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De Friburgo ao Vietnã: quando uma menina do interior decide não caber no próprio mapa

Lucas Barros
Além das Montanhas
Advogado com atuação no ecossistema de inovação e pós-graduado em Prática Trabalhista. Colunista, empreendedor e pesquisador em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulados pela ANEEL. Apaixonado por Nova Friburgo, escreve “Além das Montanhas” para mostrar que a cidade não vive isolada, entre suas montanhas, do que acontece ao seu redor.
Em tempos em que o noticiário pesa mais do que alivia, um sopro vindo do Vietnã colocou Nova Friburgo — de mansinho, mas com firmeza — no radar do mundo. O nome por trás desse feito é Maiara Braga Porto, 23 anos, friburguense, atriz, modelo, estudante de Odontologia e dona de uma trajetória tão improvável quanto luminosa.
Ela já atuou em produções da Netflix, Prime Video, novelas da Record e peças de teatro, sempre com disposição para aprender e generosidade para trabalhar. Muito bem-quista pelo pai de Gisele Bündchen, cercada de profissionais competentes e amparada por uma família que não perde um passo, Maiara ergue sua carreira como quem constrói um edifício: com fundação firme, paciência e propósito.
No Miss Charm — um dos concursos internacionais mais relevantes do continente asiático — Maiara não representa apenas Nova Friburgo, mas o Brasil. Ali, o glamour divide espaço com impacto cultural, discurso, identidade e presença. Não é um desfile de vestidos longos: é quase uma arena diplomática onde países apresentam mulheres que reúnem trajetória, voz e responsabilidade social.
O que é o Miss Charm?
Ao contrário do imaginário comum, o Miss Charm não é um desfile de vestidos longos: é um palco diplomático, onde países apresentam mulheres que somam carreira, identidade, propósito e voz. E é justamente por isso que a presença de uma friburguense ali importa: Maiara não pisa naquele palco sozinha — leva com ela uma cidade inteira que raramente acredita nos talentos que cria.
Maiara em foco pelo mundo
O concurso, que mobiliza milhões de espectadores na Ásia, cresce a cada edição e transforma suas candidatas em porta-vozes de causas, regiões e culturas. É por isso que ver uma friburguense naquele palco provoca algo aqui dentro: ela leva consigo uma cidade que, embora produza talentos em série, nem sempre acredita neles antes que o mundo o faça — e é justamente aí que sua presença ganha força.
Nos últimos dias, sua participação tomou proporções inesperadas. A roupa do Flamengo usada em uma das atividades do concurso incendiou a internet vietnamita e, em poucas horas, transformou Maiara em fenômeno espontâneo. Vieram então os vídeos de apoio: Neymar, de forma direta e simpática; Zico, venerado na Ásia como uma espécie de divindade esportiva; e milhares de torcedores fascinados por uma brasileira que mistura carisma, beleza e naturalidade.
Beleza que ultrapassa o externo
Mas o encanto vai além da imagem. Maiara é daquelas pessoas que iluminam sem esforço, dona de uma presença que enche a sala antes mesmo de qualquer aplauso. Brinca-se que deixaria até a Garota de Ipanema parecer pouco temperada - e a hipérbole, embora divertida, só reforça o fato de que sua beleza é evidente, mas está longe de ser seu maior atributo.
“Sempre me falaram que uma menina do interior não ia conquistar o mundo, que era muito difícil. Muitas pessoas desacreditavam e diziam que não era para mim, que não ia dar certo. E eu fico muito feliz de estar carregando o nome do meu país com diversas outras meninas que também carregam os dela, junto da sua história”.
Ainda assim, avançou com teimosia doce e construiu, passo a passo, uma trajetória que não pede licença: apenas existe, cresce e inspira quem observa. Encanta especialmente quem conhece sua atuação social. Maiara apadrinha ONGs, participa de projetos ligados à BFIP/ONU e encara o privilégio da visibilidade como um instrumento de transformação. Trabalha com crianças no Jardim Gramacho, se envolve com iniciativas de impacto local e fala com convicção sobre devolver ao mundo aquilo que a vida lhe ofereceu em oportunidade, afeto e caminho. “Eu posso dar visibilidade, posso tentar ajudar com a mídia, com os contatos que a gente conquistou no caminho.” – explica Maiara.
Ela própria reconhece que muitas portas se abriram somente quando deixou Friburgo. É um detalhe que dói porque é verdadeiro: somos uma cidade que exporta talentos, mas raramente os acolhe antes disso. Paradoxal para um polo de moda, lingerie, criação estética e audiovisual — um lugar que fabrica beleza, mas nem sempre enxerga a beleza que cria.
“Às vezes temos ouro guardado em Friburgo e não sabemos. Foi difícil ter oportunidade aí. Quando fui para o Rio, para São Paulo, para as capitais, fui mais valorizada. Eu acredito que a gente precisa aprender a valorizar mais o que a gente tem perto da gente e não ficar valorizando só o que vem de fora. E a minha missão é além de ajudar quem precisa, mostrar que sempre é possível.
Talvez esse seja o verdadeiro charme — não o do concurso, mas o dela. O charme de quem junta o mundo numa mala e ainda assim carrega a cidade como amuleto no bolso. O charme de quem atravessa oceanos sem perder o sotaque, o afeto e a vontade de representar algo maior. De quem expande não só o próprio mapa, mas o nosso — e nos lembra, com delicadeza, que às vezes o ouro que buscamos está bem aqui, só esperando que a gente aprenda a enxergar.

Lucas Barros
Além das Montanhas
Advogado com atuação no ecossistema de inovação e pós-graduado em Prática Trabalhista. Colunista, empreendedor e pesquisador em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulados pela ANEEL. Apaixonado por Nova Friburgo, escreve “Além das Montanhas” para mostrar que a cidade não vive isolada, entre suas montanhas, do que acontece ao seu redor.
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