Blog de roberiocanto_18846

Os donos da rua

quarta-feira, 27 de maio de 2026
por Robério Canto

Tenho a esperança de que a ideia sumida reapareça em breve

Tenho a esperança de que a ideia sumida reapareça em breve

Sentei (“sentei-me”, corrigiria o imortal Evanildo Bechara, se já não estivesse no céu, dando aula de gramática para os anjos e esquecido dos iletrados aqui da terra), pois bem, sentei-me para escrever e até encontrei uma ideia promissora. Aí, lembrei-me de que estava na hora de Ancelloti anunciar os convocados para a Seleção. Não sou desses que vivem e infartam pelo time do coração, mas também não sou nenhum aluado que não saiba da importância do futebol neste país em que as pernas tortas de Garrinha e as lindas pernas de Marta Rocha disputam o título de as pernas mais perfeitas da nossa gloriosa história nacional. Ponto parágrafo, que o período já está muito longo.

Recomeçando: ouvi os nomes escolhidos, gostei de uns e não de outros e espero que os nossos rapazes acertem mais as redes adversárias do que os adversários acertem as nossas. Sentei-me (agora sim!) de novo, mas já era tarde: a ideia tinha ido embora. Procurei-a por todos os cantos, até atrás do computador passei os olhos e as mãos para ver se a encontrava. Nada de coisa nenhuma. Mas algum anjo bom (ou talvez Evanildo Bechara, grato por eu tê-lo citado) me fez o favor de chamar minha atenção para o barulho lá fora.

As ruas do meu bairro são administradas por dois flanelinhas e, como eles trabalham em tempo integral, de segunda a domingo, com horário extra nas noites de sexta-feira e sábado, as demais autoridades do trânsito se sentem dispensadas de aparecer por lá. Ora, os flanelinhas não existem para cuidar dos interesses dos moradores. Assim sendo, não só permitem, como ajudam os motoristas a estacionarem em qualquer espaço onde seus carros consigam entrar.

Isso é especialmente verdadeiro nos dias de festa, em que as leis do trânsito ficam suspensas no bairro, o caos é permitido e as faixas amarelas existem apenas para enfeitar os meios-fios. Ingênuo que sou desde criancinha, cheguei a reclamar no órgão competente. Mandaram que eu preenchesse um longo questionário e sugeriram que enviasse fotos do local, para agilizar as devidas providências. Mandei-as, inclusive uma que mostrava o local preferido pelos motoristas, por ser o de mais fácil acesso: embaixo da placa que diz solenemente: “Proibido estacionar”. Isso foi no dia primeiro de setembro do longínquo ano de 2025. Até hoje nenhuma das “devidas providências” foi tomada.

Não que eu tenha me conformado, mas sou de paz, fico preso em casa, ou, como diz uma das pérolas do linguajar popular, fico preso do lado de fora (a melhor delas é: “A gente não tinha nada e perdeu tudo que tinha, por causa da chuva”). Continuando: o problema maior é que um dos flanelinhas ─ me disseram que ele é surdo ─ grita pelos cotovelos, enquanto encaminha os clientes para as vagas. Já pensei em pedir a ele que seja menos sonoro, mas se ele não ouve os próprios gritos, as minhas súplicas é que ele não vai ouvir mesmo.

Parece que o direito de ir e vir é garantido pela Constituição Federal, mas aqui no bairro os flanelinhas detêm a concessão desse direito. Enfim, se o estacionamento é um tormento na minha rua, ao menos me ajudou a escrever esta crônica, mesmo sem ter achado um assunto. Mas tenho a esperança de que a ideia sumida reapareça em breve. Veremos.

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Mundo dos bichos

quarta-feira, 13 de maio de 2026
por Robério Canto

Os cães cumpriam seus horários com fidelidade canina. Fosse domingo, feriado ou ponto facultativo

Os cães cumpriam seus horários com fidelidade canina. Fosse domingo, feriado ou ponto facultativo

Matador de animais, eu?! Às vezes uma barata cruza o meu caminho e, podendo, eu a evito: que ela siga em frente e cumpra seu destino de barata, que é andar sem destino, pra lá e pra cá, tonta que nem uma barata tonta. No entanto, se eu a encontro se intrometendo onde não é chamada, especialmente dentro de casa, não hesito em dar-lhe um banho de inseticida e, no último caso, uma pisada fatal, que me perdoem as associações defensoras dos animais. Em resumo, sou contra qualquer tipo de violência, mesmo contra um ser primitivo e, vamos falar a verdade, nojento como Dona Baratinha. Só os ataco em legítima defesa.

Mas há alguns anos alguém andou dizendo que eu era, se não um matador, pelo menos um inimigo dos cachorros de rua. Vamos aos fatos: próximo à minha casa, havia uma instituição de saúde onde os espaços eram disputados por pacientes, funcionários e uma respeitável cachorrada. Os pacientes às vezes rareavam, os funcionários às vezes faltavam, mas os cães cumpriam seus horários com fidelidade canina. Fosse domingo, feriado ou ponto facultativo, nem por isso eles deixavam de diariamente assinar o ponto. Se algum bípede ousava incomodá-los, rosnavam e latiam, como é próprio da espécie. À noite, cumpriam o ritual de namorar e procriar, não raro disputando a fêmea a dentadas. Enfim, não era uma vizinhança agradável.

Isso me levou a recorrer a algumas autoridades, sugerindo que arrumassem outra residência para a matilha, de modo que os bichos não mais pudessem ameaçar os usuários do local, nem perturbar minhas noites de sono. Eis aí a verdadeira história, muito diferente da que me valeu a injusta fama de cachorrocida. Bem ao contrário: gosto de todos os animais, são nossos companheiros de travessia, nessa curta viagem que fazemos pelo planeta Terra. E não só cães, gatos e outros mais chegados a nós. Até a incômoda pulga e o desengonçado camelo devem ter alguma finalidade neste mundo, se não, por que a natureza os teria deixado crescer e se multiplicar?

 De modo que fico revoltado quando vejo as crueldades que às vezes acontecem com os nossos vira-latas, verdadeiro patrimônio material do povo brasileiro. Tenho especial simpatia por eles, tão carentes de afeto e até mesmo de água e comida. Os bichos, se os deixamos em seu cantinho, lá ficam eles na boa paz de Deus. E, se alguma vez um deles sai de seu habitat e vem nos incomodar, é porque nós mesmos os desesperamos, queimando as matas, poluindo as águas, disparando foguetes, assim transformando em tormento o que era para eles o paraíso.

É como diz Chico Buarque, em “Passaredo”: “Some, rolinha/anda, andorinha/ Te esconde, bem-te-vi/ voa bicudo/ voa sanhaço/ bico calado/ muito cuidado/ que o homem vem aí/ o homem vem aí/ o homem vem aí”. Sim, para os outros seres somos o mais perigoso dos inimigos. Bem pilheriou Millôr Fernandes, com algum azedume, mas não muito longe da verdade: “O homem é o único animal que não deu certo”.                   

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Microconto: Refeição

Eram pobres, mas moravam ao lado de uma churrascaria. Almoçavam cheiro de picanha todos os dias.

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Memórias de um estudante

quarta-feira, 29 de abril de 2026
por Robério Canto

Você já viu sujeira matar alguém? Agora banho...

Você já viu sujeira matar alguém? Agora banho...

Eu até tinha destaque entre os meninos da escola pública onde estudava. Não porque tivesse melhor cabeça, mas porque os demais moleques priorizavam os banhos de rios e as peladas nos terrenos baldios do bairro, desaparecendo da sala de aula e assim diminuindo a ocorrência. Pudesse eu fazer o mesmo! Mas minha santa mãe me vigiava, acreditando que eu era muito inteligente, coisa que, aliás, ela pensava também dos outros quatro filhos (quanto a mim, enganou-se redondamente). Como não me era dada a opção de vadiar, o jeito era prestar atenção às aulas.

Para falar a verdade, eu não acreditava em tudo que ensinavam, embora não ousasse desmentir as professoras. Por exemplo: elas afirmavam que o Rio Amazonas tinha 6.400 km. Eu não sabia bem o que era um quilômetro, mas 6.400 devia ser muita coisa. Olhava então o Bengalas e não achava possível que outro pudesse ser tão superior ao rio da minha cidade.

Minhas aulas preferidas eram aquelas em que a professora lia histórias para os alunos. Foi assim que, sentado no duro banco da carteira, pela primeira vez pus os pés na infindável estrada da literatura, por onde, embora aos tropeções, vou caminhando até hoje. Já naquela época eu intuía que a matemática era uma coisa inventada para torturar as crianças, o que me levou a declarar, anos mais tarde, que gostar de matemática não era um dom, mas um desvio de personalidade.

Não fui agredido porque os professores presentes eram meus amigos e sabiam que, no fundo, eu tinha ─ e tenho ─ inveja de quem sabia lidar com os números e seus correlatos. Mas vejam como a vida é uma coisa incoerente! Foi justamente em matemática que ganhei o maior elogio da minha vida intelectual. A professora fez uma pergunta difícil, algo como "Quanto é 8 x 4?” Num impulso, respondi 32, sem saber o que estava falando. “Esse já está aprovado”, comentou a diretora que, por acaso e para minha glória, ia passando pelo corredor.

Me lembro com carinho das professoras que tive na infância. Tantos anos se passaram que já esqueci o nome e a aparência delas. Mas o carinho ficou: difuso, mas verdadeiro. E me lembro de alguns colegas de personalidade assaz marcante. Um deles, a quem atualmente dou o nome de Paulão, era especialista em teorias científicas. Dentre elas, a de que banhos frequentes faziam mal à saúde. Paulão não era apenas um teórico, bastava passar perto dele para sentir o cheiro de quem praticava a tese que defendia. "Você já viu sujeira matar alguém? Agora banho... a gente pega um resfriado e, oh, já era!" Outra de suas teses garantia que lavar a cabeça era a principal causa da queda de cabelos. E apresentava a prova do que dizia: "Olha os alemão da fábrica. Tudo careca. Por quê? Porque vivem lavando a cabeça. Meu pai só toma banho de vez em quando e tem mais cabelo que a alemoada toda”.

Isso foi no tempo em que se amarrava cachorro com linguiça, e a linguiça, além de carne, tinha trema. Atualmente, um aluno pode dizer que a professora nunca viu o Rio Amazonas e, portanto, não sabe o que está falando. Se alguém corrigir o menino, no dia seguinte os pais procuram a direção do colégio para ensinar que as professoras atualmente estão muito mal preparadas. Bons tempos em que o adulto falava, certo ou errado, a gente enfiava a viola no saco e ia jogar bola ou tomar banho de rio. Ou à aula, se não tivesse como evitar!

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A proporção áurea

quarta-feira, 08 de abril de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Até a beleza pode ser quantificada

Até a beleza pode ser quantificada

Você não está na lista, e eu também fiquei de fora, mas já me consolei. O espelho me obriga a reconhecer que a natureza estava ocupada com coisas mais importantes quando se lembrou de mim. Fez uns rabiscos, passou por cima uma tinta rala e despachou assim mesmo. O importante, no entanto, é que o Brasil ficou em primeiro lugar como o país com as pessoas mais bonitas do mundo, segundo pesquisa de uma empresa americana, que comparou dezessete mil fotos de diversas nacionalidades. O site onde vi essa beleza de notícia abria com Juliana Paes. Em outro, de cara aparecem (e também de corpo) Gisele Bündchen e Adriana Lima. Ou seja, uma artilharia da pesada.  Ficamos na frente da Rússia (e a gente vendo a figura de Putin todo dia na TV!) e da Itália, respectivamente em segundo e terceiro lugares.

De certo ponto para frente, ou melhor, para trás, suspenderam a pesquisa, porque afinal, ninguém queria comprar briga: já pensou a reação do povo que fosse o último classificado? Bem, não devemos deixar de considerar que se trata de uma pesquisa e que existem várias outras, com resultados diferentes. Afinal, para o sapo, a sapa é a coisa mais linda que existe, e nem por ser feia a coruja deixa de achar um coruja que a queira. Além do mais, cronista é uma raça de gente danada para falar do que não entende.

A beleza dos brasileiros é atribuída à mistura que a gente vem fazendo desde 1500, quando os portugueses, feios, fedorentos e maltrapilhos, viram pela primeira vez aquela gente bonita, limpa e cheirosa. Depois vieram os negros, e aí foi um nunca mais acabar de nascerem crianças com caras e cores diferentes. Enfim, foi uma dessas coisas improvisadas que deram certo. É só olhar para Thaís Araújo para concluir que melhor não podia ter ficado.

Gosto é gosto, que seria do amarelo, etc. etc. Apesar disso, até a beleza pode ser quantificada. A matemática traduz a beleza com o número 1,618, a chamada Proporção Áurea. Significa que esse número expressa a relação perfeita entre duas partes de qualquer coisa. Tudo que estiver 1,618 de um ponto a outro é perfeito. Por exemplo, um rosto humano. Se essa for a distância entre o nariz e o lábio, entre uma orelha e outra, entre o queixo e a testa, e em tudo o mais, eis aí a beleza. Isso pode ser aplicado também na natureza, na arquitetura, na literatura, em tudo que possa ser visto, tocado, medido.

Mas não fiquemos tristes se a proporção áurea passa longe de nós. Em questão de beleza, como em tudo mais neste mundo, há muito de misterioso, subjetivo, incompreensível. Quem ama o feio, bonito lhe parece, e nunca falta um chinelo velho para um pé cansado. Alguém há de nos achar, senão bonitos, pelo menos passáveis. Console-se.

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Microconto

Contemplei admirado a madeira maciça da porta que meu amigo fechava. No hospital, lamentei gemendo não ter tirado a mão a tempo.

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Histórias alheias 2

quarta-feira, 25 de março de 2026
por Robério Canto

Não é que eu não tenha ideias, é que elas são poucas e, portanto, preciso administrá-las, para que não acabem antes do tempo e me deixem na mão na hora da necessidade. Mais do que com o dinheiro, é indispensável ser sovina com as ideias. O mais prudente é fazer com elas como as pessoas que pulam o almoço para ter o que jantar. Um truque que às vezes salva um cronista menor é recontar histórias de autores mais competentes: não é prova de criatividade, mas também não chega a ser propriamente plágio. Já fiz isso uma vez e, como não fui processado, vou repetir hoje.

Não é que eu não tenha ideias, é que elas são poucas e, portanto, preciso administrá-las, para que não acabem antes do tempo e me deixem na mão na hora da necessidade. Mais do que com o dinheiro, é indispensável ser sovina com as ideias. O mais prudente é fazer com elas como as pessoas que pulam o almoço para ter o que jantar. Um truque que às vezes salva um cronista menor é recontar histórias de autores mais competentes: não é prova de criatividade, mas também não chega a ser propriamente plágio. Já fiz isso uma vez e, como não fui processado, vou repetir hoje.

De Villas-Bôas Corrêa

Deposto em 45, Getúlio foi para São Borja e não aceitava, mas também não recusava, os insistentes pedidos para que fosse candidato a presidente da República. Nereu Ramos era um dos nomes mais fortes para disputar o cargo. No entanto, o PDS o designou para procurar Getúlio e pedir que ele apoiasse um candidato do partido. O velho Gegê disse que concordava, contanto que o nome indicado fosse o do próprio portador da mensagem. Nereu alegou que não poderia voltar com aquela resposta, pois pareceria que ele, ao invés de representar o partido, representara a si mesmo. O resto é História. Por aí se vê que já houve nesta República homens que zelavam mais pela honra do seu nome do que pela honra de cargos e títulos.

De Machado de Assis

Ao ver um casebre em chamas à beira da estrada, o homem para diante das labaredas. Sentada no chão, uma mulher paupérrima chora tanto que quase se poderia apagar o incêndio com suas lágrimas. Ela é a dona do barraco, sendo aquilo o único bem que ela tem (ou tinha). Quando o homem lhe pergunta se a casa era dela, responde que sim: “É minha sim, meu senhor. É tudo que eu possuía neste mundo”. Educadamente, ele retruca: “Dá-me então licença que acenda ali o meu charuto?" Comovente prova de solidariedade e respeito pela propriedade alheia! O cavalheiro estava bêbado, e Machado, com o seu conhecido pessimismo sobre a natureza humana, acrescenta que não é preciso estar bêbado para se aproveitar do sofrimento alheio. Sim, a triste verdade é que muita gente, justamente quando está mais sóbria, faz exatamente o mesmo.

De Carlos Heitor Cony

Ernesto Cony é o grande personagem do ótimo “Quase memória”, no qual Carlos Heitor Cony narra muitas histórias do pai, um homem tão original que o filho pôde encher as 239 páginas do livro com as aventuras e desventuras em que o velho Cony se metera ao longo da vida.

Uma delas: saindo do almoço num hotel, Cony recebeu do porteiro um pacote que alguém, poucos dias antes, havia deixado para que lhe fosse entregue. Não sendo frequentador habitual do lugar, o escritor estranhou que tivessem deixado justamente ali aquele embrulho para ele. Mas um envelope com seu nome escrito não permitia a dúvida de que ele era o real destinatário. E tudo denunciava o remetente: a letra, o estilo, o cheiro e principalmente o barbante, com um tipo de laço que era especialidade de seu pai. O que não fazia nenhum sentido, pois Ernesto Cony havia morrido dez anos antes.

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Microconto: Pênalti

O Saci Pererê chutou a bola e fez um gol de placa, mas levou o maior tombo.

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Nudez militar

quarta-feira, 11 de março de 2026
por Robério Canto

Velhos tempos, em que usar mangas curtas já era suficiente para despertar desejos proibidos

Velhos tempos, em que usar mangas curtas já era suficiente para despertar desejos proibidos

Eu tinha dezoito anos, era um rapazinho desinformado das coisas do mundo, mas, se bem me lembro, naquela época andar nu em público ainda não tinha virado moda. No entanto, lá estava eu, pelado no meio de outros cinquenta ou sessenta jovens igualmente pelados, todos sem saber onde botar as mãos e os olhos. O governo havia me chamado para servir à Pátria, mas bastava me olhar para saber que eu era inservível, incapaz de atirar uma granada mais distante do que uma cusparada. Carregar peso, não mais do que dois quilos; correr, não mais do que cinquenta metros. Tudo isso eu teria confessado, sem precisar tirar a roupa.

No entanto, o Exército Brasileiro, ali presente na pessoa de dois ou três de seus bravos representantes, nada me perguntou e nada perguntou aos demais convocados para o exame. No Ginásio Celso Peçanha, as arquibancadas estavam cheias de caras semelhantes à minha, as mãos cobrindo como podiam as chamadas partes íntimas, todo mundo com medo de alguma intimidade.

Quando acharam que estar sentado no cimento frio já era castigo bastante, mandaram-nos levantar e entrar em fila. Se alguém já entrou em uma fila de homens nus, há de saber que não é uma situação propriamente agradável. A menos que fossem aqueles índios que Cabral encontrou em 1500, os quais não se preocupavam em esconder “suas vergonhas”, como lá diz Pero Vaz de Caminha, na famosa Carta do Descobrimento. Mas acho que mesmo eles evitavam entrar em fila.

Não que eu seja a favor do uso da burca, que esconde a lindeza feminina. Também esconde a feiura, mas, como na média há mais mulheres bonitas do que feias, o prejuízo causado pelas burcas é bem grande. E também não acho que devemos retornar ao terno, colete, paletó, gravata e galocha. Mas quanto mais se retorna no tempo, o que mais se vê são pessoas cobertas de pano. Basta ler o excelente, excelentíssimo conto “Uns braços”, de Machado de Assis.

Nele, a família abriga um rapaz de quinze anos, que trabalha de graça para o dono da casa. O pobre rapazinho vive enamorado da patroa, cujos braços não se cansa de olhar sorrateiramente e amar secretamente. Não que a mulher vivesse de biquini na piscina, ou andasse de short pela casa. Nunca o inocente Inácio tinha visto mais do que os braços, que ela ousava manter descobertos. Velhos tempos, em que usar mangas curtas já era suficiente para despertar desejos proibidos.

Sem ter como evitar, entrei na fila e fui seguindo, ora admirando o teto, ora contemplando o chão. E tanto demorou a caminhada que acabei sabendo de cor quantas vigas havia em cima e quantos pisos havia embaixo. Um a um, todos os futuros soldados (ou não) foram todos se apresentando, medidos, apalpados. Os considerados aptos iam para um lado, os demais ouviam um seco “dispensado” e saiam rapidinho, antes que os homens mudassem de opinião. Quando finalmente cheguei diante da autoridade, mastigava um dilema: não queria servir ao Tiro de Guerra, pois já então era contra tiros e contra guerras. Mas também sabia que a dispensa significava ter sido considerado um fracote. E foi isso que, por outras palavras, menos delicadas, me foi dito com franqueza militar.

Lá se vão muitos anos e, bem ou mal, o Exército Brasileiro tem sobrevivido sem mim. Que assim continue, para a felicidade dele e minha.

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Microconto: FIM

Depressivo, sentia-se sempre à beira de um abismo fatal – até o dia em que deu um passo à frente.

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Por causa de um acento

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026
por Robério Canto

Muitas e estranhas conversões têm ocorrido embaixo dos lençóis

Não é que a última reforma ortográfica, entre outras coisas, eliminou alguns acentos!  A ideia tem adeptos e adversários. Eu estou nessa briga como a Suíça quando os outros países resolvem fazer guerra: na maior neutralidade. Cada um que ponha o assento se quiser e onde quiser.

Muitas e estranhas conversões têm ocorrido embaixo dos lençóis

Não é que a última reforma ortográfica, entre outras coisas, eliminou alguns acentos!  A ideia tem adeptos e adversários. Eu estou nessa briga como a Suíça quando os outros países resolvem fazer guerra: na maior neutralidade. Cada um que ponha o assento se quiser e onde quiser.

Mas uma coisa nem mesmo os mais entusiasmados adeptos da abolição da escravatura e dos acentos podem negar: há casos e casos. Outro dia ouvi na TV que um autonomeado pastor havia arrebanhado a esposa do vizinho tanto para sua igreja quanto para sua cama, não sei se nessa ordem. Talvez a cama tenha vindo antes, muitas e estranhas conversões têm ocorrido embaixo dos lençóis. Simplificando, o tal homem havia entrado como o terceiro na relação conjugal, aliás, com a completa aquiescência do bom marido. Este, ouvido pela imprensa, mansamente declarou que, se assim era a vontade divina, ele aceitava dividir a companheira com aquele guia espiritual que havia revelado para ambos o caminho da salvação.

Mas o que tem isso a ver com reforma ortográfica?, perguntará o leitor. Pergunta pertinente, ainda que um pouco apressada. Tem a ver que, para assim proceder, o religioso dizia se basear na Bíblia. Bem sabemos que, lida ao pé da letra, o que não falta na Bíblia são coisas antibíblicas: guerras, assassinatos, traições, e assim vai. Às vezes até parece que o mundo estuda a Palavra Sagrada somente para fazer exatamente o contrário do que ela ensina.

Mas voltemos à pergunta do leitor apressado. “Para quem sabe ler um pingo é letra”, dizia um antigo ditado. Como nem os ditados antigos resistem ao racionalismo do mundo moderno, atualmente se diz que para quem sabe ler um pingo é pingo, só analfabeto é que acha que um pingo é letra. O fato é que, dependendo das circunstâncias, qualquer sinalzinho vale mais do que uma palavra inteira. E é aí que entra a história de dois pastores para uma só ovelha.

Para provar ao repórter que tinha direito àquela mulher, o religioso valeu-se da mesma passagem bíblica com que convencera os frequentadores do seu templo e que, com especial paciência e particular interesse, explicara ao marido. Diante das câmeras, solenemente apanhou as Escrituras e leu a recomendação divina, transmitida por Ezequiel: “Sim, você é uma esposa adultera”. Ali estava a prova: vinda de onde vinha, era mais que uma permissão, era uma ordem: “adultera”.

Mas vocês sabem como são esses repórteres, não se contentam com os próprios lenços, metem o nariz onde ninguém os chamou. No caso, o repórter meteu o nariz entre as páginas da Bíblia e foi logo acusando: “Mas tem acento no U. Não está escrito “adultera”, e sim “adúltera”.

O pastor mostrou-se verdadeiramente surpreso:

─ Ora, vejam só! Um sinalzinho tão pequeno, quase não se nota!

 Apesar da inelutável evidência ortográfica, o bom pastor não entregou os pontos e argumentou que, sim, havia cometido um erro, mas quase tão imperceptível quanto o acento que o causara. De modo que, estando o erro já consolidado, e uma vez que o marido não se opunha ao engenhoso arranjo religioso-conjugal, ele continuaria atuando como pastor para os fiéis em geral e, no caso particular daquela senhora, continuaria acumulando as funções de pastor do corpo e da alma.

E ainda tem gente que acha que os acentos não valem nada! Com eles ou sem eles pode-se adulterar até mesmo o Livro Sagrado! E não vai você agora sair por aí dizendo que eu estou criticando quem quer que seja. Por favor, não adultera o que eu escrevi!

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Microconto: No semáforo

Tinha medo de apanhar chuva e de morrer resfriada. Para não se molhar, atravessou a rua correndo. Pena que o sinal estava aberto para os carros.

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O X da questão

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Use a sua inteligência: não sei qual, mas ela existe e é muito maior do que você pensa

A acreditar no que dizem alguns cientistas, é a mãe que transmite a inteligência aos filhos, com pequena contribuição dos pais. Não que eu desfaça do seu intelecto, leitor, mas o fato é que as mulheres são mais inteligentes do que os homens. Sempre? Também não! Só em 99% dos casos. E a razão, dizem os pesquisadores, é que elas possuem dois cromossomos X, onde residem os “genes da cognição”, enquanto os machos, coitados, têm apenas um xizinho. Esse é o X da questão.

Use a sua inteligência: não sei qual, mas ela existe e é muito maior do que você pensa

A acreditar no que dizem alguns cientistas, é a mãe que transmite a inteligência aos filhos, com pequena contribuição dos pais. Não que eu desfaça do seu intelecto, leitor, mas o fato é que as mulheres são mais inteligentes do que os homens. Sempre? Também não! Só em 99% dos casos. E a razão, dizem os pesquisadores, é que elas possuem dois cromossomos X, onde residem os “genes da cognição”, enquanto os machos, coitados, têm apenas um xizinho. Esse é o X da questão.

Mas como toda medalha tem dois lados, além das bordas, também há pesquisadores que não embarcam nessa canoa, ou pelo menos ficam com um pé na canoa e outro na praia. Para estes, a inteligência não é apenas um presente materno. Outros genes interferem, além de fatores ambientais, educação, convivência e toda sorte de estímulo que se receba ou não. Portanto, a sabedoria do seu filho, minha senhora, assim como a dos macacos e dos golfinhos (sem querer comparar!) é também obra paterna.

Esse assunto me fez lembrar um episódio ocorrido entre Bernard Shaw ─ genial, mas feioso, e uma atriz ─ lindíssima, mas um tanto burra. Ela lhe teria proposto casamento, sugerindo que os filhos herdariam a beleza da mãe e a inteligência do pai. Prudentemente, Shawn respondeu: “E se acontecer o contrário?” Sim, sempre há algum risco e, mesmo que não houvesse, não existe beleza ou inteligência, por maiores que sejam, que valham mais do que a voz que conforta, o abraço que acolhe, a mão que se estende.

Um consolo e um estímulo para quem julga ter uma cabeça mais dura que a Pedra do Cônego é a teoria das Múltiplas Inteligências, criada pelo psicólogo americano Howard Gardner. Segundo ele, além da inteligência linguística e matemática, merecidamente reconhecidas e valorizadas, existem pelo menos mais sete, tão importantes quanto. E, melhor ainda: ter uma predominante não exclui ter as outras.

Não vou me alongar no assunto, e não é por modéstia ou falta de espaço, é por ignorância mesmo. Quase nada conheço do assunto. Mesmo assim, me arrisco a dar um exemplo: a inteligência interpessoal, que é a capacidade de ter empatia, entender os outros e interagir com eles.  É ela que permite (e a falta dela dificulta) construir bons relacionamentos, atuar em grupo, amenizar desentendimentos, resolver conflitos.

E você, o que preferiria, se tivesse que escolher como companhia para a vida toda ou mesmo como simples companheiro de trabalho: um gênio em física quântica, ou um bom amigo, verdadeiramente solidário, capaz de comparecer, socorrer, compartilhar? Antes de responder, use a sua inteligência: não sei qual é, mas ela existe e é muito maior do que você pensa.

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Microconto: Bailarinas

Sabia que nenhum concorrente tinha como impedir sua vitória. Mas só ao pisar no palco é que sentiu a pedrinha na sapatilha. Ficou em segundo lugar.

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O robô cozinheiro

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Pelo menos para uma outra coisa eles servem, se não, como é que iam existir mães e bebês?

Pelo menos para uma outra coisa eles servem, se não, como é que iam existir mães e bebês?

Há anos, participei de um encontro cujo tema era a criação dos filhos, situação em que, na época, eu me encontrava, ou, mais propriamente, me desencontrava, com três filhos pequenos e tentando ensinar português a sei lá quantos alunos: eram talvez duzentos: pareciam milhões. Os palestrantes cobriram as mulheres de elogios, todos muito merecidos, sem dúvida. Merecidos e insuficientes, porque elas merecem ser louvadas em prosa e verso, merecem toda a literatura já escrita no mundo.

Foi naquele encontro que conheci o conceito de “maternagem”, que é algo mais do que maternidade. É a maternidade acrescida daquela mensagem que, em silêncio, o coração materno diz ao recém-nascido: “Eu te amo, fique tranquilo”. O bebê reencontra a paz quando é colocado no colo da mãe pela primeira vez.  Ele estava navegando no paraíso e, de repente, foi atirado para fora das águas tranquilas que o agasalhavam. Ao ser abraçado pela mãe, ele descobre que pode voltar a dormir em segurança, e que o mundo aqui fora também pode ser um bom lugar para se viver.

Mas, lá pelas tantas, comecei a me sentir uma vassoura sem piaçaba, uma faca enferrujada, uma colher sem cabo, uma lâmpada queimada. Enfim, um imprestável utensílio doméstico. Ousei então perguntar para que serviam os pais. A resposta que me deram pouco me consolou: “Para dar apoio às mães”.  Calei a boca, mas no fundo achava, e acho, que pelo menos para uma outra coisa eles servem, se não, como é que iam existir mães e bebês?

Agora, tantos anos depois, leio que uma empresa alemã criou um robô que cozinha melhor do que o mais consagrado dos chefs internacionais. Já preparou um cardápio de cento e oitenta pratos, e quem provou diz que são deliciosos. Basta deixar os ingredientes à mão e fazer o pedido, ou os pedidos, porque o danado é capaz de preparar dezenas de refeições ao mesmo tempo e em poucos minutos. Infelizmente, nem adianta você, caro leitor, ou leitora ainda mais cara, querer reservar mesa para um romântico jantar a dois. No momento, saborear as maravilhas desse mestre-cuca está um pouco além dos trocados que você tem no banco. É coisa para o garfo do trilionário Elon Musk.

Até aí tudo bem, sou a favor de todos os progressos, sobretudo o progresso gastronômico. E espero o dia que há de vir em que até assalariado brasileiro poderá sentar-se à mesa e pedir ao garçom: “Traz aqui o robô cozinheiro que eu quero fazer meu pedido diretamente a ele”. Enfim, sonhar não custa nada, é mais barato do que um prato de angu.  

A essa altura, você estará pensando que eu fiz uma sopa maluca, comecei na maternidade e acabei na cozinha. Não é bem assim. É que o robô também lava e arruma as louças e talheres, com robótica perfeição. Diante dessa notícia, eu me lembrei daquele encontro de que falei acima, no qual me senti um inútil, diante da multiplicidade de talentos femininos. Eis que atualmente meu maior orgulho é lavar a louça das refeições. Ponho os pratos, copos e talheres brilhando e me sinto um herói, digno da admiração e do respeito da família e da sociedade. Pois até essa última glória me vai ser tirada, pois tão logo o robô cozinheiro esteja nas lojas, minha mulher vai querer comprar um e aí o que me restará? Dar apoio ao robô, e olhe lá!

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Microconto: Acidente

Saiu do bar já meio tonto e viu os faróis brilhando no cruzamento das ruas. Quando abriu os olhos, só via máscaras, tubos, fios e luzes que piscavam.

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O relógio da fábrica

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Apenas sessenta segundos, mas pesavam muito no fim do mês

Apenas sessenta segundos, mas pesavam muito no fim do mês

Quem passa pela antiga Fábrica de Rendas, hoje transformada em Espaço Arp, pode ver, no alto de uma de suas esquinas, um relógio empoeirado e mudo. Pioneira da indústria local, a fábrica durou um século e fez parte da vida de milhares de famílias friburguenses. Mas chegou o dia em que, às 6h45, o coração do relógio parou de bater, para sempre desligado do tempo que ele, germanicamente, vigiava com tanto afinco. Para os trabalhadores, ele ditava o ritmo da própria vida: era preciso estar atento ao seu tique-taque imperioso. Um minuto de atraso e perdia-se o dia de trabalho e, em consequência, o repouso semanal remunerado. Apenas sessenta segundos, mas pesavam muito no fim do mês, quando o pagamento chegava emagrecido. Era o peso da ausência, do que faltava, do que vinha a menos. Como pesavam os ponteiros daquele relógio!

Mas tinha seu lado bom, servia justamente para que ninguém perdesse a hora: 6h45 era um alerta. E não só para os que ali trabalhavam: a todos que o consultassem, ele permitia que fossem mais devagar, ou ordenava que apressassem o passo, que corressem para pegar o ônibus, que movessem com mais energia as rodas da bicicleta. Sei de um garoto que todo dia, de manhãzinha, pedalava em frente a ele, rumando para a Ypu, na qual ajudava a transformar peças de couro em cintos e carteiras. “Sebo nas canelas, que só tenho 15 minutos para chegar ao portão!” Quando o garoto voltava para casa, o sol já estava encerrando seu expediente. Mas, como “todo o mundo é composto de mudança”, as fábricas fecharam, e o relógio da Arp calou-se, ficou apenas na memória dos que o conheceram e obedeceram ao seu comando.

Havia ainda outra categoria profissional que se guiava pelo relógio: os carregadores de almoço. Quem se lembra deles? Embora as fábricas tivessem refeitório e oferecessem pratos a preço razoáveis, muita gente preferia a marmita com sabor de casa, saída das mãos da mãe ou da esposa. Então, em troca de modesto pagamento, algumas pessoas levavam as refeições até as bocas a que se destinavam. Os carregadores que tinham mais fregueses davam-se ao luxo de empurrar um carrinho de madeira, no qual cabiam várias marmitas. Que se saiba, nunca ninguém passou fome por causa desses humildes trabalhadores. De quantos poderosos se pode dizer o mesmo?

O relógio, que tanta gente viu passar e tanta coisa viu acontecer, agora está lá, em sua eloquente mudez. Seria bom se os responsáveis pelo Espaço o ressuscitassem, em memória de seus longos anos de trabalho honesto e dedicação exemplar. E nem precisava que ele voltasse a marcar as horas. Bastaria que, limpo e restaurado, ficasse como lembrança de um tempo em que a cidade se movia a pé ou de bicicleta, em que a própria vida não tinha motivos para outras correrias além daquelas impostas pelo deslizar dos ponteiros dos relógios das fábricas.

E talvez não fosse descabido colocar em seu pedestal este verso de Mário Quintana: “O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente”.

Foto da galeria
(Foto: Arquivo Pessoal)
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