Trocadilhos do WhatsApp

Tereza Cristina Malcher Campitelli

Momentos Literários

Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

terça-feira, 07 de outubro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Hoje resolvi escrever uma coluna bem-humorada para mudar o rumo da prosa. Trocando mensagens com minha professora de poesia, Fabiana Corrêa, sem querer mostrar meus parcos dotes poéticos, disse: “somente na próxima vida teria condições de ser poeta”. Mas o cursor, gaiato que ele só, escreveu porta! Até entendi o recado. Nesta vida não passo mesmo de uma porta me arriscando a ser poeta. Não é que, para minha surpresa, ao escrever, querendo me corrigir, escrevi que de porta à poeta é uma boa evolução. Aí, o meu travesso cursor escreveu de porta a porta.

Ah, danado, com certeza, ele não quer que eu evolua! Quer que eu continue sendo rígida com as palavras que nem tora de madeira. Mas, aí, instantes depois do espanto, entendi que ele estava me dando uma inspiração.

Minha professora, com gentileza, logo me respondeu: “o humor salva!” Pura verdade. Salva e como nos resgata de situações complicadas, como essa. Rindo, constatei que o cursor estava certíssimo! Ainda na poesia sou uma bela porta de compensado. Se bem que na prosa, posso ser uma madeira um pouco melhor. E engatilhei uma frase numa mensagem para mim, somente para testar: “vou escrever uma prosa”. Mas ele voltou à seriedade de sempre. Pelo menos, cheguei a uma conclusão razoável: ele já me conhece como prosadora. Também, não é para menos. Volta e meia, passo meus textos para os meus amigos, via WhatsApp. Possivelmente, ele já tenha adquirido o hábito de ler meus textos anexados. Trata-se de um enxerido!

Mas estou ainda chegando a uma outra conclusão um pouco arriscada. O meu cursor é um literato que sabe avaliar se seus usuários são, de fato, poetas ou prosadores. Além do mais, gosta de fazer trocadilhos!

Na minha opinião, os poetas já nascem com as sementes da poesia, ou melhor, são gestados em momentos sublimes, em que a poesia paira sobre o ato de amor. Talvez até o cursor reconheça pelo toque os usuários que são enrijecidos como uma porta. O poeta borboleteia sobre as palavras. Mas a porta bate com força em cima das ideias e espalha as palavras, chão afora, todas desarrumadas. Coitadas!

Então, ao ler o que escrevo, começo a ter a certeza, de que o cursor queria me desafiar a escrever num breve, brevíssimo tempo, uma crônica, tal qual fazia a minha professora de escrita, Virgínia Cavalcanti, que, infelizmente, não está mais entre nós. Ela, com seriedade estampada no rosto, colocava um marcador de tempo sobre a mesa e ordenava: “quero que vocês escrevam um conto com começo, meio e fim em cinco minutos, e quando o pêndulo parar, todos devem colocar a caneta em cima do papel”. E, assim, fui aprendendo a escrever, sem parar entre uma palavra e outra e, depois de muitas tentativas, conseguia. Eu me orgulhava e mostrava às minhas colegas, que faziam o mesmo. Era um processo de aprendizagem divertido e estimulante. O mesmo acontecia com meu professor de escrita de humor, Márcio Paschoal, que solicitava que escrevêssemos, mas sem tempo limitado um conto engraçado. E a gente lia, ria e aprendia a escrever com sutileza, graça e leveza. O aprender literário nos presenteia com tulipas.

Sim, voltando ao assunto inusitado, esse cursor adora brincar com palavras da gente, deixando todo mundo em situação delicada. Quem já não passou por isso?

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Tereza Cristina Malcher Campitelli

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Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

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