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As abelhas e nossos adiantes

segunda-feira, 25 de julho de 2022

Vivendo e aprendendo; lendo e descobrindo. Não se pode parar nem de
viver, nem de ler, uma vez que a vivência e a leitura são alimentos do corpo e
da alma que nos dão consistência e nos preparam para os passos que
daremos adiante.
Ora pois, não estamos vivos porque vamos adiante?
Muito bem. Para não fugir do tema, tendência que me faz desviar de
assuntos, vou, mais uma vez, aqui, me referir às fontes cristalinas da vida e da
literatura, nas quais é saudável que finquemos nossas raízes. São fontes

Vivendo e aprendendo; lendo e descobrindo. Não se pode parar nem de
viver, nem de ler, uma vez que a vivência e a leitura são alimentos do corpo e
da alma que nos dão consistência e nos preparam para os passos que
daremos adiante.
Ora pois, não estamos vivos porque vamos adiante?
Muito bem. Para não fugir do tema, tendência que me faz desviar de
assuntos, vou, mais uma vez, aqui, me referir às fontes cristalinas da vida e da
literatura, nas quais é saudável que finquemos nossas raízes. São fontes
constituídas por histórias. Sim, senhor!, das histórias existenciais e das criadas
literariamente. Da mesma maneira que a maior parte do nosso corpo é
composta de água, os modos como estamos na vida são estruturados por
ideias, e as ideias de palavras. Não é indicado bebermos em fontes de águas
poluídas de ideias precárias, confusas e distorcidas. As cristalinas dão
sustância à forma como imaginamos, percebemos e lidamos com a realidade.
Nada é mais agradável do que bebermos a água transparente de uma fonte, ou
mesmo nos banharmos num mar, onde seja possível ver as conchas
repousadas na areia.
E vejam só minha sede. Quase aos setenta anos, estou lendo “Os Três
Mosqueteiros”, de Alexandre Dumas, editado no século XIX, que me permitiu
fazer uma interessante descoberta: o autor se alimentou das ideias contidas
em “Dom Quixote de La Mancha”, publicada no início do século XVII, que conta
a história de um guerreiro idealista. Os “Três Mosqueteiros” e “Dom Quixote de
La Mancha” retrataram criticamente uma época, tendo a obra de Alexandre
Dumas um cunho história mais determinante.
Também autor do “O Conde de Monte Cristo”, o escritor francês compôs
histórias belamente elaboradas, capazes de prender o autor de qualquer idade,
sexo e nacionalidade. Certamente porque mergulhou em obras de outros
autores que escreveram com maestria. O talento existe, sem dúvidas, mas os
literatos que permaneceram vivos e atuais foram exímios leitores e estudiosos.

Assim é a vida. Será que vamos sobreviver com dignidade caso nos
adiantarmos à toa? O sociólogo Emile Durkheim constatou que as gerações
mais velhas preparam as mais novas para a vida, são fontes a serem
absorvidas por aquelas gerações que ainda não estão capacitadas para o
porvir. As experiências de vida e de leitura podem nos oferecer riquezas a
ponto de nos apoiarem em cada uma de nossas realizações.
Por isso estou lendo “Os Três Mosqueteiros” e aproveitando ao máximo
a narrativa, em cada parágrafo, em cada passagem. Dumas, como Cervantes,
construíram a realidade ficcional com riqueza de detalhes, penetraram no
âmago dos personagens, escreveram criativamente as cenas.
Ao escrever e viver, podemos tomar as abelhas como um bom exemplo.
O fazer do mel não é simples, é trabalhoso e resultado de um delicado
processo de elaboração. As abelhas buscam exatamente as flores que possam
lhes oferecer o néctar de qualidade. Depois de coletá-lo, misturam-no com
duas substâncias secretadas de duas glândulas situadas em suas cabeças, a
invertase e a glicose oxidase. Então, várias reações químicas transformam o
néctar em glicose e frutose, além de torná-lo ácido, impedindo a fermentação.
As abelhas agitam as asas para secar a água presente, desidratando o mel e
matando outros micro-organismos prejudiciais. Finalmente, produzem o mel,
um dos mais nobres e saborosos alimentos.
Não quero ser abelha, nem Dumas, tampouco Cervantes. Quero ser
Tereza, capaz de construir a vida com dignidade e deixar minha obra viva.
Aí, morro em paz!

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Adeus

segunda-feira, 18 de julho de 2022

Estou lendo o romance “Muito Além do Infinito”, obra da escritora inglesa
Jill Mansell. A história nos mostra, através de uma narrativa leve e delicada, os
diferentes processos de elaboração do luto, ao expor os sentimentos da
esposa, do pai e do amigo de Jamie, personagem falecido num acidente de
carro no início da história.
Todos nós vivenciamos o luto que pode ser breve, como se estender por
um tempo mais longo. Inclusive, cada pessoa vivencia a perda de um ente de
uma forma particular, dependendo do elo afetivo que estabelece com ele. A

Estou lendo o romance “Muito Além do Infinito”, obra da escritora inglesa
Jill Mansell. A história nos mostra, através de uma narrativa leve e delicada, os
diferentes processos de elaboração do luto, ao expor os sentimentos da
esposa, do pai e do amigo de Jamie, personagem falecido num acidente de
carro no início da história.
Todos nós vivenciamos o luto que pode ser breve, como se estender por
um tempo mais longo. Inclusive, cada pessoa vivencia a perda de um ente de
uma forma particular, dependendo do elo afetivo que estabelece com ele. A
forma como o luto se processa está relacionada com a história de vida, a
cultura e a religião.
Durante a leitura, os processos de luto dos personagens me foram
comoventes porque lembrei das pessoas que tanto amava, os meus avós e o
meu filho. Não gosto de despedidas definitivas, mesmo as que considerei
serem necessárias.
Em diversos momentos, li ou escutei que a morte é essencial porque a
eternidade nos é insuportável, apesar de falarmos comumente a expressão
“para sempre”. Foi um conceito que até hoje, inclusive aqui, nesta coluna,
esforço-me para apreender. Aliás, só podemos entender a vida e aceitarmos o
findar, através de uma compreensão lógica e simples da existência: nascer,
crescer e morrer. Somos assim, cíclicos, tal qual os sistemas solares do
universo. Não somos seres de ficção, tão poderosos ao tempo.
Entendo que tudo seja mutante, e que a proposição “na natureza nada se
cria, nada se perde, tudo se transforma”, do químico Lavoisier, guarde uma das
maiores sabedoria do planeta, onde nada se perpetua. Tudo é efêmero. Ah,
como Saint-Exupéry sabia disso ao escrever o “O Pequeno Príncipe”.
Jill Mansell, em sua obra, esforçou-se para mostrar as dores da perda e
seus modos de superação. O luto é triste. Hoje tanto se fala de angústia,
depressão, agonia, mas pouco se fala de tristeza. Nos meios virtuais de
interação, a alegria impera. A tristeza, como tudo na vida, tem começo, meio e

fim. O estar triste é saudável e faz parte do existir, desde que não seja um
estado emocional permanente. Tem força para transformar os modos de estar
e conviver. A tristeza pode ser dolorosa, mas não significa desesperança.
Durante a elaboração do luto, trazemos as pessoas que se ausentaram
em sua concreticidade real para os abstratos âmbitos da memória. A
elaboração dos sentimentos de abandono, solidão, saudade, culpa, dentre
outras sensações desagradáveis, faz-se necessária para que o enlutado
encontre formas de lidar com eles. Ninguém deleta dos seus afetos uma
pessoa que amou e partiu, mesmo que a morte não seja a causa da ausência.
A vida continua e tem que trazer bons momentos, motivações e vontade de
amanhecer para um novo dia.

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Um lugar cheio de palavras chamado Vilma Spitz

segunda-feira, 11 de julho de 2022

Tive o prazer de ser convidada para a inauguração da biblioteca da
Escola Municipal Juscelino Kubitschek de Oliveira, que ocorreu no dia 02 de
julho de 2022, no bairro de Varginha, em Nova Friburgo. Foi numa manhã de
sábado ensolarada de inverno. A escola, recentemente inaugurada, que
substituiu o prédio antigo, estava imponente na ladeira tal qual uma rainha.
Quando cheguei havia um movimento de pessoas na porta, carros subindo e
descendo a rua; a descontração reinava no lugar. Como a sensação que tive

Tive o prazer de ser convidada para a inauguração da biblioteca da
Escola Municipal Juscelino Kubitschek de Oliveira, que ocorreu no dia 02 de
julho de 2022, no bairro de Varginha, em Nova Friburgo. Foi numa manhã de
sábado ensolarada de inverno. A escola, recentemente inaugurada, que
substituiu o prédio antigo, estava imponente na ladeira tal qual uma rainha.
Quando cheguei havia um movimento de pessoas na porta, carros subindo e
descendo a rua; a descontração reinava no lugar. Como a sensação que tive
era de que estava chegando a uma festa, um ímpeto de felicidade tomou conta
do meu peito na medida em que eu me aproximava e pensava que aquele
evento era para festejar uma sala de leitura, onde alunos e professores possam
sentir o prazer de ter um livro nas mãos, viajar com as histórias e adquirir um
novo olhar para o quotidiano; o livro abre portas e descortina horizontes.
Quando adentrei o salão, os alunos e professores cercavam uma mesa
composta pelo Prefeito da cidade, Johnny Mycon, e sua esposa, a Secretária
Municipal de Educação, Caroline Moura Klein, a Diretora da Escola, Vilma
Spitz, a Coordenadora da Biblioteca da Secretaria de Municipal de Educação,
Márcia Machado, e outras autoridades. Durante a cerimônia, a alegria dos
guerreiros foi a dama de honra; cada sala de leitura inaugurada é uma
conquista, um passo à frente que nosso Brasil dá para se tornar um país de
leitores.
Naquele evento, mais um fato foi motivo de saudação, o nome da
biblioteca homenageava a diretora da escola, Vilma Spitz, pessoa que se
dedicou ao trabalho escolar ao longo de anos com amor e zelo. Pessoas assim
precisam ficar na memória do lugar, onde participaram da sua construção,
superando dificuldades com esforços, realizando propósitos com altruísmo e
cumprindo missões de vida.
Ainda, naquela cerimônia, doei meus livros à biblioteca, sentindo orgulho
de ser escritora e elaborar textos preocupada com a dignidade do viver.

Quando entrei na sala de leitura, depois da cortina ser descerrada, vi um
lugar cuidado, feito com criatividade, carinho e bom gosto. Um ambiente
aconchegante e atraente, daqueles que a gente chega, se esparrama, relaxa,
pega um livro e perde a noção do tempo.
Ao observar as estantes, tive a surpresa de ver meu livro, “Um
Esconderijo Atrás da Minha Franja Torta”. Ah, não há situação mais
empolgante para um escritor do que ver sua obra à disposição de leitores.
Além de tudo, encontrei bons amigos, com os quais troquei palavras,
abraços e sorrisos. Voltei para casa alimentada, com o resto do dia cheia de
recordações, projetos e vontade de escrever mais.
Dewey tinha razão quando disse que a educação não é preparação para
a vida. É vida e mais vida!

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A literatura e seus elos de afeto

segunda-feira, 04 de julho de 2022

Sim, a literatura une as pessoas.
Hoje vou relembrar as experiências afetivas que a literatura me
proporcionou. Quando resolvi me tornar escritora, conclui que precisava de um
aprendizado sistemático e procurei oficinas de literatura.
A primeira foi numa padaria, da qual esqueci o nome, um lugar de dois
andares, que tinha um salão para eventos. Soube que havia ali um encontro
semanal de pessoas que queriam escrever, organizado pela escritora Virgínia
Cavalcanti. Ali me encantei com a proposta e com as pessoas. Logo depois, a

Sim, a literatura une as pessoas.
Hoje vou relembrar as experiências afetivas que a literatura me
proporcionou. Quando resolvi me tornar escritora, conclui que precisava de um
aprendizado sistemático e procurei oficinas de literatura.
A primeira foi numa padaria, da qual esqueci o nome, um lugar de dois
andares, que tinha um salão para eventos. Soube que havia ali um encontro
semanal de pessoas que queriam escrever, organizado pela escritora Virgínia
Cavalcanti. Ali me encantei com a proposta e com as pessoas. Logo depois, a
maioria delas foi abandonando os encontros, e, os poucos que permaneceram,
eu inclusive, fizeram um grupo de escrita, que foi produtivo por muitos anos. De
encontro a encontro, o amor que sentimos pela literatura foi sendo transmitido
para nós e construímos afinidades especiais.
Naquele grupo concluí que gostava de escrever para crianças, que tinha
criatividade para inventar histórias infantis e personagens. E não é que lá
surgiu o Labareda? Ele, meu primeiro personagem, um cachorro que pensa, foi
adotado pelas minhas companheiras de oficina. O Laba, para os íntimos, teve o
privilégio de chegar ao mundo da ficção cercado dos cuidados de pessoas
reais. E, assim, de conquista em conquista, foi intitulado “Um Cão Cheio de
Ideias”, lançado pela Paulinas editora.
Por causa do Labareda fui em busca de uma oficina para crianças e
jovens. Na Estação das Letras fiz outro grupo de amigas, do qual fiz parte por
mais de dez anos. A nossa professora, Anna Cláudia Ramos, escritora de livros
infantojuvenis, além de nos apresentar a literatura infantojuvenil e ensinar a
escrever, corroborou para que fizéssemos bonitos elos de amizade. Inclusive
lá, além do meu Labareda ter ganho uma madrinha, a Dani, nasceu com força
e personalidade.
Mesmo depois da oficina ter finalizado, demos continuidade ao trabalho
da Anna e continuamos a nos encontrar até hoje. Inclusive, estamos para
marcar um encontro no mês que vem.

Como escrevia para crianças e jovens, considerei que deveria escrever
com humor, apesar de não conseguir fazer ninguém rir. O humor tem leveza, é
uma escrita sutil e explora pormenores. Fizemos um grupo na casa da Tetê por
quase vinte anos. Tornamo-nos uma família. Tínhamos um pai, o “Professor
Pardal”, o escritor Márcio Paschoal, que cuidava da nossa escrita e de nós sem
parcimônias. E a gente escrevia, escrevia sem parar. E a gente se divertia. E a
gente se gostava como irmãos. Eu não faltava aos encontros semanais,
sempre às quartas-feiras. Até hoje nosso “Professor Pardal” continua a nos
abrigar, a nos corrigir no processo criativo de escrita e a nos unir. Nossa oficina
está viva, ainda às quartas-feiras, faça chuva, faça sol, porém de modo virtual.
Confesso que é um grupo que marca a minha vida de modo profundo, apesar
de hoje a maioria ter seguido caminhos diferentes. Nosso gosto pela literatura e
por nós foi tanto que fizemos um jornal, “A Marmota”, e escrevemos três
coletâneas. Até com o professor escrevi o “O Livro Maluco e a Caneta sem
Tinta”, um livro passeador e que está a caminho da segunda edição.
Em Nova Friburgo, a cidade literária em plena mata Atlântica, como fiz
amizades! Amizades eternas que nasceram na Academia Friburguense de
Letras, da qual sou acadêmica com grande orgulho, nos Clubes de Leituras e
no grupo de escritoras Juntas @ Diversas. Na semana passada lançamos o
quinto livro da coletânea. Pelo livro, por nós, e pela amizade que nos une,
tivemos um momento cheio de simplicidade e calor humano.
Como foi importante receber o respaldo de amigos com os quais tenho
interagido continuamente. Nós nos ajudamos a crescer como escritores e a
amadurecer como pessoas. O mais importante é a admiração mútua e o
respeito pelas diferenças individuais que nos une e alimenta. São amizades
que velam a palavra, enquanto expressão do viver, e que tendem a se manter
pelo simples gostar.
Eu me tornei outra pessoa depois que comecei a escrever, não somente
pela literatura, mas pelos amigos que iluminaram os bosques que adentrei.

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A dignidade das estantes de livros

segunda-feira, 20 de junho de 2022

Ora vejam só essa! Aconteceu recentemente. Este ano, em meio a uma sessão
de trabalho virtual, uma estante de livros feita de papelão, que compunha a parede de
fundo da sala de um desembargador, desabou. O nobre jurista se levantou e ergueu-a
com tranquilidade e sem esforço algum.
Gostaria de deixar que o leitor tire suas conclusões.
Entretanto quero expressar meu indignado espanto, que é tanto que nem sei
que palavras vou encontrar para continuar a escrever a coluna. Coisa mais bizarra

Ora vejam só essa! Aconteceu recentemente. Este ano, em meio a uma sessão
de trabalho virtual, uma estante de livros feita de papelão, que compunha a parede de
fundo da sala de um desembargador, desabou. O nobre jurista se levantou e ergueu-a
com tranquilidade e sem esforço algum.
Gostaria de deixar que o leitor tire suas conclusões.
Entretanto quero expressar meu indignado espanto, que é tanto que nem sei
que palavras vou encontrar para continuar a escrever a coluna. Coisa mais bizarra
pode haver? Por que uma pessoa que ocupa um cargo “importante para o bem-estar
da sociedade” decide usar uma estante de livros falsa para aparentar ser uma pessoa
culta, civilizada e instruída de conhecimentos? De fato, quem o é possui elegância
natural e tem charme para expressar suas ideias; é iluminado pela sabedoria. Não
precisa de subterfúgios, nem criar situações enganosas para se mostrar digna de
respeito. As aparências... sempre enganam. Por que não colocou atrás de si um
emblema, uma paisagem ou mesmo um fundo de cor discreta? Ora pois sim, seria
poupado do ridículo.
Quando pequena, fui a um apartamento, onde havia uma sala grande com
móveis bonitos e uma estante, que ocupava toda a parede lateral, com livros bem
arrumados, do mesmo tamanho, cujas lombadas tinham cores vibrantes e letras
douradas. Impecável. Devo ter ficado algum tempo com os olhos fixos na estante,
pensando sobre aqueles livros e as pessoas que os liam.
As voltar para casa, observei a estante ao fundo do corredor, sentindo alguma
decepção. Os livros não estavam dispostos exatamente um do lado do outro nem
tinham o mesmo tamanho. Alguns estavam, inclusive, deitados e sobrepostos. Uns
eram mais novos, outros exibiam lombadas envelhecidas. Uns nem as tinham. Ainda
havia uma prateleira minha, com livros infantis e revistas em quadrinhos não
totalmente arrumadas.

Confesso que todas as vezes que olhava para a estante do corredor da minha
casa, eu me lembrava daquela estante que parecia nunca ter sido tocada.
O tempo passou. Cresci. Gostei de ler e conheci o valor dos livros.
Um dia, felizmente, constatei que aquela estante do apartamento que visitei
quando criança era uma cilada aos ingênuos, como eu, que tinha a finalidade de
sugerir que naquele apartamento moravam pessoas importantes, que guardavam
conhecimentos que a maioria das pessoas não possui.
Sem mais palavras...

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As águas que navegamos

segunda-feira, 13 de junho de 2022

Navegar é preciso para sermos únicos e deixarmos nossos registros pelos
caminhos que passamos.

***

Navegar é preciso para sermos únicos e deixarmos nossos registros pelos
caminhos que passamos.

***

Estamos lendo no Clube do Livro Vivências o livro “Correnteza”, de
Adriana Falcão, da Ventania Editorial, publicado em 2021. O romance traz ao
enredo a interação de quatro mulheres de gerações diferentes, interligadas por
laços familiares, vivendo momentos de vida distintos. Bisavó, avó, mãe e filha.
Do presente ao passado, cada uma delas constrói a vida em contextos
culturais próprios, sendo que o da última geração integra e desintegra as
relações humanas, afetivas e culturais entre elas. São quatro tempos em um
só, em conflitos de emoções, incompreensões e identidades entre os modos de
viver e o findar, no sentido mais figurativo da expressão.
E aí, nós leitoras, mergulhamos num debate amplo, até porque somos
mulheres. Vou falar por mim. Mas acredito que minhas conjecturas perpassem
o pensamento do grupo. Do adolescer ao envelhecer, ninguém escapa dos
processos de transformação que sofremos ao longo dos anos. Sim, senhor,
todos nós vamos morrer. Será que devemos nos deter a isso? Ou pensar nos
modos como estamos vivendo cada dia, com todos as perdas, conquistas e
desafios. Para quem a vida é fácil? Ora pois...
Posto que, hoje, estamos também inseridos num mundo mutante, dado
que os referenciais mudam. A cada instante. Quero reafirmar que as
correntezas da vida nos fazem surfar a primeira onda mais de uma vez por dia.
O que nos desafia a reconstruir a identidade individual constantemente e a
desenvolver prestezas inéditas. “Quem sou?”, “O que e como fazer para ser?”.
O mundo nos impõe muitos “Tu és!”. A começar pela identidade sexual que nos
exige a definição de gênero. E quantos são? Mais de trinta. Ufa! Quanto tempo
o sujeito, que sujeitado somos a tudo e a todos, precisa para se definir? Não
sei... Será uma definição tranquila, sem conflitos? Ou um processo sofrido?
Será preciso experimentar quantos gêneros se somos seres de experiências?

Fora isso o que é preciso desvendar num mundo em que o real e o virtual
se confundem e se interagem como se estivessem no mesmo plano? Ou seja,
somos dois em um. A criança engatinha com um computador nas mãos,
misturando os sentimentos reais com os virtuais e, desde a mais tenra idade,
vive a intermitência entre a perfeição e a imperfeição. O que há de verdade? O
que há de certo ou errado?
E os valores humanos? Ah, será que os valores estão submetidos ao
conceito imediatista de felicidade? Zygmunt Balmam foi brilhante ao conceituar
“Modernidade Líquida” em que os conceitos e os valores tendem a ser
evaporados com facilidade na realidade concreta.
Nosso destino é feito de fluxos e refluxos, passamos por várias correntes
e contracorrentes.
Quem não passa a vida aprendendo a lidar com suas águas doces e
salgadas?

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Zuleica!

segunda-feira, 06 de junho de 2022

A coluna da semana passada me enterneceu. Aliás todas que escrevo me sensibilizam, mas essa me foi especial porque retornei a um tempo em que guardei belas recordações afetivas. Hoje, acordei envolta pelo modo de sentir a vida de uma personagem, Zuleica, uma mosca cor-de-rosa-choque que criei no livro, “Um Cão Cheio de Ideias”. Ela sobrevoou meus pensamentos. Quando fiz a adaptação do texto para o teatro com a diretora Mônica Alvarenga, ela borboleteava e cantarolava:

                        “Vida, vida bela

       Não se deve estragar ela

A coluna da semana passada me enterneceu. Aliás todas que escrevo me sensibilizam, mas essa me foi especial porque retornei a um tempo em que guardei belas recordações afetivas. Hoje, acordei envolta pelo modo de sentir a vida de uma personagem, Zuleica, uma mosca cor-de-rosa-choque que criei no livro, “Um Cão Cheio de Ideias”. Ela sobrevoou meus pensamentos. Quando fiz a adaptação do texto para o teatro com a diretora Mônica Alvarenga, ela borboleteava e cantarolava:

                        “Vida, vida bela

       Não se deve estragar ela

       A gente cuida dela

       Para ela ficar bela”

Criei a Zuleica, talvez, porque tenha constatado que na medida em que adentrava os anos, a experiência ia me fazendo conquistar a sabedoria para interpretar os fatos e tomar decisões. É como se aprendesse a viver, compondo música, poesia e prosa. Em todos os momentos não podia ou não queria perder a oportunidade de sentir a beleza da vida. Ora pois, o viver não tem o melhor das artes?

O fazer arte não tem receitas e sua beleza está em reunir elementos distintos: os sonhos e os medos, as alegrias e as dores, os ganhos e as perdas, as surpresas e as desesperanças, as ideias sensatas e estapafúrdias, as taças de vinho e os copos de água, as feijoadas e os sanduíches, a fome e a sede, o prazer e o desprazer. Tudo se mistura. Tudo se junta. Tudo se separa. As vírgulas, os pontos e os acordes interagem com harmonia e sem regras. Eis, aí, a beleza que se vai construindo no dia a dia, na completa imperfeição e na totalidade da vontade de viver mais um amanhecer. 

Zuleica poderia ter a cor escura das moscas, mas decidiu se vestir de cor-de-rosa-choque. Não ficou pretenciosa nem arrogante pelo seu charme. 

                             “Beleza não põe mesa. Lá, lá, lá... 

                              O feio, bonito você pode achar. Lá, lá, lá... 

                              Lindeza não diz nada. Lá, lá, lá...” 

Tenho a impressão de que estou aqui, nesta vida, para aprender a viver, a amar e a ser eu mesma, fazendo uso da liberdade que vou conquistando de momento a momento. 

Ufa, que propósitos mais difíceis são estes!?

                    Se não for assim, 

tudo fica sem graça...

Por isso a vida é bela...

Agora, relendo o texto em prosa, percebo que ela me foi mais do que uma personagem, foi uma deidade que saiu do arco-íris para me trazer ideias interessantes. Coisas da literatura!


 

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Minha amiga, seus óculos e meus anéis

sábado, 28 de maio de 2022

Quem não gostaria de que alguns momentos vividos se tornassem eternos? Ah, tudo finda. Noutro dia pensei no que iria acontecer com meus anéis quando eu morrer. Os momentos significativos têm simplicidade e acontecem tão naturalmente, muitas vezes são surpreendentes. A última estrofe do soneto de Vinícius de Moraes, “Soneto de Fidelidade”, me acompanha todas as vezes que sinto felicidade. 

“Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.”

Quem não gostaria de que alguns momentos vividos se tornassem eternos? Ah, tudo finda. Noutro dia pensei no que iria acontecer com meus anéis quando eu morrer. Os momentos significativos têm simplicidade e acontecem tão naturalmente, muitas vezes são surpreendentes. A última estrofe do soneto de Vinícius de Moraes, “Soneto de Fidelidade”, me acompanha todas as vezes que sinto felicidade. 

“Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.”

A vida é feita de momentos. A sabedoria está em sermos capazes de perceber a essência das coisas nas situações corriqueiras. Senti-las. Querer experimentá-las mais uma vez. Confesso que adoro música, chego até a considerá-la como uma pessoa que me faz companhia quando estou sozinha. Quando gosto de uma música posso escutá-la todos os dias sem me cansar. Ou da companhia de um amigo, escutar sua voz, sua risada. Como conversar com minha amiga de infância, Maúde. A gente nem precisa se falar, o olhar é suficiente. Como nós nos fazemos bem! Ou mesmo admirar um livro que idealizei, ler os trechos que escrevi e fiz a edição dele por inteiro.

 Parece-me que sentir a eternidade do instante é decorrência do amor com que vivemos o momento. O amor tem quatro letras poderosas, que nos faz viver o dia a dia de modo especial.  

Há quem ache fácil viver com mesmice, tornando os dias “clichês”. Porém o melhor passe é aprender transformar a banalidade em originalidade. Vinícius nos dá uma aula de como agir de modo único e inovador na primeira estrofe desse seu mesmo soneto:

“De tudo, ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento.”

Concordo. É mais difícil, trabalhoso e cansativo viver cuidando do que gostamos. Ora pois sim, ser dedicado é ter a heroica disposição para realizar tarefas, deveres e desejos. É amar a vida porque quando partimos deixamos nossas gavetas cheias, como poetou Fernando Pessoa. Por isso gosto de olhar meus anéis e recordar com minha amiga os tantos inesquecíveis momentos que compartilhamos, como o galeto de frango que comemos em Petrópolis, roendo os ossos e lambemos os beiços. O que conversávamos ficava entre nós, os nossos guardados. Agora estou escrevendo esta coluna com ela pacientemente escutando minhas reflexões, leituras e dúvidas, mesmo de modo virtual, através de uma ligação de vídeo pelo WhatsApp. Que momento eterno!  

E o soneto de Vinícius continua a me enriquecer.

Quero vive-lo em cada vão momento

E em louvor hei de espantar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento.”

No dia certo, vou pedir à minha amiga para guardar meus anéis! Ou quem sabe ela, seus óculos.

“E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama”

 

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Um diamante que está deixando de brilhar

segunda-feira, 23 de maio de 2022

Um debate no Clube Leitura Vivências me despertou para as festas juninas. O que está acontecendo com elas? Eu me perguntava na medida em que me reportava à infância e delas me recordava através de saudosas lembranças. Conforme ia pesquisando e desvelando o tema, reencontrei um diamante que está deixando de brilhar.

Um debate no Clube Leitura Vivências me despertou para as festas juninas. O que está acontecendo com elas? Eu me perguntava na medida em que me reportava à infância e delas me recordava através de saudosas lembranças. Conforme ia pesquisando e desvelando o tema, reencontrei um diamante que está deixando de brilhar.

Cada vez mais raras, essas folclóricas e populares comemorações estão ficando no passado, dando espaço para as eletrônicas e suas brincadeiras substituídas por troca de mensagens nos celulares. São tais transformações, como tantas outras, que fizeram com que Ferreira Gullar deixasse de se espantar e poetar.

Extraviei-me no tempo

Onde estão meus pedaços?

                                           (“Extravio”, Ferreira Gullar)

***

E vai findando maio, num rápido passar dos dias. E vem chegando junho, tempo festeiro e gostoso de viver! Do dia 13 a 29, o mês fica movimentado pelas comemorações dos santos populares, Antônio, dia 13, João, dia 24, e Pedro, dia 29. É um tempo enfeitado pela alegre criatividade com que se organizam e realizam os “arraiás”. Desde os preparativos até as comemorações, a literatura, especialmente a infantil e a poesia contida nas letras das músicas juninas, dá um toque lúdico, através de delicadas e cuidadas palavras que contam o acontecer das festas, também enriquecidas pelas danças, brincadeiras, balões e roupas. E, principalmente, pelo divertido encontro entre pessoas de todas as idades e culturas.

“Capelinha de Melão 

é de São João.

É de cravo, é de rosa, é de manjericão”.

                           (“Capelinha de Melão”, de João de Barro e Adalberto Ribeiro)

 

As festas vêm de longe. Há muitos e muitos anos, surgiram no tempo em que as bruxas, os duendes e as fadas andavam pelos campos e repousavam nas raízes das árvores, lá no hemisfério norte, na passagem da primavera para o verão. Nesse dia, o mais longo do ano, 24 de junho, as pessoas se reuniam para celebrar a fertilidade da terra e desejar boas colheitas dos cereis plantados, como o milho. Esses eventos aconteciam em torno da fogueira, símbolo característico dos festejos, que protegia as terras dos maus espíritos que atrapalhavam a prosperidade das plantações.

Quando olhei a terra ardendo

Qual fogueira de São João

Eu perguntei a Deus do céu, ai

Por que tamanha judiação”

           (“Asa Branca” de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga)

 

As festas, carregadas de simbolismos, nasceram nas culturas populares de regiões de vários países e mostram as crenças dos povos. Como tudo se mistura nas comemorações juninas, as festas são ricas de significados. As quadrilhas, por exemplo, eram comuns nos salões franceses, ou “quadrille”, porém tiveram sua origem nas tradicionais festas dos camponeses ingleses. O vestuário das moças, lindos vestidos armados, rodados e enfeitados, representam a riqueza da corte francesa. Os passos sempre puxados por expressões, alguns traduzidos do francês, como “para trás” (anarrié) e “para frente” (avancer).

“Pra dançar quadrilha no sertão é mais mió

sanfoneiro e violeiro tomam conta do forró

não precisa de orquestra pra animar a festa

o fungado da sanfona vai-se até o nascer do sol”

(“Piriri”, de Luiz Gonzaga)

 

Para o catolicismo se consolidar como a principal religião do continente europeu, as comemorações juninas foram incluídas em seu calendário para melhor conversão dos povos pagãos. Tempos depois, já populares na Península Ibérica (Portugal e Espanha), foram trazidas para o Brasil durante a colonização.

 

Cai, cai balão

Aqui na minha mão

Não cai não, não cai não, não cai não

Cai na rua do sabão

                             (“Cai, cai, balão” de Assis Valente)

 

Obs: O solstício é um evento astronômico. Sendo a Terra dividida em dois hemisférios, norte e sul, o solstício de verão ocorre quando um desses hemisférios está o máximo possível voltado ao sol e recebe a maior incidência de raios solares, ficando, portanto, mais aquecido e fazendo o dia o mais longo do ano. O solstício de inverno ocorre simultaneamente no outro hemisfério, que recebe os raios solares com menor intensidade, ficando menos aquecido e sendo o dia mais curto do ano. Os solstícios de verão e de inverno marcam o início das respectivas estações do ano em cada hemisfério.

 

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Lendas Urbanas

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Durante a oficina literária, da qual participo semanalmente, há uns vinte anos, Pablo, antigo companheiro de escrita, escreveu um conto de memória sobre lendas urbanas em que aborda o tema de modo bem-humorado. Como nunca havia escrito a respeito nesta coluna literária, resolvi me debruçar sobre o assunto que corre sorrateiramente pela cidade, principalmente em universidades, escolas e instituições. Onde moro, na Fazenda Bela Vista, há tempos, corriam de boca em boca as histórias das Três Freiras e a do João Cocó que virava lobisomem.

Durante a oficina literária, da qual participo semanalmente, há uns vinte anos, Pablo, antigo companheiro de escrita, escreveu um conto de memória sobre lendas urbanas em que aborda o tema de modo bem-humorado. Como nunca havia escrito a respeito nesta coluna literária, resolvi me debruçar sobre o assunto que corre sorrateiramente pela cidade, principalmente em universidades, escolas e instituições. Onde moro, na Fazenda Bela Vista, há tempos, corriam de boca em boca as histórias das Três Freiras e a do João Cocó que virava lobisomem. Cá para nós, o nome do personagem João Cocó é bom demais! Faz a gente viajar. Literatura é isso, um passaporte ao mundo da fantasia.   

As lendas urbanas são narrativas breves de caráter fabuloso, alarmista ou sensacionalista que compõem a oralidade social. De acordo com Saulo Gomes Thimóteo, “Toda pessoa, independentemente de sua origem, crença ou formação, desenvolve-se em torno de narrativas”. São histórias gestadas no imaginário popular, que mesclam elementos fantásticos com lugares específicos, como salas de aula, ruas, trevos, metrô, dentre tantos outros. Em Nova Friburgo, a Fonte do Suspiro foi cercada de feitiços e lendas. Uma delas narrava que aquele que bebesse das suas águas a elas se prenderia por toda a vida. Outra contava que suas águas recuperavam a saúde, consolavam os tristes, fortaleciam os fracos e encorajavam os vivos.  

Quem não precisa de magia para se inserir na vida quotidiana? 

A literatura nasceu com a oralidade das lendas, das fábulas, das histórias cotidianas que foram passadas de geração em geração até o surgimento da edição gráfica dos livros no século XV. A necessidade de a pessoa dialogar com a vida quotidiana é fundamental para sua interação com o ambiente. Nesse intercâmbio há aspectos desconhecidos e sem explicação lógica que criam temor, impaciência e inquietude. São nesses âmbitos que surgem as lendas, nas quais não se sabe se aconteceram ou não. Por outro lado, criam suspense e curiosidade. Podem acabar sendo orientadoras de comportamentos, como não se deve andar à noite em lugares desertos, como os pais avisavam aos filhos para não voltarem tarde da noite para casa por causa das “Três Freiras”. Ou mesmo a lenda da “Loira do Banheiro” que não deixava de ser uma maneira eficiente de evitar que as crianças ficassem muito tempo no banheiro das escolas. Ou a do “Homem da Agulhas”, lenda que corre mundo afora e alerta sobre o risco do contágio através de seringas. Uma lenda urbana que comumente muito se popularizou é a de que um vírus foi criado propositalmente em laboratório.

Há lendas urbanas clássicas que ressurgem de tempos em tempos e tornam-se adaptadas aos contextos social, histórico e cultural. De todo o modo, expressam a incapacidade de entendimento sobre fatos da vida, como a morte, a doença, o poder, a insegurança que são compartilhados através de narrativas que relançam saberes populares. Além do mais impulsionam a relação entre pessoas, ou seja, as lendas mobilizam grupos de conversa que contam e recontam narrativas, seguidos de inesgotáveis comentários.

Quem ainda não se impressionou ou foi tocado por uma lenda? 

 

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