Noutro dia, falando a respeito do primeiro amor, uma questão rondou a conversa: será que o primeiro amor, hoje, possui o mesmo encantamento, pureza e intensidade do que em tempos passados? É uma questão a observar.
Noutro dia, falando a respeito do primeiro amor, uma questão rondou a conversa: será que o primeiro amor, hoje, possui o mesmo encantamento, pureza e intensidade do que em tempos passados? É uma questão a observar.
Busquei leituras que abordassem o tema. Escolhi dois contos: um clássico russo e um atual, brasileiro. O clássico é do escritor russo, Ivan Turguêniev. “O Primeiro Amor”, uma obra de ficção respeitada, envolvente e impactante, publicada em 1860, narra o despertar do amor de um jovem de 16 anos por sua vizinha mais velha. O autor retrata a riqueza das emoções, expondo com maestria os sentimentos do protagonista, Wladimir Petrovich.
Já o conto brasileiro é “Meu primeiro amor”, de Alana Dornelas, uma história comovente mostra a coragem de amar de dois adolescentes, Lucas e Marina, que precisam lidar com conflitos relacionados à escolha dos caminhos futuros, incompatíveis com o relacionamento amoroso.
Em todos os tempos, o primeiro amor acontece naturalmente e é inesquecível. De um modo geral, a flecha do cupido adentra o coração em plena adolescência quando ele e ela estão experimentando o turbilhão de transformações biológicas, psicológicas e sociais simultâneas e reconstruindo a identidade individual não mais como criança, mas como pessoa em processo de adultez. A sexualidade desponta intensamente, fortalecendo os elos afetivos. Mergulhado em universos cheios de mistérios, descobertas e fantasias, o primeiro amor não é banal; a vida ganha novas cores, contornos e vibrações. Não há receitas para experimentar esse momento, que enleva e provoca um dos mais fortes sentimentos no adolescente, deixando marcas, influenciando, inclusive, os futuros modos de amar, mesmo se o primeiro amor se estabelecer ao longo da vida.
O primeiro amor acontece naturalmente. Não é imposto. Simplesmente surge num entardecer, numa visita ou num acaso, podendo ser recordado em detalhes. Os momentos que seguem podem ser surpreendentes e desconcertantes, fazer o coração palpitar e o sangue fermentar nas veias. O desejo de estar junto é crescente, deixando os amados suspirosos e invadidos por fantasias. Se correspondido ou não, o primeiro amor tanto pode caber em todas as páginas de um livro, como resumido em uma folha de papel. Em todos os casos, sempre é único.
A figura da pessoa amada é um espetáculo que faz o amado ficar em estado de êxtase. É uma imagem para se ver e tocar, admirar e sonhar. Os modos de olhar para o ser adorado ganham um brilho especial, até do semblante evaporam os ares da paixão. Para o adolescente, é um momento de vida que pode ser experimentado com grandes alegrias e dores. As lágrimas e os risos são abundantes. Momentos em que o imaginário e a realidade se mesclam em uma dinâmica furta-cor; a imaginação conduz as ações e estas oferecem subsídios à fantasia.
O primeiro amor jamais prescinde de beijos suaves e delicados, fortes e intensos. O toque das mãos e dos lábios, o abraço e o carinho, as conversas bobas e os planos para o futuro alimentam o clima de paixão, cheios de purpurina, confetes e explosões. É possível, pelo amor, caminhar sobre brasas, comer panqueca de pimenta no café da manhã e fazer serenata embaixo da janela em noites chuvosas.
Hoje, os jovens, têm acesso às redes sociais carregadas de estímulos e informações sobre a sexualidade, conceitos pouco éticos, liberdade para vivenciar relacionamentos amorosos. Como podem, então, experimentar o primeiro amor? Ou melhor, qual o espaço que esse fato, carregado de nuances, brilho e histórias, tem para despontar e eclodir?
Aproveitando as palavras de Vinicius de Moraes ao tema, me arrisco a escrever: quem ama quer ir além da beleza, quer encontrar no outro algo a mais que faça sentir saudades, torne a alma desejante do amor de quem ama. Sente-se estimulado a compartilhar alegrias e entristecimentos, a ouvir histórias e contar segredos. É ter alguém por quem tenha motivos para construir a própria vida.
Coincidentemente, hoje, ao atravessar a Praça Getúlio Vargas, vi um casal que se beijava longamente, dando a impressão a quem passava, de estarem tomados por sentimentos profundos de amor. Ofereciam à cidade uma imagem bonita que valia a pena admirar.
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