Lendo um artigo sobre o trânsito, uma frase me chamou a atenção: o trânsito é o lugar onde tudo e todos se incidem. Onde há diversas formas e níveis de interação entre as pessoas, se motoristas e motociclistas, se pedestres e ciclistas, se passageiros e vendedores de sinal. Se animais, com seus donos ou não. Aqueles que estão na via, indo e vindo, sofrem os efeitos do clima, das obras, dos defeitos dos pavimentos, da hora apertada, dos conflitos políticos e sociais. Das esperanças e medos individuais e coletivos.
Lendo um artigo sobre o trânsito, uma frase me chamou a atenção: o trânsito é o lugar onde tudo e todos se incidem. Onde há diversas formas e níveis de interação entre as pessoas, se motoristas e motociclistas, se pedestres e ciclistas, se passageiros e vendedores de sinal. Se animais, com seus donos ou não. Aqueles que estão na via, indo e vindo, sofrem os efeitos do clima, das obras, dos defeitos dos pavimentos, da hora apertada, dos conflitos políticos e sociais. Das esperanças e medos individuais e coletivos.
O trânsito é a expressão da vida em movimento. É o espectro do que é visível e invisível em uma cidade, ao conter os sinais vitais de felicidade, angústia, raiva, gentileza, educação e egoísmo. É o termômetro dos níveis de civilidade de um lugar, a mais verdadeira expressão da educação de uma pessoa e de um povo.
A literatura, como as crônicas, os textos acadêmicos, os contos e romances e até poesias, busca no quotidiano a inspiração para produzir seus textos. Rachel de Queiróz, em janeiro de 1961, escreveu a crônica “Trânsito”, na qual, em função de um quase acidente com um caminhão na estrada Rio-Teresópolis, teceu críticas contundentes à falta de educação dos motoristas, como o não respeito às leis, desrespeito ao motorista que trafega na mão contrária, a embriaguez, dentre outros temas relevantes.
Acredito que sua crônica tenha motivado revisões na legislação do trânsito. O escritor, quando sensibilizado, transforma o quotidiano em literatura, oferecendo temas para os leitores refletirem. Aliás a literatura não tem finalidades pedagógicas, de julgar o certo e o errado, têm a função de mostrar a vida: é uma fotógrafa dos fatos, posto que sua competência está em possibilitar que esses fatos sejam vistos através das suas palavras.
Entre as atitudes de cortesia ao desrespeito, do caos à convivência consciente, entre a calma e a pressa, entre gestos educados e xingamentos, o trânsito revela o que cada cidade e cada cidadão tem de melhor e pior.
A crônica “Cupcake”, de autor desconhecido, aborda a loucura do trânsito ao descrever a vontade de um sujeito, após um dia de trabalho, de comer um cupcake exposto na vitrine de uma loja do outro lado de uma avenida movimentada, que estava para fechar. Primeiramente, teve o ímpeto de atravessar entre os veículos, desviando dos carros e caminhões que passavam em velocidade. Por bom senso, decidiu caminhar alguns metros até o sinal para atravessar com segurança, vislumbrando o bolinho a cada passo. Porém, ao chegar, a loja já havia fechado.
E as chuvas fortes, se são belas de serem vistas pela janela, contudo, nas ruas, na hora de maior intensidade de tráfego, pode ser motivo para engarrafamentos, impaciências, água jogada nos pedestres pelos carros quando passam pelas poças, freios que funcionam mal, água que entra no motor, pedestres cortando o meio das ruas para chegar mais rápido a seus destinos e motos costurando mais ainda os carros em fila. Tudo e todos se incidem nesses momentos, quando a população se torna refém do trânsito.
A poetisa Ana Cristina Cesar escreveu em um dos seus poemas:
“Tu queres sono: despe-te dos ruídos, e
dos restos do dia, tira da tua boca
o punhal e o trânsito, sombras de
teus gritos (...) “
A via é um espaço coletivo, portanto, compartilhado. Não deveria ser lugar de estresses, medos e pressas. Não é um lugar anônimo. Pelo contrário, é identificado, comum e tem dono: nós!
A maior parte dos sinistros, com ou sem vítimas, é causado por falha humana. Dessa forma, no trânsito, o exercício da cidadania preserva a vida.
Para finalizar, deixo um micropoema de Carlos Drummond de Andrade.
“Stop.
A vida parou
ou foi o automóvel?”
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