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Casa não esquece

Paula Farsoun
Com a palavra...
Paula é uma jovem friburguense, advogada, escritora e apaixonada desde sempre pela arte de escrever e o mundo dos livros. Ama família, flores e café e tem um olhar otimista voltado para o ser humano e suas relações, prerrogativas e experiências.
Há casas que continuam habitadas mesmo depois que as pessoas vão embora. Nos lares, mesmo depois que os moradores se vão, há versões antigas que permanecem silenciosamente espalhadas pelos cantos, como se fossem impregnadas nas paredes, nas janelas, entre fotografias esquecidas, xícaras lascadas que ninguém joga fora, bilhetes dobrados dentro de livros e perfumes que ainda resistem no fundo de alguma gaveta. Toda casa tem memória. E às vezes ela lembra de nós melhor do que nós mesmos.
Outro dia abri um armário procurando uma caixa de documentos antigos e encontrei uma mulher que já fui. Ela estava ali, guardada entre certificados, cartões com validade vencida, cartas amareladas, bloquinho de anotações, fotografia 3x4 do tempo em que ainda era adolescente e outras reveladas em papel, daquelas que precisavam esperar dias para existir. Pude me lembrar do cheiro de um rolo de filme da Kodak que a gente comprava nas opções 12, 24, 36 ou 48 fotos (esta última, era a melhor opção, porém muito cara). Usávamos nossas máquinas de fotografar com cuidado, o flash, se usado, tinha que ser bem estudado, para não queimar uma fotografia à toa. Não gastar uma chance. Um registro a menos. Uma memória a menos para ser recordada para sempre.
Lembrei-me também do dia de juntar os rolinhos e levá-los para que fossem revelados. Levava dias para a entrega. E quando o envelope de fotos chegava, com aquele álbum da reveladora, com os plásticos para serem preenchidos por memórias, dava até uma emoção. As melhores fotos ficavam na frente. As demais, vinham na sequência. Bons tempos.
Fiquei olhando para aquela caixa com a estranha sensação de visitar alguém conhecido. E era. Só que aquela mulher já não mora em mim da mesma forma. As fotografias sabem disso antes da gente. As casas também...
Sabem quando deixamos de ouvir certas músicas. Quando abandonamos hábitos. Quando paramos de esperar alguém voltar. Há corredores que testemunharam choros abafados de madrugada. Mesas que ouviram despedidas definitivas. Sofás que acolheram silêncios mais dolorosos do que qualquer discussão.
Sabem das flores que colocamos naquele vaso que acabou manchando a madeira. Sabem de cada “parabéns” cantado nas festas de aniversário. Conhecem os sorrisos que foram dados para gente querida. Os abraços. Os momentos partilhados.
Existe uma intimidade entre as paredes e quem vive nelas. Uma cumplicidade inegável. Já parou pra pensar? Talvez por isso seja tão difícil mudar de casa. Não pela mudança em si, mas porque empacotar objetos é também tocar em pequenas arqueologias emocionais. Uma colher qualquer pode trazer de volta um domingo inteiro. Um cheiro antigo pode abrir uma porta que estava trancada há anos dentro da memória.
As casas acumulam tempos. A planta que alguém esqueceu na varanda. A marca de um quadro que já não está mais ali. A gaveta onde ainda existe um carregador de celular de um aparelho que nem existe mais. Pequenas permanências de vidas que foram acontecendo sem percebermos. E o curioso é que, enquanto tentamos organizar a casa, ela também nos organiza por dentro.
Há pessoas que conseguem viver em ambientes absolutamente neutros, sem história, sem afeto visível. Eu nunca consegui. Gosto das casas que parecem vividas. Das que têm livros fora do lugar, mantas sobre a poltrona, fotografias espalhadas e algum perfume emocional no ar. Casas excessivamente perfeitas me dão certa tristeza. Parecem não permitir que ninguém exista de verdade ali dentro. Porque viver desarruma. Amar desarruma. E toda casa sinceramente habitada acaba revelando isso em algum detalhe.
As casas nunca esquecem completamente quem amou dentro delas.

Paula Farsoun
Com a palavra...
Paula é uma jovem friburguense, advogada, escritora e apaixonada desde sempre pela arte de escrever e o mundo dos livros. Ama família, flores e café e tem um olhar otimista voltado para o ser humano e suas relações, prerrogativas e experiências.
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