Blog de terezamalcher_17966

A gralha-azul

terça-feira, 12 de maio de 2026
por Tereza Malcher

Na mais pura simplicidade da vida, como um ato de sobrevivência, está uma das mais gentis grandiosidades da natureza, que não busca na tecnologia, na filosofia ou na ciência meios para promover a vida e a sobrevivência de várias espécies, inclusive a nossa. A gralha-azul, ave que encontra seu habitat nas florestas de araucária no Sul do Brasil.

Na mais pura simplicidade da vida, como um ato de sobrevivência, está uma das mais gentis grandiosidades da natureza, que não busca na tecnologia, na filosofia ou na ciência meios para promover a vida e a sobrevivência de várias espécies, inclusive a nossa. A gralha-azul, ave que encontra seu habitat nas florestas de araucária no Sul do Brasil.

Trago este tema porque muito me encantei com a vida dessa ave ao viajar pelo interior do Rio Grande do Sul. Ela é, de alguma forma, a principal responsável pelo reflorestamento da região. Costumo passear pelos estados do Sul e sempre e incansavelmente admiro as araucárias, inclusive as temos em Nova Friburgo. No meu jardim fiz questão de plantar uma, onde cresce vigorosa e discreta, dando um show de força e beleza. É um orgulho que guardo no coração.

Confesso que a leitura do livro “Maneiras de Ser - Animais, plantas, máquinas: a busca por uma inteligência planetária”, escrito por James Bird, me fez mais sensível ainda com a natureza dessas árvores imponentes, um fóssil-vivo, tão antiga quanto os dinossauros, datando do período jurássico, quando os continentes americano e africano eram unidos, tendo mais de 200 milhões de anos. São árvores longevas, podendo viver, em média, de 200 a 300 anos. Até a 500 anos, como a que existe em Monte Verde, município de Minas Gerais.

O autor, James Bird, através de uma abordagem interdisciplinar, expõe sua preocupação com a sobrevivência do nosso planeta face às agressões que a natureza vem sofrendo. A obra revela seu esforço em promover a sensibilidade e o reconhecimento do potencial da Inteligência Artificial, recurso capaz de promover interconexão da ciência, das tecnologias e das necessidades humanas com a natureza, como forma de preservar as incontáveis formas de vida existentes na Terra. Inclusive a nossa!

Ah!, pensamos ser superiores... Grande ilusão. Os animais nos superam!  Seres, mais antigos que nós, que nunca precisaram destruir o meio-ambiente ou fizeram muros ou cercas com arames farpados. Sim, viveram experimentando a mais desafiadora liberdade e sobreviveram sem precisar fazer lixos de pneus e poluição de monóxido de carbono, verdadeiros assassinos silenciosos.

A gralha-azul é uma das mais belas aves do Sul do Brasil, cuja plumagem brilhante em tons de azul intenso chama atenção. Ela possui um papel ecológico relevante para a manutenção das florestas de araucária, através de uma relação de mútua dependência com a árvore.  Ela se alimenta da sua semente, o pinhão.

Porém, alguns, ela os guarda como precaução, ou melhor, esconde-os em buracos que faz no solo ou sob a vegetação para consumo em outra ocasião. Como se esquece de muitas sementes, provavelmente não sabendo onde as guardou, faz com que os pinhões acabem germinando. Assim, a gralha-azul é responsável pelo crescimento das florestas de araucária ou do seu reflorestamento. Ou seja, se essa divina ave deixasse de existir, as florestas seriam reduzidas, provavelmente nem mais existiriam.

Hoje, há o reflorestamento artificial, como estratégia fundamental para a conservação da espécie através do plantio de mudas em viveiros, o que substitui o trabalho da gralha-azul. Mas retira da natureza seus processos espontâneos.

A gralha-azul, guardiã das matas brasileiras, é a árvore da renovação, uma excelente trabalhadora rural, além de representar a conexão da natureza com a vida humana e animal. A araucária nos oferece o pinhão com fartura, rico alimento em energias e nutrientes, madeira de excelente qualidade, além de possibilitar a vida de diversas espécies sob sua copa.

Além do mais, é uma árvore dioica, uma espécie botânica com sexos separados; indivíduos masculinos que produzem o pólen e os femininos que produzem as sementes. Para produzirem o pinhão, elas dependem de agentes externos, como o vento e os insetos, para levar o pólen de uma árvore macho para a árvore fêmea. Apenas 5% das plantas são dioicas.

Para finalizar, deixo uma lenda que conta que a gralha-azul possuía uma plumagem escura, igual a milhares de outras aves. Deus pintou suas penas da cor do céu para que o mundo pudesse reconhecer o seu esforço e dedicação.

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A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

As mães e as gemas de ovos

terça-feira, 05 de maio de 2026
por Tereza Malcher

Estava pensando no que haveria de escrever para esta coluna na semana do Dias das Mães, celebrado no próximo domingo, 9. Trata-se de uma merecida homenagem a quem nos gerou, nos criou, deu-nos presença ou um beijo todas as noites. Na verdade, vale a pena, enviar um aceno a todas as mães. Enfim, se biológica ou não, um gesto que possa homenagear as mulheres que se fazem mães, que têm a vontade de preparar alguém para a vida com suavidade e determinação.

Estava pensando no que haveria de escrever para esta coluna na semana do Dias das Mães, celebrado no próximo domingo, 9. Trata-se de uma merecida homenagem a quem nos gerou, nos criou, deu-nos presença ou um beijo todas as noites. Na verdade, vale a pena, enviar um aceno a todas as mães. Enfim, se biológica ou não, um gesto que possa homenagear as mulheres que se fazem mães, que têm a vontade de preparar alguém para a vida com suavidade e determinação.

Para reverenciá-las, vou relatar uma relação mãe e filho que presenciei num ônibus. Ela, bem nova, de cabelos lisos que escorriam ombros abaixo, vestida de jeans, blusa de tecido e casaco nas costas. O menino, seu filho, moreno de olhos vivos e calças compridas, com uns cinco anos, não mais. Os dois iam sentados atrás de mim, conversando como bons amigos. Reparei que eram mãe e filho porque ele a chamou de mãe algumas vezes. Não soube seus nomes, nem se eram da cidade. Ele perguntava sobre os detalhes e fatos da vida.  Ela, com calma, respondia a um número sem fim de perguntas, fazendo questão de explicar; não se cansava nem pedia um tempo para apreciar a paisagem da serra.

Na conversa, ela corrigia alguns pequenos erros de português que o filho cometia e pedia para que ele repetisse a frase corretamente. Ele continuava a perguntar com firmeza, demonstrando tranquila satisfação. Possivelmente, para os dois, era um momento descontraído, tanto quanto o de saborear algodão doce num passeio pela praça.

A cada curva, ia notando naquelas duas pessoas em suas diferenças e simplicidades, em suas vontades de aproveitar cada instante daquela manhã de domingo ensolarado, o Dia das Mães. Somente os dois; um se fazendo presente ao outro. Eles viviam um estado de plenitude. Estavam com o mundo nas mãos, quando um alimentava o outro com nutrientes, como os das gemas de ovos vermelhos.

Num determinado momento, ele perguntou se poderia ficar de pé no assento para ver melhor a paisagem. Ela disse não e explicou que não se deveria colocar as solas de sapatos no lugar onde outras pessoas iriam se sentar. Ele concordou. E continuou com as perguntas.

Em Cachoeiras de Macau, eles desceram e não perceberam que eu estava ali, admirando-os. Reconhecendo o fazer-se mãe, num momento tão comum, quanto sábio.

O fazer-se mãe é um estado especial. O livro de uma amiga, Andrea Viviana Taubman, “Sonho de Mãe”, me chama a atenção, uma vez que conta para as crianças a experiência de ser mãe, belamente ilustrado por outra amiga, Sandra Ronca. Ambas são mães. As crianças vão apreendendo as mães pelo tom de voz e modos de olhar, pelo toque das mãos e tantos outros jeitos de amar. O sentido que cada mãe descobre para sê-lo, constrói o senso de cada um dos filhos.

Enfim, gostaria de enviar doces de quindim a todas as mães, posto que é um saboroso quitute feito de açúcar e gemas de ovos. Aliás, é uma ótima sobremesa para o “Dia das Mães”

Para finalizar, deixo uma mensagem de “boua” noite que escrevi para minha mãe quando era pequena, não me lembro quantos anos tinha. Fiz questão de manter os erros, que não interferiram no afeto contido em cada palavra.

Minha querida ‘douce’ mamãe

“Eu te amo com todo o coração de criança. Eu te faço tudo por você que tenha a vida muito grande e, com muitas felicidades, que teu coração, seja só de Deus.

Mamãe eu ofereço o meu coração de criança para você que é minha vida e é a própria alegria.

Eu te amo eu te ofereço uma boua noite

Tome o meu coração.”

Um feliz Dia das Mães a todas as mães do mundo.

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Mozarteando

terça-feira, 28 de abril de 2026
por Tereza Malcher

Vez em quando, quero me referir ou descrever algo e não consigo encontrar palavra que designe o que pretendo expressar. Apesar do vasto dicionário da nossa bela Língua Portuguesa, ainda faltam palavras para definir pensamentos e sentimentos, fatos e objetos, situações e processos. Aliás, sempre falta algo na vida, então por que não poderia suceder com a nossa Língua Portuguesa? E o falante, como você, meu leitor, e eu, volta e meia, nos deparamos com os vazios da linguagem.

Vez em quando, quero me referir ou descrever algo e não consigo encontrar palavra que designe o que pretendo expressar. Apesar do vasto dicionário da nossa bela Língua Portuguesa, ainda faltam palavras para definir pensamentos e sentimentos, fatos e objetos, situações e processos. Aliás, sempre falta algo na vida, então por que não poderia suceder com a nossa Língua Portuguesa? E o falante, como você, meu leitor, e eu, volta e meia, nos deparamos com os vazios da linguagem.

Posto que sim, a literatura é de uma graça imensa e tem desses acasos, engraçados, esdrúxulos e deleitosos. No final de uma conversa com os sócios e amigos do Instituto Edith Blin, ocasião em que eu falava sobre o processo de escrita, quis dizer que escrevo como se fosse embalada pelas músicas de Mozart. E saiu, espontaneamente, “mozarteando”. Depois, supus que poderia ser o gerúndio do verbo mozartear.

Eu mozarteio, você mozarteia e ... Escrevo a coluna sendo abençoada por esse nobre e talentoso músico, que organiza minha mente e faz com que as ideias fluam com leveza. A música clássica do austríaco Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) ativa o poder do cérebro por ter uma sonoridade profunda, elegante e equilibrada. Pela sua harmonia, composta com tamanha perfeição, oferece a sensação de “joie de vivre” (ou alegria de viver) e momentos de introspecção, evocando sentimentos de compaixão e paz. É uma música que possui magnetismo, eletrizando nossas correntes energéticas.

De fato, Mozartear me possibilita transitar com desenvoltura entre o amor, a brincadeira e a poesia. Quem escreve precisa mergulhar no estado mozarteador para conseguir transpor as ideias para o papel com beleza e poesia.

Mozarteando, fiz outra constatação: escrever é um processo louco. Guimarães Rosa era um poliglota, falava muitos idiomas. Dominando completamente diferentes línguas, criou palavras: nonada (coisa sem importância), desinquieta (agitada), empalavrado (pessoa que usa muitas palavras). Acredito que ele ia escrevendo, ia querendo encontrar palavras exatas, não as encontrava e ia inventando. Que criatividade fundamentada na intuição, no conhecimento da língua e na determinação de explorar as possibilidades dela, como escritor!

Eu, também, ousei em criar uma: ajelasmicrim (mistura dos cheiros de jasmim e alecrim). Ao escrever um texto infantojuvenil sobre o tempo, queria achar uma palavra para expressasse aquela pessoa apressada, que fala rápido e acaba misturando tudo. Aí, sem querer, andando no meu jardim, fazendo um número sem fim de perguntas ao meu vocabulário, senti um cansaço daqueles que vaza nos poros, e “ajelasmicrim” saiu num sopro, quase me tirando o ar. Então, corri para a mesa e escrevi. Uma, duas, três vezes. Repeti várias vezes em voz alta e gostei do som. E, então, nomeei meu texto de Ajelasmicrim.  Com ele ganhei o prêmio “Off Flip de literatura”, em 2016, na primeira edição do concurso infantojuvenil. E o livro foi editado pela respectiva editora.

Quem escreve tem que se acostumar com essas saudáveis normalidades. Até porque a língua se constitui assim. Surge na boca do povo, no dizer das palavras e frases. Agora, pesquisando sobre as novas palavras inseridas no dicionário da Língua Portuguesa, me deliciei com “vacinódromo”, o lugar de vacinação; “bibliosmia”, ato de cheirar livros, hábito comum a muitos leitores. Eu, mesma, cheiro, inspiro tão profundamente o meio do livro para sentir o autor e o texto. É como se o olfato substituísse a visão. Para ser sincera, lemos com todo o nosso corpo. E, aí, com tantas palavras e situações enlaçando nossas células, criou-se “disania”, dificuldade extrema de sair da cama. Quem não sofre de disania no dia da preguiça?

Inventar palavras parece ser uma brincadeira interessante e gostosa, quase um jogo de palavras e letras. Na verdade, é um modo de não se resignar com as limitações da língua e das situações. Um modo de ir além, de não ficar acanhada com os limites. De saltitar sobre as letras.

Salve os tempos da “uberização”!

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Maldades silenciosas

terça-feira, 21 de abril de 2026
por Tereza Malcher

No processo de “passar adiante”, ou seja, depois de ler um livro, uma leitora passa a outra, recebi “Trilogia de Copenhagen: infância, juventude e dependência”, da autora dinamarquesa Tove Ditlevsen, uma obra-prima autobiográfica. Ao começar a ler percebi a crueza da vida da protagonista em Copenhage e dos seus vizinhos em período anterior à Segunda Guerra.

No processo de “passar adiante”, ou seja, depois de ler um livro, uma leitora passa a outra, recebi “Trilogia de Copenhagen: infância, juventude e dependência”, da autora dinamarquesa Tove Ditlevsen, uma obra-prima autobiográfica. Ao começar a ler percebi a crueza da vida da protagonista em Copenhage e dos seus vizinhos em período anterior à Segunda Guerra. Um sofrimento que atravessava gerações decorrente da falta de amor, dos vícios e da precariedade de vida, que geravam maus tratos e descuido com familiares, especialmente com os filhos, sempre indefesos às agressões, humilhações e ausências.

Conversando com a amiga que me deu o livro, ela falou sobre as maldades silenciosas. Suspirei fundo: ah, são tão sutis, que podemos nem as perceber claramente. Contudo, são as mais insidiosas que surgem através de ciladas e formas enganosas de agir e de falar. Traiçoeiras, posto que parecem atitudes comuns, porém, na sua essência, são perigosas e ferinas.  

As maldades silenciosas encontram espaço propício nos campos profissional, emocional e social. Comumente surgem mascaradas de manipulações, brincadeiras, esquecimentos ou até falsas preocupações. Verdadeiros venenos que acontecem lentamente, pingados em conta-gotas, o que torna difícil para a vítima se dar conta, podendo até pensar ser sensível demais ou mesmo que o erro é dela.

Quando acontecem em relações afetivamente próximas, as maldades silenciosas são intencionais e fazem a vítima sofrer. Acontecem de várias formas e uma das mais comuns é a Lei do Silêncio, um modo de pressionar ou punir o outro a agir de um modo ou fazer algo contrário à vontade da vítima. A distorção da realidade faz com que a pessoa tenha dúvidas, inclusive de si mesma ou pense que está exagerando ou dramatizando. Os esquecimentos fundamentados no “sem querer” são uma das formas mais veladas das maldades silenciosas. As fofocas, principalmente as de cunho caluniosos, tão comuns, são como pontas de faca afiadas que ferem a dignidade, a autoestima e a imagem de alguém. Não posso deixar de falar da crueldade das brincadeiras de mau gosto, muitas vezes acompanhadas da exclamação: “você não tem senso de humor”.

As maldades silenciosas são diferentes das explícitas. Primeiramente não são óbvias, são difíceis de confrontar, justificar e denunciar. A seguir, causam um choque imediato, seguido de constrangimento e mágoa, ferindo com maior ou menor profundidade, mesmo sem causar dor física. Os impactos são emocionais e deixam marcas tristes que podem abalar. Geralmente é um ato de maldade silenciosa repetido, podendo prejudicar a construção da história de vida de uma pessoa.

As maldades atravessam gerações que formam o ciclo do trauma e da herança comportamental. São feridas emocionais que não são curadas em uma geração e tendem a se repetir na outra. Assim, podem se tronar uma moeda de troca ou um padrão de sobrevivência para o mundo, como o roubo, o golpe, o latrocínio.

As amarguras e os ressentimentos também podem ser passados de uma geração a outra, inclusive até de forma inconsciente. Toda maldade que não é tratada e transformada, permanece viva, fazendo com que seja percebida como padrão de comportamento e sobrevivência.

Noutro dia, no mercado, fui passar no caixa e dei “Bom dia!” com sorriso. A moça olhou para mim e disse:

- É raro alguém me cumprimentar assim!

- Como? – perguntei.

- A maioria das pessoas passa por mim e não me cumprimenta. Pagam as compras e vão embora sem agradecer ou dizer alguma palavra de despedida.

Ou seja, o hábito de ignorar o outro se torna uma atitude natural e vai de geração em geração. Nas pequenas ausências de gestos, nas atitudes de ironia, escárnio e humilhação, vamos perdendo o sentido humanização.

A maldade é um dos maiores desafios da humanidade desde os tempos mais remotos. Uma intenção de causar mal a alguém é decorrente de um modo de agir com a finalidade de prejudicar, levar vantagem ou mesmo de sentir prazer. Na maioria das vezes, o mal se apresenta disfarçado de beleza e sedução.

Mas aí vem a questão: o que estamos fazendo com o que nos acontece? Essa pergunta é o primeiro passo para interromper o fluxo que, a seguir, exige um processo de autoconhecimento, terapia e transformação nos modos de ver o outro e a si mesmo e de viver a vida. 

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Um homem bom

terça-feira, 14 de abril de 2026
por Tereza Malcher

A vontade de escrever a respeito de uma pessoa boa nasceu durante a leitura do livro “O Colibri”, obra escrita por um dos mais importantes romancistas italianos da atualidade, Sandro Veronesi, tendo seu primeiro lançamento em março de 2019. O livro foi ganhador do prêmio Strega, em 2020, principal distinção da literatura italiana. O que me encantou no livro foi o protagonista, Marco Carrera, um homem bom. Será que é simples adjetivar uma pessoa como boa?

A vontade de escrever a respeito de uma pessoa boa nasceu durante a leitura do livro “O Colibri”, obra escrita por um dos mais importantes romancistas italianos da atualidade, Sandro Veronesi, tendo seu primeiro lançamento em março de 2019. O livro foi ganhador do prêmio Strega, em 2020, principal distinção da literatura italiana. O que me encantou no livro foi o protagonista, Marco Carrera, um homem bom. Será que é simples adjetivar uma pessoa como boa?

Tenho a impressão de que é tão complexo pensar na bondade quando estamos acostumados a viver num mundo carregado de maldades. Até porque o mal usa máscaras belas e sedutoras, cobrindo com criatividade uma personalidade cruel; a malevolência consegue ficar camuflada dentro das roupas de luxo. O mal, bonito pode lhe parecer. Mas o bem some com facilidade nas espumas do mar.

Marco Carrera é o Colibri, apelido que recebeu na infância devido sua baixa estatura. Sua postura diante das agruras o fez belo. Sua história me encantou a ponto de desejar conhecê-lo, apertar suas mãos e aplaudi-lo.  Acredito que o autor teve o intuito de abordar os valores que emergem quase imperceptíveis nos momentos cotidianos, traduzidos pelo modo calmo e sofrido do protagonista de se transformar ante os desafios, de encontrar força interior para seguir em frente e fazer sua vida continuar. Impressiona sua perseverança em ir até o fim, sabendo, inclusive, findar com dignidade. Através da leitura, posso dizer, constatei, mais uma vez, que o viver é a maior e melhor universidade que podemos cursar, cujos mestres possuem poucos buquês de rosas a nos presentear e muitos lenços de cambraia a nos oferecer.

Quem recebe a vida como desejaria? Por acaso, seria uma trajetória cheia de bondades? Perfumada por flores e repleta de facilidades? Não posso afirmar que uma vida boa é apenas legal. É simples demais. Quem fala de bondade está se referindo ao amor, sentimento que reúne os mais nobres valores, que está mais expresso nas ações do que nas palavras. Falar é um ato de dizer um pensamento ou emoção que pode construir, como também ferir e demolir. São pensamentos e sentimentos que exigem “mãos na massa”.

A bondade, quando genuína, não tem intencionalidades. Nasce da vontade, como a rama de cerejeira rosa que surge no meio da mata. A bondade é um ato de generosidade e empatia. Pode ser até que o indivíduo bom seja considerado bobo. Como a bondade é gerada na força de caráter, no autocontrole e na simplicidade, torna-se imperceptível no meio de forças particulares conflituantes, interesses materiais e de poder.

Assim aconteceu, em Florença, com o personagem Marco, que experimentou a vida sem medo e com dignidade. Com uma narrativa brilhante, a leitura de suas sagas familiares, de sua imensa paixão desde os tempos de sua juventude por uma moça e dos seus lutos tocam o leitor adulto. Quem não tem medo de se aventurar vida afora, desvelando a sabedoria? Ah, como aprendemos com a ausência, sempre dolorosa. Quem não sabe o que é abrir a porta de um quarto vazio e ter de descobrir novos sentidos e finalidades?

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Ao jornal A Voz da Serra, meus parabéns pelo seu aniversário!

terça-feira, 07 de abril de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Hoje, 7 de abril, com alegria, abraço o jornal A Voz da Serra, do qual faço parte há dez anos como colunista. É uma data valorosa para um jornal que, ao longo de 81 anos, deixa sua voz ecoar entre as montanhas friburguenses. Como resultado de um esforço coletivo, um trabalho jornalístico diário e incansável, faz com que as notícias da cidade, do Brasil e do mundo cheguem atualizadas e impecáveis aos moradores da cidade.

Hoje, 7 de abril, com alegria, abraço o jornal A Voz da Serra, do qual faço parte há dez anos como colunista. É uma data valorosa para um jornal que, ao longo de 81 anos, deixa sua voz ecoar entre as montanhas friburguenses. Como resultado de um esforço coletivo, um trabalho jornalístico diário e incansável, faz com que as notícias da cidade, do Brasil e do mundo cheguem atualizadas e impecáveis aos moradores da cidade.

A Voz da Serra traz consigo a energia e a renovação do outono. Com personalidade forte e corajosa, sem receio de noticiar, tem liderança nos rumos de Nova Friburgo. Já tendo ultrapassado dificuldades quase intransponíveis, o jornal vem transmitindo, em cada uma de suas reportagens, a competente seriedade de noticiar. Portanto, faz parte da história da região, colaborando com a cidade em sua rotina, dificuldades e desafios. Além de prestar serviços valiosos à população através da divulgação de informações sobre serviços, eventos e entidades.

É possível observar, através das suas colunas, a preocupação com a qualidade de vida da população. Tenho orgulho de participar desta empreitada com a coluna Momentos Literários. Como a literatura percorre o tempo em diferentes épocas e lugares, contribuo com ideias sobre a vida a serem refletidas pelos leitores. Publicada semanalmente, às terças-feiras, é um espaço que valoriza diversos estilos literários, como o romance, a poesia, o conto e a crônica. Além de incentivar a formação do leitor e o hábito de ler.

Ao produzir a coluna sou revestida pela responsabilidade de colaborar com os modos de viver e conviver dos leitores, sejam friburguenses ou não. É uma responsabilidade que emerge da preocupação com os valores humanos, princípios que regem a ética nas relações sociais, econômicas, afetivas, familiares e profissionais.

Participar do jornal A Voz da Serra enriquece a minha vida. Fazer parte de um grupo de profissionais e colabores é motivo de orgulho, posto serem pessoas conscientes do papel que possuem na cidade, sempre atentas aos fatos e aos modos como podem oferecer colaborações efetivas ao presente e ao futuro da cidade.

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O silêncio das certezas

terça-feira, 31 de março de 2026
por Tereza Malcher

Fazendo pesquisas a respeito dos temas que desenvolvo nesta coluna, uma pergunta circundou em diversos textos e me chamou atenção: as certezas têm silêncios? A voz do silêncio pode conter a mais poderosa sabedoria, revelar maturidade emocional e significar um escudo contra os conflitos. É a voz que, por vezes, fala mais alto e é mais reveladora do que as palavras. Além do que há fatos tão evidentes que não precisam ser falados.

Fazendo pesquisas a respeito dos temas que desenvolvo nesta coluna, uma pergunta circundou em diversos textos e me chamou atenção: as certezas têm silêncios? A voz do silêncio pode conter a mais poderosa sabedoria, revelar maturidade emocional e significar um escudo contra os conflitos. É a voz que, por vezes, fala mais alto e é mais reveladora do que as palavras. Além do que há fatos tão evidentes que não precisam ser falados.

Em Shakespeare, o silêncio é tratado como uma forma de verdade, posto que os sentimentos profundos não precisam de discursos ou declarações, pairam sobre as atitudes, os olhares, os gestos, sempre reveladores das relações, como as de afeto, poder ou manipulação. A tristeza e a felicidade absolutas possuem uma linguagem própria e são expressas no silêncio. Ou seja, quando o sentimento tem completude, é insuficiente tentar expressá-lo por meio de palavras.

Ao ler Franz Kafka concluí que somos os mestres das incertezas, uma vez que vivemos em busca delas. Mas em que fato o certo e o errado podem ser revelados se não no nascimento e na morte? Se observarmos a vida com mais cuidado, podemos concluir que vivemos no labirinto dos absurdos, como um operário de obra que constrói uma casa e nela jamais habitará. O mais breve silêncio guarda verdades ocultas.

A música instrumental não tem vazios, traz o silêncio das emoções do seu compositor. Quem a compõe a reveste os acordes com seus silêncios. O concerto de Aranjuez, “Adágio”, de Joaquim Rodrigo, o hino universal da saudade, foi composto quando ele perdeu seu filho recém-nascido. Ele se utilizou do violão para chorar, quando, então, conseguiu transformar uma profunda tristeza em intocável beleza musical.

Já para Fernando Pessoa, o silêncio da certeza é uma contradição. A certeza é o ponto mais intenso de anulação, na medida em que não habita em qualquer pensamento. Não pensar é a forma mais profunda de deixar de existir; quem pensa, duvida. Utilizando seu heterônimo(*), Alberto Caieiro, ele afirmou que as coisas são o que são e não há o que interpretar. A mente vê sem julgar ou interpretar.

O autor português José Saramago expressou em sua obra o silêncio enquanto pausa para a compreensão e aceitação das verdades, que não precisam de palavras. O silêncio se contrapõe ao caos e às certezas autoritárias. É através do silêncio que se pode compreender a vida e a morte, além de guardar insatisfações. Em o “Ensaio sobre a cegueira”, mostrou que o silêncio busca na certeza o que está além do óbvio.

O silêncio é uma comunicação, uma força viva que indica a fragilidade das palavras e a necessidade de perceber a realidade de outras formas. Para Antoine de Saint-Exupéry, o silêncio da certeza é uma experiência espiritual e essencial, que transcende a lógica. A verdade não pode ser explicada, é algo que se sente na quietude. “É invisível aos olhos” e “só pode ser vista com o coração”. Segundo ele, a linguagem pode ser uma fonte de desentendidos.

 Se a realidade é percebida e interpretada pela pessoa, e as ciências precisam de comprovações fundamentadas em estudos que investigam os fatos da realidade, a busca pelas certezas se movimenta a partir do momento em que a realidade toca o sujeito. A verdade, para o autor de “O Pequeno Príncipe”, é revelada no deserto e nas alturas, onde não há ruídos.

Certa vez, pensei que somente do alto poderíamos perceber a vida na totalidade dos fatos, onde tudo e todos fazem parte de uma mesma circunstância. Os pormenores, como cada um de nós, sob essa ótica, estariam misturados de tal forma que se tornariam parte de uma unidade.

Durante o silêncio encaramos nossos vazios e os mais profundos pensamentos. A modernidade não nos concede o silêncio, enquanto pausa, o momento em que será possível encontrarmos a oportunidade de autoconhecimento e de paz. Contudo, hoje, quando somos tomados pelo silêncio, nos deparamos com as preocupações, situações quotidianas e questões mal resolvidas. Pouco nos damos as mãos, nos abraçamos e nos escutamos.

O mais triste é que pouco nos damos direito a experimentar o silêncio!

(*) heterônimo é uma personalidade literária criada por um autor para assinar obras com estilos, filosofias e biografias distintas do criador

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Confissões de uma colunista

terça-feira, 24 de março de 2026
por Tereza Malcher

Todos têm uma confissão a fazer que pode estar em alguma caixa de segredos, guardada em nossos lugares especiais. Como ando com vontade de falar a respeito da minha experiência como colunista, resolvi abri-la. Nela, não se guarda qualquer coisa, somente preciosidades, que não se mostra de qualquer maneira. Ah, cada segredo tem um valor pessoal.

Todos têm uma confissão a fazer que pode estar em alguma caixa de segredos, guardada em nossos lugares especiais. Como ando com vontade de falar a respeito da minha experiência como colunista, resolvi abri-la. Nela, não se guarda qualquer coisa, somente preciosidades, que não se mostra de qualquer maneira. Ah, cada segredo tem um valor pessoal.

Vou começar tirando a primeira recordação de quando era adolescente.  Minha avó paterna dizia, com orgulho, ser prima do colunista Artur da Távola, que, por mais de 30 anos, escreveu para os jornais do Rio de Janeiro. Quando lia as colunas tinha a vontade de ser colunista. Como achava que jamais seria capaz, guardei comigo em segredo.

Quando redigi a dissertação de Mestrado, senti pela primeira vez o gosto de escrever um texto capaz de ser lido por professores, catalogado e arquivado na biblioteca da universidade. Porém meu “segredo” continuou guardado; a escrita que fiz naquele trabalho foi teórica, e Artur da Távola escrevia sobre os acontecimentos, situações quotidianas, fatos relacionados à arte com leveza e plena liberdade de usar as palavras.

Contudo o aprendizado que adquiri no Mestrado foi fundamental para a construção da minha identidade como colunista posto que aprendi a educar minhas ideias, pesquisar, a transpor para o papel aquilo que pensava e sentia. Entendi que as ideias precisavam de fundamentos para serem apresentadas. O mais importante foi constatar que era saudável elaborar ideias com ética para serem compartilhadas e não restarem fechadas em gavetas ou arquivos. As ideias têm vida; voam longe.

Alguns anos depois, encantada com o teatro, fiz adaptações de textos a serem encenados. Durante esse tempo, constatei que os conteúdos das peças tinham de ter valores em suas linhas e entrelinhas porque o espetáculo, ao mesmo tempo em que tem a função de entreter, deve oferecer ideias que beneficiem as pessoas e suas relações com o mundo. E, aí, meu amigo, percebi o valor da arte literária: transformar uma ideia em um texto para levar diversão e reflexão ao público. Tarefa nada fácil.

Depois, ao me tornar escritora de livros infantojuvenis, adquiri a desenvoltura na escrita. Frequentei inúmeras oficinas literárias quando escrevia sem parar e aprendia a ter humildade para receber críticas. Além do que aprofundei o hábito de pesquisar. Os textos literários necessitam de informações objetivas. Ao contar a história do Labareda, meu personagem canino do livro “Um cão cheio de ideias”, pesquisei a vida dos cães sob vários pontos de vista.

Ao escrever “Aventureiros da Serra”, a história de um menino que é acometido pelo câncer e continua a ser o líder de um grupo de amigos, pedi assessoria a uma médica oncologista e pesquisei sobre como a liderança acontece em grupos infantis.

O desejo de ser colunista permaneceu vivo e latente, jamais adormecido. Tive a oportunidade de conhecer a direção do jornal e falar a respeito desta vontade antiga. Fui aceita. Em 27 de junho de 2016 minha primeira coluna foi publicada: “Meus avós e meus abacates”. Tenho o orgulho de nunca ter faltado, nem repetido um tema. Hoje, a coluna tem o nome “Momentos Literários”

Escrever semanalmente é, ao mesmo tempo, um prazer e um desafio. Um processo que, às vezes, é mais complexo, enquanto outros são de uma facilidade que surpreende. Cada texto é produzido de modo próprio. Entretanto, inicialmente, sempre há uma exposição livre, sem preocupações com a forma, mas com o desenvolvimento de uma ideia. A seguir, vem a pesquisa, através da qual leio trabalhos de outros autores, busco nos livros e na internet informações válidas e reescrevo a coluna várias vezes. Finalmente, meu professor corrige o texto.

Hoje, tenho a certeza de que ao escrever “Momentos Literários” reflito sobre o viver, que a cada dia me surpreende e espanta.

O que me reforça a produzir um texto semanal com este entusiasmo é a oportunidade de aprofundar os valores humanos, hoje tão ameaçados e deteriorados. Tomo cuidado para não ter uma postura de autoajuda, nem ensinar o que é certo ou errado. Mas de mostrar a vida através de textos sérios, que consideram a natureza e a pessoa humana como os maiores patrimônios.

Cada um de nós tem funções na vida. Depois de cumprir tantas, atualmente me orgulho de escrever a coluna “Momentos Literários”, toda a semana para o jornal A VOZ DA SERRA.

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Alice

terça-feira, 17 de março de 2026
por Tereza Malcher

Alice, idealizada pelo romancista, contista, fabulista, poeta, desenhista, fotógrafo e matemático Charles Lutwidge Dodgson (1832- 1898), reverendo anglicano, conhecido por Lewis Carrol, é a protagonista do livro “Alice no País das Maravilhas”, publicado em Londres, em 1865, uma das mais conhecidas personagens da literatura mundial.

Alice, idealizada pelo romancista, contista, fabulista, poeta, desenhista, fotógrafo e matemático Charles Lutwidge Dodgson (1832- 1898), reverendo anglicano, conhecido por Lewis Carrol, é a protagonista do livro “Alice no País das Maravilhas”, publicado em Londres, em 1865, uma das mais conhecidas personagens da literatura mundial.

Quando despontou em mim o interesse em escrever histórias para crianças e jovens, conversei com Maria Alice Barroso (1926 – 2012), jornalista, escritora e diretora da Biblioteca Nacional na época. Ao longo da conversa, que não deixou de ser uma aula de literatura, ela me disse: Você precisa ler Alice no País das Maravilhas, um espetáculo de criatividade”. Lewis Carrol foi um escritor que mergulhou no mundo da fantasia para criar a sua mais famosa história.

O livro é uma viagem pela literatura nonsense, subgênero literário que não respeita a lógica do mundo real, em que o leitor pode encontrar sentido nas circunstâncias sem-sentido e absurdas. Através de uma narrativa fantástica, o livro é uma viagem ao imaginário, tendo nascido nas histórias que o reverendo Charles contava para Alice Liddell e suas irmãs, Edith e Lorina. Ele era amigo da família e costumava passear com as crianças, quando contava histórias para entretê-las. Numa tarde de 1862, ele começou a narrar as aventuras de Alice no mundo subterrâneo. Alice tanto gostou que lhe pediu para que as escrevesse. Charles se pôs a escrevê-las e desenhá-las, levando um ano para fazê-lo. No Natal de 1864 ofereceu à menina.

Atualmente, 160 anos após sua publicação, “Alice no País das Maravilhas” é uma obra popular, com mais de 170 traduções para diversas línguas. É uma obra global com vários tipos de adaptação para o cinema e a televisão, o teatro e o desenho animado, dentre outras. Um livro que deve fazer parte da estante de uma casa, principalmente se houver crianças, posto que sua narrativa é um convite ao maravilhoso mundo dos sonhos.

Há interpretações com críticas severas à obra. Contudo se abrimos suas páginas à luz de pontos de vista e julgamentos, o livro perde o brilho e a cor, além de se apagar. É uma narrativa que abre ao leitor, seja adulto ou infantil, as portas do lúdico, cujos episódios só podem ser percebidos como uma grande brincadeira. 

O autor empregou na elaboração do texto seus conhecimentos de lógica e matemática, além de escrevê-lo com bom-humor. Ele não teve intenções didáticas, queria divertir as crianças, brincando com palavras, misturando a fantasia com situações cômicas.

“Alice no País das Maravilhas”, narrada na forma de um sonho, conta com diversos episódios aparentemente desconectados, num lugar ou país imaginário onde tudo é caótico, o que nos permite pensar que o autor se sentiu completamente livre para criar. Aliás, faço questão de destacar que o escritor precisa se libertar dos seus medos e preconceitos para se permitir entrar no mundo da fantasia. Principalmente aquele que escreve para crianças e jovens.

É um texto inteligente através do qual a realidade é transformada em situações extraordinárias, possibilitando o leitor pensar e se divertir ao mesmo tempo. Alice é uma criança curiosa e distraída que cai num buraco e chega num país imaginário e vai se transformando e amadurecendo ao longo das cenas. “Tenho uma vaga lembrança de ter me sentido um pouquinho diferente, mas se eu não for a mesma, a próxima pergunta é: Quem sou eu? Essa é a questão.”

Na minha visão, o mais interessante é que Alice vai seguindo sua vida naquele país cheio de desafios e dificuldades. Chora até quase se afogar num mar de suas próprias lágrimas, mas continua, vai se deparando com personagens inusitados que lhe apresentam novas situações, discussões, ataques, encontros e desencontros.

O texto tem valor existencial. É frequentemente usado no contexto empresarial, em palestras de liderança e treinamentos por ser visto como uma metáfora do mundo corporativo, dinâmico, desafiador e em constante processo de mudança. A frase “para quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve” é utilizada para evidenciar a necessidade de clareza de objetivos. Ou a sábia proposição “quanto mais corro, mais atrás fico” é útil para os apressados. São frases que eu mesma deveria escrevê-las num quadro e pendurar em cima da minha cabeceira.

Enfim, ler Alice é um estímulo para experimentar as oportunidades que a vida nos oferece, sem ficarmos paralisados ou aborrecidos ante os imprevistos. Um livro para todas as idades.

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A preciosidade das artes

terça-feira, 10 de março de 2026
por Tereza Malcher

Ao assistir a uma apresentação do violonista e maestro André Rieu, fui tomada, como sempre, pelo encantamento e pela vontade de dançar e voar. No final da apresentação, abraçado a seu violino, o músico declarou: “A música é um tesouro em nossas vidas”. A frase me trouxe recordações da minha avó que era concertista e professora de canto, da minha madrinha, violonista e do meu filho que admirava Beethoven, compositor alemão. Também me lembrei dos desenhos coloridos da minha filha e da bela decoração da casa de minha mãe. Naquele momento, fui tocada pela arte ao longo da vida.

Ao assistir a uma apresentação do violonista e maestro André Rieu, fui tomada, como sempre, pelo encantamento e pela vontade de dançar e voar. No final da apresentação, abraçado a seu violino, o músico declarou: “A música é um tesouro em nossas vidas”. A frase me trouxe recordações da minha avó que era concertista e professora de canto, da minha madrinha, violonista e do meu filho que admirava Beethoven, compositor alemão. Também me lembrei dos desenhos coloridos da minha filha e da bela decoração da casa de minha mãe. Naquele momento, fui tocada pela arte ao longo da vida.

Assim, resolvi dedicar esta coluna à arte. A mais genuína, criativa e inteligente das expressões humanas, através da qual o homem consegue mostrar suas percepções, emoções e ideias. É uma linguagem simbólica sempre situada, sob o ponto de vista histórico, social e geográfico. Se observarmos bem, nosso planeta é o mais belo e artístico do sistema solar por ser colorido por suas águas, matas e iluminação criada pelas mãos humanas. Além de bailar, fazendo os movimentos de rotação e translação, como os demais planetas. Todos os corpos celestes se agitam no espaço ao som vindo de algum lugar desconhecido. Assim sendo, não podemos ser diferentes. Somos artistas natos; brincamos com nossos pés e mãos desde que nascemos ou balbuciamos sons quando começamos a nos expressar verbalmente.

Será que conseguimos nos imaginar vivendo num lugar sem arte?

A natureza é arte pura. Ao mesmo tempo em que não existe um humano igual ao outro e nem tão pouco animais e vegetais semelhantes. Há simetria absoluta em todos os corpos. A natureza desenha a vida com pincéis precisos e incertos. Já observaram os constantes desenhos que as nuvens fazem no céu? Rubem Braga, escritor, um dos grandes cronistas, observando o céu, certa vez, escreveu belamente sobre “as vagabas nuvens de Ipanema”. Já Rubem Alves escreveu em um dos seus poemas que a “experiência da beleza tem de vir antes”.

A manifestação artística tem preocupações com a estética a partir da percepção sensível, subjetiva e emotiva de quem busca interpretar a realidade através do belo e do sublime. Mas também com aquele que se esforça para retratar o feio e o grotesco. E com quem pretende fazer críticas aos modos de ser e de viver. Através das artes é possível compreender a história dos povos, posto serem gestadas na lida do homem com a natureza, com as organizações culturais, políticas e sociais, com as relações afetivas e familiares, e pela necessidade de ir além para tentar encontrar a felicidade e a perfeição. A arte é resultado da ebulição das forças na alma do ser humano, que pode sofrer as influências do inconsciente coletivo. É construída pelo talento que corre nas veias do artista como uma pulsão criativa, que não o deixa se aquietar ante suas percepções e emoções.

A arte invade e atravessa os sentidos de quem a admira. Sem pedir permissão, modifica a percepção sensitiva que o sujeito tem da realidade na qual está inserido. Para captá-la em sua beleza e significado é preciso observar as cores, o som, a textura, o odor e o paladar do mundo. Admirar a arte é uma experiência que pode causar as mais diferentes reações, como aquelas que tive ao assistir ao concerto de André Rieu.

Hoje, além da música, pintura, dança, literatura, arquitetura e cinema, há novas formas expressivas que ampliam a classificação das artes, como a fotografia, as histórias em quadrinhos, os jogos eletrônicos e a arte digital.

Então, amigo leitor, estamos mergulhados na arte. Vamos urgentemente aproveitá-la!

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