Por que ler o “O Pequeno Príncipe”?

Tereza Cristina Malcher Campitelli

Momentos Literários

Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

terça-feira, 16 de setembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Vocês podem imaginar uma juíza utilizando o texto de um livro para justificar e ilustrar a sua sentença? Pois é, isso aconteceu de fato. Carolina Mascarein, titular do Juizado de Família, Infância e Adolescência nº. 4 de Corrientes, na Argentina, determinou que um pai, que havia solicitado deixar de pagar a pensão dos seus filhos, lesse “O Pequeno Príncipe” para que pudesse refletir sobre a importância da empatia e da consciência do seu papel paterno. A juíza argumentou que a obra transmite valores como o amor, o respeito, a amizade e o cuidado com os demais. Ainda observou que, ao ler o livro, ele poderia entender que as obrigações parentais não se efetivam somente com o dinheiro, mas com amor, compreensão e presença. E ressaltou que “o essencial não é visível aos olhos”. Finalmente, exigiu que o pai tivesse uma semana para ler o livro e, então, se apresentasse para comentar o que aprendeu com a leitura.

“O Pequeno Príncipe” é uma obra para todas as idades e pode ser lida diversas vezes durante a vida, posto que, a cada leitura, é possível apreender novas questões sobre o viver. A começar pela dedicatória. Saint Exupéry escreveu o livro durante a 2ª. Guerra Mundial, e ele sofria profundamente por saber que seu melhor amigo, Léon Werth, estava na França, em plena guerra, sentindo fome e frio, por quem nada poderia fazer, apenas tocar na criança que esse amigo um dia fora. Porque esse amigo poderia compreender qualquer coisa como todas as crianças.

E, assim começa o livro, mostrando como é difícil para a criança se fazer compreender pelos adultos, que pedem e buscam tantas explicações. Ele o publicou há mais de oitenta anos, e as relações entre crianças e adultos eram diferentes das de hoje. Mas será que eram mesmo tão diferentes? O que Saint Exupéry transmite nos faz avaliar os hiatos que ainda existem não somente entre pais e filhos, mas em todos os níveis das relações. Por estarmos inseridos num mundo tão virtual, cercado de Inteligências Artificiais, qual o espaço de afeto entre as pessoas? Estar presente de corpo e alma é bem diferente da presença virtual, uma instância que não há o calor do abraço, apenas fazemos os emojis enviar sentimentos. Só nas primeiras páginas do livro há tantas reflexões a serem feitas e assuntos a serem conversados, principalmente com crianças.

Outro ponto que a leitura surpreende são as questões: as crianças se sentem sozinhas? Têm com quem conversar? Não se trata de conversar sobre banalidades quotidianas, mas sobre assuntos que elas, de fato, sentem vontade de falar. E, nós também temos com quem conversar sobre os assuntos que nos tocam? Os psicoterapeutas atendem pessoas que falam de si para resolverem suas questões existenciais, mas não podem ocupar o lugar de um amigo. Por mais que gostem e respeitem seus pacientes, não se fazem presentes na vida deles como tal.

Como é especialmente acolhedor ter um amigo para conversar.

O mundo imaginário e criativo da criança é mostrado com imensa simplicidade por Saint Exupéry quando o principezinho entende que não se precisa de perfeições e ter boa aparência para se fazer escutar e entender. “É muito simples: a gente só vê bem quando vê com o coração.”

E, nesse sentido, a criança é insaciável: quer saber das coisas e pergunta e pergunta, precisa de respostas e respostas, porque para ela é difícil entender as coisas da vida. Afinal de contas, está chegando num mundo a ser desvendado; decifrado. A criança é inteligente e seu imaginário tem riquezas.

O Pequeno Príncipe veio de um asteroide e, quando chega em nosso planeta, observa a vida sem fazer julgamentos. De que mundo vieram as crianças? De onde nós viemos? Como estamos vivendo aqui? Aqui o Pequeno Príncipe sente-se sozinho e quer encontrar amigos. Não é também o que queremos? Quantos amigos temos e quantas pessoas nos percebem como tal? Somos pais, professores, avós, mas somos amigos das crianças?

A casa onde vivemos não é perfeita. A casa do Principezinho é um asteroide tão pequeno que ele pode ver o pôr do sol quarenta e quatro vezes num só dia. Além disso, há vulcões que devem ser limpos e baobás que possuem imensas raízes que precisam ser podadas. Entretanto, lá, ele possui uma rosa frágil com apenas quatro espinhos que não pode se defender sozinha, mas é orgulhosa e teimosa. Quantas metáforas delicadas! Quem não precisa tratar de suas erupções? Ou cortar as raízes dos conflitos? E cuidar das pessoas de quem gosta, como ele cuidou da rosa no seu asteroide? “Pois foi a ela que sempre irreguei, foi ela que pus sob uma redoma. Foi ela que eu protegi com um para-vento. Foi por ela que matei as larvas (salvo duas ou três, por causa das borboletas). Foi a ela que eu ouvi se queixar ou se vangloriar ou, às vezes, se calar. Porque ela é a minha rosa”.

O livro nos traz não somente essas, mas muitas questões a serem refletidas com frequência para que possamos compreender melhor a vida. Muitas vezes tão difícil de ser vivida. Quando Saint Exupéry escreveu “O Pequeno Príncipe” fora do seu país, a França passava por um momento de vida conturbado e sofrido.

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Tereza Cristina Malcher Campitelli

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Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

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