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As gentilezas do gostar

Tereza Cristina Malcher Campitelli
Momentos Literários
Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.
Sou encantada com o “O Pequeno Príncipe” desde que comecei a escrever. Lendo o texto como aprendizado e incentivo à escrita, fui tomada pela impressão de, a cada página, abrir um baú de guardados cheios de esperança e vida, mensagens que temos de cuidar para usar em cada momento do dia. Quando li o capítulo em que o principezinho conhece e conversa com a raposa, entrei em contato com a gentileza do gostar.
A palavra gentileza nos traz um sentimento de delicadeza e leveza. O gostar não é banal e nem se perde na corrida diária; vai se transformando ao longo do tempo de acordo com os cuidados que temos com as relações afetivas. A espontaneidade do sentimento o aprofunda com a preocupação que se tem com a pessoa de quem gostamos. Pode ser também um animal, a casa onde moramos, até mesmo os móveis e os objetos.
Ora pois sim, meu amigo leitor, o gostar é trabalhoso!
Saint Exupéry, por intermédio do diálogo entre o Pequeno Príncipe e a raposa, nos fala em criar laços, expressão tão pouco usada hoje, e mantê-los em gestos contínuos que envolvem atos, atenção, preocupação, preparação e presença. São tantas as atitudes e posturas que chegamos a pensar que podemos ficar aprisionados pelo sentimento. Mas será que conseguimos viver, ou melhor, sobreviver sem estabelecer laços afetivos?
O afeto encanta e dá sentido ao que fazemos durante a vida. Faz uma semana que a minha cadela caramelo, que estava conosco há uns 12 anos, partiu para o universo. Minha filha a pegou na rua em estado lastimável e cuidamos dela naturalmente; dia a dia. A Deia não era bonita, mas se tornou um animal forte, saudável e tomou conta de nós por todo esse tempo. Estabelecemos laços afetivos, o que nos fez tomar providências diárias, como o cuidado com a alimentação, escovação do pelo, medicamentos e afagos, para o seu bem-estar e não víamos com aborrecimento o que fazíamos. Pelo contrário, eram gestos e responsabilidades que passaram a fazer parte da nossa vida. Ela envelheceu e partiu de modo natural. Quando não a vemos mais no jardim, percebemos o quanto preencheu nossas vidas. Até a minha outra cadela, também caramelo e abandonada, passou a se deitar no lugar em que a Deia gostava de ficar.
Ao gostar não sentimos a monotonia do quotidiano posto que é um sentimento que sempre nos pede algo; pode ser ao menos um sorriso. São sentimentos e ações que nos fazem significar nossos momentos e registrá-los na memória. É tão gostoso nos arrumarmos para encontrar uma pessoa de quem gostamos; a escolha de um perfume ganha um valor especial. Ou ajeitar a mesa onde trabalhamos. Adoro arrumar minhas canetas. Há quem goste de pendurar quadros para descansar o olhar e admirar uma paisagem ou uma pessoa.
Sim, a indiferença machuca. A frieza no olhar fere a alma. O desdém nos abate. Faz tempo que uma pessoa me relatou um fato que presenciou numa praça da Tijuca, no Rio de Janeiro. Dois amigos, que não se viam fazia tempo, se encontraram na rua e se abraçaram. Logo, em seguida, se olharam, e um disse ao outro: a gente se fala pelo celular. Imediatamente se afastaram e cada um seguiu seu caminho. O gostar hoje está se resumindo a isso: a gente se fala depois e virtualmente. O esplendor do afeto vai ficando para um tempo futuro, sabe-se lá quando.
A cada vez que experimentamos o afeto com plenitude, como dar um bom dia olhando nos olhos, tomar um café com um amigo, conversar numa esquina ou mesmo se sentar ao lado de quem está triste ou com dor de cabeça, damos e ganhamos um presente, enquanto celebração do amor, da amizade e do apreço. É uma generosidade. É um modo de construir um momento de felicidade.
“Se, por exemplo, você vier sempre às quatro horas da tarde, desde as três começarei a ficar feliz. Mais a hora avança e mais feliz vou ficando. Quando forem quatro horas, já estarei inquieta: descobrirei quanto vale a felicidade!”

Tereza Cristina Malcher Campitelli
Momentos Literários
Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.
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