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Nova Friburgo está perdendo sua identidade de futuro

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026
por Lucas Barros

Vivo num tempo de saudades. Estranhamente, saudades de tempo que sequer tive a oportunidade de viver. Nascido em 1997, sorrio com lágrimas nos olhos das histórias que os mais velhos sempre me contavam do tempo que a nossa querida e amada Nova Friburgo viveu.

Lembro de quando criança, que eu morava na “cidade dos parapentes”. Estes coloriam os céus da nossa cidade em manobras leves pela gélida e gostosa brisa do inverno friburguense. No entanto, os parapentes sumiram. Assim como tantas outras coisas que faziam parte da minha infância.

Vivo num tempo de saudades. Estranhamente, saudades de tempo que sequer tive a oportunidade de viver. Nascido em 1997, sorrio com lágrimas nos olhos das histórias que os mais velhos sempre me contavam do tempo que a nossa querida e amada Nova Friburgo viveu.

Lembro de quando criança, que eu morava na “cidade dos parapentes”. Estes coloriam os céus da nossa cidade em manobras leves pela gélida e gostosa brisa do inverno friburguense. No entanto, os parapentes sumiram. Assim como tantas outras coisas que faziam parte da minha infância.

As grandes fábricas, do dia para a noite, fecharam as portas e levaram consigo a lembrança do primeiro dia de emprego de tantos jovens da época. Nova Friburgo também perdeu grande parte da renda circulante. A cidade aos poucos foi tomando rumos que pareciam imprevisíveis para uma cidade tão cheia de oportunidades.

Os mais saudosos moradores desta linda cidade, envolta das mais belas montanhas do Estado do Rio de Janeiro certamente concordarão: “Nova Friburgo, apesar do seu charme, de sua tranquilidade e de suas belezas naturais, já foi um lugar melhor para vivermos. E em especial, para os nossos jovens começarem a vida”.

Falta perspectiva para a juventude

Vivemos uma época de ouro em nossa cidade nos anos 70 e 80. Artistas eram vistos caminhando pela Alberto Braune. Atores, cantores, diretores de novelas e jogadores de futebol famosos construíram sítios, casas, família e aconchego no frescor de nossas montanhas.

Apesar do Brasil viver seus momentos mais difíceis, os jovens da época tinham em nossa cidade o seu primeiro emprego sem que precisassem fazer muito esforço. Seja nas Rendas Arp, Fábrica Ypu, Sinimbu, as empresas de metal mecânico, e as confecções que davam o seu ponta pé inicial.

Nossa cidade era regada a perspectivas de muitos empregos e de crescimento profissional, aliado a tranquilidade e a beleza natural. Nordestinos, sulistas e cariocas, deixaram de lado tudo o que tinham e para cá vieram. Muitos enxergaram em Nova Friburgo, um lugar para se estabelecer e prosperar.

No entanto, nos perdemos em perspectivas de futuro. Onde outrora era um cenário de oportunidades para os jovens sonhadores de todo o Brasil, tornou-se um cenário de êxodo e de falta de possibilidades de crescimento. Nova Friburgo deixou de construir um planejamento para o futuro e agora vê o seu futuro se construir em outros lugares.

A nossa juventude percebeu que as montanhas do Caledônia eram apenas uma fronteira física que nos impedia a vista do além. E por meio da RJ-116, os jovens aventureiros, com uma mochila nas costas e uma passagem só de ida estão sumindo e nunca mais voltando.

Mesmo que possuamos um vasto polo universitário nacional, não conseguimos prender a nossa própria juventude pela falta de oportunidade e de perspectiva de dias melhores. E o friburguense, que cresceu andando pela Avenida Alberto Braune e sonhando com um lugar melhor, agora vive em outro lugar, com novas oportunidades.

“Quando se busca algo em outros lugares e regiões é porque onde se está não se tem a possibilidade de crescimento e desenvolvimento como se espera na busca da realização dos ideais e da plena realização das metas pessoais para a vida. Os jovens acabam sendo tolidos dos seus sonhos e metas no rumo da vida, porque a comunidade local não investe na oferta de capacitação pessoal do indivíduo e com isso restringe a inserção no mercado de trabalho as pessoas mais abastadas e que têm o respaldo da família, possibilitando assim o investimento pessoal em cursos seletos,” explica o músico João Marcos de Sousa Soares.

Será que realmente estamos ouvindo com atenção as demandas dos nossos jovens ou estamos apenas achando normal que o ponto turístico mais bem quisto pela juventude seja a Rodoviária Sul com uma passagem apenas de ida?

Me indigna ver como Petrópolis cresceu tanto nos últimos anos, enquanto Nova Friburgo, apesar de gastos exorbitantes, ficou estagnada. A serra de São José dos Pinhais-PR, com seus 250 mil habitantes, se transformou no terceiro maior polo automotivo do Brasil. Já Bento Gonçalves-SC, uma cidade com apenas 120 mil habitantes, tem mais fábricas do que a nossa.

É muito importante que caminhemos ao lado do nosso interesse por todas as ações a serem desenvolvidas para o futuro. Para muitos, conscientemente ou não, busca-se deixar heranças dessas ações para as próximas gerações. E é preciso pensar fora da caixinha nesses próximos quatro anos, seja quem for eleito, para pensar em um legado para a cidade.

Há textos que fogem de mim. São mais exaltados. Percorrem caminhos que eu sequer previ. Tornam-se atrevidos, arredios, ganhando vida própria. Contudo, o texto nasce à semelhança do autor, tornando-se seu espelho, repleto de verdade. Surge no papel vindo das profundezas dos sentimentos. Aqui está uma coluna, feita em nome de todos os jovens.

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A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

De Friburgo para Nova York: a trajetória internacional de Maiara Porto

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Há algum tempo escrevi na coluna, sobre a trajetória de Maiara Porto, uma menina mulher com 24 anos, friburguense, atriz, modelo, estudante de Odontologia e dona de uma trajetória tão improvável quanto luminosa. Naquele momento ressaltamos uma grande conquista: sua participação icônica no Miss Charm.

Há algum tempo escrevi na coluna, sobre a trajetória de Maiara Porto, uma menina mulher com 24 anos, friburguense, atriz, modelo, estudante de Odontologia e dona de uma trajetória tão improvável quanto luminosa. Naquele momento ressaltamos uma grande conquista: sua participação icônica no Miss Charm.

Ela já atuou em produções da Netflix, Prime Video, novelas da TV Record e peças de teatro, sempre com disposição para aprender e generosidade para trabalhar. Muito bem-quista pelo pai de Gisele Bündchen, cercada de profissionais competentes e amparada por uma família que não perde um passo, Maiara ergue sua carreira como quem constrói não mais um edifício, mas um arranha-céu.

Falávamos de uma friburguense que transitava com naturalidade entre o universo Miss, a moda e a atuação, construindo uma carreira com planejamento e visão de longo prazo. Aquela coluna apontava que o título era apenas parte de um projeto maior.

Nova York é logo ali

A semana atual confirma essa percepção. Maiara está em Nova York para desfilar na New York Fashion Week, um dos eventos mais relevantes e observados da indústria da moda mundial. O convite partiu da estilista internacional Gianina Azar, conhecida por vestir artistas como Beyoncé e Lady Gaga e por integrar o circuito das grandes semanas de moda.

Do Brasil, além de Maiara, participa também o modelo Jesus Luz. O desfile reúne celebridades internacionais, nomes conhecidos da televisão latina e representantes do universo Miss, compondo um ambiente de alta visibilidade. Trata-se de uma vitrine global, acompanhada por empresários, agentes e marcas que enxergam ali oportunidades e novos rostos para campanhas internacionais.

Colhendo o que plantou

Para quem acompanhou seus primeiros passos, o momento atual é consequência de um percurso consistente. Antes das passarelas internacionais, houve concursos, seletivas, campanhas publicitárias, cursos, preparação física e construção estratégica de imagem e posicionamento. Nada surgiu de forma repentina. Houve planejamento e continuidade.

A atuação, aliás, sempre foi parte importante dessa jornada. Maiara investiu em formação artística, participou de projetos audiovisuais e desenvolveu habilidades que vão além da estética. Expressão corporal, domínio de câmera e postura pública são competências que dialogam diretamente com o universo da moda. A soma dessas experiências fortalece sua presença em ambientes cada vez mais competitivos.

O universo Miss, por sua vez, contribuiu para consolidar disciplina, comunicação e posicionamento institucional. Não se trata apenas de beleza, mas de representação, postura e responsabilidade pública. Essa base amplia o alcance profissional e prepara o terreno para voos maiores.

A New York Fashion Week não é apenas um desfile. É um dos principais polos de conexão entre criadores, investidores e talentos do mercado global. Estar ali significa inserir-se em um circuito internacional onde cada participação pode resultar em novos contratos, convites e parcerias. É um ambiente exigente, no qual talento precisa caminhar ao lado de profissionalismo e consistência.

Maiara merece o prestígio friburguense

Há um significado que vai além da passarela. Ver uma representante de Nova Friburgo ocupar espaço em um dos palcos mais emblemáticos da moda mundial não é apenas motivo de orgulho protocolar — é a confirmação de que nossas histórias podem ultrapassar fronteiras. A origem não limita; ela constrói identidade. E Maiara carrega a sua com naturalidade.

Quem a conhece sabe que não se trata apenas de uma mulher bonita diante das câmeras. Maiara é dessas presenças que combinam elegância com simplicidade. Linda, sim — mas também educada, disciplinada e genuinamente simpática. Sempre manteve os pés no chão, mesmo quando os holofotes começaram a apontar em sua direção.

E talvez haja também um elemento poético nessa menina mulher. Porque, de certo modo, Maiara caminha por Manhattan como a nossa própria “garota de Ipanema” serrana — aquela que carrega beleza, graça e luz, mas que também traz história, disciplina e propósito. Uma presença que não passa despercebida, não apenas pelo olhar, mas pela postura.

Ao longo da trajetória, envolveu-se em projetos sociais, participou de ações comunitárias e utilizou sua visibilidade para ampliar causas que ultrapassam o universo da moda. Há nela uma compreensão clara de que representar Nova Friburgo vai além de vestir uma faixa ou desfilar um look: é também saber devolver à sociedade parte do que se conquista.

Em tempos em que o noticiário insiste em destacar crises e conflitos, é justo iluminar histórias construídas aqui, com esforço silencioso e perseverança. A presença de Maiara em Nova York não é um evento passageiro nem uma foto de ocasião. É resultado de escolhas feitas com responsabilidade.

De Friburgo para Manhattan, a distância pode ser medida em quilômetros. Mas, na prática, ela foi vencida com constância, preparo e visão de futuro. E se há algo que essa trajetória demonstra é que alguns caminhos começam discretos, mas seguem firmes — sempre elegantes — rumo a horizontes cada vez maiores. E tudo indica que essa história ainda está longe de seu ponto final.

Foto da galeria
(Foto: Arquivo pessoal)
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Celular na escola: vilão ou ferramenta do futuro?

quinta-feira, 05 de fevereiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Se tem uma coisa que nunca sai de moda é a busca por um culpado para os problemas da educação. Já foram os quadrinhos, os videogames, as cartas de Yu-Gi-Oh (um famoso desenho japonês dos anos 2000), o funk, e agora, adivinhe? Os celulares! Completou um ano em vigor a lei que veda o uso dos celulares nas escolas, mas será que esta é a melhor solução para melhorar as notas e a atenção dos alunos? Com a volta às aulas nesta semana, a discussão voltou à tona.

Se tem uma coisa que nunca sai de moda é a busca por um culpado para os problemas da educação. Já foram os quadrinhos, os videogames, as cartas de Yu-Gi-Oh (um famoso desenho japonês dos anos 2000), o funk, e agora, adivinhe? Os celulares! Completou um ano em vigor a lei que veda o uso dos celulares nas escolas, mas será que esta é a melhor solução para melhorar as notas e a atenção dos alunos? Com a volta às aulas nesta semana, a discussão voltou à tona.

Uma pesquisa recente jogou um balde de água fria nessa ideia: proibir celulares nas escolas não aumenta as notas e nem a proatividade dos estudantes. Ou seja, a solução mágica não é tão mágica assim. Mas, então, o que fazer diante dos desafios enfrentados pela educação brasileira?

Celular: vilão ou inocente?

Vamos ser sinceros: o celular pode, sim, ser um grande empecilho na sala de aula. Quem nunca ficou rolando o feed do Instagram ou os grupos de Whatsapp ao invés de prestar atenção em algo importante? O celular, se mal utilizado, é sem dúvidas um antagonismo à proatividade.

O problema é que culpar apenas o aparelho é como dizer que o lápis é culpado pelos erros de ortografia. A distração sempre existiu – seja com bilhetinhos, revistas escondidas dentro do livro, rabiscos no caderno ou até mesmo quem ficasse olhando para o teto para que o tempo passasse.

Por outro lado, não há como negar que ele também é uma ferramenta poderosa e extremamente relevante nos tempos atuais. No mundo real – aquele fora da escola – celulares são essenciais para trabalho, estudo, aprendizado e comunicação (até mesmo entre os alunos e seus pais).

Aplicativos como Google Drive, Duolingo, Coursera, YouTube Educacional, ChatGPT e até o bom e velho WhatsApp, se usados corretamente, podem ser aliados do aprendizado moderno. A diferença é que hoje, o celular, tem todas as modalidades de distração e muito mais, não sendo sempre utilizado de maneira ideal.

A solução não está na proibição, mas na educação

Se o objetivo é melhorar o desempenho dos alunos, a resposta não está no banimento, mas talvez na adaptação das tecnologias ao estudo e a rotina dos adultos de amanhã. Educar para o uso consciente e eficaz da tecnologia, em vez de fingir que ela não existe. E, sejamos honestos, ignorar isso é tapar o sol com a peneira.

Algumas escolas pelo mundo já perceberam isso e adotaram métodos mais modernos. Usam notebooks em suas salas de aula, smartphones e outras tecnologias associadas. Há também, a implementação de horários específicos para o uso do celular em atividades pedagógicas ou até aplicativos que ajudam no controle de tempo e foco dos estudantes.

Outro ponto importante: o celular é, para muitos, ferramenta de trabalho no mundo moderno. Embora exista o jornal impresso, é certo que muitos de vocês estejam lendo essa coluna por meio do seu celular. O celular tornou-se um aparelho imprescindível nas relações sociais e de trabalho. Não há como não fingir que ele não exista.

Muitos alunos trabalham e estudam (assim como eu), e o telefone é essencial para isso. Além disso, os jovens de hoje serão os profissionais de amanhã, e o mundo corporativo já exige habilidades digitais rebuscadas. Em meio a um mundo profissional concorrido, por que não preparar essa galera desde cedo para usar a tecnologia a seu favor?

O equilíbrio entre disciplina e tecnologia

Claro que não dá para liberar geral e deixar a sala de aula virar um festival de TikTok em plena aula de Geometria. A escola precisa estabelecer regras, ensinar limites ou até mesmo usar aplicativos de controle. Mas também não adianta agir como se o celular fosse um monstro devorador de notas. O segredo está no equilíbrio.

Outra coisa importante é que a proibição, muitas vezes gera ainda mais estímulo ao fazer escondido. Quem nunca ouviu que o escondido é sempre mais gostoso? E não há nada que um jovem goste mais de fazer do que ir contra as regras que a sociedade impõe. Efetivamente, sabemos que a medida não irá funcionar.

A verdade é que proibir o celular nas escolas não vai fazer milagres. Enquanto não repensarmos a metodologia – arcaica e maçante – da educação brasileira, teremos ainda empecilho no interesse dos alunos nas escolas, que buscam válvulas de descompressão, sejam nos bilhetinhos escondidos, nas revistas, olhando para o teto ou no celular. 

A educação precisa evoluir junto com a tecnologia. E, convenhamos, se o objetivo é preparar os alunos para o futuro, talvez esteja na hora de parar de brigar com ele.

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No silêncio dos laboratórios, uma brasileira desafia a paralisia

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Vivemos um tempo em que o noticiário parece disputar nossa atenção pela exaustão. Tragédias, crimes, escândalos, disputas políticas e indignações fabricadas ocupam quase todo o espaço público. O barulho é constante, repetitivo e, muitas vezes, paralisante. Nesse cenário ruidoso, passam despercebidas as notícias que não gritam — aquelas que nascem no silêncio, no tempo lento da pesquisa científica, da observação meticulosa e da insistência paciente. Notícias de gente que insiste em produzir futuro em um país pouco acostumado a celebrá-lo.

Vivemos um tempo em que o noticiário parece disputar nossa atenção pela exaustão. Tragédias, crimes, escândalos, disputas políticas e indignações fabricadas ocupam quase todo o espaço público. O barulho é constante, repetitivo e, muitas vezes, paralisante. Nesse cenário ruidoso, passam despercebidas as notícias que não gritam — aquelas que nascem no silêncio, no tempo lento da pesquisa científica, da observação meticulosa e da insistência paciente. Notícias de gente que insiste em produzir futuro em um país pouco acostumado a celebrá-lo.

É nesse contexto que surge a trajetória de Tatiana Sampaio, médica e pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Longe dos holofotes, ela vem conduzindo há décadas um trabalho científico que pode impactar diretamente a vida de pessoas que convivem com diferentes tipos de paralisia. Não se trata de promessa vazia nem de discurso motivacional, mas de ciência aplicada, construída com método, persistência e tempo.

Tatiana desenvolveu a polilaminina, um medicamento ainda experimental elaborado a partir de proteínas extraídas da placenta. A substância atua na regeneração dos nervos da medula espinhal, estimulando a reconexão de neurônios rompidos por lesões traumáticas. Em termos simples — e justamente por isso impressionantes — a proposta é restabelecer conexões que, até hoje, a medicina tratava como irreversíveis. Nesse cenário, a paralisia deixa de ser um ponto final absoluto e passa a admitir a possibilidade de uma vírgula.

É importante destacar: não estamos diante de uma descoberta repentina, dessas que surgem da noite para o dia e desaparecem com a mesma velocidade com que viralizam. A polilaminina é fruto de 25 anos de pesquisa, testes laboratoriais, experimentos, erros corrigidos, hipóteses revistas e persistência científica. Um trabalho longo, silencioso e, muitas vezes, invisível ao grande público. Recentemente, esse esforço alcançou um marco relevante: a Anvisa autorizou o início dos testes clínicos de fase 1 em humanos, destinados a avaliar a segurança da aplicação da substância diretamente na medula espinhal.

E é exatamente nesse ponto que o entusiasmo precisa caminhar ao lado da cautela. Testes de fase 1 não significam cura, nem indicam resultados imediatos. Significam responsabilidade. Significam que a ciência está fazendo o que precisa ser feito: avançar com rigor, respeitando protocolos, limites éticos e o tempo necessário para evitar falsas promessas. Entre um avanço de laboratório e um tratamento amplamente disponível, existe um caminho longo, que passa por múltiplas fases clínicas, análises estatísticas e avaliações regulatórias.

Celebrar a pesquisa de Tatiana Sampaio não é anunciar milagres, nem alimentar expectativas irreais em pacientes e famílias. É reconhecer que o Brasil ainda é capaz de produzir ciência de fronteira, mesmo em um ambiente historicamente hostil à pesquisa. É compreender que cada passo dado com cautela hoje evita frustrações profundas amanhã. Ciência séria não corre — ela avança.

Ainda assim, seguimos distraídos. Em uma semana, o país se mobiliza — com razão — pela morte do cachorro Orelha. Em outra, discute escândalos financeiros, crises bancárias, fraudes e disputas políticas barulhentas. Tudo isso importa. Mas chama atenção como boas notícias raramente ganham o mesmo espaço, o mesmo fôlego ou a mesma indignação coletiva. A ciência, quando não vira polêmica, vira silêncio.

Valorizar o trabalho de Tatiana Sampaio não é apenas celebrar uma cientista. É afirmar que o Brasil ainda produz futuro, mesmo quando parece afogado no presente. Seu trabalho nos autoriza a ter esperança — mas uma esperança adulta, que respeita o tempo da realidade e não confunde pesquisa séria com promessa fácil. Otimismo, sim. Pressa, não. Porque quando a ciência acerta, ela muda vidas. E isso exige método, paciência e respeito ao processo.

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O mundo está em caos – E nós estamos no meio disso, gostemos ou não

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Vivemos com a falsa sensação de que o mundo acontece longe. Que guerras, disputas de poder e movimentos geopolíticos são temas para jornais estrangeiros, especialistas engravatados e debates que não atravessam o nosso portão. É um engano confortável — e muito perigoso.

A história já nos ensinou, mais de uma vez, que quando o mundo entra em crise, ninguém fica ileso. O problema é que insistimos em aprender sempre da pior forma. Trazer uma guerra para o centro do cenário global em um período de instabilidade não é apenas um problema diplomático. É um sinal de alerta.

Vivemos com a falsa sensação de que o mundo acontece longe. Que guerras, disputas de poder e movimentos geopolíticos são temas para jornais estrangeiros, especialistas engravatados e debates que não atravessam o nosso portão. É um engano confortável — e muito perigoso.

A história já nos ensinou, mais de uma vez, que quando o mundo entra em crise, ninguém fica ileso. O problema é que insistimos em aprender sempre da pior forma. Trazer uma guerra para o centro do cenário global em um período de instabilidade não é apenas um problema diplomático. É um sinal de alerta.

Viver tempos de crise significa viver tempos de escassez. E escassez não é um conceito abstrato: ela aparece no preço do alimento, no custo da energia, no valor do transporte, na dificuldade de manter empregos, na insegurança cotidiana. Em tempos instáveis, a vida, que já anda apertada, fica ainda mais difícil — e mais imprevisível.

Quando olhamos para o tabuleiro mundial hoje, o cenário não inspira nenhuma tranquilidade. As atitudes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com sua política agressiva, imprevisível e voltada ao conflito permanente, não são apenas retóricas eleitorais. Elas tensionam mercados, alianças e como o mundo funciona.

Do outro lado, Vladimir Putin (presidente da Rússia) insiste em uma lógica de força, onde a guerra não é exceção, mas instrumento político. E, silenciosamente — talvez de forma ainda mais eficiente — a China avança, ampliando seu poder econômico, tecnológico e político, ocupando espaços que antes eram hegemonicamente dos Estados Unidos.

Não se trata de escolher mocinhos ou vilões. Trata-se de compreender que estamos diante de uma mudança abrupta na forma como o mundo é organizado e por quem é gerido. É uma briga de poderes. A China caminha para superar, em pouco tempo, o capital político e econômico americano, enquanto o Ocidente parece fragmentado.

Esse desequilíbrio não é apenas teórico: ele cria um ambiente propício para conflitos maiores — e conflitos, historicamente, nunca ficam restritos aos seus pontos de origem.

Alguns ainda romantizam o caos. Sempre haverá quem diga que “gosta de quem faz bagunça”, de líderes que “botam para acontecer”, de discursos duros e gestos agressivos. O problema é que essa suposta coragem quase nunca é paga por quem a aplaude. A conta chega para o trabalhador comum, para quem já luta para fechar o mês, para quem sente o impacto de cada reajuste no supermercado, no aluguel, no combustível. O caos costuma ser um privilégio para poucos — nunca uma experiência desejável para meros mortais, como nós.

Períodos de instabilidade mexem com tudo: com preços, com oportunidades, com investimentos, com segurança e até com a forma como nos relacionamos. Eles corroem a previsibilidade — e viver sem previsibilidade é viver em permanente estado de alerta. Planejar o futuro vira luxo. Sonhar vira risco. E sobreviver passa a ser prioridade. A ansiedade coletiva cresce, o medo se normaliza e a sensação de chão firme desaparece.

É por isso que não faz sentido dizer que isso “não tem nada a ver com a gente”. Tem. Tem a ver com Nova Friburgo, com o Rio de Janeiro, com cada cidade que depende de cadeias globais de produção, de comércio, de energia e de estabilidade econômica. O mundo não é mais compartimentado. O que explode lá fora ecoa aqui dentro.

Preocupar-se com o que acontece entre Estados Unidos, Rússia e China não é alarmismo. É maturidade. É entender que as grandes peças desse tabuleiro mundial se movem, e quando se movem, esmagam o que estiver no caminho. Nós, muitas vezes, somos esse caminho — sem blindagem, sem controle e sem margem de escolha. Somos um mero navio pequeno em meio à tempestade.

Se hoje já está difícil pagar as contas, imaginar que tempos de crise tornarão a vida mais fácil é ilusão. Instabilidade nunca melhora a vida de quem vive do trabalho, da previsibilidade e do esforço diário. Pelo contrário: ela testa limites, reduz escolhas e impõe sacrifícios que muitas vezes não estamos dispostos a assumir.

Talvez a maior ingenuidade do nosso tempo seja acreditar que podemos nos dar ao luxo de não olhar para o que acontece mundo. Não podemos. Porque o mundo está olhando para nós — e decidindo, sem nos consultar, como será o próximo capítulo da nossa própria história. História essa, que estará nos livros escolares do futuro.

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Suzane Von Richthofen: herança que divide bens e opiniões

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Há crimes que não terminam quando a sentença é lida. Eles não se encerram com o trânsito em julgado, nem se dissipam com o passar dos anos. Permanecem suspensos no imaginário coletivo, como uma ferida que insiste em ser tocada. O nome de Suzane von Richthofen é um desses fantasmas.

Sempre que reaparece, nos obriga a encarar perguntas que preferiríamos evitar em meio a tanta barbárie. Agora, o debate retorna sob outra forma: o direito à herança após a morte de um tio recém falecido. E, mais uma vez, o país se divide entre o que a lei permite e o que a consciência rejeita.

Há crimes que não terminam quando a sentença é lida. Eles não se encerram com o trânsito em julgado, nem se dissipam com o passar dos anos. Permanecem suspensos no imaginário coletivo, como uma ferida que insiste em ser tocada. O nome de Suzane von Richthofen é um desses fantasmas.

Sempre que reaparece, nos obriga a encarar perguntas que preferiríamos evitar em meio a tanta barbárie. Agora, o debate retorna sob outra forma: o direito à herança após a morte de um tio recém falecido. E, mais uma vez, o país se divide entre o que a lei permite e o que a consciência rejeita.

O incômodo é compreensível. Para muitos, soa quase ofensivo que alguém condenada por um crime tão brutal possa receber qualquer herança. A sensação de injustiça pela sociedade é imediata, visceral, quase automática. Mas o Direito raramente caminha de mãos dadas com o instinto.

Ele não foi criado para satisfazer nossa sede moral nem para oferecer catarse coletiva. Foi pensado para organizar conflitos dentro de regras previamente estabelecidas — mesmo quando isso nos desagrada.

Do ponto de vista jurídico, o tema não é novo. O Código Civil brasileiro prevê a chamada indignidade sucessória, que impede alguém de herdar quando pratica determinados atos gravíssimos contra o autor da herança, como homicídio doloso, tentativa de homicídio ou crimes contra a honra em determinadas circunstâncias.

O ponto central — e que costuma gerar revolta — é que a indignidade não se presume e tampouco se estende automaticamente. Ela exige vínculo direto entre o herdeiro e quem morreu. O que foi algo que aconteceu com a Suzane ao não receber a herança dos seus pais.

No caso em discussão, o tio não foi vítima do crime cometido no passado. E o Direito Civil, goste-se ou não, trabalha com critérios objetivos, não com juízos morais amplos. Não existe, na legislação brasileira, uma cláusula que autorize excluir alguém da sucessão por ser “indigno aos olhos da sociedade”. O Direito pune fatos específicos, não a repulsa coletiva nem a memória social de um crime.

É exatamente aqui que o desconforto cresce. Porque a sociedade espera da Justiça algo além da técnica. Espera consolo, resposta emocional, reparação simbólica. Mas o Judiciário não foi desenhado para isso. Ele não julga caráter, não mede arrependimento e não reescreve o passado para torná-lo mais aceitável. Ele aplica a lei — inclusive quando o resultado nos causa náusea.

Talvez o erro esteja na expectativa. Queremos que o Direito funcione como uma espécie de punição eterna, um prolongamento moral da condenação penal até o fim da vida. Mas o sistema jurídico não prevê castigos perpétuos. A pena foi aplicada, a condenação cumprida, e o Direito Civil (dos bens do seu tio) não atua como extensão do Direito Penal (da morte dos seus pais) no plano emocional.

Isso não significa que o debate seja ilegítimo. Pelo contrário. Ele revela uma fratura profunda entre o que a sociedade sente e o que o ordenamento jurídico permite. Revela também nossa dificuldade em lidar com a ideia de que a lei, muitas vezes, não conforta. Ela organiza. E organizar o caos nem sempre produz sensação de justiça.

Há ainda uma pergunta incômoda que insistimos em ignorar: se começarmos a relativizar direitos com base na indignação social, onde isso termina? Quem define o grau aceitável de indignidade? O crime mais chocante? O réu que se torna símbolo? O Direito, quando abandona critérios objetivos, passa a caminhar em terreno perigoso — onde a exceção vira regra e a emoção substitui a norma.

No fundo, o caso Suzane fala menos sobre herança e mais sobre limites. Sobre até onde queremos que o Estado vá em nome da nossa moral. Sobre a dificuldade de aceitar que nem toda decisão legal parece justa — embora seja juridicamente correta. E sobre o fato de que a Justiça, muitas vezes, nos frustra justamente porque não foi feita para nos agradar.

Talvez o maior choque não seja ela poder herdar. Talvez seja perceber que o Direito não existe para nos oferecer conforto emocional. Ele existe para garantir previsibilidade. Mesmo quando isso nos obriga a engolir decisões amargas. E, diante desse espelho desconfortável, somos nós que precisamos decidir se queremos leis que organizem a sociedade ou leis que apenas reflitam a indignação do momento.

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​A cidade virou o ano sozinha

quinta-feira, 08 de janeiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

A virada do ano é, talvez, o momento mais simbólico de uma cidade. Não apenas pela contagem regressiva ou pelos fogos no céu, mas pelo que ela diz — ou deixa de dizer — sobre pertencimento, cuidado e presença do poder público. É quando a cidade se olha no espelho coletivo e tenta acreditar que o próximo ciclo pode ser melhor. Em Nova Friburgo, porém, a passagem de ano quase aconteceu em silêncio.

A virada do ano é, talvez, o momento mais simbólico de uma cidade. Não apenas pela contagem regressiva ou pelos fogos no céu, mas pelo que ela diz — ou deixa de dizer — sobre pertencimento, cuidado e presença do poder público. É quando a cidade se olha no espelho coletivo e tenta acreditar que o próximo ciclo pode ser melhor. Em Nova Friburgo, porém, a passagem de ano quase aconteceu em silêncio.

Não fosse a iniciativa privada, não haveria palco, música ou qualquer gesto público que marcasse o encerramento de mais um ciclo. Os eventos que deram vida à virada não nasceram da prefeitura, mas do esforço de produtores independentes, com destaque para o DJs Kokadah, Kaynan Sátiro e outros agentes culturais que apostaram recursos próprios para que Friburgo não atravessasse o Ano-Novo como quem fecha a porta e apaga a luz.

Há algo profundamente simbólico nisso. Em uma data que pertence a todos — independentemente de crença, bairro ou posição política — coube à iniciativa privada ocupar o espaço que o poder público escolheu deixar vazio. Não por vaidade, mas por responsabilidade. Não por interesse político, mas por compromisso com a cidade e com as pessoas que queriam simplesmente celebrar.

A ausência da prefeitura chama ainda mais atenção quando se observa o calendário recente de gastos públicos. Ao longo do ano, não faltaram recursos para grandes estruturas, palcos, artistas e shows ligados ao Natal e a eventos religiosos específicos. Foram investimentos elevados, legítimos em sua natureza, mas que revelam uma escolha clara quando comparados ao abandono completo da virada do ano.

A pergunta não é sobre a importância de eventos natalinos ou evangélicos — eles cumprem papel cultural e social relevante. A questão é o critério. Como explicar que haja verba para determinadas celebrações e nenhuma para o momento mais coletivo do calendário? O orçamento, como se sabe, não é neutro. Ele revela prioridades. E prioridades revelam a forma como uma gestão enxerga sua própria cidade.

Enquanto isso, Nova Friburgo ainda tenta digerir episódios muito mais graves do que a ausência de um evento. O pai da menina que faleceu recentemente em Lumiar veio a público desmentir o prefeito Johnny Maycon, afirmando que jamais foi contactado, contrariando declarações oficiais. Em meio ao luto, o que se viu foi mais um desencontro doloroso entre o discurso institucional e a realidade vivida pelas famílias.

A situação se agrava quando moradores relatam que comentários de protesto vêm sendo apagados das redes sociais do prefeito. Reclamações, críticas e questionamentos desaparecem como se nunca tivessem existido. Não é um fenômeno novo. A coluna já registrou episódios semelhantes anos atrás. O que muda agora é o contexto: o silêncio não tenta apagar apenas opiniões, mas indignações legítimas diante de tragédias reais.

Há algo de profundamente simbólico nessa tentativa de controle. Quando a crítica incomoda mais do que a dor, algo está fora do lugar. A política, quando deixa de ouvir, passa a administrar apenas a própria imagem. E quando a imagem vira prioridade, a cidade vira figurante de um governo que fala muito e escuta pouco.

Talvez por isso a iniciativa privada tenha sido tão importante neste Ano Novo. Não apenas pelo evento em si, mas pelo gesto. Alguém precisou lembrar que a cidade existe, que as pessoas querem estar juntas, que a virada importa. Quando o poder público se ausenta, outros ocupam o espaço — de precisar gritar em meio a tantos silêncios sem explicação.

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2026: Começaremos o ano com o “Pé na Cova”

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Antigamente passávamos o Natal brigando sobre política com a família, com amigos e até com desconhecidos. Agora, tudo indica que chegou a hora de brigar com os objetos. Nesta semana, a política brasileira deu uma prévia do que será 2026: um ano de disputas intermináveis, polarização ruidosa e brigas absolutamente idiotas.

Antigamente passávamos o Natal brigando sobre política com a família, com amigos e até com desconhecidos. Agora, tudo indica que chegou a hora de brigar com os objetos. Nesta semana, a política brasileira deu uma prévia do que será 2026: um ano de disputas intermináveis, polarização ruidosa e brigas absolutamente idiotas.

A cena seria engraçada se não fosse reveladora. A Havaianas lançou uma campanha sugerindo que se entre em 2026 com os ‘dois pés’ — e não apenas com o “pé direito”, metáfora popular de sorte e bons presságios. Bastou isso para que metade do país enxergasse ideologia, militância e ameaça moral em um pedaço de borracha.

O objeto mais democrático do Brasil foi elevado à condição de inimigo político. Parte da população resolveu brigar contra um chinelo. Sim, contra um chinelo: talvez a veste mais democrática entre todos os brasileiros, presente em todas as classes sociais e regiões do país.

Nada disso acontece no vazio. A mesma semana foi marcada por notícias graves, que em qualquer país minimamente atento dominariam o debate público. Falava-se do envolvimento da esposa de um ministro do Supremo Tribunal Federal em uma consultoria milionária ligada a um banco associado a grandes fraudes.

Falava-se também de deputados flagrados com quantias expressivas de dinheiro em casa, sem explicações convincentes. Em uma semana em que o Congresso pede R$ 22 bilhões em emendas parlamentares, ainda assim, o assunto dominante foi um chinelo. A inversão de prioridades não poderia ser mais simbólica para começarmos 2026 com o “pé na cova”.

Esse deslocamento do foco não é acidente; é método. Talvez seja o retrato mais fiel do Brasil que caminha para 2026. Um país movido por política fanática, identidades rígidas e uma necessidade quase infantil de escolher lados, ainda que artificiais, beirando discussões inimagináveis e quase que infantilizadas.

Escândalos reais disputam espaço com indignações fabricadas como quem briga por atenção em uma sala lotada. Tudo acontece ao mesmo tempo, nada se fixa. O debate público deixa de ser conversa e vira ruído. O que importa já não é a gravidade do fato, mas o barulho que ele consegue produzir.

Vivemos em um país histérico, onde o conflito virou método e também mercadoria. Houve um tempo em que falar besteira causava constrangimento. Hoje, causa engajamento. O exagero rende mais que o argumento, e o ódio, esse sim, nunca falha como produto altamente lucrativo.

À medida que 2026 se aproxima, esse cenário tende a se tornar ainda mais insuportável. Não pelo debate político em si, que é saudável e necessário, mas pela caricatura dele. As discussões deixam de tratar de ideias, projetos e soluções, e passam a girar em torno de símbolos vazios e guerras morais artificiais.

Se hoje brigamos por um chinelo, amanhã brigaremos por um silêncio mal interpretado, um gesto fora de contexto ou uma postagem que não seguiu o roteiro esperado. Qualquer detalhe vira munição. Qualquer gesto vira prova. Qualquer nuance vira ameaça.

O quadro se agrava quando se soma a isso o avanço acelerado da inteligência artificial. Vivemos um tempo em que já não é simples distinguir um vídeo real de um falso, uma fala verdadeira de uma montagem perfeita. A tecnologia não chega para esclarecer; chega para confundir com eficiência.

Áudios inventados, imagens manipuladas e discursos fabricados circularão com velocidade muito maior do que qualquer checagem. A mentira será mais rápida, mais convincente e, sobretudo, mais rentável. A verdade chegará atrasada — quando chegar — pedindo licença para entrar.

Nesse ambiente, a violência política deixa de ser exceção e passa a ser método. Primeiro verbal, depois simbólica, por fim, física. Quando tudo vira guerra, nada parece exagero. Divergência vira ameaça, opinião vira ataque pessoal. O outro deixa de ser cidadão e passa a ser inimigo.

E inimigos não precisam ser compreendidos, apenas combatidos. Foi assim que chegamos a 2022, um dos períodos mais violentos e polarizados da nossa história recente. E tudo indica que 2026 não será uma correção de rota, mas a continuidade desse mesmo espetáculo cansado.

Mario Quintana dizia que exagerar é uma forma de chamar atenção para o óbvio. O óbvio, neste caso, é que estamos exaustos antes mesmo de começar. 2026 promete ser um ano insuportável não pelos desafios reais do país, mas pelas brigas inúteis que escolhemos travar.

Não pela política em si, mas pelo teatro grotesco montado ao redor dela. Um palco permanente de indignações seletivas, conflitos artificiais e personagens que lucram com o caos. Talvez o maior desafio do próximo ano não seja escolher candidatos ou ideologias.

Talvez seja escolher não entrar em todas as disputas oferecidas. Porque quando tudo vira conflito, ninguém vence. E quando o país se ocupa em odiar objetos, sobra pouco espaço para enfrentar problemas reais.

2026 ainda não chegou, mas o ensaio geral já começou — e ele diz muito sobre o futuro que estamos aceitando discutir.

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A prefeitura do aplauso: festas, futebol e o abandono do essencial

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Há momentos em que a cidade fala mais alto do que qualquer discurso oficial. Nova Friburgo viveu um desses dias ao saber da morte de uma menina de 8 anos em Lumiar, num episódio marcado por um detalhe devastador: não havia ambulância disponível para socorrê-la.

Não foi apenas uma tragédia pessoal, foi um retrato público, cruel e incômodo, da forma como o município tem organizado suas prioridades. Lumiar não é distante do mapa, mas costuma ser distante da gestão. Quando o socorro não chega, o tempo deixa de ser relógio e passa a ser sentença.

Há momentos em que a cidade fala mais alto do que qualquer discurso oficial. Nova Friburgo viveu um desses dias ao saber da morte de uma menina de 8 anos em Lumiar, num episódio marcado por um detalhe devastador: não havia ambulância disponível para socorrê-la.

Não foi apenas uma tragédia pessoal, foi um retrato público, cruel e incômodo, da forma como o município tem organizado suas prioridades. Lumiar não é distante do mapa, mas costuma ser distante da gestão. Quando o socorro não chega, o tempo deixa de ser relógio e passa a ser sentença.

A falta de uma ambulância não é um acidente isolado, é consequência previsível de escolhas administrativas que tratam o essencial como despesa incômoda e o supérfluo como investimento político. A morte não aceita justificativas técnicas depois do fato. Enquanto famílias lidam com o irreparável, a cidade segue sendo convidada ao espetáculo.

Recursos públicos são direcionados a carros alegóricos, estruturas cenográficas, iluminação e eventos que duram o tempo de uma selfie. Nada contra a festa — ela tem seu lugar —, mas tudo contra o desequilíbrio. Ambulâncias não rendem aplausos, não aparecem em palanque, não viram propaganda, mas salvam vidas. E salvar vidas deveria ser o mínimo inegociável de qualquer gestão.

A comparação é dura porque é real. Parte do dinheiro empregado em enfeites de fim de ano poderia reforçar a frota da saúde, garantir atendimento contínuo nos distritos, reduzir o risco de novas perdas. Mas o município prefere investir no que brilha, mesmo que só por algumas noites.

Quando a essencial falha, a festa não celebra — ela constrange. E o brilho, nesse contexto, apenas ilumina a falta. O cenário de irresponsabilidade não se limita à saúde.

O vereador Marcos Marins precisou procurar a delegacia para registrar ocorrência após sofrer ameaças. Independentemente de concordâncias ou divergências políticas, quando um vereador é intimidado, a democracia inteira é pressionada. O silêncio do poder público diante disso também comunica.

Comunica descuido, omissão e uma perigosa tolerância com o clima de hostilidade que se instala quando o debate perde o limite. Como se não bastasse, o calendário avança para o fim do ano e traz consigo o recesso. Repartições públicas reduzem atividades, processos administrativos ficam suspensos, respostas são adiadas. A cidade, no entanto, não entra em pausa. Pessoas adoecem, acidentes acontecem, emergências surgem.

O cidadão segue vivendo enquanto a máquina pública desacelera, como se a urgência pudesse aguardar janeiro e como se o sofrimento tivesse data marcada para cessar.

Nesse contexto, causa espanto que uma das preocupações centrais do Executivo tenha sido decretar recesso para que servidores acompanhassem jogos do Flamengo no Mundial Intercontinental e do Vasco, na Copa do Brasil. Não se trata de criticar o futebol, paixão legítima e popular. Trata-se do símbolo. Em meio ao caos, a mensagem transmitida é clara: o espetáculo ocupa o centro, enquanto a gestão se ausenta.

Torcer vira prioridade, governar vira detalhe. E símbolos, na política, falam alto. Há anos clubes cariocas participam dessa competição, chegam a finais, mobilizam emoções. Nada disso é novidade. O que surpreende é transformar isso em agenda administrativa num município que enfrenta mortes evitáveis, ameaças políticas e serviços públicos fragilizados.

Pão e circo seguem sendo a fórmula preferida quando falta planejamento, presença e coragem para enfrentar problemas reais.

O espetáculo distrai, anestesia, cria a ilusão de normalidade. Mas a conta chega. Chega no hospital sem estrutura, na estrada sem resgate, na delegacia lotada, na família que espera socorro que não vem. Governo não é palco, cidade não é plateia, e tragédia não pode ser tratada como dano colateral aceitável da má gestão.

Talvez a pergunta que reste seja simples demais para continuar sendo ignorada: quantas ambulâncias cabem dentro de um carro alegórico? Quantas vidas custam alguns dias de festa? Nova Friburgo não precisa de mais distração, precisa de prioridade. Porque governar não é entreter. Governar é cuidar — especialmente quando tudo grita por responsabilidade.

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De Friburgo ao Vietnã: quando uma menina do interior decide não caber no próprio mapa

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Em tempos em que o noticiário pesa mais do que alivia, um sopro vindo do Vietnã colocou Nova Friburgo — de mansinho, mas com firmeza — no radar do mundo. O nome por trás desse feito é Maiara Braga Porto, 23 anos, friburguense, atriz, modelo, estudante de Odontologia e dona de uma trajetória tão improvável quanto luminosa.

Em tempos em que o noticiário pesa mais do que alivia, um sopro vindo do Vietnã colocou Nova Friburgo — de mansinho, mas com firmeza — no radar do mundo. O nome por trás desse feito é Maiara Braga Porto, 23 anos, friburguense, atriz, modelo, estudante de Odontologia e dona de uma trajetória tão improvável quanto luminosa.

Ela já atuou em produções da Netflix, Prime Video, novelas da Record e peças de teatro, sempre com disposição para aprender e generosidade para trabalhar. Muito bem-quista pelo pai de Gisele Bündchen, cercada de profissionais competentes e amparada por uma família que não perde um passo, Maiara ergue sua carreira como quem constrói um edifício: com fundação firme, paciência e propósito.

No Miss Charm — um dos concursos internacionais mais relevantes do continente asiático — Maiara não representa apenas Nova Friburgo, mas o Brasil. Ali, o glamour divide espaço com impacto cultural, discurso, identidade e presença. Não é um desfile de vestidos longos: é quase uma arena diplomática onde países apresentam mulheres que reúnem trajetória, voz e responsabilidade social.

O que é o Miss Charm?

Ao contrário do imaginário comum, o Miss Charm não é um desfile de vestidos longos: é um palco diplomático, onde países apresentam mulheres que somam carreira, identidade, propósito e voz. E é justamente por isso que a presença de uma friburguense ali importa: Maiara não pisa naquele palco sozinha — leva com ela uma cidade inteira que raramente acredita nos talentos que cria.

Maiara em foco pelo mundo

O concurso, que mobiliza milhões de espectadores na Ásia, cresce a cada edição e transforma suas candidatas em porta-vozes de causas, regiões e culturas. É por isso que ver uma friburguense naquele palco provoca algo aqui dentro: ela leva consigo uma cidade que, embora produza talentos em série, nem sempre acredita neles antes que o mundo o faça — e é justamente aí que sua presença ganha força.

Nos últimos dias, sua participação tomou proporções inesperadas. A roupa do Flamengo usada em uma das atividades do concurso incendiou a internet vietnamita e, em poucas horas, transformou Maiara em fenômeno espontâneo. Vieram então os vídeos de apoio: Neymar, de forma direta e simpática; Zico, venerado na Ásia como uma espécie de divindade esportiva; e milhares de torcedores fascinados por uma brasileira que mistura carisma, beleza e naturalidade.

Beleza que ultrapassa o externo

Mas o encanto vai além da imagem. Maiara é daquelas pessoas que iluminam sem esforço, dona de uma presença que enche a sala antes mesmo de qualquer aplauso. Brinca-se que deixaria até a Garota de Ipanema parecer pouco temperada  - e a hipérbole, embora divertida, só reforça o fato de que sua beleza é evidente, mas está longe de ser seu maior atributo.

“Sempre me falaram que uma menina do interior não ia conquistar o mundo, que era muito difícil. Muitas pessoas desacreditavam e diziam que não era para mim, que não ia dar certo. E eu fico muito feliz de estar carregando o nome do meu país com diversas outras meninas que também carregam os dela, junto da sua história”.

 Ainda assim, avançou com teimosia doce e construiu, passo a passo, uma trajetória que não pede licença: apenas existe, cresce e inspira quem observa. Encanta especialmente quem conhece sua atuação social. Maiara apadrinha ONGs, participa de projetos ligados à BFIP/ONU e encara o privilégio da visibilidade como um instrumento de transformação. Trabalha com crianças no Jardim Gramacho, se envolve com iniciativas de impacto local e fala com convicção sobre devolver ao mundo aquilo que a vida lhe ofereceu em oportunidade, afeto e caminho. “Eu posso dar visibilidade, posso tentar ajudar com a mídia, com os contatos que a gente conquistou no caminho.” – explica Maiara.

Ela própria reconhece que muitas portas se abriram somente quando deixou Friburgo. É um detalhe que dói porque é verdadeiro: somos uma cidade que exporta talentos, mas raramente os acolhe antes disso. Paradoxal para um polo de moda, lingerie, criação estética e audiovisual — um lugar que fabrica beleza, mas nem sempre enxerga a beleza que cria.

“Às vezes temos ouro guardado em Friburgo e não sabemos. Foi difícil ter oportunidade aí. Quando fui para o Rio, para São Paulo, para as capitais, fui mais valorizada. Eu acredito que a gente precisa aprender a valorizar mais o que a gente tem perto da gente e não ficar valorizando só o que vem de fora. E a minha missão é além de ajudar quem precisa, mostrar que sempre é possível.

Talvez esse seja o verdadeiro charme — não o do concurso, mas o dela. O charme de quem junta o mundo numa mala e ainda assim carrega a cidade como amuleto no bolso. O charme de quem atravessa oceanos sem perder o sotaque, o afeto e a vontade de representar algo maior. De quem expande não só o próprio mapa, mas o nosso — e nos lembra, com delicadeza, que às vezes o ouro que buscamos está bem aqui, só esperando que a gente aprenda a enxergar.

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