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Entre montanhas e mercados: O caminho da internacionalização

quinta-feira, 18 de setembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Nova Friburgo nasceu em 1819 como a primeira colônia suíça planejada no Brasil. Desde o início, a cidade combinou a disciplina europeia com a inventividade brasileira, criando uma cultura de trabalho e qualidade que atravessa gerações de nascidos e residentes na conhecida “Suíça Brasileira”.

Essa herança se refletiu em fábricas, indústrias e serviços que deram fama à região serrana, transformando um pequeno povoado de colonos em um polo econômico de relevância nacional, tornando-se referência em moda íntima, fitness, metal-mecânico e turismo, atraindo visitantes e investidores.

Nova Friburgo nasceu em 1819 como a primeira colônia suíça planejada no Brasil. Desde o início, a cidade combinou a disciplina europeia com a inventividade brasileira, criando uma cultura de trabalho e qualidade que atravessa gerações de nascidos e residentes na conhecida “Suíça Brasileira”.

Essa herança se refletiu em fábricas, indústrias e serviços que deram fama à região serrana, transformando um pequeno povoado de colonos em um polo econômico de relevância nacional, tornando-se referência em moda íntima, fitness, metal-mecânico e turismo, atraindo visitantes e investidores.

Ao longo do século XX, Friburgo diversificou sua economia e mostrou talento para inovar. Mesmo após crises econômicas e tragédias naturais, a cidade sempre soube se reerguer, reforçando o espírito empreendedor que marca sua identidade. Hoje, esse mesmo impulso precisa ser canalizado para um novo desafio: conquistar o mercado global.

Os números recentes do comércio exterior deixam claro o tamanho da tarefa. Em 2024, exportamos cerca de 4,4 milhões de dólares, mas importamos 18,5 milhões, acumulando déficit superior a 76 milhões de reais. Para cada real que sai com produtos friburguenses, quatro entram de fora.

Essa balança negativa é mais do que um dado contábil; é um sinal de que precisamos ampliar horizontes e planejar a presença de Friburgo no cenário internacional. E, ao contrário do que muitos pensam, internacionalizar não significa apenas vender para fora. É criar competitividade, atrair investimentos, absorver tecnologia e gerar empregos de alta qualificação.

Cidades que se abrem ao mundo desenvolvem infraestrutura, elevam padrões de qualidade e oferecem mais oportunidades a seus cidadãos. Friburgo já tem tradição industrial, um polo universitário consolidado em nível nacional, empreendedores resilientes e um ecossistema de startups em expansão. O momento pede ousadia para transformar essas qualidades em estratégia.

 

Internacionalização: Um processo necessário

O especialista em internacionalização de negócios Vinicius Bittencourt, cofundador da Flow Vista, empresa com operações em 30 países, explica que, no campo industrial, o Brasil ainda tem muitas oportunidades de exportação, favorecidas pela isenção de impostos tanto em serviços quanto em produtos.

“Quando falamos de uma cidade como Nova Friburgo, é importante ver a criatividade como um motor de internacionalização. Serviços de tecnologia, marketing e até profissões como a advocacia podem ser exportados com competitividade. Mas, para aproveitar isso, é essencial investir em marketing internacional, para que nossas empresas sejam encontradas por parceiros e importadores.”

“As missões internacionais e a participação em eventos fora do país são fundamentais nesse processo, porque posicionam a cidade e abrem portas. Não podemos pensar apenas em grandes indústrias. Startups, empreendedores individuais e negócios criativos têm espaço lá fora. Programas de aceleração com foco global, conexão com investidores estrangeiros e cultura de inovação podem gerar empregos e soluções inovadoras — e Nova Friburgo tem talentos capazes de entregar isso”, conclui Vinicius.

 

Iniciativa na Câmara de Vereadores 

O vereador Marcos Marins, presidente da Comissão de Desenvolvimento Econômico da Câmara de Vereadores de Nova Friburgo e ex-secretário de Desenvolvimento Econômico, destaca o papel do poder público nesse processo, desburocratizando processos, facilitando acesso ao crédito e abrindo canais de diálogo com  mercados internacionais.

“Nosso trabalho é criar pontes: facilitar acesso a crédito. Estamos elaborando propostas e indicações legislativas que incentivem a internacionalização das empresas friburguenses, impulsionem a economia local e gerem mais empregos qualificados. O setor privado é essencial, mas o governo deve oferecer as condições para que as oportunidades aconteçam, especialmente numa cidade que ocupa uma grande fatia

do mercado nacional em diversos setores”, explica Marcos Marins.

Transformar esse potencial em realidade exige união de esforços. Universidades podem formar profissionais com visão global, entidades de classe podem fomentar consórcios de exportação e certificações, enquanto empresários devem investir em inovação e sustentabilidade. O poder público, por sua vez, precisa buscar acordos e parcerias que tornem esse caminho menos burocrático e mais competitivo, permitindo

que a cidade conquiste mercados de maneira consistente.

Nova Friburgo já provou, ao longo de mais de dois séculos, que sabe se reinventar. Dos colonos suíços que transformaram a serra em lar produtivo aos empresários que fizeram da moda íntima uma marca nacional, a cidade demonstra talento e ambição.

Agora é hora de mostrar que também temos vocação global. Internacionalizar não é luxo: é uma necessidade para garantir que as próximas gerações encontrem aqui uma cidade vibrante, inovadora e plenamente conectada ao futuro.

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As figuras mudaram, mas a festa continua

quinta-feira, 11 de setembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Na última sexta-feira, 5, a Prefeitura de Nova Friburgo anunciou, no Diário Oficial Eletrônico, a abertura de uma licitação milionária para contratar a empresa responsável pela ornamentação do evento natalino de 2025 denominado “Um Encanto de Natal – O Espetáculo de Noel”, com desfiles, em dezembro, na Avenida Alberto Braune.

Na última sexta-feira, 5, a Prefeitura de Nova Friburgo anunciou, no Diário Oficial Eletrônico, a abertura de uma licitação milionária para contratar a empresa responsável pela ornamentação do evento natalino de 2025 denominado “Um Encanto de Natal – O Espetáculo de Noel”, com desfiles, em dezembro, na Avenida Alberto Braune.

O certame, marcado para o dia 24 deste mês, terá como critério o menor valor global oferecido. A vencedora vai receber R$ 2.083.613,14, pagos com recursos da Secretaria de Turismo. A licitação prevê não apenas a instalação, mas também a restauração, reforma, transporte e manutenção das peças ornamentais e luminosas.

É um pacote completo, incluindo até mesmo a desmontagem após as festividades. Quem tiver interesse pode acessar o edital no site da prefeitura e participar do pregão eletrônico. Tudo parece organizado em termos burocráticos. Mas quando olhamos para o histórico recente, a sensação é de que os problemas vão muito além do procedimento.

 

Histórico problemático

Nos últimos três anos, os gastos com o espetáculo natalino dispararam: cerca de R$ 4 milhões em 2022, R$ 6,2 milhões em 2023 e, em 2024, valores que ultrapassaram R$ 5 milhões. O Natal virou um negócio milionário para a cidade, com contratações que incluem companhias de teatro, carros alegóricos e enfeites luminosos.

Ao mesmo tempo, denúncias mostram que parte desse dinheiro não surgiu de um planejamento sólido, mas de remanejamentos de áreas vitais e essenciais da cidade como valores disponíveis para iluminação pública e até mesmo saúde – mesmo com um cenário crítico vivido no Hospital Raul Sertã e com repercussão nacional.

Segundo investigações do Ministério Público, verbas federais do SUS e recursos que deveriam ser usados para manter as ruas iluminadas foram realocados para financiar o brilho das festas. Em outras palavras: enquanto faltava lâmpada em poste de bairro, sobrava luz para a Avenida Alberto Braune.

Enquanto hospitais enfrentavam filas e carências, carros alegóricos de Natal desfilavam em grande estilo. Uma troca que pode ser bonita na vitrine, mas amarga na realidade cotidiana da população que precisa diariamente do SUS.

 

Mesma festa, outras figuras

Outro detalhe que chama atenção: tanto o atual quanto o ex-secretário de Turismo já não estão mais à frente da pasta. As figuras mudaram, mas a festa continua. Sai um, entra outro, e o espetáculo continua sendo preparado com cifras milionárias, em meio a escândalos e investigações.

É como se a troca de nomes fosse suficiente para dar ares de renovação, mas, na prática, o jogo permanece o mesmo: gastar muito em eventos, enquanto setores essenciais ficam à deriva, mesmo com tantos escândalos de grande repercussão ocorrendo.

O Ministério Público tem repetido: Nova Friburgo não conta com políticas estruturadas de turismo e cultura. O que vemos, na prática, são eventos planejados no improviso, custeados às vezes com recursos de áreas que deveriam ser intocáveis. Para mudar isso, sugeriu a criação de um Plano Municipal de Turismo e Cultura, com metas claras, diagnóstico técnico e participação da população. A mensagem é direta: parar de remendar e começar a planejar de verdade.

Além disso, recomendou a criação de orçamento próprio e permanente para essas áreas, junto com o fortalecimento do Conselho Municipal de Turismo e Cultura. Com regras claras e transparência, não seria preciso recorrer a cortes em saúde ou iluminação para bancar festas. A cidade poderia, sim, ter eventos grandiosos sem sacrificar o essencial. Mas, para isso, seria necessário planejamento e responsabilidade com o dinheiro público.

 

Um brilho sem luz

Nova Friburgo tem uma história marcada por resiliência diante de crises e tragédias, mas também por escolhas equivocadas. O paradoxo é cruel: enquanto a cidade luta para manter escolas funcionando e hospitais atendendo sem o mínimo de dignidade, continua destinando cifras milionárias para o Natal.

O brilho das luzes muitas vezes serve para esconder a escuridão dos problemas não resolvidos. A prioridade se inverte: a festa vem antes do básico. Não se trata de ser contra o Natal, nem contra a cultura. Muito pelo contrário. Eventos culturais são fundamentais, unem a comunidade e fortalecem a economia. O problema está na forma como são feitos: sem planejamento, sem orçamento próprio e às custas de setores que deveriam ser intocáveis. Saúde e iluminação não são luxo, são necessidades mínimas. E quando essas áreas perdem recursos para financiar o espetáculo, o recado é claro: o desfile vale mais que o essencial.

Talvez a pergunta que todos deveríamos nos fazer seja: que tipo de cidade queremos construir? Uma cidade que brilha algumas semanas ao ano, mas apaga o resto do tempo? Ou uma cidade capaz de conciliar o encanto da cultura com a dignidade de serviços públicos funcionando? O Natal pode, sim, ser um espetáculo. Mas não pode continuar sendo o espetáculo da inversão de prioridades.

Porque, no fim das contas, a cada troca de secretário, parece que só mudam as figuras no presépio, mas o roteiro da festa continua igual.

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Entre o livro da lei e a rasura

quinta-feira, 04 de setembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

A democracia é como uma flor rara. Parece frágil, mas é justamente na sua aparente fragilidade que repousa sua força. Ela floresce não porque é protegida por grades ou muros, mas porque se alimenta do respeito cotidiano, da confiança mútua e da paciência em ouvir o outro, mesmo quando não gostamos do que ele diz.

A democracia é como uma flor rara. Parece frágil, mas é justamente na sua aparente fragilidade que repousa sua força. Ela floresce não porque é protegida por grades ou muros, mas porque se alimenta do respeito cotidiano, da confiança mútua e da paciência em ouvir o outro, mesmo quando não gostamos do que ele diz.

Houve dias em que essa flor foi pisoteada. Não por acaso, mas por mãos que acreditavam ser possível arrancá-la e substituí-la por algo mais duro, mais áspero, menos plural. E, no entanto, a história já nos mostrou que jardins de pedra não acolhem pássaros, nem sonhos, nem o futuro.

Aqueles que invadem os espaços sagrados do debate e da justiça talvez não compreendam que não estão apenas quebrando vidros ou portas: estão tentando despedaçar o próprio espelho da sociedade. Pois nesses prédios — altos, solenes e muitas vezes distantes — não estão apenas paredes, mas símbolos de um pacto coletivo chamado democracia.

É verdade que esse pacto é imperfeito, cheio de ruídos, injustiças e demoras. Mas ainda assim, é nele que nos encontramos. A democracia é um diálogo interminável entre vozes desencontradas. É uma sinfonia em que o desafinado também tem lugar, mesmo que nos irrite, porque sem ele não há verdadeiramente música.

Não há democracia sem a aceitação do tempo. O tempo do voto, o tempo da espera, o tempo da alternância. Quem deseja atalhos rápidos esquece que a pressa é irmã da tirania. É fácil ceder ao canto sedutor da força, à ilusão de que basta um punho fechado para resolver os impasses. Mas nada floresce na sombra do medo.

Por isso, quando vemos muros sendo escalados e janelas quebradas, é como se víssemos alguém tentando rasgar as páginas de um livro no meio da leitura. A história não para porque alguém deseja pular capítulos. Ela insiste, persiste, e escreve por cima das rasuras. É o livro da lei que resiste, ainda que manchado, sempre reescrito pelo tempo.

A defesa da democracia não se faz apenas nos tribunais ou nos palácios. Faz-se no cotidiano. Faz-se quando aceitamos perder uma disputa, quando escolhemos a palavra em vez da pedra, quando acreditamos que a verdade não é monopólio de ninguém. Cada gesto de tolerância é um tijolo novo em sua construção.

É preciso lembrar que o ódio é um péssimo arquiteto. Ele constrói casas que logo desmoronam, porque são feitas de paredes ocas. Já a esperança, mesmo tímida, constrói moradas que atravessam gerações. A democracia é justamente essa esperança organizada, dando abrigo aos que ainda não nasceram.

Se a democracia for uma praça, que seja uma praça cheia de vozes, onde crianças correm e idosos descansam. Onde cabem protestos e celebrações, encontros e despedidas. Uma praça que só existe porque é de todos e, por isso mesmo, não pode ser tomada por uns poucos que acreditam ser donos do destino coletivo.

Talvez nunca aprendamos a conviver sem conflitos. Mas podemos aprender a transformar conflitos em conversa, e conversas em pontes. É assim que a democracia resiste: não no silêncio da unanimidade, mas no burburinho da diversidade. O verdadeiro perigo não está no barulho, mas no vazio de ideias barulhentas.

E como qualquer jardim, a democracia pede cuidado constante. Não basta plantar uma vez e esquecer. É preciso regar, podar excessos, retirar ervas daninhas. O descuido abre espaço para pragas que chegam sorrateiras, disfarçadas de soluções rápidas, mas que corroem lentamente a raiz do comum.

Há quem confunda liberdade com licença para destruir. Mas liberdade verdadeira é também responsabilidade: é saber que meu gesto não pode esmagar o direito do outro. Democracia é essa dança delicada, em que os passos se ajustam para que todos possam continuar no mesmo compasso.

E aqui é preciso dizer: perdoar atos que buscavam apagar a própria democracia não é generosidade, é cegueira. A anistia para quem tentou calar instituições não é reconciliação, é convite ao abismo e à tolerância com o intolerável. Porque não se trata de divergência política, mas de um ataque contra a própria possibilidade de termos política.

Quando alguém tenta derrubar suas colunas, a democracia não cai de imediato. Ela balança, cambaleia, mas resiste porque está fincada na memória de um povo. Cada geração que a defende adiciona mais uma pedra em seus alicerces, tornando-a mais difícil de ser demolida, ainda que sempre vulnerável.

E assim seguimos, cuidando da flor rara. Ela já resistiu a secas, tempestades e invernos rigorosos. Resistirá de novo, se não esquecermos que sua raiz está em nós. Não nos esqueçamos: a democracia não é um presente que recebemos. É uma tarefa que não termina nunca. Pois cada geração acrescenta uma nova página ao livro da lei, e não podemos permitir que seja rasurado por meio da violência.

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Um friburguense pelo Summit Floripa

quinta-feira, 28 de agosto de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Florianópolis, capital de Santa Catarina, é conhecida pelas praias deslumbrantes, mas hoje também carrega outro título: o de “Ilha do Silício brasileira”. Isso porque a inovação já responde por cerca de 25% do PIB da cidade, mostrando como a tecnologia pode transformar a economia local. Esse movimento ganha sua maior vitrine no Startup Summit, evento que reúne milhares de pessoas em torno do empreendedorismo e das novas ideias.

Florianópolis, capital de Santa Catarina, é conhecida pelas praias deslumbrantes, mas hoje também carrega outro título: o de “Ilha do Silício brasileira”. Isso porque a inovação já responde por cerca de 25% do PIB da cidade, mostrando como a tecnologia pode transformar a economia local. Esse movimento ganha sua maior vitrine no Startup Summit, evento que reúne milhares de pessoas em torno do empreendedorismo e das novas ideias.

Em 2025, o Summit está sendo realizado desde quarta-feira, 27, até esta sexta, 29, com a expectativa de atrair mais de dez mil pessoas presencialmente. Organizado pelo Sebrae e pela Acate, ele se tornou um dos maiores encontros de inovação do país. Desde 2018, o evento cresce ano após ano e hoje é referência para quem quer conhecer de perto as tendências e, principalmente, viver a atmosfera única do ecossistema catarinense.

Mas afinal, o que é esse ecossistema? É uma rede formada por startups, universidades, aceleradoras, investidores e grandes empresas, todas conectadas em busca de soluções. Mais do que tecnologia, o ecossistema é sobre gente se encontrando, trocando experiências e criando oportunidades juntos. No Summit, isso acontece nos palcos, mas também nos corredores, nas filas de café ou em conversas improvisadas que muitas vezes viram negócios reais.

A programação impressiona: são centenas de palestrantes nacionais e internacionais falando sobre inteligência artificial, sustentabilidade, impacto social, futuro do trabalho, diversidade e muito mais. Porém, a verdadeira força do evento está na energia coletiva. Pessoas de diferentes áreas se juntam, compartilham histórias, dividem desafios e descobrem que inovação não é só criar aplicativos, mas sim pensar em soluções que transformem a vida em comunidade.

Muitas startups relatam que fecharam seus primeiros contratos justamente nesses encontros casuais. Outras encontram parceiros estratégicos ou até investidores dispostos a apostar em suas ideias. Esse clima de colaboração espontânea talvez seja o que mais inspira quem participa do Summit. É como se todos acreditassem, por alguns dias, que inovar é possível para qualquer um que esteja disposto a tentar.

E o mais interessante é que inovação aqui não se limita à tecnologia. Há projetos que unem propósito e impacto social, como startups voltadas à educação inclusiva, à saúde preventiva ou à preservação ambiental. Essa diversidade mostra que empreender pode, sim, ser uma forma de melhorar a vida das pessoas – e não apenas de gerar lucro. O Summit reforça que a inovação precisa andar lado a lado com a responsabilidade social.

Estar em Florianópolis durante o Summit é perceber como uma cidade inteira pode ser transformada por esse espírito. Incubadoras, hubs, coworkings e universidades caminham juntos para fortalecer um ambiente que gera empregos e atrai investimentos. Para quem vem de fora, como eu, de Nova Friburgo, fica claro como esse modelo poderia servir de inspiração. Afinal, nossa cidade tem potencial enorme, com diversas faculdades e um polo de moda íntima reconhecido no país inteiro.

Imagine se esse polo, já inovador no design e na criação, se aproximasse mais de universidades, buscasse startups de tecnologia têxtil ou apostasse em parcerias voltadas à sustentabilidade? Assim como Florianópolis, Friburgo poderia diversificar sua economia e gerar ainda mais oportunidades para os jovens que se formam por aqui. O ecossistema não é algo distante; é apenas a soma de pessoas e instituições que decidem caminhar juntas.

Outro ponto marcante do Summit é a chance de pequenas ideias ganharem escala ao se conectar com grandes empresas. A troca é mútua: startups oferecem inovação ágil, enquanto corporações trazem estrutura e mercado. Esse casamento movimenta a economia, gera empregos e fortalece ainda mais a região. Para cidades como a nossa, esse modelo de cooperação poderia ser uma peça-chave de desenvolvimento.

Participar do Summit é, acima de tudo, uma experiência humana. São histórias de quem começou com pouco, de mulheres que romperam barreiras, de equipes que transformaram erros em aprendizado. O que se celebra ali não é só tecnologia, mas a coragem de sonhar e de persistir. O evento mostra que inovar é criar pontes: entre pessoas, empresas e cidades.

De Nova Friburgo para Florianópolis, fica a certeza de que o futuro pode ser mais colaborativo, conectado e humano. E, como um friburguense pelo Summit Floripa, volto com a convicção de que a inovação é um caminho possível também para a nossa região. Basta estarmos abertos a construir juntos essa transformação.

Foto da galeria
(Foto: Arquivo pessoal)
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Nova Friburgo é passado, presente ou futuro?

quinta-feira, 21 de agosto de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Um dia percebemos que, passado, presente e futuro, fazem parte de toda a história da humanidade e consequentemente, da nossa singela vida. Vivendo no presente, sempre tive a percepção de morar agarrado no passado, e em pensamento, viver ansiosamente, planejando cada passo do meu futuro.

E quando me dei conta, percebi que passado, presente e futuro não são mais tempos tão distintos assim. Na verdade, somos o que somos porque vivemos todos os tempos simultaneamente, sem mesmo que possamos ser plenamente capazes de perceber essa ligação tão sublime.

Um dia percebemos que, passado, presente e futuro, fazem parte de toda a história da humanidade e consequentemente, da nossa singela vida. Vivendo no presente, sempre tive a percepção de morar agarrado no passado, e em pensamento, viver ansiosamente, planejando cada passo do meu futuro.

E quando me dei conta, percebi que passado, presente e futuro não são mais tempos tão distintos assim. Na verdade, somos o que somos porque vivemos todos os tempos simultaneamente, sem mesmo que possamos ser plenamente capazes de perceber essa ligação tão sublime.

“Freud explica? ”. É bem provável que Sigmund Freud, pai da psicanálise, fosse o mais capaz de nos explicar de que nada do que somos e fazemos é por um simples acaso do universo. Para tudo, há uma explicação a ser explorada num divã na sala de terapia.

Na vida humana, devemos nos lembrar que as lutas, as dores, sofrimentos, vitórias, angústias e alegrias compõem a beleza e a imperfeição de ser quem somos. Na vida de uma cidade, como Nova Friburgo, o caminho percorrido é idêntico, dividido em três tempos, em que a lógica não deve ser entendida de modo diferente.

Nosso passado é marcado por momentos históricos únicos e que trazem a identidade do povo friburguense, aguerrido e persistente. Em meio à muitas dificuldades, crescemos e edificamos forças a essa cidade mesmo diante de todas as adversidades geográficas, naturais e políticas.

Somos orgulhosos de sermos detentores do título de única cidade criada por um decreto real. Não somos modestos, dos anos de ouro vividos nas décadas de 70 e 80, em que o Sul do país aprendeu conosco a fazer uma festa da cerveja. E somos extremamente resilientes, de mesmo diante da maior tragédia natural do país, reconstruirmos.

Entretanto, a partir dos anos 90, em meio às muitas disputas políticas, Nova Friburgo ficou esquecida em meio ao caos, e aos poucos foi perdendo em tudo aquilo que lhe tornava única: o seu brilho, a sua prosperidade e o mais importante, a sua identidade.

No presente, uma revolução fazia-se necessária em Nova Friburgo: e nela, surgiu o desejo de rememorar o saudosismo e querer trazer ao presente, todas as boas memórias construídas, do que havia de melhor nos anos de ouro, muito bem vividos pelos mais antigos habitantes dessa cidade - a boêmia!

Há uma digna e justa tentativa em resgatarmos o nosso brilho através da nossa identidade. Contudo, ainda que o passado seja recheado das boas lembranças dos anos de ouro na serra carioca - que infelizmente ficaram para trás – é muito importante percebermos que o mundo não é mais como era antigamente. E a nós, cabe a pergunta do que seremos no dia de amanhã.

Paralisar as nossas ações em lembranças de um passado de realização, na esperança de um futuro melhor, tem mostrado não nos ajudar a provocar a mudança ou o desenvolvimento como um todo. A evasão da realidade, apesar de ser bastante confortável, pode gerar muitos problemas futuros.

Não estamos investindo em inovação e muito menos nos adequando ao novo mundo, que é bem diferente, dos vividos nos anos de ouro. A vastidão dos empregos se foi com as fábricas, que carregaram consigo, toda a prosperidade da juventude friburguense, que prefere sonhar, em locais com mais oportunidades e possibilidades.

Cada dia mais somos uma cidade mais pobre, na busca de projetos, que não mudaram efetivamente a nossa vida. O mundo, por sua vez, cresceu, inovou, dinamizou e inovou e nós, ficamos para trás. Não nos dedicamos a mudar, somente repetir, o que um dia já deu certo e quem sabe, dará certo de novo.

Ainda que a luta seja extremamente justa pelo saudosismo da boemia e do turismo, vivido nos anos 70 e 80, com todo o nosso potencial, seguimos fora do ranking das cidades visitadas por turistas no Estado. E agora? Não podemos, nem como ser humano e nem como cidade, apostar todas as fichas em uma única tentativa e em uma única solução.

Para qualquer mudança e evolução é necessário um esforço constante e acima de tudo, consciente – e é bem provável que Freud diria isso também. Mudança é o resultado de esforço e de foco.

Vivemos no presente com um imenso potencial. O passado já não mais o teremos. E o futuro, ainda que incerto e desconhecido, é totalmente mutável. Daquilo que passou, cabe agradecer, incluir e integrar em sua história. E daquilo que virá, inovar para não se perder novamente no tempo.

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Trânsito e mobilidade em Nova Friburgo: desafios que exigem atenção urgente

quinta-feira, 14 de agosto de 2025
por Jornal A Voz da Serra

O trânsito em Nova Friburgo se tornou um dos principais desafios para a cidade. Recentemente, o número de acidentes registrados tem sido alarmante. Esse aumento reflete a falta de planejamento e infraestrutura adequadas para o crescente número de veículos em nossas ruas.

O trânsito em Nova Friburgo se tornou um dos principais desafios para a cidade. Recentemente, o número de acidentes registrados tem sido alarmante. Esse aumento reflete a falta de planejamento e infraestrutura adequadas para o crescente número de veículos em nossas ruas.

Nova Friburgo, com sua geografia serrana e ausência de rotas de escape para o trânsito, exige um esforço peculiar das autoridades. As ruas estreitas, os desníveis acentuados e a falta de sinalização em algumas áreas combinado com a pouca atuação dos agentes de trânsito são fatores que contribuem para o aumento dos acidentes. O desafio é grande, mas não pode ser ignorado.

 

Problemáticas mais que visíveis

As causas dos acidentes em Nova Friburgo vão além do simples desrespeito às leis de trânsito. O excesso de velocidade, embora seja uma das principais razões, não é o único fator. A falta de educação no trânsito, a deficiência na fiscalização e a falta de planejamentos do município com a causa agravam ainda mais os números.

Um outro fator importante se dá pela falta de educação e fiscalização no trânsito. Embora existam faixas de pedestres pintadas, a sua existência parece invisível aos motoristas de Nova Friburgo, que muitas vezes aceleram para não deixar que o pedestre cumpra a sua travessia. A prática é constante, aliada a omissão do poder público que não promove ações de conscientização.

Não menos importante, a deficiência na fiscalização ter tornado o trânsito de Nova Friburgo ainda mais perigoso. Todos param seus carros onde querem e bem entendem, afunilando vias importantes no trânsito intenso da cidade. Os desvios de faixa em um trânsito intenso, estressado e sem fiscalização, fazem parte da receita que elevam os números de acidentes.

Além disso, embora diversas vias sejam asfaltadas, não há como negar que a cidade carece de atenção na sua infraestrutura, contando com muitas ruas esburacadas, bueiros desnivelados e inúmeros trechos mal sinalizados, tornando um ambiente de risco constante para motoristas, motociclistas e pedestres.

Por fim, não há como esquecer o aumento do número de motociclistas. Em uma cidade com vias afuniladas e trânsito intenso acabam se tornando um perigo, tanto para quem as pilota quanto para os demais motoristas. A falta de fiscalização específica para a alta velocidade dos motociclistas e a desconsideração total pelas regras de segurança fazem com que os motociclistas se exponham a acidentes ainda mais graves.

 

Não falta solução, falta iniciativa

O planejamento urbano deve ser uma prioridade para garantir maior segurança e fluidez no trânsito. A implementação de políticas públicas diferenciadas na guarda municipal e a melhoria nas condições de trânsito e infraestrutura da cidade são para tornar as ruas mais acessíveis e seguras.

A fiscalização também deve ser intensificada para garantir que as leis de trânsito sejam cumpridas. A presença constante da Guarda Municipal e da Polícia Militar nas ruas pode ajudar a reduzir as infrações. Além disso, o uso de câmeras de monitoramento já existe em nossa cidade, só não são utilizadas como deveriam. A fiscalização constante é essencial para reduzir os acidentes e aumentar a segurança.

A tecnologia não precisa ser utilizada apenas para multar, mas na melhoria da mobilidade. Aplicativos de trânsito que informam sobre as condições das vias, aliados a políticas públicas sérias podem ajudar na gestão do trânsito. Sistemas inteligentes de semáforos, que se adaptam ao fluxo de veículos, também podem contribuir para a fluidez do tráfego. O uso de tecnologia já é utilizado em diversas cidades e portanto, deve ser parte da solução.

Além disso, o transporte público precisa ser melhorado para reduzir a dependência do carro particular. O transporte coletivo em Nova Friburgo ainda é insuficiente e arcaico, deixando os moradores das zonas mais afastadas em uma situação vulnerável. A melhoria da qualidade do transporte alternativo e a implementação de vans com preços acessíveis, poderia ser um passo importante para uma mobilidade mais sustentável.

A conscientização no trânsito é uma das ferramentas mais poderosas para transformar a realidade. Campanhas educativas devem ser realizadas regularmente para alertar motoristas, pedestres e motociclistas sobre as regras e a importância da segurança. A educação no trânsito é um investimento de longo prazo que pode salvar vidas e reduzir os índices de acidentes. As autoridades devem priorizar ações nesse sentido.

 

Estamos ficando para trás

Em Nova Friburgo, é possível transformar o trânsito em uma realidade mais segura, mas isso exige esforço conjunto entre poder público e cidadãos. Enquanto o município de São José-SC, implementa um sistema de trânsito inteligente e Gramado-RS e Bento Gonçalves-RS promovem educação no trânsito, Nova Friburgo somente liga a sirene dos carros da Secretaria de Mobilidade e aplica multas.

O investimento em infraestrutura, a melhoria do transporte público e o aumento da fiscalização são passos essenciais. É hora de tomar ações concretas para garantir que as ruas de Nova Friburgo sejam mais seguras para todos. O futuro da mobilidade na cidade depende da nossa capacidade de agir agora.

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Quando meu pai era gigante

quinta-feira, 07 de agosto de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Quando eu era pequeno, meu pai era o homem mais forte do mundo. Ele alcançava coisas no alto dos armários, carregava sacolas pesadas com uma só mão e tinha um jeito de abrir os potes de palmito que parecia mágica. Bastava um giro do punho e lá estava ele, sorrindo com o vidro aberto, como quem vence uma batalha invisível.

Quando eu era pequeno, meu pai era o homem mais forte do mundo. Ele alcançava coisas no alto dos armários, carregava sacolas pesadas com uma só mão e tinha um jeito de abrir os potes de palmito que parecia mágica. Bastava um giro do punho e lá estava ele, sorrindo com o vidro aberto, como quem vence uma batalha invisível.

Meu pai era desses homens que falam pouco, observam e fazem muito. Tinha um jeito quieto de amar — fazia o café passado na hora certa, o almoço de domingo, tentava me ensinar a jogar bola — embora eu nunca tenha aprendido muito bem. Dizia “eu te amo” com gestos, com presença, com olhos atentos aos meus passos desajeitados.

Havia nos seus olhos um cansaço, desses que os anos vão empilhando sem cerimônia. Só entendi depois, que crescer e abdicar de si pelo outro também dói. E que ser pai talvez seja carregar o mundo nas costas fingindo que ele não pesa. Fingindo que está tudo sob controle mesmo quando nada está.

Meu pai parecia saber de tudo, até daquilo que eu nem sabia perguntar. Ele me ensinava coisas sem parecer que estava ensinando. Como puxar assunto com o vizinho, como respeitar o tempo das pessoas, como apertar a mão com firmeza e olhar nos olhos. Quando dirigia, mostrava os caminhos da cidade e os da vida. Quando se calava, ensinava sobre a importância do silêncio. Um mestre escondido no corpo de um homem comum.

Achava que ele nunca chorava. Um dia, o vi desabar em lágrimas como nunca imaginei. Descobri, então, que gigantes também choram. E que o amor, às vezes, escapa por onde a gente menos espera. Um olhar, um bilhete, um gesto que parece simples, mas guarda um mundo dentro. Desde então, passei a reparar mais.

O tempo passou — como passa para todos os filhos e todos os pais. E aquele super poderoso ser humano foi se tornando um homem. A força de carregar pesos descomunais foi sumindo. As dores, crescendo. O seu jeito apressado foi substituído por andar mais devagar, como quem conta os passos. E eu, que agora sou adulto, tento não esquecer que ele ainda é o meu herói.

No espelho, às vezes, vejo os traços dele nos meus. O mesmo franzido entre as sobrancelhas, a mesma forma de falar sozinho pela casa quando penso demais, a mesma calvície de quando eu o chamava de careca. Herdei dele não só o jeito de andar, mas um modo de ver o mundo com simplicidade. Como se o segredo estivesse nas coisas pequenas: o modo de trabalhar, de cuidar das pessoas, de ser forte quando o mundo desaba.

Hoje, quando ele fala, eu escuto como quem recolhe diamantes. Às vezes, frases curtas. Outras vezes, lições. Algumas ditas com esforço, outras em forma de piada. Mas todas carregam um tanto de sabedoria que só quem viveu muito e amou mais ainda consegue passar. Meu pai me ensina, todos os dias, que o amor não precisa ser barulhento para ser verdadeiro. Que o afeto mora na constância.

O Dia dos Pais não é sobre presentes embrulhados com fita. É sobre memória. Sobre a lembrança do colo, do cheiro da camisa, da gargalhada que parecia trovão. Sobre as vezes em que ele fez, mesmo cansado, só para garantir que tudo estava bem. Coisas que, agora adulto, reconheço como amor em estado puro.

Se seu pai está por perto, abrace. Se já partiu, feche os olhos e abrace mesmo assim. Eles continuam conosco, morando em detalhes que só a saudade sabe apontar: uma música antiga, o nome de uma rua, um conselho que vem do nada. E a gente sorri, meio triste, meio grato, como quem recebe uma visita inesperada da memória.

E se você não conheceu seu pai, certamente teve ao lado alguma figura que assumiu esse papel. Às vezes foi o avô, o tio, o padrasto. Outras vezes, uma mulher — forte, incansável — que precisou reunir em si o carinho de mãe e a firmeza de pai. Porque o amor paterno, mesmo disfarçado, sempre encontra um jeito de chegar.

Ser pai é um ofício sem manual, sem folga, sem hora certa para dormir. E ainda assim, tantos se dedicam com coragem. Se reinventam, aprendem com os filhos, erram, acertam, seguem. São nossos primeiros heróis. E às vezes, mesmo depois de tantos anos, continuam sendo. Basta um gesto, um cheiro, uma história — e de repente, somos de novo os filhos de alguém.

Eu olho pro meu pai hoje como quem relê um livro querido: o tempo pode ter passado pelas páginas, mas cada palavra ainda carrega um valor imenso. E me orgulho de ter sido, um dia, seu menino. Porque no fundo, sempre seremos. Crescer não apaga o vínculo — apenas nos coloca, pouco a pouco, no lugar deles. E só então entendemos o quanto é difícil ser gigante.

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61 Socos num Elevador

quinta-feira, 31 de julho de 2025
por Jornal A Voz da Serra

A descida ao subsolo da nossa barbárie

O elevador subia. E o mundo, naquele instante, caía. Há lugares onde o tempo parece suspirar, onde o silêncio se instala entre um andar e outro, feito de aço, espelhos e rotina. O elevador é esse lugar de passagem, onde ninguém espera que algo aconteça. Mas naquele cubo metálico, o cotidiano foi rompido de forma brutal.

A descida ao subsolo da nossa barbárie

O elevador subia. E o mundo, naquele instante, caía. Há lugares onde o tempo parece suspirar, onde o silêncio se instala entre um andar e outro, feito de aço, espelhos e rotina. O elevador é esse lugar de passagem, onde ninguém espera que algo aconteça. Mas naquele cubo metálico, o cotidiano foi rompido de forma brutal.

O que deveria ser um trajeto breve tornou-se palco de uma violência que escancarou o que muitos ainda se recusam a ver: a fúria contra a mulher que decide ir embora. Juliana Garcia dos Santos, espancada com 61 socos dentro de um elevador, em Natal (RN), não é apenas o rosto machucado de mais uma vítima.

É o espelho da dor que tantas mulheres conhecem, mas que o mundo ainda tenta empurrar para debaixo do tapete. Os golpes não foram movidos por impulso. Foram entregues com método, com raiva fria, com a convicção de quem acredita ter o direito de punir. Aquela não era uma briga. Era um castigo por desobediência. Por dizer “não”. Por desejar liberdade.

Não chamemos de descontrole. Há uma lógica perversa por trás de cada gesto violento. Uma lógica que vem de longe, construída em silêncios e conivências, e que ensina — ainda hoje — que mulher é posse, que amor é dominação, que rejeição é ofensa. Essa lógica se disfarça de cuidado, se embala em presentes, se mascara em promessas.

Mas, no fundo, carrega uma vontade antiga de calar, submeter, punir. E é isso que os socos revelam: o fracasso de uma sociedade que ainda permite que amar seja sinônimo de machucar.

A agressão não começou ali, naquele minuto entre dois andares. Começou muito antes, nos dias em que o ciúme era chamado de zelo, em que as proibições vinham junto de “é para o seu bem”. Começou no isolamento dos amigos, no controle do celular, nas brigas por roupas ou horários. Começou nas pequenas humilhações cotidianas, aceitas porque “ele é assim mesmo”. A violência física foi apenas a última camada de uma prisão invisível, construída aos poucos, tijolo por tijolo, com aval do silêncio social.

Juliana tentou sair. E por isso apanhou. O corpo dela foi castigado não por erro algum, mas pela ousadia de escolher um novo caminho. Porque para o agressor, sair de casa, se afastar, pedir respeito — tudo isso era visto como rebeldia. E rebeldias, na cabeça de quem ama com ódio, devem ser sufocadas. Os socos, portanto, não buscavam apenas ferir: buscavam apagar a identidade, silenciar o desejo, reafirmar um poder que se sentia ameaçado.

Mas mesmo espancada, Juliana falou. Escreveu em um bilhete aquilo que sua boca, naquele momento, não conseguia dizer. Sua caligrafia trêmula tornou-se mais eloquente do que qualquer grito. Ali estava a força de uma mulher que, mesmo ensanguentada, se recusava a ser silenciada. E é esse bilhete que transforma dor em denúncia, medo em coragem, violência em memória. Um gesto pequeno que grita por todas as outras que ainda não conseguiram escrever.

As imagens da agressão circularam com força, invadiram telas, provocaram indignação. Mas o tempo das redes é breve, e a indignação cansa. Em poucos dias, a cena corre o risco de virar apenas mais uma entre tantas. Esquecida, arquivada, descartada. E é aí que mora o perigo: o de nos acostumarmos. O de assistirmos à barbárie com olhos cansados, sem nos perguntarmos o que podemos — e devemos — fazer para que ela não se repita.

O elevador, naquele dia, foi espelho. Mostrou a face de um mal que ainda se esconde em muitas casas, muitos relacionamentos, muitas rotinas. Mostrou que a violência contra a mulher não é exceção, mas sintoma. E que ela não acabará com leis apenas, mas com educação, com conversa, com coragem coletiva. Porque o problema não está só em quem agride, mas também em quem cala, quem desvia o olhar, quem relativiza o sofrimento alheio.

Todos sonhamos com um lugar de paz, com um horizonte bonito, talvez “Além das Montanhas”. Mas esse horizonte não será alcançado enquanto as mulheres precisarem temer o próprio lar, o próprio parceiro, o próprio caminho. A travessia para esse futuro exige que estejamos atentos nos espaços pequenos, nos corredores silenciosos, nos elevadores. Que sejamos companhia. Que sejamos voz.

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O brasileiro cansou da política ou só aprendeu a ignorar?

quinta-feira, 24 de julho de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Todo mundo já ouviu — ou já falou — aquela famosa expressão: “Ah, política não é pra mim”. O problema é que, enquanto você foge da política, ela continua decidindo o valor do seu aluguel, a qualidade do seu ônibus e o preço do seu arroz. Fingir que ela não existe só faz bem para quem quer se esconder dela.

Todo mundo já ouviu — ou já falou — aquela famosa expressão: “Ah, política não é pra mim”. O problema é que, enquanto você foge da política, ela continua decidindo o valor do seu aluguel, a qualidade do seu ônibus e o preço do seu arroz. Fingir que ela não existe só faz bem para quem quer se esconder dela.

Tem gente que não assiste mais jornal, não vota com convicção, não sabe o nome do vereador da própria cidade. E, sinceramente? Dá pra entender. A política brasileira virou sinônimo de escândalo, decepção e promessas que morrem no palanque. É um ciclo de expectativas frustradas que esgota até o mais otimista dos brasileiros.

Mas será que o brasileiro realmente desistiu? Ou será que ele só cansou de se importar sozinho? Enquanto alguns gritam nas redes, muitos já não acreditam que vale a pena reclamar. A sensação é de que tudo já está decidido por cima. A política virou um jogo de cartas marcadas — e ninguém quer mais jogar.

 

Cada vez menos “Policarpos Quaresmas”

Lá no começo do século 20, Lima Barreto já deu um aviso que seguimos ignorando: a política não costuma tratar bem quem acredita demais nela. A obra “O Triste Fim de Policarpo Quaresma” conta a história de um homem apaixonado pela pátria, pela cultura nacional, pela ideia de um país mais justo.

Policarpo era um servidor público metódico, honesto, obcecado por fazer do Brasil uma grande nação — e que, por isso mesmo, acabou morrendo nas mãos do próprio sistema em que confiava. Para uma narrativa publicada em 1915, o texto soa estranhamente bem atual.

Quaresma se apaixonou pela política como quem ama com fé cega. Tentou mudar o idioma oficial, defendeu uma agricultura nacionalista, e por fim se alistou na Revolta da Armada, acreditando que poderia ajudar o Brasil de verdade. No entanto, a política que ele tanto venerava o triturou como mais um número — um idealista perdido entre a indiferença do Estado e o cinismo dos poderosos. Morreu traído pelo exato país que queria consertar.

Hoje, ser Policarpo Quaresma virou quase um insulto. A paixão pela política dá lugar à desconfiança, o engajamento vira piada, e o idealismo é confundido com maluquice.

O brasileiro moderno prefere se proteger do que se envolver, rir do que se frustrar, ignorar do que se decepcionar. Ninguém quer morrer pela pátria — e muito menos morrer de decepção por ela. Aos poucos, estamos deixando de ser Quaresmas. E talvez o Brasil e Nova Friburgo nunca tenha precisado tanto de alguns.

 

Sentimento de apatia

Essa apatia coletiva não surgiu do nada. Ela é o resultado de anos de corrupção exposta, de representações que não representam e de instituições que parecem viver num mundo à parte. O cidadão comum olha para a prefeitura ou para a Câmara de Vereadores e não se vê ali. Parece tudo distante, sujo, inatingível — então pra quê se envolver?

O problema é que o silêncio político não é neutro. Ele é terreno fértil para oportunista. Quando a maioria se afasta, quem se aproxima são justamente os que mais se beneficiam da ausência do povo. A política, como a natureza, não tolera vácuos: se você sai, alguém entra. E nem sempre com boas intenções.

A descrença virou moda. E junto com ela, vieram os discursos perigosos: “todos são iguais”, “tem que fechar tudo”, “precisamos de alguém que mande de verdade”. Frases aparentemente simples, mas que escondem um desejo autoritário, travestido de impaciência. Cansamos da política... e começamos a flertar com soluções fáceis.

Enquanto isso, a democracia vai perdendo força, mas de forma silenciosa. Ninguém derruba a politicagem com tanques mais — é no cansaço, na indiferença, no tanto faz. O voto vai ficando vazio, o debate raso, o interesse ausente. E quando a gente percebe, quem fala por todos já não representa ninguém.

É claro que ninguém é obrigado a virar militante. Mas também não dá pra viver como se política fosse algo opcional, como se fosse possível se esconder da cidadania. Ela tá no IPTU, na fila do SUS, no preço do gás, no tarifaço, nas práticas contra a lei. Fugir dela não resolve. É como ignorar o vazamento do teto achando que a água vai cansar primeiro.

 

Somos cansados sobreviventes

Talvez o Brasil não precise de mais heróis. Heróis são para as epopeias, e a vida, no fundo, é feita de prosa, café e de cansaço. A política, com suas fanfarras e seus discursos urgentes, passa do lado de fora da janela como um desfile barulhento – e com bastante irregularidades fiscais. Nós, de dentro, apenas espiamos por uma fresta da cortina.

O nosso patriotismo – e não no sentido partidário, deixe-se claro - virou uma coisa doméstica, silenciosa. Mora no armário, junto com os retratos amarelados e as contas do mês. Cuidamos dele como quem cuida de um bibelô frágil, com medo de que uma lufada de vento o derrube da estante.

A verdade é que a Pátria, essa ideia que fez o pobre do Quaresma sonhar tão alto, para nós, encolheu. Hoje, ela tem o tamanho exato da nossa desesperança de um jogo com cartas marcadas, corrupção e TikTok. E ultimamente ficamos assim, vivendo em pontas de pés ao redor dele. Em silêncio. Para não fazer barulho e acordar a dor.

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Trocou-se a fantasia, mas a festa segue a mesma

quinta-feira, 17 de julho de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Nos últimos meses, Nova Friburgo tem vivido uma sequência de escândalos que envergonham até o mais otimista dos cidadãos. A cada semana, surgem novas informações sobre contratos suspeitos, valores incompatíveis com a realidade e a já conhecida promiscuidade entre o poder público e certos fornecedores.

Nos últimos meses, Nova Friburgo tem vivido uma sequência de escândalos que envergonham até o mais otimista dos cidadãos. A cada semana, surgem novas informações sobre contratos suspeitos, valores incompatíveis com a realidade e a já conhecida promiscuidade entre o poder público e certos fornecedores.

É como se a cidade estivesse presa num ciclo de repetições de más gestões e de escândalos sem fim: troca-se o palco, muda-se o evento, mas os personagens e os bastidores continuam os mesmos. Desde a época dos acalorados embates em Paulo Azevedo e Heródoto, passando pelos absurdos pós enchente até o presente momento.

 

Eventos são importantes, porém

É inegável que eventos públicos são importantes para a cidade. Eles movimentam a economia, atraem turistas, fortalecem o comércio local e geram oportunidades. Mas também é inegável que, em Friburgo, essas iniciativas têm sido tratadas como verdadeiros balcões de negócios.

Basta uma leitura atenta nos contratos publicados no Diário Oficial para notar incoerências gritantes: empresas recém-abertas vencendo licitações vultosas, estruturas superfaturadas, pagamentos adiantados e uma falta de transparência que já beira o deboche, especialmente se falando dos valores gastos com shows de artistas para o evento “Reforma Protestante”.

Enquanto isso, a cidade enfrenta dificuldades reais. O mato toma conta de praças e calçadas, o hospital segue ao léu, e os bairros mais distantes continuam esquecidos, sem infraestrutura mínima. Os servidores, que carregam a máquina pública nas costas, convivem com atrasos salariais, falta de insumos e promessas não cumpridas.

Mas, para os eventos, há sempre verba e espaço no orçamento — desde que os contratos caibam no bolso certo. E o mais irônico é que, em muitos desses contratos, o discurso é de valorização do turismo e da cultura friburguense. No entanto, os verdadeiros artistas da cidade sequer são, muitas vezes, os contratados.

 

Revolta, mas não surpreende

Em vez de servir à cultura, os eventos parecem servir a um grupo muito específico — sempre os mesmos, diga-se, o grupo de apoio político à atual gestão. A tal "turma dos eventos" virou piada pronta nas rodas de conversa e palco de um escândalo que dividiu os palcos políticos da cidade.

É triste ver o nome de Nova Friburgo envolvido em escândalos que poderiam ser facilmente evitados com transparência, ética e respeito ao dinheiro público. Mais triste ainda é ver que, mesmo diante de tantas denúncias, ainda há quem defenda o indefensável — seja por conveniência, por medo, ou por interesse.

Em uma cidade onde há artistas locais qualificados, produtores culturais experientes e mão de obra abundante, é curioso ver que apenas determinados nomes aparecem repetidamente nas contratações, como se fossem os únicos capazes de realizar uma festa ou um show.

É importante dizer que a crítica aqui não é contra eventos — ao contrário. A cidade precisa deles, especialmente em tempos difíceis, quando o lazer e a arte se tornam refúgios. Mas precisamos de eventos que respeitem a legalidade, que valorizem o artista local, que prestem contas dos seus gastos e que beneficiem a população como um todo, e não apenas quem está com o crachá certo no peito.

 

Fiscalização

O Ministério Público tem cumprido seu papel – ao menos no presente momento -, com investigações que já resultaram em ações, afastamentos e pedidos de explicações. Mas não pode agir sozinho. A Câmara de Vereadores, em grande parte omissa, precisa lembrar que o seu papel não é apenas votar projetos do Executivo, mas fiscalizar com independência.

No entanto, as audiências públicas têm, a cada dia, escancarado o distanciamento entre o discurso e a prática. Muitos vereadores se comportam como defensores da gestão, ainda que diante de fatos gritantes. Preferem o silêncio conveniente ao confronto necessário. Esquecem que foram eleitos para fiscalizar, não para aplaudir.

Esse alinhamento político com o Executivo, diante de fatos tão graves, enfraquece a democracia local e mina a confiança da população em soluções. Quando os vereadores deixam de questionar contratos suspeitos, de exigir transparência e de representar os interesses da comunidade, tornam-se cúmplices do que deveriam combater.

A Câmara não pode ser palco de conchavos e acordos velados, mas espaço de debate, fiscalização e coragem política. O povo não precisa de aliados do prefeito, mas de guardiões do interesse público.

Friburgo é uma cidade linda, cheia de potencial e com um povo trabalhador. Merece mais do que administrações que enxergam o serviço público como uma extensão dos próprios interesses. A cidade merece um novo capítulo, longe dos velhos vícios. Mas esse capítulo não vai se escrever sozinho. Vai depender da coragem de quem denuncia, da independência de quem fiscaliza e da consciência de quem vota.

Muitas pessoas sempre acharam que os textos desta coluna tinham tendência política, mas o tempo tem se encarregado de revelar que não era questão de lado — era questão de lucidez. Enquanto alguns preferiam o conforto da conveniência, optei por enxergar o que muitos insistiam em ignorar. Não se trata de oposição, mas de compromisso com a verdade, mesmo quando ela incomoda. Afinal, quem escreve com consciência antecipa aquilo que, mais cedo ou mais tarde, salta aos olhos de todos.

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