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O amor que não tira folga

quinta-feira, 07 de maio de 2026
por Lucas Barros

Há datas que chegam com flores, mensagens prontas e fotografias bonitas. O Dia das Mães é uma delas. Mas, por trás das homenagens, no próximo domingo, 10, existe algo que não cabe em legenda: a rotina silenciosa de quem nunca teve a opção de não cuidar. Porque ser mãe não é um evento — é um estado permanente, contínuo, que não se suspende ao fim do dia.

Há datas que chegam com flores, mensagens prontas e fotografias bonitas. O Dia das Mães é uma delas. Mas, por trás das homenagens, no próximo domingo, 10, existe algo que não cabe em legenda: a rotina silenciosa de quem nunca teve a opção de não cuidar. Porque ser mãe não é um evento — é um estado permanente, contínuo, que não se suspende ao fim do dia.

Mãe não bate ponto, não encerra expediente, não escolhe quando pode descansar. Está presente no café apressado antes da escola, no uniforme separado na noite anterior, no remédio dado na madrugada, no conselho que vem sem manual. Está no cuidado que ninguém vê, mas que sustenta tudo o que a gente é. E, muitas vezes, está também no cansaço que ninguém aplaude.

Há uma força quase invisível no gesto de repetir, todos os dias, as mesmas pequenas coisas. Arrumar, organizar, insistir, orientar, acompanhar. Enquanto o mundo corre atrás de grandes conquistas, mães seguem garantindo o básico — e o básico, quando falta, faz falta de verdade. É ali, no detalhe, que a vida se constrói.

Nem sempre é leve. Nem sempre é reconhecido. Há mães que trabalham fora e dentro de casa, equilibrando jornadas que não cabem em relógio. Há mães solo que acumulam funções, responsabilidades e silêncios. Há mães que renunciaram a planos, pausaram sonhos, reorganizaram caminhos. E há também aquelas que aprenderam a ser mãe sem nunca terem sido cuidadas. E, ainda assim, seguem.

Ser mãe não é perfeição. É presença. É tentativa. É erro e acerto no mesmo dia. É fazer o melhor possível com o que se tem — e, muitas vezes, com o que nem se tem. É encontrar força onde não parecia haver, é improvisar soluções, é seguir mesmo quando o corpo pede pausa.

Existe, também, um tipo de amor que só a maternidade revela. Um amor que não exige resposta imediata, que não cobra retorno proporcional, que se constrói na entrega diária. É o amor que ensina, que corrige, que acolhe e que, acima de tudo, permanece — mesmo quando não é compreendido.

E talvez o mais curioso seja que esse amor, tão cotidiano, só ganha destaque em uma data específica. No restante do ano, ele continua ali, firme, sustentando histórias, segurando pontas, evitando quedas. O extraordinário, no caso das mães, é justamente o que se repete. É a constância.

Há mães de todos os tipos. Mães biológicas, adotivas, de coração. Mães que estão presentes fisicamente e aquelas que permanecem na memória, nas frases repetidas sem perceber, nos gestos herdados. Mães jovens, mães mais velhas, mães que ainda estão aprendendo, mães que já ensinaram tudo — e continuam ensinando.

E há também aquelas que, mesmo não tendo filhos, exercem o cuidado de forma tão intensa que ocupam esse lugar na vida de alguém. Porque ser mãe, no fundo, também é sobre cuidar, proteger, orientar e amar com uma intensidade que não se mede.

O Dia das Mães deveria ser menos sobre presentes e mais sobre compreensão. Sobre enxergar o que costuma passar despercebido. Sobre reconhecer que existe um trabalho — emocional, físico, constante — que raramente entra em qualquer cálculo, mas que sustenta famílias inteiras, que molda futuros, que forma pessoas.

Porque, no fim, mãe não é só quem cria. É quem permanece. É quem segura quando tudo parece cair, quem orienta quando falta direção, quem insiste quando o mundo desiste. É quem transforma cuidado em estrutura, afeto em base, presença em caminho.

E talvez o maior erro seja achar que esse amor cabe em um domingo. Que pode ser resumido em uma homenagem, em um presente, em uma postagem.

Porque o amor de mãe não é data comemorativa. Não é gesto isolado.
Não é ocasião. É rotina. É presença. É construção silenciosa.

É o tipo de amor que não tira folga — e que, ainda assim, nunca deixa de estar.

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A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

Trabalhar para viver — e não apenas para resistir

quinta-feira, 30 de abril de 2026
por Lucas Barros

Nesta sexta-feira, 1º de maio, celebramos o Dia do Trabalho. E, antes de qualquer debate, é preciso reconhecer quem sustenta, todos os dias, a engrenagem mais básica da sociedade: o trabalhador. É ele quem acorda cedo, enfrenta rotina, transporte, metas, pressão e, muitas vezes, volta para casa com a sensação de que entregou mais do que recebeu.

Nesta sexta-feira, 1º de maio, celebramos o Dia do Trabalho. E, antes de qualquer debate, é preciso reconhecer quem sustenta, todos os dias, a engrenagem mais básica da sociedade: o trabalhador. É ele quem acorda cedo, enfrenta rotina, transporte, metas, pressão e, muitas vezes, volta para casa com a sensação de que entregou mais do que recebeu.

Em muitos casos, trabalha-se muito — e vive pouco. A pauta da jornada 6 x 1 virou um retrato claro dessa realidade. Seis dias dedicados ao trabalho para um único dia de descanso que, na prática, acaba sendo consumido por tarefas acumuladas, compromissos e a tentativa de recuperar um cansaço que nunca vai embora por completo.

Falta tempo, falta energia, falta espaço para existir além da função que se exerce. E, quando o trabalho deixa de ser um meio de vida e passa a ser apenas sobrevivência, algo está profundamente fora do lugar. Portanto, a pauta é legítima e tem o seu valor para ser debatido.

O trabalhador sente isso no corpo e na rotina. Sente quando o salário não acompanha o custo de vida que cresce no país, quando o descanso não é suficiente, quando o crescimento parece distante. Sente quando precisa escolher entre pagar contas básicas ou ter um mínimo de lazer – se é que é possível.

E, ainda assim, segue. Porque parar não é uma opção para quem depende exclusivamente do próprio esforço para manter a vida funcionando. Mas é justamente aqui que o debate precisa ganhar maturidade. Porque, embora a dor do trabalhador seja evidente — e absolutamente legítima —, ela não existe isoladamente.

Do outro lado dessa relação, há uma realidade que muitas vezes é ignorada ou simplificada: a de quem empreende. A realidade do Brasil de pequenos e médios empresários que não se encaixa na imagem de grandes corporações ou estruturas milionárias e tampouco numa agenda de luta de classes.

São negócios familiares, empresas locais, comerciantes, prestadores de serviço, microempreendedores individuais. Pessoas que também acordam cedo, que fecham tarde, que não têm garantia de renda fixa no fim do mês e que carregam nas costas a responsabilidade de manter não só o próprio sustento, mas o de outras famílias.

Para muitos desses empregadores, a jornada não é 6 x 1 — é 7 x 0. Não há descanso formal, não há estabilidade, não há margem para adoecer. Há risco constante. Há incerteza. Há a obrigação de fazer a conta fechar mesmo quando a conta não fecha. E há, ainda, um fator que tem pesado cada vez mais: o aumento da carga tributária sobre as empresas e a complexidade do sistema.

Nos últimos tempos, criou-se uma narrativa perigosa de que toda empresa é, por definição, lucrativa e capaz de absorver todo e qualquer aumento de custo. Não é. Muitos negócios operam no limite, lidando com impostos elevados, burocracia excessiva e insegurança jurídica. O pequeno e médio empreendedor, nesse contexto, não vive de privilégio — vive de resistência.

Isso não anula, em hipótese alguma, a realidade do trabalhador. Mas revela um ponto essencial: transformar essa relação em um confronto direto é simplificar um problema que é estrutural. Porque, no fim das contas, não existe empresa sem trabalhador — e não existe trabalho sem empresa. Quando um lado enfraquece, o outro inevitavelmente sente.

O erro está em tratar o debate como uma “luta de classes” - o que não deixa de existir no ponto de vista da filosofia e da história. Como a melhora da vida de um significasse, necessariamente, prejudicar o outro. A realidade mostra justamente o contrário: relações de trabalho saudáveis dependem de equilíbrio. Dependem de condições que permitam ao trabalhador viver com dignidade e ao empregador operar com viabilidade.

O Dia do Trabalho deveria ser menos sobre discursos prontos e mais sobre reflexão real. Sobre como estamos estruturando nossas relações profissionais em um sentido lato, mas não apenas num sentido estrito. Sobre como estamos distribuindo esforço, responsabilidade e resultados. Sobre como transformar trabalho em qualidade de vida — e não apenas em manutenção do básico.

Porque há algo de errado quando o trabalhador vive exausto e o empregador vive sufocado. E há uma luta de classes em ambos se entendem como inimigos, embora, muitas vezes sejam vítimas de algo maior. Quando um não descansa e o outro não respira. Quando ambos trabalham muito, mas nenhum sente que está, de fato, avançando. Isso não é equilíbrio.

No fim, trabalhar deveria significar construir. Construir estabilidade, segurança, perspectiva. Construir um futuro que faça sentido. E talvez a reflexão mais importante desta semana seja justamente essa: não basta trabalhar muito. É preciso que o trabalho, para todos os envolvidos, volte a valer a pena.

Talvez o maior erro do nosso tempo tenha sido transformar o trabalho em destino, e não em caminho. Porque viver não deveria caber nas horas vagas. E nenhum descanso, para qualquer das partes, deveria parecer um prêmio.

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Para muitos jovens, o ponto mais bonito da cidade ainda é a saída

quinta-feira, 23 de abril de 2026
por Lucas Barros

Há alguns anos escrevi sobre os jovens que vão embora de Nova Friburgo e, na maioria das vezes, não voltam. De lá pra cá, pouca coisa mudou — talvez só a naturalidade com que essa decisão passou a ser tomada. Ir embora deixou de ser um plano ousado e virou quase um roteiro esperado.

Nova Friburgo continua sendo uma cidade que forma, mas não retém. Temos um dos maiores polos universitários da região, com instituições que preparam gente qualificada, pronta para o mercado, pronta para o mundo. O problema é que, ao terminar a formação, esse mesmo mundo parece começar fora daqui.

Há alguns anos escrevi sobre os jovens que vão embora de Nova Friburgo e, na maioria das vezes, não voltam. De lá pra cá, pouca coisa mudou — talvez só a naturalidade com que essa decisão passou a ser tomada. Ir embora deixou de ser um plano ousado e virou quase um roteiro esperado.

Nova Friburgo continua sendo uma cidade que forma, mas não retém. Temos um dos maiores polos universitários da região, com instituições que preparam gente qualificada, pronta para o mercado, pronta para o mundo. O problema é que, ao terminar a formação, esse mesmo mundo parece começar fora daqui.

A cidade dá base de segurança, ensina, capacita, desenvolve — mas não absorve. É como se crescer, por aqui, tivesse um limite invisível, baixo demais para quem deseja mais.

E não é por falta de talento. É por falta de perspectiva. O jovem que quer construir carreira, empreender, inovar ou simplesmente encontrar oportunidades mais amplas, olha ao redor e não enxerga caminho. Falta ecossistema, falta incentivo, falta integração entre ensino e mercado. Falta, sobretudo, a sensação de que existe futuro profissional consistente dentro dos limites da cidade.

Enquanto isso, seguimos presos a um modelo que gira, mas não evolui. A economia se movimenta em ciclos previsíveis, sustentada por eventos pontuais nas praças, iniciativas que geram fluxo por alguns dias e depois se dissolvem. Há palco, há luz, há público — mas, quando tudo acaba, pouco permanece. Não se constrói continuidade. Não se cria base.

Falta de estrutura

Há uma diferença importante entre uma cidade que recebe e uma cidade que retém. Receber é momentâneo. Reter exige estrutura e base. E Friburgo, hoje, parece mais preparada para o movimento transitório (de trazer pessoas de fora para visitar e estudar) do que para a permanência. Funciona bem no imediato, mas falha no longo prazo. Encanta por alguns dias, mas não sustenta por anos.

O resultado disso é silencioso, mas constante. Jovens arrumando malas, famílias se reorganizando, trajetórias sendo continuadas em outros lugares. Não por falta de vínculo com a cidade, mas por necessidade. Porque chega um momento em que o afeto não compensa a ausência de oportunidade concreta – e eu me incluo nos milhares desses.

E é aqui que o tema se conecta com uma discussão mais ampla que já fizemos: não é falta de dinheiro. É falta de prioridade. Enquanto se fala em arrecadação, em cada vez taxas e empréstimos realizados pelo município, seguimos sem uma política pública estruturada para retenção de talentos. Não há estratégia clara para integrar universidades, empresas e inovação. Não há um plano consistente de desenvolvimento que olhe para o futuro.

Sem evolução

A cidade parece, em muitos aspectos, parada no tempo. Não pela ausência de potencial, mas pela falta de direção. O mundo mudou, as profissões mudaram, a forma de trabalhar mudou — e Friburgo ainda responde com estruturas de outra época. Quem quer acompanhar esse novo ritmo acaba, inevitavelmente, buscando outro lugar.

E isso tem consequência. Uma cidade que não retém seus jovens também não renova suas ideias, não oxigena sua economia, não se projeta para frente. Vai envelhecendo em seus modelos, repetindo fórmulas que já não respondem às demandas atuais. Vai ficando confortável no que já conhece — e cada dia mais distante do que poderia ser.

No fim das contas, a imagem que fica é simbólica. Todos com um sentimento inigualável de paixão pela cidade, mas para muitos jovens, o ponto turístico mais bonito de Nova Friburgo ainda é a Rodoviária Sul — com uma passagem só de ida. Não pela tranquilidade da cidade, não pela paisagem, mas pelo que ela representa: a saída como única alternativa de crescimento.

E isso deveria incomodar mais. Porque cada jovem que vai embora não leva só a própria história. Leva potencial, inovação, energia, capacidade de transformação. Leva consigo todos os grandes planos e o futuro de famílias. Leva consigo um pedaço do futuro que poderia ter sido construído aqui.

Nova Friburgo não precisa apenas formar bons profissionais. Precisa criar condições reais para que eles fiquem, cresçam e se desenvolvam dentro da própria cidade. Porque uma cidade que educa, mas não acolhe o próprio talento, está, aos poucos, abrindo mão de si mesma.

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Procedimento estético para o rosto e maquiagem para a Saúde

quinta-feira, 16 de abril de 2026
por Lucas Barros

Há algo de curioso — e, de certo modo, simbólico — quando um gestor público, no caso, o prefeito de Nova Friburgo, decide aparecer nas redes sociais exibindo procedimentos estéticos como se estivesse protagonizando a campanha de uma clínica de estética da cidade.

Não há ilegalidade nisso. Não há, sequer, proibição. Mas há momentos em que a forma fala mais alto que o ato. E, sobretudo, há contextos que exigem mais sensibilidade do que vaidade.

Há algo de curioso — e, de certo modo, simbólico — quando um gestor público, no caso, o prefeito de Nova Friburgo, decide aparecer nas redes sociais exibindo procedimentos estéticos como se estivesse protagonizando a campanha de uma clínica de estética da cidade.

Não há ilegalidade nisso. Não há, sequer, proibição. Mas há momentos em que a forma fala mais alto que o ato. E, sobretudo, há contextos que exigem mais sensibilidade do que vaidade.

Cuidar da própria imagem é legítimo. Todos cuidamos, em maior ou menor medida. O problema não está no procedimento, mas na mensagem que se escolhe transmitir em um município que enfrenta dificuldades evidentes na área da saúde, onde faltam respostas, estrutura e, muitas vezes, o básico.

Brilho na pele, escuridão na Saúde  

Enquanto alguns buscam atendimento nos hospitais e encontram filas, demora ou ausência, o que se vê na tela é um roteiro leve, bem iluminado, quase ensaiado. Enquanto alguns veem procedimentos estéticos com luvas, tudo limpo e organizado na clínica de estética, o popular encontra o hospital com enfermeiros atendendo sem insumos básicos.

É uma narrativa de quem se diz populista, mas que não dialoga com a realidade de quem depende e vive o sistema público de saúde do município. E é justamente essa desconexão que incomoda. Não pela estética em si, mas pela ausência de total senso de oportunidade em um momento que exige cuidado.

E, nesse cenário, cada gesto comunica. Cada publicação transmite uma mensagem. Quando a cidade vive um momento de fragilidade na saúde, o esperado não é leveza estética, mas firmeza de quem quer fazer acontecer. Não é o brilho de uma lente, mas a clareza de uma resposta para que não enxerga solução. Porque quem está na ponta não enxerga estética — enxerga ausência, dor e desamparo de não conseguir ser atendido.

A vida política exige leitura de ambiente. Exige entender o tempo, o lugar e, principalmente, as dores de quem está do outro lado – especialmente quem precisa de você, prefeito. Não se trata de proibir o gestor de viver sua vida privada, mas de compreender que, ao ocupar um cargo público, a linha entre o pessoal e o institucional se torna inevitavelmente mais tênue — especialmente quando se utiliza a própria rede social como ferramenta de comunicação pública.

Quando o retoque vai além do rosto

Mas ainda há um detalhe que agrava esse cenário e que não pode ser tratado como periférico. Não é a primeira vez que críticas ao governo municipal desaparecem das redes sociais. Comentários são apagados, manifestações de insatisfação são filtradas e o que deveria ser um espaço de diálogo se transforma, pouco a pouco, em vitrine controlada. Isso, sim, revela um problema mais profundo. Trata-se de uma vaidade - que nesse momento não tem qualquer significado estético.

Um agente público que utiliza suas redes como extensão de sua atuação política não pode tratar a crítica como um ruído a ser eliminado. Apagar comentários não resolve problemas — apenas os empurra para fora do campo de visão. E governar não é administrar percepção, é lidar com realidade, inclusive quando ela incomoda.

Esse comportamento, inclusive, já foi objeto de observação nesta coluna em outras ocasiões e voltou a ser destacado recentemente por diferentes portais de notícias da região. Não se trata, portanto, de um episódio isolado, mas de uma prática que se repete. E práticas reiteradas acabam revelando mais do que qualquer discurso cuidadosamente construído em roteiros e edições.

Há uma diferença importante entre comunicação e propaganda. Comunicar é prestar contas, explicar decisões, ouvir a população. Propaganda, por outro lado, constrói uma imagem — muitas vezes distante daquilo que se vive no cotidiano. Quando a segunda começa a substituir a primeira, transforma-se a gestão em narrativa, e não em entrega. Sim, podemos harmonizar o rosto, mas jamais, desarmonizar o debate.

Não é sobre estética, é sobre o que ele ignora

No fim das contas, a questão não é estética. É prioridade. Não é sobre o procedimento em si, mas sobre o momento em que ele é exposto e divulgado quase como uma propaganda. Não é sobre o vídeo, mas sobre o contraste que ele cria diante de uma população que ainda busca respostas básicas para problemas urgentes e o seu gestor está fazendo algo semelhante a um marketing.

Talvez o título dessa coluna diga mais do que parece. Procedimentos estéticos cuidam da superfície. A maquiagem cobre imperfeições, suaviza marcas e cria a ilusão de harmonia. Mas, na gestão pública, não é o rosto que precisa de ajustes — é a realidade que exige transformação.

No final, a população não espera um prefeito bem bonito e bem enquadrado em vídeo. Espera um gestor que encare, sem filtros e sem edição, os problemas que insistem em aparecer fora da tela. E esses, ao contrário de qualquer imagem e comentário, não podem ser apagados.

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O aniversário é de A VOZ DA SERRA, mas quem comemora é Friburgo

quinta-feira, 09 de abril de 2026
por Lucas Barros

Há aniversários que pertencem a uma pessoa, a uma família ou a uma instituição. Mas há outros que pertencem a uma cidade inteira. Quando um jornal completa 81 anos de existência, como A VOZ DA SERRA celebrou na terça-feira, 7, a comemoração deixa de ser apenas de quem escreve, imprime ou distribui. Ela passa a ser, sobretudo, de quem lê. E, neste caso, de quem vive Nova Friburgo.

Há aniversários que pertencem a uma pessoa, a uma família ou a uma instituição. Mas há outros que pertencem a uma cidade inteira. Quando um jornal completa 81 anos de existência, como A VOZ DA SERRA celebrou na terça-feira, 7, a comemoração deixa de ser apenas de quem escreve, imprime ou distribui. Ela passa a ser, sobretudo, de quem lê. E, neste caso, de quem vive Nova Friburgo.

Um jornal com 81 anos não atravessa o tempo por acaso. Entre a primeira edição e a que hoje chega às casas dos leitores, o mundo mudou inúmeras vezes. Mudaram os governos, mudaram os costumes, mudaram as tecnologias e até a forma como as pessoas se informam.

No entanto, semana após semana, edição após edição, A VOZ DA SERRA seguiu registrando a história da cidade, dia a dia, enquanto ela acontecia. Ao longo dessas oito décadas, o jornal testemunhou transformações profundas em Nova Friburgo. Viu crescer bairros, acompanhou momentos de prosperidade e também registrou tempos difíceis.

Contou histórias de gente comum que, com trabalho e perseverança, ajudou a construir a identidade friburguense. Em suas páginas passaram fatos históricos, personagens marcantes, debates públicos e as pequenas narrativas do cotidiano que, somadas, formam a memória de uma cidade.

Não é exagero dizer que, muitas vezes, a história de nossa cidade pode ser revisitada folheando edições antigas do jornal. Ali estão as fotografias que congelaram momentos importantes, os anúncios de outros tempos, as reportagens que retrataram decisões políticas, avanços sociais e desafios coletivos.

Um jornal, quando atravessa gerações, acaba se transformando em algo maior que um veículo de comunicação: torna-se arquivo vivo da própria comunidade. Em tempos de velocidade digital e de notícias que desaparecem em segundos na tela de um celular, há algo quase simbólico no fato de que A VOZ DA SERRA continue existindo também em sua forma impressa. Não é pouca coisa.

Em um cenário em que tantos jornais tradicionais deixaram de circular fisicamente, o periódico friburguense segue sendo entregue diariamente na casa de milhares de leitores e aos olhos de inúmeros friburguenses, seja bancas de revista ou seus trabalhos, na sala de espera do médico à repartição pública.

Essa permanência diz muito sobre a relação entre o jornal e a cidade. A edição impressa não é apenas papel e tinta; ela representa uma tradição que atravessa gerações. Há leitores que cresceram vendo o jornal chegar em casa, que aprenderam a reconhecer o ritmo da semana pela chegada da nova edição. É um hábito que se transforma em memória afetiva coletiva.

E naturalmente, um veículo com tanta história também atravessa momentos de debate e crítica. Em diferentes períodos, vozes surgem dizendo que o jornal favorece este ou aquele lado político. É uma narrativa comum em sociedades democráticas, onde a imprensa, ao noticiar e questionar, inevitavelmente incomoda alguém. Mas o tempo costuma ser um juiz silencioso.

Pessoas passam. Governos passam. Ciclos políticos se encerram. O que permanece é o registro dos acontecimentos. O fato de A VOZ DA SERRA chegar aos 81 anos diz muito mais sobre sua seriedade e compromisso com a informação do que qualquer crítica passageira poderia sugerir. Empresas não atravessam oito décadas sem consistência, credibilidade e trabalho.

Por isso, neste aniversário, talvez seja justo inverter a lógica da celebração. O aniversário é do jornal, é verdade. Mas quem tem motivos para comemorar são os friburguenses. Poucas cidades podem dizer que possuem um veículo de comunicação com tamanha longevidade, capaz de acompanhar gerações inteiras de moradores.

Ter um jornal que resiste ao tempo é também ter um espelho da própria cidade. Um espaço onde a comunidade se reconhece, discute seus caminhos e preserva sua memória coletiva. E memória, afinal, é uma das coisas mais valiosas que uma cidade pode ter.

Que venham muitos outros aniversários. Porque enquanto houver histórias para contar em Nova Friburgo — e sempre haverá — também haverá sentido em registrar essas histórias. E, nesse caso, quem ganha não é apenas o jornal. É a própria cidade que continua se vendo, dia após dia, refletida em suas páginas.

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Geração Z: Cada dia mais longe da casa própria

quinta-feira, 02 de abril de 2026
por Lucas Barros

Sonhar com a casa própria já foi uma das maiores aspirações de quem começava sua trajetória no mercado de trabalho. Contudo, para a Geração Z, os jovens que nasceram entre 1995 e 2010, esse sonho parece cada vez mais distante e menos palpável.

Sonhar com a casa própria já foi uma das maiores aspirações de quem começava sua trajetória no mercado de trabalho. Contudo, para a Geração Z, os jovens que nasceram entre 1995 e 2010, esse sonho parece cada vez mais distante e menos palpável.

Há quem fale que a geração não tenha o sonho de comprar a casa própria para ter maior liberdade de locomoção por um mundo globalizado. Entretanto, a realidade se distancia da afirmativa. O resultado desse cenário? A aquisição de um imóvel deixou de ser uma meta atingível para a maioria dos jovens, transformando-se em um privilégio restrito a poucos.

Perda do poder de salário

A realidade atual revela que os salários perderam substancialmente o poder de compra, enquanto os custos essenciais da vida só aumentaram. Em décadas passadas, era comum que um jovem recém-ingressado no mercado de trabalho conseguisse, com o tempo, juntar dinheiro suficiente para casar, comprar um carro e dar entrada em um imóvel. Esse objetivo, que representava um marco importante na vida adulta, era alcançável por meio de um planejamento financeiro prudente.

No entanto, a vida não é mais como era antigamente. Enquanto os salários cresceram de forma lenta e desproporcional, a inflação disparou, corroendo o poder aquisitivo da população. Itens básicos como aluguel, alimentação, transporte e lazer consomem boa parte da renda dos jovens dessa geração, deixando espaço mínimo para a poupança.

Além disso, as empresas deixaram de ser as grandes corporações centralizadas de antigamente, nas quais os jovens subiam gradualmente até cargos de gerência, com salários mais altos. Hoje, o mercado de trabalho é mais dinâmico e diversificado, com o surgimento de empresas menores, que geralmente oferecem menos estrutura e planejamento de carreira.

Especulação imobiliária

A situação se agrava ainda mais devido à especulação imobiliária. Investidores que compram imóveis em larga escala e os revendem a preços elevados, impulsionados pela busca incessante de lucro, têm ajudado a inflacionar ainda mais os preços dos imóveis. O resultado é que, enquanto uma parcela da população se beneficia desse cenário, quem realmente precisa de um lar digno e acessível encontra opções cada vez mais escassas e inacessíveis.

A chamada “bolha imobiliária” parece se expandir sem controle, colocando a casa própria ainda mais fora do alcance dos jovens. Com isso, muitos se veem obrigados a pagar aluguel por apartamentos cada vez menores, com valores que muitas vezes beiram o absurdo, sem conseguir acumular patrimônio.

A falta de espaço nos grandes centros urbanos também se tornou um obstáculo significativo. Enquanto as grandes cidades continuam sendo os principais polos de emprego e oportunidades, a escassez de terrenos e a saturação do mercado imobiliário tornam o sonho de morar perto do trabalho quase impossível.

Os poucos imóveis disponíveis em áreas centrais estão além do orçamento da maioria dos jovens. Isso força os jovens a tomarem decisões difíceis: ou se mudam para bairros distantes, enfrentando o caos do trânsito, da violência e do desgaste do tempo – e gastos - de deslocamento, ou optam por gastar uma parte significativa da sua renda mensal com aluguel. O que antes era uma escolha natural e até desejada – ter um lar próprio perto de onde trabalham – agora parece mais uma utopia.

Financiamentos cada vez mais difíceis

Comprar um imóvel? Esse objetivo tem tornado viável para a geração por meio de financiamentos, que quando conseguidos, são de valores exorbitantes, cujas parcelas podem atravessar gerações, com valores que, muitas vezes, ultrapassam a capacidade de pagamento de muitos.

Utopia

Em face dessa realidade desanimadora, tanto nas grades cidades como em Nova Friburgo, muitos jovens já desistiram do sonho da casa própria, considerando-o inatingível em suas circunstâncias atuais. Outros buscam alternativas, como soluções de co-living (repúblicas), nos quais dividem espaços com outras pessoas, ou aceitam financiar imóveis por prazos tão longos que parecem quase impensáveis.

Há ainda aqueles que simplesmente se conformam com a ideia de que morar de aluguel será a única opção ao longo de toda a vida adulta. O problema, contudo, não está apenas no fato de que os jovens estão se adaptando a um mercado imobiliário cada vez mais restritivo, mas na necessidade de questionar se esse mercado ainda faz sentido.

Será que o modelo atual, onde imóveis são tratados como meros produtos de especulação, ainda é viável e sustentável para as futuras gerações? Se a tendência continuar, a casa própria, que já foi um símbolo de conquista e estabilidade, pode se transformar, para a Geração Z, em um sonho inalcançável, quase um conto de fadas.

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Quando o silêncio também é violência

quinta-feira, 26 de março de 2026
por Lucas Barros

Há notícias que parecem se repetir com uma frequência tão cruel que acabam se tornando quase previsíveis. Nos últimos dias, o Brasil voltou a registrar uma sequência de casos de feminicídio que chocam pela brutalidade e, ao mesmo tempo, pela familiaridade. Histórias interrompidas dentro de casas, em ruas comuns, em cidades que seguem sua rotina enquanto mais um nome se soma a uma estatística que cresce em silêncio.

Há notícias que parecem se repetir com uma frequência tão cruel que acabam se tornando quase previsíveis. Nos últimos dias, o Brasil voltou a registrar uma sequência de casos de feminicídio que chocam pela brutalidade e, ao mesmo tempo, pela familiaridade. Histórias interrompidas dentro de casas, em ruas comuns, em cidades que seguem sua rotina enquanto mais um nome se soma a uma estatística que cresce em silêncio.

O feminicídio não é apenas um crime. Ele carrega consigo um retrato perturbador de uma sociedade que ainda não conseguiu romper completamente com estruturas antigas de violência e posse. Não se trata de um episódio isolado ou de um “crime passional”, como por muito tempo se tentou suavizar. Trata-se de uma forma extrema de violência de gênero, que nasce de relações marcadas por controle, ciúme, abuso e, muitas vezes, impunidade.

Quase sempre há sinais antes da tragédia. Há ameaças ignoradas, agressões minimizadas, pedidos de ajuda que não encontram resposta suficiente. Em muitos casos, vizinhos sabiam, familiares desconfiavam, amigos percebiam algo errado. Mas a violência doméstica ainda carrega um peso cultural que a empurra para dentro das paredes da casa, como se fosse um assunto privado demais para intervenção pública.

Quando a tragédia finalmente explode, ela revela aquilo que já estava sendo construído em silêncio. O feminicídio é, muitas vezes, o último capítulo de uma longa história de violência. Uma história que poderia ter sido interrompida antes — por políticas públicas mais eficientes, por redes de proteção mais estruturadas ou simplesmente por uma cultura social menos tolerante com a violência contra mulheres.

Lei Maria da Penha, uma aliada

Nos últimos anos, o Brasil avançou em termos legais. A Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio representaram passos importantes no reconhecimento da gravidade desse tipo de crime. No papel, o país possui um dos arcabouços jurídicos mais robustos para combater a violência doméstica. O problema é que a distância entre a lei e a realidade ainda é grande demais.

Delegacias especializadas são insuficientes, medidas protetivas nem sempre são fiscalizadas e muitas mulheres continuam convivendo diariamente com seus agressores por falta de alternativa financeira, social ou institucional. A lei existe, mas a estrutura para garantir sua efetividade ainda está aquém do necessário.

Há também uma dimensão cultural que não pode ser ignorada. O feminicídio é o ponto extremo de uma lógica que naturaliza o controle sobre o corpo, as escolhas e a liberdade das mulheres. Ele nasce em ambientes onde o ciúme é romantizado, onde a agressividade masculina é relativizada e onde o fim de um relacionamento ainda é visto, por alguns, como uma afronta pessoal.

Quando a violência finalmente explode, ela revela um problema que não começou naquele momento. Ela apenas chegou ao seu limite. Por isso, o combate ao feminicídio não pode se limitar à punição depois do crime. Ele precisa começar antes, muito antes, nas políticas de prevenção, na educação e na construção de relações baseadas em respeito.

O colapso de uma rede de proteção

Cada caso que aparece nas manchetes traz consigo uma pergunta incômoda: o que poderia ter sido feito antes? Em muitos deles, havia registros policiais, denúncias anteriores ou relatos de ameaças. Ainda assim, a tragédia aconteceu. Isso revela não apenas falhas institucionais, mas também uma dificuldade coletiva de reconhecer a gravidade desses sinais.

O Brasil não enfrenta apenas um problema criminal. Enfrenta uma crise social e humanitária que atravessa famílias, comunidades e instituições. O feminicídio não é apenas a morte de uma mulher. É o colapso de uma rede de proteção que deveria ter funcionado antes.

Talvez o aspecto mais perturbador seja justamente a repetição. As histórias mudam de cidade, de nome, de idade. Mas a estrutura da tragédia quase sempre é a mesma. E, quando isso acontece com tanta frequência, a pergunta deixa de ser sobre um caso específico e passa a ser sobre o país que estamos construindo.

Enquanto discutimos números e estatísticas, vidas continuam sendo interrompidas de forma brutal. E cada uma delas carrega sonhos, histórias e futuros que simplesmente deixam de existir.

Combater o feminicídio exige leis, sim. Mas exige também coragem coletiva para enfrentar um problema que vai muito além do sistema penal. Porque, no fundo, nenhuma sociedade pode se considerar plenamente segura enquanto tantas mulheres ainda correm risco dentro do próprio lar.

E talvez o primeiro passo para mudar esse cenário seja justamente não aceitar que essa tragédia se torne rotina. Porque quando a violência passa a parecer normal, o silêncio também se transforma em cumplicidade.

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O STF tenta escrever certo por linhas tortas

quinta-feira, 19 de março de 2026
por Lucas Barros

Há temas no Brasil que parecem resistir ao tempo — não porque sejam complexos, mas porque nunca foram enfrentados com a seriedade necessária. A punição de magistrados é um deles. Durante anos, assistimos a uma sucessão de casos em que juízes flagrados em condutas incompatíveis com o cargo eram “punidos” com a aposentadoria compulsória.

Há temas no Brasil que parecem resistir ao tempo — não porque sejam complexos, mas porque nunca foram enfrentados com a seriedade necessária. A punição de magistrados é um deles. Durante anos, assistimos a uma sucessão de casos em que juízes flagrados em condutas incompatíveis com o cargo eram “punidos” com a aposentadoria compulsória.

Na prática, deixavam o cargo, mas seguiam recebendo vencimentos pagos por todos nós. Não foram poucos os episódios. Casos de venda de decisões, favorecimentos indevidos, condutas éticas questionáveis e até situações mais graves terminaram da mesma forma: afastamento remunerado.

Casos emblemáticos

Episódios históricos, como o escândalo do TRT de São Paulo, ou investigações como a Operação Anaconda, ajudaram a consolidar essa percepção. A mensagem que se sedimentou foi perigosa — a de que, no topo do Judiciário, o erro não necessariamente implica punição proporcional.

E não se trata apenas de grandes esquemas. Em tempos mais recentes, o país assistiu a cenas que chocaram pela banalidade do abuso. Durante a pandemia, o desembargador Eduardo Almeida Prado Rocha de Siqueira foi flagrado humilhando um guarda municipal em uma praia, recusando-se a cumprir regras básicas e invocando sua posição como escudo.O episódio expôs, em escala cotidiana, uma distorção que já era percebida em casos mais complexos.

A mensagem que se consolidou ao longo do tempo foi perigosa — a de que, no topo da estrutura do Judiciário, o erro não necessariamente implicaria uma punição proporcional. E isso, para a sociedade, nunca pareceu razoável.

Mudança de rota

Recentemente, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, trouxe uma inflexão relevante nesse cenário. Em decisão que repercutiu no meio jurídico, passou a admitir a possibilidade de punição de magistrados com a perda do cargo, e não apenas com a aposentadoria compulsória. Em termos práticos, trata-se de uma tentativa de alinhar a sanção à gravidade da conduta.

A iniciativa, sob o ponto de vista moral, parece inquestionável. É difícil defender que um juiz que viole gravemente seus deveres continue sendo remunerado pelo Estado. A sociedade, que já convive com tantas desigualdades, não compreende — e nem aceita — a ideia de financiar uma espécie de “prêmio” àqueles que deveriam zelar pela lei. Nesse ponto, o desconforto social é legítimo.

Hierarquia legaI ou do tribunal?

O problema, no entanto, não está no objetivo, mas no caminho escolhido. A aposentadoria compulsória como sanção disciplinar não surgiu por acaso. Ela está prevista em lei, estruturando um modelo específico de responsabilização de magistrados.

E, no Estado de Direito, há uma premissa básica: aquilo que é estabelecido por lei, em regra, só pode ser modificado por outra lei. É justamente aí que surge o impasse. O Congresso Nacional, responsável por legislar sobre o tema, historicamente pouco avançou nessa discussão. Projetos de lei que poderiam rever o modelo de punição de magistrados não prosperaram, e o sistema permaneceu praticamente inalterado ao longo dos anos. A inércia legislativa, nesse caso, é evidente.

Diante desse vazio, o Supremo parece tentar ocupar o espaço deixado pelo Legislativo – que por sinal é um dos piores. A decisão do ministro Flávio Dino surge, nesse contexto, como uma resposta a uma demanda social legítima por maior rigor e responsabilidade. Mas, ao fazê-lo, levanta uma questão delicada sobre os limites dessa atuação.

Afinal, até que ponto é possível alterar, por via interpretativa, aquilo que a lei expressamente estabelece? Em um eventual caso concreto, prevalecerá o texto legal que prevê a aposentadoria compulsória ou o entendimento mais recente que admite a perda do cargo? Mais do que técnica, essa é uma discussão sobre segurança jurídica.

O polêmico tribunal federal

O Supremo Tribunal Federal, ao longo de sua história, já foi chamado inúmeras vezes a corrigir distorções do sistema. Em muitos casos, atuou como protagonista de mudanças relevantes. Mas há uma linha tênue entre interpretar a lei e, na prática, substituí-la.

O que se vê, nesse episódio, é uma tentativa clara de corrigir um problema real — e urgente. No entanto, ao optar por esse caminho, o STF acaba por tensionar os limites institucionais que sustentam o próprio Estado de Direito. E isso não pode ser ignorado.

No fim das contas, a Corte parece buscar um resultado correto, justo e pretendido por todos por um percurso questionável. A intenção é legítima. A demanda social é evidente. Mas o método adotado deixa dúvidas. E talvez seja essa a síntese do momento: o STF tenta escrever certo — mas, ao que tudo indica, por linhas tortas.

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Conexão de Inovação Floripa x Friburgo

quinta-feira, 12 de março de 2026
por Lucas Barros

Entre os dias 10 e 12 de março, Florianópolis recebe no CentroSul mais uma edição do GovTech, evento dedicado a discutir como a tecnologia, inovação e gestão pública podem caminhar juntas para melhorar a vida dos cidadãos. Tive a oportunidade de estar presente no encontro e acompanhar de perto algumas das iniciativas que vêm sendo desenvolvidas por governos, instituições de pesquisa e empresas que atuam no setor de inovação.

Entre os dias 10 e 12 de março, Florianópolis recebe no CentroSul mais uma edição do GovTech, evento dedicado a discutir como a tecnologia, inovação e gestão pública podem caminhar juntas para melhorar a vida dos cidadãos. Tive a oportunidade de estar presente no encontro e acompanhar de perto algumas das iniciativas que vêm sendo desenvolvidas por governos, instituições de pesquisa e empresas que atuam no setor de inovação.

O GovTech reúne representantes dos estados de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul, além de startups, pesquisadores e gestores públicos interessados em discutir soluções tecnológicas aplicadas à administração pública. Mais do que um evento institucional, trata-se de um espaço de diálogo sobre como modernizar serviços, tornar o Estado mais eficiente e aproximar a gestão pública das demandas contemporâneas da sociedade.

Durante o evento, tive a possibilidade de conhecer diversas iniciativas interessantes, especialmente vindas dos estados do Sul do Brasil. A troca de experiências entre diferentes regiões mostra que inovação pública não nasce isolada — ela surge do diálogo entre governos, universidades, empresas e centros de pesquisa.

Florianópolis, aliás, não foi escolhida por acaso para sediar um evento dessa natureza. A capital catarinense consolidou ao longo das últimas décadas um dos ecossistemas de inovação mais relevantes do país. Atualmente, estima-se que cerca de 25% da receita do PIB municipal esteja vinculada ao setor de tecnologia e inovação, um indicador expressivo da força desse ambiente.

Hoje, a cidade conta com um ecossistema robusto e diversificado, que reúne empresas consolidadas, startups em crescimento e importantes centros de desenvolvimento tecnológico. Iniciativas ligadas ao campus do Senai, à Acate, ao Sapiens Park e a diversos outros polos ajudam a consolidar Florianópolis como uma verdadeira referência nacional em inovação.

Incentivos

Outro destaque importante do evento foi o avanço do ecossistema de inovação do Paraná. Nos últimos anos, o estado tem adotado políticas públicas estruturadas para incentivar ciência, tecnologia e pesquisa. Entre essas iniciativas, destaca-se a decisão de destinar cerca de 2% da receita estadual para o fomento à pesquisa e à inovação, sinalizando que a agenda tecnológica não pode se limitar ao funcionamento burocrático do Estado, mas precisa ser encarada como investimento estratégico no futuro.

Esse movimento também se reflete na forma como o Paraná vem estruturando seus polos de inovação ao longo do território. O estado apresenta um modelo relativamente integrado, que começa no Oeste com a força tecnológica ligada à Itaipu e se estende pelo interior, com centros universitários e polos de pesquisa, até chegar à região metropolitana de Curitiba, onde se concentram parques tecnológicos, hubs de inovação e um ambiente empresarial bastante dinâmico.

Além disso, o Paraná tem registrado recordes de investimento em ciência e tecnologia. Apenas em editais recentes voltados à pesquisa e inovação — os chamados NAPIs — os valores somados chegam à casa dos R$ 222 milhões, direcionados a projetos estratégicos em diversas áreas do conhecimento. A mensagem do governo estadual parece clara: estimular inovação também em cidades menores, permitindo que novas regiões cresçam em receita, conhecimento e oportunidades.

Curiosamente, durante o evento tive a satisfação de encontrar um conterrâneo: Marcelo Verly, entusiasta do setor de inovação e vencedor de prêmios estaduais na área, além de um dos nomes à frente do projeto Inova Fri. Foi especialmente gratificante encontrar alguém de Nova Friburgo participando desse ambiente e contribuindo para o diálogo entre diferentes ecossistemas de inovação do país.

Segundo Marcelo Verly, a participação no GovTech foi fundamental para conhecer iniciativas voltadas à modernização das administrações públicas municipais, estaduais e federais. Para ele, a inovação tem transformado gradualmente a forma como governos prestam serviços à população.

O sucesso de Florianópolis

Marcelo também destacou como importante a fala do prefeito de Florianópolis, Topázio Neto, que ressaltou um ponto essencial: investimentos públicos em inovação demandam tempo para maturar e muitas vezes ultrapassam a duração de um mandato político. Por isso, é fundamental estabelecer prioridades, metas e estruturas institucionais sólidas, com participação ativa de servidores de carreira que garantam continuidade às políticas tecnológicas voltadas à sociedade.

Outro aspecto que chamou atenção foi o nível de integração presente no ecossistema catarinense. O desenvolvimento de Florianópolis no campo da tecnologia parece estar alguns passos à frente de muitas outras regiões do país. Já havia visitado a cidade anteriormente, mas é sempre impressionante perceber como seus polos de inovação continuam crescendo e se consolidando.

“Ver esse avanço de perto também traz um sentimento positivo. Experiências como a de Florianópolis servem de referência para outras regiões que desejam fortalecer seus próprios ambientes de inovação. Quando um polo tecnológico prospera, ele acaba inspirando outros a trilhar caminhos semelhantes”, observou Marcelo.

Uma visão de futuro

Fato é que eventos como o GovTech ajudam justamente a construir essas pontes. Eles aproximam governos, empreendedores, pesquisadores e gestores públicos em torno de uma agenda comum: pensar soluções mais inteligentes para os desafios do presente.

No fim das contas, inovação pública não é apenas sobre tecnologia. É sobre visão de futuro. É sobre entender que investir em conhecimento, pesquisa e desenvolvimento significa construir cidades mais eficientes, economias mais dinâmicas e serviços públicos mais preparados para atender às necessidades da população.

E, ao caminhar pelos corredores do evento, fica claro que essa transformação já está em curso.

Foto da galeria
(Foto: Arquivo pessoal)
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Quando o mundo parece à beira do início do fim

quinta-feira, 05 de março de 2026
por Lucas Barros

Às vezes parece que o mundo acorda dividido em dois: os que apertam botões em gabinetes silenciosos, e os que acordam sob o peso cinzento de uma manhã de medo e de cinzas. Hoje, os conflitos que pipocam de um canto ao outro do globo reforçam essa sensação incômoda de incerteza permanente.

Às vezes parece que o mundo acorda dividido em dois: os que apertam botões em gabinetes silenciosos, e os que acordam sob o peso cinzento de uma manhã de medo e de cinzas. Hoje, os conflitos que pipocam de um canto ao outro do globo reforçam essa sensação incômoda de incerteza permanente.

O mundo parece funcionar como um campo minado diplomático. Uma declaração atravessada, um ataque “preventivo”, uma retaliação calculada, e o que era tensão vira rapidamente uma crise. O que era crise vira guerra. E o que era guerra localizada passa a contaminar mercados, alianças e populações inteiras. É como se estivéssemos sempre a um passo de algo maior — e pior.

O conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã transformou o que parecia regional em preocupação global. O Estreito de Ormuz, por onde passa grande parte do petróleo do planeta, tornou-se símbolo de como decisões militares impactam diretamente o bolso de quem nunca participou da decisão. A energia encarece, os alimentos sobem, a economia range.

Em outro continente, a guerra entre Rússia e Ucrânia continua deslocando milhões e redesenhando fronteiras humanas. Nenhuma guerra é a guerra de um único país. Quando bombas caem em uma cidade, o impacto ecoa em cadeias de abastecimento, nos mercados financeiros e nas mesas de famílias que jamais imaginaram sentir os efeitos de um conflito distante.

O conflito que envolve grandes potências deixa de ser um episódio distante quando percebemos que ele atinge o básico da condição humana. Não é apenas petróleo ou território. É água que falta. É energia que some. É comida que não chega. É a escola que fecha porque virou alvo. É a casa que deixa de existir porque estava no lugar “errado”.

Enquanto isso, líderes repousam sob tetos seguros. Em salas fechadas discutem influência, hegemonia, demonstrações de força. Medem poder como quem mede território em um mapa. Do lado de fora dessas salas, o que se mede é luto. É o número de deslocados. É o tamanho da fila por abrigo.

É difícil acreditar que tudo isso se sustente apenas em discursos de liberdade e proteção. Há uma disputa evidente por espaço, por recursos, por supremacia estratégica. Estados Unidos observam a China com atenção calculada. Blocos se reorganizam. Alianças se reconfiguram. Mas, no meio desse xadrez, quem sangra não é o rei — são os peões.

O mais inquietante talvez seja a repetição. As imagens se sucedem até que a tragédia vire rotina. Bombas deixam de ser choque e passam a ser estatística. Mortes se transformam em números que cabem em uma linha de rodapé. E seguimos vivendo como se o mundo não estivesse, de alguma forma, sempre à beira de um abismo maior.

Há um sentimento difuso de fim de mundo que não vem de um clarão único, mas da soma das pequenas destruições e que hoje estão numa escala de poderio bélico nuclear. Da percepção de que os grandes disputam narrativas enquanto os comuns disputam sobrevivência. E de que quem menos decide é quem mais sofre.

Não se trata de ingenuidade ou de negar a complexidade das relações internacionais. Conflitos sempre existirão. Interesses colidem desde que o mundo é mundo. Mas quando o poder se afasta da humanidade, o custo deixa de ser geopolítico e passa a ser moral. E moralmente, estamos diante de um saldo inquietante.

Ainda assim, a história mostra que a humanidade atravessa seus próprios abismos. Talvez o mundo não esteja acabando — talvez esteja revelando suas fissuras com brutal honestidade. O que parece prenúncio do fim pode ser também um chamado à consciência coletiva.

Seguimos trabalhando, criando filhos, fazendo planos simples enquanto decisões gigantescas são tomadas em mesas onde quase ninguém da plateia tem assento. O fim de uma era da “paz” raramente chega com um anúncio oficial. Ele se insinua nos detalhes: na escola fechada, na cidade vazia, na infância interrompida e nas bombas que iluminam a noite.

Talvez o verdadeiro desafio não seja prever o próximo conflito, mas preservar humanidade em meio a eles. Porque, se algo ainda pode impedir que o mundo ensaie o próprio fim, não é a demonstração de força — é a recusa em aceitar que vidas sejam apenas estratégia.

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