O fenômeno El Niño e os incêndios florestais

Bernardo Furrer

Nosso Meio Ambiente

Bernardo Furrer é médico, ambientalista, cidadão honorário de Nova Friburgo, presidente da APN (RPPNs do Estado), membro do Conselho Consultivo da APA Macaé de Cima, da CNRPPN e do Conselho Municipal do Meio Ambiente de Nova Friburgo. Escreve aos sábados.

sábado, 25 de julho de 2026
por Bernardo Furrer

Um dos principais assuntos do momento, que leva a muitas perguntas e grande receio, é o fenômeno climático “El Niño”. E o que é isso? Sem entrar em pormenores científicos, mesmo sabendo da sua importância, podemos resumir que o  El Niño é um fenômeno criado a partir do aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, gerando uma alteração nos ventos e correntes marítimas, modificando assim, a distribuição de temperaturas ao redor do planeta. Esse aquecimento altera os padrões de circulação atmosférica e o transporte de umidade, influenciando as condições climáticas em diferentes partes do planeta.

Aqui temos dados do Governo Federal para quem quiser detalhes: (https://www.gov.br/inpe/pt-br/assuntos/ultimas-noticias/o-que-precisamos-saber-sobre-o-el-nino-e-seus-impactos-para-o-brasil#:~:text=Para%20o%20Brasil%2C%20o%20El,hemisf%C3%A9rio%20Sul%20%5Bem%20setembro%5D.), e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – Inpe (https://www.gov.br/inpe/pt-br/assuntos/ultimas-noticias/nota-tecnica-conjunta-aponta-alta-probabilidade-de-el-nino-no-segundo-semestre-de-2026.) Eles nos informam que “há probabilidade superior a 95% de persistência das condições de El Niño ao longo do segundo semestre deste ano, podendo se estender, pelo menos, até o início de 2027. As previsões apontam ainda que o fenômeno tem potencial para atingir intensidade forte a muito forte”.

Devemos estar preparados, sem alarmismo, para os eventuais e prováveis eventos climáticos que deverão ocorrer no planeta com um olhar especial para região de Nova Friburgo. “Em geral, espera-se aumento das temperaturas médias e maior frequência de ondas de calor. Em algumas áreas do Sudeste, o fenômeno também pode favorecer períodos mais prolongados de estiagem”, segundo o Inmet, que emitiu uma nota técnica em conjunto com alguns órgãos de monitoramento climático, que pode ser lida aqui:  (https://dataserver.cptec.inpe.br/dataserver_diptc/web/Painel-Elnino/2026-2027/nota_tecnica_el_nino_2026_final_160626.pdf)

O cenário em Nova Friburgo

No inverno, a região serrana do Estado do Rio passa por estiagens prolongadas aumentando a frequência dos incêndios florestais, com sérios riscos à vida humana e da flora e fauna presentes na Mata Atlântica local, que corresponde a cerca de 70% do território do município, em áreas mais ou menos sensíveis aos períodos de seca.

Os incêndios florestais são uma gravíssima ameaça à natureza e frequentemente escapam do controle das corajosas Brigadas de Incêndio, formadas por voluntários que se somam aos guardas-parques, aos bombeiros e à Defesa Civil, arriscando suas vidas.

Na Mata Atlântica, a probabilidade de um incêndio começar verdadeiramente “sozinho”, sem raios e sem ação humana, é praticamente nula. Mesmo quando um eventual raio atinge uma árvore, um tronco morto ou material orgânico produzindo calor suficiente para iniciar a combustão, as descargas atmosféricas vêm acompanhadas de chuva e umidade elevada, o que evita incêndios.

Ainda que raramente possa haver queima localizada, a possibilidade de se transformar em um incêndio florestal é muito pequena. A umidade da mata é decisiva para que a ignição da combustão não se propague. Por isso são raros os incêndios florestais no verão. Mesmo na ausência de raios ou outra fonte externa de calor, folhas e árvores secas não entram em combustão espontaneamente apenas por causa do calor do sol.

Temperaturas elevadas, que não ocorrem no inverno, ficam muito abaixo da temperatura necessária para a ignição direta de madeira e folhas. O sol pode até ressecar o material vegetal e torná-lo extremamente inflamável, mas é necessária uma faísca, uma chama ou superfície extremamente quente para iniciar a combustão.

A probabilidade de surgimento natural do fogo é quase zero, mas a probabilidade de propagação após uma ignição humana aumenta enormemente. Nas áreas montanhosas as encostas favorecem a propagação para cima, pois as chamas e o ar aquecido pré-aquecem a vegetação situada acima. Áreas de capim, bordas de floresta, pastagens, plantações e vegetação secundária aberta costumam ser mais vulneráveis que o interior de uma floresta madura e úmida.

No Brasil, os órgãos públicos reconhecem os raios como causa natural possível, mas apontam as atividades humanas, criminosas ou não, como fontes predominantes dos incêndios florestais. Queimadas agrícolas, queima de lixo, fogueiras, churrasqueiras, pontas de cigarro e principalmente o incêndio intencional são as principais e quase exclusivas explicações para os frequentes incêndios no período do inverno em nossa região.

Tipos de incêndios florestais

Temos duas situações distintas com as mesmas consequências: os incêndios provocados por “acidentes” e os incêndios criminosos. O que leva alguém a provocar um incêndio e destruir séculos de criação da natureza e matar tantas vidas? Em geral é a cobiça e a ambição por lucro, mesmo de forma ilegal.

Incêndios criminosos tem como objetivo provocar o desmatamento ilegal, alegando ser por “acidente” ou de causas naturais improváveis. Não é fácil identificar os criminosos, porém é mais fácil identificar os beneficiários dessas ações criminosas. As motivações em geral são a abertura de novas áreas para a ocupação humana, a especulação imobiliária e a expansão de áreas para agricultura e pecuária.

Por conta do grande número de ocorrências e do baixo efetivo de pessoal para a fiscalização, além das múltiplas ações dos criminosos visando inclusive a dispersão das ações de combate e consequentemente das ações punitivas, o Inea instituiu a medida cautelar de embargo remoto (https://leisestaduais.com.br/rj/decreto-n-48691-2023-rio-de-janeiro-dispoe-sobre-a-medida-cautelar-de-embargo-remoto-e-institui-o-sistema-estadual-de-areas-embargadas-no-estado-do-rio-de-janeiro) no Estado do Rio de Janeiro.

O órgão ambiental analisa imagens de satélite  para suspender à distância as atividades que causam danos ao meio ambiente. A ação acontece por meio do programa Olho no Verde, que realiza o monitoramento sistemático dos remanescentes florestais, detectando automaticamente alertas de desmatamento e envia essas informações às equipes de fiscalização. Sistema moderno e eficaz. Os embargos funcionam. Como os incendiários criminosos reagem à isso? Veremos na próxima semana.

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(Foto: Divulgação)
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