​A cidade virou o ano sozinha

Lucas Barros

Além das Montanhas

Advogado com atuação no ecossistema de inovação e pós-graduado em Prática Trabalhista. Colunista, empreendedor e pesquisador em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulados pela ANEEL. Apaixonado por Nova Friburgo, escreve “Além das Montanhas” para mostrar que a cidade não vive isolada, entre suas montanhas, do que acontece ao seu redor.

quinta-feira, 08 de janeiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

A virada do ano é, talvez, o momento mais simbólico de uma cidade. Não apenas pela contagem regressiva ou pelos fogos no céu, mas pelo que ela diz — ou deixa de dizer — sobre pertencimento, cuidado e presença do poder público. É quando a cidade se olha no espelho coletivo e tenta acreditar que o próximo ciclo pode ser melhor. Em Nova Friburgo, porém, a passagem de ano quase aconteceu em silêncio.

Não fosse a iniciativa privada, não haveria palco, música ou qualquer gesto público que marcasse o encerramento de mais um ciclo. Os eventos que deram vida à virada não nasceram da prefeitura, mas do esforço de produtores independentes, com destaque para o DJs Kokadah, Kaynan Sátiro e outros agentes culturais que apostaram recursos próprios para que Friburgo não atravessasse o Ano-Novo como quem fecha a porta e apaga a luz.

Há algo profundamente simbólico nisso. Em uma data que pertence a todos — independentemente de crença, bairro ou posição política — coube à iniciativa privada ocupar o espaço que o poder público escolheu deixar vazio. Não por vaidade, mas por responsabilidade. Não por interesse político, mas por compromisso com a cidade e com as pessoas que queriam simplesmente celebrar.

A ausência da prefeitura chama ainda mais atenção quando se observa o calendário recente de gastos públicos. Ao longo do ano, não faltaram recursos para grandes estruturas, palcos, artistas e shows ligados ao Natal e a eventos religiosos específicos. Foram investimentos elevados, legítimos em sua natureza, mas que revelam uma escolha clara quando comparados ao abandono completo da virada do ano.

A pergunta não é sobre a importância de eventos natalinos ou evangélicos — eles cumprem papel cultural e social relevante. A questão é o critério. Como explicar que haja verba para determinadas celebrações e nenhuma para o momento mais coletivo do calendário? O orçamento, como se sabe, não é neutro. Ele revela prioridades. E prioridades revelam a forma como uma gestão enxerga sua própria cidade.

Enquanto isso, Nova Friburgo ainda tenta digerir episódios muito mais graves do que a ausência de um evento. O pai da menina que faleceu recentemente em Lumiar veio a público desmentir o prefeito Johnny Maycon, afirmando que jamais foi contactado, contrariando declarações oficiais. Em meio ao luto, o que se viu foi mais um desencontro doloroso entre o discurso institucional e a realidade vivida pelas famílias.

A situação se agrava quando moradores relatam que comentários de protesto vêm sendo apagados das redes sociais do prefeito. Reclamações, críticas e questionamentos desaparecem como se nunca tivessem existido. Não é um fenômeno novo. A coluna já registrou episódios semelhantes anos atrás. O que muda agora é o contexto: o silêncio não tenta apagar apenas opiniões, mas indignações legítimas diante de tragédias reais.

Há algo de profundamente simbólico nessa tentativa de controle. Quando a crítica incomoda mais do que a dor, algo está fora do lugar. A política, quando deixa de ouvir, passa a administrar apenas a própria imagem. E quando a imagem vira prioridade, a cidade vira figurante de um governo que fala muito e escuta pouco.

Talvez por isso a iniciativa privada tenha sido tão importante neste Ano Novo. Não apenas pelo evento em si, mas pelo gesto. Alguém precisou lembrar que a cidade existe, que as pessoas querem estar juntas, que a virada importa. Quando o poder público se ausenta, outros ocupam o espaço — de precisar gritar em meio a tantos silêncios sem explicação.

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Advogado com atuação no ecossistema de inovação e pós-graduado em Prática Trabalhista. Colunista, empreendedor e pesquisador em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulados pela ANEEL. Apaixonado por Nova Friburgo, escreve “Além das Montanhas” para mostrar que a cidade não vive isolada, entre suas montanhas, do que acontece ao seu redor.

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