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O mundo está em caos – E nós estamos no meio disso, gostemos ou não

Lucas Barros
Além das Montanhas
Advogado com atuação no ecossistema de inovação e pós-graduado em Prática Trabalhista. Colunista, empreendedor e pesquisador em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulados pela ANEEL. Apaixonado por Nova Friburgo, escreve “Além das Montanhas” para mostrar que a cidade não vive isolada, entre suas montanhas, do que acontece ao seu redor.
Vivemos com a falsa sensação de que o mundo acontece longe. Que guerras, disputas de poder e movimentos geopolíticos são temas para jornais estrangeiros, especialistas engravatados e debates que não atravessam o nosso portão. É um engano confortável — e muito perigoso.
A história já nos ensinou, mais de uma vez, que quando o mundo entra em crise, ninguém fica ileso. O problema é que insistimos em aprender sempre da pior forma. Trazer uma guerra para o centro do cenário global em um período de instabilidade não é apenas um problema diplomático. É um sinal de alerta.
Viver tempos de crise significa viver tempos de escassez. E escassez não é um conceito abstrato: ela aparece no preço do alimento, no custo da energia, no valor do transporte, na dificuldade de manter empregos, na insegurança cotidiana. Em tempos instáveis, a vida, que já anda apertada, fica ainda mais difícil — e mais imprevisível.
Quando olhamos para o tabuleiro mundial hoje, o cenário não inspira nenhuma tranquilidade. As atitudes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com sua política agressiva, imprevisível e voltada ao conflito permanente, não são apenas retóricas eleitorais. Elas tensionam mercados, alianças e como o mundo funciona.
Do outro lado, Vladimir Putin (presidente da Rússia) insiste em uma lógica de força, onde a guerra não é exceção, mas instrumento político. E, silenciosamente — talvez de forma ainda mais eficiente — a China avança, ampliando seu poder econômico, tecnológico e político, ocupando espaços que antes eram hegemonicamente dos Estados Unidos.
Não se trata de escolher mocinhos ou vilões. Trata-se de compreender que estamos diante de uma mudança abrupta na forma como o mundo é organizado e por quem é gerido. É uma briga de poderes. A China caminha para superar, em pouco tempo, o capital político e econômico americano, enquanto o Ocidente parece fragmentado.
Esse desequilíbrio não é apenas teórico: ele cria um ambiente propício para conflitos maiores — e conflitos, historicamente, nunca ficam restritos aos seus pontos de origem.
Alguns ainda romantizam o caos. Sempre haverá quem diga que “gosta de quem faz bagunça”, de líderes que “botam para acontecer”, de discursos duros e gestos agressivos. O problema é que essa suposta coragem quase nunca é paga por quem a aplaude. A conta chega para o trabalhador comum, para quem já luta para fechar o mês, para quem sente o impacto de cada reajuste no supermercado, no aluguel, no combustível. O caos costuma ser um privilégio para poucos — nunca uma experiência desejável para meros mortais, como nós.
Períodos de instabilidade mexem com tudo: com preços, com oportunidades, com investimentos, com segurança e até com a forma como nos relacionamos. Eles corroem a previsibilidade — e viver sem previsibilidade é viver em permanente estado de alerta. Planejar o futuro vira luxo. Sonhar vira risco. E sobreviver passa a ser prioridade. A ansiedade coletiva cresce, o medo se normaliza e a sensação de chão firme desaparece.
É por isso que não faz sentido dizer que isso “não tem nada a ver com a gente”. Tem. Tem a ver com Nova Friburgo, com o Rio de Janeiro, com cada cidade que depende de cadeias globais de produção, de comércio, de energia e de estabilidade econômica. O mundo não é mais compartimentado. O que explode lá fora ecoa aqui dentro.
Preocupar-se com o que acontece entre Estados Unidos, Rússia e China não é alarmismo. É maturidade. É entender que as grandes peças desse tabuleiro mundial se movem, e quando se movem, esmagam o que estiver no caminho. Nós, muitas vezes, somos esse caminho — sem blindagem, sem controle e sem margem de escolha. Somos um mero navio pequeno em meio à tempestade.
Se hoje já está difícil pagar as contas, imaginar que tempos de crise tornarão a vida mais fácil é ilusão. Instabilidade nunca melhora a vida de quem vive do trabalho, da previsibilidade e do esforço diário. Pelo contrário: ela testa limites, reduz escolhas e impõe sacrifícios que muitas vezes não estamos dispostos a assumir.
Talvez a maior ingenuidade do nosso tempo seja acreditar que podemos nos dar ao luxo de não olhar para o que acontece mundo. Não podemos. Porque o mundo está olhando para nós — e decidindo, sem nos consultar, como será o próximo capítulo da nossa própria história. História essa, que estará nos livros escolares do futuro.

Lucas Barros
Além das Montanhas
Advogado com atuação no ecossistema de inovação e pós-graduado em Prática Trabalhista. Colunista, empreendedor e pesquisador em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulados pela ANEEL. Apaixonado por Nova Friburgo, escreve “Além das Montanhas” para mostrar que a cidade não vive isolada, entre suas montanhas, do que acontece ao seu redor.
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