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Um diamante que está deixando de brilhar

segunda-feira, 23 de maio de 2022
por Jornal A Voz da Serra

Um debate no Clube Leitura Vivências me despertou para as festas juninas. O que está acontecendo com elas? Eu me perguntava na medida em que me reportava à infância e delas me recordava através de saudosas lembranças. Conforme ia pesquisando e desvelando o tema, reencontrei um diamante que está deixando de brilhar.

Um debate no Clube Leitura Vivências me despertou para as festas juninas. O que está acontecendo com elas? Eu me perguntava na medida em que me reportava à infância e delas me recordava através de saudosas lembranças. Conforme ia pesquisando e desvelando o tema, reencontrei um diamante que está deixando de brilhar.

Cada vez mais raras, essas folclóricas e populares comemorações estão ficando no passado, dando espaço para as eletrônicas e suas brincadeiras substituídas por troca de mensagens nos celulares. São tais transformações, como tantas outras, que fizeram com que Ferreira Gullar deixasse de se espantar e poetar.

Extraviei-me no tempo

Onde estão meus pedaços?

                                           (“Extravio”, Ferreira Gullar)

***

E vai findando maio, num rápido passar dos dias. E vem chegando junho, tempo festeiro e gostoso de viver! Do dia 13 a 29, o mês fica movimentado pelas comemorações dos santos populares, Antônio, dia 13, João, dia 24, e Pedro, dia 29. É um tempo enfeitado pela alegre criatividade com que se organizam e realizam os “arraiás”. Desde os preparativos até as comemorações, a literatura, especialmente a infantil e a poesia contida nas letras das músicas juninas, dá um toque lúdico, através de delicadas e cuidadas palavras que contam o acontecer das festas, também enriquecidas pelas danças, brincadeiras, balões e roupas. E, principalmente, pelo divertido encontro entre pessoas de todas as idades e culturas.

“Capelinha de Melão 

é de São João.

É de cravo, é de rosa, é de manjericão”.

                           (“Capelinha de Melão”, de João de Barro e Adalberto Ribeiro)

 

As festas vêm de longe. Há muitos e muitos anos, surgiram no tempo em que as bruxas, os duendes e as fadas andavam pelos campos e repousavam nas raízes das árvores, lá no hemisfério norte, na passagem da primavera para o verão. Nesse dia, o mais longo do ano, 24 de junho, as pessoas se reuniam para celebrar a fertilidade da terra e desejar boas colheitas dos cereis plantados, como o milho. Esses eventos aconteciam em torno da fogueira, símbolo característico dos festejos, que protegia as terras dos maus espíritos que atrapalhavam a prosperidade das plantações.

Quando olhei a terra ardendo

Qual fogueira de São João

Eu perguntei a Deus do céu, ai

Por que tamanha judiação”

           (“Asa Branca” de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga)

 

As festas, carregadas de simbolismos, nasceram nas culturas populares de regiões de vários países e mostram as crenças dos povos. Como tudo se mistura nas comemorações juninas, as festas são ricas de significados. As quadrilhas, por exemplo, eram comuns nos salões franceses, ou “quadrille”, porém tiveram sua origem nas tradicionais festas dos camponeses ingleses. O vestuário das moças, lindos vestidos armados, rodados e enfeitados, representam a riqueza da corte francesa. Os passos sempre puxados por expressões, alguns traduzidos do francês, como “para trás” (anarrié) e “para frente” (avancer).

“Pra dançar quadrilha no sertão é mais mió

sanfoneiro e violeiro tomam conta do forró

não precisa de orquestra pra animar a festa

o fungado da sanfona vai-se até o nascer do sol”

(“Piriri”, de Luiz Gonzaga)

 

Para o catolicismo se consolidar como a principal religião do continente europeu, as comemorações juninas foram incluídas em seu calendário para melhor conversão dos povos pagãos. Tempos depois, já populares na Península Ibérica (Portugal e Espanha), foram trazidas para o Brasil durante a colonização.

 

Cai, cai balão

Aqui na minha mão

Não cai não, não cai não, não cai não

Cai na rua do sabão

                             (“Cai, cai, balão” de Assis Valente)

 

Obs: O solstício é um evento astronômico. Sendo a Terra dividida em dois hemisférios, norte e sul, o solstício de verão ocorre quando um desses hemisférios está o máximo possível voltado ao sol e recebe a maior incidência de raios solares, ficando, portanto, mais aquecido e fazendo o dia o mais longo do ano. O solstício de inverno ocorre simultaneamente no outro hemisfério, que recebe os raios solares com menor intensidade, ficando menos aquecido e sendo o dia mais curto do ano. Os solstícios de verão e de inverno marcam o início das respectivas estações do ano em cada hemisfério.

 

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Lendas Urbanas

segunda-feira, 16 de maio de 2022
por Jornal A Voz da Serra

Durante a oficina literária, da qual participo semanalmente, há uns vinte anos, Pablo, antigo companheiro de escrita, escreveu um conto de memória sobre lendas urbanas em que aborda o tema de modo bem-humorado. Como nunca havia escrito a respeito nesta coluna literária, resolvi me debruçar sobre o assunto que corre sorrateiramente pela cidade, principalmente em universidades, escolas e instituições. Onde moro, na Fazenda Bela Vista, há tempos, corriam de boca em boca as histórias das Três Freiras e a do João Cocó que virava lobisomem.

Durante a oficina literária, da qual participo semanalmente, há uns vinte anos, Pablo, antigo companheiro de escrita, escreveu um conto de memória sobre lendas urbanas em que aborda o tema de modo bem-humorado. Como nunca havia escrito a respeito nesta coluna literária, resolvi me debruçar sobre o assunto que corre sorrateiramente pela cidade, principalmente em universidades, escolas e instituições. Onde moro, na Fazenda Bela Vista, há tempos, corriam de boca em boca as histórias das Três Freiras e a do João Cocó que virava lobisomem. Cá para nós, o nome do personagem João Cocó é bom demais! Faz a gente viajar. Literatura é isso, um passaporte ao mundo da fantasia.   

As lendas urbanas são narrativas breves de caráter fabuloso, alarmista ou sensacionalista que compõem a oralidade social. De acordo com Saulo Gomes Thimóteo, “Toda pessoa, independentemente de sua origem, crença ou formação, desenvolve-se em torno de narrativas”. São histórias gestadas no imaginário popular, que mesclam elementos fantásticos com lugares específicos, como salas de aula, ruas, trevos, metrô, dentre tantos outros. Em Nova Friburgo, a Fonte do Suspiro foi cercada de feitiços e lendas. Uma delas narrava que aquele que bebesse das suas águas a elas se prenderia por toda a vida. Outra contava que suas águas recuperavam a saúde, consolavam os tristes, fortaleciam os fracos e encorajavam os vivos.  

Quem não precisa de magia para se inserir na vida quotidiana? 

A literatura nasceu com a oralidade das lendas, das fábulas, das histórias cotidianas que foram passadas de geração em geração até o surgimento da edição gráfica dos livros no século XV. A necessidade de a pessoa dialogar com a vida quotidiana é fundamental para sua interação com o ambiente. Nesse intercâmbio há aspectos desconhecidos e sem explicação lógica que criam temor, impaciência e inquietude. São nesses âmbitos que surgem as lendas, nas quais não se sabe se aconteceram ou não. Por outro lado, criam suspense e curiosidade. Podem acabar sendo orientadoras de comportamentos, como não se deve andar à noite em lugares desertos, como os pais avisavam aos filhos para não voltarem tarde da noite para casa por causa das “Três Freiras”. Ou mesmo a lenda da “Loira do Banheiro” que não deixava de ser uma maneira eficiente de evitar que as crianças ficassem muito tempo no banheiro das escolas. Ou a do “Homem da Agulhas”, lenda que corre mundo afora e alerta sobre o risco do contágio através de seringas. Uma lenda urbana que comumente muito se popularizou é a de que um vírus foi criado propositalmente em laboratório.

Há lendas urbanas clássicas que ressurgem de tempos em tempos e tornam-se adaptadas aos contextos social, histórico e cultural. De todo o modo, expressam a incapacidade de entendimento sobre fatos da vida, como a morte, a doença, o poder, a insegurança que são compartilhados através de narrativas que relançam saberes populares. Além do mais impulsionam a relação entre pessoas, ou seja, as lendas mobilizam grupos de conversa que contam e recontam narrativas, seguidos de inesgotáveis comentários.

Quem ainda não se impressionou ou foi tocado por uma lenda? 

 

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A poesia chora, clama paz

segunda-feira, 09 de maio de 2022
por Jornal A Voz da Serra

Estou tocada com Mário de Andrade por vários motivos. O primeiro é que distamos cem anos da Semana de Arte Moderna e sentimos que a arte produzida na época tem atualidade. A seguir, parece que o escritor escreveu, em abril de 1917, para os tempos atuais o livro “Há uma gota de sangue em cada poema”. Em plena Primeira Guerra Mundial, ele extravasa seus sentimentos e critica os horrores vividos pela população e defende a paz. Guerra nada mais é do que uma matança generalizada daqueles que não decidiram fazê-la.

Estou tocada com Mário de Andrade por vários motivos. O primeiro é que distamos cem anos da Semana de Arte Moderna e sentimos que a arte produzida na época tem atualidade. A seguir, parece que o escritor escreveu, em abril de 1917, para os tempos atuais o livro “Há uma gota de sangue em cada poema”. Em plena Primeira Guerra Mundial, ele extravasa seus sentimentos e critica os horrores vividos pela população e defende a paz. Guerra nada mais é do que uma matança generalizada daqueles que não decidiram fazê-la.

Nesta segunda década do século XXI vemos a cruel guerra da Rússia contra a Ucrânia. Certamente, Mário de Andrade faria das suas palavras lágrimas de sangue ao ver pessoas saindo das suas cidades, carregando quase nada dos pertences, deixando suas vidas, seus lares. Quantos animais ficaram abandonados? Ao saber do número crescente de jovens que morrem e ao ver cidades inteiras construídas transformadas em montes de restos de cimento e objetos, ele certamente dedicaria a poesia “Exaltação da Paz” aos ucranianos. Eis as primeiras estrofes:

Ó paz, divina geratriz do riso,

Chegai! Ó doce paz, ó meiga paz,

sócia eterna de todos os progressos,

estendei vosso manto puro e liso

por sobre a terra que se esfaz!

 

Ó suave paz, grandiosa e linda,

chegai! Ponde, por sobre os trágicos sucessos,

dos infelizes que se digladiam,

vossa varinha de condão!

Tudo se apague! Este ódio, esta cólera infinita!

Fujam os ventos maus, que ora esfuziam;

Que vos ouça a voz, não o canhão!

Ó suave paz, ó meiga paz...

 

O diálogo, a arte debater e confrontar ideias, interesses e necessidade ainda é um processo a ser conquistado e aprimorado pelas pessoas deste planeta. Ainda a percepção de humanidade não foi alargada o suficiente para engrandecer o relacionamento entre homens e nações.  Ainda os interesses financeiros se sobrepõem à vida. Ainda há indiferença ao sofrimento alheio.

Talvez Mário de Andrade, milhares de homens e mulheres, tantas pessoas como eu sejamos ingênuos ao refutar a ideia de que a guerra é necessária para a conquista da paz. Quanta desesperança sinto ao ver a humanidade aperfeiçoar seus métodos e técnicas de guerra.

Shakespeare me vem para fechar esta coluna: “Em tempo de paz convém ao homem serenidade e humildade; mas quando estoura a guerra deve agir como um tigre.”

Por quanto tempo a poesia “Exaltação da paz” terá atualidade? Infelizmente quantas vezes responderei a esta pergunta e aceitarei a premissa de bardo inglês como sábia? 

 

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Metamorfoses

segunda-feira, 02 de maio de 2022
por Jornal A Voz da Serra

Hoje, quando acordei, a obra de Raul Seixas rondou meus pensamentos. Logo depois Macunaíma, de Mário de Andrade. E, lá fui eu adentrado as construções desses gênios, que pretendiam tocar as pessoas da sua época com suas críticas a partir da insatisfação com o estado de coisas que reinava. Haverá meigas mudanças? Ou sempre se apresentarão de modo irreverente? 

Hoje, quando acordei, a obra de Raul Seixas rondou meus pensamentos. Logo depois Macunaíma, de Mário de Andrade. E, lá fui eu adentrado as construções desses gênios, que pretendiam tocar as pessoas da sua época com suas críticas a partir da insatisfação com o estado de coisas que reinava. Haverá meigas mudanças? Ou sempre se apresentarão de modo irreverente? 

O pensamento deles criou balbúrdia e influenciou mudanças. Como é preciso ter autenticidade, coragem e ousadia para mudar! Vejam alguns versos da poesia de Mário e a letra da música de Raul, duas obras que desconstroem o sujeito, que sujeitado está nas realidades das épocas em que estavam inseridos. 

        Ode ao Burguês                                  Maluco Beleza

                      Mário de Andrade                              Raul Seixas 

Eu insulto o burguês! O burguês níquel,                            Enquanto você se esforça para ser

o burguês-burguês.                                                   Um sujeito normal

A digestão bem-feita de São Paulo               E fazer tudo igual

O homem que sendo francês, brasileiro,           Eu do meu lado pretendo ser louco

Italiano,

É sempre um cauteloso pouco a pouco!               Um maluco total

Eu insulto as aristocratas cautelosas!               Na loucura real

Os barões lampiões! Os condes Joões!               Cantarolando na minha maluquez

Os duques Zurros!

Que vivem dentro de muros sem pulos;                Misturada com minha lucidez

E gemem sangres de alguns mil-réis fracos            Vou ficar

Para dizerem que as filhas da senhora falam             Ficar com certeza maluco beleza

O francês

E tocam o “Printemps” com as unhas                                  Esse caminho que eu mesmo    escolhi

Eu insulto o burguês funesto!                                              É tão fácil seguir

O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições        Por não ter onde ir

Fora os algarismam os amanhãs!                                       Cantarolando a minha maluquez

Olha a vida dos nossos setembros                                   Misturada com minha lucidez

Fará sol? Choverá? Arlequinal!

Mas à chuva dos rosais

O êxtase fará sempre sol

Morte à gordura!

Morte às adiposidades cerebrais!

Morte ao burguês mensal!

Ao burguês tílburi!

Padaria suissa! Morte ao Adriano!

“— Aí filha, que te darei pelos teus anos?

— Um colar...  — Conto e  quinhentos!!!

Mas nós morremos de fome!”

 

De Mário a Raul tantas transformações ocorreram na vida do brasileiro. Partindo de uma crítica, um clamor à libertação dos padrões retrógrados do século XIX, Mário expressa a vontade de conquistar a satisfação consigo para enriquecer a mente e o espírito de expressões autênticas e superar a força das aparências, que sempre enganam.

E Raul, seguindo o mesmo rumo, depois de muitas batalhas e conquistas, fala das incertezas, resultantes da vitória revolucionária, de modo que a libertação dos grilhões burgueses trouxe a necessidade do estabelecimento de outros padrões de pensamento e realização. Que certamente criaram reações adversas e metamorfoses culturais.

Há 2.500 anos atrás, Heráclito já entendia da dialética da vida! Tudo muda, ninguém se banha duas vezes nas mesmas águas do de um rio. 

 

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Fátima, o dicionário e os diamantes

segunda-feira, 25 de abril de 2022
por Jornal A Voz da Serra

Volta e meia fazemos uma descoberta, sendo a maioria inesperada. Ah, a surpresa sempre nos pega desprevenidos, não é? Algumas nos fazem bem, outras nem tanto. Não quero ser maniqueísta, limitando o entendimento das coisas como boas e ruins, mas buscando compreender a singularidade delas, as características, os valores e possibilidades que oferecem. Também seus desafios e riscos. Toda palavra um tem peso que não se dilui ao vento. 

Como os dicionaristas sabem disso!

Volta e meia fazemos uma descoberta, sendo a maioria inesperada. Ah, a surpresa sempre nos pega desprevenidos, não é? Algumas nos fazem bem, outras nem tanto. Não quero ser maniqueísta, limitando o entendimento das coisas como boas e ruins, mas buscando compreender a singularidade delas, as características, os valores e possibilidades que oferecem. Também seus desafios e riscos. Toda palavra um tem peso que não se dilui ao vento. 

Como os dicionaristas sabem disso!

Pois bem. Conheci-o na escola, que logo me pareceu um livro chato, daqueles que a gente tinha de procurar palavras não conhecidas. Quem está aprendendo a ler e a escrever tem dificuldades para achar palavras naquelas páginas finas, escritas em letra pequena. Ainda mais complicado era entender o significado delas. Quantas vezes minhas colegas e eu procurávamos uma e mais outra para entender a primeira. Olha que naquela época, para mim, dicionário e castigo poderiam ser sinônimos.

Contudo, um dia notei que havia um jeito bonito de escrever, que uma frase, um bilhete ou mesmo uma poesia poderiam ser escritos de diversas formas. Fiz esta descoberta quando estava em plena adolescência porque tinha uma amiga que escrevia poesias e, ao lado de cada, desenhava algo. Como várias amigas de colégio, resolvi imitar a Fátima. Comprei um caderno e me pus a poetar e a desenhar. Aí, comecei a ter vontade de buscar outras palavras para substituir as que tinha escrito e, assim, sem esperar, estava com o dicionário nas mãos, folheando suas páginas, sentindo, surpreendentemente, o prazer de usar palavras que nunca tinha escutado ou lido. Ou mesmo viajar nos sentidos que cada palavra tinha. O dicionário, naquela época, se tornou uma interessante brincadeira.

Com a coletânea das unidades lexicais da língua portuguesa nas mãos, eu entreabri meus interesses. No final da adolescência já não parava de escrever. Dos diários à poesia, o dicionário se tornou um companheiro, até porque fui percebendo que a cada palavra pesquisada estava diante de um universo de sentidos e ideias. Assim, fui timidamente adentrando o imaginário, dentro do qual poderia permanecer por um longo ou pequeno tempo, porventura por um relampejo de segundo. O dicionário me fez sentir a beleza e o prazer de imaginar, de criar histórias e textos. De escrever.

Subitamente, constatei que habitamos em palavras, ou melhor, as palavras nos preenchem. Ou bem melhor ainda, somos feitos de palavras, a começar pelo nome. Estamos mergulhados num universo civilizatório composto por linguagens; onde todos os gestos, palavras, imagens é transposto ao pensamento, que é construído por palavras e frases. É preciso compreendê-las para entendermos que estamos vivendo, o que muitas vezes não acontece. O dicionário nos é esclarecedor, inclusive nos ajuda a revelar os mais profundos sentimentos, as mais estapafúrdias ideias, muitas geniais. Woody Allen é mestre em engendrá-las no texto e transpô-las à tela do cinema.

A sessão de psicoterapia se desenvolve através da palavra, que nos permite interpretar as imagens dos sonhos, as linguagens corporais, os sentimentos, especialmente aqueles que aparentemente se apresentam como indefinidos. Enfim, a palavra sempre foi o diamante das civilizações. Infelizmente, não é considerada como joia rara, apesar de estar por todas as partes. Quero exaltar a palavra “bem-dita”, a que exatamente expressa a ideia real ou fantasiosa que ilumina a cada instante o pensamento. A que diz o que se pretende dizer. A que mostra o que é preciso mostrar. A verdadeira. A que não ´vulgar.

Para terminar, deixo uma sugestão ao amigo leitor: busque o significado das palavras que, agora, definem você.

Escrevi este texto pensando em tambor, instrumento musical usado em várias culturas. Ora pois, o tambor é cosmopolita! Estou com uma vontade imensa de viajar, de voltar a Amsterdã com minha filha, para nos deitarmos na rua, olharmos para céu e sentirmos a liberdade das nuvens vagarem tarde afora.

Salve o dicionário! 

 

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Um antigo poema a ser recitado sempre

segunda-feira, 18 de abril de 2022
por Jornal A Voz da Serra

Ontem, terça-feira, dia 12 de abril de 2022, tive a alegria de falar a respeito do poema “Cisnes...” na Livraria Macondo, durante o lançamento do livro Cisnes e outros poemas de Júlio Salusse”, patrono da Academia Friburguense de Letras, por ela editado. 

“Cisnes...”, no final do século XIX e início do século XX, traduzido para mais de trinta idiomas, foi um dos poemas mais recitados no mundo. Infelizmente, agora, está esquecido, guardado em estantes, quando deveria ser declamado com frequência pelos quatro cantos do planeta. 

Ontem, terça-feira, dia 12 de abril de 2022, tive a alegria de falar a respeito do poema “Cisnes...” na Livraria Macondo, durante o lançamento do livro Cisnes e outros poemas de Júlio Salusse”, patrono da Academia Friburguense de Letras, por ela editado. 

“Cisnes...”, no final do século XIX e início do século XX, traduzido para mais de trinta idiomas, foi um dos poemas mais recitados no mundo. Infelizmente, agora, está esquecido, guardado em estantes, quando deveria ser declamado com frequência pelos quatro cantos do planeta. 

Ao preparar a apresentação refleti sobre os sentimentos que envolvem o amar. “Cisnes...” é um poema de amor. Amor. Palavra banalmente usada, todavia, guarda tamanha grandeza e plenitude, sendo quase impossível expô-lo através de palavras. Aliás, o amor não é dito. É apenas sentido. Vivenciado. 

Passei um tempo me perguntando por que o poeta incluiu reticências no título. De um modo geral, o autor se utiliza das reticências para expressar uma emoção forte ou indicar uma omissão de algo significativo que não quer ou nem mesmo consegue revelar. Em “Cisnes...”, caso o leitor passe despercebidamente pelo título, deixa de notar o portal à imaginação que esta pontuação sutilmente representa, deixa de mergulhar no sentimento de amar e experimentar as imagens, as sensações e os sonhos que podem surgir livremente. Ah, o amor suscita devaneios... E, por que não nos deixarmos levar pelas sensações que nos dão a vida? Júlio poderia estar sob fortes emoções amorosas ao compô-lo. E o leitor, certamente, ao perceber a sutilidade do título terá oportunidade de ir ao encontro dos próprios afetos. 

A beleza do soneto está na fidelidade, no compromisso que o amor suscita. Sim, quem ama se responsabiliza pela pessoa a quem se afeiçoa. É um sentimento que se sustenta na veracidade do sentir, na lealdade para com o parceiro, na constância do estar presente.  Caso o amor seja banalizado é porque este nobre modo de sentir inexiste ou quem o coisifica não conhece o seu significado. Quem ama sabe honrar o outro, vivencia um sentimento envolvente e sente vontade de experimentá-lo com merecimento.  

Quem vive ama! Amamos pessoas. Amamos animais. Amamos objetos. Amamos projetos. Amamos a nós mesmos. Amamos a natureza. Enfim, tudo e todos são passíveis de ser amados. E aí está o grande desafio que a vida nos apresenta: aprender a amar.  Quem se nega a amar ou se fecha ao amor, deixa de viver. Morre em vida, o pior modo de findar. 

Ontem, no lançamento, conversei com uma amiga, já idosa, que me disse ter sido feliz porque amou tudo o que teve e o que viveu. Que tudo o que fez foi consequência das suas opções. Ana Claudia Quintana Arantes em “A morte é um dia que vale a pena viver” nos disse que os momentos finais da vida revelam o modo como vivemos. Ou melhor dizendo, como vivenciamos o amor vida afora.

Fecho a coluna com o soneto “Cisnes...” para que os leitores possam viajar pelos meandros do amor.

A vida, manso lago azul algumas

Vezes, algumas vezes mar fremente,

Tem sido para nós constantemente

Um lago azul sem ondas, sem espumas...

 

Sobre ele, quando, desfazendo as brumas

Matinais, rompe um sol vermelho e quente,

Nós dois vagamos indolentemente,

Como dois cisnes de alvacentas plumas!

 

Um dia um cisne morrerá, por certo:

Quando chegar esse momento incerto,

No lago, onde talvez a água se tisne,

 

Que o cisne vivo, cheio de saudade,

Nunca mais cante, nem sozinho nade,

Nem nade nunca ao lado de outro cisne...

 

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Tanto já se falou de palavras

segunda-feira, 11 de abril de 2022
por Jornal A Voz da Serra

Hoje eu me dei o direito de escrever livremente, como uma gaivota que plaina
no ar, sem mistérios nem compromissos, em busca do prazer de voar com plenitude.
Tanto já se falou de palavras neste mundo cheio de cantos e aforas, e eu pouco delas
falei, entretanto muito delas usei. Sou grata às palavras porque por elas sou feita. As
palavras fazem meu texto, e eu os enfeito sinônimos e brinco com os homônimos. São
espaçosas e individualistas! Querem destaque nas frases, exigem estar separadas por

Hoje eu me dei o direito de escrever livremente, como uma gaivota que plaina
no ar, sem mistérios nem compromissos, em busca do prazer de voar com plenitude.
Tanto já se falou de palavras neste mundo cheio de cantos e aforas, e eu pouco delas
falei, entretanto muito delas usei. Sou grata às palavras porque por elas sou feita. As
palavras fazem meu texto, e eu os enfeito sinônimos e brinco com os homônimos. São
espaçosas e individualistas! Querem destaque nas frases, exigem estar separadas por
espaços e suscitam interação com todas as outras. São inteligentes e sabem passar a
perna, se revestindo de vários significados e sobrevivendo nas entrelinhas. São quase
delinquentes quando se escamoteiam nas cartas e discursos.
Ah, as palavras, como são débeis e doces! Nunca se espantam, apesar de
causarem tantos sustos, surpresas e assombros. Flutuar entre os ventos quando a bela
da tarde fecha a porta e vira a esquina. Nunca deixam de ser arremessadas contra a
parede quando desejam insultar e revelar verdades. Sempre têm a mansidão das
nuvens que vagam pelos céus quando saem da boca dos apaixonados.
Palavras são fáceis de se tocar e usar; a qualquer instante estão disponíveis.
Todavia não são vulgares, apesar de serem batidas e caírem ao chão com facilidade. Os
que sabem usá-las podem repeti-las em cadência dias a fio. São as donas do mundo
que regem o que tudo acontece em seus continentes e em suas terras frias. Contudo
poucos reconhecem o poder que possuem. São dominadoras e escravizam. São
parceiras e discretas. Sabem revelar os mais belos sentimentos como nenhum outro
gesto. Substituem os trejeitos, sendo capazes de realizar um propósito com mais
eficiência do que qualquer movimento.
São versáteis porque compõem poemas, bilhetes ou notas sem titubearem. São
a fonte da literatura. O escritor as utiliza, usando e abusando das possibilidades que
cada palavra lhe oferece. Além do mais, sobrevivem ao tempo e viajam pelos espaços.
Há palavras que são criadas nas emoções e, quando ditas, bem ou mal, ficam
vivas, até à eternidade. Não temem a morte porque são imortais. Mesmo que ninguém

as transporte em malas, só habitam nas cartas, periódicos e documentos.
Especialmente nos livros.
Cá entre nós, sempre foram mestras eficientes. Sem dúvida!

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Com amor, aos meus professores

segunda-feira, 04 de abril de 2022
por Jornal A Voz da Serra

Na semana passada, no Clube de Leitura Vivência, mais uma discussão
acalorada tomou conta de quase todo o encontro. Durante a leitura do conto
contido no livro “Sem Fantasia”, de Elisa Pereira, Venas Abiertas, 2020, uma
personagem que era professora foi denominada de “tia” pela protagonista. Eu
me senti tocada pela referência, até porque, durante a minha formação no
curso de Pedagogia, esta discussão se espalhava pelos corredores e salas de
aula da Universidade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro.

Na semana passada, no Clube de Leitura Vivência, mais uma discussão
acalorada tomou conta de quase todo o encontro. Durante a leitura do conto
contido no livro “Sem Fantasia”, de Elisa Pereira, Venas Abiertas, 2020, uma
personagem que era professora foi denominada de “tia” pela protagonista. Eu
me senti tocada pela referência, até porque, durante a minha formação no
curso de Pedagogia, esta discussão se espalhava pelos corredores e salas de
aula da Universidade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro.
Eu, particularmente, nunca concordei com esse modo de se referir ao
professor. O professor é um profissional que exerce a função de educar,
entendida como a atividade que reúne diferentes práticas pedagógicas
direcionadas ao pleno desenvolvimento do indivíduo em suas capacidades e
competências, à promoção do saber através de conhecimentos gerais e
específicos, ao aprofundamento de valores éticos relevantes à formação do
cidadão. O exercício da profissão tem nobreza e importância na construção de
contextos comunitários, regionais e nacionais. Não se faz uma nação sem
professores, indivíduos capacitados para ensinar por serem dotados de
saberes, competências e talentos em diferentes áreas das ciências e das artes.
Segundo Paulo Freire, educador referência para práticas de ensino e
aprendizagem, em seu livro “Professora sim, tia não: cartas a quem ousa
ensinar”, Estante Virtual, 2005, o educador é um formador de sujeitos, cujas
ações estão fundamentadas no respeito ao próximo e na construção de uma
sociedade igualitária. Todo o professor tem “responsabilidade ética, política e
profissional”. Para tal tem o “dever de se preparar, de se capacitar, de se
formar antes mesmo de iniciar sua atividade docente.”
A formação do professor é um dos cursos mais teóricos das Ciências
Humanas, realizada através de um currículo denso que reúne vários
conhecimentos oriundos das ciências humanas, biológicas e matemáticas, que
permite ao professor transitar com desenvoltura pelos saberes que estudam o
indivíduo e sua evolução, enquanto como pessoa interagente e sujeitado a um
contexto social, econômico, político e cultural.

Eu poderia seguir com diversas argumentações teóricas. Mas uma
pergunta pode resumir as indagações que a questão suscita: professor é tio?
O hábito de chamar o professor de “tio” surgiu na década de 60 como um
modo afetivo de acolher a criança na escola. De superar a postura rígida do
mestre. Mas, segundo o professor Maurício Apolinário, em seu artigo
“Professora “tia”: um ato falho da escola”, o vínculo entre o professor e o aluno
está na tarefa de ensinar, no processo ensino-aprendizagem. Qual a tarefa do
aviador? Do engenheiro? Do agricultor?
O professor é docente; tio é parente, pessoa que estabelece relações de
parentesco e de afeto com a criança. Os professores devem criar vínculos
afetivos com seus alunos e jamais poderão deixar de ocupar o status de
mestre. O nome determina quem a pessoa é. Segundo Apolinário, ao ser
chamado de tio, o professor corre o risco de perder ante os alunos sua
identidade docente, sua referência de ser professor e seu valor como mestre.
Quantas vezes escutei na rua alguém me chamar de modo pejorativo: “E,
aí, tia?” Tia se tornou qualquer um, desvalorizou e desrespeitou a pessoa do
tio.
Tive professores maravilhosos que me mostraram o mundo. Aprendi a
escrever com a Menga Lüdke, mestra exigente, que me corrigia nos erros mais
simples, e assim, pela sua postura de mestre, aprimorei minha escrita e entendi
que deveria me preparar, estudar, estar ao lado de escritores experientes que
me avaliassem e apontassem meus erros e acertos. Com ela aprendi a ter
humildade de perceber que o que escrevia poderia ser melhor. Hoje escrevo há
mais de vinte anos e ainda sou aprendiz, valorizo as críticas que recebo. Que
sou inacabada. Ao ser aluna da Menga conheci uma pessoa sensível,
esforçada e desejante de ser mais. A sua postura rígida só me enriqueceu. Em
nenhum momento eu me senti agredida por ela, mesmo quando, no primeiro
semestre do Mestrado, ela avaliou o trabalho do meu grupo como muito ruim e
nos ofereceu uma segunda chance. Todavia ela não só criticou, nos
acompanhou e conquistamos o conceito A.
Agradeço aos meus professores com todo meu reconhecimento e
respeito.

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Um sopro de Clarice

segunda-feira, 28 de março de 2022
por Jornal A Voz da Serra

Certa vez, fui ao Rio Grande do Norte à passeio. Durante as viagens de avião, ida e volta, que duraram umas três horas cada uma aproximadamente, li “Um sopro de Vida”, de Clarice Lispector.  Na época, eu estava começando a aprender a escrever, engatinhava, na verdade; mal conseguia ficar de pé. Esse livro me marcou por vários motivos. Primeiro porque foi a última obra que Clarice escreveu, tendo sido publicada após a sua morte.

Certa vez, fui ao Rio Grande do Norte à passeio. Durante as viagens de avião, ida e volta, que duraram umas três horas cada uma aproximadamente, li “Um sopro de Vida”, de Clarice Lispector.  Na época, eu estava começando a aprender a escrever, engatinhava, na verdade; mal conseguia ficar de pé. Esse livro me marcou por vários motivos. Primeiro porque foi a última obra que Clarice escreveu, tendo sido publicada após a sua morte. A seguir, porque a autora constrói a personagem Ângela Pralini, e como eu estava aprofundando meus entendimentos a respeito do perfil de personagem, tomei a leitura como um texto quase didático. Por fim, porque admirava a obra de Clarice e, para mim, é fruto de uma autora enigmática, inteligente que entendia como ninguém dos pormenores da vida, como “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro”. Ora, só quem elabora um conceito assim entende os meandros que permeiam as tantas “caras” que temos. “Uma é quase bonita, outra é quase feia. Sou um quê? Um quase tudo.”

Mas por que, hoje, estou trazendo Clarice aqui? Ah, se ela estivesse ainda conosco se sensibilizaria com a situação da Ucrânia - a escritora lá nasceu em 1920. Possivelmente estaria orgulhosa com a fibra e a coragem do seu povo, que não se rende, nem se curva.

Uma frase de Clarice me salta aos olhos, que tem a ver com a situação vivida pelo seu país de nascimento: “Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas, nem de grandes ventanias, pois eu também sou o escuro da noite.”

O ucraniano tem na coragem herança genética importante. Em todas as imagens que vi do êxodo daquela população, não observei desespero, nem recusa em sair do lugar onde vivia, tinha raízes e construiu seu destino. Percebi uma atitude brava, resiliente e corajosa. Os que ficaram estão lutando, inclusive os idosos. Os que partiram, provavelmente, irão voltar e reconstruir o país. 

Sou solidária aos refugiados e desejo uma rápida solução diplomática. Porém sinto vontade de conhecer melhor a história do leste europeu desde os seus primórdios. Para tal, vou buscar a literatura histórica, recurso relevante e disponível a todos. Porém um fato é de todo prevalente: a história do mundo foi feita através de lutas cruéis e exterminadoras. As civilizações, infelizmente, ainda não evoluíram o suficiente para resolver suas questões sem o embate sangrento e impiedoso.

Espero que esse violento conflito armado aponte para que os interesses políticos, geográficos e econômicos não fiquem sobrepostos à preservação da vida. 

E ainda sentindo os ventos de Clarice: “Quando puder sentir plenamente o outro estarei salva e pensarei: eis o meu porto de chegada”

A Descoberta do Mundo, editora Rocco, 1998

 

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Mais uma livraria que fecha as portas

segunda-feira, 21 de março de 2022
por Jornal A Voz da Serra

“Tudo muda, nada é para sempre”. Esta foi a frase que brotou no meu
pensamento quando soube que a Papelaria Arabesco irá fechar as portas em
breve. Durante anos a Arabesco, também livraria, nos ofereceu bons livros.
Inclusive os que escrevi foram por ela acolhidos e expostos cuidadosamente
em suas estantes.
Tudo se transforma neste mundo dinâmico. Quando um lugar de livros é
fechado, surgem tristeza e vazios carregados de lembranças. Certamente,
esse lugar de comércio será substituído por outro; soube que será uma
padaria, a Dona Emília.

“Tudo muda, nada é para sempre”. Esta foi a frase que brotou no meu
pensamento quando soube que a Papelaria Arabesco irá fechar as portas em
breve. Durante anos a Arabesco, também livraria, nos ofereceu bons livros.
Inclusive os que escrevi foram por ela acolhidos e expostos cuidadosamente
em suas estantes.
Tudo se transforma neste mundo dinâmico. Quando um lugar de livros é
fechado, surgem tristeza e vazios carregados de lembranças. Certamente,
esse lugar de comércio será substituído por outro; soube que será uma
padaria, a Dona Emília.
Engraçado que quando ando na Avenida Alberto Braune, a Arabesco me
é constantemente uma referência de lugar. Ou seja, antes ou depois, do
mesmo lado ou do outro da rua. Mas por que a Arabesco assim me parece?
Volta e meia pergunto aos meus botões, um tanto quanto intrigada. Agora,
escrevendo, consigo compreender os motivos: ela guarda algo que me atrai,
alimenta minha mente e espírito. Querendo saber dos meus livros, entrava lá e
acabava me perdendo em tantos outros, em diversos estilos literários. Não
resta dúvida que sempre me foi agradável ver minha obra exposta na parte
infanto-juvenil. Como a Arabesco sabia me fazer sentir acolhida e importante!
Vou guardá-la na lembrança de forma carinhosa e saudosa.
Desconheço os motivos da decisão de fechá-la. Pode haver sérias razões
e pessoais. Porém também sei que o mundo virtual está repleto de livros a
oferecer aos leitores. Eu, inclusive, uso com frequência o e-book; a cada dia
estou mais adaptada à leitura na tela. Aliás, já tinha lido artigos a respeito do
crescimento das bibliotecas e livrarias virtuais, que teriam potenciais para
preencher as necessidades dos leitores. Talvez porque ofereçam mais
praticidade aos usuários, principalmente os de idade escolar, seja para adquirir
livros, seja para guardá-los. Os livros virtuais, sem peso e volume, devem ser
considerados. Cada e-book comporta muitas estantes de livros.

A Arabesco é aquela loja simpática, aberta aos amantes de papelaria,
como eu, e aos leitores. É um lugar movimentado, com aquele cheiro de livro.
Ah, meus amigos, o livro tem um cheiro que vicia. Há leitores que abrem um
livro e põe-se a cheirá-lo. Confesso que cultivo tal hábito inexplicavelmente
prazeroso.
Quando ligo meu e-book não sinto nenhum cheiro, apenas vejo as
palavras surgirem no brilho da tela. Ora pois, seu uso e manuseio são frios,
rotineiros e nada atraentes. De fato, os textos me dizem o mesmo que os do
livro de papel, mas ainda não criei um hábito que me enterneça. Tenho
esperanças de que vou descobrir.
Pois bem, a vida é assim, segue seus rumos sem fazer consultas ou
perguntas; acontece e surpreende. Bom que aproveitei a Arabesco.
Aliás, a gente tem que desfrutar o que tem nas mãos porque, de repente,
antes do nascer do sol...

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