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Pix, PCC e CV: o que Trump realmente quer?

Lucas Barros
Além das Montanhas
Advogado com atuação no ecossistema de inovação e pós-graduado em Prática Trabalhista. Colunista, empreendedor e pesquisador em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulados pela ANEEL. Apaixonado por Nova Friburgo, escreve “Além das Montanhas” para mostrar que a cidade não vive isolada, entre suas montanhas, do que acontece ao seu redor.
Poucas vezes o Brasil produziu uma inovação capaz de mudar tão rapidamente a vida das pessoas quanto o Pix. Em poucos anos, o sistema criado pelo Banco Central transformou a forma como brasileiros compram, vendem, recebem e transferem dinheiro. Do pequeno comerciante até a grande empresa, milhões de pessoas passaram a realizar operações financeiras em segundos, sem quaisquer tarifas.
Talvez por isso tenha causado tanta estranheza ver o governo americano incluir o Pix em sua lista de críticas ao Brasil. Em meio a discussões sobre tarifas comerciais, concorrência e até combate ao crime organizado, surgiu a narrativa de que o sistema brasileiro estaria prejudicando empresas privadas americanas de meios de pagamento (Visa, Mastercard, entre outras).
O BC respondeu através de nota oficial: “o Pix não é um produto comercializável. Não é uma empresa. Não é uma mercadoria. É uma infraestrutura pública criada para facilitar a vida da população. Não há comercial, mas o modelo de negócio que outros países também pretendem implementar.”
E convenhamos: se já causava indignação a simples possibilidade de o governo brasileiro criar algum tipo de tributação sobre o Pix, imagine aceitar que outro país tente interferir em uma ferramenta desenvolvida e administrada dentro do território nacional. O debate, por si só, já soa estranho.
Preocupações estranhas
Mas talvez o mais curioso seja acreditar que Donald Trump tenha acordado, num belo dia, genuinamente preocupado com o Pix, com o PCC ou com o Comando Vermelho. A história da política internacional mostra que as grandes potências raramente se movem apenas pelos motivos que apresentam em discursos oficiais.
Quando observamos o tabuleiro geopolítico, percebemos que a disputa costuma ser muito maior do que a justificativa apresentada ao público. Os Estados Unidos vivem hoje um momento de transformação global. A China cresce em influência econômica, amplia sua presença em mercados estratégicos, disputa cadeias produtivas, domina terras raras e fortalece alianças em diferentes regiões do planeta. Em paralelo, temas como energia, petróleo, rotas comerciais e segurança de abastecimento voltaram ao centro das decisões internacionais.
Nesse contexto, o Brasil também ganha relevância. Somos uma potência agrícola, energética e de terras raras. Temos reservas estratégicas, recursos naturais abundantes e um mercado consumidor expressivo. Não é difícil imaginar por que determinadas decisões brasileiras passam a despertar tanto interesse externo.
Por isso, quando autoridades americanas misturam Pix, crime organizado e barreiras comerciais no mesmo discurso, vale a pena olhar além da superfície. O PCC e o CV são problemas reais e graves. Combatê-los é obrigação do Estado brasileiro. Mas é difícil acreditar que a maior preocupação de Washington seja exatamente a segurança pública brasileira.
Curiosamente, a história recente mostra que certas regiões do mundo recebem atenção muito maior quando também possuem relevância energética ou estratégica. Petróleo, rotas marítimas, influência regional e segurança econômica costumam ocupar espaço privilegiado nas prioridades das grandes potências. Talvez seja apenas coincidência. Talvez não. Mas a história internacional raramente é movida apenas por altruísmo.
E há uma ironia difícil de ignorar. Os Estados Unidos frequentemente se apresentam como referência mundial no combate ao tráfico de drogas e ao crime organizado. Entretanto, enfrentam em seu próprio território uma das maiores crises de crime organizado, dependência química e população em situação de rua do planeta.
Em Los Angeles, a Skid Row (região conhecida como a Cracolândia americana) tornou-se símbolo dessa realidade. São dezenas de quarteirões ocupados por quase 50 mil de pessoas vivendo em condições extremamente precárias, convivendo diariamente com drogas. Por outro lado, até no SuperBowl, maior evento esportivo televisionado do planeta, grandes artistas e celebridades do esporte fazendo sinais e passos de gangue em TV aberta para todo o planeta.
À distância, é fácil apontar problemas alheios. Mais difícil é resolver os próprios. O Brasil tem desafios enormes na segurança pública. Tem facções criminosas poderosas, fronteiras vulneráveis e problemas históricos que precisam ser enfrentados com seriedade – assim como eles também tem os deles. Mas também é verdade que nenhuma nação do mundo pode se apresentar como modelo absoluto quando ainda convive com crises humanitárias tão profundas dentro de casa.
Taxas para todo o mundo
E há um detalhe que merece atenção. O Brasil não foi o único alvo dessas medidas de taxações. Ao lado do nosso país, dezenas de outras nações também foram atingidas por novas tarifas americanas. Segundo o próprio governo dos Estados Unidos, cerca de 60 países passaram a sofrer sobretaxações por razões que vão desde questões comerciais até alegações relacionadas a políticas internas e mecanismos regulatórios.
O Escritório de Comércio dos EUA (USTR) determinou tarifas de 10% relacionadas à investigação de trabalho forçado sobre as importações do Canadá, Equador, União Europeia, Indonésia, México, Paquistão, Argentina, Bangladesh, Camboja, El Salvador, Guatemala, Malásia, Taiwan e Reino Unido. Em relação ao Brasil, o Escritório de Comércio disse que propõe tarifas de 12,5%.
Ou seja, estamos longe de uma medida exclusivamente voltada ao Brasil. O que se observa é uma estratégia mais ampla de pressão econômica, utilizada como instrumento de política internacional.
Trump joga o jogo
O Pix não é perfeito. Nenhuma política pública é. Mas seu sucesso incomoda porque representa algo raro: uma solução brasileira que funcionou. Uma tecnologia pública que reduziu custos, ampliou o acesso ao sistema financeiro e se tornou referência internacional. Talvez seja justamente isso que desperte tanto interesse.
Durante anos, ouvimos discursos contundentes sobre narcotráfico, segurança regional e combate ao crime organizado na Venezuela. Hoje, o debate internacional parece muito mais concentrado em questões energéticas e petróleo. Talvez seja apenas coincidência. Talvez não. Grandes potências costumam ser muito mais sensíveis a barris de petróleo do que a discursos humanitários.
No fim das contas, a discussão dificilmente é apenas sobre o Pix. Também não parece ser apenas sobre o PCC ou o CV. O assunto é poder. É influência. É a disputa por espaço em um mundo que muda rapidamente. É a eleição brasileira. E talvez a maior prova de que o Pix deu certo seja justamente o fato de ter saído das conversas dos brasileiros para entrar nas preocupações de uma das maiores potências do planeta.
Porque, quando uma simples transferência feita pelo celular começa a incomodar interesses internacionais, provavelmente estamos discutindo algo muito maior do que tecnologia ou segurança pública. Estamos discutindo quem continuará escrevendo as regras do jogo nos próximos anos.

Lucas Barros
Além das Montanhas
Advogado com atuação no ecossistema de inovação e pós-graduado em Prática Trabalhista. Colunista, empreendedor e pesquisador em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulados pela ANEEL. Apaixonado por Nova Friburgo, escreve “Além das Montanhas” para mostrar que a cidade não vive isolada, entre suas montanhas, do que acontece ao seu redor.
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