vida e na sequência do destino.

A lei de causa e efeito é descrita em várias religiões, como o budismo e o espiritismo. Em filosofias, como na hermética, baseada nos ensinamentos de Hermes Trismegisto, que busca o conhecimento das forças cósmicas e mentais, e descreve que tudo o que acontece tem uma causa, tendo o acaso leis desconhecidas. É um pensamento que enfatiza a responsabilidade individual nos acontecimentos diários. Como também Aristóteles considerou, ao refletir sobre a existência das coisas, que o efeito é sempre dependente da causa.

O conceito budista a respeito do carma é relevante quando o descreve como consequência da tríade pensamento-palavra-ação. Na medida em que o pensamento é modificado, o carma também ganha outras dimensões. Não é algo que o sujeito esteja submetido ao longo da vida, mas que pode ser modificado a qualquer momento.

Nossa história é feita como uma corrente de elos em que um vai se unindo ao outro e, assim, cada um vai dando prosseguimento ao seu destino. Não nascemos prontos e muito menos vivemos num mundo finalizado. O tempo nos é transitório. Então, surge o poder criativo existente em nós, por mais que sejamos sujeitados. A criatividade resulta da coragem para mudar, propor novos modos de ser, estar e fazer. A lei de causa e efeito exerce uma forte influência sobre o sujeito. É uma força imperiosa, como a gravidade.  Ser criativo requer impedir que o medo e a ansiedade limitem nossas possibilidades, evitar que sentimentos derrotistas acompanhem os novos passos, fazendo crescer a autoconfiança antes mesmo da primeira conquista.

Rollo May (1909 – 1994), psicólogo americano, estudioso em psicologia existencial, considerou que a criatividade surge no encontro da experiência subjetiva do sujeito com a realidade externa em que algo original é idealizado e realizado. Diferente do escapismo, quando a interação entre o sujeito e a realidade é evitada, trazendo o conformismo à cena.

Criar pressupõe, em primeira instância, estabelecer novas relações de causa e efeito. “Véspera” mostra essa dualidade entre os personagens: o conformismo e o enfrentamento da vida, que acaba por desencadear os passos da tragédia, enredados por toda a sorte de sentimentos e comportamentos dos personagens. A obra nos motiva a refletir sobre situações que acontecem no dia a dia, como as expectativas dos pais que cercam dois ou mais filhos com características diferentes

Talvez se os personagens escutassem música que os acolhesse e os fizessem perceber a dureza da vida com criatividade, liberdade e amor, o enredo fosse outro. A rudeza da história indicou a falta de compreensão e como a maldade vai sendo construída em função de sofrimentos que poderiam ser evitados.

Como tantas coisas na vida. Enfim...

“Sem a música, a vida seria um erro.”  (Friedrich Nietzsche)

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A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

Cada um é cada um

terça-feira, 04 de novembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Hoje vou visitar o roteiro, texto que, apesar de não ser considerado literário no sentido tradicional, é um texto técnico-criativo criado para fundamentar o desenrolar de um filme através da indicação das cenas, cenário, ação dos personagens e diálogo entre eles. Como também informar os demais elementos presentes nas cenas. O texto literário é um produto finalizado, já o roteiro, mesmo se utilizando da linguagem escrita, é a base da obra cinematográfica. Entretanto há filmes que expressam tamanha sensibilidade, que, a meu ver, são verdadeiras poesias.

Hoje vou visitar o roteiro, texto que, apesar de não ser considerado literário no sentido tradicional, é um texto técnico-criativo criado para fundamentar o desenrolar de um filme através da indicação das cenas, cenário, ação dos personagens e diálogo entre eles. Como também informar os demais elementos presentes nas cenas. O texto literário é um produto finalizado, já o roteiro, mesmo se utilizando da linguagem escrita, é a base da obra cinematográfica. Entretanto há filmes que expressam tamanha sensibilidade, que, a meu ver, são verdadeiras poesias.

Com a morte de Robert Redford, conversando com minha irmã Lygia a respeito dos seus filmes, “Nosso amor de ontem” tomou conta das nossas recordações. Assisti novamente o filme e percebi a relevância de uma das mensagens contidas na história que me fez refletir por ter atualidade.

O filme foi considerado uma das mais belas e tristes histórias de amor do cinema. De fato, os atores, Robert Redford e Barbra Streisand, interpretam com delicadeza ímpar o sentimento que vão desenvolvendo um pelo outro ao longo das cenas. O tema central é o conflituado amor entre um homem e uma mulher diferentes em seus modos de pensar e de viver. Durante a faculdade, Katie, ativista política, conhece Hubbell, um jovem que leva a vida com descontração e aspira ser escritor, e se encantam mutuamente. Desde sempre as diferenças entre eles se tornam dia a dia mais evidentes. Anos mais tarde, eles se reencontram e vivem uma relação de amor intensa, porém o ativismo dela interfere na vida profissional dele como escritor. Eles acabam se afastando, mas não deixam de amar um ao outro.

Novamente, alguns anos depois, eles se encontram. Cada um com sua vida estabelecida e cientes da impossibilidade de reestabelecerem a relação amorosa, mesmo guardando um profundo sentimento de amor, trocam algumas palavras e seguem com suas vidas com novos parceiros. A interpretação deles nos toca na alma e nos trazem emoções fortes.

O filme me trouxe uma indagação essencial: o afeto consegue superar as diferenças nos modos de pensar e viver? É capaz de modificar modos de ser? É interessante observar que o roteiro foi escrito Arthur Laurents, sendo inspirado em sua experiência pessoal, enquanto ativista político nos tempos universitários.

É um tema a ser pensado com seriedade dado que o mundo está vivendo um momento em que as pessoas estão se distanciando e separando por questões políticas. Ou seja, o afeto está sendo colocado em segundo plano.

O que é mais importante?!

Deixo com vocês a letra traduzida da linda música “The way we were”, composta pelo compositor e maestro Marvin Hamlisch e interpretada por Barbra Streisand.

 

As lembranças iluminam os cantos da minha mente

Memórias suaves como aquarela

De como a gente era

Fotos espalhadas dos sorrisos que deixamos para trás

Sorrisos que trocávamos um com o outro

Pelo jeito que a gente era

Será que era tudo tão simples naquela época

Ou o tempo escreveu cada linha?

Se a gente tivesse a chance de viver tudo de novo

Me diga, a gente viveria? A gente conseguiria?

As lembranças podem ser lindas, e ainda assim

O que é doloroso demais para recordar

A gente prefere esquecer

Então é do riso que a gente vai lembrar

De como a gente era

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Ora bolas, isso não acontece com qualquer mortal!?

terça-feira, 28 de outubro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

O interessante nesta coluna, por ser um espaço literário, é que me sinto à vontade para compartilhar este momento, um tanto inusitado e angustiante, um quase desabafo: não saber o que escrever! É uma circunstância embaraçosa em que fico um tanto quanto sem graça porque quem vai me ler, quer saber o que vou dizer. Aliás, estamos cercados de expectativas. E quando não temos como atendê-las ficamos assim, procurando um riso escondido num canto qualquer do rosto.

O interessante nesta coluna, por ser um espaço literário, é que me sinto à vontade para compartilhar este momento, um tanto inusitado e angustiante, um quase desabafo: não saber o que escrever! É uma circunstância embaraçosa em que fico um tanto quanto sem graça porque quem vai me ler, quer saber o que vou dizer. Aliás, estamos cercados de expectativas. E quando não temos como atendê-las ficamos assim, procurando um riso escondido num canto qualquer do rosto.

Quando fazia oficinas literárias, li “A louca da casa”, de Rosa Montero, um livro que fala da literatura, dos escritores, do processo criativo, dentre outros temas interessantes a quem se propõe a escrever. Num dos primeiros capítulos, ela relata que certa vez quis começar a escrever de manhã. Entretanto, tão logo abriu o computador, começou a ler mensagens, falou no telefone e fez um turbilhão de coisas, menos o que tinha se proposto. Mas no dia seguinte, ela cumpriu suas metas.

Hoje estou com a esperança de que amanhã me venham ideias boas e possa desenvolver novas colunas. Mas, aproveitando o ensejo, vou falar sobre isso, posto se tratar de uma circunstância comum em nossos dias. É aquele momento em que a gente tem de parar, nem que seja para descansar ou procurar rumos diferentes. Não saber o que fazer é, eventualmente, saudável.

Saí procurando ideias e me deparei com “Romeu e Julieta” de Shakespeare, um dos romances de amor mais conhecidos. Segui para o roteiro do filme “Nosso amor de ontem”, uma belíssima história de amor, encenado por Barbra Streisand e Robert Redford, cuja música “The way we Were” foi ganhadora do Oscar em 1974. Não satisfeita visitei o livro de Anton Tchekhov, “Contos”. As três obras maravilhosas poderiam me oferecer excelentes subsídios ao desenvolvimento de ideias, mas não. Nada me tocou a ponto de me fazer sentar, pesquisar e escrever.

Mergulhada no “noves fora, zero”, parei no meio da escada da minha casa e algo em mim gritou alto: “Tereza, sua mente está em branco reluzente”. Que alívio. Que maravilhoso poder chegar a uma conclusão e me sentir livre para explorar um tema que na verdade não é simples. Difícil é reconhecer que suas ideias resolveram passear por outras bandas. Acho que se me encontrasse com Woody Allen e lhe confessasse a minha situação momentânea, quem sabe ele imaginaria uma história engraçada e sutil.

Quando o que escrevemos é baseado em pesquisas, como na maioria das vezes faço, há facilidades. Mas compor uma narrativa em cima de um tema escorregadio como “o não saber o que escrever” é enfrentar as várias facetas da insegurança, trilhar uma caminhada nada linear, além de permitir que a criatividade e a curiosidade sejam dominantes. Mas que curiosidade? Eis o desafio: descobrir o que existe em minhas vontades de ser autora através da exploração de ideias e questionamentos.

Escrever uma coluna requer uma responsabilidade maior do que se pode imaginar. As palavras têm força, exercem influência, tocam o leitor de diferentes modos. Há sempre uma conexão entre o escritor e o leitor e ambos se modificam nessa interação. É um processo de comunicação informativo, filosófico e afetivo. No entanto, se o escritor não escreve com afeto e o leitor não lê com interesse, o texto se torna frio, distante, podendo se perder dentre tantas leituras. Escrever uma coluna é como escrever uma carta a alguém especial. Sim. Tudo o que fazemos na vida tem que ser baseado em um vínculo de dedicação. E, acima de tudo, a gente deve acreditar no que está pondo no papel ou na tela do computador.

E, aí, sentada numa nuvem reluzentemente branca, estou fazendo uma revisão no meu papel de escritora. Elaborar uma coluna para um jornal, como “A Voz da Serra”, é um modo que tenho de cumprimentar a vida, de encorajar o meu leitor a enfrentar seus desafios diários. Na verdade, há poucos minutos, também eu experimentava essa dificuldade de não saber por onde caminhar para escrever essa coluna. E me parece que estou começando a saber. Vou me soltar mais. Estou experimentando uma maior liberdade de expressão. É prazeroso bater nas teclas do computador com posse total do livre-arbítrio.

Por outro lado, me dou conta, mais uma vez, o quanto meu leitor é importante. Mesmo que eu seja lida por apenas um leitor já é suficiente para me sentir feliz e me encorajar para continuar. É aquela sensação maravilhosa de que o dia seguinte vai existir, a mais forte sensação de confiança que se pode ter.

Porém, é importante saber que o leitor está inserido na realidade concreta e eu não posso criar um texto alternativo. Aqui não é um espaço de ficção. E ele vai compreender e interpretar cada frase do texto que eu decidi expor por aqui. Vai refletir e encontrará satisfação ao abrir a página do jornal virtual ou material. Pronto. Aí se revela o desafio que me deparo sempre quando escrevo a primeira palavra do texto, aquela que desencadeia um processo de avaliação profunda para identificar as implicações de cada decisão que vou tomar na produção textual.

Mas, agora, com alegria de haver assumido o desafio de não saber o que escrever, acabo de compor uma coluna, de me expor ao meu amigo leitor. Aliás, meu bom companheiro das terças-feiras.

Salve!

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A arte e a palavra

terça-feira, 21 de outubro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Interpreto a arte como resultado das emoções que explodem dentro do artista, fugindo de tudo o que nos organiza e que de tão forte chegam a assustar. Quase impossíveis de serem descritas formalmente, são provenientes de percepções quase delirantes, que chegam até a distorcer a realidade. A arte é a expressão exclusivamente individual, definida pelo poeta Ferreira Gullar, “A arte existe porque a vida não basta”. Então, me arrisco a considerar que é a mais autêntica catarse, fruto da inteligência criativa e de talentosas habilidades existentes no ser humano.

Interpreto a arte como resultado das emoções que explodem dentro do artista, fugindo de tudo o que nos organiza e que de tão forte chegam a assustar. Quase impossíveis de serem descritas formalmente, são provenientes de percepções quase delirantes, que chegam até a distorcer a realidade. A arte é a expressão exclusivamente individual, definida pelo poeta Ferreira Gullar, “A arte existe porque a vida não basta”. Então, me arrisco a considerar que é a mais autêntica catarse, fruto da inteligência criativa e de talentosas habilidades existentes no ser humano.

Mas em que local dentro do artista ela surge? Eis uma pergunta que sempre me fiz. Pode até começar no pé; há tantas pinturas, esculturas e fotografias que o mostram, talvez porque seja a parte do corpo que nos possibilita caminhar, vascular os ambientes e lugares para conquistar a vida e suas riquezas.

A arte evoluiu ao longo do tempo, do rupestre à arte digital. Veio de longe, daqueles tempos antigos, como registros dos modos de viver e conceber a vida, do ambiente e da espiritualidade. Dentro dos limitados recursos existentes nos primórdios da humanidade, surgiu através de pinturas e gravuras, gravadas nas rochas. Atualmente são consideradas as seguintes artes que evoluíram com a história e a cultura: artes sonoras (som), cênicas (movimento), pintura (cor), escultura (volume), arquitetura (espaço), literatura (palavra), audiovisuais (audiovisual), fotografia (imagem), história em quadrinhos (cor, palavra, imagem), arte digital (artes gráficas computadorizadas).

Entretanto, aqui, gostaria de ressaltar um fato pouco considerado pelos admiradores das artes: não há expressão artística que prescinda da palavra, dado que o pensamento é expresso através da linguagem.

Segundo Lev Vygotsky, psicólogo russo que apresentou grandes contribuições à educação e à psicologia, é através da palavra que o pensamento se torna mais organizado, lógico e passível de ser comunicado. Mesmo a arte sendo transgressora, se interpretando ou revelando, se construindo ou demolindo, precisa da palavra para se definir. Mesmo na arquitetura e pintura, fotografia e artes visuais, até na música, a palavra impulsiona o fazer artístico.

As palavras são de todos. São universais, circulam mundo afora em diferentes idiomas e dialetos. Com as mesmas palavras escrevem-se bilhetes, cartas, crônicas, romances, relatos de pesquisas. São ecléticas!

E, aí, posso supor, todas as artes recebem um beijo da alma literária.

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A poesia concreta

terça-feira, 14 de outubro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Nesta quinta-feira ensolarada, quando a tarde nos convida a dar uma volta, pegar uma flor para colocar na mesa ou tomar um sorvete na praça, preferi assistir à aula ministrada pela professora Fabiana Corrêa sobre poesia concreta, no “Grupo de Leitura e Escrita de Poesia”. Por diversas vezes tive contato com esse estilo poético, mas nunca havia percebido sua criatividade e sutileza. É uma poesia que se espalha pelo papel, escolhendo, brincando e mexendo com as palavras para, num só poema, tocar no fundo de questões fundamentais ao dia a dia.  À loucura que estamos vivendo.

Nesta quinta-feira ensolarada, quando a tarde nos convida a dar uma volta, pegar uma flor para colocar na mesa ou tomar um sorvete na praça, preferi assistir à aula ministrada pela professora Fabiana Corrêa sobre poesia concreta, no “Grupo de Leitura e Escrita de Poesia”. Por diversas vezes tive contato com esse estilo poético, mas nunca havia percebido sua criatividade e sutileza. É uma poesia que se espalha pelo papel, escolhendo, brincando e mexendo com as palavras para, num só poema, tocar no fundo de questões fundamentais ao dia a dia.  À loucura que estamos vivendo.

Depois da aula, me enchendo de inspiração para escrever em prosa esta coluna, no estilo que sei, vou andando pela casa, reparando os detalhes dos quadros e dos móveis, admirando as cores da madeira da parede e, repentinamente, começo a perceber que tudo poderia se transformar em poemas concretos. Não são superficiais. Não! São carregados de sentido, história e afeto. Todas as coisas falam sem rimas ou métrica, mas com pulsações.  Cada momento de vida traz a síntese da nossa energia vital. Nada é por acaso.

É uma poesia que revela como cada pessoa não é certa nem tem certezas. Tem inversos e reversos. Está em busca de algo. Felicidade? Mas o que é felicidade?

!! !! !! ... ? ... ! ... ?! ?! ?! ?! ?! ?! ?! ?!  ?!   ?! ?! ?! ?! ?! ?! ?! ?!         ??

(Será que é assim que a gente se pergunta?)

Pode ser que a felicidade seja uma utopia em sintonia com nossos sonhos. Devaneios? Pois bem, a vontade de ser feliz é o que mais se escuta por aí, é expressa nos jeitos, no tom de voz e modos de olhar. Como também nas composições de músicas, pinturas de quadros, até no poetar.

A poesia concreta não precisa de nada mais do que repetir a palavra felicidade numa página inteira ou

Felicidade?????                                                        feliz por ser

                                     Se a felicidade suspira                                  suspiro breve

aspiração eterna                         ser para ser feliz                                         um dia

                                               um                 instante                 quem sabe

Apenas uma só palavra, se escrita ou desenhada, se separada ou repetida, diz tantas coisas. Basta um relance de olhar; num piscar de olhos é possível perceber a verdade, que é:

revelada sempre, sem pre, pré. Nunca mente.

Pode se esconder por um tempo!

Mas, de repente, é dita, é vista, é sentida, é... É

 Precisa ser anunciada!?

Não sou poeta, mas me atrevi a sê-lo por estar encantada com esse estilo poético. Estou me aventurando a fugir da prosa porque na poesia concreta basta uma palavra escrita pelo avesso, uma frase solta ou uma brincadeira com letras para dizer tudo, tudinho.

Par A bom entendedor, só meia palavra

                                                   só meia

Só uma                                                  basta!

 

A poesia concreta é um movimento internacional, de cunho artístico e literário, que surgiu nos anos 50 e se enraizou nos países da Europa e no Brasil, onde se utilizou de diversas formas de sonorização e visualização da palavra, concebendo-a como um projeto gráfico (verbivocovisualidade). Os seus expoentes foram Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari. Em 1956 lançaram o “Manifesto da Poesia Concreta”, que revolucionou a forma de fazer poesia, rompendo com a estrutura linear do verso tradicional.

Eis alguns exemplos que acredito que todos conheçam:

“Beba Coca-Cola”, 1957 (Décio Pignatari)

Até a semana que vem!!!!! Virá de mansinho!!!!!! Não deixará de vir!!!

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Trocadilhos do WhatsApp

terça-feira, 07 de outubro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Hoje resolvi escrever uma coluna bem-humorada para mudar o rumo da prosa. Trocando mensagens com minha professora de poesia, Fabiana Corrêa, sem querer mostrar meus parcos dotes poéticos, disse: “somente na próxima vida teria condições de ser poeta”. Mas o cursor, gaiato que ele só, escreveu porta! Até entendi o recado. Nesta vida não passo mesmo de uma porta me arriscando a ser poeta. Não é que, para minha surpresa, ao escrever, querendo me corrigir, escrevi que de porta à poeta é uma boa evolução. Aí, o meu travesso cursor escreveu de porta a porta.

Hoje resolvi escrever uma coluna bem-humorada para mudar o rumo da prosa. Trocando mensagens com minha professora de poesia, Fabiana Corrêa, sem querer mostrar meus parcos dotes poéticos, disse: “somente na próxima vida teria condições de ser poeta”. Mas o cursor, gaiato que ele só, escreveu porta! Até entendi o recado. Nesta vida não passo mesmo de uma porta me arriscando a ser poeta. Não é que, para minha surpresa, ao escrever, querendo me corrigir, escrevi que de porta à poeta é uma boa evolução. Aí, o meu travesso cursor escreveu de porta a porta.

Ah, danado, com certeza, ele não quer que eu evolua! Quer que eu continue sendo rígida com as palavras que nem tora de madeira. Mas, aí, instantes depois do espanto, entendi que ele estava me dando uma inspiração.

Minha professora, com gentileza, logo me respondeu: “o humor salva!” Pura verdade. Salva e como nos resgata de situações complicadas, como essa. Rindo, constatei que o cursor estava certíssimo! Ainda na poesia sou uma bela porta de compensado. Se bem que na prosa, posso ser uma madeira um pouco melhor. E engatilhei uma frase numa mensagem para mim, somente para testar: “vou escrever uma prosa”. Mas ele voltou à seriedade de sempre. Pelo menos, cheguei a uma conclusão razoável: ele já me conhece como prosadora. Também, não é para menos. Volta e meia, passo meus textos para os meus amigos, via WhatsApp. Possivelmente, ele já tenha adquirido o hábito de ler meus textos anexados. Trata-se de um enxerido!

Mas estou ainda chegando a uma outra conclusão um pouco arriscada. O meu cursor é um literato que sabe avaliar se seus usuários são, de fato, poetas ou prosadores. Além do mais, gosta de fazer trocadilhos!

Na minha opinião, os poetas já nascem com as sementes da poesia, ou melhor, são gestados em momentos sublimes, em que a poesia paira sobre o ato de amor. Talvez até o cursor reconheça pelo toque os usuários que são enrijecidos como uma porta. O poeta borboleteia sobre as palavras. Mas a porta bate com força em cima das ideias e espalha as palavras, chão afora, todas desarrumadas. Coitadas!

Então, ao ler o que escrevo, começo a ter a certeza, de que o cursor queria me desafiar a escrever num breve, brevíssimo tempo, uma crônica, tal qual fazia a minha professora de escrita, Virgínia Cavalcanti, que, infelizmente, não está mais entre nós. Ela, com seriedade estampada no rosto, colocava um marcador de tempo sobre a mesa e ordenava: “quero que vocês escrevam um conto com começo, meio e fim em cinco minutos, e quando o pêndulo parar, todos devem colocar a caneta em cima do papel”. E, assim, fui aprendendo a escrever, sem parar entre uma palavra e outra e, depois de muitas tentativas, conseguia. Eu me orgulhava e mostrava às minhas colegas, que faziam o mesmo. Era um processo de aprendizagem divertido e estimulante. O mesmo acontecia com meu professor de escrita de humor, Márcio Paschoal, que solicitava que escrevêssemos, mas sem tempo limitado um conto engraçado. E a gente lia, ria e aprendia a escrever com sutileza, graça e leveza. O aprender literário nos presenteia com tulipas.

Sim, voltando ao assunto inusitado, esse cursor adora brincar com palavras da gente, deixando todo mundo em situação delicada. Quem já não passou por isso?

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Aplausos à Nise da Silveira

terça-feira, 30 de setembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

As superações diárias: do amanhecer ao canto da coruja da madrugada. Quantas mulheres fazem essa trajetória com a coragem dos heróis. As guerreiras, muitas vezes silenciosas e invisíveis, fazem a vida delas, e a dos seus acontecerem. Lutam. Como sempre foram laboriosas, se em tempos antigos, se em tempos atuais, ora pois sim, elas continuam a hastear suas bandeiras pelos quatro cantos do mundo. Com independência e vivacidade, entoam o hino da sobrevivência criativa e inteligente.

As superações diárias: do amanhecer ao canto da coruja da madrugada. Quantas mulheres fazem essa trajetória com a coragem dos heróis. As guerreiras, muitas vezes silenciosas e invisíveis, fazem a vida delas, e a dos seus acontecerem. Lutam. Como sempre foram laboriosas, se em tempos antigos, se em tempos atuais, ora pois sim, elas continuam a hastear suas bandeiras pelos quatro cantos do mundo. Com independência e vivacidade, entoam o hino da sobrevivência criativa e inteligente.

São mulheres que tomaram as rédeas dos seus destinos. Através das biografias ou autobiografias têm suas histórias contadas nas páginas dos livros que merecem ser lidas e relidas.

Hoje, vou me dedicar à Dra. Nise da Silveira, médica psiquiatra, que revolucionou a doença mental no Brasil ao desenvolver métodos de tratamento humanizados, recorrendo à arte, ao contato com animais e ao aprofundamento das relações afetivas entre médicos, enfermeiros e demais agentes com os pacientes.

Escolhi Nise da Silveira porque a conheci na Casa das Palmeiras – Nise da Silveira. Tinha uma amiga que fazia trabalhos voluntários na Casa e, com insistência, me convidou para conhecê-la. Sentei-me num canto de uma sala grande, onde os pacientes faziam atividades de cerâmica, desenho e pintura. O ambiente era alegre e movimentado. A Dra. Nise, já bem idosa e de cadeiras de rodas, chegou, percorreu a sala, indo de paciente a paciente, até que se aproximou de mim com o olhar firme e brilhante e disse: “É preciso trabalhar com eles”. E seguiu a visita. Aqueles breves instantes me tocaram no fundo da alma. Senti vontade de continuar lá, junto dos pacientes, observando-os e interagindo. Assim passei uma tarde que jamais esqueci.

“Nise da Silveira, uma psiquiatra rebelde”, escrita pelo mestre da literatura Ferreira Gullar, revela a longa vida de uma mulher (1905-1999) que difundiu a psicologia junguiana, recorrendo à arte e à terapia ocupacional para restaurar vínculos dos pacientes com a realidade. A doença mental se tornou um desafio imenso para ela, decidindo tratar corajosamente as pessoas como seres humanos. Em seu trabalho ela aprendeu a “buscar a beleza nas coisas aparentemente feias”. Com esse olhar dedicado, foi capaz de retirar de cada paciente uma poesia colorida.

Em seu belíssimo trabalho, a Dra. Nise descobriu verdadeiros artistas, que produziram obras nos ateliês terapêuticos. Ela fundou, em 1952, o Museu de Imagens do Inconsciente (MII) que reúne mais de 350 obras, entre telas, papéis, modelagens e poemas. O Museu foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional, em 2003.

Durante séculos, os doentes eram confinados, recebiam eletrochoques, eram submetidos à lobotomia, dentre outros métodos agressivos. Sua visão, através da formação acadêmica na Faculdade de Medicina da Bahia, estudos e pesquisas nos campos da psiquiatria, troca de cartas com Jung, Nise reinterpretou e reescreveu o tratamento psiquiátrico, reconhecendo que os assombros dos manicômios pouco ou quase nada resgatavam o paciente para a vida.

Com o ímpeto de curar, a Dra. Nise percebeu, em suas pesquisas, o valor do animal, enquanto coterapeutas. Ah!, os animais e seus poderes são capazes de melhorar e estabilizar as relações afetivas dos pacientes. Fato que foi observado a partir dos cuidados que uma interna em um hospital teve com uma cadela abandonada. Tal processo foi escrito em seu livro “Gatos, a emoção de lidar”, publicado em 1998.

Como ela observou a presença de mandalas na pintura dos pacientes, estabeleceu uma troca de correspondência com o psiquiatra e psicoterapeuta suíço Karl Jung. As obras dos seus pacientes foram apresentadas numa mostra denominada “A Arte e a Esquizofrenia”, no Segundo Congresso Internacional de Psiquiatria”, em Zurique, Suíça, em 1957. A seguir, foi estudar no Instituto Karl Gustav Jung em dois períodos, num total de quatro anos.

Dra. Nise da Silveira foi uma mulher atenta à vida e ofereceu a quem adoece mentalmente orquídeas brancas, abrindo as janelas dos hospitais e mostrando paisagens inéditas, novos nasceres do sol.

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As gentilezas do gostar

terça-feira, 23 de setembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Sou encantada com o “O Pequeno Príncipe” desde que comecei a escrever. Lendo o texto como aprendizado e incentivo à escrita, fui tomada pela impressão de, a cada página, abrir um baú de guardados cheios de esperança e vida, mensagens que temos de cuidar para usar em cada momento do dia. Quando li o capítulo em que o principezinho conhece e conversa com a raposa, entrei em contato com a gentileza do gostar.

Sou encantada com o “O Pequeno Príncipe” desde que comecei a escrever. Lendo o texto como aprendizado e incentivo à escrita, fui tomada pela impressão de, a cada página, abrir um baú de guardados cheios de esperança e vida, mensagens que temos de cuidar para usar em cada momento do dia. Quando li o capítulo em que o principezinho conhece e conversa com a raposa, entrei em contato com a gentileza do gostar.

A palavra gentileza nos traz um sentimento de delicadeza e leveza. O gostar não é banal e nem se perde na corrida diária; vai se transformando ao longo do tempo de acordo com os cuidados que temos com as relações afetivas. A espontaneidade do sentimento o aprofunda com a preocupação que se tem com a pessoa de quem gostamos. Pode ser também um animal, a casa onde moramos, até mesmo os móveis e os objetos.

Ora pois sim, meu amigo leitor, o gostar é trabalhoso!

Saint Exupéry, por intermédio do diálogo entre o Pequeno Príncipe e a raposa, nos fala em criar laços, expressão tão pouco usada hoje, e mantê-los em gestos contínuos que envolvem atos, atenção, preocupação, preparação e presença. São tantas as atitudes e posturas que chegamos a pensar que podemos ficar aprisionados pelo sentimento. Mas será que conseguimos viver, ou melhor, sobreviver sem estabelecer laços afetivos?

O afeto encanta e dá sentido ao que fazemos durante a vida. Faz uma semana que a minha cadela caramelo, que estava conosco há uns 12 anos, partiu para o universo. Minha filha a pegou na rua em estado lastimável e cuidamos dela naturalmente; dia a dia. A Deia não era bonita, mas se tornou um animal forte, saudável e tomou conta de nós por todo esse tempo. Estabelecemos laços afetivos, o que nos fez tomar providências diárias, como o cuidado com a alimentação, escovação do pelo, medicamentos e afagos, para o seu bem-estar e não víamos com aborrecimento o que fazíamos. Pelo contrário, eram gestos e responsabilidades que passaram a fazer parte da nossa vida. Ela envelheceu e partiu de modo natural. Quando não a vemos mais no jardim, percebemos o quanto preencheu nossas vidas. Até a minha outra cadela, também caramelo e abandonada, passou a se deitar no lugar em que a Deia gostava de ficar.

Ao gostar não sentimos a monotonia do quotidiano posto que é um sentimento que sempre nos pede algo; pode ser ao menos um sorriso. São sentimentos e ações que nos fazem significar nossos momentos e registrá-los na memória. É tão gostoso nos arrumarmos para encontrar uma pessoa de quem gostamos; a escolha de um perfume ganha um valor especial. Ou ajeitar a mesa onde trabalhamos. Adoro arrumar minhas canetas. Há quem goste de pendurar quadros para descansar o olhar e admirar uma paisagem ou uma pessoa.

Sim, a indiferença machuca. A frieza no olhar fere a alma. O desdém nos abate. Faz tempo que uma pessoa me relatou um fato que presenciou numa praça da Tijuca, no Rio de Janeiro. Dois amigos, que não se viam fazia tempo, se encontraram na rua e se abraçaram. Logo, em seguida, se olharam, e um disse ao outro: a gente se fala pelo celular. Imediatamente se afastaram e cada um seguiu seu caminho. O gostar hoje está se resumindo a isso: a gente se fala depois e virtualmente. O esplendor do afeto vai ficando para um tempo futuro, sabe-se lá quando.

A cada vez que experimentamos o afeto com plenitude, como dar um bom dia olhando nos olhos, tomar um café com um amigo, conversar numa esquina ou mesmo se sentar ao lado de quem está triste ou com dor de cabeça, damos e ganhamos um presente, enquanto celebração do amor, da amizade e do apreço. É uma generosidade. É um modo de construir um momento de felicidade.

“Se, por exemplo, você vier sempre às quatro horas da tarde, desde as três começarei a ficar feliz. Mais a hora avança e mais feliz vou ficando. Quando forem quatro horas, já estarei inquieta: descobrirei quanto vale a felicidade!”

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Por que ler o “O Pequeno Príncipe”?

terça-feira, 16 de setembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Vocês podem imaginar uma juíza utilizando o texto de um livro para justificar e ilustrar a sua sentença? Pois é, isso aconteceu de fato. Carolina Mascarein, titular do Juizado de Família, Infância e Adolescência nº. 4 de Corrientes, na Argentina, determinou que um pai, que havia solicitado deixar de pagar a pensão dos seus filhos, lesse “O Pequeno Príncipe” para que pudesse refletir sobre a importância da empatia e da consciência do seu papel paterno. A juíza argumentou que a obra transmite valores como o amor, o respeito, a amizade e o cuidado com os demais.

Vocês podem imaginar uma juíza utilizando o texto de um livro para justificar e ilustrar a sua sentença? Pois é, isso aconteceu de fato. Carolina Mascarein, titular do Juizado de Família, Infância e Adolescência nº. 4 de Corrientes, na Argentina, determinou que um pai, que havia solicitado deixar de pagar a pensão dos seus filhos, lesse “O Pequeno Príncipe” para que pudesse refletir sobre a importância da empatia e da consciência do seu papel paterno. A juíza argumentou que a obra transmite valores como o amor, o respeito, a amizade e o cuidado com os demais. Ainda observou que, ao ler o livro, ele poderia entender que as obrigações parentais não se efetivam somente com o dinheiro, mas com amor, compreensão e presença. E ressaltou que “o essencial não é visível aos olhos”. Finalmente, exigiu que o pai tivesse uma semana para ler o livro e, então, se apresentasse para comentar o que aprendeu com a leitura.

“O Pequeno Príncipe” é uma obra para todas as idades e pode ser lida diversas vezes durante a vida, posto que, a cada leitura, é possível apreender novas questões sobre o viver. A começar pela dedicatória. Saint Exupéry escreveu o livro durante a 2ª. Guerra Mundial, e ele sofria profundamente por saber que seu melhor amigo, Léon Werth, estava na França, em plena guerra, sentindo fome e frio, por quem nada poderia fazer, apenas tocar na criança que esse amigo um dia fora. Porque esse amigo poderia compreender qualquer coisa como todas as crianças.

E, assim começa o livro, mostrando como é difícil para a criança se fazer compreender pelos adultos, que pedem e buscam tantas explicações. Ele o publicou há mais de oitenta anos, e as relações entre crianças e adultos eram diferentes das de hoje. Mas será que eram mesmo tão diferentes? O que Saint Exupéry transmite nos faz avaliar os hiatos que ainda existem não somente entre pais e filhos, mas em todos os níveis das relações. Por estarmos inseridos num mundo tão virtual, cercado de Inteligências Artificiais, qual o espaço de afeto entre as pessoas? Estar presente de corpo e alma é bem diferente da presença virtual, uma instância que não há o calor do abraço, apenas fazemos os emojis enviar sentimentos. Só nas primeiras páginas do livro há tantas reflexões a serem feitas e assuntos a serem conversados, principalmente com crianças.

Outro ponto que a leitura surpreende são as questões: as crianças se sentem sozinhas? Têm com quem conversar? Não se trata de conversar sobre banalidades quotidianas, mas sobre assuntos que elas, de fato, sentem vontade de falar. E, nós também temos com quem conversar sobre os assuntos que nos tocam? Os psicoterapeutas atendem pessoas que falam de si para resolverem suas questões existenciais, mas não podem ocupar o lugar de um amigo. Por mais que gostem e respeitem seus pacientes, não se fazem presentes na vida deles como tal.

Como é especialmente acolhedor ter um amigo para conversar.

O mundo imaginário e criativo da criança é mostrado com imensa simplicidade por Saint Exupéry quando o principezinho entende que não se precisa de perfeições e ter boa aparência para se fazer escutar e entender. “É muito simples: a gente só vê bem quando vê com o coração.”

E, nesse sentido, a criança é insaciável: quer saber das coisas e pergunta e pergunta, precisa de respostas e respostas, porque para ela é difícil entender as coisas da vida. Afinal de contas, está chegando num mundo a ser desvendado; decifrado. A criança é inteligente e seu imaginário tem riquezas.

O Pequeno Príncipe veio de um asteroide e, quando chega em nosso planeta, observa a vida sem fazer julgamentos. De que mundo vieram as crianças? De onde nós viemos? Como estamos vivendo aqui? Aqui o Pequeno Príncipe sente-se sozinho e quer encontrar amigos. Não é também o que queremos? Quantos amigos temos e quantas pessoas nos percebem como tal? Somos pais, professores, avós, mas somos amigos das crianças?

A casa onde vivemos não é perfeita. A casa do Principezinho é um asteroide tão pequeno que ele pode ver o pôr do sol quarenta e quatro vezes num só dia. Além disso, há vulcões que devem ser limpos e baobás que possuem imensas raízes que precisam ser podadas. Entretanto, lá, ele possui uma rosa frágil com apenas quatro espinhos que não pode se defender sozinha, mas é orgulhosa e teimosa. Quantas metáforas delicadas! Quem não precisa tratar de suas erupções? Ou cortar as raízes dos conflitos? E cuidar das pessoas de quem gosta, como ele cuidou da rosa no seu asteroide? “Pois foi a ela que sempre irreguei, foi ela que pus sob uma redoma. Foi ela que eu protegi com um para-vento. Foi por ela que matei as larvas (salvo duas ou três, por causa das borboletas). Foi a ela que eu ouvi se queixar ou se vangloriar ou, às vezes, se calar. Porque ela é a minha rosa”.

O livro nos traz não somente essas, mas muitas questões a serem refletidas com frequência para que possamos compreender melhor a vida. Muitas vezes tão difícil de ser vivida. Quando Saint Exupéry escreveu “O Pequeno Príncipe” fora do seu país, a França passava por um momento de vida conturbado e sofrido.

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Antoine de Saint Exupéry

terça-feira, 09 de setembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Vou fazer uma confissão nada secreta, até porque este jornal voa para tantos lugares; o que eu publicar aqui muita gente vai saber. Não foi à toa que comecei a escrever histórias para crianças, posto que a obra de Saint Exupéry, especialmente “O Pequeno Príncipe”, me iluminou. Li e reli o livro várias vezes e fui me encantando com o modo simples de transpor suas ideias para o papel, com a maneira pela qual olhava para a vida. Cheguei à conclusão, para o sossego de minha alma, que eu pensava de maneira parecida com ele.

Vou fazer uma confissão nada secreta, até porque este jornal voa para tantos lugares; o que eu publicar aqui muita gente vai saber. Não foi à toa que comecei a escrever histórias para crianças, posto que a obra de Saint Exupéry, especialmente “O Pequeno Príncipe”, me iluminou. Li e reli o livro várias vezes e fui me encantando com o modo simples de transpor suas ideias para o papel, com a maneira pela qual olhava para a vida. Cheguei à conclusão, para o sossego de minha alma, que eu pensava de maneira parecida com ele. Tantas vezes eu me achava ridícula, às vezes, nem comentava com alguém o que pensava. Chegaram até me chamar de alienada, de ingênua e boba porque quando olhava para as pessoas fazia questão de percebê-las sem preconceitos, de encontrar verdade em seus jeitos, nas palavras e no brilho do olhar.

As pessoas grandes adoram números. Quando a gente fala de um novo amigo, eles nunca se interessam em saber como ele realmente é. Não perguntam: “Qual é o som da sua voz? Quais são seus brinquedos preferidos? Ele coleciona borboletas?” Mas sempre perguntam: “Qual é a sua idade? Quantos irmãos ele tem? Quanto pesa? Quanto o pai dele ganha?” Só então elas acham que o conhecem.  (O Pequeno Príncipe)

Como não gosto de me deparar com perversidades, até porque o mundo tem espinhos que machucam, faço questão de olhar nos olhos das pessoas porque tenho a impressão de que vejo um mundo bonito.

“Até as nossas misérias fazem parte das nossas riquezas. (Voo Noturno)

Depois de ler parte de sua obra, conhecer sua história, tornei-me sua aprendiz. Sua sabedoria emana de suas obras, que abordam a felicidade, o amor e a amizade. Em cada página encontrava uma profunda reflexão sobre a condição humana, escrita com lirismo e suavidade. Volta e meia tinha a impressão de que ele estava conversando comigo.

“Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê com o coração. O essencial é invisível aos olhos.” (O Pequeno Príncipe)

Saint Exupéry não foi um homem comum. Ele viveu apenas 44 anos, tempo suficiente para se expor como filósofo, escritor, aviador, aventureiro e poeta. Tudo o que fez teve plenitude, intensidade e verdade. Ele viveu com grandiosidade: foi corajoso, espirituoso e demonstrou imensa capacidade para amar.   

“Não há como substituir um velho companheiro. Nada vale o tesouro de tantas recordações comuns, de tantos momentos difíceis vividos juntos, tantas desavenças e reconciliações, tantas emoções compartilhadas. Não se reconstroem essas amizades. É inútil plantar um carvalho na esperança de poder, em breve, se abrigar sobre sua sombra.”  (Terra dos Homens)

Ao falar sobre Saint Exupéry me vejo diante de assuntos profundamente humanos. Nosso planeta é regido pela natureza e fazemos parte dela; estamos interligados a todos os seres. Nada e ninguém têm superioridade. O que existe são capacidades a serem compartilhadas e espaços a serem conquistados com bravura e humanidade.

“Tecemos muito lentamente a trama das amizades e afeições. Aprendemos devagar.” (Terra dos Homens)

Antoine-Marie Roger de Saint Exupéry foi um iluminado pelas estrelas! Nasceu em Lion, na França, em 29 de junho de 1900 e morreu em 31 de julho de 1944 quando fazia uma missão de reconhecimento aéreo no Mar Mediterrâneo. Teve uma vida intensa e movimentada, cheia de alegrias, tristezas e aventuras, que influenciaram sua escrita e ilustração.

Sua vida e obra emocionaram o mundo, sendo um dos autores mais respeitados e amados do século XX. Seu livro, “O Pequeno Príncipe”, foi traduzido para inúmeras línguas, inclusive o Aramaico, sendo, depois da Bíblia, o mais vendido no mundo.

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