Blog de roberiocanto_18846

Por causa de um acento

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026
por Robério Canto

Muitas e estranhas conversões têm ocorrido embaixo dos lençóis

Não é que a última reforma ortográfica, entre outras coisas, eliminou alguns acentos!  A ideia tem adeptos e adversários. Eu estou nessa briga como a Suíça quando os outros países resolvem fazer guerra: na maior neutralidade. Cada um que ponha o assento se quiser e onde quiser.

Muitas e estranhas conversões têm ocorrido embaixo dos lençóis

Não é que a última reforma ortográfica, entre outras coisas, eliminou alguns acentos!  A ideia tem adeptos e adversários. Eu estou nessa briga como a Suíça quando os outros países resolvem fazer guerra: na maior neutralidade. Cada um que ponha o assento se quiser e onde quiser.

Mas uma coisa nem mesmo os mais entusiasmados adeptos da abolição da escravatura e dos acentos podem negar: há casos e casos. Outro dia ouvi na TV que um autonomeado pastor havia arrebanhado a esposa do vizinho tanto para sua igreja quanto para sua cama, não sei se nessa ordem. Talvez a cama tenha vindo antes, muitas e estranhas conversões têm ocorrido embaixo dos lençóis. Simplificando, o tal homem havia entrado como o terceiro na relação conjugal, aliás, com a completa aquiescência do bom marido. Este, ouvido pela imprensa, mansamente declarou que, se assim era a vontade divina, ele aceitava dividir a companheira com aquele guia espiritual que havia revelado para ambos o caminho da salvação.

Mas o que tem isso a ver com reforma ortográfica?, perguntará o leitor. Pergunta pertinente, ainda que um pouco apressada. Tem a ver que, para assim proceder, o religioso dizia se basear na Bíblia. Bem sabemos que, lida ao pé da letra, o que não falta na Bíblia são coisas antibíblicas: guerras, assassinatos, traições, e assim vai. Às vezes até parece que o mundo estuda a Palavra Sagrada somente para fazer exatamente o contrário do que ela ensina.

Mas voltemos à pergunta do leitor apressado. “Para quem sabe ler um pingo é letra”, dizia um antigo ditado. Como nem os ditados antigos resistem ao racionalismo do mundo moderno, atualmente se diz que para quem sabe ler um pingo é pingo, só analfabeto é que acha que um pingo é letra. O fato é que, dependendo das circunstâncias, qualquer sinalzinho vale mais do que uma palavra inteira. E é aí que entra a história de dois pastores para uma só ovelha.

Para provar ao repórter que tinha direito àquela mulher, o religioso valeu-se da mesma passagem bíblica com que convencera os frequentadores do seu templo e que, com especial paciência e particular interesse, explicara ao marido. Diante das câmeras, solenemente apanhou as Escrituras e leu a recomendação divina, transmitida por Ezequiel: “Sim, você é uma esposa adultera”. Ali estava a prova: vinda de onde vinha, era mais que uma permissão, era uma ordem: “adultera”.

Mas vocês sabem como são esses repórteres, não se contentam com os próprios lenços, metem o nariz onde ninguém os chamou. No caso, o repórter meteu o nariz entre as páginas da Bíblia e foi logo acusando: “Mas tem acento no U. Não está escrito “adultera”, e sim “adúltera”.

O pastor mostrou-se verdadeiramente surpreso:

─ Ora, vejam só! Um sinalzinho tão pequeno, quase não se nota!

 Apesar da inelutável evidência ortográfica, o bom pastor não entregou os pontos e argumentou que, sim, havia cometido um erro, mas quase tão imperceptível quanto o acento que o causara. De modo que, estando o erro já consolidado, e uma vez que o marido não se opunha ao engenhoso arranjo religioso-conjugal, ele continuaria atuando como pastor para os fiéis em geral e, no caso particular daquela senhora, continuaria acumulando as funções de pastor do corpo e da alma.

E ainda tem gente que acha que os acentos não valem nada! Com eles ou sem eles pode-se adulterar até mesmo o Livro Sagrado! E não vai você agora sair por aí dizendo que eu estou criticando quem quer que seja. Por favor, não adultera o que eu escrevi!

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Microconto: No semáforo

Tinha medo de apanhar chuva e de morrer resfriada. Para não se molhar, atravessou a rua correndo. Pena que o sinal estava aberto para os carros.

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O X da questão

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Use a sua inteligência: não sei qual, mas ela existe e é muito maior do que você pensa

A acreditar no que dizem alguns cientistas, é a mãe que transmite a inteligência aos filhos, com pequena contribuição dos pais. Não que eu desfaça do seu intelecto, leitor, mas o fato é que as mulheres são mais inteligentes do que os homens. Sempre? Também não! Só em 99% dos casos. E a razão, dizem os pesquisadores, é que elas possuem dois cromossomos X, onde residem os “genes da cognição”, enquanto os machos, coitados, têm apenas um xizinho. Esse é o X da questão.

Use a sua inteligência: não sei qual, mas ela existe e é muito maior do que você pensa

A acreditar no que dizem alguns cientistas, é a mãe que transmite a inteligência aos filhos, com pequena contribuição dos pais. Não que eu desfaça do seu intelecto, leitor, mas o fato é que as mulheres são mais inteligentes do que os homens. Sempre? Também não! Só em 99% dos casos. E a razão, dizem os pesquisadores, é que elas possuem dois cromossomos X, onde residem os “genes da cognição”, enquanto os machos, coitados, têm apenas um xizinho. Esse é o X da questão.

Mas como toda medalha tem dois lados, além das bordas, também há pesquisadores que não embarcam nessa canoa, ou pelo menos ficam com um pé na canoa e outro na praia. Para estes, a inteligência não é apenas um presente materno. Outros genes interferem, além de fatores ambientais, educação, convivência e toda sorte de estímulo que se receba ou não. Portanto, a sabedoria do seu filho, minha senhora, assim como a dos macacos e dos golfinhos (sem querer comparar!) é também obra paterna.

Esse assunto me fez lembrar um episódio ocorrido entre Bernard Shaw ─ genial, mas feioso, e uma atriz ─ lindíssima, mas um tanto burra. Ela lhe teria proposto casamento, sugerindo que os filhos herdariam a beleza da mãe e a inteligência do pai. Prudentemente, Shawn respondeu: “E se acontecer o contrário?” Sim, sempre há algum risco e, mesmo que não houvesse, não existe beleza ou inteligência, por maiores que sejam, que valham mais do que a voz que conforta, o abraço que acolhe, a mão que se estende.

Um consolo e um estímulo para quem julga ter uma cabeça mais dura que a Pedra do Cônego é a teoria das Múltiplas Inteligências, criada pelo psicólogo americano Howard Gardner. Segundo ele, além da inteligência linguística e matemática, merecidamente reconhecidas e valorizadas, existem pelo menos mais sete, tão importantes quanto. E, melhor ainda: ter uma predominante não exclui ter as outras.

Não vou me alongar no assunto, e não é por modéstia ou falta de espaço, é por ignorância mesmo. Quase nada conheço do assunto. Mesmo assim, me arrisco a dar um exemplo: a inteligência interpessoal, que é a capacidade de ter empatia, entender os outros e interagir com eles.  É ela que permite (e a falta dela dificulta) construir bons relacionamentos, atuar em grupo, amenizar desentendimentos, resolver conflitos.

E você, o que preferiria, se tivesse que escolher como companhia para a vida toda ou mesmo como simples companheiro de trabalho: um gênio em física quântica, ou um bom amigo, verdadeiramente solidário, capaz de comparecer, socorrer, compartilhar? Antes de responder, use a sua inteligência: não sei qual é, mas ela existe e é muito maior do que você pensa.

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Microconto: Bailarinas

Sabia que nenhum concorrente tinha como impedir sua vitória. Mas só ao pisar no palco é que sentiu a pedrinha na sapatilha. Ficou em segundo lugar.

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O robô cozinheiro

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Pelo menos para uma outra coisa eles servem, se não, como é que iam existir mães e bebês?

Pelo menos para uma outra coisa eles servem, se não, como é que iam existir mães e bebês?

Há anos, participei de um encontro cujo tema era a criação dos filhos, situação em que, na época, eu me encontrava, ou, mais propriamente, me desencontrava, com três filhos pequenos e tentando ensinar português a sei lá quantos alunos: eram talvez duzentos: pareciam milhões. Os palestrantes cobriram as mulheres de elogios, todos muito merecidos, sem dúvida. Merecidos e insuficientes, porque elas merecem ser louvadas em prosa e verso, merecem toda a literatura já escrita no mundo.

Foi naquele encontro que conheci o conceito de “maternagem”, que é algo mais do que maternidade. É a maternidade acrescida daquela mensagem que, em silêncio, o coração materno diz ao recém-nascido: “Eu te amo, fique tranquilo”. O bebê reencontra a paz quando é colocado no colo da mãe pela primeira vez.  Ele estava navegando no paraíso e, de repente, foi atirado para fora das águas tranquilas que o agasalhavam. Ao ser abraçado pela mãe, ele descobre que pode voltar a dormir em segurança, e que o mundo aqui fora também pode ser um bom lugar para se viver.

Mas, lá pelas tantas, comecei a me sentir uma vassoura sem piaçaba, uma faca enferrujada, uma colher sem cabo, uma lâmpada queimada. Enfim, um imprestável utensílio doméstico. Ousei então perguntar para que serviam os pais. A resposta que me deram pouco me consolou: “Para dar apoio às mães”.  Calei a boca, mas no fundo achava, e acho, que pelo menos para uma outra coisa eles servem, se não, como é que iam existir mães e bebês?

Agora, tantos anos depois, leio que uma empresa alemã criou um robô que cozinha melhor do que o mais consagrado dos chefs internacionais. Já preparou um cardápio de cento e oitenta pratos, e quem provou diz que são deliciosos. Basta deixar os ingredientes à mão e fazer o pedido, ou os pedidos, porque o danado é capaz de preparar dezenas de refeições ao mesmo tempo e em poucos minutos. Infelizmente, nem adianta você, caro leitor, ou leitora ainda mais cara, querer reservar mesa para um romântico jantar a dois. No momento, saborear as maravilhas desse mestre-cuca está um pouco além dos trocados que você tem no banco. É coisa para o garfo do trilionário Elon Musk.

Até aí tudo bem, sou a favor de todos os progressos, sobretudo o progresso gastronômico. E espero o dia que há de vir em que até assalariado brasileiro poderá sentar-se à mesa e pedir ao garçom: “Traz aqui o robô cozinheiro que eu quero fazer meu pedido diretamente a ele”. Enfim, sonhar não custa nada, é mais barato do que um prato de angu.  

A essa altura, você estará pensando que eu fiz uma sopa maluca, comecei na maternidade e acabei na cozinha. Não é bem assim. É que o robô também lava e arruma as louças e talheres, com robótica perfeição. Diante dessa notícia, eu me lembrei daquele encontro de que falei acima, no qual me senti um inútil, diante da multiplicidade de talentos femininos. Eis que atualmente meu maior orgulho é lavar a louça das refeições. Ponho os pratos, copos e talheres brilhando e me sinto um herói, digno da admiração e do respeito da família e da sociedade. Pois até essa última glória me vai ser tirada, pois tão logo o robô cozinheiro esteja nas lojas, minha mulher vai querer comprar um e aí o que me restará? Dar apoio ao robô, e olhe lá!

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Microconto: Acidente

Saiu do bar já meio tonto e viu os faróis brilhando no cruzamento das ruas. Quando abriu os olhos, só via máscaras, tubos, fios e luzes que piscavam.

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O relógio da fábrica

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Apenas sessenta segundos, mas pesavam muito no fim do mês

Apenas sessenta segundos, mas pesavam muito no fim do mês

Quem passa pela antiga Fábrica de Rendas, hoje transformada em Espaço Arp, pode ver, no alto de uma de suas esquinas, um relógio empoeirado e mudo. Pioneira da indústria local, a fábrica durou um século e fez parte da vida de milhares de famílias friburguenses. Mas chegou o dia em que, às 6h45, o coração do relógio parou de bater, para sempre desligado do tempo que ele, germanicamente, vigiava com tanto afinco. Para os trabalhadores, ele ditava o ritmo da própria vida: era preciso estar atento ao seu tique-taque imperioso. Um minuto de atraso e perdia-se o dia de trabalho e, em consequência, o repouso semanal remunerado. Apenas sessenta segundos, mas pesavam muito no fim do mês, quando o pagamento chegava emagrecido. Era o peso da ausência, do que faltava, do que vinha a menos. Como pesavam os ponteiros daquele relógio!

Mas tinha seu lado bom, servia justamente para que ninguém perdesse a hora: 6h45 era um alerta. E não só para os que ali trabalhavam: a todos que o consultassem, ele permitia que fossem mais devagar, ou ordenava que apressassem o passo, que corressem para pegar o ônibus, que movessem com mais energia as rodas da bicicleta. Sei de um garoto que todo dia, de manhãzinha, pedalava em frente a ele, rumando para a Ypu, na qual ajudava a transformar peças de couro em cintos e carteiras. “Sebo nas canelas, que só tenho 15 minutos para chegar ao portão!” Quando o garoto voltava para casa, o sol já estava encerrando seu expediente. Mas, como “todo o mundo é composto de mudança”, as fábricas fecharam, e o relógio da Arp calou-se, ficou apenas na memória dos que o conheceram e obedeceram ao seu comando.

Havia ainda outra categoria profissional que se guiava pelo relógio: os carregadores de almoço. Quem se lembra deles? Embora as fábricas tivessem refeitório e oferecessem pratos a preço razoáveis, muita gente preferia a marmita com sabor de casa, saída das mãos da mãe ou da esposa. Então, em troca de modesto pagamento, algumas pessoas levavam as refeições até as bocas a que se destinavam. Os carregadores que tinham mais fregueses davam-se ao luxo de empurrar um carrinho de madeira, no qual cabiam várias marmitas. Que se saiba, nunca ninguém passou fome por causa desses humildes trabalhadores. De quantos poderosos se pode dizer o mesmo?

O relógio, que tanta gente viu passar e tanta coisa viu acontecer, agora está lá, em sua eloquente mudez. Seria bom se os responsáveis pelo Espaço o ressuscitassem, em memória de seus longos anos de trabalho honesto e dedicação exemplar. E nem precisava que ele voltasse a marcar as horas. Bastaria que, limpo e restaurado, ficasse como lembrança de um tempo em que a cidade se movia a pé ou de bicicleta, em que a própria vida não tinha motivos para outras correrias além daquelas impostas pelo deslizar dos ponteiros dos relógios das fábricas.

E talvez não fosse descabido colocar em seu pedestal este verso de Mário Quintana: “O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente”.

Foto da galeria
(Foto: Arquivo Pessoal)
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Borboletas e serpentes

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

O amor verdadeiro é um só, e os enganos são muitos

Já pode ter acontecido com você e, se não aconteceu, faço votos de que nunca aconteça. Mas todos nós estamos sujeitos a essas surpresas e é melhor ficar de olho aberto. Ou seja: ficar com o desconfiômetro ligado 24 horas por dia, todos os dias do ano. Amor é coisa complicada, a começar pelo fato de que usamos essa imensa palavrinha para designar certos sentimentos que de amor não têm nada.

O amor verdadeiro é um só, e os enganos são muitos

Já pode ter acontecido com você e, se não aconteceu, faço votos de que nunca aconteça. Mas todos nós estamos sujeitos a essas surpresas e é melhor ficar de olho aberto. Ou seja: ficar com o desconfiômetro ligado 24 horas por dia, todos os dias do ano. Amor é coisa complicada, a começar pelo fato de que usamos essa imensa palavrinha para designar certos sentimentos que de amor não têm nada.

Nesse assunto, a confusão mais comum e perigosa é com a paixão, que nos deixa desnorteados, cegos para a realidade, a ponto de seduzirmos a Bruxa achando que conquistamos Branca de Neve, ou que estamos indo ao encontro de Leonardo Di Caprio quando é o Corcunda de Notre Dame que nos espera no altar. E o pior, dizem os entendidos, é que a paixão é fogo de palha, não costuma durar muito. Logo, logo, o ex-apaixonado começa a achar que, de fato, era a Bruxa, sempre tinha sido a Bruxa, ele é que estivera enfeitiçado todo esse tempo.

Eu acho que a frase mais linda do mundo é “Eu te amo”. Ouvir isso pode causar desmaios, delírios, ataques de loucura e sanidade alternados, além de disparadas que fazem o velho coração explodir e o novo florir no mesmo instante. Olha só algumas declarações de amor encontradas no Google: te quiero, ti amo, je t´aime, I love you. E mais essas, que vou deixar para você pronunciar, porque no momento estou muito ocupado: ich liebe dich (alemão), aishiteru (japonês) wǒ ài nǐ (mandarim), saranghae (coreano), ya tebya lyubly (russo), e por aí vai. Todas lindas, embora, modéstia à parte, “Eu te amo” é insuperável.

Mas, voltando ao começo da conversa. O amor verdadeiro é um só, e os enganos são muitos. Por isso achei oportuno transmitir aos leitores algumas falas que são sinais de que o amor acabou ou está nas últimas.

1. "Não tenho mais vontade de fazer funcionar." Frase de duplo sentido. Interprete como quiser, mas boa coisa não pode resultar disso, principalmente se for dito na cama.

2. “Você é demais para mim”, com a variante “Eu não mereço você”. Parece elogio, mas não se engane: é a preparação para um chute no traseiro.

3. “Tenho pensado muito no meu futuro”. Repare que o romântico pronome “nós” nem passou por perto. Portanto, se alguém razoavelmente interessante tem te lançado meigos olhares, é melhor começar a considerar essa possibilidade.

4. "Isso não está funcionando para mim." Pode ficar sabendo que “isso” significa “nada”, e aí, bye-bye. Como diria Vinicius, “deixe uma bebida por perto porque você pode estar certo que vai chorar”.

5. "É melhor cada um seguir seu caminho". Essa, então, é de matar. Depois disso só resta devolver a aliança (se você ainda souber onde a guardou) ou procurar um tatuador para apagar do braço o nome dele, ou dela. O lado bom é que você pode mandar desenhar por cima uma borboleta (ou uma serpente).

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Microconto: PREJUÍZO

Para fazer o curso, hospedou-se em hotel. Sem dinheiro, ficou 10 dias a pão e água. Saiu magro e abatido e sem saber o significado de “all inclusive”.

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Carta ao futuro

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Um brasileiro que tenha algum juízo e não dê muito azar, passa dos 80

Um brasileiro que tenha algum juízo e não dê muito azar, passa dos 80

Estou escrevendo para você, mas não sei se esta carta chegará às suas mãos feitas de segundos e milênios. Acho que nunca nos conheceremos ─ você está sempre à frente. Tipo muito estranho, simultaneamente parece estar aqui pertinho e a uma distância infinita. Infinito é bem uma palavra que combina com você. Estamos em dois mil e vinte e cinco, numa das muitas maneiras que o homem inventou para dividir o tempo em pedaços. Tempo é outra palavra que lhe cai bem. Tempo e espaço: futuro.

Atualmente, é de desanimar. Coisas tristes se multiplicam por todo lado. Guerras, injustiças, violências, todo tipo de safadeza. Quando você chegar, talvez as coisas tenham melhorado, e você nem acreditará que no passado havia crianças que morriam de fome, num mundo de fartura, em que grande parte do alimento produzido pela terra virava lixo. Tem espaço para todo mundo, mas todo mundo vive brigando por espaço: países poderosos invadem os mais fracos, motoristas são capazes de sair aos socos e pontapés por uma vaga para estacionar. As ruas estão cheias de carros que poluem os céus, os céus estão cheios de aviões e, embora as ruas sejam muitas e os céus um sem tamanho de grande, carros se atiram uns contra os outros, e os aviões às vezes despencam do céu.

Mas toda moeda tem muitos lados, além dos que são visíveis mesmo aos olhos mais distraídos. Há muita gente empurrando para trás a maré suja. Vivemos hoje mais do que nunca. Há cem anos, a média de vida no mundo era de míseros 32 anos: não dava nem tempo pra gente se acostumar. Aqui no Brasil não se passava dos 35: mal se saía da adolescência e já era hora de ir embora. Agora um brasileiro que tenha algum juízo e não dê muito azar, passa dos 80. Às vezes ainda tem prorrogação.

Houve uma época em que homens eram jogados numa arena, onde deviam se matar para distração dos poderosos e da plebe rude. Atualmente a vida ainda é bastante frágil, mas é geralmente considerada um bem sagrado, intocável. E as mulheres, por séculos ignoradas (só Jesus deu atenção a elas), estão abrindo caminhos e se fazendo ouvir, ainda que tantos se façam surdos e cegos aos sinais dos novos tempos. Muitos trabalham pela paz e pela justiça, trabalho cansativo, infindável, que precisa ser retomado a cada dia, mas que sempre anuncia uma alvorada possível.

Acostumei-me a ver frequentemente uma jovem caminhando, alegre e despreocupada. Um dia, notei que ela estava diferente, e logo depois a barriga evidenciava que ela havia se transformado em duas. Passaram-se alguns meses sem que eu a visse, até que ela reapareceu, empurrando um carrinho de bebê. E o bebê já está andando, daqui a pouquinho estará correndo pelos mesmos lugares onde sua mãe ontem passeava. Existe uma roseira... já falei sobre ela. Há mais de 20 anos insiste em dar flor, num pedaço de terra assim estreito.

Enfim, a vida resiste e eu espero que os homens não a destruam, sufocando a natureza ou disparando bombas. Que ela chegue até você, melhor, mais leve, mais livre, mais segura. Insha allah, oxalá, queira Deus!

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MICROCONTO: MAIS UM

Cansado de tanto fracasso, resolveu jogar-se do oitavo andar. Mas o paletó prendeu-se na janela e ele ficou pendurado até a chegada dos bombeiros.

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Dias perfeitos

quarta-feira, 03 de dezembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

O sr. Hirayama aceita as coisas e as pessoas como elas são

Talvez nem todo mundo tenha paciência para um filme com mais de duas horas e praticamente só um acontecimento: o personagem acorda, arruma seu quarto e vai trabalhar. Volta para casa, dorme, acorda e... a mesma coisa. Mas eu gostei de “Dias Perfeitos”. Mais do que isso, fiquei pensando nele como uma lição a ser aprendida. De maneira sutil, a vida do personagem nos mostra, não “a felicidade”, mas uma forma possível de felicidade.

O sr. Hirayama aceita as coisas e as pessoas como elas são

Talvez nem todo mundo tenha paciência para um filme com mais de duas horas e praticamente só um acontecimento: o personagem acorda, arruma seu quarto e vai trabalhar. Volta para casa, dorme, acorda e... a mesma coisa. Mas eu gostei de “Dias Perfeitos”. Mais do que isso, fiquei pensando nele como uma lição a ser aprendida. De maneira sutil, a vida do personagem nos mostra, não “a felicidade”, mas uma forma possível de felicidade.

Cecília Meireles disse que a liberdade é uma palavra que todos entendem e ninguém sabe explicar. A respeito do tempo, declarou Santo Agostinho: “Se ninguém me pergunta, eu o sei; se desejo explicar a quem o pergunta, não o sei".  Igualmente difícil é definir a felicidade. Todos nós queremos alcançá-la, mas, como bem explicou o poeta Vicente de Carvalho, ela “Está sempre apenas onde a pomos / E nunca a pomos onde nós estamos". Pois o dia a dia do Sr. Hirayama é, em si mesmo, uma definição.

Com capricho, o sr. Hirayama arruma seu quarto ao se levantar de manhã, apanha o uniforme que deixou pendurado, limpo e alisado na noite anterior, como se fosse a uma reunião de empresários. Contempla as árvores lá fora e, ao abrir a porta para a rua, olha encantado para o dia que nasce. Sai para trabalhar, e então nos perguntamos qual será o trabalho desse homem tão metódico e tão sereno. Fiquem tranquilos, porque não vou estragar nenhuma surpresa. O filme não nos reserva nenhuma surpresa.

O nosso personagem exerce com dedicação e prazer, até com carinho, a função de limpador de banheiros públicos em Tóquio. No seu esforço de fazer o melhor possível aquilo que faz, chega a levar um espelhinho, com o qual procura alguma mínima sujeira nos cantos escondidos dos vasos e pias. Quando alguém o interrompe, não se irrita, antes se retira e depois volta para esfregar novamente aquilo que tinha acabado de limpar. Um morador de rua dança e ele não o critica, apenas sorri. Surpreende uma conhecida abraçada com um homem e não os julga, apenas se afasta.

O sr. Hirayama aceita as coisas e as pessoas como elas são. Aceita a si mesmo. Leva a vida com simplicidade, satisfeito com seus pequenos prazeres. Almoçar sanduíche no banco da praça; tomar banho num banheiro público, coletivo; fazer fotos em preto e branco com uma antiga máquina com filme e gravar suas músicas prediletas em obsoletas fitas cassete. Não se sente humilhado por limpar banheiros, função que exerce com toda a dignidade, nem se sente solitário por morar sozinho. Vive bem consigo mesmo, contenta-se com o que é e com o que tem.

Um filme diferente, sem carros explodindo, sem casais transando, sem tiroteios nos quais só os bandidos morrem. Apenas esse faxineiro, cujo passado não se conhece, mas que se supõe ter sido muito diferente do presente que ele tão serenamente abraça. Quando a irmã rica lhe pergunta se ele realmente é limpador de banheiros públicos, sem nenhum constrangimento ele move a cabeça em sinal de confirmação.

Eis, pois, o que é a felicidade, na lição desse filme: estar em paz consigo e com os outros, ser feliz com o que se é e com o que se tem. Sem conformismo, sem derrotismo, mas sendo o melhor possível, fazendo o melhor possível, permitindo que seus dias sejam, tanto quanto possível, dias perfeitos.

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Microconto: DISPARO

Mágico amador, esvaziava o tambor da arma antes de fazer roleta-russa.  Até o dia em que, encantado com os aplausos, se esqueceu de tirar a bala.

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Lua de São Jorge

quarta-feira, 19 de novembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Não vamos criar problema com a Inglaterra e com o Corinthians

A senhora Kim Kardashian é um faz-tudo no mundo do entretenimento: atriz, modelo, apresentadora, e por aí vai. Com o peso de tamanha autoridade, ela nos garante que o homem jamais pisou na lua: “Nunca aconteceu”, afirma categórica. Nisso, no entanto, nada mais faz do que imitar minha avó que, já em 1970, dizia a mesma coisa. Mais convincente do que a americana famosa, Dona Maria Chardelli apresentava um argumento irrespondível para sustentar sua opinião: “São Jorge não ia permitir uma coisa dessas”.

Não vamos criar problema com a Inglaterra e com o Corinthians

A senhora Kim Kardashian é um faz-tudo no mundo do entretenimento: atriz, modelo, apresentadora, e por aí vai. Com o peso de tamanha autoridade, ela nos garante que o homem jamais pisou na lua: “Nunca aconteceu”, afirma categórica. Nisso, no entanto, nada mais faz do que imitar minha avó que, já em 1970, dizia a mesma coisa. Mais convincente do que a americana famosa, Dona Maria Chardelli apresentava um argumento irrespondível para sustentar sua opinião: “São Jorge não ia permitir uma coisa dessas”.

De fato, qualquer pessoa de boa vontade, ao olhar para o céu, verá que lá está São Jorge, todo garboso, montado em seu cavalo branco. Infelizmente eu, ainda criança, já não tinha essa boa vontade toda e secretamente me perguntava se o santo guerreiro não se cansava de, a cada entardecer, matar sempre o mesmo dragão.  Não ousava questionar minha avó, e a verdade é que também tinha medo de desagradar a São Jorge.

Muito mais tarde vim a saber que esse bravo soldado capadócio talvez nem sequer tenha existido. A história é a seguinte. A Igreja Católica resolveu deixar claro que não reconhecia certos santos. Alegava que não havia provas de que eles tivessem existido, sendo mais certo que fossem criação da crendice popular. Dentre eles estava São Jorge. Como era época da ditadura militar, que caçava e cassava seus opositores, os piadistas começaram a dizer que a Igreja estava caçando seus santos.

Foi então que o arcebispo de São Paulo, se não me engano D. Evaristo Arns, apelou para o papa. É que Jorge da Capadócia, além de padroeiro da Inglaterra, é também padroeiro do Corinthians, time do coração do arcebispo. D. Evaristo ponderou que, sendo o clube paulista um dos mais queridos do Brasil, cassar São Jorge causaria uma grande decepção na fiel torcida corintiana. O papa respondeu então: “Bem, não vamos criar problema com a Inglaterra e com o Corinthians”.

Portanto, quem é devoto de São Jorge pode continuar em paz com sua fé. Até porque, muitos santos são cultuados não porque tenham existido, mas pelo que representam. É o caso do nosso personagem, pois a luta contínua contra o mal é um valor para todas as religiões, especialmente para o cristianismo.

Quanto ao homem ter pisado ou não na lua, podemos escolher entre Kim Kardashian e a Nasa, que afirma que já esteve lá seis vezes. Também há os terraplanistas, que negam que a Terra seja redonda, e certos privilegiados que até já viajaram em discos-voadores. São crenças, e crenças não se submetem à lógica ou às evidências. Facilmente viram fanatismo, e aí mesmo é que não adianta argumentar. Melhor dar razão a todo mundo, não dando razão a ninguém. Pode ser que assim não se chegue à verdade, mas ao menos se evitam brigas e discussões.

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Microconto: C16.9

Acreditava que seus dias formariam um longo romance, mas uma dorzinha que começou no estômago fez com que sua vida não passasse de um mero microconto.

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Na praia

quinta-feira, 06 de novembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Olhando o mar. Vai e volta incessantemente, como se fosse... como se fosse o mar. A que mais se pode compará-lo? De repente suas ondas contidas respiram mais fundo, tomam novo fôlego e vêm passar nos meus pés a língua gelada. O inverno estreou há pouco nos calendários do Brasil e a água já está fria, embora este seja um dos cantos mais quentes do país.

Olhando o mar. Vai e volta incessantemente, como se fosse... como se fosse o mar. A que mais se pode compará-lo? De repente suas ondas contidas respiram mais fundo, tomam novo fôlego e vêm passar nos meus pés a língua gelada. O inverno estreou há pouco nos calendários do Brasil e a água já está fria, embora este seja um dos cantos mais quentes do país. Imerso em tanta beleza, eu me pergunto se nós, seres que se dizem humanos, temos o direito de poluir essa paisagem com a nossa presença, se temos o direito de pisar nessa areia, tão branca que mais parece uma camada de finíssimo talco suavemente espalhada sobre o corpo da Terra. Como resposta, a natureza exibe o quanto a temos ferido: sobre o verde irisado, boiam manchas escuras, murchas flores, frascos, feitiços, falecidas falena. Ainda assim, ela não perde a majestade. Um passante murmura, mais para si mesmo do que para mim, “Na minha Terra o mar é escuro”. Pois aqui ele é assim, camaleônico. O sol penetra nas dobras de sua superfície e matiza o azul de verde, com laivos dourados.

Afasto os olhos do mar e vejo uma criança que tenta alcançar o outro lado do mundo, cavando um buraco na areia. A pazinha vai fundo, mais fundo, e o Japão nunca chega. A mãe levanta-se da cadeira e vem explicar a filha que os sonhos são assim mesmo: cavamos, cavamos, sem jamais chegar a realizá-los plenamente. Nem por isso eles deixam de valer a pena. Muitas vezes, mais vale a pena sonhar um sonho do que realizá-lo.

A garotinha sai correndo e, visto daqui, seu maiô vermelho parece uma flor exótica que o vento sopra por cima da areia. Logo ela pula em direção aos braços do pai. Ele a levanta e então a menina se transforma numa pipa que começa a alçar voo. Braços abertos, aberto o coração, o sorriso flutuando sobre a cabeça do homem que ergue para o mundo o troféu de sua vida.

Mas nem tudo são flores. Também temos picolé, sorvete, cocada, redes do Ceará, cerveja gelada, miríade de ofertas. Para colocá-las a nosso alcance, meninos que deveriam estar na escola ou brincando nas águas. Mulheres encanecidas de tanto trabalho, escurecidas de tanto andar de uma ponta a outra do sol. E mais os homens humildes, que nos agradecem se lhes permitimos recolher as latas de refrigerantes vazias, como se não fosse deles o favor, ao nos livrarem do lixo que acumulamos em volta de nós.

            Aos poucos, a praia vai se enchendo. Duas adolescentes passam e, por meio de palavras, gestos e risos, contam inutilidades preciosas, banalidades urgentes, segredos que juram ─ por Deus ─ hão de ficar para sempre entre elas e os demais habitantes do planeta. Um casal de namorados se abraça, se beija, se penteia e despenteia, incendeia a areia, a praia arde ao sol do meio-dia. Com ar urgente, as mulheres vigiam os filhos, pensando talvez no futuro que eles terão. Os homens vigiam as pernas femininas que desfilam, mas é melhor não adivinhar o que estarão pensando esses senhores de ar inocente.

O espetáculo é variado, é um texto escrito no ar. Sei o quanto ele ficará empobrecido quando eu finalmente puder colocá-lo no papel. Penso em como seria bom se não precisássemos das palavras, bastando ver e sentir as coisas para poder comunicá-la. O mergulho de um pássaro me tira dessas reflexões e assim me quedo, mais uma vez, simplesmente olhando o mar.

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Microconto: Tratamento

Parecia apenas um resfriado e trataram com chá da vovó, mel e agrião. Depois com internação e alta medicina. Mas a cura veio mesmo com terra por cima.

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A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

Notícias do Brasil

quarta-feira, 22 de outubro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

1.     Um dos nossos excelsos deputados apresentou projeto de lei que permite que passageiros viajem de avião com arma de fogo (descarregada, mas com munição à parte ─ na mala, na pasta, no bolso ou na cueca). Segundo o nobre parlamentar, certamente um pacifista, isso atende ao “interesse público”. Para maior perfeição da lei, agentes das forças policiais e armadas poderão embarcar com a arma já pronta para prestar serviço ao seu portador, à moda do que se vê nos filmes americanos. 

1.     Um dos nossos excelsos deputados apresentou projeto de lei que permite que passageiros viajem de avião com arma de fogo (descarregada, mas com munição à parte ─ na mala, na pasta, no bolso ou na cueca). Segundo o nobre parlamentar, certamente um pacifista, isso atende ao “interesse público”. Para maior perfeição da lei, agentes das forças policiais e armadas poderão embarcar com a arma já pronta para prestar serviço ao seu portador, à moda do que se vê nos filmes americanos. 

Não sei se o digno representante do povo tem acompanhado o noticiário nos últimos tempos. Talvez os seus múltiplos afazeres em defesa da população o impeçam de saber o que está acontecendo nos céus do Brasil. Mas o fato é que frequentemente se têm visto brigas dentro de aviões. E não simples bate-bocas, mas agressões físicas, marmanjos rolando pelos corredores, senhoras gritando, crianças assustadas. Se aprovada a lei, seria recomendável que as empresas aéreas fornecessem coletes à prova de bala aos passageiros e à tripulação.  Enfim, quem quiser que embarque nessa, que eu prefiro ir a pé e chegar vivo. Como diria Raul Seixas, eu não nasci para tirar onda de herói. Muito pelo contrário.

2.     Eu não acompanho novela porque não tenho paciência. Pela mesma razão não participo de grupos de leitura: esse negócio de ler com intervalos, uma página por semana, não é comigo. Quando ataco um livro, vou o mais direto que posso para a última página. Às vezes, quase chego ao fim antes do autor e dos personagens. De modo que eu não conheci Odete Roitman, talvez a mais importante figura da vida nacional nos últimos tempos. Não sei quem a matou e jamais levantei suspeita contra qualquer personagem. Ouvia comentários a respeito e ficava mais calado que goleiro na hora do pênalti. Afinal, falso testemunho é crime e pecado. 

No entanto, dou meu total e inútil apoio ao padre de Santa Catarina que se recusou a celebrar missa pela alma dessa senhora. Ele disse não ao pedido, recusando-se a rezar por alguém que simplesmente nunca existiu, a não ser na tela da TV. Esse pessoal está confundindo as coisas! Há pouco tempo pediatras foram atormentados por “mães” que levavam seus bebês reborns para consulta. Imagine a cena: “Seu filho não tem nada, minha senhora. Literalmente nada! Coração calado; cérebro vazio, aparelho respiratório inoperante. Olhos mortos, voz engarrafada”. A coração de mãe tudo se perdoa. Ou quase tudo: batizar bonecos também já é demais, não tem cristão que aguente!

3.     Acaba de ser descoberta uma família na cidade de Patos, no Pará, que de pato não tinha nada. Há anos pai, filha, irmãos e sobrinhos fraudavam concursos públicos com grande sucesso, já tendo garantido colocação para dezenas de brasileiros, assim colaborando para a queda do desemprego no país. Seus beneficiados estão por toda parte: estatais, polícias, judiciário. Com eficiente profissionalismo, usavam as mais modernas técnicas para prestar bons serviços a seus clientes. Conseguiam com antecedência os gabaritos, contratavam dublês para substituir candidatos inseguros, instalavam “pontos” tão perfeitos que nem o melhor otorrino descobriria. Até se submetiam às provas, alcançando resultados que deixavam claro que a aprovação era garantida. Mas, talvez por honestidade e modéstia, não assumiam os cargos. Começaram, no entanto, a exagerar. Chegaram a aprovar três candidatos no mesmo concurso, todos errando e acertando as mesmas questões. Aí a polícia foi obrigada a tomar uma providência.

O fato é que somos um povo muito criativo. Basta ver que, embora nenhum brasileiro tenha recebido o Prêmio Nobel até hoje, muitos de nossos conterrâneos se beneficiam diariamente da invenção do senhor Alfred Nobel. Por exemplo, usando a dinamite para explodir caixas eletrônicos. Sim, não há como negar que somos um povo muito criativo, que pode não inventar grandes coisas, mas sabe como usá-las.

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