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Gratidão e empatia

terça-feira, 03 de março de 2026
por Tereza Malcher

Estou numa fase de envolvimento com a espiritualidade, talvez por já ter passado dos 70 anos, ter adquirido uma visão mais humanista. Uma amiga, a quem admiro e respeito, me apresentou um livro escrito e publicado por seu filho, Carlos Augusto de Araújo Vieira, “Gratidão e o sentido da vida: uma perspectiva cristocêntrica”. Confesso não ter o costume de ler textos religiosos, mas o coloquei na minha mesinha de cabeceira e comecei a lê-lo antes de dormir.

Estou numa fase de envolvimento com a espiritualidade, talvez por já ter passado dos 70 anos, ter adquirido uma visão mais humanista. Uma amiga, a quem admiro e respeito, me apresentou um livro escrito e publicado por seu filho, Carlos Augusto de Araújo Vieira, “Gratidão e o sentido da vida: uma perspectiva cristocêntrica”. Confesso não ter o costume de ler textos religiosos, mas o coloquei na minha mesinha de cabeceira e comecei a lê-lo antes de dormir.

A palavra gratidão me tocou com gentileza. Logo, me lembrei de uma outra grande amiga, psiquiatra e psicanalista, que certa vez me disse, com um desapontamento cobrindo o rosto: “A gratidão é um sentimento difícil de se ver”. Nunca me esqueci dessa fala, vinda de uma médica que lida diariamente com as emoções humanas.

Depois que comecei a ler o livro, perguntei a algumas pessoas o que elas pensavam a respeito da gratidão e todas, sem exceção, me disseram o mesmo. Então, resolvi mergulhar a fundo no tema, talvez um dos mais complexos a serem abordados. Tão logo iniciei minhas pesquisas, me deparei com o conceito de empatia. Ou seja, a gratidão nasce e se fortalece através da empatia, dois sentimentos civilizatórios que humanizam as relações sociais e afetivas. Elas habitam em cada gesto e no olhar, nas ações e nas palavras, podendo estar presentes em todos os momentos quotidianos. A frase de Alberto Caeiro, heterônimo (*) de Fernando Pessoa, resume a dinâmica existente entre empatia e gratidão. “A beleza pura de uma flor, sem necessidade de interpretações metafísicas ou filosóficas, é suficiente para justificar a existência. A vida vale a pena pelo simples fato de existir e ser sentida”

A gratidão é um sentimento profundo que reconhece o valor das coisas, dos favores e bençãos recebidas, um modo de apreciar e engrandecer o bem-estar e a positividade da vida. Há quem diga que é guardada nas memórias do coração e alimentada pelas sensações de suficiência, estado emocional de satisfação e aceitação em que o indivíduo reconhece o valor, as possibilidades e as limitações de si, do outro e das circunstâncias.

Amigos, quem é grato possui nobreza, sabedoria e sinceridade. A gratidão é um tesouro que devemos aprender a cultivar a partir da percepção de não ser possível dar conta de tantas tarefas e responsabilidades, bem como do reconhecimento dos esforços empreendidos por outros para que possamos fazer nossas pequenas e grandes conquistas. É um gesto de humildade.

A empatia é a capacidade que uma pessoa tem de se colocar no lugar do outro, compreender suas emoções, pensamentos e atitudes, mesmo sem concordar.  É uma percepção sensível e inteligente.

Como percebemos o outro através da intuição e dos sentidos (visão, audição, tato, olfato), como também somos seres situados em circunstâncias sociais, históricas e culturais, em relações familiares, afetivas, amorosas e profissionais, a empatia caminha, de modo consciente ou não, por todas essas esferas.

A empatia é um sentimento livre. Pode acontecer naturalmente, como através de um processo reflexivo mais ou menos profundo. Em todos os casos, mesmo acontecendo numa fração de segundos, o tempo de convivência e observação do outro vai delineando o sentimento empático. Aliás, na vida, tudo é passível de transformação.

A empatia é a arte da conexão entre pessoas, enquanto a gratidão é a arte do reconhecimento. São sentimentos pautados em virtudes e na presença. São apreendidos e constituem os fundamentos das relações humanas sinceras, que emergem do entendimento das condições reais. O dinamismo entre a empatia e a gratidão é a retroalimentação quando é criado um ciclo positivo de entendimento e colaboração.

Somos seres de relacionamento e afetividade. Não vivemos isolados, num universo à parte. Apesar de nascermos e morrermos sozinhos.

 (*) Heterônimo é uma personalidade criada por um autor e surge na literatura como um autor completo: com nome, biografia, estilo próprio e visão de mundo particular. Fernando Pessoa tinha mais de 70, como Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. 

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Homenagem aos cachorros de rua

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Tomada pelo amor aos animais e pela tristeza, devido ao episódio recente de violência contra o Cão Orelha, que comoveu o Brasil, vou escrever esta coluna em homenagem aos cachorros de rua. No nosso país, segundo a Organização Mundial de Saúde, existem 20 milhões de cachorros que sobrevivem nas ruas. A ideia de sobreviver é mais adequada pelas circunstâncias em que eles vivem dado à precariedade com que passam os dias. Cada um deles tem uma história de abandono. Soltos nas ruas dos bairros das cidades e nas estradas, estão sujeitos à própria sorte.

Tomada pelo amor aos animais e pela tristeza, devido ao episódio recente de violência contra o Cão Orelha, que comoveu o Brasil, vou escrever esta coluna em homenagem aos cachorros de rua. No nosso país, segundo a Organização Mundial de Saúde, existem 20 milhões de cachorros que sobrevivem nas ruas. A ideia de sobreviver é mais adequada pelas circunstâncias em que eles vivem dado à precariedade com que passam os dias. Cada um deles tem uma história de abandono. Soltos nas ruas dos bairros das cidades e nas estradas, estão sujeitos à própria sorte. Passam fome, sede, sofrem violências, além de estarem vulneráveis aos acidentes, como atropelamentos. Eles têm a integridade física e a emocional ameaçadas diariamente.

Os cães de rua merecem o nosso respeito, afeto e atenção. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, sancionou o Projeto de Lei 419/2023, de autoria do Legislativo, que reconhece o “Vira-Lata Caramelo” como uma expressão de relevante interesse cultural do Estado de São Paulo. Todas as cidades deveriam ter tal reconhecimento, o que faria com que os cães tivessem maior acolhimento dos habitantes, das instituições públicas e das empresas. Além do que se faz necessário a atenção com os cachorros devido ao cuidado com a saúde pública, posto que podem, como todo ser humano maltratado, transmitir doenças.  

Sinto-me feliz por ter adotado duas cadelas de rua. A Deia e a Pipa. Ambas estavam abandonadas e em estado precário. Ao acolhê-las tive a oportunidade de lhes oferecer uma vida digna. A Deia ficou conosco por mais de dez anos e faleceu já bem velha. Faz cinco anos que pegamos a Pipa no alto da estrada e ela está linda. Os cães adotados nos olham com o brilho da gratidão, expressam afeto profundo e estão sempre prontos a nos oferecer presença e solidariedade. A felicidade deles é estar ao nosso lado.

Certa vez, escutei dizer que os cães, não somente os de rua, são anjos que permanecem em nossas vidas em momentos especiais. Posso até dizer, por experiência própria, que estão ao nosso lado em situações difíceis e nos consolam com suas atitudes e gestos, na maioria das vezes silenciosos. Os cães possuem missões com os humanos, e, nós, também, com eles, ao torná-los, através da convivência, seres mais evoluídos.

Eu me encanto com Nova Friburgo pelo cuidado com que a população tem com os cachorros de rua. Certa vez, andando, de manhã, pela Rua Monte Líbano, vi um lojista colocando a vasilha de ração e água na porta da loja. Parei e admirei, sorridente. Então, ele me disse: eles vêm lá do alto das Braunes para comer todos os dias. Nos dias seguintes, quando ia para o centro, via cachorros descendo em passos firmes. Meu coração aplaudia os lojistas.

Faz tempo que li o livro da Lygia Bojunga, “Os colegas”, clássico da literatura infantil, premiado pelo Concurso de Literatura Infantil do Instituto Nacional do Livro em 1971. A escritora recebeu pelo conjunto de sua obra o Prêmio Christian Andersen, considerado o Prêmio Nobel da Literatura Infantil. “Os colegas” aborda a amizade entre animais abandonados: os vira-latas Virinha e Latinha, o coelho Cara de Pau, a cachorrinha Flor-de-Lis e o urso Voz de Cristal. Eles enfrentam o abandono e a solidão, constroem um lar, experimentam aventuras até encontrarem um modo criativo de viver. Guardo-o com carinho na estante e, agora mesmo, estou com ele em minhas mãos com a séria intenção de o reler.

Outras obras literárias contam histórias que envolvem a relação dos cães com seus donos. O livro “Marley e eu” é uma história emocionante baseada em fatos. O escritor e jornalista John Grogan conta relação com seu cão ao longo de treze anos, tempo em que Marley fez parte da sua vida familiar. O livro foi publicado em 2005, nos Estados Unidos. É considerado um best seller.

O que aconteceu recentemente com o vira-lata Orelha cortou o coração de todos nós. Espero que sua trágica morte se transforme em alerta para a atenção e respeito com os cachorros de rua, que as penalidades contra os animais sejam mais rigorosas. Que eles, sucumbidos ao abandono, sejam acolhidos pelas energias universais como seres abençoados.

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Marchinhas de carnaval e literatura, uma mistura criativa

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

No carnaval, a literatura sai do papel e ganha várias expressões no movimento das ruas, que contam histórias de diferentes maneiras, seja nas fantasias, nas máscaras, nas marchinhas, através da cantoria dos blocos, nos desfiles das escolas de samba. Muitos brasileiros que guardam poesia na alma gostam do carnaval.

No carnaval, a literatura sai do papel e ganha várias expressões no movimento das ruas, que contam histórias de diferentes maneiras, seja nas fantasias, nas máscaras, nas marchinhas, através da cantoria dos blocos, nos desfiles das escolas de samba. Muitos brasileiros que guardam poesia na alma gostam do carnaval.

Para os escritores modernistas brasileiros, as marchinhas têm a voz do Brasil. Mário de Andrade as considerava como uma forma de literatura oral. Já Oswald de Andrade as considerava como uma poesia curta, irônica e direta. Sob o disfarce da folia carnavalesca, seus compositores se utilizam do duplo sentido para criticar a vida social. Através de uma linguagem livre e popular, são consideradas crônicas musicais de cunho social e político. Como estão situadas em determinadas lugares e épocas, são consideradas um registro histórico relevante ao guardarem a memória social e política do país. Há quem as considere como uma revista da vida nacional.

As marchinhas surgiram no Rio de Janeiro, no final do século XIX e receberam influências das marchas portuguesas. A primeira foi composta por Chiquinha Gonzaga, em 1899, para o cordão carnavalesco Rosa de Ouro, aquela que todos já cantaram e dançaram: “Ó abre alas”. Foi somente no século XX, entre os anos de 1920 e 1960, que atingiram o auge da popularidade, a época de ouro do carnaval brasileiro. O nome marchinha foi inspirado na marcha dos soldados, dado que a batida é similar à fanfarra militar, comum aos desfiles cívicos.

Com o sucesso, vários compositores criaram letras e músicas, como a “As pastorinhas” de Braguinha e Noel Rosa, gravada no final de 1937, “Mamãe eu quero”, composta por Vicente Paiva e Jararaca, em 1937, “Allah-lá-ô”, de Haroldo Lobo e Nássara, lançada em 1941. Dentre tantas outras, as marchinhas possuem ritmo acelerado e contagiante, letras simples, curtas e fáceis de gravar. Além de serem bem-humoradas, possuem uma temática variada, como o amor, situações cotidianas, ironias, vida doméstica, serviços urbanos, costumes e fatos da atualidade. São consideradas expressões literárias, especialmente no gênero literatura popular, oral e lírica.

Quem se esquece das letras e do ritmo das marchinhas de carnaval? Elas passam pelos anos e ficam na memória de todos, especialmente dos que um dia já foram foliões. Mesmo compartilhando espaço com os sambas-enredo, nunca pararam de ser compostas e animar os blocos de rua.

Deixo, então, com vocês, a letra da “Ô abre alas”, que expressa a abertura do espaço para a alegria, a liberdade e a celebração coletiva do carnaval.

Ó, abre alas, que eu quero passar

Eu sou da Lira, não posso negar

Eu sou da Lira, não posso negar

 

Ó, abre alas, que eu quero passar

Rosa de Ouro é que vai ganhar

Rosa de Ouro é que vai ganhar

(...)

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Somos consequência das nossas decisões

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Nos primeiros dias deste ano, assisti ao documentário sobre a vida e a obra de Walt Disney, e à série baseada no livro “Ninguém nos viu partir”, um texto autobiográfico de Tamara Trottner. Ambos me fizeram refletir sobre as consequências das decisões que tomamos, que podem atingir a vida das pessoas, inclusive das gerações subsequentes. De certo, somos resultado das decisões políticas, familiares, grupais, culturais, institucionais e, especialmente, das nossas.

Nos primeiros dias deste ano, assisti ao documentário sobre a vida e a obra de Walt Disney, e à série baseada no livro “Ninguém nos viu partir”, um texto autobiográfico de Tamara Trottner. Ambos me fizeram refletir sobre as consequências das decisões que tomamos, que podem atingir a vida das pessoas, inclusive das gerações subsequentes. De certo, somos resultado das decisões políticas, familiares, grupais, culturais, institucionais e, especialmente, das nossas.

As decisões fazem parte da vida como falar, caminhar e comer. É tão rotineiro decidir que o fazemos, muitas vezes, automaticamente. Desde que acordamos tomamos decisões, das mais simples às mais complexas; todas nos trazem consequências posto serem regidas pela lei de causa e efeito.  Para toda e qualquer decisão há fatores emocionais, familiares, financeiros, dentre tantos outros desdobramentos envolvidos, o que torna o processo decisório mais ou menos complexo, uma vez que tais fatores possuem relações de interdependência entre si, com níveis de conflitos e dificuldades variáveis, funcionando como um todo.

O processo decisório é aprendizado de uma vida inteira, como um curso que temos de frequentar desde os primeiros anos até aos mais avançados. Vamos aprendendo a cada decisão que tomamos e com as consequências com as quais iremos nos deparar. A primeira cadeira desse aprendizado é aprender a pensar nos prós e nos contras, proposição que escutamos com frequência, contudo, eventualmente, não damos atenção. Eis um erro que pode nos ser fatal.

Com o documentário sobre a vida e a obra de Walter Elias Disney (1901-1966), fiquei tão admirada que procurei pelo livro “A árvore dos sonhos – a vida e a obra de Walt Disney”, editado em 2022. A biografia, escrita pelo escritor e jornalista brasileiro Maurício Nunes, mostra a trajetória de Disney, decorrente de processos decisórios autênticos, criativos e ousados, inteligentes e corajosos.

Desenhar foi uma habilidade que deu sentido à sua vida desde criança. Ele nunca se esqueceu do primeiro contato que teve com um lápis. Apesar da infância difícil pelas limitações financeiras e da severidade paterna, não desistiu do seu potencial. A arte orientou as suas decisões e, de decisão em decisão, enfrentou os mais terríveis desafios e dificuldades, além de superar críticas severas. Com determinação, construiu um mundo de fantasia, levando alegria a todos, das crianças aos idosos.

O livro autobiográfico “Ninguém nos viu partir”, editado em 2024, da autora mexicana Tamara Trottner, narra a sua experiência traumática quando seu irmão mais velho e ela, então com cinco anos, foram sequestrados pelo pai como vingança, quando ele constatou estar sendo traído pela mãe.

O sequestro durou três anos aproximadamente através de uma fuga insana e cruel pela França, Itália, África do Sul e Israel, escondendo os filhos da mãe e seus investigadores e da Interpol também. As consequências das decisões insensatas, manipuladoras e mentirosas do pai e respectivos avós paternos se tornaram desastrosos e deixaram marcas tão dolorosas nas crianças que ela, Tamara, quando adulta, revisitou suas memórias em uma autobiografia a fim de se liberar do passado.

Ao transformar sua dor em narrativa, Tamara ofereceu ao mundo a reflexão sobre as decisões fundamentadas no rancor, vingança, manipulações e mentiras, que podem arrastar vidas a um estado de sofrimento.

Casais podem se separar por motivos vários. Entretanto os filhos precisam ser respeitados em suas inteirezas afetivas, morais e físicas. Os impactos emocionais na vida dos filhos podem abranger tristezas, angústias, inseguranças, além de adoecimentos físicos e emocionais que podem perdurar por um tempo indeterminado, talvez pela vida inteira.

Essas biografias possuem riquezas em seus valores. A beleza da obra de Disney e a tragédia nas vidas de Tamara e seu irmão nos oferecem motivos para refletir sobre nossas decisões e as profundas repercussões que podem causar no outro e em nós.

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Passa adiante!

terça-feira, 03 de fevereiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Certa vez, faz alguns anos, um amigo veio à minha casa e antes mesmo de me cumprimentar me ofereceu um livro e disse: quando acabar de ler, passa adiante. Assim o fiz e dei a uma amiga, que passou a outra amiga. Eu me senti bem em fazer parte daquela corrente de leitura, que possibilitou ao livro uma vida ativa por não ter ficado estanque na casa do meu amigo.

O livro, ao entrar numa corrente de leitura, estará sempre vivo! Fechado, num canto de uma mesa ou esquecido numa estante, ficará adormecido com as palavras e ideias entaladas, com indigestão.

Certa vez, faz alguns anos, um amigo veio à minha casa e antes mesmo de me cumprimentar me ofereceu um livro e disse: quando acabar de ler, passa adiante. Assim o fiz e dei a uma amiga, que passou a outra amiga. Eu me senti bem em fazer parte daquela corrente de leitura, que possibilitou ao livro uma vida ativa por não ter ficado estanque na casa do meu amigo.

O livro, ao entrar numa corrente de leitura, estará sempre vivo! Fechado, num canto de uma mesa ou esquecido numa estante, ficará adormecido com as palavras e ideias entaladas, com indigestão.

Quando ando por algum lugar na cidade, se num shopping, numa praça ou mesmo numa cafeteria e vejo uma banca de livros lidos em oferta para novos leitores, me sinto animada. São ideias correndo mundo afora, que não ficam limitadas a alguém. O livro é um objeto que sempre tem algo a dizer e a cutucar.

O livro é antigo, pode ter mais de seis mil anos quando surgiram os primeiros protótipos em tabuletas de argilas na Suméria, na Mesopotâmia, região situada entre os rios Tigre e Eufrates. E, depois, em papiro no Egito.  Foi no século XV, durante a Revolução Industrial, que Gutenberg inventou a imprensa, possibilitando que todos tivessem acesso ao livro. Acredito que o registro de ideias, informações e histórias, feito através da linguagem escrita, tenha surgido pela necessidade de o homem expressar, difundir e guardar suas ideias, que possuem tal energia que precisam sair da instância mental e ganhar vida mundo afora. Hoje, virtual e materialmente, o livro expõe de diversos modos, as percepções, emoções e as preocupações do homem com a vida. Os livros, em diferentes estilos, os periódicos e os textos informativos são os mais amplos meios de troca de informações.

Gostaria de citar o I Ching, o Livro das Mutações, um dos livros mais antigos da humanidade, como exemplo. É um texto extraordinário e de hábil inteligência a respeito das tendências do movimento da vida e as consequências decorrentes. Foi uma obra que sobreviveu ao tempo e a todas as mutações, desde o seu surgimento, na China, em período anterior à dinastia Chou (1.150 a 249 a.C), permanecendo vivo nas culturas orientais e ocidentais por mais de 3.000 anos, cuja sabedoria influenciou o desenvolvimento da civilização chinesa e de outras, através de um texto denso de ideias e conteúdos simbólicos.

Passar um livro adiante significa compartilhar uma leitura que nos foi interessante. Noutro dia peguei um livro na porta de uma peixaria. Vejam isso! Até a porta de um lugar, onde peixes são vendidos pode ter essa função. Observei que nos cantos das páginas havia anotações de um antigo leitor. Constatei que essas anotações enriqueciam a leitura e me estimulavam a pesquisar. De repente, senti uma vontade imensa de conversar com ele porque notei que tínhamos certa afinidade. Que idade teria? Seria da mesma cidade que a minha? Qual a sua formação?

Na semana passada, recebi de uma grande amiga e escritora, para ler e passar adiante, o livro “A Vegetariana”, da autora coreana Han Kang, ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura em 2024. Ao repassá-lo vou escrever um bilhete com algumas anotações sobre o conteúdo da obra, dizer quem sou e assim por diante.

Uma vez alguém me disse que a literatura une as pessoas. Passar adiante um livro é uma gentileza e possui a intenção de fazer uma outra pessoa feliz, proporcionar-lhe momentos de lazer e melhorar os modos com que percebe e vive a vida. Geralmente quando alguém escolhe um livro e o coloca nos braços sente uma satisfação especial. Eu, particularmente, costumo abri-lo e cheirá-lo. Esse primeiro movimento expressa um especial sentimento, posto que o cheiro faz conexões com as emoções, evocando lembranças vívidas. Minha mãe era bibliotecária e minha avó, tradutora. Então, emocionalmente, a leitura me resgata e alimenta.

O livro é do mundo, sim! Pode ser lido por todos, em qualquer época e lugar. Será a obra de Shakespeare limitada a um grupo social? Ou o livro “A Bolsa Amarela” de Lygia Bojunga só pode ser lido por adolescentes?

 Enfim, criar ou participar de uma cadeia de leitores é fazer parte de uma biblioteca ambulante e dinâmica. Além de disseminar os benefícios da leitura, estimula o contato do leitor com a língua empregada de forma correta. E ultimamente, cá para nós, amigo leitor, o Português tem sido mal utilizado pelos brasileiros.

Que venha 2026 com boas leituras!

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Poderá a alma de um livro ser artificial?

terça-feira, 27 de janeiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Quando me fiz esta pergunta, algo dentro de mim, possivelmente vindo de algum canto da minha alma, começou a reagir negativamente. Não! Como posso falar sobre uma instância abstrata, que não vemos, não tocamos ou ouvimos, mas sentimos sua existência e força, que subsiste ao tempo, às mudanças e à morte. Está na alma o princípio da individualidade, o registro histórico da experiência existencial, quer seja nesta vida ou em outras. É possível que seja o princípio mais abrangente do universo e que exista nas diferentes formas de existências; em todos os seres.

Quando me fiz esta pergunta, algo dentro de mim, possivelmente vindo de algum canto da minha alma, começou a reagir negativamente. Não! Como posso falar sobre uma instância abstrata, que não vemos, não tocamos ou ouvimos, mas sentimos sua existência e força, que subsiste ao tempo, às mudanças e à morte. Está na alma o princípio da individualidade, o registro histórico da experiência existencial, quer seja nesta vida ou em outras. É possível que seja o princípio mais abrangente do universo e que exista nas diferentes formas de existências; em todos os seres.

O livro é um objeto elaborado pela alma humana, capta-a em cada palavra!

O célebre verso de Fernando Pessoa no poema “Mar Português (tudo vale a pena se a alma não é pequena...), ao se referir à grandeza dos esforços de um navegador para atravessar o Cabo Bojador que, para tal, precisa superar diversos níveis de dificuldade e desafio, nos mostra que esta força invisível é também capaz de sustentar atos impossíveis.

Para falar da alma é necessário se destacar a liberdade, ou melhor, o livre arbítrio para tomar decisões autênticas e realizar vontades pessoais em todos as etapas dos processos de realização, experimentando com plenitude um turbilhão de emoções decorrentes. A alma tem inteireza e não se reparte em frações como um quebra-cabeça.

O autor, diante de um projeto literário, sempre desafiador, vê-se, inicialmente à frente de uma página em branco, sedenta de texto, em que a ausência de ideias e palavras é um desafio tão assustador quanto é para o navegador atravessar o Cabo Bojador.

Mas, de repente, do espanto, da admiração e da estranheza aos fatos da vida, as palavras vão surgindo, riscando a brancura do papel, desenhando frases, compondo um texto, seja em que estilo literário for. É um momento que tem um pouco de magia, que expõe emoções e percepções do autor, que possui o cansaço infinito do trabalho. Ah, é muito trabalho! É um tempo a perder de vista em que ele escreve, lê, corrige, reescreve, e vai, de solavanco em solavanco, compondo sua obra literária. É aí que a alma literária do livro é gestada com significação.

Amigo leitor, é verdade que se eu for num site de Inteligência Artificial, escrever uma ideia e pedir para que me apresente um texto, terei, numa fração de minutos, um texto pronto feito por um robô. Um texto que pode ser até perfeito. Mas sem alma!

A alma do autor alimenta a alma do leitor, que por sua vez alimenta a do autor. É uma retroalimentação. Obras compostas por inteligências humanas sobrevivem ao tempo como os clássicos: “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, publicado em 1862; as peças de Shakespeare, lançadas no final do século XVI e início do século XVII e o romance “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes lançado no início do século XVII. Foram obras criadas para serem lidas por pessoas humanas. São livros que possuem almas imortais. O mesmo podemos dizer sobre a obra de Lewis Carol, “Alice no País das Maravilhas” publicada em 1865.

Noutro dia li que um cientista da robótica estava preocupado com um robô doméstico que ele havia criado. O tal robô era capaz de dar um soco na cabeça de alguém com tamanha força que poderia matar. Ainda estamos engatinhando nesses processos de criação artificial. Que conteúdo um robô literário pode apresentar às crianças? Hoje, em 2026, os robôs são planejados, administrados e comandados por humanos. Mas amanhã... Que preocupações éticas os humanos terão ao demandar temas aos robôs para serem lidos por crianças e adolescentes?

É, meu amigo, 2026 vai nos obrigar a pensar sobre o fazer literário e suas consequências futuras.

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Reflexões sobre a inteligência humana

terça-feira, 20 de janeiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Faz tempo que assisti ao filme “Forrest Gump, o contador de histórias”, e não me esqueço das suas mensagens. Resolvi, agora, ler a respectiva obra literária, criada pelo autor americano Winston Groom (1943-2020), e tenho me sensibilizado mais ainda com a vida do personagem, elaborado como tendo um Q.I. abaixo da média. Durante a leitura venho perguntando: o que é ser idiota? Hoje, ter pureza d’alma, sentimentos de compaixão, lealdade, honestidade e generosidade podem caracterizar um bobo ou um sábio?

Faz tempo que assisti ao filme “Forrest Gump, o contador de histórias”, e não me esqueço das suas mensagens. Resolvi, agora, ler a respectiva obra literária, criada pelo autor americano Winston Groom (1943-2020), e tenho me sensibilizado mais ainda com a vida do personagem, elaborado como tendo um Q.I. abaixo da média. Durante a leitura venho perguntando: o que é ser idiota? Hoje, ter pureza d’alma, sentimentos de compaixão, lealdade, honestidade e generosidade podem caracterizar um bobo ou um sábio?

A história de Forrest Gump tem uma abordagem sobre o experimentar a vida com profundidade, que induz o espectador ou o leitor a refletir sobre a inteligência. Bertrand Russel (1872-1970), matemático e filósofo inglês, conhecido como o profeta da vida racional e da criatividade, disse, certa vez, em sala de aula, que nada é mais perigoso do que uma pessoa inteligente munida de uma premissa errada.

A meu ver a reflexão sobre a inteligência envolve questões amplas e com múltiplos pontos de vista como a história de vida, a cultura e a afetividade. A inteligência não é uma caixa compartimentada no corpo, ao contrário, é uma instância interativa e reativa, cujo potencial pode ser ampliado com as experiências e a aprendizagem. Pessoas com Q.I. médio ou superior podem ter comportamentos estúpidos, que expressam falta de raciocínio. Ah, a preguiça mental...  Além do que, definir alguém como tolo pode estar fundamentado a uma maneira particular de interpretar modos de pensar e comportamentos.

A civilização humana é fruto do poder intelectual utilizado nos modos de sobrevivência, nos processos adaptativos, no aprimoramento das condições de estar no mundo, bem como nas conquistas tecnológicas e criações de recursos que venham a oferecer conforto, eficiência e prazer. Cada vez mais tem-se estudado a inteligência.

O psicólogo cognitivo americano Howard Gardner formulou a teoria de inteligências múltiplas, através da qual descreveu diversas formas de inteligência. A lógico-matemática que descreve a facilidade na solução de problemas lógicos e matemáticos. A inteligência linguística que abrange a habilidade para usar as palavras tanto verbalmente como na escrita; a espacial que descreve a capacidade de pensar em três dimensões, a entender o espaço, formas, cores e padrões.

Já a musical pressupõe a capacidade para perceber, criar, interpretar e avaliar padrões musicais como ritmo, tom, melodia e timbre. A inteligência corporal-cinestésica é a capacidade de usar o corpo de forma habilidosa, precisa e coordenada para expressar ideias e sentimentos, realizar tarefas como as que um cirurgião realiza. A inteligência intrapessoal é o autoconhecimento profundo que possibilita o entendimento das próprias emoções, motivações, avaliar situações em seus pontos fortes e fracos, tomar decisões coerentes com os objetivos pessoais. A interpessoal é a capacidade de interação com outras pessoas, entendendo suas decisões, opiniões, o que facilita a comunicação, o trabalho em equipe, a construção de relacionamentos saudáveis. Finalmente, a inteligência existencial é a capacidade para refletir sobre as grandes questões da vida, o lugar do ser humano no mundo e no universo, a busca de respostas sobre a condição humana.

Estamos cercados pelos resultados da aplicação das inteligências humanas. Agora mesmo, sentada na mesa da sala, vejo os móveis e penso em quantas inteligências foram necessárias para criá-los, desde a extração da madeira. Como no tecido da toalha que cobre a mesa, no computador em que estou escrevendo esta coluna, a xícara ao meu lado exalando um cheiro de café incomparável.

Mas retornando a Forrest Gump. Penso que Winston Groom tenha pretendido chamar a atenção sobre a forma espontânea, honesta e simples de viver. O mundo está mergulhado em uma guerra estúpida de interesses econômicos, políticos, culturais e ideológicos, e, por conseguinte, todos estão deixando a pureza das emoções sob os tapetes.

Há uma passagem no livro que gostaria de trazer. Na universidade, um professor pediu à turma, da qual Forrest fazia parte, para que os alunos escrevessem uma breve biografia. Depois de corrigidas, o professor leu em voz alta a de Forrest, que gerou risos na turma. Ao final, informou que o texto de Gump tinha sido o texto mais criativo de todos.

Apesar do baixo Q.I., Forrest possuia a sabedoria de ser gente.

Para finalizar, deixo duas frases para serem refletidas ao longo da semana:

 “A vida é como uma caixa de chocolates. Você nunca sabe o que vai encontrar”.

“Você tem que colocar o passado para trás antes que possa seguir em frente.”

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O livro de literatura para jovens

terça-feira, 13 de janeiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Na vida do jovem, qual o espaço que o livro de literatura possui entre celulares, sites da internet, jogos eletrônicos, dentre outros trecos virtuais?

Esta é uma pergunta que volta e meia faço. Ao refletir a respeito, argumentos me surgem que justificam o valor desse objeto mágico feito de palavras. Hoje, os livros são editados de modo material ou virtual; o importante é que sejam lidos e aproveitados pelos jovens por inteiro.

Na vida do jovem, qual o espaço que o livro de literatura possui entre celulares, sites da internet, jogos eletrônicos, dentre outros trecos virtuais?

Esta é uma pergunta que volta e meia faço. Ao refletir a respeito, argumentos me surgem que justificam o valor desse objeto mágico feito de palavras. Hoje, os livros são editados de modo material ou virtual; o importante é que sejam lidos e aproveitados pelos jovens por inteiro.

Penso que o maior desafio para um autor é produzir textos para jovens devido à responsabilidade que tem para abordar temas sensíveis, que exigem cuidados especiais com a apresentação das ideias, emprego das palavras e o desenvolvimento do enredo. Ou seja, o escritor ao elaborar uma história, cria personagens que experimentam situações a serem refletidas pelo leitor.  Ao refletir, conversar ou participar de debates sobre o livro, o jovem fala de si, compartilha sentimentos e opiniões. Tem a possibilidade de avaliar e mudar modos de ser e pensar.

 Ah, como o jovem precisa da literatura!

O livro é um grande amigo e companheiro de todas as horas. Diga-me, meu leitor, quantos momentos sofridos, carregados de inseguranças e incerteza o jovem vive? Todos os sentimentos brotam em seu peito com avidez e concomitância, e ele, sem conseguir lidar com uma diversidade de emoções, vê-se num rodamoinho.

Entre a infância e a maturidade, a literatura para jovens possui gêneros, como as aventuras, os clássicos da literatura, poesias, livros de suspense ou em quadrinhos, inclusive os romances e contos que abortam temas contemporâneos relevantes ao adolescer como a amizade, a descoberta de experiências amorosas, a coragem para enfrentar a vida e tantos mais.

A literatura não tem fins pedagógicos. Ou seja, o escritor não pode ter a intenção de dizer o que é certo ou errado, de julgar, de construir modelos a serem seguidos. A função da literatura é mostrar a vida através da arte feita com palavras. O leitor de qualquer idade gosta de ler e se identificar com um personagem, de perceber circunstâncias na leitura parecidas com as que ele vive. De encontrar prazer no livro.

Certa vez, no Rio de Janeiro, um jovem de uns 13 anos entrou no ônibus onde eu estava. Vestia a camisa de um time de futebol e carregava uma bola num braço e uma mochila nas costas. Ele se acomodou no banco da frente, abriu a mochila, tirou um livro e se pôs a ler. Estava tão entretido que nem se apercebia dos solavancos do ônibus e do movimento dos passageiros. Tive que sair antes. E ele continuou mergulhado na leitura. Pisei na calçada com a certeza de que ele era um leitor em formação e iria levar o hábito de ler para o resto da vida.

O autor conversa com o leitor através das histórias que cria. Suas histórias, de algum modo, remetem ao seu passado, mostram como percebe a vida e descrevem o afeto que tem para o seu público-alvo. Sim. Toda a literatura tem um público leitor. A escolha dos temas, a linguagem utilizada, o desenvolvimento da trama respeita a pessoa que vai se interessar em ler o texto. Mas, de todo o modo, o cuidado com a construção de uma obra literária para jovens não pode prescindir da leveza, do humor e da delicadeza com que a vida toca os personagens, posto que os personagens tocam os jovens. É possível abordar todo o tipo de assunto, como a separação dos pais, a morte de um amigo, a violência, o abandono, o medo de enfrentar o outro dentre tantos. Contudo deve ser escrito de modo a prender o leitor, a fazer com que seus olhos deslizem pelo texto e as ideias encontrem ecos em sua vida.

A vida é cruel. É cheia de belezas, mas há tristezas e desamparos. Tem alegrias e desafios. Acolhe seu leitor. É nessa plenitude contextual que a literatura tem que estar viva. O jovem não convive com situações de doença e perda? E, ao mesmo tempo, não conta com um amigo para conversar, passear ou jogar? Certamente haverá alguém com quem ele sentirá vontade de estar com mais intimidade e descobrir a sexualidade que vai tomando conta do seu corpo, invadindo seus afetos, experimentando os sentimentos de amar e respeitar. O jovem transita entre o sonho e a realidade e seu desejar sobrevoa tudo o que faz, o que lhe causa conflitos. E aí está a habilidade da escolha das histórias e até mesmo das crônicas mais adequadas a oferecer a um jovem. Cada um é cada um. Cada qual vive um momento especial de vida. E um gosto bem específico por leituras, que deve ser respeitado.

Num mundo cada vez dominado pelo universo virtual e inteligências artificiais sendo amplamente utilizadas em todos os âmbitos da vida, será que a leitura vai apoiá-lo na construção da sua identidade individual?

Ah, como o jovem precisa internalizar heróis e valores para se tornar o grande guerreiro da própria história. Ao abrir um livro de literatura vai encontrá-los e admirá-los.   

Vamos pensar a respeito!

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O livro de literatura infantil

terça-feira, 06 de janeiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Se uma criança faz aniversário, uma opção de presente é um livro de literatura. Será que o presenteador reconhece o valor do livro e qual pode ser o mais adequado? A escolha não se limita a ir a uma livraria, parar diante da estante de livros infantis e pegar aquele que mais chame atenção aos olhos.

Antes de escolher um livro vale a pena ter a consciência dos valores existentes em cada uma das suas páginas. O livro de literatura infantil pode ser um objeto de consumo, como um brinquedo. Mas há algo a mais!

Se uma criança faz aniversário, uma opção de presente é um livro de literatura. Será que o presenteador reconhece o valor do livro e qual pode ser o mais adequado? A escolha não se limita a ir a uma livraria, parar diante da estante de livros infantis e pegar aquele que mais chame atenção aos olhos.

Antes de escolher um livro vale a pena ter a consciência dos valores existentes em cada uma das suas páginas. O livro de literatura infantil pode ser um objeto de consumo, como um brinquedo. Mas há algo a mais!

A literatura infantil, através do uso das palavras com arte e imaginação, é fonte de prazer para a criança se entreter com a história e com as ilustrações posto que cada página é uma porta de entrada ao seu imaginário. Os personagens e as ilustrações representam a vida sob diversas óticas, na qual a criança está inserida e interagindo com toda a diversidade de acontecimentos, descobrindo e compreendendo as situações, as pessoas e os ambientes. Faço questão de ressaltar que a vida acontece para todos; a criança não está protegida das dificuldades, das perdas e desafios, como a ausência de uma pessoa querida. São situações em que ela precisa entender para lidar da melhor forma possível. O livro “Meu amigo partiu”, escrito por Andrea Taubmam e ilustrado por Sandra Ronca, através da poesia, descreve o sentimento de luto de uma criança decorrente da perda de um amigo. Já em “Noites de Chuva”, escrito por Anna Cláudia Ramos e ilustrado por Anielizabeth, os personagens, Rosinha e Zezinho, transformam uma noite de chuva forte em uma aventura. Através de uma história cheia de peripécias, o livro apresenta os riscos que uma chuva forte pode causar. Ou seja, a história, ao induzir às brincadeiras, encena a realidade para o leitor infantil, revive-a de modo lúdico. Ao ler e imaginar, ele vai conhecendo a realidade, compreendendo-a e vislumbrando como poderia agir e reagir.

Outros livros interessantes: “Avó com cheiro de pão caseiro”, escrito por Zé Zuca e ilustrado por Marilia Pirillo, que narra a história de um menino que descobre que a avó namora o dono da padaria. Um tema bastante decorrente que aborda o namoro da avó, como poderia ser dos pais. E “Vovô virou nuvem”, escrito por Aline de Moraes e ilustrado por Rafael Nunes, que trata da elaboração do luto do menino Chico pela morte do avô.

Outra função do livro é mostrar o dia a dia da criança, o desenvolvimento de hábitos de higiene, o cuidado com a natureza e tantos outros temas relevantes. Como também apresentar o mundo em sua diversidade natural e cultural, oferecendo à criança um universo de modos de ser, como o clássico da literatura infantil “A árvore generosa” escrito e ilustrado pelo poeta e compositor Shel Silverstein, traduzido por Fernando Sabino. O livro narra a relação especial de um menino com uma árvore em cuja sombra brinca com seus galhos e folhas. Na medida em que o menino cresce, ele vai fazendo novas solicitações à arvore; e ela, por amor, vai cedendo para se sentir feliz em atendê-lo até ficar reduzida a um toco. É um livro profundo que aborda as escolhas, o afeto e o desrespeito à integridade do outro.

O livro de literatura infantil transmite valores, como amizade, honestidade, humildade, tolerância, responsabilidade, resiliência e gratidão. Certa vez, conversando com uma amiga, psiquiatra, dela escutei que a gratidão é um dos princípios mais raros de se ver nas pessoas. Os valores orientam o comportamento, as escolhas, a convivência em todos os âmbitos onde interagem. Fundamentados na ética, devem ser internalizados desde a infância. “Alice, no País da Maravilhas”, escrito pelo inglês Lewis Carrol, apresenta uma narrativa carregada de reflexões sobre a vida, as relações entre pessoas diferentes e o enfrentamento do desconhecido.

Os clássicos da literatura como “A bela adormecida”, dentre tantos, são também indicados para o desenvolvimento do gosto e dos hábitos de leitura, processos que se desenvolvem desde a mais tenra idade. Inclusive, os livros contendo só imagem são direcionados para as crianças ainda não alfabetizadas.

 Dar livros é presentear uma criança com amor e com a crença de que ela vai aproveitar a leitura e será tocada, de alguma forma, pelas mensagens do texto e das ilustrações. Entretanto faço questão de ressaltar que nem todo livro de literatura infantil tem algo significativo a mostrar ou dizer.

A criança, ao se tornar uma leitora, estará um passo à frente e terá os olhos mais abertos para a vida.

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Que em 2026 possamos estar vivos e juntos!

terça-feira, 30 de dezembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

É comum desejar felicidades e conquistas, saúde e alegrias para o ano que vai chegar; votos que sempre fiz e recebi durante anos. Porém uma amiga me enviou, neste final de ano, via WhatsApp, uma antiga prece portuguesa, de autoria desconhecida, que enseja que mantenhamos no ano que está por vir as conquistas que fizemos durante a vida. O conteúdo da oração me impactou e me fez refletir a respeito e concluir que mantê-las poderia ser até mais difícil do que os esforços que empreendemos para tê-las.

É comum desejar felicidades e conquistas, saúde e alegrias para o ano que vai chegar; votos que sempre fiz e recebi durante anos. Porém uma amiga me enviou, neste final de ano, via WhatsApp, uma antiga prece portuguesa, de autoria desconhecida, que enseja que mantenhamos no ano que está por vir as conquistas que fizemos durante a vida. O conteúdo da oração me impactou e me fez refletir a respeito e concluir que mantê-las poderia ser até mais difícil do que os esforços que empreendemos para tê-las. Muitas vezes, quando usufruímos dos benefícios que elas nos oferecem todos os dias, esquecemos dos processos de conquista pelos quais passamos.

Eis a prece:

“E o que você quer que o próximo ano te traga?

Nada, não quero que me traga nada.

A única coisa que quero é que não leve.

Que não leve o teto que me protege, o prato que me alimenta, a manta que me aquece, a luz que me ilumina, o sorriso dos meus amados, a saúde como um tesouro, o trabalho como sustento, a amizade, a companhia, os abraços e os beijos.

Que não leve os sonhos, nem os pedaços dos corações formados por pessoas que carrego dentro de mim. Amém!”

Acredito que muitos dos leitores a tenham recebido. Mesmo assim, não gostaria de deixá-la passar aos nossos olhos sem observar que a maioria dos nossos anseios para o futuro estão no novo. Nem pensamos no que já temos. E é aí que mora o nosso erro derradeiro de fim de ano: nossos desejos se esquecem de molhar as plantas dos nossos canteiros.

Noutro dia, conversando com minha filha no café da manhã, consideramos que o passado e o futuro não existem na realidade concreta. O que há é o aqui e o agora. É em cada instante presente que nossos olhos alcançam, nossas mãos pegam, nossos desejos se atualizam. Então, nos sentimos aterrissados no que possuímos. Para falar a verdade, possuímos muito. Todo esse muito requer atenções, cuidados e providências, posto que é nesse aterrissar contínuo que desvelamos nossos afetos, propósitos e propostas. Construímos nossas vidas.

Quando escrevi minha dissertação de mestrado em Educação, em 1980, concluí que algumas propostas dos Pioneiros da Educação, em 1922, ainda não tinham sido atingidas. Terminei a dissertação, com certa tristeza e desapontamento.

A esperança continuará a ser nossa estrela-guia em 2026. Sinto vontade de escrever na primeira página da minha agenda que pretendo estar viva no final de ano. Caramba! É uma proposta caudalosa e audaciosa. A lista de tarefas que terei de fazer para atingir tal propósito é imensa. Pensando bem, desejar felicidade é vago porque ser feliz é decorrente dos esforços para realizar ações importantes. É trabalho! É usar a inteligência humana! É experimentar o amar!

As palavras de Albert Camus (1913-1960), escritor e filósofo franco-argelino, me inspiram. Segundo ele, o acordar da esperança não é como um discreto bater de asas. Pelo contrário. A esperança é despertada, vivificada, alimentada por milhões de indivíduos solitários, cujos atos e trabalho, diariamente, negam fronteiras e as implicações mais cruas da história. Como resultado brilha, num breve momento, a verdade de que cada e todo homem, sobre a base dos próprios sentimentos e alegrias, constrói para todos.

Quem em 2026 possamos estar vivos e juntos!

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