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Mulheres do Brasil

quarta-feira, 22 de julho de 2026
por Robério Canto

Lá vão elas. Dentistas, garis, professoras, donas (?) de casa

Lá vão elas. Dentistas, garis, professoras, donas (?) de casa

Digamos que se chamasse Jhoanna, com h e dois NNs, porque a mãe não queria que ela parecesse uma Joana qualquer, como outras que havia pelo bairro. Mas Jhoanna não era diferente, menina como tantas meninas, mulher como tantas mulheres. Não tinha essa beleza toda, mas também não era feia. Virtudes e defeitos, planos e sonhos. Os sonhos, nada extraordinários, foram se concretizando, ou quase: planejou ser professora, mas parou no Ensino Médio. Trabalhou de balconista, fez concurso, se tornou funcionária pública. Salário que dava para o essencial, mais o batom e um vestido novo de vez em quando. Felicidade mediana, nem mais nem menos do que precisava para ser feliz.

Digamos que se chamasse Ronaldo, sem nenhuma invencionice no nome. Jogava futebol de mesa, cerveja nos fins de semana, profissão protético. Gabava-se de que muita gente devia a ele o sorriso que ostentava pelas ruas. Achava injusto que os dentistas tivessem mais lucro com seu trabalho do que ele. Revoltava-se. Certa vez quebrou uma peça menos perfeita, culpando pelo insucesso o profissional que a encomendara: “Incompetente!” Namorara muitas e, para falar a verdade, tinha engravidado uma delas, de cuja consequência se livrou sem dificuldade, graças a algumas próteses que tinha acabado de entregar na ocasião.

Quando conheceu Jhoanna, apaixonou-se. Namoro, casamento, uma filha. Impôs algumas condições para a união, uma delas que a noiva parasse com os estudos e abandonasse a ideia de ser professora: “Ensinar Geografia não dá camisa a ninguém”. Estabeleceu horário de chegada, proibiu certas roupas. Café da manhã na mesa, antes que ele saísse para o trabalho. E tratasse de aprontar a filha e levá-la para a creche. Um dia, aborrecido sabe-se lá com o quê, deu um empurrão em Johanna. Pedido de perdão, acompanhado de muitos carinhos. Ao perdão seguiu-se o primeiro tapa, compensado com uma ida ao cinema. A primeira surra foi por causa de um homem que olhou para ela na rua.

Na terceira vez que apanhou, Jhoanna fugiu para a casa dos pais, cuja porta ficou marcada com os chutes de Ronaldo. Medida protetiva, sem nenhuma proteção. Defendeu-se como pôde das facadas, mas ficaram as cicatrizes. Sobreviveu, perguntando-se seguidamente em que momento tinha morrido o Ronaldo tão bonzinho e o monstro tinha brotado das profundezas. Não sabia responder. Largou o emprego, despediu-se dos pais, pegou a menina no colo e foi viver em lugar até agora incerto e não sabido.

Jhoanna não é nenhuma personagem heroica. É apenas uma brasileira comum, exceto pelo nome rebuscado. Tal qual ela, muitas são as que vão levando a vida, julgando-se senhoras de si mesmas, até que um gentil cavalheiro as toma pelas mãos e, nem gentil nem cavalheiro, passa a tratá-las como um objeto que adquiriram e marcaram com seu sobrenome. Maria da Silva, de Souza, de Oliveira? Não importa: tem dono. E o que começou como promessa de paraíso virou purgatório e inferno.

Lá vão elas. Dentistas, garis, professoras, donas (?) de casa. O que as espera quando chegarem ao lar, sweet home? Rezemos por elas, não porque sejam melhores do que os homens, que também precisam de oração e consolo. Mas porque estão sujeitas a maiores riscos, porque cuidam de si, dos filhos e dos maridos, e às vezes nem sabem por que são agredidas. Sim, as agredidas são exceções, mas, em 2024, na Pátria Mãe Gentil, 3.642 foram assassinadas pelos seus companheiros. Rezemos pelas mulheres do Brasil, pelas que são felizes e tanto mais pelas que são, tristemente, apenas mulheres do Brasil.

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Microconto: Imprudência

O carteiro acreditava no velho ditado “Cão que ladra não morde” e atravessou o portão. Passou dois meses sem poder se sentar direito.

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Valdirene

quarta-feira, 08 de julho de 2026
por Robério Canto

─ Alô, é o Paulinho?

─ Sim. Quem fala?

─ Alberto. Tudo bem, Paulinho?

─ Até que estava, Alberto­. São quatro da manhã, domingo!

─ Eu te acordei? Me desculpa. É que eu preciso da tua ajuda.

─ Claro que acordou, Alberto: Esse é o meu número. Tem que ser coisa muito urgente, pra você me ligar de madrugada.

─ Eu queria saber se você tem notícia da Valdirene.

─ Notícia de Valdirene?! A essa hora?!   Francamente, Alberto! O que que houve?

─ Alô, é o Paulinho?

─ Sim. Quem fala?

─ Alberto. Tudo bem, Paulinho?

─ Até que estava, Alberto­. São quatro da manhã, domingo!

─ Eu te acordei? Me desculpa. É que eu preciso da tua ajuda.

─ Claro que acordou, Alberto: Esse é o meu número. Tem que ser coisa muito urgente, pra você me ligar de madrugada.

─ Eu queria saber se você tem notícia da Valdirene.

─ Notícia de Valdirene?! A essa hora?!   Francamente, Alberto! O que que houve?

─ Ela saiu depois do almoço, e até agora não deu as caras. Não atende o telefone. Nada.

─ Como é que eu vou saber de Valdirene? O marido dela é você.

─ Mas você é o meu melhor amigo, se algum conhecido nosso soubesse alguma coisa, podia ter ligado pra ti. 

─ Olha o relógio, Alberto: quatro da madrugada.

─ Quatro da manhã? Nem lembrei que era domingo.

─ Vai dormir, Alberto. Daqui a pouco, Valdirene aparece e explica tudo direitinho.

─ Não consigo dormir. Nervoso, uma pilha. Você tem aí um Rivotril?

─ Eu não tenho Rivotril coisa nenhuma, Alberto. Por que você não telefona pras amigas dela?

─ É que eu não quero fazer escândalo, Paulinho.

─Talvez Val foi dormir na casa da mãe dela.

─ Em Portugal?

─ Ah, é! Então liga pra Giovanna, aquela amiga maluca que ela tem.

─ Maluca é elogio. Louca varrida, isso sim. Vai ver foram pra Búzios. Podiam ter me avisado.

─ Deve ter sido isso. Dorme sossegado, Alberto. Val não é nenhuma criança, daqui a pouco ela dá notícia. Volta pra cama e sossega.

─ Vou dar uma passada aí. Talvez você tem um Rivotril esquecido na gaveta.

─ De jeito nenhum, não me apareça aqui, eu vou é dormir. Faz o seguinte, Alberto. Toma duas doses daquela cachaça maravilhosa que você tem em casa e vai dormir.  Amanhã Valdirene vai te mandar uma foto na praia, pegando sol na areia. São quatro da manhã, Alberto. Se alguma coisa grave tivesse acontecido, a gente já sabia. Vai dormir. Valdirene é uma pessoa muito confiável. Com certeza se esqueceu de avisar aonde ia.

─ Não sei se você sabe, Paulinho. Te acordei, não foi? Me perdoa. Ela era caixa de supermercado quando eu conheci. Agora virou madame, toda empetecada, salto alto. E faz isso comigo. Eu devia saber que não podia confiar nela.

─ Alberto, fica calminho. Não fala assim da tua esposa. Ela não merece, é uma mulher direita.

─ Eu também achava que era. Te acordei mesmo?

─ Não, você tá falando com uma alma do outro mundo. Vai dormir, Alberto. Me deixa dormir também.

─ Eu não tinha a quem recorrer: você é meu melhor amigo.

─ Claro, tudo bem, na paz.  Amanhã a gente conversa. Me manda notícia da Val.

─ Me deixa passar rapidinho aí, amigão. Você está sozinho?

── Claro que estou. Eu moro sozinho. E não vejo razão para você me aparecer aqui, bem no meio da noite. Não ia pegar bem. Eu já te disse que não sei de Valdirene.  Toma um banho, vê um pouco de televisão e vai pra cama. Valdirene é gente boa, moça de muito caráter. Dorme, que amanhã ela se explica.

─ Você acha? Sei lá! Tá bom, vou tomar a cachacinha que você falou. Qualquer coisa, me avisa, ok?

─ Com certeza. Boa noite.

(Paulinho desliga o telefone)

─ O que está acontecendo, amor?

─ É aquela besta do teu marido. Esse cara não tem nenhum bom senso. Ligar a essa hora pra perguntar se eu sei de você. Eu é que vou saber da tua vida?  Depois liga e dá uma acalmada nele. Agora vamos dormir, que ainda são quatro da manhã. E hoje é domingo.

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Ignorância e arte

quarta-feira, 24 de junho de 2026
por Robério Canto

As grandezas e fraquezas da natureza humana não são particularidades de ninguém

As grandezas e fraquezas da natureza humana não são particularidades de ninguém

Vejam vocês o que é a ignorância. Estava eu visitando um museu quando, na entrada da primeira sala, me deparei com uma pequena caixa com várias lixas de unha. Não tendo visto nada que explicasse aquela presença inusitada, pensei...  Não propriamente que tenha pensado, digamos que intui tratar-se de um brinde, uma gentileza de algum patrocinador. Apanhei uma lixinha e enfiei no bolso. Espero que não tenha sido filmado, pois não quero ficar famoso como ladrão de museus. Eis que, percorrendo outras salas, me deparei com várias peças igualmente estranhas. Sim, pois a dita caixa não era outra coisa senão uma obra em exposição, e tanto que, depois reparei, tinha até uma lâmpada iluminando por cima.

Não vou, por causa de minhas poucas luzes, desvalorizar o trabalho do artista. Mas parece que a obtusidade não era só minha, e tanto que os promotores do evento acharam por bem colocar nas paredes placas que explicavam o sentido de cada obra. Foi o que me salvou e desconfio que não só a mim, apesar da cara de entendido que todo mundo ostentava. Quanto às informações sobre as lixas de unha, fiquei tão traumatizado com o furto que nem as li. Furto que, aliás, pouco acrescentou ao meu modesto patrimônio.

Grande é a nossa ignorância, o que sabemos é nada, não mais que um fragmento de grão de areia na imensidão das praias, mares e oceanos. Mas a arte nos faz ser um pouco menos limitados, brutos e insensíveis. Cada obra tem, em si mesma, sua razão de ser, que nem sempre é reconhecida no seu tempo. Talvez seja esse o caso das lixas de unha, quem sabe?

Ao publicar “Madame Bovary”, Flaubert foi acusado de ter escrito um livro imoral. Aos juízes que o questionavam sobre quem era na realidade a personagem do romance, o escritor respondeu: “Madame Bovary sou eu!” Creio que com isso queria dizer que os sentimentos e comportamentos de Emma Bovary estão em todas as pessoas, porque as grandezas e fraquezas da natureza humana não são particularidades de ninguém, estão bem distribuídas entre todos os indivíduos que passam por este mundo.

De Bovary veio a palavra “bovarismo”, que é a tendência que todos temos, alguns em grau doentio, de nos imaginarmos como alguém melhor do que somos, de termos uma ideia fantasiosa de nós mesmos. Emma Bovary vive uma vida sem brilho e um casamento enfadonho. Romântica e sonhadora, acaba se acreditando capaz de despertar uma grande paixão. Também Luísa, de “O primo Basílio”, do português Eça de Queiros, cai na mesma ilusão de ter arrebatado o coração do galã que a corteja.   Na verdade, ambas estão apenas se sujeitando aos desejos de seus sedutores e, claro, vão acabar se dando mal.

Bem, já admiti que não sou nenhum gênio, funda é a minha insipiência. Mas não ao ponto de fazer como aquela pessoa que, quando lhe perguntaram se conhecia a obra de Eça de Queirós, respondeu com outra pergunta: “Quem é essa mulher?” Enfim, a ignorância está ao alcance de todos; a arte, nem sempre.

******

Microconto: Aposta

Desde cedo João vinha notando a diferença, mas só ao conferir os números da loteria ele entendeu por que todos o estavam tratando com tanto carinho.

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Quase poesia

quarta-feira, 10 de junho de 2026
por Robério Canto

É impossível evitar: não há quem, de vez em quando, não seja atacado pela tentação de escrever poesia. Comigo acontece de, às vezes, estando eu com o pensamento concentrado em coisa nenhuma, um punhado de versinhos desabar sobre mim. Qual o jeito, senão transcrevê-los? Paciência, leitor!

 

Fundo do Poço

Não brinque com meu coração,

seu moço,

que, se a tristeza tem fundo,

meu coração já está

no fundo do fundo do poço.

 

Não me faça esse alvoroço,

que entre o amor e o ódio

É impossível evitar: não há quem, de vez em quando, não seja atacado pela tentação de escrever poesia. Comigo acontece de, às vezes, estando eu com o pensamento concentrado em coisa nenhuma, um punhado de versinhos desabar sobre mim. Qual o jeito, senão transcrevê-los? Paciência, leitor!

 

Fundo do Poço

Não brinque com meu coração,
seu moço,
que, se a tristeza tem fundo,
meu coração já está
no fundo do fundo do poço.

 

Não me faça esse alvoroço,
que entre o amor e o ódio
a distância é bem menor
que entre a fruta e o caroço.

 

Meu coração tem andado
com a corda no pescoço,
e qualquer aperto a mais
será o fatal esforço.

 

Se é só por brincadeira,
Não me chegue assim tão perto.
Quero é um moço que seja
água no meu deserto.

 

O Cachaça

A paisagem que eu tenho é o vão da janela.
O espaço que eu tenho é o ônibus lotado.
Às sete e dez chego no trabalho:
“Atrasado!”, é o que ouço.
Peço desculpas e engulo calado.
Não fosse a criança em casa,
ou já indo pra escola,
não sei se eu ficava ou ia embora.
Na volta para o lar, eu tomo um trago,
ou dois ou três, quem sabe quatro,
e me chamam O Cachaça.
Brasileiro, trabalhador e pai,
por mais que eu faça
sou sempre O Cachaça.
Madrugada abro a janela
e vejo em frente um muro escuro,
duro, frio e ruim,
de outro brasileiro como eu,
outro Cachaça igual a mim.

 

Aurora

Aurora merecia o nome que tinha.
Quando ela entrava,
a sala toda amanhecia.
E que sorriso tinha Aurora,
dentes brancos de alegria!
Era bom ver aquela cara,
rara, clara, iluminada,
como um dia que amanhece
cheio de luz: claridade.
Mas eis que aconteceu:
um dia sentiu-se mal,
médico, ambulância, hospital,
e, subitamente, a sala anoiteceu.

 

Passarinho

Para Luísa Lacerda

Essa voz de passarinho
faz a manhã abrir os olhos
e o sol adormecer.
É sombra de nuvem fina,
abrigando trovoadas.
É como a pessoa amada
que chega sem avisar.
É feito água do rio,
que nunca está onde está.
Riso de criança, choro de gente grande,
que às vezes nos acolhe,
outras vezes nos espanta,
e pode ser tudo isso
porque tudo pode uma mulher que canta.
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Os donos da rua

quarta-feira, 27 de maio de 2026
por Robério Canto

Tenho a esperança de que a ideia sumida reapareça em breve

Tenho a esperança de que a ideia sumida reapareça em breve

Sentei (“sentei-me”, corrigiria o imortal Evanildo Bechara, se já não estivesse no céu, dando aula de gramática para os anjos e esquecido dos iletrados aqui da terra), pois bem, sentei-me para escrever e até encontrei uma ideia promissora. Aí, lembrei-me de que estava na hora de Ancelloti anunciar os convocados para a Seleção. Não sou desses que vivem e infartam pelo time do coração, mas também não sou nenhum aluado que não saiba da importância do futebol neste país em que as pernas tortas de Garrinha e as lindas pernas de Marta Rocha disputam o título de as pernas mais perfeitas da nossa gloriosa história nacional. Ponto parágrafo, que o período já está muito longo.

Recomeçando: ouvi os nomes escolhidos, gostei de uns e não de outros e espero que os nossos rapazes acertem mais as redes adversárias do que os adversários acertem as nossas. Sentei-me (agora sim!) de novo, mas já era tarde: a ideia tinha ido embora. Procurei-a por todos os cantos, até atrás do computador passei os olhos e as mãos para ver se a encontrava. Nada de coisa nenhuma. Mas algum anjo bom (ou talvez Evanildo Bechara, grato por eu tê-lo citado) me fez o favor de chamar minha atenção para o barulho lá fora.

As ruas do meu bairro são administradas por dois flanelinhas e, como eles trabalham em tempo integral, de segunda a domingo, com horário extra nas noites de sexta-feira e sábado, as demais autoridades do trânsito se sentem dispensadas de aparecer por lá. Ora, os flanelinhas não existem para cuidar dos interesses dos moradores. Assim sendo, não só permitem, como ajudam os motoristas a estacionarem em qualquer espaço onde seus carros consigam entrar.

Isso é especialmente verdadeiro nos dias de festa, em que as leis do trânsito ficam suspensas no bairro, o caos é permitido e as faixas amarelas existem apenas para enfeitar os meios-fios. Ingênuo que sou desde criancinha, cheguei a reclamar no órgão competente. Mandaram que eu preenchesse um longo questionário e sugeriram que enviasse fotos do local, para agilizar as devidas providências. Mandei-as, inclusive uma que mostrava o local preferido pelos motoristas, por ser o de mais fácil acesso: embaixo da placa que diz solenemente: “Proibido estacionar”. Isso foi no dia primeiro de setembro do longínquo ano de 2025. Até hoje nenhuma das “devidas providências” foi tomada.

Não que eu tenha me conformado, mas sou de paz, fico preso em casa, ou, como diz uma das pérolas do linguajar popular, fico preso do lado de fora (a melhor delas é: “A gente não tinha nada e perdeu tudo que tinha, por causa da chuva”). Continuando: o problema maior é que um dos flanelinhas ─ me disseram que ele é surdo ─ grita pelos cotovelos, enquanto encaminha os clientes para as vagas. Já pensei em pedir a ele que seja menos sonoro, mas se ele não ouve os próprios gritos, as minhas súplicas é que ele não vai ouvir mesmo.

Parece que o direito de ir e vir é garantido pela Constituição Federal, mas aqui no bairro os flanelinhas detêm a concessão desse direito. Enfim, se o estacionamento é um tormento na minha rua, ao menos me ajudou a escrever esta crônica, mesmo sem ter achado um assunto. Mas tenho a esperança de que a ideia sumida reapareça em breve. Veremos.

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Mundo dos bichos

quarta-feira, 13 de maio de 2026
por Robério Canto

Os cães cumpriam seus horários com fidelidade canina. Fosse domingo, feriado ou ponto facultativo

Os cães cumpriam seus horários com fidelidade canina. Fosse domingo, feriado ou ponto facultativo

Matador de animais, eu?! Às vezes uma barata cruza o meu caminho e, podendo, eu a evito: que ela siga em frente e cumpra seu destino de barata, que é andar sem destino, pra lá e pra cá, tonta que nem uma barata tonta. No entanto, se eu a encontro se intrometendo onde não é chamada, especialmente dentro de casa, não hesito em dar-lhe um banho de inseticida e, no último caso, uma pisada fatal, que me perdoem as associações defensoras dos animais. Em resumo, sou contra qualquer tipo de violência, mesmo contra um ser primitivo e, vamos falar a verdade, nojento como Dona Baratinha. Só os ataco em legítima defesa.

Mas há alguns anos alguém andou dizendo que eu era, se não um matador, pelo menos um inimigo dos cachorros de rua. Vamos aos fatos: próximo à minha casa, havia uma instituição de saúde onde os espaços eram disputados por pacientes, funcionários e uma respeitável cachorrada. Os pacientes às vezes rareavam, os funcionários às vezes faltavam, mas os cães cumpriam seus horários com fidelidade canina. Fosse domingo, feriado ou ponto facultativo, nem por isso eles deixavam de diariamente assinar o ponto. Se algum bípede ousava incomodá-los, rosnavam e latiam, como é próprio da espécie. À noite, cumpriam o ritual de namorar e procriar, não raro disputando a fêmea a dentadas. Enfim, não era uma vizinhança agradável.

Isso me levou a recorrer a algumas autoridades, sugerindo que arrumassem outra residência para a matilha, de modo que os bichos não mais pudessem ameaçar os usuários do local, nem perturbar minhas noites de sono. Eis aí a verdadeira história, muito diferente da que me valeu a injusta fama de cachorrocida. Bem ao contrário: gosto de todos os animais, são nossos companheiros de travessia, nessa curta viagem que fazemos pelo planeta Terra. E não só cães, gatos e outros mais chegados a nós. Até a incômoda pulga e o desengonçado camelo devem ter alguma finalidade neste mundo, se não, por que a natureza os teria deixado crescer e se multiplicar?

 De modo que fico revoltado quando vejo as crueldades que às vezes acontecem com os nossos vira-latas, verdadeiro patrimônio material do povo brasileiro. Tenho especial simpatia por eles, tão carentes de afeto e até mesmo de água e comida. Os bichos, se os deixamos em seu cantinho, lá ficam eles na boa paz de Deus. E, se alguma vez um deles sai de seu habitat e vem nos incomodar, é porque nós mesmos os desesperamos, queimando as matas, poluindo as águas, disparando foguetes, assim transformando em tormento o que era para eles o paraíso.

É como diz Chico Buarque, em “Passaredo”: “Some, rolinha/anda, andorinha/ Te esconde, bem-te-vi/ voa bicudo/ voa sanhaço/ bico calado/ muito cuidado/ que o homem vem aí/ o homem vem aí/ o homem vem aí”. Sim, para os outros seres somos o mais perigoso dos inimigos. Bem pilheriou Millôr Fernandes, com algum azedume, mas não muito longe da verdade: “O homem é o único animal que não deu certo”.                   

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Microconto: Refeição

Eram pobres, mas moravam ao lado de uma churrascaria. Almoçavam cheiro de picanha todos os dias.

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Memórias de um estudante

quarta-feira, 29 de abril de 2026
por Robério Canto

Você já viu sujeira matar alguém? Agora banho...

Você já viu sujeira matar alguém? Agora banho...

Eu até tinha destaque entre os meninos da escola pública onde estudava. Não porque tivesse melhor cabeça, mas porque os demais moleques priorizavam os banhos de rios e as peladas nos terrenos baldios do bairro, desaparecendo da sala de aula e assim diminuindo a ocorrência. Pudesse eu fazer o mesmo! Mas minha santa mãe me vigiava, acreditando que eu era muito inteligente, coisa que, aliás, ela pensava também dos outros quatro filhos (quanto a mim, enganou-se redondamente). Como não me era dada a opção de vadiar, o jeito era prestar atenção às aulas.

Para falar a verdade, eu não acreditava em tudo que ensinavam, embora não ousasse desmentir as professoras. Por exemplo: elas afirmavam que o Rio Amazonas tinha 6.400 km. Eu não sabia bem o que era um quilômetro, mas 6.400 devia ser muita coisa. Olhava então o Bengalas e não achava possível que outro pudesse ser tão superior ao rio da minha cidade.

Minhas aulas preferidas eram aquelas em que a professora lia histórias para os alunos. Foi assim que, sentado no duro banco da carteira, pela primeira vez pus os pés na infindável estrada da literatura, por onde, embora aos tropeções, vou caminhando até hoje. Já naquela época eu intuía que a matemática era uma coisa inventada para torturar as crianças, o que me levou a declarar, anos mais tarde, que gostar de matemática não era um dom, mas um desvio de personalidade.

Não fui agredido porque os professores presentes eram meus amigos e sabiam que, no fundo, eu tinha ─ e tenho ─ inveja de quem sabia lidar com os números e seus correlatos. Mas vejam como a vida é uma coisa incoerente! Foi justamente em matemática que ganhei o maior elogio da minha vida intelectual. A professora fez uma pergunta difícil, algo como "Quanto é 8 x 4?” Num impulso, respondi 32, sem saber o que estava falando. “Esse já está aprovado”, comentou a diretora que, por acaso e para minha glória, ia passando pelo corredor.

Me lembro com carinho das professoras que tive na infância. Tantos anos se passaram que já esqueci o nome e a aparência delas. Mas o carinho ficou: difuso, mas verdadeiro. E me lembro de alguns colegas de personalidade assaz marcante. Um deles, a quem atualmente dou o nome de Paulão, era especialista em teorias científicas. Dentre elas, a de que banhos frequentes faziam mal à saúde. Paulão não era apenas um teórico, bastava passar perto dele para sentir o cheiro de quem praticava a tese que defendia. "Você já viu sujeira matar alguém? Agora banho... a gente pega um resfriado e, oh, já era!" Outra de suas teses garantia que lavar a cabeça era a principal causa da queda de cabelos. E apresentava a prova do que dizia: "Olha os alemão da fábrica. Tudo careca. Por quê? Porque vivem lavando a cabeça. Meu pai só toma banho de vez em quando e tem mais cabelo que a alemoada toda”.

Isso foi no tempo em que se amarrava cachorro com linguiça, e a linguiça, além de carne, tinha trema. Atualmente, um aluno pode dizer que a professora nunca viu o Rio Amazonas e, portanto, não sabe o que está falando. Se alguém corrigir o menino, no dia seguinte os pais procuram a direção do colégio para ensinar que as professoras atualmente estão muito mal preparadas. Bons tempos em que o adulto falava, certo ou errado, a gente enfiava a viola no saco e ia jogar bola ou tomar banho de rio. Ou à aula, se não tivesse como evitar!

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A proporção áurea

quarta-feira, 08 de abril de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Até a beleza pode ser quantificada

Até a beleza pode ser quantificada

Você não está na lista, e eu também fiquei de fora, mas já me consolei. O espelho me obriga a reconhecer que a natureza estava ocupada com coisas mais importantes quando se lembrou de mim. Fez uns rabiscos, passou por cima uma tinta rala e despachou assim mesmo. O importante, no entanto, é que o Brasil ficou em primeiro lugar como o país com as pessoas mais bonitas do mundo, segundo pesquisa de uma empresa americana, que comparou dezessete mil fotos de diversas nacionalidades. O site onde vi essa beleza de notícia abria com Juliana Paes. Em outro, de cara aparecem (e também de corpo) Gisele Bündchen e Adriana Lima. Ou seja, uma artilharia da pesada.  Ficamos na frente da Rússia (e a gente vendo a figura de Putin todo dia na TV!) e da Itália, respectivamente em segundo e terceiro lugares.

De certo ponto para frente, ou melhor, para trás, suspenderam a pesquisa, porque afinal, ninguém queria comprar briga: já pensou a reação do povo que fosse o último classificado? Bem, não devemos deixar de considerar que se trata de uma pesquisa e que existem várias outras, com resultados diferentes. Afinal, para o sapo, a sapa é a coisa mais linda que existe, e nem por ser feia a coruja deixa de achar um coruja que a queira. Além do mais, cronista é uma raça de gente danada para falar do que não entende.

A beleza dos brasileiros é atribuída à mistura que a gente vem fazendo desde 1500, quando os portugueses, feios, fedorentos e maltrapilhos, viram pela primeira vez aquela gente bonita, limpa e cheirosa. Depois vieram os negros, e aí foi um nunca mais acabar de nascerem crianças com caras e cores diferentes. Enfim, foi uma dessas coisas improvisadas que deram certo. É só olhar para Thaís Araújo para concluir que melhor não podia ter ficado.

Gosto é gosto, que seria do amarelo, etc. etc. Apesar disso, até a beleza pode ser quantificada. A matemática traduz a beleza com o número 1,618, a chamada Proporção Áurea. Significa que esse número expressa a relação perfeita entre duas partes de qualquer coisa. Tudo que estiver 1,618 de um ponto a outro é perfeito. Por exemplo, um rosto humano. Se essa for a distância entre o nariz e o lábio, entre uma orelha e outra, entre o queixo e a testa, e em tudo o mais, eis aí a beleza. Isso pode ser aplicado também na natureza, na arquitetura, na literatura, em tudo que possa ser visto, tocado, medido.

Mas não fiquemos tristes se a proporção áurea passa longe de nós. Em questão de beleza, como em tudo mais neste mundo, há muito de misterioso, subjetivo, incompreensível. Quem ama o feio, bonito lhe parece, e nunca falta um chinelo velho para um pé cansado. Alguém há de nos achar, senão bonitos, pelo menos passáveis. Console-se.

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Microconto

Contemplei admirado a madeira maciça da porta que meu amigo fechava. No hospital, lamentei gemendo não ter tirado a mão a tempo.

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Histórias alheias 2

quarta-feira, 25 de março de 2026
por Robério Canto

Não é que eu não tenha ideias, é que elas são poucas e, portanto, preciso administrá-las, para que não acabem antes do tempo e me deixem na mão na hora da necessidade. Mais do que com o dinheiro, é indispensável ser sovina com as ideias. O mais prudente é fazer com elas como as pessoas que pulam o almoço para ter o que jantar. Um truque que às vezes salva um cronista menor é recontar histórias de autores mais competentes: não é prova de criatividade, mas também não chega a ser propriamente plágio. Já fiz isso uma vez e, como não fui processado, vou repetir hoje.

Não é que eu não tenha ideias, é que elas são poucas e, portanto, preciso administrá-las, para que não acabem antes do tempo e me deixem na mão na hora da necessidade. Mais do que com o dinheiro, é indispensável ser sovina com as ideias. O mais prudente é fazer com elas como as pessoas que pulam o almoço para ter o que jantar. Um truque que às vezes salva um cronista menor é recontar histórias de autores mais competentes: não é prova de criatividade, mas também não chega a ser propriamente plágio. Já fiz isso uma vez e, como não fui processado, vou repetir hoje.

De Villas-Bôas Corrêa

Deposto em 45, Getúlio foi para São Borja e não aceitava, mas também não recusava, os insistentes pedidos para que fosse candidato a presidente da República. Nereu Ramos era um dos nomes mais fortes para disputar o cargo. No entanto, o PDS o designou para procurar Getúlio e pedir que ele apoiasse um candidato do partido. O velho Gegê disse que concordava, contanto que o nome indicado fosse o do próprio portador da mensagem. Nereu alegou que não poderia voltar com aquela resposta, pois pareceria que ele, ao invés de representar o partido, representara a si mesmo. O resto é História. Por aí se vê que já houve nesta República homens que zelavam mais pela honra do seu nome do que pela honra de cargos e títulos.

De Machado de Assis

Ao ver um casebre em chamas à beira da estrada, o homem para diante das labaredas. Sentada no chão, uma mulher paupérrima chora tanto que quase se poderia apagar o incêndio com suas lágrimas. Ela é a dona do barraco, sendo aquilo o único bem que ela tem (ou tinha). Quando o homem lhe pergunta se a casa era dela, responde que sim: “É minha sim, meu senhor. É tudo que eu possuía neste mundo”. Educadamente, ele retruca: “Dá-me então licença que acenda ali o meu charuto?" Comovente prova de solidariedade e respeito pela propriedade alheia! O cavalheiro estava bêbado, e Machado, com o seu conhecido pessimismo sobre a natureza humana, acrescenta que não é preciso estar bêbado para se aproveitar do sofrimento alheio. Sim, a triste verdade é que muita gente, justamente quando está mais sóbria, faz exatamente o mesmo.

De Carlos Heitor Cony

Ernesto Cony é o grande personagem do ótimo “Quase memória”, no qual Carlos Heitor Cony narra muitas histórias do pai, um homem tão original que o filho pôde encher as 239 páginas do livro com as aventuras e desventuras em que o velho Cony se metera ao longo da vida.

Uma delas: saindo do almoço num hotel, Cony recebeu do porteiro um pacote que alguém, poucos dias antes, havia deixado para que lhe fosse entregue. Não sendo frequentador habitual do lugar, o escritor estranhou que tivessem deixado justamente ali aquele embrulho para ele. Mas um envelope com seu nome escrito não permitia a dúvida de que ele era o real destinatário. E tudo denunciava o remetente: a letra, o estilo, o cheiro e principalmente o barbante, com um tipo de laço que era especialidade de seu pai. O que não fazia nenhum sentido, pois Ernesto Cony havia morrido dez anos antes.

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Microconto: Pênalti

O Saci Pererê chutou a bola e fez um gol de placa, mas levou o maior tombo.

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Nudez militar

quarta-feira, 11 de março de 2026
por Robério Canto

Velhos tempos, em que usar mangas curtas já era suficiente para despertar desejos proibidos

Velhos tempos, em que usar mangas curtas já era suficiente para despertar desejos proibidos

Eu tinha dezoito anos, era um rapazinho desinformado das coisas do mundo, mas, se bem me lembro, naquela época andar nu em público ainda não tinha virado moda. No entanto, lá estava eu, pelado no meio de outros cinquenta ou sessenta jovens igualmente pelados, todos sem saber onde botar as mãos e os olhos. O governo havia me chamado para servir à Pátria, mas bastava me olhar para saber que eu era inservível, incapaz de atirar uma granada mais distante do que uma cusparada. Carregar peso, não mais do que dois quilos; correr, não mais do que cinquenta metros. Tudo isso eu teria confessado, sem precisar tirar a roupa.

No entanto, o Exército Brasileiro, ali presente na pessoa de dois ou três de seus bravos representantes, nada me perguntou e nada perguntou aos demais convocados para o exame. No Ginásio Celso Peçanha, as arquibancadas estavam cheias de caras semelhantes à minha, as mãos cobrindo como podiam as chamadas partes íntimas, todo mundo com medo de alguma intimidade.

Quando acharam que estar sentado no cimento frio já era castigo bastante, mandaram-nos levantar e entrar em fila. Se alguém já entrou em uma fila de homens nus, há de saber que não é uma situação propriamente agradável. A menos que fossem aqueles índios que Cabral encontrou em 1500, os quais não se preocupavam em esconder “suas vergonhas”, como lá diz Pero Vaz de Caminha, na famosa Carta do Descobrimento. Mas acho que mesmo eles evitavam entrar em fila.

Não que eu seja a favor do uso da burca, que esconde a lindeza feminina. Também esconde a feiura, mas, como na média há mais mulheres bonitas do que feias, o prejuízo causado pelas burcas é bem grande. E também não acho que devemos retornar ao terno, colete, paletó, gravata e galocha. Mas quanto mais se retorna no tempo, o que mais se vê são pessoas cobertas de pano. Basta ler o excelente, excelentíssimo conto “Uns braços”, de Machado de Assis.

Nele, a família abriga um rapaz de quinze anos, que trabalha de graça para o dono da casa. O pobre rapazinho vive enamorado da patroa, cujos braços não se cansa de olhar sorrateiramente e amar secretamente. Não que a mulher vivesse de biquini na piscina, ou andasse de short pela casa. Nunca o inocente Inácio tinha visto mais do que os braços, que ela ousava manter descobertos. Velhos tempos, em que usar mangas curtas já era suficiente para despertar desejos proibidos.

Sem ter como evitar, entrei na fila e fui seguindo, ora admirando o teto, ora contemplando o chão. E tanto demorou a caminhada que acabei sabendo de cor quantas vigas havia em cima e quantos pisos havia embaixo. Um a um, todos os futuros soldados (ou não) foram todos se apresentando, medidos, apalpados. Os considerados aptos iam para um lado, os demais ouviam um seco “dispensado” e saiam rapidinho, antes que os homens mudassem de opinião. Quando finalmente cheguei diante da autoridade, mastigava um dilema: não queria servir ao Tiro de Guerra, pois já então era contra tiros e contra guerras. Mas também sabia que a dispensa significava ter sido considerado um fracote. E foi isso que, por outras palavras, menos delicadas, me foi dito com franqueza militar.

Lá se vão muitos anos e, bem ou mal, o Exército Brasileiro tem sobrevivido sem mim. Que assim continue, para a felicidade dele e minha.

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Microconto: FIM

Depressivo, sentia-se sempre à beira de um abismo fatal – até o dia em que deu um passo à frente.

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