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Confissões de uma colunista

terça-feira, 24 de março de 2026
por Tereza Malcher

Todos têm uma confissão a fazer que pode estar em alguma caixa de segredos, guardada em nossos lugares especiais. Como ando com vontade de falar a respeito da minha experiência como colunista, resolvi abri-la. Nela, não se guarda qualquer coisa, somente preciosidades, que não se mostra de qualquer maneira. Ah, cada segredo tem um valor pessoal.

Todos têm uma confissão a fazer que pode estar em alguma caixa de segredos, guardada em nossos lugares especiais. Como ando com vontade de falar a respeito da minha experiência como colunista, resolvi abri-la. Nela, não se guarda qualquer coisa, somente preciosidades, que não se mostra de qualquer maneira. Ah, cada segredo tem um valor pessoal.

Vou começar tirando a primeira recordação de quando era adolescente.  Minha avó paterna dizia, com orgulho, ser prima do colunista Artur da Távola, que, por mais de 30 anos, escreveu para os jornais do Rio de Janeiro. Quando lia as colunas tinha a vontade de ser colunista. Como achava que jamais seria capaz, guardei comigo em segredo.

Quando redigi a dissertação de Mestrado, senti pela primeira vez o gosto de escrever um texto capaz de ser lido por professores, catalogado e arquivado na biblioteca da universidade. Porém meu “segredo” continuou guardado; a escrita que fiz naquele trabalho foi teórica, e Artur da Távola escrevia sobre os acontecimentos, situações quotidianas, fatos relacionados à arte com leveza e plena liberdade de usar as palavras.

Contudo o aprendizado que adquiri no Mestrado foi fundamental para a construção da minha identidade como colunista posto que aprendi a educar minhas ideias, pesquisar, a transpor para o papel aquilo que pensava e sentia. Entendi que as ideias precisavam de fundamentos para serem apresentadas. O mais importante foi constatar que era saudável elaborar ideias com ética para serem compartilhadas e não restarem fechadas em gavetas ou arquivos. As ideias têm vida; voam longe.

Alguns anos depois, encantada com o teatro, fiz adaptações de textos a serem encenados. Durante esse tempo, constatei que os conteúdos das peças tinham de ter valores em suas linhas e entrelinhas porque o espetáculo, ao mesmo tempo em que tem a função de entreter, deve oferecer ideias que beneficiem as pessoas e suas relações com o mundo. E, aí, meu amigo, percebi o valor da arte literária: transformar uma ideia em um texto para levar diversão e reflexão ao público. Tarefa nada fácil.

Depois, ao me tornar escritora de livros infantojuvenis, adquiri a desenvoltura na escrita. Frequentei inúmeras oficinas literárias quando escrevia sem parar e aprendia a ter humildade para receber críticas. Além do que aprofundei o hábito de pesquisar. Os textos literários necessitam de informações objetivas. Ao contar a história do Labareda, meu personagem canino do livro “Um cão cheio de ideias”, pesquisei a vida dos cães sob vários pontos de vista.

Ao escrever “Aventureiros da Serra”, a história de um menino que é acometido pelo câncer e continua a ser o líder de um grupo de amigos, pedi assessoria a uma médica oncologista e pesquisei sobre como a liderança acontece em grupos infantis.

O desejo de ser colunista permaneceu vivo e latente, jamais adormecido. Tive a oportunidade de conhecer a direção do jornal e falar a respeito desta vontade antiga. Fui aceita. Em 27 de junho de 2016 minha primeira coluna foi publicada: “Meus avós e meus abacates”. Tenho o orgulho de nunca ter faltado, nem repetido um tema. Hoje, a coluna tem o nome “Momentos Literários”

Escrever semanalmente é, ao mesmo tempo, um prazer e um desafio. Um processo que, às vezes, é mais complexo, enquanto outros são de uma facilidade que surpreende. Cada texto é produzido de modo próprio. Entretanto, inicialmente, sempre há uma exposição livre, sem preocupações com a forma, mas com o desenvolvimento de uma ideia. A seguir, vem a pesquisa, através da qual leio trabalhos de outros autores, busco nos livros e na internet informações válidas e reescrevo a coluna várias vezes. Finalmente, meu professor corrige o texto.

Hoje, tenho a certeza de que ao escrever “Momentos Literários” reflito sobre o viver, que a cada dia me surpreende e espanta.

O que me reforça a produzir um texto semanal com este entusiasmo é a oportunidade de aprofundar os valores humanos, hoje tão ameaçados e deteriorados. Tomo cuidado para não ter uma postura de autoajuda, nem ensinar o que é certo ou errado. Mas de mostrar a vida através de textos sérios, que consideram a natureza e a pessoa humana como os maiores patrimônios.

Cada um de nós tem funções na vida. Depois de cumprir tantas, atualmente me orgulho de escrever a coluna “Momentos Literários”, toda a semana para o jornal A VOZ DA SERRA.

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A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

Alice

terça-feira, 17 de março de 2026
por Tereza Malcher

Alice, idealizada pelo romancista, contista, fabulista, poeta, desenhista, fotógrafo e matemático Charles Lutwidge Dodgson (1832- 1898), reverendo anglicano, conhecido por Lewis Carrol, é a protagonista do livro “Alice no País das Maravilhas”, publicado em Londres, em 1865, uma das mais conhecidas personagens da literatura mundial.

Alice, idealizada pelo romancista, contista, fabulista, poeta, desenhista, fotógrafo e matemático Charles Lutwidge Dodgson (1832- 1898), reverendo anglicano, conhecido por Lewis Carrol, é a protagonista do livro “Alice no País das Maravilhas”, publicado em Londres, em 1865, uma das mais conhecidas personagens da literatura mundial.

Quando despontou em mim o interesse em escrever histórias para crianças e jovens, conversei com Maria Alice Barroso (1926 – 2012), jornalista, escritora e diretora da Biblioteca Nacional na época. Ao longo da conversa, que não deixou de ser uma aula de literatura, ela me disse: Você precisa ler Alice no País das Maravilhas, um espetáculo de criatividade”. Lewis Carrol foi um escritor que mergulhou no mundo da fantasia para criar a sua mais famosa história.

O livro é uma viagem pela literatura nonsense, subgênero literário que não respeita a lógica do mundo real, em que o leitor pode encontrar sentido nas circunstâncias sem-sentido e absurdas. Através de uma narrativa fantástica, o livro é uma viagem ao imaginário, tendo nascido nas histórias que o reverendo Charles contava para Alice Liddell e suas irmãs, Edith e Lorina. Ele era amigo da família e costumava passear com as crianças, quando contava histórias para entretê-las. Numa tarde de 1862, ele começou a narrar as aventuras de Alice no mundo subterrâneo. Alice tanto gostou que lhe pediu para que as escrevesse. Charles se pôs a escrevê-las e desenhá-las, levando um ano para fazê-lo. No Natal de 1864 ofereceu à menina.

Atualmente, 160 anos após sua publicação, “Alice no País das Maravilhas” é uma obra popular, com mais de 170 traduções para diversas línguas. É uma obra global com vários tipos de adaptação para o cinema e a televisão, o teatro e o desenho animado, dentre outras. Um livro que deve fazer parte da estante de uma casa, principalmente se houver crianças, posto que sua narrativa é um convite ao maravilhoso mundo dos sonhos.

Há interpretações com críticas severas à obra. Contudo se abrimos suas páginas à luz de pontos de vista e julgamentos, o livro perde o brilho e a cor, além de se apagar. É uma narrativa que abre ao leitor, seja adulto ou infantil, as portas do lúdico, cujos episódios só podem ser percebidos como uma grande brincadeira. 

O autor empregou na elaboração do texto seus conhecimentos de lógica e matemática, além de escrevê-lo com bom-humor. Ele não teve intenções didáticas, queria divertir as crianças, brincando com palavras, misturando a fantasia com situações cômicas.

“Alice no País das Maravilhas”, narrada na forma de um sonho, conta com diversos episódios aparentemente desconectados, num lugar ou país imaginário onde tudo é caótico, o que nos permite pensar que o autor se sentiu completamente livre para criar. Aliás, faço questão de destacar que o escritor precisa se libertar dos seus medos e preconceitos para se permitir entrar no mundo da fantasia. Principalmente aquele que escreve para crianças e jovens.

É um texto inteligente através do qual a realidade é transformada em situações extraordinárias, possibilitando o leitor pensar e se divertir ao mesmo tempo. Alice é uma criança curiosa e distraída que cai num buraco e chega num país imaginário e vai se transformando e amadurecendo ao longo das cenas. “Tenho uma vaga lembrança de ter me sentido um pouquinho diferente, mas se eu não for a mesma, a próxima pergunta é: Quem sou eu? Essa é a questão.”

Na minha visão, o mais interessante é que Alice vai seguindo sua vida naquele país cheio de desafios e dificuldades. Chora até quase se afogar num mar de suas próprias lágrimas, mas continua, vai se deparando com personagens inusitados que lhe apresentam novas situações, discussões, ataques, encontros e desencontros.

O texto tem valor existencial. É frequentemente usado no contexto empresarial, em palestras de liderança e treinamentos por ser visto como uma metáfora do mundo corporativo, dinâmico, desafiador e em constante processo de mudança. A frase “para quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve” é utilizada para evidenciar a necessidade de clareza de objetivos. Ou a sábia proposição “quanto mais corro, mais atrás fico” é útil para os apressados. São frases que eu mesma deveria escrevê-las num quadro e pendurar em cima da minha cabeceira.

Enfim, ler Alice é um estímulo para experimentar as oportunidades que a vida nos oferece, sem ficarmos paralisados ou aborrecidos ante os imprevistos. Um livro para todas as idades.

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A preciosidade das artes

terça-feira, 10 de março de 2026
por Tereza Malcher

Ao assistir a uma apresentação do violonista e maestro André Rieu, fui tomada, como sempre, pelo encantamento e pela vontade de dançar e voar. No final da apresentação, abraçado a seu violino, o músico declarou: “A música é um tesouro em nossas vidas”. A frase me trouxe recordações da minha avó que era concertista e professora de canto, da minha madrinha, violonista e do meu filho que admirava Beethoven, compositor alemão. Também me lembrei dos desenhos coloridos da minha filha e da bela decoração da casa de minha mãe. Naquele momento, fui tocada pela arte ao longo da vida.

Ao assistir a uma apresentação do violonista e maestro André Rieu, fui tomada, como sempre, pelo encantamento e pela vontade de dançar e voar. No final da apresentação, abraçado a seu violino, o músico declarou: “A música é um tesouro em nossas vidas”. A frase me trouxe recordações da minha avó que era concertista e professora de canto, da minha madrinha, violonista e do meu filho que admirava Beethoven, compositor alemão. Também me lembrei dos desenhos coloridos da minha filha e da bela decoração da casa de minha mãe. Naquele momento, fui tocada pela arte ao longo da vida.

Assim, resolvi dedicar esta coluna à arte. A mais genuína, criativa e inteligente das expressões humanas, através da qual o homem consegue mostrar suas percepções, emoções e ideias. É uma linguagem simbólica sempre situada, sob o ponto de vista histórico, social e geográfico. Se observarmos bem, nosso planeta é o mais belo e artístico do sistema solar por ser colorido por suas águas, matas e iluminação criada pelas mãos humanas. Além de bailar, fazendo os movimentos de rotação e translação, como os demais planetas. Todos os corpos celestes se agitam no espaço ao som vindo de algum lugar desconhecido. Assim sendo, não podemos ser diferentes. Somos artistas natos; brincamos com nossos pés e mãos desde que nascemos ou balbuciamos sons quando começamos a nos expressar verbalmente.

Será que conseguimos nos imaginar vivendo num lugar sem arte?

A natureza é arte pura. Ao mesmo tempo em que não existe um humano igual ao outro e nem tão pouco animais e vegetais semelhantes. Há simetria absoluta em todos os corpos. A natureza desenha a vida com pincéis precisos e incertos. Já observaram os constantes desenhos que as nuvens fazem no céu? Rubem Braga, escritor, um dos grandes cronistas, observando o céu, certa vez, escreveu belamente sobre “as vagabas nuvens de Ipanema”. Já Rubem Alves escreveu em um dos seus poemas que a “experiência da beleza tem de vir antes”.

A manifestação artística tem preocupações com a estética a partir da percepção sensível, subjetiva e emotiva de quem busca interpretar a realidade através do belo e do sublime. Mas também com aquele que se esforça para retratar o feio e o grotesco. E com quem pretende fazer críticas aos modos de ser e de viver. Através das artes é possível compreender a história dos povos, posto serem gestadas na lida do homem com a natureza, com as organizações culturais, políticas e sociais, com as relações afetivas e familiares, e pela necessidade de ir além para tentar encontrar a felicidade e a perfeição. A arte é resultado da ebulição das forças na alma do ser humano, que pode sofrer as influências do inconsciente coletivo. É construída pelo talento que corre nas veias do artista como uma pulsão criativa, que não o deixa se aquietar ante suas percepções e emoções.

A arte invade e atravessa os sentidos de quem a admira. Sem pedir permissão, modifica a percepção sensitiva que o sujeito tem da realidade na qual está inserido. Para captá-la em sua beleza e significado é preciso observar as cores, o som, a textura, o odor e o paladar do mundo. Admirar a arte é uma experiência que pode causar as mais diferentes reações, como aquelas que tive ao assistir ao concerto de André Rieu.

Hoje, além da música, pintura, dança, literatura, arquitetura e cinema, há novas formas expressivas que ampliam a classificação das artes, como a fotografia, as histórias em quadrinhos, os jogos eletrônicos e a arte digital.

Então, amigo leitor, estamos mergulhados na arte. Vamos urgentemente aproveitá-la!

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Gratidão e empatia

terça-feira, 03 de março de 2026
por Tereza Malcher

Estou numa fase de envolvimento com a espiritualidade, talvez por já ter passado dos 70 anos, ter adquirido uma visão mais humanista. Uma amiga, a quem admiro e respeito, me apresentou um livro escrito e publicado por seu filho, Carlos Augusto de Araújo Vieira, “Gratidão e o sentido da vida: uma perspectiva cristocêntrica”. Confesso não ter o costume de ler textos religiosos, mas o coloquei na minha mesinha de cabeceira e comecei a lê-lo antes de dormir.

Estou numa fase de envolvimento com a espiritualidade, talvez por já ter passado dos 70 anos, ter adquirido uma visão mais humanista. Uma amiga, a quem admiro e respeito, me apresentou um livro escrito e publicado por seu filho, Carlos Augusto de Araújo Vieira, “Gratidão e o sentido da vida: uma perspectiva cristocêntrica”. Confesso não ter o costume de ler textos religiosos, mas o coloquei na minha mesinha de cabeceira e comecei a lê-lo antes de dormir.

A palavra gratidão me tocou com gentileza. Logo, me lembrei de uma outra grande amiga, psiquiatra e psicanalista, que certa vez me disse, com um desapontamento cobrindo o rosto: “A gratidão é um sentimento difícil de se ver”. Nunca me esqueci dessa fala, vinda de uma médica que lida diariamente com as emoções humanas.

Depois que comecei a ler o livro, perguntei a algumas pessoas o que elas pensavam a respeito da gratidão e todas, sem exceção, me disseram o mesmo. Então, resolvi mergulhar a fundo no tema, talvez um dos mais complexos a serem abordados. Tão logo iniciei minhas pesquisas, me deparei com o conceito de empatia. Ou seja, a gratidão nasce e se fortalece através da empatia, dois sentimentos civilizatórios que humanizam as relações sociais e afetivas. Elas habitam em cada gesto e no olhar, nas ações e nas palavras, podendo estar presentes em todos os momentos quotidianos. A frase de Alberto Caeiro, heterônimo (*) de Fernando Pessoa, resume a dinâmica existente entre empatia e gratidão. “A beleza pura de uma flor, sem necessidade de interpretações metafísicas ou filosóficas, é suficiente para justificar a existência. A vida vale a pena pelo simples fato de existir e ser sentida”

A gratidão é um sentimento profundo que reconhece o valor das coisas, dos favores e bençãos recebidas, um modo de apreciar e engrandecer o bem-estar e a positividade da vida. Há quem diga que é guardada nas memórias do coração e alimentada pelas sensações de suficiência, estado emocional de satisfação e aceitação em que o indivíduo reconhece o valor, as possibilidades e as limitações de si, do outro e das circunstâncias.

Amigos, quem é grato possui nobreza, sabedoria e sinceridade. A gratidão é um tesouro que devemos aprender a cultivar a partir da percepção de não ser possível dar conta de tantas tarefas e responsabilidades, bem como do reconhecimento dos esforços empreendidos por outros para que possamos fazer nossas pequenas e grandes conquistas. É um gesto de humildade.

A empatia é a capacidade que uma pessoa tem de se colocar no lugar do outro, compreender suas emoções, pensamentos e atitudes, mesmo sem concordar.  É uma percepção sensível e inteligente.

Como percebemos o outro através da intuição e dos sentidos (visão, audição, tato, olfato), como também somos seres situados em circunstâncias sociais, históricas e culturais, em relações familiares, afetivas, amorosas e profissionais, a empatia caminha, de modo consciente ou não, por todas essas esferas.

A empatia é um sentimento livre. Pode acontecer naturalmente, como através de um processo reflexivo mais ou menos profundo. Em todos os casos, mesmo acontecendo numa fração de segundos, o tempo de convivência e observação do outro vai delineando o sentimento empático. Aliás, na vida, tudo é passível de transformação.

A empatia é a arte da conexão entre pessoas, enquanto a gratidão é a arte do reconhecimento. São sentimentos pautados em virtudes e na presença. São apreendidos e constituem os fundamentos das relações humanas sinceras, que emergem do entendimento das condições reais. O dinamismo entre a empatia e a gratidão é a retroalimentação quando é criado um ciclo positivo de entendimento e colaboração.

Somos seres de relacionamento e afetividade. Não vivemos isolados, num universo à parte. Apesar de nascermos e morrermos sozinhos.

 (*) Heterônimo é uma personalidade criada por um autor e surge na literatura como um autor completo: com nome, biografia, estilo próprio e visão de mundo particular. Fernando Pessoa tinha mais de 70, como Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. 

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Homenagem aos cachorros de rua

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Tomada pelo amor aos animais e pela tristeza, devido ao episódio recente de violência contra o Cão Orelha, que comoveu o Brasil, vou escrever esta coluna em homenagem aos cachorros de rua. No nosso país, segundo a Organização Mundial de Saúde, existem 20 milhões de cachorros que sobrevivem nas ruas. A ideia de sobreviver é mais adequada pelas circunstâncias em que eles vivem dado à precariedade com que passam os dias. Cada um deles tem uma história de abandono. Soltos nas ruas dos bairros das cidades e nas estradas, estão sujeitos à própria sorte.

Tomada pelo amor aos animais e pela tristeza, devido ao episódio recente de violência contra o Cão Orelha, que comoveu o Brasil, vou escrever esta coluna em homenagem aos cachorros de rua. No nosso país, segundo a Organização Mundial de Saúde, existem 20 milhões de cachorros que sobrevivem nas ruas. A ideia de sobreviver é mais adequada pelas circunstâncias em que eles vivem dado à precariedade com que passam os dias. Cada um deles tem uma história de abandono. Soltos nas ruas dos bairros das cidades e nas estradas, estão sujeitos à própria sorte. Passam fome, sede, sofrem violências, além de estarem vulneráveis aos acidentes, como atropelamentos. Eles têm a integridade física e a emocional ameaçadas diariamente.

Os cães de rua merecem o nosso respeito, afeto e atenção. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, sancionou o Projeto de Lei 419/2023, de autoria do Legislativo, que reconhece o “Vira-Lata Caramelo” como uma expressão de relevante interesse cultural do Estado de São Paulo. Todas as cidades deveriam ter tal reconhecimento, o que faria com que os cães tivessem maior acolhimento dos habitantes, das instituições públicas e das empresas. Além do que se faz necessário a atenção com os cachorros devido ao cuidado com a saúde pública, posto que podem, como todo ser humano maltratado, transmitir doenças.  

Sinto-me feliz por ter adotado duas cadelas de rua. A Deia e a Pipa. Ambas estavam abandonadas e em estado precário. Ao acolhê-las tive a oportunidade de lhes oferecer uma vida digna. A Deia ficou conosco por mais de dez anos e faleceu já bem velha. Faz cinco anos que pegamos a Pipa no alto da estrada e ela está linda. Os cães adotados nos olham com o brilho da gratidão, expressam afeto profundo e estão sempre prontos a nos oferecer presença e solidariedade. A felicidade deles é estar ao nosso lado.

Certa vez, escutei dizer que os cães, não somente os de rua, são anjos que permanecem em nossas vidas em momentos especiais. Posso até dizer, por experiência própria, que estão ao nosso lado em situações difíceis e nos consolam com suas atitudes e gestos, na maioria das vezes silenciosos. Os cães possuem missões com os humanos, e, nós, também, com eles, ao torná-los, através da convivência, seres mais evoluídos.

Eu me encanto com Nova Friburgo pelo cuidado com que a população tem com os cachorros de rua. Certa vez, andando, de manhã, pela Rua Monte Líbano, vi um lojista colocando a vasilha de ração e água na porta da loja. Parei e admirei, sorridente. Então, ele me disse: eles vêm lá do alto das Braunes para comer todos os dias. Nos dias seguintes, quando ia para o centro, via cachorros descendo em passos firmes. Meu coração aplaudia os lojistas.

Faz tempo que li o livro da Lygia Bojunga, “Os colegas”, clássico da literatura infantil, premiado pelo Concurso de Literatura Infantil do Instituto Nacional do Livro em 1971. A escritora recebeu pelo conjunto de sua obra o Prêmio Christian Andersen, considerado o Prêmio Nobel da Literatura Infantil. “Os colegas” aborda a amizade entre animais abandonados: os vira-latas Virinha e Latinha, o coelho Cara de Pau, a cachorrinha Flor-de-Lis e o urso Voz de Cristal. Eles enfrentam o abandono e a solidão, constroem um lar, experimentam aventuras até encontrarem um modo criativo de viver. Guardo-o com carinho na estante e, agora mesmo, estou com ele em minhas mãos com a séria intenção de o reler.

Outras obras literárias contam histórias que envolvem a relação dos cães com seus donos. O livro “Marley e eu” é uma história emocionante baseada em fatos. O escritor e jornalista John Grogan conta relação com seu cão ao longo de treze anos, tempo em que Marley fez parte da sua vida familiar. O livro foi publicado em 2005, nos Estados Unidos. É considerado um best seller.

O que aconteceu recentemente com o vira-lata Orelha cortou o coração de todos nós. Espero que sua trágica morte se transforme em alerta para a atenção e respeito com os cachorros de rua, que as penalidades contra os animais sejam mais rigorosas. Que eles, sucumbidos ao abandono, sejam acolhidos pelas energias universais como seres abençoados.

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Marchinhas de carnaval e literatura, uma mistura criativa

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

No carnaval, a literatura sai do papel e ganha várias expressões no movimento das ruas, que contam histórias de diferentes maneiras, seja nas fantasias, nas máscaras, nas marchinhas, através da cantoria dos blocos, nos desfiles das escolas de samba. Muitos brasileiros que guardam poesia na alma gostam do carnaval.

No carnaval, a literatura sai do papel e ganha várias expressões no movimento das ruas, que contam histórias de diferentes maneiras, seja nas fantasias, nas máscaras, nas marchinhas, através da cantoria dos blocos, nos desfiles das escolas de samba. Muitos brasileiros que guardam poesia na alma gostam do carnaval.

Para os escritores modernistas brasileiros, as marchinhas têm a voz do Brasil. Mário de Andrade as considerava como uma forma de literatura oral. Já Oswald de Andrade as considerava como uma poesia curta, irônica e direta. Sob o disfarce da folia carnavalesca, seus compositores se utilizam do duplo sentido para criticar a vida social. Através de uma linguagem livre e popular, são consideradas crônicas musicais de cunho social e político. Como estão situadas em determinadas lugares e épocas, são consideradas um registro histórico relevante ao guardarem a memória social e política do país. Há quem as considere como uma revista da vida nacional.

As marchinhas surgiram no Rio de Janeiro, no final do século XIX e receberam influências das marchas portuguesas. A primeira foi composta por Chiquinha Gonzaga, em 1899, para o cordão carnavalesco Rosa de Ouro, aquela que todos já cantaram e dançaram: “Ó abre alas”. Foi somente no século XX, entre os anos de 1920 e 1960, que atingiram o auge da popularidade, a época de ouro do carnaval brasileiro. O nome marchinha foi inspirado na marcha dos soldados, dado que a batida é similar à fanfarra militar, comum aos desfiles cívicos.

Com o sucesso, vários compositores criaram letras e músicas, como a “As pastorinhas” de Braguinha e Noel Rosa, gravada no final de 1937, “Mamãe eu quero”, composta por Vicente Paiva e Jararaca, em 1937, “Allah-lá-ô”, de Haroldo Lobo e Nássara, lançada em 1941. Dentre tantas outras, as marchinhas possuem ritmo acelerado e contagiante, letras simples, curtas e fáceis de gravar. Além de serem bem-humoradas, possuem uma temática variada, como o amor, situações cotidianas, ironias, vida doméstica, serviços urbanos, costumes e fatos da atualidade. São consideradas expressões literárias, especialmente no gênero literatura popular, oral e lírica.

Quem se esquece das letras e do ritmo das marchinhas de carnaval? Elas passam pelos anos e ficam na memória de todos, especialmente dos que um dia já foram foliões. Mesmo compartilhando espaço com os sambas-enredo, nunca pararam de ser compostas e animar os blocos de rua.

Deixo, então, com vocês, a letra da “Ô abre alas”, que expressa a abertura do espaço para a alegria, a liberdade e a celebração coletiva do carnaval.

Ó, abre alas, que eu quero passar

Eu sou da Lira, não posso negar

Eu sou da Lira, não posso negar

 

Ó, abre alas, que eu quero passar

Rosa de Ouro é que vai ganhar

Rosa de Ouro é que vai ganhar

(...)

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Somos consequência das nossas decisões

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Nos primeiros dias deste ano, assisti ao documentário sobre a vida e a obra de Walt Disney, e à série baseada no livro “Ninguém nos viu partir”, um texto autobiográfico de Tamara Trottner. Ambos me fizeram refletir sobre as consequências das decisões que tomamos, que podem atingir a vida das pessoas, inclusive das gerações subsequentes. De certo, somos resultado das decisões políticas, familiares, grupais, culturais, institucionais e, especialmente, das nossas.

Nos primeiros dias deste ano, assisti ao documentário sobre a vida e a obra de Walt Disney, e à série baseada no livro “Ninguém nos viu partir”, um texto autobiográfico de Tamara Trottner. Ambos me fizeram refletir sobre as consequências das decisões que tomamos, que podem atingir a vida das pessoas, inclusive das gerações subsequentes. De certo, somos resultado das decisões políticas, familiares, grupais, culturais, institucionais e, especialmente, das nossas.

As decisões fazem parte da vida como falar, caminhar e comer. É tão rotineiro decidir que o fazemos, muitas vezes, automaticamente. Desde que acordamos tomamos decisões, das mais simples às mais complexas; todas nos trazem consequências posto serem regidas pela lei de causa e efeito.  Para toda e qualquer decisão há fatores emocionais, familiares, financeiros, dentre tantos outros desdobramentos envolvidos, o que torna o processo decisório mais ou menos complexo, uma vez que tais fatores possuem relações de interdependência entre si, com níveis de conflitos e dificuldades variáveis, funcionando como um todo.

O processo decisório é aprendizado de uma vida inteira, como um curso que temos de frequentar desde os primeiros anos até aos mais avançados. Vamos aprendendo a cada decisão que tomamos e com as consequências com as quais iremos nos deparar. A primeira cadeira desse aprendizado é aprender a pensar nos prós e nos contras, proposição que escutamos com frequência, contudo, eventualmente, não damos atenção. Eis um erro que pode nos ser fatal.

Com o documentário sobre a vida e a obra de Walter Elias Disney (1901-1966), fiquei tão admirada que procurei pelo livro “A árvore dos sonhos – a vida e a obra de Walt Disney”, editado em 2022. A biografia, escrita pelo escritor e jornalista brasileiro Maurício Nunes, mostra a trajetória de Disney, decorrente de processos decisórios autênticos, criativos e ousados, inteligentes e corajosos.

Desenhar foi uma habilidade que deu sentido à sua vida desde criança. Ele nunca se esqueceu do primeiro contato que teve com um lápis. Apesar da infância difícil pelas limitações financeiras e da severidade paterna, não desistiu do seu potencial. A arte orientou as suas decisões e, de decisão em decisão, enfrentou os mais terríveis desafios e dificuldades, além de superar críticas severas. Com determinação, construiu um mundo de fantasia, levando alegria a todos, das crianças aos idosos.

O livro autobiográfico “Ninguém nos viu partir”, editado em 2024, da autora mexicana Tamara Trottner, narra a sua experiência traumática quando seu irmão mais velho e ela, então com cinco anos, foram sequestrados pelo pai como vingança, quando ele constatou estar sendo traído pela mãe.

O sequestro durou três anos aproximadamente através de uma fuga insana e cruel pela França, Itália, África do Sul e Israel, escondendo os filhos da mãe e seus investigadores e da Interpol também. As consequências das decisões insensatas, manipuladoras e mentirosas do pai e respectivos avós paternos se tornaram desastrosos e deixaram marcas tão dolorosas nas crianças que ela, Tamara, quando adulta, revisitou suas memórias em uma autobiografia a fim de se liberar do passado.

Ao transformar sua dor em narrativa, Tamara ofereceu ao mundo a reflexão sobre as decisões fundamentadas no rancor, vingança, manipulações e mentiras, que podem arrastar vidas a um estado de sofrimento.

Casais podem se separar por motivos vários. Entretanto os filhos precisam ser respeitados em suas inteirezas afetivas, morais e físicas. Os impactos emocionais na vida dos filhos podem abranger tristezas, angústias, inseguranças, além de adoecimentos físicos e emocionais que podem perdurar por um tempo indeterminado, talvez pela vida inteira.

Essas biografias possuem riquezas em seus valores. A beleza da obra de Disney e a tragédia nas vidas de Tamara e seu irmão nos oferecem motivos para refletir sobre nossas decisões e as profundas repercussões que podem causar no outro e em nós.

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Passa adiante!

terça-feira, 03 de fevereiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Certa vez, faz alguns anos, um amigo veio à minha casa e antes mesmo de me cumprimentar me ofereceu um livro e disse: quando acabar de ler, passa adiante. Assim o fiz e dei a uma amiga, que passou a outra amiga. Eu me senti bem em fazer parte daquela corrente de leitura, que possibilitou ao livro uma vida ativa por não ter ficado estanque na casa do meu amigo.

O livro, ao entrar numa corrente de leitura, estará sempre vivo! Fechado, num canto de uma mesa ou esquecido numa estante, ficará adormecido com as palavras e ideias entaladas, com indigestão.

Certa vez, faz alguns anos, um amigo veio à minha casa e antes mesmo de me cumprimentar me ofereceu um livro e disse: quando acabar de ler, passa adiante. Assim o fiz e dei a uma amiga, que passou a outra amiga. Eu me senti bem em fazer parte daquela corrente de leitura, que possibilitou ao livro uma vida ativa por não ter ficado estanque na casa do meu amigo.

O livro, ao entrar numa corrente de leitura, estará sempre vivo! Fechado, num canto de uma mesa ou esquecido numa estante, ficará adormecido com as palavras e ideias entaladas, com indigestão.

Quando ando por algum lugar na cidade, se num shopping, numa praça ou mesmo numa cafeteria e vejo uma banca de livros lidos em oferta para novos leitores, me sinto animada. São ideias correndo mundo afora, que não ficam limitadas a alguém. O livro é um objeto que sempre tem algo a dizer e a cutucar.

O livro é antigo, pode ter mais de seis mil anos quando surgiram os primeiros protótipos em tabuletas de argilas na Suméria, na Mesopotâmia, região situada entre os rios Tigre e Eufrates. E, depois, em papiro no Egito.  Foi no século XV, durante a Revolução Industrial, que Gutenberg inventou a imprensa, possibilitando que todos tivessem acesso ao livro. Acredito que o registro de ideias, informações e histórias, feito através da linguagem escrita, tenha surgido pela necessidade de o homem expressar, difundir e guardar suas ideias, que possuem tal energia que precisam sair da instância mental e ganhar vida mundo afora. Hoje, virtual e materialmente, o livro expõe de diversos modos, as percepções, emoções e as preocupações do homem com a vida. Os livros, em diferentes estilos, os periódicos e os textos informativos são os mais amplos meios de troca de informações.

Gostaria de citar o I Ching, o Livro das Mutações, um dos livros mais antigos da humanidade, como exemplo. É um texto extraordinário e de hábil inteligência a respeito das tendências do movimento da vida e as consequências decorrentes. Foi uma obra que sobreviveu ao tempo e a todas as mutações, desde o seu surgimento, na China, em período anterior à dinastia Chou (1.150 a 249 a.C), permanecendo vivo nas culturas orientais e ocidentais por mais de 3.000 anos, cuja sabedoria influenciou o desenvolvimento da civilização chinesa e de outras, através de um texto denso de ideias e conteúdos simbólicos.

Passar um livro adiante significa compartilhar uma leitura que nos foi interessante. Noutro dia peguei um livro na porta de uma peixaria. Vejam isso! Até a porta de um lugar, onde peixes são vendidos pode ter essa função. Observei que nos cantos das páginas havia anotações de um antigo leitor. Constatei que essas anotações enriqueciam a leitura e me estimulavam a pesquisar. De repente, senti uma vontade imensa de conversar com ele porque notei que tínhamos certa afinidade. Que idade teria? Seria da mesma cidade que a minha? Qual a sua formação?

Na semana passada, recebi de uma grande amiga e escritora, para ler e passar adiante, o livro “A Vegetariana”, da autora coreana Han Kang, ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura em 2024. Ao repassá-lo vou escrever um bilhete com algumas anotações sobre o conteúdo da obra, dizer quem sou e assim por diante.

Uma vez alguém me disse que a literatura une as pessoas. Passar adiante um livro é uma gentileza e possui a intenção de fazer uma outra pessoa feliz, proporcionar-lhe momentos de lazer e melhorar os modos com que percebe e vive a vida. Geralmente quando alguém escolhe um livro e o coloca nos braços sente uma satisfação especial. Eu, particularmente, costumo abri-lo e cheirá-lo. Esse primeiro movimento expressa um especial sentimento, posto que o cheiro faz conexões com as emoções, evocando lembranças vívidas. Minha mãe era bibliotecária e minha avó, tradutora. Então, emocionalmente, a leitura me resgata e alimenta.

O livro é do mundo, sim! Pode ser lido por todos, em qualquer época e lugar. Será a obra de Shakespeare limitada a um grupo social? Ou o livro “A Bolsa Amarela” de Lygia Bojunga só pode ser lido por adolescentes?

 Enfim, criar ou participar de uma cadeia de leitores é fazer parte de uma biblioteca ambulante e dinâmica. Além de disseminar os benefícios da leitura, estimula o contato do leitor com a língua empregada de forma correta. E ultimamente, cá para nós, amigo leitor, o Português tem sido mal utilizado pelos brasileiros.

Que venha 2026 com boas leituras!

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Poderá a alma de um livro ser artificial?

terça-feira, 27 de janeiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Quando me fiz esta pergunta, algo dentro de mim, possivelmente vindo de algum canto da minha alma, começou a reagir negativamente. Não! Como posso falar sobre uma instância abstrata, que não vemos, não tocamos ou ouvimos, mas sentimos sua existência e força, que subsiste ao tempo, às mudanças e à morte. Está na alma o princípio da individualidade, o registro histórico da experiência existencial, quer seja nesta vida ou em outras. É possível que seja o princípio mais abrangente do universo e que exista nas diferentes formas de existências; em todos os seres.

Quando me fiz esta pergunta, algo dentro de mim, possivelmente vindo de algum canto da minha alma, começou a reagir negativamente. Não! Como posso falar sobre uma instância abstrata, que não vemos, não tocamos ou ouvimos, mas sentimos sua existência e força, que subsiste ao tempo, às mudanças e à morte. Está na alma o princípio da individualidade, o registro histórico da experiência existencial, quer seja nesta vida ou em outras. É possível que seja o princípio mais abrangente do universo e que exista nas diferentes formas de existências; em todos os seres.

O livro é um objeto elaborado pela alma humana, capta-a em cada palavra!

O célebre verso de Fernando Pessoa no poema “Mar Português (tudo vale a pena se a alma não é pequena...), ao se referir à grandeza dos esforços de um navegador para atravessar o Cabo Bojador que, para tal, precisa superar diversos níveis de dificuldade e desafio, nos mostra que esta força invisível é também capaz de sustentar atos impossíveis.

Para falar da alma é necessário se destacar a liberdade, ou melhor, o livre arbítrio para tomar decisões autênticas e realizar vontades pessoais em todos as etapas dos processos de realização, experimentando com plenitude um turbilhão de emoções decorrentes. A alma tem inteireza e não se reparte em frações como um quebra-cabeça.

O autor, diante de um projeto literário, sempre desafiador, vê-se, inicialmente à frente de uma página em branco, sedenta de texto, em que a ausência de ideias e palavras é um desafio tão assustador quanto é para o navegador atravessar o Cabo Bojador.

Mas, de repente, do espanto, da admiração e da estranheza aos fatos da vida, as palavras vão surgindo, riscando a brancura do papel, desenhando frases, compondo um texto, seja em que estilo literário for. É um momento que tem um pouco de magia, que expõe emoções e percepções do autor, que possui o cansaço infinito do trabalho. Ah, é muito trabalho! É um tempo a perder de vista em que ele escreve, lê, corrige, reescreve, e vai, de solavanco em solavanco, compondo sua obra literária. É aí que a alma literária do livro é gestada com significação.

Amigo leitor, é verdade que se eu for num site de Inteligência Artificial, escrever uma ideia e pedir para que me apresente um texto, terei, numa fração de minutos, um texto pronto feito por um robô. Um texto que pode ser até perfeito. Mas sem alma!

A alma do autor alimenta a alma do leitor, que por sua vez alimenta a do autor. É uma retroalimentação. Obras compostas por inteligências humanas sobrevivem ao tempo como os clássicos: “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, publicado em 1862; as peças de Shakespeare, lançadas no final do século XVI e início do século XVII e o romance “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes lançado no início do século XVII. Foram obras criadas para serem lidas por pessoas humanas. São livros que possuem almas imortais. O mesmo podemos dizer sobre a obra de Lewis Carol, “Alice no País das Maravilhas” publicada em 1865.

Noutro dia li que um cientista da robótica estava preocupado com um robô doméstico que ele havia criado. O tal robô era capaz de dar um soco na cabeça de alguém com tamanha força que poderia matar. Ainda estamos engatinhando nesses processos de criação artificial. Que conteúdo um robô literário pode apresentar às crianças? Hoje, em 2026, os robôs são planejados, administrados e comandados por humanos. Mas amanhã... Que preocupações éticas os humanos terão ao demandar temas aos robôs para serem lidos por crianças e adolescentes?

É, meu amigo, 2026 vai nos obrigar a pensar sobre o fazer literário e suas consequências futuras.

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Reflexões sobre a inteligência humana

terça-feira, 20 de janeiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Faz tempo que assisti ao filme “Forrest Gump, o contador de histórias”, e não me esqueço das suas mensagens. Resolvi, agora, ler a respectiva obra literária, criada pelo autor americano Winston Groom (1943-2020), e tenho me sensibilizado mais ainda com a vida do personagem, elaborado como tendo um Q.I. abaixo da média. Durante a leitura venho perguntando: o que é ser idiota? Hoje, ter pureza d’alma, sentimentos de compaixão, lealdade, honestidade e generosidade podem caracterizar um bobo ou um sábio?

Faz tempo que assisti ao filme “Forrest Gump, o contador de histórias”, e não me esqueço das suas mensagens. Resolvi, agora, ler a respectiva obra literária, criada pelo autor americano Winston Groom (1943-2020), e tenho me sensibilizado mais ainda com a vida do personagem, elaborado como tendo um Q.I. abaixo da média. Durante a leitura venho perguntando: o que é ser idiota? Hoje, ter pureza d’alma, sentimentos de compaixão, lealdade, honestidade e generosidade podem caracterizar um bobo ou um sábio?

A história de Forrest Gump tem uma abordagem sobre o experimentar a vida com profundidade, que induz o espectador ou o leitor a refletir sobre a inteligência. Bertrand Russel (1872-1970), matemático e filósofo inglês, conhecido como o profeta da vida racional e da criatividade, disse, certa vez, em sala de aula, que nada é mais perigoso do que uma pessoa inteligente munida de uma premissa errada.

A meu ver a reflexão sobre a inteligência envolve questões amplas e com múltiplos pontos de vista como a história de vida, a cultura e a afetividade. A inteligência não é uma caixa compartimentada no corpo, ao contrário, é uma instância interativa e reativa, cujo potencial pode ser ampliado com as experiências e a aprendizagem. Pessoas com Q.I. médio ou superior podem ter comportamentos estúpidos, que expressam falta de raciocínio. Ah, a preguiça mental...  Além do que, definir alguém como tolo pode estar fundamentado a uma maneira particular de interpretar modos de pensar e comportamentos.

A civilização humana é fruto do poder intelectual utilizado nos modos de sobrevivência, nos processos adaptativos, no aprimoramento das condições de estar no mundo, bem como nas conquistas tecnológicas e criações de recursos que venham a oferecer conforto, eficiência e prazer. Cada vez mais tem-se estudado a inteligência.

O psicólogo cognitivo americano Howard Gardner formulou a teoria de inteligências múltiplas, através da qual descreveu diversas formas de inteligência. A lógico-matemática que descreve a facilidade na solução de problemas lógicos e matemáticos. A inteligência linguística que abrange a habilidade para usar as palavras tanto verbalmente como na escrita; a espacial que descreve a capacidade de pensar em três dimensões, a entender o espaço, formas, cores e padrões.

Já a musical pressupõe a capacidade para perceber, criar, interpretar e avaliar padrões musicais como ritmo, tom, melodia e timbre. A inteligência corporal-cinestésica é a capacidade de usar o corpo de forma habilidosa, precisa e coordenada para expressar ideias e sentimentos, realizar tarefas como as que um cirurgião realiza. A inteligência intrapessoal é o autoconhecimento profundo que possibilita o entendimento das próprias emoções, motivações, avaliar situações em seus pontos fortes e fracos, tomar decisões coerentes com os objetivos pessoais. A interpessoal é a capacidade de interação com outras pessoas, entendendo suas decisões, opiniões, o que facilita a comunicação, o trabalho em equipe, a construção de relacionamentos saudáveis. Finalmente, a inteligência existencial é a capacidade para refletir sobre as grandes questões da vida, o lugar do ser humano no mundo e no universo, a busca de respostas sobre a condição humana.

Estamos cercados pelos resultados da aplicação das inteligências humanas. Agora mesmo, sentada na mesa da sala, vejo os móveis e penso em quantas inteligências foram necessárias para criá-los, desde a extração da madeira. Como no tecido da toalha que cobre a mesa, no computador em que estou escrevendo esta coluna, a xícara ao meu lado exalando um cheiro de café incomparável.

Mas retornando a Forrest Gump. Penso que Winston Groom tenha pretendido chamar a atenção sobre a forma espontânea, honesta e simples de viver. O mundo está mergulhado em uma guerra estúpida de interesses econômicos, políticos, culturais e ideológicos, e, por conseguinte, todos estão deixando a pureza das emoções sob os tapetes.

Há uma passagem no livro que gostaria de trazer. Na universidade, um professor pediu à turma, da qual Forrest fazia parte, para que os alunos escrevessem uma breve biografia. Depois de corrigidas, o professor leu em voz alta a de Forrest, que gerou risos na turma. Ao final, informou que o texto de Gump tinha sido o texto mais criativo de todos.

Apesar do baixo Q.I., Forrest possuia a sabedoria de ser gente.

Para finalizar, deixo duas frases para serem refletidas ao longo da semana:

 “A vida é como uma caixa de chocolates. Você nunca sabe o que vai encontrar”.

“Você tem que colocar o passado para trás antes que possa seguir em frente.”

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