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Seu Silva

quarta-feira, 08 de outubro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Sujos como soldados que saem da trincheira após terem sobrevivido a duras batalhas

Sujos como soldados que saem da trincheira após terem sobrevivido a duras batalhas

Lembro-me dele quando vejo os atuais técnicos de futebol esbravejando à beira do gramado. Seu Silva não era de esbravejar ou ameaçar. Orientando sua equipe, parecia um macaco sentado num formigueiro: pulava, socava o ar, coçava a cabeça. Mas não gritava e muito menos xingava quem quer que fosse. Após o apito final, imitava um treinador então famoso: “Venceu o melhor”. Qualquer que fosse o resultado, dizia que tínhamos jogado bem e distribuía balas ou laranjas descascadas. Era o nosso prêmio, dando goleada ou levando olé. O nariz de seu Silva, achatado e vermelho, parecia ter levado um soco há poucos minutos. Tinha o queixo pequeno, o lábio inferior caído e a cabeça enterrada no ombro, sem a intermediação do pescoço.

Nós éramos uns moleques desocupados como gatos sem dono e, afora três horas diárias na escola, passávamos o tempo nos terrenos lamacentos de que na época o bairro era farto. Esses, sim, eram verdadeiros mar de lama. As mães se desesperavam, mas como nos manter dentro de casa e ainda esfregar o chão, lavar a roupa, cuidar do bebê, cozinhar? Coitadinhas das mães, que tanto se preocupavam com os filhos, enquanto eles tinham como única preocupação correr atrás da bola. Quando voltavam para casa, estavam sujos como soldados que saem da trincheira após terem sobrevivido a duras batalhas.

 De modo que as mães puseram as mãos para o céu quando seu Silva, feio, mas confiável, se dispôs a formar um time, treinar e comandar a garotada. Depois de muitas discussões, com alguma sugestões descabidas como “Arranca Toco”, o time foi batizado de “Real Madride”, um time famoso, cujas façanhas nosso técnico lia para nós. Nossas cores eram o preto e o vermelho, embora não tivéssemos uniforme nem bandeira. Mas não havia dúvida: éramos os rubro-negros do bairro, com muito orgulho.

Como no futebol e na vida nem tudo são vitórias, passamos por uma derrota que fez aquele domingo ficar mais triste do que cemitério em noite de chuva. Jogamos bem, ganhamos de dois a zero. Zeca, nosso goleiro, filho de João Tintureiro (na época preso por agredir o patrão), pois o Zeca pegou um pênalti e ainda encarou o juiz que ameaçou anular nosso segundo gol. Manhã gloriosa, que seria seguida por uma notícia tão triste que pôs fim às justas comemorações, que, sem isso, teriam durado uma semana.

Ficamos do lado de fora da casa, ouvindo os choros e as rezas. Criança não podia participar de velório nem de enterro. Mas sabíamos que seu Silva estava deitado sobre a mesa da sala, finalmente quieto. Aos poucos, fomos ouvindo as conversas dos adultos. Ele tinha almoçado bem, tomado sua cachacinha diária e ido dormir, contente com a atuação de seus atletas (que ele chamava de pupilos). Não acordou. Diz a lenda que suas últimas palavras foram: Digam aos meninos que eles jogaram bem.

Com seu Silva aprendemos que a vida é frágil; a beleza, enganadora e a bondade, rara.

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Microconto: FIM

Depressivo, sentia-se sempre à beira de um abismo fatal – até o dia em que deu um passo à frente.

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Reciprocidade

quarta-feira, 24 de setembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

O Brasil recebeu muitos portugueses e, pelo que sei, só os matamos com piadas

O Brasil recebeu muitos portugueses e, pelo que sei, só os matamos com piadas

Essa é boa! Um cidadão lusitano fez um vídeo prometendo 500 euros ─ quase R$3.200,00 ─ por “cabeça de brasileiro, vivo ou morto”. Não sei se a caçada já começou, ou se o governo português vai regulamentar a matança, para que não fique parecendo a perseguição aos zumbis, como a gente vê em filme americano. Por falar em cinema, não deixa de ser divertido comparar títulos de filmes no Brasil e em Portugal. Por exemplo: “Gente grande” vira “Miúdos e graúdos”, “Onde os fracos não têm vez” se chama, nos cinemas lusos, “Esse país não é para velhos”, “Arquivo X” lá é conhecido como “Ficheiro Secreto”, e “Operação Cupido”, passa a ser “Pai para ti, Mãe para Mim”. Também li que “Cantando na chuva” se transforma em “A cantar sob o aguaceiro”, mas talvez seja apenas piada de português, ou melhor, piada de brasileiro sobre português. E por certo eles também riem dos títulos que nós usamos. Enfim, cada povo fala do jeito que bem quiser e ninguém tem nada com isso.

Talvez a ideia de matar brasileiros não seja de todo má, pelo menos do ponto de vista da Europa, onde um imigrante incomoda muita gente, dois imigrantes incomodam muito mais e milhões de imigrantes são uma ofensa à paisagem. Vá lá que eles limpem banheiros e lavem carros, o problema é que também querem andar nas ruas, ir aos shoppings, comprar comida, ou seja, viver como se pertencessem ao Primeiro Mundo. No futebol, até se pode tolerar, porque, temos que admitir, até que jogam direitinho. Mas namorarem nossas cachopas, essa não!

O problema que eu vejo na ideia do tal cidadão é que o Brasil pode aplicar a lei da reciprocidade. Agora que o presidente Trump botou a pesada mão americana sobre vários países, principalmente sobre o nosso, ficamos moralmente obrigados a retribuir na mesma moeda. Então, para cada brasileiro morto em Portugal, matamos um português aqui, ou mesmo lá, uma vez que temos um verdadeiro exército na terra de Camões, beirando a 600 mil soldados e soldadas. Contudo, visto que a América e a Europa nos consideram subpovo, podemos concordar com dois ou três brasileiros para cada estrangeiro morto. Outra questão é que, mesmo se aceitarmos a regra de 3 por 1, Portugal vai sair perdendo. Veja bem, o Brasil está na casa dos 220 milhões; Portugal anda aí pelos 11 milhões. O resultado é que, quando os nossos irmãos d´além-mar estiverem extintos, ainda sobrará brasileiro para ocupar vinte e tantos Portugais.

Quem sabe devíamos fazer um abaixo-assinado on-line e enviar para o exterminador de brasileiros, sugerindo que ele repense o seu plano assassino. O dinheiro destinado a liquidar os brasucas, como ele os chama, poderia ser aplicado em favor da paz. O Brasil recebeu muitos portugueses e, pelo que sei, só os matamos com piadas, e mesmo essas vão sumindo, pressionadas pelo politicamente correto. A paz é uma flor tão frágil, tão frágil é a vida que nem por piada devemos colocá-las em risco.

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Microconto: CONSTRANGIMENTO

Dora dizia: Se Ana vier, não deixe entrar, diga que não estou. Até que Ana foi e entrou.  E Dora não sabia que o papagaio tinha decorado aquela frase.

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Lugar-comum

quarta-feira, 10 de setembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Mais abatido do que time que perde a partida “no último segundo do segundo tempo”

De vez em quando comento aqui algumas palavras, o que talvez já esteja enchendo a paciência dos leitores. Em todo caso, o leitor tem sempre a possibilidade de pular para a coluna mais próxima ou para outra página. Sina triste é de uma pessoa aqui de casa que é obrigada a ler tudo que rabisco, por obrigação contraída no civil e no religioso (até que a morte vos separe, etc., etc., etc.).

Mais abatido do que time que perde a partida “no último segundo do segundo tempo”

De vez em quando comento aqui algumas palavras, o que talvez já esteja enchendo a paciência dos leitores. Em todo caso, o leitor tem sempre a possibilidade de pular para a coluna mais próxima ou para outra página. Sina triste é de uma pessoa aqui de casa que é obrigada a ler tudo que rabisco, por obrigação contraída no civil e no religioso (até que a morte vos separe, etc., etc., etc.).

A minha ignorância sobre etimologia é profunda, ampla, geral e irrestrita, mas às vezes leio algo que me chama a atenção. Por exemplo: a palavra “marechal”, que o dicionário da ABL define como “o posto superior na hierarquia do exército”, título que, no Brasil, só pode ser concedido a quem comandar soldados em tempos de guerra. Pois, vejam vocês (que nenhum marechal nos ouça), mas no século XIV essa palavra tão imponente significava “indivíduo que cuida dos cavalos”. Para piorar, originalmente compunha-se de “cavalo amestrado”, e “escravo”. Ou seja, escravo de cavalo amestrado. É o que ensina o “Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa’, de Antônio Geraldo Cunha.

Também andei pensando (isto é, pensei enquanto andava) em palavras e expressões que, de tão usadas e abusadas, tornaram-se clichês, banalizando nossa fala e nossa escrita. Como estou com preguiça de pensar (o que já é um lugar-comum), não fiz muito mais do que alinhavar algumas delas.

Suponhamos que alguém lhe diga que você não tem um “pingo de vergonha na cara”. Você tem uma “vaga lembrança” de conhecer aquela pessoa, mas não tem a mais “pálida ideia” do que ela está falando. Talvez ela haja movida por uma “ponta de inveja”. Você observa nela certa “ingenuidade infantil” e também “sinais de ciúme”. Na sua “amarga decepção”, você lembra que “quem vê cara não vê coração”. Não querendo ficar com “cara de palhaço”, você a convida para um “dedo de prosa”, acompanhado de uma “generosa dose de uísque on the rocks”. Quando nenhum dos dois está mais enxergando um “palmo diante do nariz” e a voz está “por um fio”, saem do bar e, se tiverem uma “sorte danada”, daquelas de quem “nasce virado pra lua”, acabam chegando em casa, graças à “iluminação feérica” das ruas.

Lá você encontra aquele “pedaço de mau caminho” que é a sua “cara-metade”. Num “assomo de coragem”, resolve enfrentar o “rompante de raiva” dela, que pode chegar a “acessos de fúria”, pois há uma “sutil diferença” entre os dois “estados de ânimo” da “patroa”. Após um “momento de indecisão”, reconhecendo que você só tem “escassos recursos”, quando ela está “beirando o desespero” ou “as raias da loucura”, você aponta para o “pingo de gente” que está dormindo “no recinto sacrossanto do lar”. Ela então, levada por um “instinto maternal”, fica “meio sem graça” e lhe concede “um “sorriso amarelo”. Não é a “calorosa recepção” que você esperava, mas, de certa forma, é uma “crítica construtiva”.

Na manhã seguinte, “mortalmente arrependido”, pois, sem “sombra de dúvida”, a situação não está muito boa para o seu lado, e sabendo que ela está “coberta de razão” ─ pra falar a verdade, com “carradas de razão” ─, você evita “cair no ridículo”, “sai de fininho” e,” de cabeça baixa”, vai ganhar “o pão de cada dia”, mais abatido do que time que perde a partida “no último segundo do segundo tempo” e vai direto para a “zona de rebaixamento”. Na mesa de cabeceira, fica um bilhete, escrito em “letras garrafais”: “Um beijo no coração”

Mas, “no fim das contas”, ou seja,” por último, mas não menos importante”, e não tendo como “fechar com chave de ouro” esta conversa “sem eira nem beira”, só me resta confiar na “santa paciência” dos leitores e fazer “sinceros votos” de que eles voltem a esta coluna na próxima quinzena. Afinal, “a esperança é a última que morre”.

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Lembrar e esquecer

quarta-feira, 27 de agosto de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Vasculhar o passado e com ele sofrer duas vezes o mesmo sofrimento

“A memória voou da minha fronte”, diz Cecília Meireles, no poema “Despedida”, no qual, como em tudo que escreveu essa poeta superior, transbordam o lirismo, a delicadeza, a espiritualidade. Ler Cecília é mergulhar nas águas infindas das palavras sensíveis, é ser tocado, a um só tempo, pela beleza do verso e a elevação do sentimento.

Vasculhar o passado e com ele sofrer duas vezes o mesmo sofrimento

“A memória voou da minha fronte”, diz Cecília Meireles, no poema “Despedida”, no qual, como em tudo que escreveu essa poeta superior, transbordam o lirismo, a delicadeza, a espiritualidade. Ler Cecília é mergulhar nas águas infindas das palavras sensíveis, é ser tocado, a um só tempo, pela beleza do verso e a elevação do sentimento.

 “A memória voou da minha fronte” me levou a pensar, não nas alturas poéticas a que sobe o poema (ai de mim!), mas nesses esquecimentos banais do nosso dia a dia, de nossas horas tão sem poesia. Esquecer o nome de um antigo conhecido, esquecer o rosto da que um dia foi amada, esquecer o bem que nos fizeram e também ─ se Deus ajudar ─ esquecer o mal que nos fizeram. Esquecer a data, esquecer a hora. Simplesmente esquecer. Deslembrar.

Alguém estanca à sua frente e dispara: “Lembra de mim?”. Sim, você já viu aquele rosto, talvez com menos rugas e mais cabelos, já olhou aqueles olhos, quando ainda tinham algum brilho, já ouviu aquela voz, quando ela não tremia. Mas onde, Deus meu?! Quando? Como explicar que não é descaso, que não é indiferença, que não é orgulho? É simplesmente que a memória voou de sua fronte.

Às vezes acontece passarmos por uma pessoa que nos dirige um rápido olhar, seguido de um imperceptível gesto de cabeça. Respondemos com igual parcimônia para, segundos depois, nos darmos conta de que era aquela garota que se sentava ao nosso lado no Ensino Médio, na Idade Média, ou um pouco depois. Sim, devíamos ter parado, cumprimentado: “Você não mudou nada!” Mas como encontrar no que nós somos hoje o que fomos outrora? Cecília Meireles já havia perguntado: “Em que espelho ficou perdida a minha face?”

Mas também como se lembrar de tudo? Mais ainda: para que se lembrar de tudo? O esquecimento é uma sabedoria do cérebro, e o cérebro não é uma gaveta emperrada que vamos enchendo de papéis velhos, fotografias cobertas pela poeira do tempo, contas pagas e outras por ─ quem sabe um dia ─ pagar. A palavra na hora errada, a pessoa errada na hora da palavra. Disso nos arrependemos, mas arrepender-se deve servir para mudar, refazer, corrigir, não para vasculhar o passado e com ele sofrer duas vezes o mesmo sofrimento.

Cérebro ─ computador que faz por nós o que não saberíamos fazer: decidir entre o que se ergue no espaço da memória, e o que tomba no baú do esquecimento. Dele se esvai tanta coisa, mas outras ficam. E talvez só fique o que realmente vale a pena ser lembrado, pois, como escreveu Drummond, “O que se partiu cristal não era”.

A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?

(Cecília Meireles)

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Microconto: TESTE

Mudou-se para bem longe, a fim de se esquecer daquele homem. Três meses depois, o teste de gravidez provou que ela jamais o esqueceria.

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Os alquimistas

quarta-feira, 13 de agosto de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Muitos homens seriam capazes de matar por um punhado de terra

Muitos homens seriam capazes de matar por um punhado de terra

Um informante que eu tenho nos altos escalões da União Europeia me segredou (verdade que a imprensa já havia noticiado fartamente) que cientistas locais conseguiram transformar chumbo em ouro. Não, não é piada. Não vou explicar, porque não entendo, nem você, embora muito mais inteligente do que eu, vai entender. Mas, em linhas gerais, foi o seguinte: um aparelhinho chamado acelerador de partículas fez trombarem dois pedaços de chumbo numa tal velocidade que mais parecia Bruno Henrique disparando pela lateral em jogo do Flamengo (o jogo é sempre do Flamengo, o outro time é complemento, embora às vezes o complemento vença). Pois bem, o choque foi tamanho que três partículas de chumbo pularam fora e aí, milagre dos milagres da ciência, um metal até modesto se transformou no mais valioso dos metais.

Infelizmente, o ouro produzido em laboratório durou literalmente menos do que um piscar de olhos e se desfez. É crer sem ver, mesmo porque não deu tempo de ver. Portanto, não foi possível guardarem prova da experiência, ainda que a tenham repetido várias vezes com sucesso. Uma pena, quem sabe era um jeito de o mundo produzir comida até para as crianças famintas dos países pobres ou em guerra. Se bem que, se a Terra fosse feita de ouro, muitos homens seriam capazes de matar por um punhado de terra. E, de qualquer forma, sempre haveria aqueles que encheriam a sacola, enquanto outros no máximo poderiam ser carregadores de sacolas. Apesar do ouro natimorto, os cientistas consideram o resultado um êxito total, que abre portas para grandes avanços da humanidade. Veremos (se ainda ficarmos neste planeta por um bom tempo).

Fazer pedra no meio do caminho virar metal precioso era o sonho dos antigos alquimistas. Também ambicionavam descobrir a cura de todas as doenças, inaugurando assim a vida eterna, antes que Deus resolvesse concedê-la. Jorge Ben Jor canta que “os alquimistas estão chegando”, e que “eles são discretos e silenciosos”. Mesmo assim, não chegaram nem perto do que os cientistas europeus conseguiram. Quem de certa forma se deu bem nessa empreitada foi Paulo Coelho que, com o livro “O Alquimista”, encheu a conta bancária, apesar dos críticos literários, e talvez com a ajuda involuntária deles.

Pra falar a verdade, não me impressionei muito com nada disso. Há muitos anos venho transformando em meio de vida os meus modestos vencimentos mensais, que melhor se chamariam derrotas mensais. Não sobra dinheiro no fim das contas, mas pelo menos tenho evitado que sobre contas no fim do dinheiro. Os verdadeiros alquimistas talvez sejam os trabalhadores, que conseguem viver do que ganham com o suor do próprio rosto, num mundo onde tantos vivem graças ao suor do rosto alheio. Ou talvez, ao contrário, os verdadeiros alquimistas sejam os que vivem entre iates e boates, palacetes e banquetes, enriquecendo enquanto dormem, dormindo enquanto enriquecem, sonhando indiferentes ao pesadelo que é a vida de muitos dos seus (des)semelhantes.

*****

Microconto: PREJUÍZO

Para fazer o curso, hospedou-se em hotel. Sem dinheiro, ficou 10 dias a pão e água. Saiu magro e abatido e sem saber o significado de “all inclusive”.

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Não quebre a corrente

quarta-feira, 30 de julho de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Edwiges é também protetora dos endividados, e pode ser essa a razão de me encaminharem esses papeizinhos

Edwiges é também protetora dos endividados, e pode ser essa a razão de me encaminharem esses papeizinhos

Certa senhora (nunca menciono as senhoras incertas), atualmente meio gorduchinha, teve a gentileza de me ofertar uma simpatia para perder peso. Um tanto descrente dessas fórmulas miraculosas, ainda não coloquei em prática os sábios conselhos ali contidos. Na verdade, tenho medo de ganhar peso e perder simpatia, e esta já é bem pouca. Se bem que, na velha casa dos meus avós, um galho de árvore benzido foi, durante toda a minha infância, uma infalível simpatia contra raios e tempestades. O mundo podia desabar lá fora que nada nos assustava, protegidos que estávamos, senão pelo galho de árvore atrás da porta, ao menos pela fé que tínhamos nele.

Por isso reconheço e louvo a boa intenção dessas pessoas que querem nos salvar a aparência, a saúde e, coisa ainda mais difícil, a alma. Frequentemente encontro na minha caixa de correspondência uma folha manuscrita contendo a “Verdadeira Oração de Santa Edwiges”. Meus amigos, santa poderosa está aí, capaz de fazer milagres que até a Deus custariam algum esforço. Por exemplo, diz a autora (suponho que seja mulher) que, se eu distribuir treze cópias da oração, receberei uma grande herança. Rememoro toda a minha árvore genealógica e concluo que ela não passa de um galho seco. Entre meus parentes laterais, colaterais, ascendentes e descendentes, só encontro gente de bolso vazio. Mas Edwiges é também protetora dos endividados, e pode ser essa a razão de me encaminharem esses papeizinhos.

Mas a carta cita vários exemplos para provar que não está falando sem base. O fazendeiro John Mills, do Ohio, ouviu os bons conselhos e herdou cento e trinta mil dólares de uma tia irlandesa que, ao morrer, teve a feliz ideia de dividir a fortuna entre o gato de estimação e o sobrinho desconhecido. Shiri Panka, do Paquistão, embora sendo budista e não acreditando em Santa Edu, ou em qualquer outra santa católica, resolveu não arriscar, copiou a carta treze vezes com pena de ganso, mandou as cópias para a família da esposa e no dia seguinte encontrou uma dúzia de elefantes em seu quintal. Aproveitou a sorte e abriu uma empresa de transporte. Já o Sr. Adhemar Tírio, do interior da Bahia, recebeu a corrente e jogou-a fora. Resultado: uma semana depois, a sogra mudou-se para a casa do infeliz, acompanhada de um papagaio desaforado. Arrependido, Adhemar Tírio reatou a corrente e, coincidência ou não, a velha morreu na semana seguinte, tendo o papagaio, logo depois, virado galeto.

Realmente, não vale a pena ser cético. Respeitemos, ainda que sem cumprir, simpatias, correntes e tudo o mais com que pessoas de boa fé e boa vontade queiram melhorar nossa vida. Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa fã vilania, já disse alguém antes de mim (ou será que a frase não é bem assim?).

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Voo para o infinito

quarta-feira, 16 de julho de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Carros são varejistas da morte; aviões, atacadistas

Carros são varejistas da morte; aviões, atacadistas

Com certeza vocês tomaram conhecimento do desastre aéreo que matou duzentas e noventa pessoas na Índia. Isso é muito triste, nem dá para imaginar o sofrimento de quem perdeu, de forma tão inesperada, alguém a quem amava. Às vezes, no mesmo acidente, mais de uma pessoa amada. Embarcaram para Londres e voaram para o infinito. Ou foram atingidos em terra mesmo: a morte pousou sobre eles quando estavam com os pés solidamente plantados no chão. Muito triste, mas não surpreendente. Os aviões são muito seguros, morre mais gente nas estradas do que nos ares, o lugar onde mais se morre é na cama, etc., etc., etc. O problema é que o avião, quando cai, não costuma deixar ninguém para contar como foi. Carros são varejistas da morte; aviões, atacadistas.

O espantoso é que havia duzentas e quarenta e duas pessoas a bordo. Ou seja, uma escapou. Isso, sim, é extraordinário. Por que um foi poupado, que anjo abriu as asas sobre Vishwakumar Ramesh no momento em que tudo em volta explodia e queimava? Milagres, mistérios, acasos que nunca chegaremos a compreender. Compreenderemos, talvez, quando tudo terminar também para nós, quando finalmente chegar aquela que Manuel Bandeira chamou de “a Indesejada das gentes”. Essa sempre vem, pois, como disse Dag Hammarskjöld, “Não procure a morte, ela o encontrará.”

Ninguém morre na véspera, ensina o ditado popular, com a sabedoria comum aos axiomas que saem da boca do povo. Um rapaz perdeu o fatídico voo indiano porque o trânsito o atrasou. “Maldito trânsito!”, deve ele ter praguejado antes. “Bendito trânsito!”, deve ele ter agradecido depois. Quantas vezes não ouvimos dizer “salvou-se por um triz”? Mesmo sem saber o que significa triz, entendemos que foi por muito pouco, foi um quase nada que desviou a bala, que parou o carro, que evitou o tombo fatal.

Na verdade, vivemos por um triz. Vai alguém caminhando pela calçada e, sem mais avisos, o coração diz “cansei!” e interrompe definitivamente a caminhada. Dormimos sem ter certeza de que acordaremos, acordamos sem saber se alcançaremos o fim do dia. Embarcamos e talvez não cheguemos aos braços de quem nos espera. E, como se a morte não ceifasse por conta própria, os homens inventam meios de ajudá-la, cultivando ódios, inventando guerras, semeando violência no dia a dia.

Mas vamos amenizar a conversa. Porque a vida, embora tão frágil, ainda “vale a pena se a alma não é pequena”. Além do mais, viver pensando na dolorosa realidade que nos cerca é ir morrendo aos poucos, e de que nos adianta isso? Se prestarmos bem atenção, veremos que por todo lado há coisas boas acontecendo. Somadas, elas certamente são maiores do que todas as más notícias que nos atingem. Não fechemos os olhos aos aviões que caem, mas não deixemos de olhar, com intensidade ainda maior, os lírios nos campos e as aves no céu. 

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A roseira

quarta-feira, 02 de julho de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Aquilo que, desde o princípio dos tempos, estamos destinados a ser

Eu não sou propriamente um latifundiário, mas também sou dono de terra. Verdade que nem posso chamar aquilo de jardim, jardinzinho já é um exagero. Para você ter uma ideia, basta dizer que, se eu quisesse botar ali aqueles anões que enfeitam gramados, haveria lugar para no máximo dois, mais do que isso não ia caber. “Branca de Neve e os dois anões” seria um nome bem adequado para o local.

Aquilo que, desde o princípio dos tempos, estamos destinados a ser

Eu não sou propriamente um latifundiário, mas também sou dono de terra. Verdade que nem posso chamar aquilo de jardim, jardinzinho já é um exagero. Para você ter uma ideia, basta dizer que, se eu quisesse botar ali aqueles anões que enfeitam gramados, haveria lugar para no máximo dois, mais do que isso não ia caber. “Branca de Neve e os dois anões” seria um nome bem adequado para o local.

Pois bem, neste planeta tão grande, aquele é o único pedaço de chão que me pertence, e nele existe uma roseira. Um espanto! Há mais de vinte anos que ela insiste em dar flor. Claro que, sendo uma senhora de idade já avançada, não tem mais o vigor dos tempos de juventude, quando obrigava os passantes a pararem para contemplá-la. No entanto, está viva e, quando menos se espera, os galhos pendem, e de suas extremidades teimosas rosas brancas se abrem para o mundo.  

Tenho tentado entender o segredo dessa roseira. Há nela algum mistério, algo mágico, insondável. Botânicos de todo o mundo deviam vir estudá-la. Plantar um pé em Marte e ver o que acontece. A muda me foi dada por um vizinho. Ele foi-se embora, demoliram a casa em que ele morava, o bairro inteiro mudou de cara e de moradores. Mas a roseira continua resistindo e, enquanto ela resistir, eu não desisto. Daqui não saio, daqui ninguém me tira, como diz um antigo sucesso de Carnaval. Bem sei que um dia vão me tirar daqui e bem sei para onde vão me levar, mas, enquanto Deus permitir, vou ficando. Eu e a roseira.

Ela me dá esse exemplo de saudável teimosia. Ainda que a cada dia as flores sejam menos numerosas (às vezes uma só: solitária, mas vitoriosa), e mais curvados os galhos, ela continua cumprindo sua missão de embelezar e perfumar o lugar em que a colocaram. Vai cedendo ao peso dos anos, mas com admirável dignidade, sem entregar os pontos, sem deixar de florir enquanto tiver forças. Alimenta-se de solo e de sol, de ar e de chuva. Vem o jardineiro de vez em quando, e sua tesoura impede que os galhos se espalhem desordenadamente. Mas as partes amputadas se renovam e voltam à vida.

Como é mesmo aquele poema de Olavo Bilac? “Envelhecer como as árvores fortes envelhecem, dando consolo e sombra aos que padecem”. É um bom conselho, sobretudo num mundo em que envelhecer parece um pecado, ao qual as pessoas resistem com a mesma intensidade com que cedem aos pecados verdadeiros. Sim, ninguém quer ou precisa ficar feio e acabado. Nada contra quem usa perfumes e pomadas, até mesmo o tal do lifting pode ter sua hora. E, não fosse a vaidade humana, de que viveriam os cirurgiões plásticos? Eu não faço nada disso porque lá em casa tem uma pessoa que me chama de lindo, e eu prefiro acreditar. Além do mais, acho que a roseira do meu liliputiano território, ensina uma bela lição: ser, da maneira mais natural, mais duradoura e mais perfeita possível, aquilo que, desde o princípio dos tempos, estamos destinados a ser.

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Fazendo cera

quarta-feira, 18 de junho de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Sim, já fomos piores do que somos!

A Fifa decidiu que seja punido com um escanteio o time cujo goleiro retiver a bola por mais de oito segundos. A regra já existia, mas o tempo era menor e quase nunca aplicada. Enquanto o juiz botava a boca no trombone, ou melhor, o apito na boca, o goleiro já tinha se livrado da bola e ficava impune. Pode ser que agora essa prática antijogo seja eliminada ou ao menos reduzida. Em oito segundos até quem não entende de futebol é capaz de tomar a decisão de apontar para uma das quatro esquinas do gramado.

Sim, já fomos piores do que somos!

A Fifa decidiu que seja punido com um escanteio o time cujo goleiro retiver a bola por mais de oito segundos. A regra já existia, mas o tempo era menor e quase nunca aplicada. Enquanto o juiz botava a boca no trombone, ou melhor, o apito na boca, o goleiro já tinha se livrado da bola e ficava impune. Pode ser que agora essa prática antijogo seja eliminada ou ao menos reduzida. Em oito segundos até quem não entende de futebol é capaz de tomar a decisão de apontar para uma das quatro esquinas do gramado.

Mas o que me chamou a atenção nem foi essa oportuna providência da Fifa. Foi a expressão usada por quem redigiu a notícia: “fazer cera”. Eu pensava que ninguém mais no mundo falasse e menos ainda que escrevesse coisa tão antiga. Acho que no velho Egito, quando um escravo custava a levantar uma pedra da pirâmide, lá vinha o soldado dando chibatadas e gritando: Para de fazer cera! Ou seja, é dos tempos em que nem existia futebol. Se bem que bater bola chutando o crânio dos inimigos mortos em batalha é coisa do tempo dos faraós. Até porque na época a criançada não tinha muitos brinquedos e uma cabeça humana era perfeita para uma pelada, mesmo que ainda estivesse cabeluda. Sim, já fomos piores do que somos!

“Fazer cera” me fez lembrar palavras que antigamente tinham lugar de destaque na fala das pessoas e que caíram no esquecimento, mudaram de sentido ou que ainda são usadas quando um coroa de cabelo branco (ou pintado) abre a boca. Por exemplo, de uma pessoa atraente se dizia que era boa pinta, o tipo que onde chegasse botava pra quebrar. Um broto era uma garota bonita, se tivesse borogodó, aí mesmo é que ninguém resistia. Não sei como atualmente se elogia uma jovem bonita, há muito ando afastado desses galanteios. A verdade é que estou boiando nesse assunto. Ou, dizendo de outra forma: não saco patavinas dessas coisas do arco da velha. Bulhufas!

Enfim, tudo muda. As palavras, então, não se pode confiar nelas! Mal a gente se acostuma com o significado de uma e esse significado já significa outra coisa. Tomemos a palavra “manco”, que no uso geral significa coxo, ou seja, aquele que, como ensinam os dicionários, “caminha apoiando-se mais em uma das pernas”. Pois Cervantes, o grande gênio da literatura universal, era conhecido como “O Manco de Lepanto”, por ter perdido, durante uma batalha naval, uma das... pernas? Não! Uma das mãos. Aliás, só de olhar já dá para desconfiar que “manco” vem de “mão”. De como essa palavra caiu das mãos para os pés, eis aí uma tarefa para os etimologistas.

Outro dia encontrei um conhecido que há muito não via, e a primeira coisa que ele me disse foi “mas você não mudou nada!” A princípio, pensei que ele estava me confundindo com outra pessoa, naturalmente mais jovem. Depois pensei que estivesse sendo irônico, como se quisesse dizer: “Caramba, você está um caco!” Mas seu sorriso cordial me convenceu de que era apenas uma gentileza. Mas nem esse tipo de gentileza é totalmente isento de perigo. Imagine a reação de uma senhora que tenha feito plástica e ouça “você não mudou nada”, quando na verdade esperava ouvir: “A cada dia você está mais jovem e mais bonita!” Bem, aí o jeito é começar a fazer cera!

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A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

A batalha dos lençóis

quarta-feira, 04 de junho de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Ou então perguntar aos sul-coreanos se não querem comprar brasileiros e brasileiras

Ou então perguntar aos sul-coreanos se não querem comprar brasileiros e brasileiras

A notícia é grave: a Coreia do Sul, um dos países mais ricos do mundo, pode acabar. Isso mesmo: deixar de existir, sumir do mapa. E a razão não é nenhuma guerra, epidemia, tsunami ou coisa do gênero. Você dirá que isso não passa de notícia falsa (mais conhecida como fake News), ou encheção de linguiça de cronista sem assunto. Mas se impérios acabam, por que não um país, e ainda mais um país cujo território não é nenhuma Amazônia? Se o Brasil fosse um dedo, a Coreia do Sul seria um pedacinho de cutícula.

Se lembra do Império Romano, ou estava tiktokando no celular durante essa aula de História? Eu até já estudei isso, mas foi no tempo do quadro negro e do puxão de orelha, e não guardei grandes coisas. “Varreu-se-me da memória”, como dizia o personagem de uma antiga novela de televisão. Vagamente me lembro de que as botas dos soldados romanos marcharam sobre meio mundo, durante quase cinco séculos. Até com Jesus eles acharam de implicar. Pior do que as botas eram as lanças e as espadas, que costumavam cutucar quem não fosse patrício e estivesse pela frente. E, no fim das contas, o grande império partiu-se em tantos pedaços que sobrou um pedacinho até pra nós, brasileiros.

        Voltemos ao país asiático, que anda (ou melhor, não anda) aí pela casa dos 50 milhões de habitantes. O problema é que lá a cada ano só nasce 0,72 criança por casal. O ideal para que uma população não entre em decréscimo é de dois filhos, para compensar os que vão para a outra vida (contra a vontade, mas vão). Quer dizer, são necessários pelo menos dois casais bem dispostos para produzir um bebê sul-coreano. De tal modo os homens e mulheres de lá andam desanimados em colaborar para a sobrevivência do seu povo que o governo se vê na obrigação de se meter na cama alheia. Programas de incentivo a encontros amorosos, mensagens animadoras, incentivos fiscais. O governo tem feito o que pode. O resto depende de os cidadãos e cidadãs se decidirem a entrar nessa guerra de salvação nacional, ir com coragem para a batalha dos lençóis. E, vamos falar a verdade, nem é tanto sacrifício.  

Coisa semelhante aconteceu na Alemanha. E ficou tão grave que um ministro foi à televisão conclamar o pessoal a que se animasse a ter mais filhos. E concluiu sua fala com essa sábia recomendação: “E agora, desliguem a televisão e vão para o quarto cumprir seu dever patriótico”. Acho que o Brasil não está precisando de conselhos desse tipo. Talvez seja até o caso de recomendar o contrário: “Calma pessoal!” E desde já sugiro o slogan para a campanha: “Por amor ao país, amem um pouco menos”. Ou então perguntar aos sul-coreanos se não querem comprar brasileiros e brasileiras. Negócio de ocasião! Como bem sabem os economistas, quando há excesso de oferta, o preço cai. E nós estamos com gente sobrando, principalmente depois que Trump mandou de volta para casa os que ele achou que eram demais nos Estados Unidos.

O perigo é acontecer o oposto. Quer dizer, a chegada dos brasileiros provocar uma explosão demográfica e que dentro de poucos anos haja tanto sul-coreano com cara de sul-americano que não caibam nos 100.000 km2 daquele país. É, pensando bem, é melhor deixar que eles resolvam seus problemas sem nossa valiosa ajuda. Não vamos nos meter nos lençóis alheios.

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