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O livro de literatura para jovens

terça-feira, 13 de janeiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Na vida do jovem, qual o espaço que o livro de literatura possui entre celulares, sites da internet, jogos eletrônicos, dentre outros trecos virtuais?

Esta é uma pergunta que volta e meia faço. Ao refletir a respeito, argumentos me surgem que justificam o valor desse objeto mágico feito de palavras. Hoje, os livros são editados de modo material ou virtual; o importante é que sejam lidos e aproveitados pelos jovens por inteiro.

Na vida do jovem, qual o espaço que o livro de literatura possui entre celulares, sites da internet, jogos eletrônicos, dentre outros trecos virtuais?

Esta é uma pergunta que volta e meia faço. Ao refletir a respeito, argumentos me surgem que justificam o valor desse objeto mágico feito de palavras. Hoje, os livros são editados de modo material ou virtual; o importante é que sejam lidos e aproveitados pelos jovens por inteiro.

Penso que o maior desafio para um autor é produzir textos para jovens devido à responsabilidade que tem para abordar temas sensíveis, que exigem cuidados especiais com a apresentação das ideias, emprego das palavras e o desenvolvimento do enredo. Ou seja, o escritor ao elaborar uma história, cria personagens que experimentam situações a serem refletidas pelo leitor.  Ao refletir, conversar ou participar de debates sobre o livro, o jovem fala de si, compartilha sentimentos e opiniões. Tem a possibilidade de avaliar e mudar modos de ser e pensar.

 Ah, como o jovem precisa da literatura!

O livro é um grande amigo e companheiro de todas as horas. Diga-me, meu leitor, quantos momentos sofridos, carregados de inseguranças e incerteza o jovem vive? Todos os sentimentos brotam em seu peito com avidez e concomitância, e ele, sem conseguir lidar com uma diversidade de emoções, vê-se num rodamoinho.

Entre a infância e a maturidade, a literatura para jovens possui gêneros, como as aventuras, os clássicos da literatura, poesias, livros de suspense ou em quadrinhos, inclusive os romances e contos que abortam temas contemporâneos relevantes ao adolescer como a amizade, a descoberta de experiências amorosas, a coragem para enfrentar a vida e tantos mais.

A literatura não tem fins pedagógicos. Ou seja, o escritor não pode ter a intenção de dizer o que é certo ou errado, de julgar, de construir modelos a serem seguidos. A função da literatura é mostrar a vida através da arte feita com palavras. O leitor de qualquer idade gosta de ler e se identificar com um personagem, de perceber circunstâncias na leitura parecidas com as que ele vive. De encontrar prazer no livro.

Certa vez, no Rio de Janeiro, um jovem de uns 13 anos entrou no ônibus onde eu estava. Vestia a camisa de um time de futebol e carregava uma bola num braço e uma mochila nas costas. Ele se acomodou no banco da frente, abriu a mochila, tirou um livro e se pôs a ler. Estava tão entretido que nem se apercebia dos solavancos do ônibus e do movimento dos passageiros. Tive que sair antes. E ele continuou mergulhado na leitura. Pisei na calçada com a certeza de que ele era um leitor em formação e iria levar o hábito de ler para o resto da vida.

O autor conversa com o leitor através das histórias que cria. Suas histórias, de algum modo, remetem ao seu passado, mostram como percebe a vida e descrevem o afeto que tem para o seu público-alvo. Sim. Toda a literatura tem um público leitor. A escolha dos temas, a linguagem utilizada, o desenvolvimento da trama respeita a pessoa que vai se interessar em ler o texto. Mas, de todo o modo, o cuidado com a construção de uma obra literária para jovens não pode prescindir da leveza, do humor e da delicadeza com que a vida toca os personagens, posto que os personagens tocam os jovens. É possível abordar todo o tipo de assunto, como a separação dos pais, a morte de um amigo, a violência, o abandono, o medo de enfrentar o outro dentre tantos. Contudo deve ser escrito de modo a prender o leitor, a fazer com que seus olhos deslizem pelo texto e as ideias encontrem ecos em sua vida.

A vida é cruel. É cheia de belezas, mas há tristezas e desamparos. Tem alegrias e desafios. Acolhe seu leitor. É nessa plenitude contextual que a literatura tem que estar viva. O jovem não convive com situações de doença e perda? E, ao mesmo tempo, não conta com um amigo para conversar, passear ou jogar? Certamente haverá alguém com quem ele sentirá vontade de estar com mais intimidade e descobrir a sexualidade que vai tomando conta do seu corpo, invadindo seus afetos, experimentando os sentimentos de amar e respeitar. O jovem transita entre o sonho e a realidade e seu desejar sobrevoa tudo o que faz, o que lhe causa conflitos. E aí está a habilidade da escolha das histórias e até mesmo das crônicas mais adequadas a oferecer a um jovem. Cada um é cada um. Cada qual vive um momento especial de vida. E um gosto bem específico por leituras, que deve ser respeitado.

Num mundo cada vez dominado pelo universo virtual e inteligências artificiais sendo amplamente utilizadas em todos os âmbitos da vida, será que a leitura vai apoiá-lo na construção da sua identidade individual?

Ah, como o jovem precisa internalizar heróis e valores para se tornar o grande guerreiro da própria história. Ao abrir um livro de literatura vai encontrá-los e admirá-los.   

Vamos pensar a respeito!

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A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

O livro de literatura infantil

terça-feira, 06 de janeiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Se uma criança faz aniversário, uma opção de presente é um livro de literatura. Será que o presenteador reconhece o valor do livro e qual pode ser o mais adequado? A escolha não se limita a ir a uma livraria, parar diante da estante de livros infantis e pegar aquele que mais chame atenção aos olhos.

Antes de escolher um livro vale a pena ter a consciência dos valores existentes em cada uma das suas páginas. O livro de literatura infantil pode ser um objeto de consumo, como um brinquedo. Mas há algo a mais!

Se uma criança faz aniversário, uma opção de presente é um livro de literatura. Será que o presenteador reconhece o valor do livro e qual pode ser o mais adequado? A escolha não se limita a ir a uma livraria, parar diante da estante de livros infantis e pegar aquele que mais chame atenção aos olhos.

Antes de escolher um livro vale a pena ter a consciência dos valores existentes em cada uma das suas páginas. O livro de literatura infantil pode ser um objeto de consumo, como um brinquedo. Mas há algo a mais!

A literatura infantil, através do uso das palavras com arte e imaginação, é fonte de prazer para a criança se entreter com a história e com as ilustrações posto que cada página é uma porta de entrada ao seu imaginário. Os personagens e as ilustrações representam a vida sob diversas óticas, na qual a criança está inserida e interagindo com toda a diversidade de acontecimentos, descobrindo e compreendendo as situações, as pessoas e os ambientes. Faço questão de ressaltar que a vida acontece para todos; a criança não está protegida das dificuldades, das perdas e desafios, como a ausência de uma pessoa querida. São situações em que ela precisa entender para lidar da melhor forma possível. O livro “Meu amigo partiu”, escrito por Andrea Taubmam e ilustrado por Sandra Ronca, através da poesia, descreve o sentimento de luto de uma criança decorrente da perda de um amigo. Já em “Noites de Chuva”, escrito por Anna Cláudia Ramos e ilustrado por Anielizabeth, os personagens, Rosinha e Zezinho, transformam uma noite de chuva forte em uma aventura. Através de uma história cheia de peripécias, o livro apresenta os riscos que uma chuva forte pode causar. Ou seja, a história, ao induzir às brincadeiras, encena a realidade para o leitor infantil, revive-a de modo lúdico. Ao ler e imaginar, ele vai conhecendo a realidade, compreendendo-a e vislumbrando como poderia agir e reagir.

Outros livros interessantes: “Avó com cheiro de pão caseiro”, escrito por Zé Zuca e ilustrado por Marilia Pirillo, que narra a história de um menino que descobre que a avó namora o dono da padaria. Um tema bastante decorrente que aborda o namoro da avó, como poderia ser dos pais. E “Vovô virou nuvem”, escrito por Aline de Moraes e ilustrado por Rafael Nunes, que trata da elaboração do luto do menino Chico pela morte do avô.

Outra função do livro é mostrar o dia a dia da criança, o desenvolvimento de hábitos de higiene, o cuidado com a natureza e tantos outros temas relevantes. Como também apresentar o mundo em sua diversidade natural e cultural, oferecendo à criança um universo de modos de ser, como o clássico da literatura infantil “A árvore generosa” escrito e ilustrado pelo poeta e compositor Shel Silverstein, traduzido por Fernando Sabino. O livro narra a relação especial de um menino com uma árvore em cuja sombra brinca com seus galhos e folhas. Na medida em que o menino cresce, ele vai fazendo novas solicitações à arvore; e ela, por amor, vai cedendo para se sentir feliz em atendê-lo até ficar reduzida a um toco. É um livro profundo que aborda as escolhas, o afeto e o desrespeito à integridade do outro.

O livro de literatura infantil transmite valores, como amizade, honestidade, humildade, tolerância, responsabilidade, resiliência e gratidão. Certa vez, conversando com uma amiga, psiquiatra, dela escutei que a gratidão é um dos princípios mais raros de se ver nas pessoas. Os valores orientam o comportamento, as escolhas, a convivência em todos os âmbitos onde interagem. Fundamentados na ética, devem ser internalizados desde a infância. “Alice, no País da Maravilhas”, escrito pelo inglês Lewis Carrol, apresenta uma narrativa carregada de reflexões sobre a vida, as relações entre pessoas diferentes e o enfrentamento do desconhecido.

Os clássicos da literatura como “A bela adormecida”, dentre tantos, são também indicados para o desenvolvimento do gosto e dos hábitos de leitura, processos que se desenvolvem desde a mais tenra idade. Inclusive, os livros contendo só imagem são direcionados para as crianças ainda não alfabetizadas.

 Dar livros é presentear uma criança com amor e com a crença de que ela vai aproveitar a leitura e será tocada, de alguma forma, pelas mensagens do texto e das ilustrações. Entretanto faço questão de ressaltar que nem todo livro de literatura infantil tem algo significativo a mostrar ou dizer.

A criança, ao se tornar uma leitora, estará um passo à frente e terá os olhos mais abertos para a vida.

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Que em 2026 possamos estar vivos e juntos!

terça-feira, 30 de dezembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

É comum desejar felicidades e conquistas, saúde e alegrias para o ano que vai chegar; votos que sempre fiz e recebi durante anos. Porém uma amiga me enviou, neste final de ano, via WhatsApp, uma antiga prece portuguesa, de autoria desconhecida, que enseja que mantenhamos no ano que está por vir as conquistas que fizemos durante a vida. O conteúdo da oração me impactou e me fez refletir a respeito e concluir que mantê-las poderia ser até mais difícil do que os esforços que empreendemos para tê-las.

É comum desejar felicidades e conquistas, saúde e alegrias para o ano que vai chegar; votos que sempre fiz e recebi durante anos. Porém uma amiga me enviou, neste final de ano, via WhatsApp, uma antiga prece portuguesa, de autoria desconhecida, que enseja que mantenhamos no ano que está por vir as conquistas que fizemos durante a vida. O conteúdo da oração me impactou e me fez refletir a respeito e concluir que mantê-las poderia ser até mais difícil do que os esforços que empreendemos para tê-las. Muitas vezes, quando usufruímos dos benefícios que elas nos oferecem todos os dias, esquecemos dos processos de conquista pelos quais passamos.

Eis a prece:

“E o que você quer que o próximo ano te traga?

Nada, não quero que me traga nada.

A única coisa que quero é que não leve.

Que não leve o teto que me protege, o prato que me alimenta, a manta que me aquece, a luz que me ilumina, o sorriso dos meus amados, a saúde como um tesouro, o trabalho como sustento, a amizade, a companhia, os abraços e os beijos.

Que não leve os sonhos, nem os pedaços dos corações formados por pessoas que carrego dentro de mim. Amém!”

Acredito que muitos dos leitores a tenham recebido. Mesmo assim, não gostaria de deixá-la passar aos nossos olhos sem observar que a maioria dos nossos anseios para o futuro estão no novo. Nem pensamos no que já temos. E é aí que mora o nosso erro derradeiro de fim de ano: nossos desejos se esquecem de molhar as plantas dos nossos canteiros.

Noutro dia, conversando com minha filha no café da manhã, consideramos que o passado e o futuro não existem na realidade concreta. O que há é o aqui e o agora. É em cada instante presente que nossos olhos alcançam, nossas mãos pegam, nossos desejos se atualizam. Então, nos sentimos aterrissados no que possuímos. Para falar a verdade, possuímos muito. Todo esse muito requer atenções, cuidados e providências, posto que é nesse aterrissar contínuo que desvelamos nossos afetos, propósitos e propostas. Construímos nossas vidas.

Quando escrevi minha dissertação de mestrado em Educação, em 1980, concluí que algumas propostas dos Pioneiros da Educação, em 1922, ainda não tinham sido atingidas. Terminei a dissertação, com certa tristeza e desapontamento.

A esperança continuará a ser nossa estrela-guia em 2026. Sinto vontade de escrever na primeira página da minha agenda que pretendo estar viva no final de ano. Caramba! É uma proposta caudalosa e audaciosa. A lista de tarefas que terei de fazer para atingir tal propósito é imensa. Pensando bem, desejar felicidade é vago porque ser feliz é decorrente dos esforços para realizar ações importantes. É trabalho! É usar a inteligência humana! É experimentar o amar!

As palavras de Albert Camus (1913-1960), escritor e filósofo franco-argelino, me inspiram. Segundo ele, o acordar da esperança não é como um discreto bater de asas. Pelo contrário. A esperança é despertada, vivificada, alimentada por milhões de indivíduos solitários, cujos atos e trabalho, diariamente, negam fronteiras e as implicações mais cruas da história. Como resultado brilha, num breve momento, a verdade de que cada e todo homem, sobre a base dos próprios sentimentos e alegrias, constrói para todos.

Quem em 2026 possamos estar vivos e juntos!

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Tempo de Natal

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Às vésperas de Natal, resolvi passear sobre poemas natalinos a fim de captar mensagens, querendo experimentar esse tempo enriquecido pelos versos dos poetas que admiro. As minhas palavras expressam certas tristezas e fogem um pouco do clima festivo posto que emergem de um canto da minha alma que sente o mundo carente de bondades.  Vou começar por Manuel Bandeira (1886-1968) com uma estrofe do poema “Canto de Natal”:

“O nosso menino

Nasceu em Belém

Nasceu tão-somente

Para fazer o bem.”

 

Às vésperas de Natal, resolvi passear sobre poemas natalinos a fim de captar mensagens, querendo experimentar esse tempo enriquecido pelos versos dos poetas que admiro. As minhas palavras expressam certas tristezas e fogem um pouco do clima festivo posto que emergem de um canto da minha alma que sente o mundo carente de bondades.  Vou começar por Manuel Bandeira (1886-1968) com uma estrofe do poema “Canto de Natal”:

“O nosso menino

Nasceu em Belém

Nasceu tão-somente

Para fazer o bem.”

 

A história da nossa civilização é traçada por modos de pensar que ferem o respeito à vida e à cultura dos povos. O mesmo acontece com histórias de famílias, grupos de trabalho e comunidades. Nestas datas tanto se deseja a paz! A paz não é mais do que uma esperança que reina em nosso imaginário, como uma luz universal que nos faz mover para realizar desejos, que, até de maneira inconsciente, colocam a paz como finalidade última. Então, minhas reflexões me fazem aportar em ”Poema de Natal”, de Vinícius de Moraes.

“Pois para isso fomos feitos:

Para a esperança no milagre

Para a participação da poesia

Para ver a face da morte –

De repente nunca mais esperaremos...

Hoje à noite é jovem; da morte apenas

Nascemos, intensamente.

 

Para a cultura cristã, o Natal faz parte da vida e expressa um momento de nascimento, ou melhor, de renascimento. O trajeto que os destinos percorrem é desafiador e exaustivo em que a esperança é a estrela-guia, um símbolo que brilha no meio do caos. Tal qual é a poesia que busca a beleza das palavras para interpretar os fatos da vida. O Natal é o momento em que cada país, cada cidade e  cada um possa olhar para o seu interior, visando reabastecer forças, acalentar dores e perdas e superar vulnerabilidades. Para reencontrar o que é essencial.

Logo agora, depois de colocar o ponto final no parágrafo, os versos de Fernando Pessoa em “Natal” sorriem para mim.

Natal, na Província neva.

Nos lares aconchegados

Um sentimento conserva

Os sentimentos passados

 

Coração, oposto ao mundo

─ Como a família é verdade!

Meu pensamento é profundo,

Estou só e sonho saudade.

 

Como é branca de graça

A paisagem que não sei,

Vista de trás da vidraça

Do lar que nunca terei!”

 

Ah, o Natal! Não é uma convenção nem uma data comercial. Está entre todos os dias do ano em que o sol nasce e se põe. Vinte e quatro horas de encontro com a intimidade e a verdade. Quem já não sentiu ou sente saudade e solidão no Natal mesmo estando cercado de pessoas queridas? E os que tanto olham solitários ou carentes para outras pessoas que brindam o Natal com alegria?

Para terminar, deixo a estrofe do poema “Natal 2011, Cantiga dos Pastores”, de Adélia Prado.

“Que noite bonita é esta

Em que a vida fica mansa,

Em que tudo vira festa

E o mundo inteiro descansa?”

 

E os monges cantam lindas canções para nos iluminar e energizar porque no dia 26 a vida continua mais uma vez. E a gente precisa dos anjos. É tempo de orar por e para eles.

Desejo a todos um dia de encorajamento e renascimento.

Salve o Natal!

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Os caminhos do afeto entre gerações

terça-feira, 23 de dezembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Certa vez, numa cerimônia religiosa, escutei que vivemos para aprender a amar. Saber amar é um dos aprendizados mais complexos que existem e um desafio que experimentamos em cada momento do nosso dia a dia. Nas conversas do nosso grupo no Clube Vivências, durante a leitura do livro de Lázaro Ramos, “Na nossa pele”, editado pela Objetiva, em 2025, foi ressaltado que as relações afetivas em que os pais ou aqueles que ocupam estes lugares estabelecem com os filhos influenciam os modos como estes irão se relacionar com os seus próprios filhos.

Certa vez, numa cerimônia religiosa, escutei que vivemos para aprender a amar. Saber amar é um dos aprendizados mais complexos que existem e um desafio que experimentamos em cada momento do nosso dia a dia. Nas conversas do nosso grupo no Clube Vivências, durante a leitura do livro de Lázaro Ramos, “Na nossa pele”, editado pela Objetiva, em 2025, foi ressaltado que as relações afetivas em que os pais ou aqueles que ocupam estes lugares estabelecem com os filhos influenciam os modos como estes irão se relacionar com os seus próprios filhos. O afeto é um fio condutor que liga uma geração a outra.

Aqui não quero falar de modelos que delineiam comportamentos. Mas do sentimento natural que brota nos pais, no sentido de expressar aos filhos o sentimento de amar, a emoção que faz uma pessoa desejar e fazer o bem a outra. No amor, o afeto se direciona ao outro através de gestos e atitudes que acolhem, nos modos de estar presente para compartilhar, cuidar e educar. Na capacidade de percebê-lo em suas qualidades e limitações, bem como em estabelecer relações verdadeiras e de confiança.

Amar é um conceito refletido pela civilização humana desde os seus primórdios. Até hoje tem sido estudado, debatido e conceituado. É como um raio de sol que atinge alguém quando parte da luz é absorvida e outra é refletida. Ou seja, uma parte do amor energiza a pessoa, enquanto a outra é por ela usada para energizar outra. Simples assim.

O amor é um sentimento intenso que transforma os pais e os filhos simultaneamente. Os homens e as mulheres que se tornam pais e mães têm suas identidades modificadas a cada experiência. São grandes influenciadores dos filhos e atuam diretamente na construção de suas identidades. Que seja através do olhar e abraçar, do conversar e brincar, dos modos de ser e viver, eles vão interagindo afetivamente, criando registros vivos na memória de cada um. Vão se influenciar mutuamente nos modos de ser, pensar e de estar na vida. O homem e a mulher não serão os mesmos depois que se tornarem pais.

O amor é o elo que une as gerações através de relações afetivas, contínuas e dinâmicas, em que histórias de vida são contadas, as culturas familiar, comunitária e social são transmitidas e internalizadas, os hábitos e modos de viver são apreendidos. Um dos meios que faz com que a coesão histórica e social se estabeleça ao longo do tempo é através das relações de amor entre pais e filhos.

Não há regras para os pais experimentarem laços de amor com seus filhos. Cada um é cada um. Contudo é um desafio vivenciá-los posto ser delicado compartilhar a intimidade. Sim. Acredito que seja difícil lidar com a diferença; pais e filhos são diferentes entre si em vários aspectos, como nos hábitos, vontades e nos projetos de vida, principalmente quando a idade dos pais avança e os filhos chegam na adolescência ou adultez. É um amor que exige diversas formas de resiliência, dedicação e doação.

E os filhos, por sua vez, não retribuirão aos pais exatamente o que receberam, mas darão aos seus filhos; vão amá-los não do mesmo jeito, mas com a mesma profundidade. É uma doação contínua, que vai passando de geração a geração. É um processo em que os modos de amar possuem possibilidades de amadurecimento por mais que os caminhos percorridos se mostrem tortuosos. A grande beleza dessa relação é quando o amor ilumina, respeita a liberdade de ser, dá limites saudáveis e aponta para conquistas que engrandeçam a humanidade existente em cada um.

Quantos pais passam a vida aprendendo a amar seus filhos?

Quantos filhos não entendem o amor que recebem dos pais?

Acredito que os pais morrem em paz quando experimentaram a certeza de terem amado seus filhos durante a vida.

Enfim, não são condições financeiras que promovem e reforçam os elos afetivos entre gerações. É a certeza de que os filhos têm do amor que seus pais sentem por eles. 

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O dicionário e o colar de pérolas

terça-feira, 16 de dezembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Já escrevi tantas colunas e ainda não falei do meu inseparável amigo, o dicionário. Ah, a nossa Língua Portuguesa é de uma riqueza admirável. Autêntica, romântica e independente, é para o brasileiro um “valor” maior posto que é a sua língua materna e é nela que habita, casa que o faz humano e ser quem é. Brasileiro, inclusive. Falando e ouvindo, lendo e escrevendo, apreende o conhecimento, compartilha a cultura e o mundo se aproxima das suas mãos.

Dominá-la é uma dignidade!

Já escrevi tantas colunas e ainda não falei do meu inseparável amigo, o dicionário. Ah, a nossa Língua Portuguesa é de uma riqueza admirável. Autêntica, romântica e independente, é para o brasileiro um “valor” maior posto que é a sua língua materna e é nela que habita, casa que o faz humano e ser quem é. Brasileiro, inclusive. Falando e ouvindo, lendo e escrevendo, apreende o conhecimento, compartilha a cultura e o mundo se aproxima das suas mãos.

Dominá-la é uma dignidade!

A comunicação verbal e escrita são capacidades que construímos ao longo da vida, começando com a convivência no ambiente familiar, no aprendizado escolar e na leitura de diferentes estilos literários.  Além do mais, nosso pensamento é estruturado em forma de linguagem; a língua explode através do falar como um porta-voz. Pensando, somos capazes de compreender, criticar e, especialmente, construir significados.

“É que para falar dela preciso usar da linguagem dos homens

Que dá personalidade às cousas,

E impõe nome às cousas.”

Fernando Pessoa

A fluência na língua nos possibilita interagir em todas as situações através de uma comunicação clara, precisa e contínua, sem os erros que tanto a prejudicam. Não ficamos restritos a espaços, nem com problemas guardados nos bolsos. Ninguém pode se esquecer de que a nossa língua é a de Camões, Guimarães Rosa, Monteiro Lobato, Clarice Lispector e de tantos escritores que souberam usá-la com genialidade e arte. Ultrapassaram o tempo. Em que época os versos de Vinícius serão obsoletos?

Então, meu amigo leitor, o dicionário ganha destaque nesta análise como um recurso capaz de oferecer excelentes benefícios ao uso da língua.  As palavras, na maioria das vezes, possuem significados diversos, que podemos não os conhecer ou os compreender com maior abrangência. O cidadão precisa da língua para se fazer entender através das palavras com que expõem ideias e sentimentos. O seu domínio aprimora o vocabulário, estimula as atividades mentais, possibilita a compreensão dos fatos e fundamenta a construção das identidades individual, familiar, cultural e profissional, a cada etapa da vida. Nosso destino é traduzido e compreendido por meio das palavras, o quotidiano se realiza através da interação verbal entre as pessoas, o sujeito se define pelas palavras que pensa, ouve, lê e fala.

Além do que as definições, os sinônimos e antônimos que o dicionário oferece enriquecem a produção textual e a expressão oral, como também possibilitam que outras ideias sejam exploradas, pensadas e repensadas. Toda palavra pode ter diferentes aplicações práticas quando está contextualizada em uma frase, sendo que cada frase compõe um parágrafo, que, por sua vez, faz parte da estrutura de um texto. A exposição de ideias faladas ou escritas exige coerência e continuidade. Ou seja, as palavras devem estar encadeadas como as pérolas num colar. E como são lindas quando essas pérolas estão harmoniosas.

O emprego da ortografia correta é essencial para a clareza e preservação da língua escrita e falada, o que permite que as ideias sejam apresentadas de modo eficiente, garantindo a compreensão mútua. Quando se escreve errado e fala-se errado, um erro vai puxando o outro, e as ideias podem ficar confusas e se perderem num discurso ou texto difícil de ser compreendido. Quem fala, fala para o outro e não para si mesmo, num discurso isolado.

O dicionário também informa a classe gramatical das palavras, cujo domínio favorece a compreensão de toda e qualquer expressão escrita e falada, evitando ambiguidades. O seu entendimento é essencial para a interpretação de textos, seja em leituras quotidianas e prazerosas, seja em estudos e textos informativos.

Hoje, estamos tão acostumados com gírias, abreviações e a busca de textos rápidos ao passo que as leituras enriquecedoras têm sido evitadas. Consequentemente, o vocabulário se reduz a palavras genéricas e a expressões repetitivas seja por falta de interesse ou mesmo preguiça em buscar expressões alternativas. Ou ainda pior, por modismo e para não se expressar de modo diferente.

O uso do dicionário é um hábito que se desenvolve e consolida na medida em que se reconhece que o domínio da língua é o nosso grande suporte para a sobrevivência, conquista dos sonhos e construção do nosso quotidiano. Valoriza-se o sapato da vitrine, o carro da esquina e a viagem de férias.  Será que o brasileiro tem ciência do valor da Língua Portuguesa para sua vida?

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Reflexões sobre a generosidade, o amor e a educação

terça-feira, 09 de dezembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

O livro “A árvore generosa”, de Shel Silverstein (1930 – 1999), publicado pela primeira vez em 1964, pela editora Haper & Row, nos Estados Unidos e no Brasil, em 2006, pela Cosacnaif, e em 2017, pela Companhia das Letrinhas, é um clássico da literatura infantil que nos motiva a fazer reflexões sobre a relação dos pais, parentes, professores e outros adultos envolvidos afetivamente com a criança.

O livro “A árvore generosa”, de Shel Silverstein (1930 – 1999), publicado pela primeira vez em 1964, pela editora Haper & Row, nos Estados Unidos e no Brasil, em 2006, pela Cosacnaif, e em 2017, pela Companhia das Letrinhas, é um clássico da literatura infantil que nos motiva a fazer reflexões sobre a relação dos pais, parentes, professores e outros adultos envolvidos afetivamente com a criança.

Silverstein foi poeta, compositor, músico, cartunista e autor de livros para crianças. “A árvore generosa” se tornou um clássico da literatura mundial por abordar um tema sobre a essência dos relacionamentos humanos: o amor e a generosidade. O texto conta a história da relação entre uma árvore e um menino. Quando pequeno, o menino tinha prazer em descansar à sombra da árvore, brincar com seus galhos e comer seus frutos. E a árvore, afetuosa e muito apegada a ele, fazia-lhe todas as vontades. Com o tempo e na medida em que ia crescendo, o menino passou a fazer mais e mais exigências à árvore, pedindo seus frutos para vendê-los e ganhar dinheiro, cortar os galhos para construir uma casa, usar seu tronco para fazer um barco para viajar e assim por diante. A árvore foi cedendo e cedendo, deixando-se cortar, até ser reduzida a um toco, renunciando à própria vida.

Por amor e generosidade pode se fazer tudo pelo outro até porque ambas as virtudes estão relacionadas e se alimentam mutuamente. Quem ama genuinamente deseja o melhor e faz o bem a quem ama, fica na arquibancada, torcendo para que nada de mal aconteça. O amor é expresso através de vínculos afetivos que envolvem presença, convivência, respeito, carinho, cuidado, carinho dentre atitudes em que uma pessoa transfere para a outra afeto e apoio emocional, como também objetos e bens materiais. Doa-se.

Quem o faz para somente cumprir obrigações não ama. Estar junto significa estar presente e não ao lado. O professor tem um olhar atento a cada aluno, conhece-o, sabe o que fazer para ensinar conteúdos e valores. Quem ama vê, percebe e enriquece. O amor é praticado, não falado. A generosidade não exige recompensas. Quem é generoso sabe dividir seu tempo, recursos e atenção. O amor e a generosidade são profundas virtudes e expressam o maior talento humano através das relações afetivas, familiares, sociais e profissionais.

A criança precisa de amor para crescer e tornar-se um adulto pronto a enfrentar a vida. Portanto, posso afirmar que a educação é um processo alicerçado nessas talentosas virtudes, na postura responsável para oferecer condições saudáveis de acolhimento, aprendizagem e convivência.  

Como tudo na vida, os limites precisam ser respeitados para garantir a saúde do relacionamento e o bem-estar individual. Por tanto amar, a pessoa pode se sacrificar em suas necessidades, desejos e até em sua identidade, colocando-se, inclusive, em último lugar para atender ao outro como fez a árvore.

Shel Silverstein foi claro, lúdico e objetivo nas frases que compôs e nos desenhos que criou para mostrar o egoísmo, a exploração do outro e a ingratidão como algumas das consequências que a generosidade sem limites pode causar. Além de limitar as possibilidades de crescimento dos potenciais existentes em alguém.

A generosidade ilimitada tende a criar monstros!

O texto com as ilustrações pode ser facilmente encontrado na internet (Google). Vale a pena ler e refletir. Para se conquistar a felicidade é preciso aprender a dizer e a escutar o não com inteligência, amor e sensatez!

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O primeiro amor

terça-feira, 02 de dezembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Noutro dia, falando a respeito do primeiro amor, uma questão rondou a conversa: será que o primeiro amor, hoje, possui o mesmo encantamento, pureza e intensidade do que em tempos passados? É uma questão a observar.

Noutro dia, falando a respeito do primeiro amor, uma questão rondou a conversa: será que o primeiro amor, hoje, possui o mesmo encantamento, pureza e intensidade do que em tempos passados? É uma questão a observar.

Busquei leituras que abordassem o tema. Escolhi dois contos: um clássico russo e um atual, brasileiro. O clássico é do escritor russo, Ivan Turguêniev. “O Primeiro Amor”, uma obra de ficção respeitada, envolvente e impactante, publicada em 1860, narra o despertar do amor de um jovem de 16 anos por sua vizinha mais velha. O autor retrata a riqueza das emoções, expondo com maestria os sentimentos do protagonista, Wladimir Petrovich. 

Já o conto brasileiro é “Meu primeiro amor”, de Alana Dornelas, uma história comovente mostra a coragem de amar de dois adolescentes, Lucas e Marina, que precisam lidar com conflitos relacionados à escolha dos caminhos futuros, incompatíveis com o relacionamento amoroso.

Em todos os tempos, o primeiro amor acontece naturalmente e é inesquecível. De um modo geral, a flecha do cupido adentra o coração em plena adolescência quando ele e ela estão experimentando o turbilhão de transformações biológicas, psicológicas e sociais simultâneas e reconstruindo a identidade individual não mais como criança, mas como pessoa em processo de adultez. A sexualidade desponta intensamente, fortalecendo os elos afetivos. Mergulhado em universos cheios de mistérios, descobertas e fantasias, o primeiro amor não é banal; a vida ganha novas cores, contornos e vibrações. Não há receitas para experimentar esse momento, que enleva e provoca um dos mais fortes sentimentos no adolescente, deixando marcas, influenciando, inclusive, os futuros modos de amar, mesmo se o primeiro amor se estabelecer ao longo da vida.

O primeiro amor acontece naturalmente. Não é imposto. Simplesmente surge num entardecer, numa visita ou num acaso, podendo ser recordado em detalhes. Os momentos que seguem podem ser surpreendentes e desconcertantes, fazer o coração palpitar e o sangue fermentar nas veias. O desejo de estar junto é crescente, deixando os amados suspirosos e invadidos por fantasias. Se correspondido ou não, o primeiro amor tanto pode caber em todas as páginas de um livro, como resumido em uma folha de papel.  Em todos os casos, sempre é único.

A figura da pessoa amada é um espetáculo que faz o amado ficar em estado de êxtase. É uma imagem para se ver e tocar, admirar e sonhar. Os modos de olhar para o ser adorado ganham um brilho especial, até do semblante evaporam os ares da paixão. Para o adolescente, é um momento de vida que pode ser experimentado com grandes alegrias e dores. As lágrimas e os risos são abundantes. Momentos em que o imaginário e a realidade se mesclam em uma dinâmica furta-cor; a imaginação conduz as ações e estas oferecem subsídios à fantasia.

O primeiro amor jamais prescinde de beijos suaves e delicados, fortes e intensos. O toque das mãos e dos lábios, o abraço e o carinho, as conversas bobas e os planos para o futuro alimentam o clima de paixão, cheios de purpurina, confetes e explosões. É possível, pelo amor, caminhar sobre brasas, comer panqueca de pimenta no café da manhã e fazer serenata embaixo da janela em noites chuvosas.

 Hoje, os jovens, têm acesso às redes sociais carregadas de estímulos e informações sobre a sexualidade, conceitos pouco éticos, liberdade para vivenciar relacionamentos amorosos. Como podem, então, experimentar o primeiro amor? Ou melhor, qual o espaço que esse fato, carregado de nuances, brilho e histórias, tem para despontar e eclodir?

Aproveitando as palavras de Vinicius de Moraes ao tema, me arrisco a escrever: quem ama quer ir além da beleza, quer encontrar no outro algo a mais que faça sentir saudades, torne a alma desejante do amor de quem ama. Sente-se estimulado a compartilhar alegrias e entristecimentos, a ouvir histórias e contar segredos. É ter alguém por quem tenha motivos para construir a própria vida.

Coincidentemente, hoje, ao atravessar a Praça Getúlio Vargas, vi um casal que se beijava longamente, dando a impressão a quem passava, de estarem tomados por sentimentos profundos de amor. Ofereciam à cidade uma imagem bonita que valia a pena admirar.

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A flor amarela

terça-feira, 25 de novembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Hoje, escrever um conto de memória, inspirada em um momento que vivenciei, aparentemente banal, mas que me tocou. Quando situações assim acontecem, é importante que pensemos a respeito, quer falando ou escrevendo, até mesmo sonhando posto que podemos nos rever para melhorar a pessoa que somos. Acredito que nada o que aconteça seja por acaso; tudo tem sentido. Pena que existem significativos fatos que se diluem no quotidiano e são apagados pelo tempo quando não são registrados.

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Hoje, escrever um conto de memória, inspirada em um momento que vivenciei, aparentemente banal, mas que me tocou. Quando situações assim acontecem, é importante que pensemos a respeito, quer falando ou escrevendo, até mesmo sonhando posto que podemos nos rever para melhorar a pessoa que somos. Acredito que nada o que aconteça seja por acaso; tudo tem sentido. Pena que existem significativos fatos que se diluem no quotidiano e são apagados pelo tempo quando não são registrados.

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Cheguei à casa de minha mãe, carregada de expectativas depois de mais de mês sem vê-la, tendo que dar atenção à sua afetuosa e alegre cachorrinha, desfazer a pequena mala e presenteá-la com os queijos que trouxe de uma viagem que fiz à Minas Gerais. Eram novidades a contar e a saber, abraços e beijos a trocar. Um momento para apaziguar as saudades e saldar a vontade que minha mãe tem para viver seus 94 anos. Ela me recebeu com elegância; batom e sombra nos olhos, brinco, colar, pulseira e sapato de salto baixo. 

Entre afetos, um relance foi o suficiente para que eu percebesse uma flor amarela desabrochada num vaso de porcelana em cima da mesa da varanda. Estava soberba e serena na ponta de um galho, amparado por uma pequena madeira para não quebrar. Sem conter a vaidade, a flor dançava ao vento suave, refletindo as vibrações da casa. Quase imperceptível em meio à paisagem da varanda e da vida familiar, era um dos mais belos e sutis milagres da natureza.

Naquele final de tarde, o céu ainda estava azul, cheio de nuvens brancas. Eu, sentindo aquele calorzinho carioca, nem me atentei para a possibilidade de mudança no tempo. O vento veio chegando ao anoitecer, junto com um mormaço crescente. Na sala, a conversa seguia. Eu, volta e meia, em mais um e outro relance, de longe, admirava a flor que se mostrava sem timidez.

O vento se tornou ventania, passando pela varanda com rajadas intermitentes cada vez mais fortes, fazendo balançar os vidros e as plantas, causando ruídos que se misturavam com os da casa. Cansada e com sono, depois de assistir com mamãe a um filme na televisão, me entreguei ao sono. Durante a madrugada, o ciclone extratropical se fez imperador do clima, nos acordando. Fomos à varanda. E... Também num outro relance, vi a flor caída no canto atrás de um vaso. Com as mãos em concha, peguei-a tomada pelo dó, fazendo a tristeza me adentrar com a mesma ferocidade da ventania. Considerando o quanto ela tinha lutado para sobreviver, comecei, então, a me perguntar por que não tirei o vaso da varanda assim que o vento chegou. Peguei o vaso, coloquei num lugar protegido na sala e ajeitei o galho para que não quebrasse. Por sorte e para meu alívio vi um tímido broto despontando junto das folhas.

Passei o resto do dia me perguntando os motivos pelos quais não a protegi e deixei-a ser arrancada do galho e morrer no canto da varanda. O que pode existir dentro de mim que me faz, às vezes, não tomar providências que possam proteger o que gosto e admiro. A flor amarela morreu abandonada às intempéries da natureza.

De certo, nos acostumamos a tornar banais situações que de fato não são. Se cuidasse da flor, teria sentido paz e orgulho de mim. Mas a minha passividade me violentou e me fez sentir irresponsável. Triste. Com sentimentos desamparados tal qual deixei a flor amarela ficar.

Ao longo do dia perguntas iam e vinham deixando a tristeza culposa me rondar. Até que uma questão se achegou e me fez parar: o que é felicidade. A flor estava tão bela e feliz, e eu também a admirava com satisfação. Mas, de repente, ela se desprendeu tragicamente do galho e morreu. Se a vida pode mudar numa fração de segundos, transformando a alegria em dor, o que é felicidade?! Será um conceito que descreve um estado de encantamento, enlevando o espírito a um estado de sublimação, mas que torna invisível as dificuldades e limites presentes na vida?

Muitos pensadores consideram que o bem-estar emocional pressupõe a aceitação da realidade como ponto de partida para a superação de limites ou dificuldades. Eis que a flor me mostrou que olhar para o outro em toda sua felicidade não é suficiente para preservá-lo.

E a flor foi uma linda guerreira mais feliz do que eu.

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Começar um livro pelas últimas páginas?!

terça-feira, 18 de novembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Será possível isto acontecer?! Pois é. Aconteceu comigo durante muitos anos. A minha avó Carmem era tradutora de romances de bolso da Editora Bruguera, fundada em 1910, e que hoje não existe mais. Vovó tinha uma coleção desses romances, e eu, já entrando na adolescência, os lia com frequência quando estava em sua casa, posto que as histórias alimentavam meus sonhos ingênuos e apaixonados*. Porém quando os conflitos surgiam na trama, eu buscava as duas últimas páginas para saber se a história teria um final feliz. Com o tempo, antes mesmo de começar a ler, eu abria o livro no final.

Será possível isto acontecer?! Pois é. Aconteceu comigo durante muitos anos. A minha avó Carmem era tradutora de romances de bolso da Editora Bruguera, fundada em 1910, e que hoje não existe mais. Vovó tinha uma coleção desses romances, e eu, já entrando na adolescência, os lia com frequência quando estava em sua casa, posto que as histórias alimentavam meus sonhos ingênuos e apaixonados*. Porém quando os conflitos surgiam na trama, eu buscava as duas últimas páginas para saber se a história teria um final feliz. Com o tempo, antes mesmo de começar a ler, eu abria o livro no final. Se o final não me enternecesse, eu deixava o livro de lado e procurava outro. Agora, narrando esse fato inusitado, me dou conta que aquele jeito de começar a ler favoreceu a construção e o desenvolvimento do meu hábito de ler e gosto pela leitura.

No Clube de Leitura Vivências, lendo o livro de Lázaro Ramos, “Na nossa pele”, lançado pela Objetiva, ele aborda uma situação similar. Ao ler em voz alta para sua mãe acamada, descobriu que ela gostava de saber logo o final pelas mesmas razões que as minhas.

Aí, meus amigos leitores, fiquei com a pergunta; “por que eu não queria ler uma história que terminasse com tristezas?”. De fato, quando assisto a um filme ou leio uma história que não acaba bem, não gosto. Guardei esse sentimento ao longo da vida sem ter me dado conta da maneira como encaro a tristeza, a perda e a maldade.  Enfim, tudo o que caminha para o infortúnio eu tento me afastar. É uma dificuldade que trago no meu íntimo. E, confesso, me prejudica!

Logicamente, é possível começar a ler conhecendo o final; hábito, que acredito ser mais comum do que se possa imaginar. Sabendo que a história vai acabar bem, é um modo de garantir, durante a leitura, a tranquilidade de passar pelos conflitos e dores dos personagens, o que não deixa de permitir que o leitor aproveite melhor os fatos sem que sentimentos angustiantes dominem a leitura. Afinal de contas, a leitura tem de ser prazerosa, um dos conceitos básicos da formação do leitor.

Pode até mesmo favorecer que o leitor pule etapas da leitura para evitar aqueles trechos entediantes devido a descrições longas, abordagens de narrativas pouco relevantes. Também nos casos em que o leitor teve que parar de ler por um período e não sinta necessidade de retornar a páginas anteriores.

Quando fazia oficinas literárias de escrita criativa, fui orientada a planejar a história que eu iria criar. No planejamento era importante visualizar o final para saber como iria construir as etapas centrais do enredo. Aliás um dos requisitos principais da produção textual de ficção é a coerência dos fatos. Todo o enredo, do começo ao fim, precisa estar interligado com lógica, clareza e sentido. Nada pode ser incongruente, sem nexo. A não ser que os acontecimentos imprevistos na trama estejam propostos no planejamento. Pode até ocorrer que durante o processo de escrita surja uma situação nova, que vai exigir uma revisão do texto já escrito e do planejamento.

Um romance de ficção atraente ao leitor há de ter um fio condutor causado pela superação de uma situação conflituosa, que normalmente acontece no início da trama e muda a vida dos personagens. O suspense é fundamental para atrair a atenção do leitor, fazendo-o virar as páginas até chegar ao final. Se nada acontece, se a vida deles transcorre na total felicidade e tranquilidade, não há uma história interessante a contar. Os personagens são impedidos de mostrar suas características, seus defeitos e qualidades, suas ações heroicas, pacificadoras ou resilientes, maldosas ou pérfidas.

Se a literatura espelha a vida, e a vida não poupa ninguém, temos que lidar com as dificuldades, com as finalizações tristes ou trágicas.  Não buscar as últimas páginas antes de ler as primeiras é um amadurecimento da postura de enfrentamento das situações de vida.

A literatura salva!

  • Há sessenta anos, as meninas eram sonhadoras. Não havia celular, a televisão era em preto e branco e, ainda, existiam as novelas de rádio, quando as pessoas se reuniam para escutá-las. Era comum os adolescentes guardarem amores platônicos, e o beijo ser um sonho guardado com fitas de cetim.
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