Ora bolas, isso não acontece com qualquer mortal!?

Tereza Cristina Malcher Campitelli

Momentos Literários

Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

terça-feira, 28 de outubro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

O interessante nesta coluna, por ser um espaço literário, é que me sinto à vontade para compartilhar este momento, um tanto inusitado e angustiante, um quase desabafo: não saber o que escrever! É uma circunstância embaraçosa em que fico um tanto quanto sem graça porque quem vai me ler, quer saber o que vou dizer. Aliás, estamos cercados de expectativas. E quando não temos como atendê-las ficamos assim, procurando um riso escondido num canto qualquer do rosto.

Quando fazia oficinas literárias, li “A louca da casa”, de Rosa Montero, um livro que fala da literatura, dos escritores, do processo criativo, dentre outros temas interessantes a quem se propõe a escrever. Num dos primeiros capítulos, ela relata que certa vez quis começar a escrever de manhã. Entretanto, tão logo abriu o computador, começou a ler mensagens, falou no telefone e fez um turbilhão de coisas, menos o que tinha se proposto. Mas no dia seguinte, ela cumpriu suas metas.

Hoje estou com a esperança de que amanhã me venham ideias boas e possa desenvolver novas colunas. Mas, aproveitando o ensejo, vou falar sobre isso, posto se tratar de uma circunstância comum em nossos dias. É aquele momento em que a gente tem de parar, nem que seja para descansar ou procurar rumos diferentes. Não saber o que fazer é, eventualmente, saudável.

Saí procurando ideias e me deparei com “Romeu e Julieta” de Shakespeare, um dos romances de amor mais conhecidos. Segui para o roteiro do filme “Nosso amor de ontem”, uma belíssima história de amor, encenado por Barbra Streisand e Robert Redford, cuja música “The way we Were” foi ganhadora do Oscar em 1974. Não satisfeita visitei o livro de Anton Tchekhov, “Contos”. As três obras maravilhosas poderiam me oferecer excelentes subsídios ao desenvolvimento de ideias, mas não. Nada me tocou a ponto de me fazer sentar, pesquisar e escrever.

Mergulhada no “noves fora, zero”, parei no meio da escada da minha casa e algo em mim gritou alto: “Tereza, sua mente está em branco reluzente”. Que alívio. Que maravilhoso poder chegar a uma conclusão e me sentir livre para explorar um tema que na verdade não é simples. Difícil é reconhecer que suas ideias resolveram passear por outras bandas. Acho que se me encontrasse com Woody Allen e lhe confessasse a minha situação momentânea, quem sabe ele imaginaria uma história engraçada e sutil.

Quando o que escrevemos é baseado em pesquisas, como na maioria das vezes faço, há facilidades. Mas compor uma narrativa em cima de um tema escorregadio como “o não saber o que escrever” é enfrentar as várias facetas da insegurança, trilhar uma caminhada nada linear, além de permitir que a criatividade e a curiosidade sejam dominantes. Mas que curiosidade? Eis o desafio: descobrir o que existe em minhas vontades de ser autora através da exploração de ideias e questionamentos.

Escrever uma coluna requer uma responsabilidade maior do que se pode imaginar. As palavras têm força, exercem influência, tocam o leitor de diferentes modos. Há sempre uma conexão entre o escritor e o leitor e ambos se modificam nessa interação. É um processo de comunicação informativo, filosófico e afetivo. No entanto, se o escritor não escreve com afeto e o leitor não lê com interesse, o texto se torna frio, distante, podendo se perder dentre tantas leituras. Escrever uma coluna é como escrever uma carta a alguém especial. Sim. Tudo o que fazemos na vida tem que ser baseado em um vínculo de dedicação. E, acima de tudo, a gente deve acreditar no que está pondo no papel ou na tela do computador.

E, aí, sentada numa nuvem reluzentemente branca, estou fazendo uma revisão no meu papel de escritora. Elaborar uma coluna para um jornal, como “A Voz da Serra”, é um modo que tenho de cumprimentar a vida, de encorajar o meu leitor a enfrentar seus desafios diários. Na verdade, há poucos minutos, também eu experimentava essa dificuldade de não saber por onde caminhar para escrever essa coluna. E me parece que estou começando a saber. Vou me soltar mais. Estou experimentando uma maior liberdade de expressão. É prazeroso bater nas teclas do computador com posse total do livre-arbítrio.

Por outro lado, me dou conta, mais uma vez, o quanto meu leitor é importante. Mesmo que eu seja lida por apenas um leitor já é suficiente para me sentir feliz e me encorajar para continuar. É aquela sensação maravilhosa de que o dia seguinte vai existir, a mais forte sensação de confiança que se pode ter.

Porém, é importante saber que o leitor está inserido na realidade concreta e eu não posso criar um texto alternativo. Aqui não é um espaço de ficção. E ele vai compreender e interpretar cada frase do texto que eu decidi expor por aqui. Vai refletir e encontrará satisfação ao abrir a página do jornal virtual ou material. Pronto. Aí se revela o desafio que me deparo sempre quando escrevo a primeira palavra do texto, aquela que desencadeia um processo de avaliação profunda para identificar as implicações de cada decisão que vou tomar na produção textual.

Mas, agora, com alegria de haver assumido o desafio de não saber o que escrever, acabo de compor uma coluna, de me expor ao meu amigo leitor. Aliás, meu bom companheiro das terças-feiras.

Salve!

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Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

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