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Aplausos à Nise da Silveira

Tereza Cristina Malcher Campitelli
Momentos Literários
Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.
As superações diárias: do amanhecer ao canto da coruja da madrugada. Quantas mulheres fazem essa trajetória com a coragem dos heróis. As guerreiras, muitas vezes silenciosas e invisíveis, fazem a vida delas, e a dos seus acontecerem. Lutam. Como sempre foram laboriosas, se em tempos antigos, se em tempos atuais, ora pois sim, elas continuam a hastear suas bandeiras pelos quatro cantos do mundo. Com independência e vivacidade, entoam o hino da sobrevivência criativa e inteligente.
São mulheres que tomaram as rédeas dos seus destinos. Através das biografias ou autobiografias têm suas histórias contadas nas páginas dos livros que merecem ser lidas e relidas.
Hoje, vou me dedicar à Dra. Nise da Silveira, médica psiquiatra, que revolucionou a doença mental no Brasil ao desenvolver métodos de tratamento humanizados, recorrendo à arte, ao contato com animais e ao aprofundamento das relações afetivas entre médicos, enfermeiros e demais agentes com os pacientes.
Escolhi Nise da Silveira porque a conheci na Casa das Palmeiras – Nise da Silveira. Tinha uma amiga que fazia trabalhos voluntários na Casa e, com insistência, me convidou para conhecê-la. Sentei-me num canto de uma sala grande, onde os pacientes faziam atividades de cerâmica, desenho e pintura. O ambiente era alegre e movimentado. A Dra. Nise, já bem idosa e de cadeiras de rodas, chegou, percorreu a sala, indo de paciente a paciente, até que se aproximou de mim com o olhar firme e brilhante e disse: “É preciso trabalhar com eles”. E seguiu a visita. Aqueles breves instantes me tocaram no fundo da alma. Senti vontade de continuar lá, junto dos pacientes, observando-os e interagindo. Assim passei uma tarde que jamais esqueci.
“Nise da Silveira, uma psiquiatra rebelde”, escrita pelo mestre da literatura Ferreira Gullar, revela a longa vida de uma mulher (1905-1999) que difundiu a psicologia junguiana, recorrendo à arte e à terapia ocupacional para restaurar vínculos dos pacientes com a realidade. A doença mental se tornou um desafio imenso para ela, decidindo tratar corajosamente as pessoas como seres humanos. Em seu trabalho ela aprendeu a “buscar a beleza nas coisas aparentemente feias”. Com esse olhar dedicado, foi capaz de retirar de cada paciente uma poesia colorida.
Em seu belíssimo trabalho, a Dra. Nise descobriu verdadeiros artistas, que produziram obras nos ateliês terapêuticos. Ela fundou, em 1952, o Museu de Imagens do Inconsciente (MII) que reúne mais de 350 obras, entre telas, papéis, modelagens e poemas. O Museu foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional, em 2003.
Durante séculos, os doentes eram confinados, recebiam eletrochoques, eram submetidos à lobotomia, dentre outros métodos agressivos. Sua visão, através da formação acadêmica na Faculdade de Medicina da Bahia, estudos e pesquisas nos campos da psiquiatria, troca de cartas com Jung, Nise reinterpretou e reescreveu o tratamento psiquiátrico, reconhecendo que os assombros dos manicômios pouco ou quase nada resgatavam o paciente para a vida.
Com o ímpeto de curar, a Dra. Nise percebeu, em suas pesquisas, o valor do animal, enquanto coterapeutas. Ah!, os animais e seus poderes são capazes de melhorar e estabilizar as relações afetivas dos pacientes. Fato que foi observado a partir dos cuidados que uma interna em um hospital teve com uma cadela abandonada. Tal processo foi escrito em seu livro “Gatos, a emoção de lidar”, publicado em 1998.
Como ela observou a presença de mandalas na pintura dos pacientes, estabeleceu uma troca de correspondência com o psiquiatra e psicoterapeuta suíço Karl Jung. As obras dos seus pacientes foram apresentadas numa mostra denominada “A Arte e a Esquizofrenia”, no Segundo Congresso Internacional de Psiquiatria”, em Zurique, Suíça, em 1957. A seguir, foi estudar no Instituto Karl Gustav Jung em dois períodos, num total de quatro anos.
Dra. Nise da Silveira foi uma mulher atenta à vida e ofereceu a quem adoece mentalmente orquídeas brancas, abrindo as janelas dos hospitais e mostrando paisagens inéditas, novos nasceres do sol.

Tereza Cristina Malcher Campitelli
Momentos Literários
Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.
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