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A magia dos desenhos animados e a literatura

terça-feira, 21 de julho de 2026
por Tereza Malcher

A magia desponta na relação entre a literatura e os desenhos animados a partir da interpretação do texto e da sua tradução em imagens com movimento. Os artistas da literatura constroem mundos inteiros e os do desenho materializam as ideias invisíveis feitas de palavras. Com espíritos imaginativos entrecruzados, criam universos mágicos com o intuito de oferecer fantasia aos espectadores, a maioria crianças e jovens. Por que não os adultos? Aliás, qual adulto não teve sua infância marcada pelos desenhos animados?

A magia desponta na relação entre a literatura e os desenhos animados a partir da interpretação do texto e da sua tradução em imagens com movimento. Os artistas da literatura constroem mundos inteiros e os do desenho materializam as ideias invisíveis feitas de palavras. Com espíritos imaginativos entrecruzados, criam universos mágicos com o intuito de oferecer fantasia aos espectadores, a maioria crianças e jovens. Por que não os adultos? Aliás, qual adulto não teve sua infância marcada pelos desenhos animados?

A ideia primeira, o fio condutor, o roteiro, é do escritor que cria a história. A seguir, o desenhista a materializa a partir da maneira como a percebe, assimila os personagens e imagina os cenários. Nessas distintas instâncias não há regras rígidas para a criação. A fantasia, ao embalar todas as etapas do processo, oferece diversão e estimula o imaginário de quem a assiste.

A imaginação do escritor roteirista e a do desenhista supera as leis da Física e da Biologia; tudo pode acontecer: um cavalo falar, um brinquedo ter asas e voar e um urso cozinhar. As cenas são pensadas e estruturadas seguindo o princípio da verossimilhança, para que ofereça ao espectador a impressão de ser verdadeiro.

Seus personagens são lúdicos, engraçados, atraentes e expressivos. A alegria, o espanto, a dúvida e a tristeza são indicadas no texto para serem expressas no desenho, através de um delicado trabalho entre a sensibilidade dos artistas. Na animação, por exemplo, os sentimentos se transformam em imagens literais, como o coração pulando fora do peito e a raiva fazendo a fumaça sair pelas orelhas.

 Nem sei se é preciso haver comunicação entre um e outro, nem o escritor deve determinar como a sua ideia vai se materializar nos traços do desenhista. Mas, certamente, quem vai desenhar precisa captar a essência de todas as etapas da história. E, muitas vezes, vai além, ampliando-a. O que comumente acontece.

Vou contar uma experiência com o meu personagem, o Labareda, do livro “Um cão cheio de ideias”. Quando minha obra foi adaptada para o teatro, o ilustrador do livro percebeu meu personagem de uma forma e o desenhou. O desenhista da peça idealizou uma figura totalmente diferente. Cada um dos atores descreveu o Labareda de uma maneira. E eu entrei em desespero porque a minha ideia era diferente de todas. Mas entendi, por fim, que a beleza do processo estava justamente nessa diversidade de percepção, que estimulou o diálogo e enriqueceu a encenação. Deu nova vida à história.

O desenho animado tem uma linguagem universal, posto que as imagens dizem tudo e muito mais.  Uma relação dinâmica e criativa entre o escritor e o desenhista faz com que a criança e o adulto se emocionem com a mesma cena, mesmo sendo captada a partir de entendimentos diferentes. Além do que, os desenhos animados mostram situações vividas pelas pessoas, seja de modo objetivo, metafórico ou fantástico. O espectador reage e se identifica com os personagens que fazem a história acontecer.

Por outro lado, alguns desenhos animados podem ser considerados verdadeiras poesias em movimento, como o do “O Pequeno Príncipe”. Os contos de fadas, escritos por Hans Christian Andersen, pelos Irmãos Grimm e por Charles Perrault são eternizados pelos desenhos animados.  Ao assisti-los, a criança pode sentir vontade de ter acesso às obras clássicas, ser estimulada a buscar o livro e descobrir o prazer de ler.

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A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

O vício arrasta vidas inteiras ao abismo

terça-feira, 14 de julho de 2026
por Tereza Malcher

As obras literárias “Camaleão”, livro infantojuvenil, de Maria Clara Cavalcanti, e “Trilogia de Copenhagen: infância, juventude e dependência”, da autora dinamarquesa Tove Ditlevsen, foram dois livros que me despertaram para um tema difícil de abordar, triste e delicado. Faz tempo que estou adiando desenvolvê-lo posto que expõe a cruel realidade decorrente do vício na vida pessoal do dependente, em sua vida familiar, nos laços afetivos e nas relações sociais. São histórias que se repetem, esgarçam propósitos de vida e anulam esperanças, processos que arrastam vidas inteiras a um abismo.

As obras literárias “Camaleão”, livro infantojuvenil, de Maria Clara Cavalcanti, e “Trilogia de Copenhagen: infância, juventude e dependência”, da autora dinamarquesa Tove Ditlevsen, foram dois livros que me despertaram para um tema difícil de abordar, triste e delicado. Faz tempo que estou adiando desenvolvê-lo posto que expõe a cruel realidade decorrente do vício na vida pessoal do dependente, em sua vida familiar, nos laços afetivos e nas relações sociais. São histórias que se repetem, esgarçam propósitos de vida e anulam esperanças, processos que arrastam vidas inteiras a um abismo.

“Camaleão” fala de uma menina que gostaria de desaparecer no estampado do sofá, na escuridão da noite ou no azul da colcha da sua cama sempre que sentisse um cheiro diferente no beijo do pai. Quando isso acontecia, ele se tornava uma pessoa cruel, fazendo lágrimas escorrerem nos olhos da mãe e a menina fugir para a casa da avó. Com uma linguagem cuidadosa e preocupada com o entendimento do leitor infantil, a autora mostra a realidade sofrida e destrutiva de uma família que convive com o vício do álcool. O que não é raro nas famílias, ao contrário, é mais comum do que se possa imaginar.

Maria Clara, através de “Camaleão”, é solidária às crianças que sofrem com o alcoolismo de um dos pais ou parentes que convivem na mesma casa. Mostra, ao longo da história, que mudar é possível e que cada um pode tomar as rédeas da própria vida.

Tove Ditlevsen escreve sua autobiografia em “Trilogia de Copenhagen”, que foi considerada pelo New York Times um dos melhores livros do século XXI. De fato, ela escreve, com coragem, sua travessia pela vida, desde criança, sem deixar de mostrar, com minúcias, as dificuldades que passou e conquistas que realizou, sendo a literária bastante significativa. A meu ver, a mais importante foi o enfrentamento do vício em opioides (classe de drogas analgésicas potentes que atuam no sistema nervoso central para aliviar dores e apresentam alto risco de dependência e efeitos colaterais graves).

O vício percorre os caminhos biológicos e existenciais de uma pessoa, através do uso de substâncias químicas que têm o poder de iludir por uma recompensa anestésica, digamos assim, que, através do prazer momentâneo, sequestra-a da rotina diária. É um hábito, de início, altamente sedutor que vai retirando sua liberdade individual, esvaziando os significados da vida, incapacitando-a de resistir. O viciado, passa, então, a ser movido por um estímulo incontrolável em busca de alívio imediato, seguido de prazer. Ou seja, os vícios têm potencial destrutivo, além de impedirem que o usuário pare para avaliar as consequências que dilaceram a sua vida à longo prazo. Podem levar à morte.

A droga, seja de que natureza for, desfragmenta a autonomia humana: o corpo, a mente e a afetividade. Corrói a identidade, a autoestima, as propostas de vida e, principalmente, o livre-arbítrio do viciado. É como uma espiral repetitiva, cujos eventos são muitas vezes trágicos.

Além dos vícios químicos (álcool, tabagismo, drogas ilícitas e energéticos, dentre outros). Há vícios comportamentais que afetam o sistema de recompensa cerebral de forma semelhante às drogas. Podem causar consequências severas à vida do viciado, como ansiedade, depressão, perda de controle da rotina diária, isolamento social e desajustes na vida familiar. Caracterizam-se pela repetição compulsiva de um comportamento que gera prazer imediato, seguido de arrependimento e prejuízo, como os tão populares jogos de azar, as apostas, os videogames e demais digitais/tecnológicos que causam dependência das redes sociais, dos videogames e da internet em geral. Também pertencem a esse grupo o vício em compras (oniomania) em trabalho (workaholismo).

Todo o vício requer tratamento médico, psicológico, terapias de apoio e alternativas de assistência, não somente do viciado, como dos familiares. Carl Jung considerava que o vício preenche vazios emocionais ou espirituais, enquanto decorrente de um sofrimento profundo. O vício anestesia dores. “É uma tentativa de preencher o vazio da alma que tem a forma de Deus”.

A cura é decorrente de um profundo processo de autoconhecimento. Como do entendimento e aceitação das perdas e dores afetivas e, principalmente, da descoberta dos motivos pessoais para viver.

Meu padrasto, Gilberto Avena, geriatra e cardiologista, sempre me dizia: “A espiritualidade é fundamental em todo processo de tratamento e cura”.

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Histórias autobiográficas

terça-feira, 07 de julho de 2026
por Tereza Malcher

Esta coluna foi inspirada na frase de Fernando Pessoa “a vida que se vive é menos real do que a que se pensa e se escreve” (Livro do Desassossego, escrito pelo heterônimo Bernardo Soares), que me fez pensar nas diferenças entre vivenciar, refletir e escrever sobre experiências. Pensar sobre a vida é um momento que exige solitude, estado de estar só de forma voluntária e positiva, muito diferente da solidão, que é um estado de sofrimento e vazio.

Esta coluna foi inspirada na frase de Fernando Pessoa “a vida que se vive é menos real do que a que se pensa e se escreve” (Livro do Desassossego, escrito pelo heterônimo Bernardo Soares), que me fez pensar nas diferenças entre vivenciar, refletir e escrever sobre experiências. Pensar sobre a vida é um momento que exige solitude, estado de estar só de forma voluntária e positiva, muito diferente da solidão, que é um estado de sofrimento e vazio.

A frase me fez buscar significados em Nietzsche, que descreve o estar só como um momento especial de liberdade, superação e criação, espaço necessário para a construção de um caráter forte e distanciado das próprias ilusões e das emanadas pelos outros e o grande “Outro”. Ele escreveu, na sua obra “Assim falou Zaratustra”, que “é preciso ter o caos dentro de si para gerar uma estrela dançante.

Quem escreve uma autobiografia, como fizeram Gisele Pelicot, em “Um hino à vida”, Rita Lee em “Rita Lee: uma autobiografia” e Tamara Klink em “Nós: O Atlântico em solitário”, pode ser observador da própria história e deixar de ser ator do próprio filme para se tornar diretor. Ser também capaz de tomar decisões com maior clareza e racionalidade a partir do autorrelato em que se concedeu o direito de descrever e avaliar as próprias experiências e percepções, sentimentos, ações e reações, desejos e realizações.

Quando temos a coragem para escrever a nossa própria história, vemos com mais cuidado os passos que demos ao longo dos caminhos que percorremos durante os diferentes momentos que vivemos. A questão não é situá-los entre o que acertamos e erramos, mas refletir sobre como os rumos que tomamos. Ah, como somos imperfeitos! O ato de escrever supera os meandros das reflexões. As palavras registradas são expressões da língua mais aprofundadas do que as pensadas. Escrever é a possibilidade de o autor ver suas ideias concretamente, superando o plano abstrato das ideias. O pensamento é ágil, intenso, reúne ideias com sentidos diferentes que se unem, se chocam e se afastam em cadeias repetitivas. Já o ato de escrever delimita pensamentos, reorganiza-os e cria prioridades.

A autobiografia é um processo de escrita que faz com que o autor se depare com as situações e os sentimentos mais difíceis e dolorosos, embora sejam importantes para o processo de superação, reavaliação e valorização dos fatos que marcaram nossa trajetória. A vida é rápida, passa instantaneamente e vai largando pedações de afetos e lembranças pelo caminho. Como é importante parar para pensar e suspirar, rir e chorar. É como admirar a paisagem em toda a sua beleza, perigos e acidentes geográficos. Sentar-se no alto de uma colina e verificar as possiblidades para descer, percorrendo novos caminhos. Pensar e escrever sobre a vida experimentada é um dos atos mais inteligentes que uma pessoa possa vir a ter.

Uma querida amiga, Lenah Oswado Cruz, escreveu “A voz do tempo”, em que conta sua trágica história de vida. Quando ela estava escrevendo, disse para a Sally, outra grande amiga, e para mim: “preciso escrever minha história para continuar a viver”.

Quem já não desenhou a própria linha do tempo, coloriu os momentos de conquista e derrotas, contornou os desejos realizados ou não, ressaltou pessoas com quem conviveu, enfim, criou um quadro com afeto e arte para depois escrever a própria história na primeira pessoa e usou o “eu” como o maior herói ou vilão?

Eita, que desafio!

Ao escrever “Um cão cheio de ideias”, foi-me sugerido escrever cartas para o Labareda, o protagonista da história. Fiquei pasma. O meu personagem canino era cheio de certezas, incisivo, apresentava críticas diversas ao modo como eu estava conduzindo a história e me deu sugestões. Quando escrevemos sobre nós, abrimos as portas do desconhecido que existe em nós. Se inconsciente ou não, são energias vivas que ficam, silenciosamente, nos rondando, influenciando e até determinando o que vamos fazer e como.

Enfim, a literatura nos salva até de nós mesmos!

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Hans Christian Andersen

terça-feira, 30 de junho de 2026
por Tereza Malcher

Em 1805, na Europa Setentrional, início do século XIX, na Dinamarca, em Odense, nasceu um dos maiores escritores de literatura infantil, Hans Christian Andersen, no dia 2 de abril. Dia em que é comemorado, em sua homenagem, o Dia Internacional da Literatura Infantil. Como também, recebe seu nome, o Prêmio Hans Christian Andersen, considerado o “Nobel” da literatura infantil.

Em 1805, na Europa Setentrional, início do século XIX, na Dinamarca, em Odense, nasceu um dos maiores escritores de literatura infantil, Hans Christian Andersen, no dia 2 de abril. Dia em que é comemorado, em sua homenagem, o Dia Internacional da Literatura Infantil. Como também, recebe seu nome, o Prêmio Hans Christian Andersen, considerado o “Nobel” da literatura infantil.

Andersen foi um escritor prolífero em diferentes estilos literários. Foi autor de poemas, peças de teatro, romances, poemas e relatos de viagens. Porém conquistou o universo infantil com os contos de fadas, que até hoje encantam a infância de gerações e lugares do mundo, inclusive a nossa e a de nossos filhos. Seus contos foram traduzidos para mais de 100 idiomas, adaptados para o teatro, cinema, desenhos animados e histórias em quadrinhos. Em livros, suas histórias foram editadas individualmente e reunidas em coletâneas.

Com uma produção literária infantil essencialmente criativa, seus textos refletem suas emoções, história de vida e visão de mundo. Ele não compilou, ou seja, não reescreveu os contos populares com bases na linguagem infantil, como fizeram os Irmãos Grimm e tantos autores. Ele se inspirou neles, como “A Roupa Nova do Rei”. Suas histórias fazem profundas reflexões sobre a existência humana ao abordar as adversidades do viver, como em “A Pequena Vendedora de Fósforos”.

Sua obra no âmbito da Literatura Infantil tem atualidade, devendo ser lida e refletida por crianças, jovens e adultos. “O Patinho Feio” é um texto autobiográfico em que ele retrata as dificuldades que passou, quando criança, por ser feio, desajeitado e sofrer bullying. O personagem atravessa várias etapas de num processo de autodescoberta, tema relevante em todas as fases da vida.

A história nos remete à importância da construção da identidade individual. O ver-se, o descobrir-se, o reconhecer-se e o aceitar-se são atos que trazem toda a complexidade de a pessoa olhar para si mesma. O eu, que a pessoa vivencia e observa, encara ela mesma e os outros que coexistem dentro dela. Fernando Pessoa escreveu, através de um dos seus heterônimos em o “Livro do Desassossego”, “a vida que se vive é menos real do que a que se pensa e se escreve”. O Patinho Feio cresceu e descobriu que era, na verdade, um cisne, o mais belo do seu bando. Foi o que de fato aconteceu com Hans Cristian Andersen.

A obra também trata das diferenças individuais que precisam ser refletidas a partir da aceitação e do respeito. Ou seja, as expectativas pessoais relacionadas à culpa e aos desejos, realizados ou não, não devem distorcer a percepção que cada um tem de si, posto que há uma distância entre a forma como alguém se percebe e a sua essência real. É uma obra que motivou vários estudos a respeito da autoaceitação, como a do austríaco Bruno Bettelheim, autor da “Psicanálise dos Contos de Fadas”, que aponta como o “O Patinho Feio” ajuda a criança a lidar com sentimentos de rejeição, com dificuldades inerentes ao crescimento pessoal e com o desenvolvimento dos potenciais existentes.

Já a psicóloga americana Clarissa Pinkola Estés ressalta como a jornada de isolamento é importante para que a pessoa possa conhecer a si mesma, descobrir identidades com pessoas e grupos e não se submeter às pressões sociais.

Sob o ponto de vista educacional, o conto é utilizado nas escolas durante o tratamento do bullying, das relações conflituosas nos grupos de alunos em que haja rejeição e as dores emocionais que causam. As rejeições não podem definir o ser de uma pessoa, o que, infelizmente, acontece quando não se trata.

Outros estudos evidenciam a persistência e a resiliência do protagonista que, mesmo exposto à crueldade, continua sua busca por um lugar onde seja acolhido e respeitado. Inclusive, a Psicologia Clínica descreve a Síndrome do Patinho Feio para definir a sensação de inadequação, estranheza e não pertencimento, sentimentos que interferem nos processos de desenvolvimento da autoestima.

Em cada obra, Andersen cria mundos íntegros e genuínos, enriquecidos com mensagens sociais, psicológicas, filosóficas e éticas. Seus contos têm finais a serem refletidos e não há a ideia de “foram felizes para sempre”.  Possivelmente esse modo de conduzir um conto ao seu final tenha lhe permitido conquistar o lugar que ocupa na literatura mundial. A espiritualidade, a transformação interior e a imortalidade são desfechos sábios e reais.

Ler Hans Cristian Andersen é um presente que o leitor dá a si mesmo, independentemente da sua idade. E como é prazeroso ler para crianças, sentar-se na cama de um filho ou neto, antes de dormir, para ler, conversar e acolher.  

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Dez anos buscando ideias e boas palavras

terça-feira, 23 de junho de 2026
por Tereza Malcher

Se comemoramos o tempo de dedicação a um projeto, festejamos um aniversário ou a conclusão de um curso, por que não comemorar o tempo dedicado à coluna “Momentos Literários”, aqui em A VOZ DA SERRA?.

Se comemoramos o tempo de dedicação a um projeto, festejamos um aniversário ou a conclusão de um curso, por que não comemorar o tempo dedicado à coluna “Momentos Literários”, aqui em A VOZ DA SERRA?.

Sou acolhida por este jornal há dez anos. É uma alegria ver minhas palavras expostas semanalmente em suas páginas, acordar de manhã com uma ideia, desenvolvê-la ao longo de alguns dias, corrigi-la e, em seguida, enviá-la ao Professor Márcio Paschoal para ser revisada com os cuidados de um mestre. Encaminhá-la à redação e relê-la quando publicada. É um processo que cumpro serenamente.  

Precisamos encontrar sentidos que justifiquem o dia que vivemos. Quanto mais pensamos a respeito, concluímos que as atividades que realizamos cumprem pelo menos um propósito que nos é especial. Todos os propósitos abrangem o cuidar. Cuidar é um verbo imenso, que vai além de um ato mecânico. É uma postura que viabiliza a construção do nosso destino. É um modo de zelar pelo que temos. Se passamos a vida construindo pertences, buscamos ferramentas para que possamos nos dedicar ao que conquistamos.

Conquistar a atenção dos leitores é o ponto de partida de cada coluna. São aproximadamente 566 publicações, com a primeira publicada no dia 27 de junho de 2016. Eu me lembro quando fui ao jornal e me apresentei ao Gabriel Ventura Braga, acompanhada pelo acadêmico e amigo Ordilei Alves da Costa. Foi um encontro simples quando falei da vontade que tinha de escrever sobre literatura infantojuvenil.

Meus primeiros passos foram tímidos, inseguros, mas determinados a conquistar o espaço semanal. Visitei livros de vários estilos e autores de diferentes nacionalidades. Li as mais poéticas letras de músicas e as mais criativas histórias em quadrinhos. Viajei pela literatura infantojuvenil e, como não poderia deixar de ser, entrei no mundo imaginário de “Alice no País das Maravilhas”, com a ousadia de pensar “Se Alice tivesse um celular”. Fui repentinamente tomada pela impressão de que o autor, Lewis Carrol, se permitiu total liberdade para imaginar e criar um enredo brilhantemente fantástico e inteligente, capaz de oferecer ao leitor infantil a impressão de que aquele país era real. A leitura de Alice me permitiu concluir que só conseguiria enfrentar o desafio que o jornal me oferecia se eu me desse a liberdade para pensar e criar, superando meus medos e preconceitos.

Se Alice tivesse um celular, tão logo caísse na toca do coelho, ligaria para pedir ajuda. Mas sem esse apetrecho nas mãos, ela teve de seguir em frente naquele fantástico lugar e se espantar, mordiscar pedacinhos da mão direita, achar graça e ficar amedrontada. Exclamar: o que vai ser de mim! Tal exclamação me fomentou a construir a identidade de cronista e ensaísta. Finquei, então, meu pé neste caminho, carregando todos os meus achados e perdidos. Nada deixei para trás.

Logo me deparei com Lygia Bojunga, autora brasileira que recebeu em 1982 o Prêmio Hans Christian Andersen, o mais importante prêmio da literatura infantil, que guardo no coração e cuido dos seus livros na minha estante. Sua obra tocou minha alma de escritora ao observar o modo como cuidou do universo dos seus leitores. Quem não carrega uma “Bolsa amarela” vida afora, em que guarda todos os desejos?

E, assim fui, de autor em autor, de obra em obra, até pinçar “O Pequeno Príncipe”. Sinto uma afinidade imensa com Antoine de Saint-Exupéry. Ao longo das colunas, o seu pensamento sempre permeou minhas ideias: a simplicidade para encarar a vida, a profundidade para sentir o amor por uma rosa de poucos espinhos que mal podia de defender do vento, a amizade que estabeleceu com a raposa em que ele mostrou a responsabilidade do gostar e a constatação do geógrafo que afirmou que a vida é efêmera. Escrevendo, aprendi a ser alguém digna de uma pessoa que cuida da vontade de dar certo.

A cada coluna fui conhecendo o valor e o poder das palavras. Ao mesmo tempo em que são alimentos, são dengosas e gostam de cuidados. Às vezes, até de adereços. Mas quando aborrecidas e desagradadas tornam-se bruxas capazes de fazer os piores feitiços. A partir de então, não me cansei de pensar sobre as palavras.

As palavras são a essência de todos nós; nascemos e morremos cercados por elas. Preenchem o que fazemos e aprendemos, o modo como interagimos com o outro e com o ambiente. Inclusive, revestem o pensamento individual e coletivo, que são por elas estruturados. A palavra é a expressão cultural mais contundente.

Escrevendo fui aprofundando um dos grandes valores da literatura: fazer-se presente na vida do leitor para aproximá-lo da língua, principalmente a materna: mostrando suas imensas possibilidades, exibindo sua beleza, fazendo-o sentir o perfume e o sabor das experiências. 

A literatura é um excelente meio de acesso ao conhecimento. Conhecimento de si, do outro, do ambiente e do mundo posto que as crônicas, as histórias, os poemas, os textos fundamentados pelas pesquisas emergem da realidade concreta, na qual estamos mergulhados.

Enfim, brindo ao Jornal A VOZ DA SERRA e aos leitores com um cálice cheio de esperanças e alegres palavras.

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Oramos quando admiramos a natureza

terça-feira, 16 de junho de 2026
por Tereza Malcher

Tem dias que me visto com todas as cores da natureza. Sinto a beleza das flores e a intensidade verde das plantas com suas exatas formas únicas. A variedade da vida brotando no solo silenciosamente. O vento, as matas, as montanhas, o azul do céu, o som da chuva e a arruaça das maritacas. Enfim, a vida farta, diversificada e presente em torno de nós, nos torna tão naturais quanto uma rama de cerejeira que desponta nas terras friburguenses.

Tem dias que me visto com todas as cores da natureza. Sinto a beleza das flores e a intensidade verde das plantas com suas exatas formas únicas. A variedade da vida brotando no solo silenciosamente. O vento, as matas, as montanhas, o azul do céu, o som da chuva e a arruaça das maritacas. Enfim, a vida farta, diversificada e presente em torno de nós, nos torna tão naturais quanto uma rama de cerejeira que desponta nas terras friburguenses.

No poema “Árvore”, Manoel de Barros verseja que seu irmão “aprendeu com a natureza o perfume de Deus”. Como ele amava os pássaros e as borboletas! Vê-los nos enternece, nos faz sentir um alegre bem-estar azulado e nos descansa. Noutro dia, ao ver uma borboleta enorme branca se aproximar de mim sem cerimônia, perdi o ar. Parecia que ela estava fazendo as honras da casa, um canteiro de mato nas margens de uma trilha. Talvez, para a borboleta, eu fosse uma visita de honra por captar a sensação de respeito que eu sentia pelo lugar, seu habitat.

James Birdle, em seu livro “Maneiras de Ser - Animais, plantas, máquinas: a busca por uma inteligência planetária”, descreve a observação que a primatóloga Bárbara Smuts fez sobre o comportamento dos macacos que viviam livres no Quênia e na Tanzânia. Em 1970 ela observou que eles, inclusive os mais jovens, sempre turbulentos, eventualmente se acomodavam e permaneciam sentados sozinhos ou em grupos, durante aproximadamente meia-hora, contemplando a natureza. Depois, sem qualquer sinal, eles se levantavam e prosseguiam sua jornada.

A primatóloga descreveu-o como uma experiência religiosa, um momento de oração quando se entregavam à observação da natureza; um momento de espiritualidade.

A partir de então, comecei a ficar atenta aos meus cachorros e reparei que eles, também, ficavam por um tempo parados, olhando para o jardim. Também fiz essa experiência durante alguns momentos. Posso dizer que senti uma conexão simples e profunda com todos os seres que estavam à minha volta, como plantas, insetos, borboletas e árvores. Foi uma experiência silenciosa em que pude transcender aos limites do meu corpo. Eu orava através do olhar. Concluí que orar é sentir a presença divina.

Ao perceber a complexidade de uma folha ou mesmo de uma rama cheia de folhas idênticas, delicadamente desenhadas, assimilava a força e o poder de uma árvore, a grandiosidade do céu, a habilidade de um beija-flor. Apreendia a plenitude da vida através de instantes que superavam constatações científicas, ideologias políticas ou diferenças pessoais. Foi uma oportunidade para testemunhar a vida.

Fernando Pessoa sempre buscou em suas poesias superar o eu fragmentado para ir ao encontro do absoluto. Orar ao admirar a natureza é adentrar na humildade, reconhecer que fazemos parte de um todo maior, onde não há necessidade de controle, apenas a percepção de nossa existência ante uma montanha ou uma flor. Estar na natureza é sentir a revelação dos princípios divinos. Nossos deuses habitam na natureza; as raízes das plantas guardam as leis da vida, descritas através dos ciclos, das diferentes formas e modos de ser. Orar ante uma simples rama que brota no solo é um modo de interagir com a origem de todas as coisas.

Nessa oração, o silêncio faz-se carregado de significados que não precisam de enciclopédias ou dicionários para definirem a linguagem da vida. É uma linguagem que dispensa verbos, adjetivos e substantivos. É um estado de paz e união, a forma mais pura de oração que não vai além da capacidade de ver e sentir.

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Palavras, livres, leves e loucas

terça-feira, 09 de junho de 2026
por Tereza Malcher

Será possível deixar as palavras livres? Uma espécie de descanso, como um presente se pensarmos que elas trabalham dia e noite, mesmo durante o sono quando o pensamento atinge a mais profunda e verdadeira expressão. Os processos cognitivos interpretam e reinterpretam os fatos, buscam soluções às dificuldades, pesquisam nos arquivos das memórias ideias para atender os desejos. Funcionam como rede de proteção, posto que passamos a vida dando saltos, por vezes mortais. Estruturado por palavras, do nascimento à morte, o pensamento nunca descansa.

Será possível deixar as palavras livres? Uma espécie de descanso, como um presente se pensarmos que elas trabalham dia e noite, mesmo durante o sono quando o pensamento atinge a mais profunda e verdadeira expressão. Os processos cognitivos interpretam e reinterpretam os fatos, buscam soluções às dificuldades, pesquisam nos arquivos das memórias ideias para atender os desejos. Funcionam como rede de proteção, posto que passamos a vida dando saltos, por vezes mortais. Estruturado por palavras, do nascimento à morte, o pensamento nunca descansa.
Nos momentos de necessário relaxamento, o melhor é oferecer à mente pensante liberdade para usar as expressões que bem quiser. O pensamento sem palavras fica sem rumo!? O que a ausência de caminhos pode significar aos processos reflexivos? Contudo, nos momentos de vazio é que será possível fazer interessantes descobertas; os artistas e os cientistas sabem disso. É no vazio que a criatividade habita.
As palavras encontram significados nos contextos existenciais de cada vivente. Certa vez, escutei de uma amiga que nunca se esqueceu da frase de um filho. Quantas vezes, na leitura de um livro, lemos uma palavra que fica conosco e nunca a esquecemos. Uma palavra que guardei na leitura de “O Pequeno Príncipe” foi “efêmera”, quando Saint-Exupéry quis dizer que tudo caminha para um fim. Ah! As palavras são sábias!
Por vezes, as palavras fortes e inesquecíveis escapam, fugindo do discurso organizado. Essas rebeldes e inoportunas dizem tudo! Inserida nos atos e discursos falhos, elas, carregadas de sentido, encontram brechas para escapar entre as palavras sequenciadas, por vezes com pouco sentido. Freud explica. Como elas andam por aí, entre bocas, burlando censuras, resulta de a psicanálise estar cada vez mais enraizada entre nós. Que dela tanto precisamos para compreender nossos desejos inquietos, expressos em todas as palavras que dizemos.
É atribuída ao escritor Victor Hugo a frase: “As palavras têm a leveza do vento e a força da tempestade.” Desde a Antiguidade até os dias de hoje, nos tempos das Inteligências Artificiais, as palavras constituem o grande poder da humanidade. Qual guerra que não foi decidida através delas? Os tratados de paz, contratos e escrituras são estabelecidos por meio das palavras. Em tempos das redes sociais, as palavras são as imperadoras do destino de sujeitos, grupos e nações.
Ao mesmo tempo que expressam bondades, descrevem maldades; tal qual as verdades e as mentiras. Não há amor que não seja por elas declarado, nem o desamor delas escapam. Os risos e as lágrimas são amparados e margeados pelo dizer, da mesma forma os incentivos e o fazer silenciar.
As palavras nascem em fontes abundantes de afetos, desejos e informações. Desencadeadas em frases, as palavras se gostam tanto que vão puxando umas às outras nos discursos, nos poemas, nas letras de música. Buscando esse encadeamento para expressar, no início da adolescência, aos 14 anos, o poeta Paulo César Pinheiro escreveu a letra da música, “A viagem”, lançada em 1973”. Na voz de Marisa Gata Mansa e na criação musical de João Aquino Monteiro, é uma obra-prima, musical e poética, que vai na alma, embevece e nos faz viajar.
 
Ó, tristeza, me desculpe,
Estou de malas prontas
Hoje a poesia veio ao meu encontro
Já raiou o dia, vamos viajar
 
Vamos indo de carona
Na garupa leve do vento macio
Que vem caminhando desde muito longe
Lá do fim do mar
 
Vamos visitar a estrela da manhã raiada
Que pensei perdida pela madrugada
Mas que vai escondida
Querendo brincar
 
Senta nessa nuvem clara
Minha poesia, anda, se prepara
Traz uma cantiga
Vamos espalhando música no ar
 
Olha quantas aves brancas, minha poesia
Dançam nossa valsa pelo céu que um dia
Faz todo bordado
De raios de sol
 
Ó, poesia, me ajude
Vou colher avencas, lírios, rosas, dálias
Pelos campos verdes
Que você batiza de jardins do céu
 
Mas pode ficar tranquila, minha poesia
Pois nós voltaremos numa estrela guia
Num clarão de lua
Quando serenar
 
Ou talvez até, quem sabe,
Nós só voltaremos no cavalo baio
No alazão da noite
Cujo nome é raio, raio de luar
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A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

O lugar das incidências

terça-feira, 02 de junho de 2026
por Tereza Malcher

Lendo um artigo sobre o trânsito, uma frase me chamou a atenção: o trânsito é o lugar onde tudo e todos se incidem. Onde há diversas formas e níveis de interação entre as pessoas, se motoristas e motociclistas, se pedestres e ciclistas, se passageiros e vendedores de sinal. Se animais, com seus donos ou não. Aqueles que estão na via, indo e vindo, sofrem os efeitos do clima, das obras, dos defeitos dos pavimentos, da hora apertada, dos conflitos políticos e sociais. Das esperanças e medos individuais e coletivos.

Lendo um artigo sobre o trânsito, uma frase me chamou a atenção: o trânsito é o lugar onde tudo e todos se incidem. Onde há diversas formas e níveis de interação entre as pessoas, se motoristas e motociclistas, se pedestres e ciclistas, se passageiros e vendedores de sinal. Se animais, com seus donos ou não. Aqueles que estão na via, indo e vindo, sofrem os efeitos do clima, das obras, dos defeitos dos pavimentos, da hora apertada, dos conflitos políticos e sociais. Das esperanças e medos individuais e coletivos.

O trânsito é a expressão da vida em movimento. É o espectro do que é visível e invisível em uma cidade, ao conter os sinais vitais de felicidade, angústia, raiva, gentileza, educação e egoísmo. É o termômetro dos níveis de civilidade de um lugar, a mais verdadeira expressão da educação de uma pessoa e de um povo.

A literatura, como as crônicas, os textos acadêmicos, os contos e romances e até poesias, busca no quotidiano a inspiração para produzir seus textos. Rachel de Queiróz, em janeiro de 1961, escreveu a crônica “Trânsito”, na qual, em função de um quase acidente com um caminhão na estrada Rio-Teresópolis, teceu críticas contundentes à falta de educação dos motoristas, como o não respeito às leis, desrespeito ao motorista que trafega na mão contrária, a embriaguez, dentre outros temas relevantes.

Acredito que sua crônica tenha motivado revisões na legislação do trânsito. O escritor, quando sensibilizado, transforma o quotidiano em literatura, oferecendo temas para os leitores refletirem. Aliás a literatura não tem finalidades pedagógicas, de julgar o certo e o errado, têm a função de mostrar a vida: é uma fotógrafa dos fatos, posto que sua competência está em possibilitar que esses fatos sejam vistos através das suas palavras.

Entre as atitudes de cortesia ao desrespeito, do caos à convivência consciente, entre a calma e a pressa, entre gestos educados e xingamentos, o trânsito revela o que cada cidade e cada cidadão tem de melhor e pior.

A crônica “Cupcake”, de autor desconhecido, aborda a loucura do trânsito ao descrever a vontade de um sujeito, após um dia de trabalho, de comer um cupcake exposto na vitrine de uma loja do outro lado de uma avenida movimentada, que estava para fechar. Primeiramente, teve o ímpeto de atravessar entre os veículos, desviando dos carros e caminhões que passavam em velocidade. Por bom senso, decidiu caminhar alguns metros até o sinal para atravessar com segurança, vislumbrando o bolinho a cada passo. Porém, ao chegar, a loja já havia fechado.

E as chuvas fortes, se são belas de serem vistas pela janela, contudo, nas ruas, na hora de maior intensidade de tráfego, pode ser motivo para engarrafamentos, impaciências, água jogada nos pedestres pelos carros quando passam pelas poças, freios que funcionam mal, água que entra no motor, pedestres cortando o meio das ruas para chegar mais rápido a seus destinos e motos costurando mais ainda os carros em fila. Tudo e todos se incidem nesses momentos, quando a população se torna refém do trânsito.

A poetisa Ana Cristina Cesar escreveu em um dos seus poemas:

“Tu queres sono: despe-te dos ruídos, e

dos restos do dia, tira da tua boca

o punhal e o trânsito, sombras de

teus gritos (...) “

A via é um espaço coletivo, portanto, compartilhado. Não deveria ser lugar de estresses, medos e pressas. Não é um lugar anônimo. Pelo contrário, é identificado, comum e tem dono: nós!

A maior parte dos sinistros, com ou sem vítimas, é causado por falha humana. Dessa forma, no trânsito, o exercício da cidadania preserva a vida.

Para finalizar, deixo um micropoema de Carlos Drummond de Andrade.

“Stop.

A vida parou

ou foi o automóvel?”

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O conto de fadas

terça-feira, 26 de maio de 2026
por Tereza Malcher

Será possível afirmar que contos de fadas guardam as grandes sabedorias da humanidade? Ou melhor, que podem ser considerados como verdadeiras aulas de evolução humana?

Será possível afirmar que contos de fadas guardam as grandes sabedorias da humanidade? Ou melhor, que podem ser considerados como verdadeiras aulas de evolução humana?

Surgiram há muitos anos na tradição oral quando as histórias eram passadas de boca a boca. Talvez tenham surgido na idade do Bronze, como o “Ferreiro e o diabo”. São histórias que passaram pelas culturas de diferentes tempos e lugares, geralmente contadas em rodas de conversa nas ruas, praças, calçadas ou em torno de fogueiras, às vezes em troca de alguma refeição ou abrigo durante a noite. Tal como Homero recitava as histórias da “Odisseia” (*) em decassílabos para não se esquecer.

É fascinante como elas sobreviveram ao tempo. A tradição de contos de fadas também se eternizou, e um bom exemplo é “O Leão e a garça”. Marina Colasanti foi uma exímia criadora na atualidade de contos de fadas, que estão reunidos no livro “Mais de 100 histórias maravilhosas”, o que denota que esse estilo literário continua vívido em livrarias, estantes de livros nos corredores das casas, nas bibliotecas escolares ou de bairro. Eu, inclusive, guardo o livro da Marina, com carinho, na minha estante.

O conto de fadas é uma narrativa fantástica com começo, meio e fim, e não está situado em tempo ou lugar como aqueles que se utilizam das expressões “Naquele tempo” ou “Num lugar distante”. Seus personagens são idealizados com ou sem poderes mágicos, podem ser príncipes e princesas, madrastas e bruxas, animais e seres fantásticos, como os duendes ou dragões, que vivem em reinos encantados.

A trama das histórias, de um modo geral, gira em torno de desafios que precisam ser superados, exigindo desempenhos inimagináveis dos personagens, como em “A gata borralheira” e, geralmente, possuem um final feliz. Os protagonistas são heróis que, ao driblarem dificuldades, representam os protótipos que contêm as bases dos valores universais, constituem a essência do inconsciente coletivo e apresentam lições de vida relevantes.

São personagens capazes de se interiorizar em nós, até porque seus nomes não possuem sobrenomes, como a Branca de Neve. São entidades que vivem no imaginário. De certa forma, a expressão “era uma vez” representa um portal à imaginação. Ou seja, uma porta que é aberta para uma realidade fantástica; a realidade concreta deixa de existir depois da passagem por esse portal.

O ouvinte, o leitor ou o espectador, diante dos contos de fadas, encontra referenciais úteis à praticidade da vida devido à quantidade que arquétipos contundentes e poderosos contidos nas histórias, como os existentes em Pinóquio, um clássico italiano da Literatura Infantil, que se depara com situações éticas para se tornar um menino de verdade. Os contos de fadas podem causar reflexões significativaS às relações humanas, sociais e culturais. À maneira como as pessoas reagem aos fatos da vida.

A criança, ao ler um conto de fadas, aprende a postura que poderá ter na vida através do prazer. Na verdade, esse é o grande trunfo da literatura para crianças e jovens. Sem ter finalidades pedagógicas, as histórias são fontes de ensinamentos, posto que as regras são apresentadas de modo lúdico, como por meio do heroísmo de Peter Pan e da resiliência criativa de Sherazade. Ainda há a possibilidade da criança e do jovem conversarem com outros da mesma idade e com adultos, sejam familiares, amigos e professores.

Todo o leitor, independentemente da idade, sexo ou nacionalidade, tem necessidade de falar de si, da sua visão particular de mundo. Falando de uma história, fala também de si. Escuta outro leitor, conversa a respeito, debate temas. Interage culturalmente.

Os contos de fadas possuem uma abordagem interdisciplinar; podem ser pensados à luz da filosofia, da psicologia, da história, ou da sociologia. Até da física e da matemática quando as histórias envolvem números ou efeitos relacionados à física, como as viagens de Gulliver.

Enfim, a criança e o jovem que aproveitam a literatura sentem, no seu quotidiano, o livro pulsar como um coração, principalmente se estão em processo intenso de descobertas e transformações.

 (*) – A “Odisseia” de Homero não é um conto de fadas, mas é descrita em estilo narrativo de contos de fada. É um poema épico, considerado um dos pilares da literatura universal.

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Boas e más influências

terça-feira, 19 de maio de 2026
por Tereza Malcher

É fato. Somos seres que recebem influências e influenciam. É ingênuo pensar que alguém é dono de si posto que recebemos influências e, da mesma forma, somos influenciadores. Ou seja, estamos mergulhados numa rede de influências intermináveis, verdadeiros campos magnéticos que atraem quem está ao redor. São invisíveis e vibram na mesma frequência entre as pessoas que sentem afinidade umas pelas outras, pelos mesmos ideais ou estilos de vida.

É fato. Somos seres que recebem influências e influenciam. É ingênuo pensar que alguém é dono de si posto que recebemos influências e, da mesma forma, somos influenciadores. Ou seja, estamos mergulhados numa rede de influências intermináveis, verdadeiros campos magnéticos que atraem quem está ao redor. São invisíveis e vibram na mesma frequência entre as pessoas que sentem afinidade umas pelas outras, pelos mesmos ideais ou estilos de vida.

A influência pode ser descrita como um poder, uma ação ou um discurso que causa impacto, modificando modos de agir, pensar, perceber os fatos e decidir daquele que é influenciado. É uma força que penetra, adentra no interior dos sujeitos, inclusive nas suas essências. Todo grupo para permanecer como tal precisa que seus integrantes sigam regras, como as preservadas pela família, estabelecidas pelos grupos de trabalho, condomínios, dentre tantos.

As influências desempenham papel fundamental no âmbito social dado que a sociedade sobrevive a partir das inter-relações pessoais, institucionais, profissionais e comunitárias. Através de intensos processos de comunicação, do acesso, do poder e da observação, as influências vão, de forma dinâmica, dando novos contornos à vida individual e comunitária. Como a moda, as heranças familiares e históricas. Uma obra literária também possui o poder de influenciar, como o “Diário de Anne Frank”, “Dom Quixote” ou “O Pequeno Príncipe”.

As influências são exercidas quando inspiram e motivam ou quando manipulam e controlam. São poderosas forças apenas quando permitimos que incidam sobre nós, ou seja, como somos seres de livre arbítrio podemos decidir se vamos aceitá-las ou não. Porém, nem sempre, somos capazes de percebê-las em nossas vidas, como também, podemos não ter o amadurecimento e o discernimento suficientes para decidir se vamos aceitá-las ou não. Como estamos mergulhados no centro de forças influentes, é preciso fortalecer o autoconhecimento de modo que nos sejam claros os valores que preservamos para filtrar o que nos chega, como as informações emanadas das redes sociais. A autoconfiança nos permite escolher os ambientes que vamos frequentar e as pessoas com quem compartilhamos situações. Igualmente precisamos estar cientes de que nossos modos de pensar e agir podem interferir na vida do outro.

Estou desenvolvendo esse delicado tema influenciada pela leitura do livro “Trilogia de Copenhagen: Infância, Juventude e Dependência”, de Tove Ditlevsen, uma autobiografia, cuja leitura está me sensibilizando pelas experiências que a protagonista descreve. Durante a pré-adolescência, ela fez amizade com uma menina, vinda de uma família com grandes dificuldades. Essa amiga, a quem Tove adorava, a ensinou a roubar, a valorizar a prostituição, dentre outras imposturas.

Então, comecei a refletir sobre os cuidados que as famílias precisam ter com seus filhos pré-adolescentes e adolescentes. Especialmente, nessa fase de vida, a pessoa é facilmente influenciável e se submete às pressões dos grupos. É tão comum, a criança, o jovem e até o adulto imitarem gestos, modos de falar e agir. Os hábitos são compartilhados. Muitas vezes, valorizam-se atitudes antes de avaliá-las, geralmente respaldadas por ideias precipitadas. São ideias que criam ecos na vida e acabam virando rotina, como ver o celular quando se anda pela rua ou conduzindo um automóvel. Noutro dia, presenciei uma adolescente tropeçar e cair ao atravessar a rua, fora do sinal, vendo o celular.  

Um dos meios mais eficazes de influenciar são os exemplos. O ser humano é um imitador: os filhos imitam os pais; os mais jovens imitam os mais velhos; os modismos são seguidos pela população; as pessoas do mesmo grupo cultural tendem a apreciar determinados ritmos musicais.

As influências seduzem os jovens. Geralmente de forma divertida e leve. As drogas lhes são apresentadas, as responsabilidades são estimuladas a serem abandonadas, o sexo pode se tornar prova de amor. São influências que sugam energias, promovem a negação de valores e estimulam o abandono de projetos de vida benéficos. A pior influência é fazer com que o outro deixe de acreditar em si, se sinta inseguro e incapaz para tomar decisões que façam parte do seu crescimento.

As boas influências, nem sempre sedutoras, fazem o outro perceber como pode melhorar, mostram modos de pensar, sentir e agir saudáveis. Fazem a pessoa a acreditar em si mesma e superar as dúvidas em relação ao seu potencial. As conquistas são valorizadas e os erros apontados e tratados através de críticas construtivas.

Enfim, é um tema a ser pensado com o devido cuidado em todos os momentos da vida.

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