Blog de roberiocanto_18846

Em off

quarta-feira, 18 de março de 2020

Vamos nos consolando com a versão nacional do american way of life

Vamos nos consolando com a versão nacional do american way of life

Muitos brasileiros (a maioria, talvez) gostariam mesmo era de ser americanos e falar inglês. As lojas, nas promoções, poderiam colocar nas vitrines “Menos 50%”, ou “50% fora”, mas isso nos pareceria de uma extrema vulgaridade, se comparado com o elegantíssimo “Off”. Veja a diferença de nível entre um bar que ostente o glorioso nome de Night Star, e outro pobremente chamado Estrela da Noite. São dois pés-sujos, mas uma placa em inglês eleva qualquer estabelecimento a outro nível, a “otro patamá”, como agora se diz do time do Flamengo.

Pena que não imitemos os americanos também na mania que os ricos de lá têm de doar dinheiro, sobretudo às instituições científicas e de ensino.  Agora mesmo um deles, que ganha anualmente quatro milhões e quinhentos mil... e você dirá que quatro milhões e quinhentos mil reais é muito dinheiro. Pois não é de reais que estamos falando, e sim de dólares. Esse empresário estava conversando com uma jovem funcionária de sua empresa e ela confessou o sonho de comprar uma casa, mas tinha dificuldade até mesmo para pagar o aluguel mensal de US$ 200, pois ganhava apenas US$ 40.000 por ano. Como eu sei que você é pior de conta do que eu, vou dar uma ajuda: o patrão faturava mais de 20 milhões de reais por ano — só de salários. A empregada recebia, convertido em dinheiro de pobre, a merreca anual de R$ 180.000,00.

O tal milionário teve então uma ideia que bem podia ser imitada pelos ricaços brasileiros. Incomodado com os quilômetros de distância entre seus ganhos e o da moça, decidiu encurtar a desigualdade, cortando um milhão de dólares do próprio salário e em seguida multiplicando o contracheque de seus empregados. Todos passaram a receber pelo menos 70 mil dólares por ano (cerca de 315 mil reais).

Cinco anos após a implantação do novo mínimo, ele garante que sua empresa só prosperou e que até o número de bebês entre seus empregados aumentou. E a razão provável é que, ganhando bem, os casais podiam ir para a cama sem outras preocupações e a consequência, já sabemos: mais filhos. Podendo criar a ninhada sem apertos, viviam mais felizes; vivendo mais felizes, trabalhavam melhor e produziam mais.

Agora você imagine se pegasse entre nós a mania de imitar o tal mister. Imagine se os figurões da República e os demais milionários que pairam soberanos sobre a nossa pobreza geral resolvessem diminuir um pouquinho do que ganham e doar a sobra. Dava para melhorar bem a vida de seu Armelindo, que mora num barraco e num barranco, ambos prestes a desabar. Nem por isso o senador Coriolano atrasaria as prestações do jatinho que comprou (e se humilha pagando o jatinho à prestação para poder trocar o iate atual por outro mais moderno).

Mas, falando sinceramente, acho que nem vale a pena levar a ideia à frente. Uma coisa é imitar os gringos na hora de fazer liquidação nas lojas, outra coisa é tirar dinheiro do bolso para ver o trabalhador brasileiro engordando seus vencimentos, que na verdade nem são vencimentos, são derrotas mensais. 

Mas, enquanto não podemos todos morar em Nova York e fazer compras nas mesmas lojas que Angelina Jolie, vamos nos consolando com a versão nacional do american way of life, que consiste em imitar nossos “irmãos” do norte e tanto quanto possível usar as palavras que eles usam. Certa vez um político brasileiro disse que “tudo que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. Talvez seja bom para aqueles brasileiros que têm tanto dinheiro que os bancos nacionais não dão conta de guardar e alguns milhões precisam ser mandados para os paraísos fiscais, de preferência sem que ninguém saiba.

Segundo Ariano Suassuna, Cervantes teria dito que o português é a língua mais bonita e sonora do mundo. Bem, pode ser que o tal de Cervantes fosse um analfabeto, desses que vivem dizendo besteiras quixotescas, ou maluco, como aquele patrão quixotesco, que resolveu dar dinheiro aos empregados!

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Problemas e soluções japonesas

quarta-feira, 04 de março de 2020

Não é à toa que eles têm aqueles olhinhos fechados de quem está sempre olhando além das aparências

Não é à toa que eles têm aqueles olhinhos fechados de quem está sempre olhando além das aparências

Se você é cronista e está sem assunto, volte-se para o Japão, cuja cultura é tão diferente da nossa que frequentemente nos surpreende. Em geral, para nos deixar humilhados com a superioridade deles, que não falam alto em público, caminham sobre calçadas que brilham de tão limpas e constroem um hospital em dez dias. O mais espantoso de tudo é que falam o idioma japonês desde criança, coisa que marmanjo brasileiro nem se atreve a tentar e ainda acha que gueixa é um tipo de fruta, haicai é uma luta marcial e samurai é nome de um poeta.

Eu já contei para vocês a história das velhinhas viúvas e solitárias que roubavam descarada e repetidamente nas lojas, até que a justiça, cansada de repreendê-las, manda prendê-las. Era tudo que elas queriam. Na prisão elas têm boa alimentação, um quarto confortável, atendimento médico permanente e muita companhia, que era o que mais lhes faltava lá fora. Difícil é convencer as velhinhas que a pena delas já terminou e elas têm que sair. Liberdade é muito bom, mas não se compara a uma prisão cinco estrelas.

Mas nisso não precisamos invejar os nipônicos, que nossas cadeias também são um luxo, contanto que o condenado seja rico, famoso, ou poderoso. Se for as três coisas juntas, aí então é que estar preso é um repouso glorioso e uma glória repousante. Agora mesmo está circulando nas redes sociais o vídeo de um ex-governador fluminense que, condenado por corrupção, ficou uns mesezinhos na cadeia e logo mereceu desfrutar do regime semiaberto. Ou seja, trabalhar de dia e voltar para a cela à noite. Pois no vídeo, Sua Ex-Excelência está curtindo um belo churrasco com os amigos em plena luz do dia. Bem, talvez ele seja churrasqueiro e estivesse trabalhando.

Também já lhes contei que, nos tempos idos, quando um cidadão japonês fazia cem anos, recebia do governo uma taça de prata. Mas cresceu tanto o número de centenários, tanto são os japoneses e japonesas que insistem em continuar respirando depois dos cem, que o governo reduziu o brinde a uma miniatura. Sem essa providência, a mania nipônica de nunca morrer acabaria levando a economia do país à falência, tantas eram as taças a serem distribuídas.

Pois bem, foi justamente o envelhecimento da população da Terra do Sol Nascente que me chamou a atenção. Ou, mais propriamente, os planos do governo para atenuar essa situação. Com um terço da população em idade avançada, a perspectiva é que dentro de poucos anos o número de idosos seja tão grande que não haverá bastante gente em condições de tocar a economia do país e, dentre outros desafios, sustentar os velhinhos. A permanecerem os japoneses tão ineficientes no campo reprodutivo (logo eles, que são tanto eficientes no campo produtivo), o Japão continuará perdendo nada menos que um milhão de habitantes por ano. Verdade que japonês vive muito, mas também morre, ainda que seja depois dos cem.

Pois aí é que entra a criatividade japonesa. Não é à toa que eles têm aqueles olhinhos fechados de quem está sempre olhando além das aparências. A solução, meus amigos, os brasileiros conhecem bem. É, dito de uma maneira pouco poética, fazer filhos. As autoridades daquele país promovem excursões para moças e rapazes viajarem juntos, criaram o Centro de Suporte ao Casamento e um aplicativo na internet que significa algo como “procura-se um parceiro”. Enfim, o governo quer que os jovens se casem e se multipliquem, e para isso está fazendo a sua parte. O resto compete aos jovens, que precisam parar de estudar e trabalhar até altas horas da noite e ir para o quarto cumprir o dever patriótico de rejuvenescer a população do país.

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Amor de carnaval

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Clotilde,

 Aqui quem lhe manda estas mal traçadas linhas é a tua irmã Finoca. Estou te escrevendo para você sossegar papai e mamãe, acho que eles ficaram uma fera porque eu saí de casa no sábado de carnaval com a nossa tia Josefa e até hoje não voltei. Coitada da tia, já velhinha, e deixei ela no meio do povo e sumi, nem sei se a velhota conseguiu achar o caminho de casa de novo.

Clotilde,

 Aqui quem lhe manda estas mal traçadas linhas é a tua irmã Finoca. Estou te escrevendo para você sossegar papai e mamãe, acho que eles ficaram uma fera porque eu saí de casa no sábado de carnaval com a nossa tia Josefa e até hoje não voltei. Coitada da tia, já velhinha, e deixei ela no meio do povo e sumi, nem sei se a velhota conseguiu achar o caminho de casa de novo.

Eu sei que você vai me entender, Clotilde. Um dia você também saiu de casa pra comprar pão e voltou dez meses depois, trazendo um embrulho nos braços. A mãe chorou, o pai gritou. Mas o embrulho tinha um menininho e o menininho levava o nome do avô e já vinha com a camisa do Flamengo, que é a paixão do nosso velho, e você acabou perdoada. É verdade que eles queriam saber quem era o pai da criança e você nunca que chegava à conclusão, uma hora era do presidente do Bloco Carnavalesco Tamos Aí, outra hora era do Tonico Quitandeiro e depois podia ser que fosse do teu ex-namorado Alberico. Se você não põe na menina o nome da avó e a camisa da Vilage do Samba, escola que ela adora tanto, nem sei se te safavas dessa segunda trapalhada.

O que me aconteceu, só quem passou por isso sabe o que é. Eu ali calmamente, donzelamente, vendo o Bloco dos Bichos, sem pensar em nenhuma maldade, de repente veio o boi e começou a fazer umas gracinhas pra mim. No começo eu até dei o desprezo, mas o danado era tão simpático, me disse umas coisas tão engraçadas bem pertinho do ouvido, me tremi toda! Nunca tinha visto um boi tão jeitoso! Quando dei por mim, ia caminhando com as rédeas na mão, subindo o morro, já de madrugada. Eu ia voltar, nem ia até o fim da viagem, te juro. Mas você sabe como o boi anda devagar, ainda mais esse, que é cheio de histórias. Depois, boi tem sede, paramos pra tomar umas cachaças; boi sente fome e ruminamos um pastel aqui, um quibe ali. Até parar atrás de uma árvore ele parou, que até boi de Carnaval tem dessas necessidades.

Pois é, mana, você já entendeu: fui na conversa do boi. Quando acordei, já era de manhã e por isso e por outros motivos que você sabe, não pude voltar para casa. Me lembro que a gente vinha subindo o morro, Vitalino (é esse o nome do boi) deixou de lado o Carnaval, atacou de Roberto Carlos pra cima de mim, até em língua estrangeira cantou. Tinha tanta estrela no céu, maninha! Pelo menos eu andei vendo estrelas. Há quem diga que não, que até choveu naquela noite. Sei mesmo é que acordei no barraco, a carcaça do boi de um lado, o dito cujo do outro, dormindo feito boi na sombra, o sol se rindo lá no céu.

Papai e mamãe também não foi assim, Clotilde? A tia Josefa me contou uma vez: foi depois de um ensaio. Papai era sambista da gema, de sair em comissão de frente. Pois, olha, acho até que você já sabe, dizem que mamãe enrabichou por ele que foi uma coisa, virou até letra de música que ele fez: “Meu peito é chão de avenida/ Onde teus encantos desfilam/ campeã no carnaval de minha vida”. Não é lindo? Tia Josefa, num dia de raiva, me atirou na cara: “Tu não é gente, ô praga, tu é o samba que passou da conta, o ensaio que não parou a tempo”.

Pode dizer pra eles, Clotilde: assim que passar a lua de mel eu apareço, sou até capaz de ficar, porque Vitalino anda desempregado. A gente tem vivido com o dinheiro do bloco, nem sei na hora de prestar contas como vai ser. Vitalino ri e diz que no Bloco dos Bichos também dá zebra. Ele é pescador, mas Friburgo não tem onde se pescar, aí ele fica desocupado, esperando as autoridades tomarem uma atitude, que também não é certo uma cidade como essa, que tem até teleférico, não possuir um só rio que dê peixe, um pescador não podendo ter seu sustento garantido. É o que ele tem me explicado com toda a paciência: não trabalha por falta de condições ambientais, ecológicas e outras palavras difíceis que ele sabe. Mas vagabundo não é, tanto que sempre foi pescador, num lugar onde nunca houve o que pescar. É ou não é uma barra?

Não tendo o que fazer, Vitalino fica em casa, imagine fazendo o quê! Diz que precisa de um bezerrinho pra sair com ele ano que vem, vê só, Clotilde! Eu começo rindo, mas dali a pouco a maluquice vira uma coisa tão certa e justa que eu acabo concordando em trabalhar para o aumento do Bloco dos Bichos.

Clotilde, irmãzinha querida, vou terminar por aqui porque já ouço o meu boi que vem chegando, na ponta do assobio um samba cheio de alegria e vontade de amar. Ai, Clotilde, não sei o que você vai pensar de mim, mas sou obrigada a confessar: o mugido desse boi me avacalha.

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