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O Pix sem comprovante: Quando o dinheiro público perde o destinatário

quinta-feira, 23 de julho de 2026
por Lucas Barros

Existe uma diferença enorme entre rapidez e transparência. O Pix revolucionou a forma como os brasileiros movimentam dinheiro porque tornou as transferências instantâneas, simples e, acima de tudo, rastreáveis. Em poucos segundos, sabemos quem enviou, quem recebeu, quanto foi transferido e em que horário a operação aconteceu.

Existe uma diferença enorme entre rapidez e transparência. O Pix revolucionou a forma como os brasileiros movimentam dinheiro porque tornou as transferências instantâneas, simples e, acima de tudo, rastreáveis. Em poucos segundos, sabemos quem enviou, quem recebeu, quanto foi transferido e em que horário a operação aconteceu.

Curiosamente, quando o assunto passou a ser dinheiro público, resolveu-se utilizar o mesmo nome para um mecanismo que acabou caminhando justamente na direção oposta. As chamadas “emendas Pix” nasceram com a proposta de desburocratizar a transferência de recursos da União para estados e municípios.

A ideia parecia boa: menos papel, menos demora e mais rapidez para que o dinheiro chegasse a quem precisava. O problema é que, junto com a burocracia, também foram embora importantes mecanismos de controle e fiscalização. E tem muito deputado federal nadando de braço nessa perigosa prática à sociedade.

Auditoria

Nesta semana, o Tribunal de Contas da União divulgou o resultado da maior auditoria já realizada sobre essa modalidade de repasses. O diagnóstico é preocupante. Das 100 emendas Pix analisadas, 82 apresentaram algum tipo de irregularidade. A auditoria encontrou indícios de superfaturamento, pagamentos sem comprovação documental, desvio de finalidade, fraudes em licitações e dificuldades para rastrear a correta aplicação dos recursos.

Somente nessa pequena amostra, os indícios de prejuízo aos cofres públicos ultrapassam R$ 49 milhões. O dado impressiona ainda mais quando lembramos que essa auditoria representa apenas uma pequena parcela dos cerca de R$ 21 bilhões distribuídos por meio das emendas Pix entre 2020 e 2024.

Não significa que todo esse dinheiro tenha sido desviado, mas revela que o modelo, da forma como foi concebido, abriu espaço para riscos que jamais deveriam existir quando falamos de recursos públicos.

Há exemplos concretos que ajudam a compreender o tamanho do problema. Investigações da Polícia Federal apontaram suspeitas de superfaturamento e obras financiadas com emendas Pix que simplesmente não saíram do papel. Projetos sociais que não existem. Ou o dinheiro que chega em 100%, mas apenas 50% têm a destinação correta.

Em um dos casos divulgados pela imprensa, milhões de reais destinados à construção de centenas de casas populares resultaram na entrega de apenas uma unidade, ainda assim abandonada.

Foi diante desse cenário que o ministro Flávio Dino passou a exigir maior transparência, planos de trabalho, contas específicas e mecanismos que permitissem rastrear a aplicação dos recursos. Não se trata de defender este ou aquele governo, muito menos este ou aquele ministro do Supremo Tribunal Federal.

Zelo com o dinheiro público

Trata-se de defender um princípio básico da administração pública: dinheiro público precisa ser acompanhado do primeiro ao último centavo. Infelizmente, vivemos um tempo em que qualquer discussão rapidamente é transformada em disputa ideológica. Se determinado ministro toma uma decisão, imediatamente parte da população passa a julgá-la pelo nome de quem a assinou, e não pelo seu conteúdo. Essa lógica empobrece o debate. Há momentos em que o mérito da decisão precisa falar mais alto do que a preferência política de cada um.

E, neste caso, parece difícil sustentar que bilhões de reais possam circular sem mecanismos rigorosos de fiscalização. O dinheiro não pertence ao deputado que indicou a emenda. Não pertence ao prefeito que a recebe. Não pertence ao governador que a executa. Esse dinheiro pertence ao cidadão que paga impostos todos os meses e espera vê-los transformados em escolas, hospitais, estradas e serviços públicos.

Transparência nunca foi sinônimo de burocracia. Transparência é respeito. É permitir que qualquer brasileiro saiba para onde foi cada centavo arrecadado pelo Estado. É impedir que recursos destinados à população desapareçam em contratos mal fiscalizados ou obras que nunca são concluídas. É fortalecer a confiança da sociedade nas instituições.

No fim das contas, talvez exista uma ironia difícil de ignorar. O Pix que usamos todos os dias registra cada valor, cada horário e cada destinatário. Sabemos exatamente para onde foi nosso dinheiro. Já o chamado “Pix da política” parece ter conseguido justamente o contrário: movimentar bilhões de reais deixando perguntas demais e respostas de menos.

Talvez tenha chegado a hora de reconhecer que rapidez nunca pode ser mais importante do que responsabilidade. Porque quando o dinheiro é público, a transparência deixa de ser uma opção. Ela passa a ser uma obrigação. E, nesse ponto, toda iniciativa que fortaleça a fiscalização merece ser vista não como obstáculo, mas como uma garantia de respeito ao verdadeiro dono desses recursos: o cidadão brasileiro.

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A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

O veto que não apagou um nome

quinta-feira, 16 de julho de 2026
por Lucas Barros

Na última terça-feira, 14, a Câmara Municipal de Nova Friburgo decidiu manter o veto do prefeito ao projeto de lei que pretendia dar o nome de Isadora da Silva Cardoso Stulpen Veigaao posto de saúde de Lumiar. A proposta surgiu como uma homenagem e um protesto à menina que faleceu após a ausência de atendimento médico adequado no distrito - caso que provocou enorme comoção popular e reacendeu o debate sobre a precariedade da assistência em saúde naquela região turística. Com a manutenção do veto, o posto permanecerá sem ter o seu nome.

Na última terça-feira, 14, a Câmara Municipal de Nova Friburgo decidiu manter o veto do prefeito ao projeto de lei que pretendia dar o nome de Isadora da Silva Cardoso Stulpen Veigaao posto de saúde de Lumiar. A proposta surgiu como uma homenagem e um protesto à menina que faleceu após a ausência de atendimento médico adequado no distrito - caso que provocou enorme comoção popular e reacendeu o debate sobre a precariedade da assistência em saúde naquela região turística. Com a manutenção do veto, o posto permanecerá sem ter o seu nome.

Para alguns, trata-se apenas de uma discussão administrativa. Para outros, trata-se de memória. E, sobretudo, de significado.

Não pretendo discutir aqui se o veto foi correto ou politicamente conveniente. Há argumentos dos dois lados e cada leitor tem o direito de formar sua própria convicção. O que me chama atenção não é exatamente a placa que deixará de existir. É aquilo que ela representaria.

A sessão do Legislativo que antecedeu esse texto foi marcada por um momento impossível de ignorar. Com a voz interrompida pela emoção, o pai de Isadora olhou para os representantes do município e afirmou que tanto o Executivo quanto o Legislativo carregavam responsabilidade pela morte de sua filha.

Há frases que não se respondem com discursos. Elas permanecem ecoando muito depois de a sessão terminar.

Dar o nome de Isadora ao posto de saúde jamais devolveria uma filha ao pai. Jamais diminuiria a dor da família. Jamais apagaria a tragédia. Mas símbolos possuem uma força que muitas vezes ultrapassa a utilidade prática. Eles lembram às futuras gerações que determinado sofrimento não pode ser esquecido.

A memória existe justamente para impedir que a negligência seja tratada como um acidente qualquer. Porque algumas histórias precisam permanecer vivas para que nunca mais se repitam. E talvez seja exatamente isso que mais incomode.

Um apelo antigo

Durante anos, moradores de Lumiar denunciaram dificuldades relacionadas ao atendimento em saúde. Reclamações antigas, pedidos antigos, reivindicações antigas. A sensação era de que o distrito precisava insistir continuamente para ser ouvido. Até que um dia a tragédia rompeu o silêncio.

Foi preciso perder uma criança para que um tema antigo finalmente ocupasse o centro das discussões públicas. Essa talvez seja uma das maiores feridas da administração pública brasileira. Muitas vezes, a política parece funcionar apenas depois da tragédia. Enquanto o problema é apenas um alerta, ele pode esperar.

Quando se transforma em comoção, torna-se prioridade. Não deveria ser assim. Política pública deveria nascer da prevenção, não do luto. Deveria surgir do planejamento, não da indignação. Deveria proteger vidas antes que elas se transformassem em estatísticas ou manchetes. Infelizmente, a realidade costuma seguir outro roteiro.

Nova Friburgo conhece bem esse ciclo. A saúde continua enfrentando dificuldades estruturais. Faltam profissionais, faltam insumos, faltam respostas. Ao mesmo tempo, assistimos com frequência a debates que parecem caminhar em outra direção. Festas, eventos, inaugurações e anúncios ocupam espaço enquanto problemas antigos permanecem aguardando solução.

Não se trata de afirmar que cultura, turismo ou entretenimento não tenham importância. Têm. Uma cidade também precisa celebrar. Mas existe uma ordem natural das prioridades. Quando o cidadão não encontra atendimento adequado, toda comemoração perde um pouco do brilho. E só quem já precisou, sabe dizer esse sentimento de impotência.

A sensação que permanece é de abandono. É a sensação de que algumas comunidades precisam gritar muito alto para serem percebidas. De que alguns problemas só recebem atenção quando já produziram consequências irreversíveis.

Talvez seja justamente por isso que a discussão sobre o nome do posto tenha provocado tanta repercussão. Não por causa da placa. Mas porque ela acabou se tornando um símbolo de algo muito maior.

O símbolo de uma população que deseja ser lembrada antes da tragédia. O símbolo de famílias que não querem homenagens futuras. Querem atendimento presente. Querem ambulâncias funcionando, equipes suficientes, estrutura adequada e a tranquilidade de saber que, diante de uma emergência, o poder público estará preparado para agir.

No fim das contas, a placa nunca foi o centro da discussão. O verdadeiro debate sempre foi sobre memória. Sobre responsabilidade. Sobre prioridades. E sobre o tipo de cidade que queremos construir. Porque nomes podem, sim, ser vetados. Mas existem histórias que nenhuma votação consegue apagar.

E talvez essa seja a principal delas: a de uma comunidade que aprendeu, da maneira mais dolorosa possível, que nenhuma homenagem será maior do que a obrigação do poder público de proteger vidas. Afinal, monumentos confortam a memória, mas somente políticas públicas impedem que novas lembranças precisem ser erguidas sobre a dor.

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Nem toda dor faz barulho

quinta-feira, 09 de julho de 2026
por Lucas Barros

Existe um hábito curioso da vida moderna: aprendemos a perguntar “como você está?” esperando sempre a mesma resposta. “Tudo bem.” Às vezes dita com um sorriso. Às vezes acompanhada de uma piada. Às vezes tão automática que nem quem responde percebe que deixou de dizer a verdade há muito tempo.

Vivemos a era da exposição permanente. Nunca mostramos tanto da nossa rotina. Publicamos viagens, conquistas, aniversários, refeições, treinos e momentos felizes. Mas, paradoxalmente, talvez nunca tenhamos escondido tanto aquilo que realmente sentimos.

Existe um hábito curioso da vida moderna: aprendemos a perguntar “como você está?” esperando sempre a mesma resposta. “Tudo bem.” Às vezes dita com um sorriso. Às vezes acompanhada de uma piada. Às vezes tão automática que nem quem responde percebe que deixou de dizer a verdade há muito tempo.

Vivemos a era da exposição permanente. Nunca mostramos tanto da nossa rotina. Publicamos viagens, conquistas, aniversários, refeições, treinos e momentos felizes. Mas, paradoxalmente, talvez nunca tenhamos escondido tanto aquilo que realmente sentimos.

Há dores que não deixam hematomas. Não aparecem em exames de sangue. Não engessam braços nem exigem pontos. Ainda assim, são capazes de paralisar uma vida inteira. A depressão é uma dessas dores silenciosas. Ela chega sem pedir licença e, muitas vezes, instala-se justamente onde todos acreditavam existir apenas felicidade.

Talvez por isso seja tão difícil compreendê-la. Quem olha de fora enxerga emprego, família, amigos, projetos e motivos para sorrir. Quem vive por dentro, muitas vezes, enxerga apenas um peso que não consegue explicar. É como caminhar carregando uma mochila invisível que aumenta de peso a cada amanhecer.

E há algo ainda mais cruel: a culpa. A culpa por não conseguir reagir. Por não sentir alegria quando tudo parece estar dando certo. Por ouvir frases como “isso é falta do que fazer”, “você precisa pensar positivo” ou “todo mundo tem problemas”. Como se a tristeza profunda pudesse ser vencida apenas por força de vontade.

A verdade é que saúde mental não é fraqueza. Nunca foi. Assim como ninguém escolhe quebrar uma perna, ninguém escolhe adoecer emocionalmente. O cérebro também adoece. As emoções também entram em colapso. E reconhecer isso talvez seja um dos maiores avanços que nossa sociedade ainda precisa fazer.

Um dos maiores desafios dos nossos tempos seja justamente esse: aprendemos a cuidar de quase tudo, menos de nós mesmos. Fazemos revisões no carro, atualizamos o celular, organizamos a agenda, cumprimos prazos e metas. Mas adiamos indefinidamente aquela conversa difícil, aquela pausa necessária ou a decisão de procurar ajuda. Como se a mente pudesse esperar indefinidamente por um momento mais conveniente.

Vivemos conectados o tempo inteiro, mas, paradoxalmente, cada vez mais sozinhos. Colecionamos seguidores, curtidas e mensagens instantâneas, enquanto as conversas profundas se tornam raras. A tecnologia aproximou distâncias geográficas, mas nem sempre conseguiu aproximar corações. E há dores que nenhuma notificação é capaz de silenciar, porque elas só encontram alívio quando encontram alguém disposto a ouvir.

Os números ajudam a mostrar que não estamos diante de um problema individual. A ansiedade e a depressão cresceram de forma significativa nos últimos anos, especialmente após a pandemia. Milhões de brasileiros convivem diariamente com algum transtorno mental, muitas vezes sem diagnóstico, sem tratamento ou, pior, sem coragem de pedir ajuda por medo do julgamento.

Talvez porque ainda exista uma expectativa de que sejamos fortes o tempo todo. Como se maturidade significasse suportar tudo sozinho. Como se pedir ajuda fosse sinal de derrota. Não é. Nunca foi. Há uma coragem enorme em admitir que algo não vai bem.

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Mês do Orgulho: quando existir também é celebrar

quinta-feira, 25 de junho de 2026
por Lucas Barros

Existe uma característica curiosa nas grandes cidades. Elas são construídas por pessoas completamente diferentes entre si. Diferentes nos sonhos, nas histórias, nas crenças, nos gostos e nas formas de enxergar a vida. E talvez seja justamente essa mistura que faça os lugares crescerem.

Existe uma característica curiosa nas grandes cidades. Elas são construídas por pessoas completamente diferentes entre si. Diferentes nos sonhos, nas histórias, nas crenças, nos gostos e nas formas de enxergar a vida. E talvez seja justamente essa mistura que faça os lugares crescerem.

Nenhuma cidade se desenvolve porque todos pensam igual. Pelo contrário. Ela cresce porque pessoas diferentes ocupam os mesmos espaços, trabalham juntas, criam juntas e constroem juntas. A diversidade não é apenas uma palavra bonita para colocar em discursos. Ela está presente em cada empresa que prospera, em cada evento que reúne pessoas, em cada projeto que sai do papel e melhora a vida de alguém.

Junho é conhecido como o Mês do Orgulho LGBTQIAP+. E, embora muita gente associe essa data apenas a bandeiras ou manifestações, talvez a reflexão seja muito mais simples do que parece. Talvez estejamos falando apenas da liberdade de viver a própria vida com dignidade.

Porque, no final das contas, a maioria das pessoas quer coisas muito parecidas. Quer trabalhar. Quer ser respeitada. Quer construir uma carreira. Quer encontrar pessoas que ama. Quer voltar para casa em segurança. Quer ter a oportunidade de sonhar sem que sua existência seja colocada em debate o tempo inteiro. Parece pouco. Mas durante muito tempo, para muita gente, isso foi um privilégio e não um direito.

Nem tudo, porém, são flores. Ainda convivemos com números que mostram que o respeito nem sempre caminha na mesma velocidade da sociedade. Durante anos, o Brasil figurou entre os países com maiores índices de violência contra a população LGBTQIAP+, acumulando estatísticas que jamais deveriam existir.

Informações de importantes órgãos de monitoramento apontavam que uma pessoa era morta, em média, a cada 20 horas em razão da LGBTfobia no Brasil. Em 2018, foram registradas 420 mortes decorrentes desse tipo de violência, entre homicídios e suicídios associados ao preconceito.

E com o passar dos anos, a violência mostrou números alarmantes. Em 2010 foram contabilizados 130 homicídios relacionados à LGBTfobia. Em 2017, esse número já alcançava 445 casos — um aumento superior a 240% em apenas sete anos. Mais do que estatísticas, são histórias interrompidas por preconceitos que ainda insistem em sobreviver.

Mas talvez o dado mais importante não seja o da violência. Talvez seja o da transformação. Se há algumas décadas a homossexualidade ainda era tratada oficialmente como doença em diversos lugares do mundo, hoje vemos empresas investindo em inclusão, universidades discutindo diversidade e profissionais ocupando espaços que antes lhes eram negados. Ainda há muito a avançar, mas também há motivos para reconhecer o quanto já caminhamos. E talvez seja justamente aí que o orgulho encontre seu significado mais bonito. Não no confronto. Não na divisão. Não na necessidade de convencer quem pensa diferente.

Mas na celebração das histórias que deram certo. Das pessoas que abriram caminhos. Das pessoas que mostraram que talento, competência e dedicação nunca dependeram de orientação sexual, identidade de gênero ou qualquer outro rótulo que insistimos em criar.

Recentemente, ao refletir sobre esse tema, lembrei de uma dessas histórias. Thiara Galdino Stihler é CEO e fundadora da Vanthi Eventos, empresa especializada em planejamento estratégico para o ecossistema de inovação, investimentos e comunidades de startups. Reconhecida nacionalmente por sua atuação na promoção da diversidade e inclusão, foi eleita Líder de Diversidade e Inclusão no Startup Awards 2024 e recebeu, por dois anos consecutivos (2024 e 2025), o prêmio Transformadora de Startups, concedido pelo Digital Transformation Awards. Apaixonada por transformar eventos em movimentos e criar conexões que geram impacto duradouro, Thiara compartilhou sua visão sobre respeito, oportunidades e a importância de ocupar espaços:

"Acredito que a diversidade vai muito além de uma pauta social: ela é uma ferramenta de inovação, criatividade e crescimento. Ao longo da minha trajetória, aprendi que ocupar espaços também é abrir caminhos para que outras pessoas percebam que seus sonhos são possíveis. Ainda existem desafios, mas vejo um mercado cada vez mais preparado para valorizar competência, resultados e dedicação acima de qualquer rótulo. No fim das contas, o respeito continua sendo a base para construir ambientes mais humanos, mais justos e também mais prósperos."

A mensagem é clara: ocupar espaços também é uma forma de transformar o mundo. É mostrar para os mais jovens que existe lugar para eles. É demonstrar que competência deve falar mais alto do que preconceitos. É provar que o mercado de trabalho apenas ganha quando valoriza pessoas pelo que elas fazem e não por aquilo que elas são. A verdade é que o Brasil está cheio de histórias assim.

Histórias de médicos, professores, empresários, advogados, artistas, servidores públicos, empreendedores e trabalhadores que acordam todos os dias para fazer aquilo que milhões de brasileiros também fazem: trabalhar, construir e seguir em frente.

É preciso respeito

E talvez seja justamente por isso que o respeito seja tão importante. Porque o respeito não exige que todos concordem com tudo. Não exige pensamentos idênticos. Não exige que as pessoas abandonem suas crenças ou suas convicções.

O respeito exige apenas algo muito mais simples: reconhecer a humanidade do outro. Reconhecer que ninguém deveria ser diminuído por ser quem é. Reconhecer que diferenças não são ameaças. Reconhecer que uma sociedade se fortalece quando cria oportunidades para todos e não apenas para alguns.

Ao longo da vida, aprendemos a admirar pessoas por inúmeros motivos. Admiramos quem trabalha duro. Admiramos quem supera dificuldades. Admiramos quem transforma sonhos em realidade. Admiramos quem constrói algo maior do que si mesmo.

E essas qualidades não possuem orientação sexual. Não possuem gênero. Não possuem bandeira. Possuem apenas valor humano. Talvez seja essa a mensagem mais importante deste mês.

O orgulho celebrado em junho não é apenas o orgulho de ser quem se é. É também o orgulho de viver em uma sociedade que, aos poucos, aprende a enxergar as pessoas para além dos rótulos.

Uma sociedade que ainda tem desafios enormes pela frente, mas que também acumula histórias bonitas de coragem, talento e superação. Porque no final das contas, aquilo que realmente importa continua sendo muito simples.

Não é sobre quem você ama. Não é sobre como você se identifica. Não é sobre caber em uma definição. É sobre ter a liberdade de viver sua própria história. E ser respeitado enquanto a escreve.

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Por que os processos demoram tanto no TJ-RJ?

quinta-feira, 18 de junho de 2026
por Lucas Barros

Existe uma cena que se repete diariamente em escritórios de advocacia de Nova Friburgo, da capital e de praticamente todo o Estado do Rio de Janeiro. O cliente liga. Pergunta se houve alguma novidade, se o juiz decidiu, se há previsão. E a resposta, muitas vezes, é um silêncio constrangedor seguido da frase que ninguém gosta de ouvir: "Ainda não."

Existe uma cena que se repete diariamente em escritórios de advocacia de Nova Friburgo, da capital e de praticamente todo o Estado do Rio de Janeiro. O cliente liga. Pergunta se houve alguma novidade, se o juiz decidiu, se há previsão. E a resposta, muitas vezes, é um silêncio constrangedor seguido da frase que ninguém gosta de ouvir: "Ainda não."

Não importa se a ação discute uma aposentadoria, uma indenização, uma pensão alimentícia, uma cobrança ou um problema de saúde. O sentimento costuma ser o mesmo. Quem procura a Justiça não procura apenas uma decisão. Procura uma solução para um problema que já está atrapalhando sua vida.

E é justamente por isso que a demora machuca. Machuca o pai que aguarda uma decisão sobre a guarda dos filhos. Machuca o aposentado que depende de um benefício para sobreviver. Machuca o trabalhador que espera receber uma verba reconhecida há anos. Machuca o empresário que não consegue encerrar um conflito que paralisa seus negócios. A demora transforma o processo em uma segunda punição.

E não pensem que isso afeta apenas quem está na ponta esperando uma decisão. Afeta também os advogados, que dependem do andamento dos processos para receber seus honorários e manter seus escritórios funcionando. Afinal, enquanto o processo está parado, a conta de luz continua chegando, o aluguel continua vencendo e os custos continuam existindo.

Recentemente, ao buscar informações sobre o andamento de um processo, fui informado de que a fila interna de análise ainda se encontrava em movimentações de novembro do ano anterior. Em outras palavras: um atraso próximo de oito meses apenas para que chegasse a vez daquele processo ser examinado.

E o problema nem sempre termina quando finalmente chega a vez do processo. Em razão do enorme volume de trabalho, não são raras as situações em que uma decisão deixa de enfrentar todos os pontos que precisavam ser analisados. O resultado é a necessidade de novos pedidos de esclarecimento, novas manifestações e novos atos processuais. Em outras palavras: uma demora que já era longa acaba se prolongando.

Para quem está de fora, pode parecer apenas mais uma movimentação processual. Para quem aguarda uma resposta da Justiça, porém, significa mais semanas, meses ou até anos de espera. E quando se fala em direitos, tempo quase sempre tem um preço.

Existe uma imagem equivocada de que o advogado protocola uma ação e simplesmente aguarda. A realidade é muito diferente. O advogado administra expectativas, responde mensagens, cobra andamentos processuais, presta contas ao cliente e tenta explicar aquilo que, muitas vezes, nem ele próprio consegue compreender: por que um processo permanece meses parado sem qualquer movimentação relevante?

É verdade que o problema não é exclusividade do Estado do Rio. O Judiciário brasileiro inteiro enfrenta dificuldades históricas relacionadas ao volume de ações e à crescente judicialização da vida. Hoje, praticamente tudo termina em um processo.

E, infelizmente, chegamos a um ponto em que muitas vezes somos obrigados a recorrer ao Judiciário para resolver conflitos que deveriam ser solucionados com diálogo, bom senso ou eficiência administrativa. O processo judicial deixou de ser exceção para se tornar rotina. E a justiça não acompanhou ao novo normal.

Mas também é verdade que o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro se tornou uma referência nacional quando o assunto é morosidade. E parte dessa discussão passa inevitavelmente pela gestão administrativa do próprio sistema. Em diversas cidades do interior, tornou-se comum observar magistrados acumulando mais de uma vara simultaneamente. Um único juiz responde por estruturas que, em tese, deveriam possuir titulares próprios. Enquanto isso, pilhas de processos continuam crescendo, servidores trabalham sobrecarregados e a fila se alonga.

A pergunta é inevitável: o TJRJ está realmente investindo naquilo que resolve o problema? Porque, do ponto de vista do cidadão comum, parece difícil compreender por que existe espaço para tantos rearranjos administrativos, mas não para ampliar equipes, fortalecer cartórios, criar varas, integrar mais estagiários às frentes de trabalho ou melhorar a estrutura de atendimento.

Não se trata de atacar juízes ou servidores. A esmagadora maioria desses profissionais também enfrenta acervos gigantescos e trabalha sob enorme pressão. O problema parece ser muito mais profundo. É um problema de gestão. De planejamento. De prioridades. E quando as prioridades estão erradas, a consequência aparece rapidamente.

A vida fica parada. Projetos ficam suspensos. Empresas deixam de investir. Famílias permanecem em conflito. Direitos reconhecidos no papel demoram anos para produzir efeitos na vida real. Em contrapartida, os custos do processo judicial continuam subindo.

Poucas pessoas percebem, mas abrir um processo no Brasil continua sendo um ato de coragem. Além dos custos financeiros, existe um custo emocional enorme. Existe a incerteza, a ansiedade, a sensação de que se entrou em uma fila sem saber quando será chamado. E talvez seja justamente isso que mais preocupa.

Porque a confiança na Justiça não é construída apenas pela qualidade das decisões. Ela também depende da capacidade de entregá-las em tempo razoável. Uma sentença excelente, proferida tarde demais, muitas vezes chega quando o problema já produziu danos irreversíveis. Afinal, o relógio não para enquanto o processo espera.

O aposentado continua envelhecendo. O trabalhador continua precisando pagar contas. O empresário continua tentando manter as portas abertas. A família continua convivendo com o conflito. A vida segue. O processo espera.

E talvez seja justamente por isso que a velha frase continue tão atual: Justiça tardia não é apenas uma Justiça lenta. Muitas vezes, é uma Justiça que chega quando o problema já venceu.

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Fevest: entre rendas e sonhos

quinta-feira, 11 de junho de 2026
por Lucas Barros

Há eventos que acontecem. E há eventos que são sentidos. A Fevest talvez pertença à segunda categoria. Durante alguns dias, Nova Friburgo parece vestir sua melhor roupa e lembrar ao Brasil aquilo que faz de melhor: transformar criatividade em trabalho, e trabalho em identidade.

Ao entrar nos pavilhões, a sensação não é apenas a de uma feira de negócios. É como atravessar uma pequena cidade construída de tecidos, luzes e expectativas. Os corredores se enchem de vozes, sotaques e histórias vindas de diferentes regiões do país.

Há eventos que acontecem. E há eventos que são sentidos. A Fevest talvez pertença à segunda categoria. Durante alguns dias, Nova Friburgo parece vestir sua melhor roupa e lembrar ao Brasil aquilo que faz de melhor: transformar criatividade em trabalho, e trabalho em identidade.

Ao entrar nos pavilhões, a sensação não é apenas a de uma feira de negócios. É como atravessar uma pequena cidade construída de tecidos, luzes e expectativas. Os corredores se enchem de vozes, sotaques e histórias vindas de diferentes regiões do país.

Há compradores, empresários, representantes comerciais, estilistas, curiosos e visitantes. Há quem procure tendências. Há quem procure oportunidades. Há quem simplesmente queira entender como uma cidade serrana conseguiu se tornar referência nacional em um setor tão competitivo. E então aparecem as rendas.

Delicadas, leves e detalhadas, elas parecem carregar algo de poesia no corpo de quem veste. Não são apenas tecidos. São pequenas demonstrações de arte produzidas por mãos que raramente aparecem nas fotografias, mas que estão presentes em cada peça exposta.

As malhas ganham formas, texturas e cores. Os estandes se transformam em vitrines de criatividade. O olhar passeia por coleções inteiras enquanto a imaginação tenta acompanhar a velocidade com que a moda se reinventa.

Mas talvez o momento mais fascinante da feira aconteça quando as luzes da passarela diminuem. A música cresce lentamente. Os celulares se levantam. Os olhares se voltam para o mesmo ponto. Por alguns instantes, tudo parece desacelerar enquanto o desfile começa a desenhar sua própria narrativa diante do público.

As modelos entram em cena. E o mais bonito é perceber que já não existe uma única forma de representar a beleza. Mulheres de diferentes corpos, cores, alturas e estilos ocupam a passarela com naturalidade e elegância que Nova Friburgo sabe fazer. Cada uma carrega sua própria presença.

Tem a miss Maiara Braga que abre o desfile. Tem a modelo iniciante que vive o início de um sonho. Algumas caminham com firmeza. Outras parecem deslizar sobre a luz. Algumas sorriem discretamente. Outras mantêm um olhar concentrado. Todas transformam o desfile em algo maior do que uma simples apresentação de produtos.

A passarela se torna quase um retrato do mundo real. Porque a beleza nunca esteve na uniformidade. Ela sempre esteve na diversidade. Na soma das diferenças. Na capacidade de enxergar encanto em múltiplas formas de existir.

Os bastidores

Enquanto isso, atrás das cortinas, acontece outro espetáculo. No backstage há movimento constante. Maquiadores trabalham diante dos espelhos. Produtores conferem horários. Alguém procura um acessório. Outro ajusta uma peça poucos segundos antes da entrada na passarela.

É uma correria organizada. Um caos elegante – cansativo, mas recompensador. Um universo invisível para quem está sentado na plateia, mas absolutamente essencial para que tudo aconteça com perfeição. E talvez seja justamente ali que mora a verdadeira essência da Fevest.

Porque Nova Friburgo também funciona assim. Enquanto muitos enxergam apenas o produto, existe uma multidão trabalhando nos bastidores. Há costureiras, modelistas, designers, revisores, técnicos de som e iluminação, vendedores e empreendedores construindo, cada um, diariamente essa história.

A moda íntima friburguense não nasceu pronta. Ela foi costurada ao longo de décadas. Ponto por ponto. Empresa por empresa. Família por família. Por isso, a Fevest não celebra apenas produtos. Ela celebra pessoas.

Celebra quem apostou em um sonho quando tudo ainda era pequeno. Celebra quem enfrentou crises econômicas, mudanças de mercado e dificuldades para manter portas abertas. Celebra quem ajudou a transformar Nova Friburgo em uma referência nacional. Há algo de bonito em observar tudo isso acontecendo ao mesmo tempo.

Uma feira de tecidos e esperança

Enquanto as montanhas cercam a cidade do lado de fora, dentro dos pavilhões circulam ideias, negócios e perspectivas de futuro. A feira é feita de tecidos, mas também de esperança. E talvez seja justamente por isso que ela deva ser vista como algo ainda maior.

Mais do que uma vitrine de produtos, a Fevest pode ser uma vitrine de futuro. Um espaço para discutir inovação, tecnologia, qualificação profissional e caminhos para fortalecer um setor que movimenta milhares de famílias.

Afinal, as luzes da passarela se apagam. Os visitantes retornam para casa. Os estandes são desmontados. Mas a indústria permanece aqui. E é por isso que a Fevest precisa continuar sendo um lugar de celebração, mas também de construção. Um ambiente onde se pense o amanhã com a mesma dedicação com que se produz cada coleção.

Isso porque as rendas encantam. Os desfiles impressionam. Os flashes registram momentos inesquecíveis. Mas o que realmente sustenta essa história é aquilo que permanece quando a feira termina.

E o futuro da moda íntima friburguense merece mais do que politicagem e duradouros discursos diante da multidão. Merece inovação, planejamento e políticas públicas capazes de garantir que Nova Friburgo continue vestindo o Brasil por muitas gerações.

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Pix, PCC e CV: o que Trump realmente quer?

quinta-feira, 04 de junho de 2026
por Lucas Barros

Poucas vezes o Brasil produziu uma inovação capaz de mudar tão rapidamente a vida das pessoas quanto o Pix. Em poucos anos, o sistema criado pelo Banco Central transformou a forma como brasileiros compram, vendem, recebem e transferem dinheiro. Do pequeno comerciante até a grande empresa, milhões de pessoas passaram a realizar operações financeiras em segundos, sem quaisquer tarifas.

Poucas vezes o Brasil produziu uma inovação capaz de mudar tão rapidamente a vida das pessoas quanto o Pix. Em poucos anos, o sistema criado pelo Banco Central transformou a forma como brasileiros compram, vendem, recebem e transferem dinheiro. Do pequeno comerciante até a grande empresa, milhões de pessoas passaram a realizar operações financeiras em segundos, sem quaisquer tarifas.

Talvez por isso tenha causado tanta estranheza ver o governo americano incluir o Pix em sua lista de críticas ao Brasil. Em meio a discussões sobre tarifas comerciais, concorrência e até combate ao crime organizado, surgiu a narrativa de que o sistema brasileiro estaria prejudicando empresas privadas americanas de meios de pagamento (Visa, Mastercard, entre outras).

O BC respondeu através de nota oficial: “o Pix não é um produto comercializável. Não é uma empresa. Não é uma mercadoria. É uma infraestrutura pública criada para facilitar a vida da população. Não há comercial, mas o modelo de negócio que outros países também pretendem implementar.”

E convenhamos: se já causava indignação a simples possibilidade de o governo brasileiro criar algum tipo de tributação sobre o Pix, imagine aceitar que outro país tente interferir em uma ferramenta desenvolvida e administrada dentro do território nacional. O debate, por si só, já soa estranho.

Preocupações estranhas

Mas talvez o mais curioso seja acreditar que Donald Trump tenha acordado, num belo dia, genuinamente preocupado com o Pix, com o PCC ou com o Comando Vermelho. A história da política internacional mostra que as grandes potências raramente se movem apenas pelos motivos que apresentam em discursos oficiais.

Quando observamos o tabuleiro geopolítico, percebemos que a disputa costuma ser muito maior do que a justificativa apresentada ao público. Os Estados Unidos vivem hoje um momento de transformação global. A China cresce em influência econômica, amplia sua presença em mercados estratégicos, disputa cadeias produtivas, domina terras raras e fortalece alianças em diferentes regiões do planeta. Em paralelo, temas como energia, petróleo, rotas comerciais e segurança de abastecimento voltaram ao centro das decisões internacionais.

Nesse contexto, o Brasil também ganha relevância. Somos uma potência agrícola, energética e de terras raras. Temos reservas estratégicas, recursos naturais abundantes e um mercado consumidor expressivo. Não é difícil imaginar por que determinadas decisões brasileiras passam a despertar tanto interesse externo.

Por isso, quando autoridades americanas misturam Pix, crime organizado e barreiras comerciais no mesmo discurso, vale a pena olhar além da superfície. O PCC e o CV são problemas reais e graves. Combatê-los é obrigação do Estado brasileiro. Mas é difícil acreditar que a maior preocupação de Washington seja exatamente a segurança pública brasileira.

Curiosamente, a história recente mostra que certas regiões do mundo recebem atenção muito maior quando também possuem relevância energética ou estratégica. Petróleo, rotas marítimas, influência regional e segurança econômica costumam ocupar espaço privilegiado nas prioridades das grandes potências. Talvez seja apenas coincidência. Talvez não. Mas a história internacional raramente é movida apenas por altruísmo.

E há uma ironia difícil de ignorar. Os Estados Unidos frequentemente se apresentam como referência mundial no combate ao tráfico de drogas e ao crime organizado. Entretanto, enfrentam em seu próprio território uma das maiores crises de crime organizado, dependência química e população em situação de rua do planeta.

Em Los Angeles, a Skid Row (região conhecida como a Cracolândia americana) tornou-se símbolo dessa realidade. São dezenas de quarteirões ocupados por quase 50 mil de pessoas vivendo em condições extremamente precárias, convivendo diariamente com drogas. Por outro lado, até no SuperBowl, maior evento esportivo televisionado do planeta, grandes artistas e celebridades do esporte fazendo sinais e passos de gangue em TV aberta para todo o planeta.

À distância, é fácil apontar problemas alheios. Mais difícil é resolver os próprios. O Brasil tem desafios enormes na segurança pública. Tem facções criminosas poderosas, fronteiras vulneráveis e problemas históricos que precisam ser enfrentados com seriedade – assim como eles também tem os deles. Mas também é verdade que nenhuma nação do mundo pode se apresentar como modelo absoluto quando ainda convive com crises humanitárias tão profundas dentro de casa.

Taxas para todo o mundo

E há um detalhe que merece atenção. O Brasil não foi o único alvo dessas medidas de taxações. Ao lado do nosso país, dezenas de outras nações também foram atingidas por novas tarifas americanas. Segundo o próprio governo dos Estados Unidos, cerca de 60 países passaram a sofrer sobretaxações por razões que vão desde questões comerciais até alegações relacionadas a políticas internas e mecanismos regulatórios.

O Escritório de Comércio dos EUA (USTR) determinou tarifas de 10% relacionadas à investigação de trabalho forçado sobre as importações do Canadá, Equador, União Europeia, Indonésia, México, Paquistão, Argentina, Bangladesh, Camboja, El Salvador, Guatemala, Malásia, Taiwan e Reino Unido. Em relação ao Brasil, o Escritório de Comércio disse que propõe tarifas de 12,5%.

Ou seja, estamos longe de uma medida exclusivamente voltada ao Brasil. O que se observa é uma estratégia mais ampla de pressão econômica, utilizada como instrumento de política internacional.

Trump joga o jogo

O Pix não é perfeito. Nenhuma política pública é. Mas seu sucesso incomoda porque representa algo raro: uma solução brasileira que funcionou. Uma tecnologia pública que reduziu custos, ampliou o acesso ao sistema financeiro e se tornou referência internacional. Talvez seja justamente isso que desperte tanto interesse.

Durante anos, ouvimos discursos contundentes sobre narcotráfico, segurança regional e combate ao crime organizado na Venezuela. Hoje, o debate internacional parece muito mais concentrado em questões energéticas e petróleo. Talvez seja apenas coincidência. Talvez não. Grandes potências costumam ser muito mais sensíveis a barris de petróleo do que a discursos humanitários.

No fim das contas, a discussão dificilmente é apenas sobre o Pix. Também não parece ser apenas sobre o PCC ou o CV. O assunto é poder. É influência. É a disputa por espaço em um mundo que muda rapidamente. É a eleição brasileira. E talvez a maior prova de que o Pix deu certo seja justamente o fato de ter saído das conversas dos brasileiros para entrar nas preocupações de uma das maiores potências do planeta.

Porque, quando uma simples transferência feita pelo celular começa a incomodar interesses internacionais, provavelmente estamos discutindo algo muito maior do que tecnologia ou segurança pública. Estamos discutindo quem continuará escrevendo as regras do jogo nos próximos anos.

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A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

Entre vaias e privilégios, parte da Câmara escolheu ao próprio bolso

quinta-feira, 28 de maio de 2026
por Jornal A Voz da Serra

A Câmara Municipal de Nova Friburgo aprovou um auxílio-alimentação de R$ 50 por dia útil para os vereadores da cidade. Ao final do mês, o valor gira em torno de R$ 1 mil por parlamentar. O projeto foi aprovado por 11 votos favoráveis e oito contrários, em meio a vaias da população presente no plenário.

A Câmara Municipal de Nova Friburgo aprovou um auxílio-alimentação de R$ 50 por dia útil para os vereadores da cidade. Ao final do mês, o valor gira em torno de R$ 1 mil por parlamentar. O projeto foi aprovado por 11 votos favoráveis e oito contrários, em meio a vaias da população presente no plenário.

A votação ocorreu com 19 vereadores presentes. Onze votaram a favor: Janio Carvalho (União Brasil), Carlinhos do Kiko (PL), Cascão do Povo (Podemos), Walace Piran (PL), Dr. Bruno Silva (MDB), Tia Karla (Republicanos), Max Bill (MDB), Evandro Miguel (MDB) e Dirceu Tardem (PL). Oito votaram contra: Maicon Gonçalves (Mobiliza), Marcos Marins (PSD), Maiara Felício (PT), Cláudio Damião (PT), Ghabriel do Zezinho (Solidariedade), Romulo Pimentel (Podemos), Christiano Huguenin (PP) e José Carlos Schuabb (União Brasil).

Importante começar essa coluna com muita clareza e lucidez: a indignação popular não nasce exatamente do valor. Mil reais por mês, dentro do orçamento de um município inteiro, não representam um colapso financeiro. Não é esse o ponto central da revolta. O problema é o símbolo. O momento. O recado que se passa quando a prioridade da pauta política parece, mais uma vez, olhar primeiro para dentro da própria Câmara do que para fora dela.

Há menos de uma semana, o Hospital Municipal Raul Sertã foi alvo de autuações pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ). A decisão cita irregularidades graves nas refeições da unidade, incluindo larvas, cabelo e até caramujo em salada servida aos pacientes. Em paralelo, alguns vereadores parecem preocupados em não precisar gastar parte do próprio salário para almoçar.

E é justamente nesse cenário que a Câmara decide mobilizar tempo político para votar um benefício próprio. Talvez por isso a reação tenha sido tão negativa. Porque o cidadão comum olha para a própria realidade e percebe que, quando servidores brigam por reajustes mínimos em auxílio-alimentação, frequentemente enfrentam resistência, discursos de austeridade e debates intermináveis sobre impacto financeiro. Professores, por exemplo, muitas vezes precisam lutar por valores muito inferiores, como se cada pequeno aumento colocasse em risco toda a saúde fiscal do município.

Mas, quando o assunto envolve o próprio Legislativo, a tramitação parece ganhar velocidade diferente. A população não se revolta apenas com números — revolta-se com contrastes.

E aqui cabe um cuidado importante: criticar essa votação não significa defender que vereador tenha que trabalhar sem estrutura ou sem condições adequadas. Política séria exige dedicação, disponibilidade e responsabilidade. O problema não é existir remuneração ou benefício. O problema é quando a prioridade política se desconecta completamente do sentimento das ruas — e da realidade da cidade.

Em momentos de crise, a população espera sensibilidade. Espera exemplo. Espera que os representantes entendam que política também é percepção, timing e responsabilidade coletiva. Porque, no fim, o problema nunca foi apenas o valor do auxílio. O problema é a sensação de que, enquanto a cidade tenta sobreviver às próprias urgências, parte da política continua discutindo conforto.

E talvez o mais perigoso disso tudo seja o desgaste gradual da confiança pública. Porque decisões assim alimentam a percepção de que parte da política local se afastou da realidade cotidiana da cidade. Uma cidade onde há ruas abandonadas, mato alto, buracos recorrentes, dificuldades na saúde e uma constante sensação de improviso administrativo.

A votação simboliza uma classe política que, muitas vezes, parece mais eficiente quando o assunto envolve benefício próprio do que quando envolve o sofrimento da população. Simboliza uma desconexão perigosa entre prioridade institucional e necessidade pública.

No fim das contas, não são os R$ 50 por dia que produzem tanta indignação. É o que eles simbolizam. E isso pesa ainda mais quando falamos de vereadores que já possuem salários superiores a R$ 14 mil mensais líquidos— valor que, para a realidade de Nova Friburgo, está longe de ser baixo.

A discussão, portanto, não deveria ser apenas financeira. Ela é moral, política e simbólica. Porque toda decisão pública carrega uma mensagem. E a mensagem transmitida nesta semana foi péssima: R$ 50 no prato e zero constrangimento no plenário.

Não é o valor — é o recado. E o recado que muitos friburguenses ouviram foi simples e cruel: para alguns vereadores, garantir o próprio almoço parece continuar sendo mais urgente do que enfrentar os problemas reais da cidade.

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Friburgo precisa de voz na Alerj

quinta-feira, 21 de maio de 2026
por Lucas Barros

Nossa cidade se acostumou a reclamar da ausência de investimentos, da lentidão das obras, da dificuldade de conseguir apoio estadual e da sensação permanente de que está sempre correndo atrás do que deveria já ter chegado. Mas talvez exista uma pergunta simples que precise ser feita com mais honestidade: quem, hoje, fala por Friburgo dentro da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro?

Nossa cidade se acostumou a reclamar da ausência de investimentos, da lentidão das obras, da dificuldade de conseguir apoio estadual e da sensação permanente de que está sempre correndo atrás do que deveria já ter chegado. Mas talvez exista uma pergunta simples que precise ser feita com mais honestidade: quem, hoje, fala por Friburgo dentro da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro?

Há algum tempo, a cidade deixou de ter uma representação estadual verdadeiramente ligada à região. E isso não é um detalhe político — é um problema prático. Porque orçamento, articulação, influência e prioridade passam, inevitavelmente, pela capacidade de uma cidade ter alguém que conheça suas demandas e esteja disposto a defendê-las dentro dos espaços de poder.

Não se trata de votar por votar. Nem de transformar eleição em torcida organizada. O voto é livre, individual e deve continuar sendo. Cada pessoa tem o direito de escolher quem quiser — inclusive ninguém. Mas é impossível ignorar que cidades que possuem representantes fortes acabam tendo mais capacidade de articulação política, acesso a recursos e pressão institucional.

E aqui talvez esteja um dos maiores desafios de Friburgo: a dificuldade histórica de construir lideranças regionais duradouras. A cidade frequentemente divide forças, pulveriza votos e termina assistindo outros municípios ocuparem espaços estratégicos enquanto seguimos dependendo da boa vontade política de quem, muitas vezes, sequer conhece a realidade local.

Isso se reflete em diversas áreas. Friburgo é um dos maiores polos de moda íntima do país, movimenta emprego, indústria, turismo de negócios e geração de renda. Ainda assim, o setor frequentemente caminha quase sozinho, sem o suporte proporcional ao impacto econômico que possui. Falta investimento, incentivo, linhas estratégicas de desenvolvimento e presença política capaz de transformar importância econômica em prioridade institucional.

E não é por ausência completa de recursos. Em muitos casos, o dinheiro existe — ou ao menos já existiu, em especial de recursos federais. Ao longo dos anos, diversos repasses estaduais e federais foram anunciados para Nova Friburgo. Alguns sequer saíram do papel. Outros se perderam entre burocracias, disputas políticas e falta de continuidade administrativa. Há recursos que chegam, mas não encontram execução eficiente. Há verbas que viram anúncio, mas não viram transformação concreta.

Um filme repetido inúmeras vezes

No fim, a população sente o resultado nas ruas. Obras que começam e param, assim como o Hospital do Câncer. Projetos que nunca saem do papel. Estruturas que envelhecem sem modernização. E uma cidade com enorme potencial econômico, turístico e universitário que, muitas vezes, parece menor do que realmente é diante do cenário estadual.

Enquanto isso, municípios que conseguem construir representação política regional organizada acabam avançando com mais velocidade. Não necessariamente porque possuem mais potencial — mas porque possuem voz. E, em política, quem não ocupa espaço acaba sendo ocupado pelas prioridades dos outros.

Talvez esteja na hora de Friburgo discutir isso com mais seriedade e menos paixão eleitoral. Entender que representação política não deveria ser apenas disputa de nomes, mas estratégia de cidade. Porque projetos pessoais passam, mandatos acabam, mas a ausência de articulação deixa consequências que permanecem por anos.

Isso não significa apoiar qualquer candidato apenas por ser da região. Pelo contrário. Representação local sem preparo, sem proposta e sem compromisso também não resolve nada. O debate precisa ser maduro. É preciso olhar trajetória, capacidade técnica, propostas reais e compromisso com a cidade.

Mas também é preciso compreender que uma cidade sem representantes fortes nos espaços estaduais perde capacidade de influência. E influência, gostemos ou não, move orçamento, prioridade e desenvolvimento.

Nova Friburgo não é uma cidade pequena em relevância econômica, cultural ou regional. Temos universidades, indústria, comércio forte, turismo consolidado e um dos setores de moda íntima mais importantes do Brasil. O que falta, muitas vezes, não é potencial. É articulação para transformar potencial em prioridade política.

Porque cidade que não ocupa espaço político acaba ocupando apenas a fila de espera das promessas.

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Em qual Nova Friburgo você vive?

quinta-feira, 14 de maio de 2026
por Lucas Barros

Havia ruas, todas muito semelhantes umas às outras. Havia também ruelas ainda mais semelhantes umas às outras, onde moravam pessoas também semelhantes umas às outras, que saíam e entravam nos mesmos horários, pelas mesmas calçadas, para fazer o mesmo trabalho sacal.

E para quem cada dia era o mesmo de ontem e de amanhã, e cada ano o equivalente do próximo e do anterior. Afinal, nada do que foi será, de novo do jeito que já foi um dia. Tudo passa e tudo sempre passará – de um modo para uns e de outro modo para outros. Cada um, com a sua luta e sua jornada.

Havia ruas, todas muito semelhantes umas às outras. Havia também ruelas ainda mais semelhantes umas às outras, onde moravam pessoas também semelhantes umas às outras, que saíam e entravam nos mesmos horários, pelas mesmas calçadas, para fazer o mesmo trabalho sacal.

E para quem cada dia era o mesmo de ontem e de amanhã, e cada ano o equivalente do próximo e do anterior. Afinal, nada do que foi será, de novo do jeito que já foi um dia. Tudo passa e tudo sempre passará – de um modo para uns e de outro modo para outros. Cada um, com a sua luta e sua jornada.

No entanto, Nova Friburgo é uma cidade, mas não a mesma para todos que moram nela. A depender do seu CEP, renda mensal e cor de pele, a cidade revela-se de modos diferentes, numa escala que varia entre ir ou não tranquilamente para o trabalho, acessar ou ter negado seu direito à saúde e manter-se ou não seguro em casa durante uma chuva forte.

Nova Friburgo de uns e de outros

Podemos falar do foco no Turismo. Uma cidade turística que revolucionou os seus índices de visitantes nos últimos anos com as inovações propostas. Festas? E quem não gosta de festas? Festejar significa estar junto de quem gostamos com o único e sincero propósito de ser feliz.

Seria uma hipocrisia negar que a nossa cidade fica ainda mais linda em épocas de festas! Eu como ex-morador da Avenida Alberto Braune e apaixonado por Friburgo, me encantava todos os dias com o que via pela janela. Grandes e pequenos shows. Natal Luz, Carnaval e tudo mais que tivemos em nossa cidade.

Abriram-se muitas oportunidades. Muitas pessoas tiveram oportunidades para mudar de vida nesses tempos de festa. Desde os hotéis que puderam dar um respiro desde a tragédia de 2011 até as pessoas envolvidas nas festividades como os barraqueiros, artistas, produtores artísticos e donos de infraestrutura de eventos.

No entanto, aprendi que não posso me contentar com uma paixão cega e desarrazoada. É preciso também olhar para as outras Nova Friburgo existentes e suas inúmeras dificuldades. Em se tratando de saúde, vemos uma cidade cujas soluções estão distantes de podermos comemorar.

Em uma cidade com pessoas com plano de saúde – que reclamam do serviço – as pessoas que dependem do SUS, já não tem mais para quem reclamar. Um pouco mais tarde, em um passado recente, mais más notícias. O teto da recepção do hospital caiu em meio às chuvas de final de ano. Mais um baque. Meses depois, foram detectados riscos biológicos, como: fezes de rato, pombos, risco de incêndio e de colapso na infraestrutura devido às infiltrações no principal hospital de nossa região.

Há também a Nova Friburgo para quem se locomova a pé, no conforto de morar perto do trabalho ou dos afazeres da vida em bairros próximos ao Centro. Doce é a vida de quem caminha olhando para as vitrines do comércio. Em vários bairros, pessoas se arriscam no meio das ruas escuras, face a falta de calçadas e de iluminação pública.

Há ainda uma outra cidade para quem dirija. Anda, para. Anda, para. Anda para. Uma velha conhecida friburguense: a falta de gestão de trânsito de uma cidade, que apesar de arrecadar muito com multas, pouco investe no trânsito e na locomoção de quem precisa de carro.

Todavia não podemos esquecer que há ainda um município especial para pessoas que necessitam diariamente do transporte coletivo. Pagam caro pelas passagens. Não contam com pontualidade ou muito menos com o mínimo de infraestrutura nos pontos de ônibus que muitas vezes não tem banco, nem teto e nem placa indicativa.

Há também uma Nova Friburgo para os que possuem filhos que estudam na rede privada de educação, que apesar dos altíssimos preços na mensalidade, podem ter a certeza de contar com um ensino de qualidade. Entretanto, há outra cidade para aqueles que não possuem tal condição.

Mas o que faz uma única, pequena e pacata Nova Friburgo se transformar em tantas outras? A resposta é uma só: as políticas públicas. Quem está à frente das decisões da cidade precisa considerar as múltiplas realidades que ela contém. E quem está por trás, enxergar as necessidades além das nossas dores. Nova Friburgo tem potencial para ser exemplo de cidade inovadora para as pessoas e não precisamos de muita inovação para isso.

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