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Quando o silêncio também é violência

quinta-feira, 26 de março de 2026
por Lucas Barros

Há notícias que parecem se repetir com uma frequência tão cruel que acabam se tornando quase previsíveis. Nos últimos dias, o Brasil voltou a registrar uma sequência de casos de feminicídio que chocam pela brutalidade e, ao mesmo tempo, pela familiaridade. Histórias interrompidas dentro de casas, em ruas comuns, em cidades que seguem sua rotina enquanto mais um nome se soma a uma estatística que cresce em silêncio.

Há notícias que parecem se repetir com uma frequência tão cruel que acabam se tornando quase previsíveis. Nos últimos dias, o Brasil voltou a registrar uma sequência de casos de feminicídio que chocam pela brutalidade e, ao mesmo tempo, pela familiaridade. Histórias interrompidas dentro de casas, em ruas comuns, em cidades que seguem sua rotina enquanto mais um nome se soma a uma estatística que cresce em silêncio.

O feminicídio não é apenas um crime. Ele carrega consigo um retrato perturbador de uma sociedade que ainda não conseguiu romper completamente com estruturas antigas de violência e posse. Não se trata de um episódio isolado ou de um “crime passional”, como por muito tempo se tentou suavizar. Trata-se de uma forma extrema de violência de gênero, que nasce de relações marcadas por controle, ciúme, abuso e, muitas vezes, impunidade.

Quase sempre há sinais antes da tragédia. Há ameaças ignoradas, agressões minimizadas, pedidos de ajuda que não encontram resposta suficiente. Em muitos casos, vizinhos sabiam, familiares desconfiavam, amigos percebiam algo errado. Mas a violência doméstica ainda carrega um peso cultural que a empurra para dentro das paredes da casa, como se fosse um assunto privado demais para intervenção pública.

Quando a tragédia finalmente explode, ela revela aquilo que já estava sendo construído em silêncio. O feminicídio é, muitas vezes, o último capítulo de uma longa história de violência. Uma história que poderia ter sido interrompida antes — por políticas públicas mais eficientes, por redes de proteção mais estruturadas ou simplesmente por uma cultura social menos tolerante com a violência contra mulheres.

Lei Maria da Penha, uma aliada

Nos últimos anos, o Brasil avançou em termos legais. A Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio representaram passos importantes no reconhecimento da gravidade desse tipo de crime. No papel, o país possui um dos arcabouços jurídicos mais robustos para combater a violência doméstica. O problema é que a distância entre a lei e a realidade ainda é grande demais.

Delegacias especializadas são insuficientes, medidas protetivas nem sempre são fiscalizadas e muitas mulheres continuam convivendo diariamente com seus agressores por falta de alternativa financeira, social ou institucional. A lei existe, mas a estrutura para garantir sua efetividade ainda está aquém do necessário.

Há também uma dimensão cultural que não pode ser ignorada. O feminicídio é o ponto extremo de uma lógica que naturaliza o controle sobre o corpo, as escolhas e a liberdade das mulheres. Ele nasce em ambientes onde o ciúme é romantizado, onde a agressividade masculina é relativizada e onde o fim de um relacionamento ainda é visto, por alguns, como uma afronta pessoal.

Quando a violência finalmente explode, ela revela um problema que não começou naquele momento. Ela apenas chegou ao seu limite. Por isso, o combate ao feminicídio não pode se limitar à punição depois do crime. Ele precisa começar antes, muito antes, nas políticas de prevenção, na educação e na construção de relações baseadas em respeito.

O colapso de uma rede de proteção

Cada caso que aparece nas manchetes traz consigo uma pergunta incômoda: o que poderia ter sido feito antes? Em muitos deles, havia registros policiais, denúncias anteriores ou relatos de ameaças. Ainda assim, a tragédia aconteceu. Isso revela não apenas falhas institucionais, mas também uma dificuldade coletiva de reconhecer a gravidade desses sinais.

O Brasil não enfrenta apenas um problema criminal. Enfrenta uma crise social e humanitária que atravessa famílias, comunidades e instituições. O feminicídio não é apenas a morte de uma mulher. É o colapso de uma rede de proteção que deveria ter funcionado antes.

Talvez o aspecto mais perturbador seja justamente a repetição. As histórias mudam de cidade, de nome, de idade. Mas a estrutura da tragédia quase sempre é a mesma. E, quando isso acontece com tanta frequência, a pergunta deixa de ser sobre um caso específico e passa a ser sobre o país que estamos construindo.

Enquanto discutimos números e estatísticas, vidas continuam sendo interrompidas de forma brutal. E cada uma delas carrega sonhos, histórias e futuros que simplesmente deixam de existir.

Combater o feminicídio exige leis, sim. Mas exige também coragem coletiva para enfrentar um problema que vai muito além do sistema penal. Porque, no fundo, nenhuma sociedade pode se considerar plenamente segura enquanto tantas mulheres ainda correm risco dentro do próprio lar.

E talvez o primeiro passo para mudar esse cenário seja justamente não aceitar que essa tragédia se torne rotina. Porque quando a violência passa a parecer normal, o silêncio também se transforma em cumplicidade.

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A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

O STF tenta escrever certo por linhas tortas

quinta-feira, 19 de março de 2026
por Lucas Barros

Há temas no Brasil que parecem resistir ao tempo — não porque sejam complexos, mas porque nunca foram enfrentados com a seriedade necessária. A punição de magistrados é um deles. Durante anos, assistimos a uma sucessão de casos em que juízes flagrados em condutas incompatíveis com o cargo eram “punidos” com a aposentadoria compulsória.

Há temas no Brasil que parecem resistir ao tempo — não porque sejam complexos, mas porque nunca foram enfrentados com a seriedade necessária. A punição de magistrados é um deles. Durante anos, assistimos a uma sucessão de casos em que juízes flagrados em condutas incompatíveis com o cargo eram “punidos” com a aposentadoria compulsória.

Na prática, deixavam o cargo, mas seguiam recebendo vencimentos pagos por todos nós. Não foram poucos os episódios. Casos de venda de decisões, favorecimentos indevidos, condutas éticas questionáveis e até situações mais graves terminaram da mesma forma: afastamento remunerado.

Casos emblemáticos

Episódios históricos, como o escândalo do TRT de São Paulo, ou investigações como a Operação Anaconda, ajudaram a consolidar essa percepção. A mensagem que se sedimentou foi perigosa — a de que, no topo do Judiciário, o erro não necessariamente implica punição proporcional.

E não se trata apenas de grandes esquemas. Em tempos mais recentes, o país assistiu a cenas que chocaram pela banalidade do abuso. Durante a pandemia, o desembargador Eduardo Almeida Prado Rocha de Siqueira foi flagrado humilhando um guarda municipal em uma praia, recusando-se a cumprir regras básicas e invocando sua posição como escudo.O episódio expôs, em escala cotidiana, uma distorção que já era percebida em casos mais complexos.

A mensagem que se consolidou ao longo do tempo foi perigosa — a de que, no topo da estrutura do Judiciário, o erro não necessariamente implicaria uma punição proporcional. E isso, para a sociedade, nunca pareceu razoável.

Mudança de rota

Recentemente, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, trouxe uma inflexão relevante nesse cenário. Em decisão que repercutiu no meio jurídico, passou a admitir a possibilidade de punição de magistrados com a perda do cargo, e não apenas com a aposentadoria compulsória. Em termos práticos, trata-se de uma tentativa de alinhar a sanção à gravidade da conduta.

A iniciativa, sob o ponto de vista moral, parece inquestionável. É difícil defender que um juiz que viole gravemente seus deveres continue sendo remunerado pelo Estado. A sociedade, que já convive com tantas desigualdades, não compreende — e nem aceita — a ideia de financiar uma espécie de “prêmio” àqueles que deveriam zelar pela lei. Nesse ponto, o desconforto social é legítimo.

Hierarquia legaI ou do tribunal?

O problema, no entanto, não está no objetivo, mas no caminho escolhido. A aposentadoria compulsória como sanção disciplinar não surgiu por acaso. Ela está prevista em lei, estruturando um modelo específico de responsabilização de magistrados.

E, no Estado de Direito, há uma premissa básica: aquilo que é estabelecido por lei, em regra, só pode ser modificado por outra lei. É justamente aí que surge o impasse. O Congresso Nacional, responsável por legislar sobre o tema, historicamente pouco avançou nessa discussão. Projetos de lei que poderiam rever o modelo de punição de magistrados não prosperaram, e o sistema permaneceu praticamente inalterado ao longo dos anos. A inércia legislativa, nesse caso, é evidente.

Diante desse vazio, o Supremo parece tentar ocupar o espaço deixado pelo Legislativo – que por sinal é um dos piores. A decisão do ministro Flávio Dino surge, nesse contexto, como uma resposta a uma demanda social legítima por maior rigor e responsabilidade. Mas, ao fazê-lo, levanta uma questão delicada sobre os limites dessa atuação.

Afinal, até que ponto é possível alterar, por via interpretativa, aquilo que a lei expressamente estabelece? Em um eventual caso concreto, prevalecerá o texto legal que prevê a aposentadoria compulsória ou o entendimento mais recente que admite a perda do cargo? Mais do que técnica, essa é uma discussão sobre segurança jurídica.

O polêmico tribunal federal

O Supremo Tribunal Federal, ao longo de sua história, já foi chamado inúmeras vezes a corrigir distorções do sistema. Em muitos casos, atuou como protagonista de mudanças relevantes. Mas há uma linha tênue entre interpretar a lei e, na prática, substituí-la.

O que se vê, nesse episódio, é uma tentativa clara de corrigir um problema real — e urgente. No entanto, ao optar por esse caminho, o STF acaba por tensionar os limites institucionais que sustentam o próprio Estado de Direito. E isso não pode ser ignorado.

No fim das contas, a Corte parece buscar um resultado correto, justo e pretendido por todos por um percurso questionável. A intenção é legítima. A demanda social é evidente. Mas o método adotado deixa dúvidas. E talvez seja essa a síntese do momento: o STF tenta escrever certo — mas, ao que tudo indica, por linhas tortas.

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Conexão de Inovação Floripa x Friburgo

quinta-feira, 12 de março de 2026
por Lucas Barros

Entre os dias 10 e 12 de março, Florianópolis recebe no CentroSul mais uma edição do GovTech, evento dedicado a discutir como a tecnologia, inovação e gestão pública podem caminhar juntas para melhorar a vida dos cidadãos. Tive a oportunidade de estar presente no encontro e acompanhar de perto algumas das iniciativas que vêm sendo desenvolvidas por governos, instituições de pesquisa e empresas que atuam no setor de inovação.

Entre os dias 10 e 12 de março, Florianópolis recebe no CentroSul mais uma edição do GovTech, evento dedicado a discutir como a tecnologia, inovação e gestão pública podem caminhar juntas para melhorar a vida dos cidadãos. Tive a oportunidade de estar presente no encontro e acompanhar de perto algumas das iniciativas que vêm sendo desenvolvidas por governos, instituições de pesquisa e empresas que atuam no setor de inovação.

O GovTech reúne representantes dos estados de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul, além de startups, pesquisadores e gestores públicos interessados em discutir soluções tecnológicas aplicadas à administração pública. Mais do que um evento institucional, trata-se de um espaço de diálogo sobre como modernizar serviços, tornar o Estado mais eficiente e aproximar a gestão pública das demandas contemporâneas da sociedade.

Durante o evento, tive a possibilidade de conhecer diversas iniciativas interessantes, especialmente vindas dos estados do Sul do Brasil. A troca de experiências entre diferentes regiões mostra que inovação pública não nasce isolada — ela surge do diálogo entre governos, universidades, empresas e centros de pesquisa.

Florianópolis, aliás, não foi escolhida por acaso para sediar um evento dessa natureza. A capital catarinense consolidou ao longo das últimas décadas um dos ecossistemas de inovação mais relevantes do país. Atualmente, estima-se que cerca de 25% da receita do PIB municipal esteja vinculada ao setor de tecnologia e inovação, um indicador expressivo da força desse ambiente.

Hoje, a cidade conta com um ecossistema robusto e diversificado, que reúne empresas consolidadas, startups em crescimento e importantes centros de desenvolvimento tecnológico. Iniciativas ligadas ao campus do Senai, à Acate, ao Sapiens Park e a diversos outros polos ajudam a consolidar Florianópolis como uma verdadeira referência nacional em inovação.

Incentivos

Outro destaque importante do evento foi o avanço do ecossistema de inovação do Paraná. Nos últimos anos, o estado tem adotado políticas públicas estruturadas para incentivar ciência, tecnologia e pesquisa. Entre essas iniciativas, destaca-se a decisão de destinar cerca de 2% da receita estadual para o fomento à pesquisa e à inovação, sinalizando que a agenda tecnológica não pode se limitar ao funcionamento burocrático do Estado, mas precisa ser encarada como investimento estratégico no futuro.

Esse movimento também se reflete na forma como o Paraná vem estruturando seus polos de inovação ao longo do território. O estado apresenta um modelo relativamente integrado, que começa no Oeste com a força tecnológica ligada à Itaipu e se estende pelo interior, com centros universitários e polos de pesquisa, até chegar à região metropolitana de Curitiba, onde se concentram parques tecnológicos, hubs de inovação e um ambiente empresarial bastante dinâmico.

Além disso, o Paraná tem registrado recordes de investimento em ciência e tecnologia. Apenas em editais recentes voltados à pesquisa e inovação — os chamados NAPIs — os valores somados chegam à casa dos R$ 222 milhões, direcionados a projetos estratégicos em diversas áreas do conhecimento. A mensagem do governo estadual parece clara: estimular inovação também em cidades menores, permitindo que novas regiões cresçam em receita, conhecimento e oportunidades.

Curiosamente, durante o evento tive a satisfação de encontrar um conterrâneo: Marcelo Verly, entusiasta do setor de inovação e vencedor de prêmios estaduais na área, além de um dos nomes à frente do projeto Inova Fri. Foi especialmente gratificante encontrar alguém de Nova Friburgo participando desse ambiente e contribuindo para o diálogo entre diferentes ecossistemas de inovação do país.

Segundo Marcelo Verly, a participação no GovTech foi fundamental para conhecer iniciativas voltadas à modernização das administrações públicas municipais, estaduais e federais. Para ele, a inovação tem transformado gradualmente a forma como governos prestam serviços à população.

O sucesso de Florianópolis

Marcelo também destacou como importante a fala do prefeito de Florianópolis, Topázio Neto, que ressaltou um ponto essencial: investimentos públicos em inovação demandam tempo para maturar e muitas vezes ultrapassam a duração de um mandato político. Por isso, é fundamental estabelecer prioridades, metas e estruturas institucionais sólidas, com participação ativa de servidores de carreira que garantam continuidade às políticas tecnológicas voltadas à sociedade.

Outro aspecto que chamou atenção foi o nível de integração presente no ecossistema catarinense. O desenvolvimento de Florianópolis no campo da tecnologia parece estar alguns passos à frente de muitas outras regiões do país. Já havia visitado a cidade anteriormente, mas é sempre impressionante perceber como seus polos de inovação continuam crescendo e se consolidando.

“Ver esse avanço de perto também traz um sentimento positivo. Experiências como a de Florianópolis servem de referência para outras regiões que desejam fortalecer seus próprios ambientes de inovação. Quando um polo tecnológico prospera, ele acaba inspirando outros a trilhar caminhos semelhantes”, observou Marcelo.

Uma visão de futuro

Fato é que eventos como o GovTech ajudam justamente a construir essas pontes. Eles aproximam governos, empreendedores, pesquisadores e gestores públicos em torno de uma agenda comum: pensar soluções mais inteligentes para os desafios do presente.

No fim das contas, inovação pública não é apenas sobre tecnologia. É sobre visão de futuro. É sobre entender que investir em conhecimento, pesquisa e desenvolvimento significa construir cidades mais eficientes, economias mais dinâmicas e serviços públicos mais preparados para atender às necessidades da população.

E, ao caminhar pelos corredores do evento, fica claro que essa transformação já está em curso.

Foto da galeria
(Foto: Arquivo pessoal)
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Quando o mundo parece à beira do início do fim

quinta-feira, 05 de março de 2026
por Lucas Barros

Às vezes parece que o mundo acorda dividido em dois: os que apertam botões em gabinetes silenciosos, e os que acordam sob o peso cinzento de uma manhã de medo e de cinzas. Hoje, os conflitos que pipocam de um canto ao outro do globo reforçam essa sensação incômoda de incerteza permanente.

Às vezes parece que o mundo acorda dividido em dois: os que apertam botões em gabinetes silenciosos, e os que acordam sob o peso cinzento de uma manhã de medo e de cinzas. Hoje, os conflitos que pipocam de um canto ao outro do globo reforçam essa sensação incômoda de incerteza permanente.

O mundo parece funcionar como um campo minado diplomático. Uma declaração atravessada, um ataque “preventivo”, uma retaliação calculada, e o que era tensão vira rapidamente uma crise. O que era crise vira guerra. E o que era guerra localizada passa a contaminar mercados, alianças e populações inteiras. É como se estivéssemos sempre a um passo de algo maior — e pior.

O conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã transformou o que parecia regional em preocupação global. O Estreito de Ormuz, por onde passa grande parte do petróleo do planeta, tornou-se símbolo de como decisões militares impactam diretamente o bolso de quem nunca participou da decisão. A energia encarece, os alimentos sobem, a economia range.

Em outro continente, a guerra entre Rússia e Ucrânia continua deslocando milhões e redesenhando fronteiras humanas. Nenhuma guerra é a guerra de um único país. Quando bombas caem em uma cidade, o impacto ecoa em cadeias de abastecimento, nos mercados financeiros e nas mesas de famílias que jamais imaginaram sentir os efeitos de um conflito distante.

O conflito que envolve grandes potências deixa de ser um episódio distante quando percebemos que ele atinge o básico da condição humana. Não é apenas petróleo ou território. É água que falta. É energia que some. É comida que não chega. É a escola que fecha porque virou alvo. É a casa que deixa de existir porque estava no lugar “errado”.

Enquanto isso, líderes repousam sob tetos seguros. Em salas fechadas discutem influência, hegemonia, demonstrações de força. Medem poder como quem mede território em um mapa. Do lado de fora dessas salas, o que se mede é luto. É o número de deslocados. É o tamanho da fila por abrigo.

É difícil acreditar que tudo isso se sustente apenas em discursos de liberdade e proteção. Há uma disputa evidente por espaço, por recursos, por supremacia estratégica. Estados Unidos observam a China com atenção calculada. Blocos se reorganizam. Alianças se reconfiguram. Mas, no meio desse xadrez, quem sangra não é o rei — são os peões.

O mais inquietante talvez seja a repetição. As imagens se sucedem até que a tragédia vire rotina. Bombas deixam de ser choque e passam a ser estatística. Mortes se transformam em números que cabem em uma linha de rodapé. E seguimos vivendo como se o mundo não estivesse, de alguma forma, sempre à beira de um abismo maior.

Há um sentimento difuso de fim de mundo que não vem de um clarão único, mas da soma das pequenas destruições e que hoje estão numa escala de poderio bélico nuclear. Da percepção de que os grandes disputam narrativas enquanto os comuns disputam sobrevivência. E de que quem menos decide é quem mais sofre.

Não se trata de ingenuidade ou de negar a complexidade das relações internacionais. Conflitos sempre existirão. Interesses colidem desde que o mundo é mundo. Mas quando o poder se afasta da humanidade, o custo deixa de ser geopolítico e passa a ser moral. E moralmente, estamos diante de um saldo inquietante.

Ainda assim, a história mostra que a humanidade atravessa seus próprios abismos. Talvez o mundo não esteja acabando — talvez esteja revelando suas fissuras com brutal honestidade. O que parece prenúncio do fim pode ser também um chamado à consciência coletiva.

Seguimos trabalhando, criando filhos, fazendo planos simples enquanto decisões gigantescas são tomadas em mesas onde quase ninguém da plateia tem assento. O fim de uma era da “paz” raramente chega com um anúncio oficial. Ele se insinua nos detalhes: na escola fechada, na cidade vazia, na infância interrompida e nas bombas que iluminam a noite.

Talvez o verdadeiro desafio não seja prever o próximo conflito, mas preservar humanidade em meio a eles. Porque, se algo ainda pode impedir que o mundo ensaie o próprio fim, não é a demonstração de força — é a recusa em aceitar que vidas sejam apenas estratégia.

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Nova Friburgo está perdendo sua identidade de futuro

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026
por Lucas Barros

Vivo num tempo de saudades. Estranhamente, saudades de tempo que sequer tive a oportunidade de viver. Nascido em 1997, sorrio com lágrimas nos olhos das histórias que os mais velhos sempre me contavam do tempo que a nossa querida e amada Nova Friburgo viveu.

Lembro de quando criança, que eu morava na “cidade dos parapentes”. Estes coloriam os céus da nossa cidade em manobras leves pela gélida e gostosa brisa do inverno friburguense. No entanto, os parapentes sumiram. Assim como tantas outras coisas que faziam parte da minha infância.

Vivo num tempo de saudades. Estranhamente, saudades de tempo que sequer tive a oportunidade de viver. Nascido em 1997, sorrio com lágrimas nos olhos das histórias que os mais velhos sempre me contavam do tempo que a nossa querida e amada Nova Friburgo viveu.

Lembro de quando criança, que eu morava na “cidade dos parapentes”. Estes coloriam os céus da nossa cidade em manobras leves pela gélida e gostosa brisa do inverno friburguense. No entanto, os parapentes sumiram. Assim como tantas outras coisas que faziam parte da minha infância.

As grandes fábricas, do dia para a noite, fecharam as portas e levaram consigo a lembrança do primeiro dia de emprego de tantos jovens da época. Nova Friburgo também perdeu grande parte da renda circulante. A cidade aos poucos foi tomando rumos que pareciam imprevisíveis para uma cidade tão cheia de oportunidades.

Os mais saudosos moradores desta linda cidade, envolta das mais belas montanhas do Estado do Rio de Janeiro certamente concordarão: “Nova Friburgo, apesar do seu charme, de sua tranquilidade e de suas belezas naturais, já foi um lugar melhor para vivermos. E em especial, para os nossos jovens começarem a vida”.

Falta perspectiva para a juventude

Vivemos uma época de ouro em nossa cidade nos anos 70 e 80. Artistas eram vistos caminhando pela Alberto Braune. Atores, cantores, diretores de novelas e jogadores de futebol famosos construíram sítios, casas, família e aconchego no frescor de nossas montanhas.

Apesar do Brasil viver seus momentos mais difíceis, os jovens da época tinham em nossa cidade o seu primeiro emprego sem que precisassem fazer muito esforço. Seja nas Rendas Arp, Fábrica Ypu, Sinimbu, as empresas de metal mecânico, e as confecções que davam o seu ponta pé inicial.

Nossa cidade era regada a perspectivas de muitos empregos e de crescimento profissional, aliado a tranquilidade e a beleza natural. Nordestinos, sulistas e cariocas, deixaram de lado tudo o que tinham e para cá vieram. Muitos enxergaram em Nova Friburgo, um lugar para se estabelecer e prosperar.

No entanto, nos perdemos em perspectivas de futuro. Onde outrora era um cenário de oportunidades para os jovens sonhadores de todo o Brasil, tornou-se um cenário de êxodo e de falta de possibilidades de crescimento. Nova Friburgo deixou de construir um planejamento para o futuro e agora vê o seu futuro se construir em outros lugares.

A nossa juventude percebeu que as montanhas do Caledônia eram apenas uma fronteira física que nos impedia a vista do além. E por meio da RJ-116, os jovens aventureiros, com uma mochila nas costas e uma passagem só de ida estão sumindo e nunca mais voltando.

Mesmo que possuamos um vasto polo universitário nacional, não conseguimos prender a nossa própria juventude pela falta de oportunidade e de perspectiva de dias melhores. E o friburguense, que cresceu andando pela Avenida Alberto Braune e sonhando com um lugar melhor, agora vive em outro lugar, com novas oportunidades.

“Quando se busca algo em outros lugares e regiões é porque onde se está não se tem a possibilidade de crescimento e desenvolvimento como se espera na busca da realização dos ideais e da plena realização das metas pessoais para a vida. Os jovens acabam sendo tolidos dos seus sonhos e metas no rumo da vida, porque a comunidade local não investe na oferta de capacitação pessoal do indivíduo e com isso restringe a inserção no mercado de trabalho as pessoas mais abastadas e que têm o respaldo da família, possibilitando assim o investimento pessoal em cursos seletos,” explica o músico João Marcos de Sousa Soares.

Será que realmente estamos ouvindo com atenção as demandas dos nossos jovens ou estamos apenas achando normal que o ponto turístico mais bem quisto pela juventude seja a Rodoviária Sul com uma passagem apenas de ida?

Me indigna ver como Petrópolis cresceu tanto nos últimos anos, enquanto Nova Friburgo, apesar de gastos exorbitantes, ficou estagnada. A serra de São José dos Pinhais-PR, com seus 250 mil habitantes, se transformou no terceiro maior polo automotivo do Brasil. Já Bento Gonçalves-SC, uma cidade com apenas 120 mil habitantes, tem mais fábricas do que a nossa.

É muito importante que caminhemos ao lado do nosso interesse por todas as ações a serem desenvolvidas para o futuro. Para muitos, conscientemente ou não, busca-se deixar heranças dessas ações para as próximas gerações. E é preciso pensar fora da caixinha nesses próximos quatro anos, seja quem for eleito, para pensar em um legado para a cidade.

Há textos que fogem de mim. São mais exaltados. Percorrem caminhos que eu sequer previ. Tornam-se atrevidos, arredios, ganhando vida própria. Contudo, o texto nasce à semelhança do autor, tornando-se seu espelho, repleto de verdade. Surge no papel vindo das profundezas dos sentimentos. Aqui está uma coluna, feita em nome de todos os jovens.

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De Friburgo para Nova York: a trajetória internacional de Maiara Porto

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Há algum tempo escrevi na coluna, sobre a trajetória de Maiara Porto, uma menina mulher com 24 anos, friburguense, atriz, modelo, estudante de Odontologia e dona de uma trajetória tão improvável quanto luminosa. Naquele momento ressaltamos uma grande conquista: sua participação icônica no Miss Charm.

Há algum tempo escrevi na coluna, sobre a trajetória de Maiara Porto, uma menina mulher com 24 anos, friburguense, atriz, modelo, estudante de Odontologia e dona de uma trajetória tão improvável quanto luminosa. Naquele momento ressaltamos uma grande conquista: sua participação icônica no Miss Charm.

Ela já atuou em produções da Netflix, Prime Video, novelas da TV Record e peças de teatro, sempre com disposição para aprender e generosidade para trabalhar. Muito bem-quista pelo pai de Gisele Bündchen, cercada de profissionais competentes e amparada por uma família que não perde um passo, Maiara ergue sua carreira como quem constrói não mais um edifício, mas um arranha-céu.

Falávamos de uma friburguense que transitava com naturalidade entre o universo Miss, a moda e a atuação, construindo uma carreira com planejamento e visão de longo prazo. Aquela coluna apontava que o título era apenas parte de um projeto maior.

Nova York é logo ali

A semana atual confirma essa percepção. Maiara está em Nova York para desfilar na New York Fashion Week, um dos eventos mais relevantes e observados da indústria da moda mundial. O convite partiu da estilista internacional Gianina Azar, conhecida por vestir artistas como Beyoncé e Lady Gaga e por integrar o circuito das grandes semanas de moda.

Do Brasil, além de Maiara, participa também o modelo Jesus Luz. O desfile reúne celebridades internacionais, nomes conhecidos da televisão latina e representantes do universo Miss, compondo um ambiente de alta visibilidade. Trata-se de uma vitrine global, acompanhada por empresários, agentes e marcas que enxergam ali oportunidades e novos rostos para campanhas internacionais.

Colhendo o que plantou

Para quem acompanhou seus primeiros passos, o momento atual é consequência de um percurso consistente. Antes das passarelas internacionais, houve concursos, seletivas, campanhas publicitárias, cursos, preparação física e construção estratégica de imagem e posicionamento. Nada surgiu de forma repentina. Houve planejamento e continuidade.

A atuação, aliás, sempre foi parte importante dessa jornada. Maiara investiu em formação artística, participou de projetos audiovisuais e desenvolveu habilidades que vão além da estética. Expressão corporal, domínio de câmera e postura pública são competências que dialogam diretamente com o universo da moda. A soma dessas experiências fortalece sua presença em ambientes cada vez mais competitivos.

O universo Miss, por sua vez, contribuiu para consolidar disciplina, comunicação e posicionamento institucional. Não se trata apenas de beleza, mas de representação, postura e responsabilidade pública. Essa base amplia o alcance profissional e prepara o terreno para voos maiores.

A New York Fashion Week não é apenas um desfile. É um dos principais polos de conexão entre criadores, investidores e talentos do mercado global. Estar ali significa inserir-se em um circuito internacional onde cada participação pode resultar em novos contratos, convites e parcerias. É um ambiente exigente, no qual talento precisa caminhar ao lado de profissionalismo e consistência.

Maiara merece o prestígio friburguense

Há um significado que vai além da passarela. Ver uma representante de Nova Friburgo ocupar espaço em um dos palcos mais emblemáticos da moda mundial não é apenas motivo de orgulho protocolar — é a confirmação de que nossas histórias podem ultrapassar fronteiras. A origem não limita; ela constrói identidade. E Maiara carrega a sua com naturalidade.

Quem a conhece sabe que não se trata apenas de uma mulher bonita diante das câmeras. Maiara é dessas presenças que combinam elegância com simplicidade. Linda, sim — mas também educada, disciplinada e genuinamente simpática. Sempre manteve os pés no chão, mesmo quando os holofotes começaram a apontar em sua direção.

E talvez haja também um elemento poético nessa menina mulher. Porque, de certo modo, Maiara caminha por Manhattan como a nossa própria “garota de Ipanema” serrana — aquela que carrega beleza, graça e luz, mas que também traz história, disciplina e propósito. Uma presença que não passa despercebida, não apenas pelo olhar, mas pela postura.

Ao longo da trajetória, envolveu-se em projetos sociais, participou de ações comunitárias e utilizou sua visibilidade para ampliar causas que ultrapassam o universo da moda. Há nela uma compreensão clara de que representar Nova Friburgo vai além de vestir uma faixa ou desfilar um look: é também saber devolver à sociedade parte do que se conquista.

Em tempos em que o noticiário insiste em destacar crises e conflitos, é justo iluminar histórias construídas aqui, com esforço silencioso e perseverança. A presença de Maiara em Nova York não é um evento passageiro nem uma foto de ocasião. É resultado de escolhas feitas com responsabilidade.

De Friburgo para Manhattan, a distância pode ser medida em quilômetros. Mas, na prática, ela foi vencida com constância, preparo e visão de futuro. E se há algo que essa trajetória demonstra é que alguns caminhos começam discretos, mas seguem firmes — sempre elegantes — rumo a horizontes cada vez maiores. E tudo indica que essa história ainda está longe de seu ponto final.

Foto da galeria
(Foto: Arquivo pessoal)
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Celular na escola: vilão ou ferramenta do futuro?

quinta-feira, 05 de fevereiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Se tem uma coisa que nunca sai de moda é a busca por um culpado para os problemas da educação. Já foram os quadrinhos, os videogames, as cartas de Yu-Gi-Oh (um famoso desenho japonês dos anos 2000), o funk, e agora, adivinhe? Os celulares! Completou um ano em vigor a lei que veda o uso dos celulares nas escolas, mas será que esta é a melhor solução para melhorar as notas e a atenção dos alunos? Com a volta às aulas nesta semana, a discussão voltou à tona.

Se tem uma coisa que nunca sai de moda é a busca por um culpado para os problemas da educação. Já foram os quadrinhos, os videogames, as cartas de Yu-Gi-Oh (um famoso desenho japonês dos anos 2000), o funk, e agora, adivinhe? Os celulares! Completou um ano em vigor a lei que veda o uso dos celulares nas escolas, mas será que esta é a melhor solução para melhorar as notas e a atenção dos alunos? Com a volta às aulas nesta semana, a discussão voltou à tona.

Uma pesquisa recente jogou um balde de água fria nessa ideia: proibir celulares nas escolas não aumenta as notas e nem a proatividade dos estudantes. Ou seja, a solução mágica não é tão mágica assim. Mas, então, o que fazer diante dos desafios enfrentados pela educação brasileira?

Celular: vilão ou inocente?

Vamos ser sinceros: o celular pode, sim, ser um grande empecilho na sala de aula. Quem nunca ficou rolando o feed do Instagram ou os grupos de Whatsapp ao invés de prestar atenção em algo importante? O celular, se mal utilizado, é sem dúvidas um antagonismo à proatividade.

O problema é que culpar apenas o aparelho é como dizer que o lápis é culpado pelos erros de ortografia. A distração sempre existiu – seja com bilhetinhos, revistas escondidas dentro do livro, rabiscos no caderno ou até mesmo quem ficasse olhando para o teto para que o tempo passasse.

Por outro lado, não há como negar que ele também é uma ferramenta poderosa e extremamente relevante nos tempos atuais. No mundo real – aquele fora da escola – celulares são essenciais para trabalho, estudo, aprendizado e comunicação (até mesmo entre os alunos e seus pais).

Aplicativos como Google Drive, Duolingo, Coursera, YouTube Educacional, ChatGPT e até o bom e velho WhatsApp, se usados corretamente, podem ser aliados do aprendizado moderno. A diferença é que hoje, o celular, tem todas as modalidades de distração e muito mais, não sendo sempre utilizado de maneira ideal.

A solução não está na proibição, mas na educação

Se o objetivo é melhorar o desempenho dos alunos, a resposta não está no banimento, mas talvez na adaptação das tecnologias ao estudo e a rotina dos adultos de amanhã. Educar para o uso consciente e eficaz da tecnologia, em vez de fingir que ela não existe. E, sejamos honestos, ignorar isso é tapar o sol com a peneira.

Algumas escolas pelo mundo já perceberam isso e adotaram métodos mais modernos. Usam notebooks em suas salas de aula, smartphones e outras tecnologias associadas. Há também, a implementação de horários específicos para o uso do celular em atividades pedagógicas ou até aplicativos que ajudam no controle de tempo e foco dos estudantes.

Outro ponto importante: o celular é, para muitos, ferramenta de trabalho no mundo moderno. Embora exista o jornal impresso, é certo que muitos de vocês estejam lendo essa coluna por meio do seu celular. O celular tornou-se um aparelho imprescindível nas relações sociais e de trabalho. Não há como não fingir que ele não exista.

Muitos alunos trabalham e estudam (assim como eu), e o telefone é essencial para isso. Além disso, os jovens de hoje serão os profissionais de amanhã, e o mundo corporativo já exige habilidades digitais rebuscadas. Em meio a um mundo profissional concorrido, por que não preparar essa galera desde cedo para usar a tecnologia a seu favor?

O equilíbrio entre disciplina e tecnologia

Claro que não dá para liberar geral e deixar a sala de aula virar um festival de TikTok em plena aula de Geometria. A escola precisa estabelecer regras, ensinar limites ou até mesmo usar aplicativos de controle. Mas também não adianta agir como se o celular fosse um monstro devorador de notas. O segredo está no equilíbrio.

Outra coisa importante é que a proibição, muitas vezes gera ainda mais estímulo ao fazer escondido. Quem nunca ouviu que o escondido é sempre mais gostoso? E não há nada que um jovem goste mais de fazer do que ir contra as regras que a sociedade impõe. Efetivamente, sabemos que a medida não irá funcionar.

A verdade é que proibir o celular nas escolas não vai fazer milagres. Enquanto não repensarmos a metodologia – arcaica e maçante – da educação brasileira, teremos ainda empecilho no interesse dos alunos nas escolas, que buscam válvulas de descompressão, sejam nos bilhetinhos escondidos, nas revistas, olhando para o teto ou no celular. 

A educação precisa evoluir junto com a tecnologia. E, convenhamos, se o objetivo é preparar os alunos para o futuro, talvez esteja na hora de parar de brigar com ele.

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A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

No silêncio dos laboratórios, uma brasileira desafia a paralisia

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Vivemos um tempo em que o noticiário parece disputar nossa atenção pela exaustão. Tragédias, crimes, escândalos, disputas políticas e indignações fabricadas ocupam quase todo o espaço público. O barulho é constante, repetitivo e, muitas vezes, paralisante. Nesse cenário ruidoso, passam despercebidas as notícias que não gritam — aquelas que nascem no silêncio, no tempo lento da pesquisa científica, da observação meticulosa e da insistência paciente. Notícias de gente que insiste em produzir futuro em um país pouco acostumado a celebrá-lo.

Vivemos um tempo em que o noticiário parece disputar nossa atenção pela exaustão. Tragédias, crimes, escândalos, disputas políticas e indignações fabricadas ocupam quase todo o espaço público. O barulho é constante, repetitivo e, muitas vezes, paralisante. Nesse cenário ruidoso, passam despercebidas as notícias que não gritam — aquelas que nascem no silêncio, no tempo lento da pesquisa científica, da observação meticulosa e da insistência paciente. Notícias de gente que insiste em produzir futuro em um país pouco acostumado a celebrá-lo.

É nesse contexto que surge a trajetória de Tatiana Sampaio, médica e pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Longe dos holofotes, ela vem conduzindo há décadas um trabalho científico que pode impactar diretamente a vida de pessoas que convivem com diferentes tipos de paralisia. Não se trata de promessa vazia nem de discurso motivacional, mas de ciência aplicada, construída com método, persistência e tempo.

Tatiana desenvolveu a polilaminina, um medicamento ainda experimental elaborado a partir de proteínas extraídas da placenta. A substância atua na regeneração dos nervos da medula espinhal, estimulando a reconexão de neurônios rompidos por lesões traumáticas. Em termos simples — e justamente por isso impressionantes — a proposta é restabelecer conexões que, até hoje, a medicina tratava como irreversíveis. Nesse cenário, a paralisia deixa de ser um ponto final absoluto e passa a admitir a possibilidade de uma vírgula.

É importante destacar: não estamos diante de uma descoberta repentina, dessas que surgem da noite para o dia e desaparecem com a mesma velocidade com que viralizam. A polilaminina é fruto de 25 anos de pesquisa, testes laboratoriais, experimentos, erros corrigidos, hipóteses revistas e persistência científica. Um trabalho longo, silencioso e, muitas vezes, invisível ao grande público. Recentemente, esse esforço alcançou um marco relevante: a Anvisa autorizou o início dos testes clínicos de fase 1 em humanos, destinados a avaliar a segurança da aplicação da substância diretamente na medula espinhal.

E é exatamente nesse ponto que o entusiasmo precisa caminhar ao lado da cautela. Testes de fase 1 não significam cura, nem indicam resultados imediatos. Significam responsabilidade. Significam que a ciência está fazendo o que precisa ser feito: avançar com rigor, respeitando protocolos, limites éticos e o tempo necessário para evitar falsas promessas. Entre um avanço de laboratório e um tratamento amplamente disponível, existe um caminho longo, que passa por múltiplas fases clínicas, análises estatísticas e avaliações regulatórias.

Celebrar a pesquisa de Tatiana Sampaio não é anunciar milagres, nem alimentar expectativas irreais em pacientes e famílias. É reconhecer que o Brasil ainda é capaz de produzir ciência de fronteira, mesmo em um ambiente historicamente hostil à pesquisa. É compreender que cada passo dado com cautela hoje evita frustrações profundas amanhã. Ciência séria não corre — ela avança.

Ainda assim, seguimos distraídos. Em uma semana, o país se mobiliza — com razão — pela morte do cachorro Orelha. Em outra, discute escândalos financeiros, crises bancárias, fraudes e disputas políticas barulhentas. Tudo isso importa. Mas chama atenção como boas notícias raramente ganham o mesmo espaço, o mesmo fôlego ou a mesma indignação coletiva. A ciência, quando não vira polêmica, vira silêncio.

Valorizar o trabalho de Tatiana Sampaio não é apenas celebrar uma cientista. É afirmar que o Brasil ainda produz futuro, mesmo quando parece afogado no presente. Seu trabalho nos autoriza a ter esperança — mas uma esperança adulta, que respeita o tempo da realidade e não confunde pesquisa séria com promessa fácil. Otimismo, sim. Pressa, não. Porque quando a ciência acerta, ela muda vidas. E isso exige método, paciência e respeito ao processo.

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O mundo está em caos – E nós estamos no meio disso, gostemos ou não

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Vivemos com a falsa sensação de que o mundo acontece longe. Que guerras, disputas de poder e movimentos geopolíticos são temas para jornais estrangeiros, especialistas engravatados e debates que não atravessam o nosso portão. É um engano confortável — e muito perigoso.

A história já nos ensinou, mais de uma vez, que quando o mundo entra em crise, ninguém fica ileso. O problema é que insistimos em aprender sempre da pior forma. Trazer uma guerra para o centro do cenário global em um período de instabilidade não é apenas um problema diplomático. É um sinal de alerta.

Vivemos com a falsa sensação de que o mundo acontece longe. Que guerras, disputas de poder e movimentos geopolíticos são temas para jornais estrangeiros, especialistas engravatados e debates que não atravessam o nosso portão. É um engano confortável — e muito perigoso.

A história já nos ensinou, mais de uma vez, que quando o mundo entra em crise, ninguém fica ileso. O problema é que insistimos em aprender sempre da pior forma. Trazer uma guerra para o centro do cenário global em um período de instabilidade não é apenas um problema diplomático. É um sinal de alerta.

Viver tempos de crise significa viver tempos de escassez. E escassez não é um conceito abstrato: ela aparece no preço do alimento, no custo da energia, no valor do transporte, na dificuldade de manter empregos, na insegurança cotidiana. Em tempos instáveis, a vida, que já anda apertada, fica ainda mais difícil — e mais imprevisível.

Quando olhamos para o tabuleiro mundial hoje, o cenário não inspira nenhuma tranquilidade. As atitudes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com sua política agressiva, imprevisível e voltada ao conflito permanente, não são apenas retóricas eleitorais. Elas tensionam mercados, alianças e como o mundo funciona.

Do outro lado, Vladimir Putin (presidente da Rússia) insiste em uma lógica de força, onde a guerra não é exceção, mas instrumento político. E, silenciosamente — talvez de forma ainda mais eficiente — a China avança, ampliando seu poder econômico, tecnológico e político, ocupando espaços que antes eram hegemonicamente dos Estados Unidos.

Não se trata de escolher mocinhos ou vilões. Trata-se de compreender que estamos diante de uma mudança abrupta na forma como o mundo é organizado e por quem é gerido. É uma briga de poderes. A China caminha para superar, em pouco tempo, o capital político e econômico americano, enquanto o Ocidente parece fragmentado.

Esse desequilíbrio não é apenas teórico: ele cria um ambiente propício para conflitos maiores — e conflitos, historicamente, nunca ficam restritos aos seus pontos de origem.

Alguns ainda romantizam o caos. Sempre haverá quem diga que “gosta de quem faz bagunça”, de líderes que “botam para acontecer”, de discursos duros e gestos agressivos. O problema é que essa suposta coragem quase nunca é paga por quem a aplaude. A conta chega para o trabalhador comum, para quem já luta para fechar o mês, para quem sente o impacto de cada reajuste no supermercado, no aluguel, no combustível. O caos costuma ser um privilégio para poucos — nunca uma experiência desejável para meros mortais, como nós.

Períodos de instabilidade mexem com tudo: com preços, com oportunidades, com investimentos, com segurança e até com a forma como nos relacionamos. Eles corroem a previsibilidade — e viver sem previsibilidade é viver em permanente estado de alerta. Planejar o futuro vira luxo. Sonhar vira risco. E sobreviver passa a ser prioridade. A ansiedade coletiva cresce, o medo se normaliza e a sensação de chão firme desaparece.

É por isso que não faz sentido dizer que isso “não tem nada a ver com a gente”. Tem. Tem a ver com Nova Friburgo, com o Rio de Janeiro, com cada cidade que depende de cadeias globais de produção, de comércio, de energia e de estabilidade econômica. O mundo não é mais compartimentado. O que explode lá fora ecoa aqui dentro.

Preocupar-se com o que acontece entre Estados Unidos, Rússia e China não é alarmismo. É maturidade. É entender que as grandes peças desse tabuleiro mundial se movem, e quando se movem, esmagam o que estiver no caminho. Nós, muitas vezes, somos esse caminho — sem blindagem, sem controle e sem margem de escolha. Somos um mero navio pequeno em meio à tempestade.

Se hoje já está difícil pagar as contas, imaginar que tempos de crise tornarão a vida mais fácil é ilusão. Instabilidade nunca melhora a vida de quem vive do trabalho, da previsibilidade e do esforço diário. Pelo contrário: ela testa limites, reduz escolhas e impõe sacrifícios que muitas vezes não estamos dispostos a assumir.

Talvez a maior ingenuidade do nosso tempo seja acreditar que podemos nos dar ao luxo de não olhar para o que acontece mundo. Não podemos. Porque o mundo está olhando para nós — e decidindo, sem nos consultar, como será o próximo capítulo da nossa própria história. História essa, que estará nos livros escolares do futuro.

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Suzane Von Richthofen: herança que divide bens e opiniões

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Há crimes que não terminam quando a sentença é lida. Eles não se encerram com o trânsito em julgado, nem se dissipam com o passar dos anos. Permanecem suspensos no imaginário coletivo, como uma ferida que insiste em ser tocada. O nome de Suzane von Richthofen é um desses fantasmas.

Sempre que reaparece, nos obriga a encarar perguntas que preferiríamos evitar em meio a tanta barbárie. Agora, o debate retorna sob outra forma: o direito à herança após a morte de um tio recém falecido. E, mais uma vez, o país se divide entre o que a lei permite e o que a consciência rejeita.

Há crimes que não terminam quando a sentença é lida. Eles não se encerram com o trânsito em julgado, nem se dissipam com o passar dos anos. Permanecem suspensos no imaginário coletivo, como uma ferida que insiste em ser tocada. O nome de Suzane von Richthofen é um desses fantasmas.

Sempre que reaparece, nos obriga a encarar perguntas que preferiríamos evitar em meio a tanta barbárie. Agora, o debate retorna sob outra forma: o direito à herança após a morte de um tio recém falecido. E, mais uma vez, o país se divide entre o que a lei permite e o que a consciência rejeita.

O incômodo é compreensível. Para muitos, soa quase ofensivo que alguém condenada por um crime tão brutal possa receber qualquer herança. A sensação de injustiça pela sociedade é imediata, visceral, quase automática. Mas o Direito raramente caminha de mãos dadas com o instinto.

Ele não foi criado para satisfazer nossa sede moral nem para oferecer catarse coletiva. Foi pensado para organizar conflitos dentro de regras previamente estabelecidas — mesmo quando isso nos desagrada.

Do ponto de vista jurídico, o tema não é novo. O Código Civil brasileiro prevê a chamada indignidade sucessória, que impede alguém de herdar quando pratica determinados atos gravíssimos contra o autor da herança, como homicídio doloso, tentativa de homicídio ou crimes contra a honra em determinadas circunstâncias.

O ponto central — e que costuma gerar revolta — é que a indignidade não se presume e tampouco se estende automaticamente. Ela exige vínculo direto entre o herdeiro e quem morreu. O que foi algo que aconteceu com a Suzane ao não receber a herança dos seus pais.

No caso em discussão, o tio não foi vítima do crime cometido no passado. E o Direito Civil, goste-se ou não, trabalha com critérios objetivos, não com juízos morais amplos. Não existe, na legislação brasileira, uma cláusula que autorize excluir alguém da sucessão por ser “indigno aos olhos da sociedade”. O Direito pune fatos específicos, não a repulsa coletiva nem a memória social de um crime.

É exatamente aqui que o desconforto cresce. Porque a sociedade espera da Justiça algo além da técnica. Espera consolo, resposta emocional, reparação simbólica. Mas o Judiciário não foi desenhado para isso. Ele não julga caráter, não mede arrependimento e não reescreve o passado para torná-lo mais aceitável. Ele aplica a lei — inclusive quando o resultado nos causa náusea.

Talvez o erro esteja na expectativa. Queremos que o Direito funcione como uma espécie de punição eterna, um prolongamento moral da condenação penal até o fim da vida. Mas o sistema jurídico não prevê castigos perpétuos. A pena foi aplicada, a condenação cumprida, e o Direito Civil (dos bens do seu tio) não atua como extensão do Direito Penal (da morte dos seus pais) no plano emocional.

Isso não significa que o debate seja ilegítimo. Pelo contrário. Ele revela uma fratura profunda entre o que a sociedade sente e o que o ordenamento jurídico permite. Revela também nossa dificuldade em lidar com a ideia de que a lei, muitas vezes, não conforta. Ela organiza. E organizar o caos nem sempre produz sensação de justiça.

Há ainda uma pergunta incômoda que insistimos em ignorar: se começarmos a relativizar direitos com base na indignação social, onde isso termina? Quem define o grau aceitável de indignidade? O crime mais chocante? O réu que se torna símbolo? O Direito, quando abandona critérios objetivos, passa a caminhar em terreno perigoso — onde a exceção vira regra e a emoção substitui a norma.

No fundo, o caso Suzane fala menos sobre herança e mais sobre limites. Sobre até onde queremos que o Estado vá em nome da nossa moral. Sobre a dificuldade de aceitar que nem toda decisão legal parece justa — embora seja juridicamente correta. E sobre o fato de que a Justiça, muitas vezes, nos frustra justamente porque não foi feita para nos agradar.

Talvez o maior choque não seja ela poder herdar. Talvez seja perceber que o Direito não existe para nos oferecer conforto emocional. Ele existe para garantir previsibilidade. Mesmo quando isso nos obriga a engolir decisões amargas. E, diante desse espelho desconfortável, somos nós que precisamos decidir se queremos leis que organizem a sociedade ou leis que apenas reflitam a indignação do momento.

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