Da mesma forma que entre o céu e a terra há caminhos que unem um ao outro, entre o autor e o personagem há vínculos indissociáveis. O fazer literário não é espontâneo. Como o autor tem uma identidade constituída por uma história de vida, cuja essência é complexa, inconsciente e multifacetada, suas criações emergem desse contexto pessoal e único que determina o modo como elabora suas ideias e as transpõem para os textos.
Da mesma forma que entre o céu e a terra há caminhos que unem um ao outro, entre o autor e o personagem há vínculos indissociáveis. O fazer literário não é espontâneo. Como o autor tem uma identidade constituída por uma história de vida, cuja essência é complexa, inconsciente e multifacetada, suas criações emergem desse contexto pessoal e único que determina o modo como elabora suas ideias e as transpõem para os textos.
Saint Exupéry e “O Pequeno Príncipe” podem ser um exemplo de relação entre o autor e sua obra. Lançada da nos Estados Unidos em 1943, um ano antes de sua morte, foi seu último e derradeiro trabalho, em que apresenta um modo de pensar amadurecido a respeito de temas fundamentais à condição humana. Faço questão de assinalar que “Cidadela” é uma obra póstuma, publicada em 1948, que contém a súmula da obra de Saint Exupéry, oferecendo ao leitor uma visão sobre a vida dele.
Sendo ele o ilustrador, idealizou a figura do Pequeno Príncipe em 1942 a partir da lembrança de um casal rude num trem, que levava uma criança loura de cabelos cacheados e mal acomodada nos braços da mãe. Quando a criança se ajeitou, Saint Expéry se inclinou sobre o menino, viu um rosto adorável, uma doce expressão e a comparou a um músico, um Mozart criança. Foi nesse momento de encantamento e bem-aventurança que nasceu o Pequeno Príncipe.
Naquela época, Saint Exupéry estava desiludido por várias razões. Primeiramente, por ter se afastado da aviação depois de sofrer um acidente de avião na Guatemala, quando teve várias fraturas e sentia fortes dores. Depois, por estar trabalhando como correspondente de guerra, cobrindo a Guerra Civil Espanhola (1936 a 1939), quando percebeu o pior da humanidade. E, também ao cobrir um evento na Alemanha e concluir que a guerra seria inevitável. Embasado nesses sentimentos, desenhou a figura de um personagem sério, por vezes triste, que nunca sorria nas ilustrações.
Os traços curvos existentes em várias imagens são referendados no deserto, lugares onde sofreu dois acidentes de avião: no deserto do Saara, em 1935 e entre Paris e Saigão, a 200 Km do Cairo, quando ficou, junto com outro aviador, isolado por 4 dias. Neste acidente, imaginou a chegada do Principezinho.
“Na primeira noite dormi deitado na areia, a quilômetros e quilômetros de qualquer região habitada. Estava mais solitário do que um náufrago perdido no meio de um oceano. Imagine você qual não foi minha surpresa quando, ao amanhecer, uma vozinha estranha me despertou.”
Saint Exupéry teve uma vida movimentadíssima. Morou na Europa, África, América do Norte e Sul. E, nesses continentes, em vários lugares, convivendo com pessoas diferentes. Inclusive, no Brasil era chamado de Zé Perry, em Campeche (Florianópolis), pelos pescadores. O Pequeno Príncipe vem do espaço e visita sete planetas; o sétimo é a Terra. Nas passagens por esses planetas, descreve a condição humana em várias circunstâncias.
“Voei um pouco pelo mundo inteiro. (...) Assim, ao longo da minha vida, mantive contato com um monte de gente séria. Vivi muito tempo com pessoas adultas. Eu as conheci bem de perto. Isso não melhorou muito minha opinião sobre elas.”
A história do Pequeno Príncipe aborda o amor, a amizade, o poder, o vício, a fragilidade da vida, a efemeridade, a corrida nas grandes cidades, a traição, a visão materialista da vida, a morte e tantos outros conceitos significativos.
A delicadeza com que trata a maneira de gostar das pessoas, dos cuidados que precisamos ter com quem amamos, e por quem temos amizade, conduz a narrativa com tamanha simplicidade.
“Para mim, você é um menino igualzinho a cem mil outros meninos. E eu não preciso de você. E você tampouco precisa de mim. Não sou para você mais do que uma raposa, igual a cem mil outras raposas. Mas, se você me cativar, passamos a ter necessidade um do outro. Você será para mim único no mundo e eu serei única no mundo para você.”
Recomendo a leitura do “O Pequeno Príncipe” a todos. Não é uma obra ultrapassada. É texto que faz renascer a criança que existe em cada um de nós. Que todos nós possamos cuidar dela para que compreendamos qualquer coisa no mundo.
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