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Páscoa – saber perder é saber ganhar!

segunda-feira, 24 de abril de 2023

Páscoa, no grego paskein, no hebraico, pesah, palavra que significa passagem. Da escravidão para a liberdade, da morte para a vida, do pecado para a graça, das trevas para a luz! A nossa Igreja celebra o Tempo Pascal, no seu calendário litúrgico, durante sete semanas, culminando no quinquagésimo dia com a Solenidade de Pentecostes, a vinda do Espírito Santo sobre os apóstolos e Maria no cenáculo. São cinquenta dias de alegria e aprofundamento desta verdade fundamental da nossa fé cristã - a Ressurreição do Senhor.

Páscoa, no grego paskein, no hebraico, pesah, palavra que significa passagem. Da escravidão para a liberdade, da morte para a vida, do pecado para a graça, das trevas para a luz! A nossa Igreja celebra o Tempo Pascal, no seu calendário litúrgico, durante sete semanas, culminando no quinquagésimo dia com a Solenidade de Pentecostes, a vinda do Espírito Santo sobre os apóstolos e Maria no cenáculo. São cinquenta dias de alegria e aprofundamento desta verdade fundamental da nossa fé cristã - a Ressurreição do Senhor.

Páscoa! Certeza da vitória da vida! Cristo, Deus feito homem nos ensina a amar e a dar a vida pelos irmãos. O seu olhar acolhedor e misericordioso nos transmite do alto da dor e da cruz que o amor é mais forte que a morte, é mais forte que qualquer sofrimento ou obstáculo.  Amar e perdoar. Libertar o coração de todo ressentimento e mágoa, de todo o rancor e ódio, de toda revolta ou sentimento de vingança. Purificar-se. Lavar as vestes e a alma no sangue Redentor do Cordeiro. Entregar-se totalmente nas mãos do Pai: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito.”  Como Jesus, saber “perder”. Deixando que disputem sua túnica, o poder, a vaidade, as riquezas, os prazeres.  Poder verdadeiro e definitivo é o de Deus!  Ele te ressuscita, te revigora e te realiza plenamente no sentido hialino de viver.  

O nosso tesouro é Deus e esta feliz vida espiritual que Ele nos dá já aqui no horizonte terrestre. A paz de ser amado e de amar com este sentir do coração de Cristo. Servir ao próximo sem interesse, sem ambiguidades, nem equívocos. É bálsamo para o espírito e alegria eterna multiplicada a cada gesto de bondade, gentileza, fraternidade, generosidade. Doação de si mesmo com total liberdade ao coração dos irmãos, especialmente os que mais precisam. No fim, na maturidade do “terceiro dia”, é o saber ganhar de Jesus, a vitória da luz e da verdade, o esplendor do Bem, que se conquista com a renúncia, o esvaziamento, o sacrifício e o Amor-entrega da sexta-feira da Paixão. Assumir a cruz e transformá-la em luz para nós e para o mundo inteiro. Assim continuaremos a obra da salvação do Senhor.

Nesta mística do esvaziamento (kénosis) de Jesus, vamos aprofundando a nossa missão como Igreja, anunciando, com a luz do Ressuscitado, com a mensagem e testemunho da caridade, da fraternidade, da justiça do Reino de Deus e da cultura da paz, a graça de um novo tempo, a civilização do amor e da promoção da vida, da vitória não pela competição ou destruição do outro, mas pela doação generosa e solidária pelo bem de todos os irmãos. A paz do Cristo Ressuscitado!

   Padre Luiz Cláudio Azevedo de Mendonça é assessor eclesiástico da Comunicação Institucional da Diocese de Nova Friburgo

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A Igreja da Misericórdia no ensinamento do Papa Francisco

segunda-feira, 17 de abril de 2023

Neste dia 16 de abril, celebramos como Igreja o segundo domingo da Páscoa, o domingo da Divina Misericórdia, incluído no calendário litúrgico pelo Papa São João Paulo II, motivado pelas visões místicas da santa religiosa polonesa Faustina Kowalska, ao canonizá-la em 30 de abril de 2000, chamada apóstola da misericórdia.

Neste dia 16 de abril, celebramos como Igreja o segundo domingo da Páscoa, o domingo da Divina Misericórdia, incluído no calendário litúrgico pelo Papa São João Paulo II, motivado pelas visões místicas da santa religiosa polonesa Faustina Kowalska, ao canonizá-la em 30 de abril de 2000, chamada apóstola da misericórdia.

Este tema foi profundamente trabalhado também pelo Papa Francisco ao proclamar o Ano Jubilar da Misericórdia, de 8 dezembro de 2015 a 8 de dezembro de 2016. Em toda a sua trajetória de vida e de pensamento, o Papa Francisco tem dado um testemunho vivo do poder da graça e o rosto da misericórdia de Deus. Escreve o seu Magistério com as linhas de sua doação integral e com a Palavra viva do abraço universal a todos com o coração aberto de Cristo. Anunciou recentemente um Ano Jubilar para 2025, como dom especial da graça e da misericórdia de Deus, confiando sua preparação ao Dicastério para a Nova Evangelização.

"A misericórdia de Deus: como é bela esta realidade da fé para a nossa vida! Como é grande e profundo o amor de Deus por nós! É um amor que não falha, que sempre segura a nossa mão, nos sustenta, levanta e guia”. Afirma o Sucessor de Pedro (A Igreja da Misericórdia - Minha visão para a Igreja, São Paulo, Paralela, 2014). Propõe o itinerário da luz da fé, "pois quando a sua chama se apaga, todas as outras luzes acabam também por perder o seu vigor. De fato, a luz da fé possui um caráter singular, sendo capaz de iluminar toda a existência do homem". Esta luz não brota de nós mesmos, mas do encontro com o Deus vivo que nos revela o seu amor.

Temos que "recomeçar de Cristo". Primeiro, é necessário estar com Cristo, cultivar a familiaridade com Ele, ouvi-Lo, aprender d'Ele. Um caminhar sob a graça, porque o Senhor nos amou, nos salvou, nos perdoou. Segundo, imitar o Mestre, sair de si mesmo para ir ao encontro do outro. Descentralizar-se no verdadeiro dinamismo do amor. "Este é o movimento do próprio Deus! Sem deixar de ser o centro, Deus é sempre dom de si, relação, vida que se comunica". Terceiro, não ter medo de ir com Ele para as periferias geográficas e existenciais.

Estes passos capacitam e fortalecem uma Igreja pobre como Cristo para ser instrumento de Deus na libertação e promoção dos pobres, para ouvir o clamor do irmão mais necessitado e socorrê-lo'. Sempre retorna a antiga pergunta: 'Se alguém possuir bens deste mundo e, vendo seu irmão com necessidade, lhe fechar o coração, como é que o amor de Deus pode permanecer nele?" (1 Jo 3,17). Ou como nos testemunha o apóstolo São Tiago: "Olhai que o salário que não pagastes, aos trabalhadores que ceifaram os vossos campos, está a clamar; e os clamores dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor do universo" (Tg 5,4).

Continua Francisco: "A Igreja reconheceu que a exigência de ouvir esse clamor deriva da própria obra libertadora da graça em cada um de nós, pelo que não se trata de uma missão reservada apenas a alguns. A Igreja, guiada pelo Evangelho da Misericórdia e pelo amor ao homem, escuta o clamor pela justiça e deseja responder com todas as suas forças". É o sentido pleno de solidariedade - cooperação para resolver as causas estruturais da pobreza e promover o desenvolvimento integral da pessoa humana. "Significa muito mais do que alguns atos esporádicos de generosidade; supõe a criação de uma nova mentalidade que pense em termos de comunidade, de prioridade da vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns".

A Igreja deve ser casa de comunhão que acolhe a todos, casa da harmonia. Enviada para levar o Evangelho a todo o mundo, em sintonia com o Espírito Santo e guiada por Ele, deve comunicar a esperança e a alegria, anunciando com o testemunho da fidelidade a Deus, mesmo nos sofrimentos e perseguições, na simplicidade da santidade cotidiana, promovendo a cultura do encontro contra a cultura reinante do descartável. Deve entregar tudo a Deus, sem reservas, numa atitude missionária, tomando a cruz de cada doação para verdadeiramente evangelizar.

Neste sentir, o profético Papa Francisco diz aos pastores da Igreja que devem ter cheiro das ovelhas, acolhê-las com magnanimidade, caminhar com o rebanho, com a presença forte, humilde, conhecedora e orientadora dos irmãos, na oração, na Palavra de Deus. Sacerdotes para servir. Para levar a unção ao povo. Extensão do coração misericordioso de Cristo Sacerdote a escolher os últimos. "Prefiro mil vezes uma Igreja acidentada, que sofreu um acidente a uma Igreja doente por estar fechada!". Este movimento de permanente saída de si mesmo para acolher e servir, especialmente os mais frágeis, os refugiados, os desamparados, na luta pela proteção dos direitos humanos. Para isso é preciso demolir os ídolos da lógica do poder e da violência, do culto ao deus dinheiro, da lepra do carreirismo, despojando o espírito do mundo, a mundanidade que escraviza e corrompe.

O Vigário de Cristo continua sua reflexão sobre a Igreja da Misericórdia, apresentando-a como a plantadora da cultura do bem, a grandeza de coração, de espírito, nobres ideais, a formação para as virtudes humanas: a lealdade, o respeito, a fidelidade, a responsabilidade, promovendo a dignidade de vida, compromissada com a paz. A exemplo de Maria, a Mãe da evangelização, de sua fé inabalável e obediência peregrina que escuta a Deus, se despoja e diz sim, que decide com confiança e fortaleza, que age com generosidade e total entrega, humilde a serviço do Plano divino da salvação. Com a sua intercessão, a Igreja também avançará no seu itinerário de fé e na sua missão de misericórdia.

Artigo baseado na obra citada, tradução do original “La Chiesa della misericordia, Libreria Editrice Vaticana, 2014”.

Padre Luiz Cláudio Azevedo de Mendonça é assessor eclesiástico da Comunicação Institucional da Diocese de Nova Friburgo

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Síntese da Mensagem do Papa Francisco para a Páscoa de 2023

segunda-feira, 10 de abril de 2023

Hoje proclamamos que Ele, o Senhor da nossa vida, é «a ressurreição e a vida» (Jo 11, 25) do mundo. É Páscoa, que significa «passagem», porque, em Jesus, realizou-se a passagem decisiva da humanidade, ou seja, a passagem da morte à vida, do pecado à graça, do medo à confiança, da desolação à comunhão. N’Ele, Senhor do tempo e da história, quero, com o coração repleto de alegria, dizer a todos: Feliz Páscoa!

Hoje proclamamos que Ele, o Senhor da nossa vida, é «a ressurreição e a vida» (Jo 11, 25) do mundo. É Páscoa, que significa «passagem», porque, em Jesus, realizou-se a passagem decisiva da humanidade, ou seja, a passagem da morte à vida, do pecado à graça, do medo à confiança, da desolação à comunhão. N’Ele, Senhor do tempo e da história, quero, com o coração repleto de alegria, dizer a todos: Feliz Páscoa!

Seja ela para cada um de vós, em particular para os doentes e os pobres, os idosos e quantos atravessam momentos de provação e dificuldade, uma passagem da tribulação à consolação. Não estamos sozinhos: Jesus, o Vivente, está conosco para sempre. Alegrem-se a Igreja e o mundo, porque hoje as nossas esperanças já não se quebram contra o muro da morte, mas o Senhor abriu-nos uma ponte para a vida. Sim, irmãos e irmãs! Na Páscoa, mudaram as sortes do mundo, e hoje podemos alegrar-nos de celebrar, por pura graça, o dia mais importante e belo da história.

Cristo ressuscitou, ressuscitou verdadeiramente: como se proclama nas Igrejas do Oriente. O termo verdadeiramente diz-nos que a esperança não é uma ilusão; é verdade! E que, a partir da Páscoa, o caminho da humanidade assinalado pela esperança é percorrido com passo mais rápido. Assim no-lo mostram, com o seu exemplo, as primeiras testemunhas da Ressurreição. Os Evangelhos narram aquela pressa boa com que, no dia de Páscoa, «as mulheres correram a dar a notícia aos discípulos» (Mt 28, 8). E ainda que Maria de Magdala, «correndo, foi ter com Simão Pedro» (Jo 20, 2); e em seguida João e o próprio Pedro «corriam os dois juntos» (20, 4) para chegar ao lugar onde Jesus estivera sepultado. E ao entardecer daquele dia de Páscoa, depois de terem encontrado o Ressuscitado no caminho para Emaús, os dois discípulos «voltaram imediatamente para Jerusalém» (Lc 24, 33). Em suma, na Páscoa, acelera-se o passo na caminhada que se torna uma corrida, porque a humanidade vê a meta do seu percurso, o sentido do seu destino, Jesus Cristo.

Apressemo-nos, também nós, a crescer num caminho de confiança recíproca: confiança entre as pessoas, entre os povos e as nações. Deixemo-nos surpreender pelo anúncio feliz da Páscoa, pela luz que ilumina as trevas e obscuridades em que demasiadas vezes se encontra envolvido o mundo.

Apressemo-nos a superar os conflitos e as divisões, e a abrir os nossos corações aos mais necessitados. Apressemo-nos a percorrer sendas de paz e fraternidade. Alegremo-nos com os sinais concretos de esperança que nos chegam de tantos países, a começar daqueles que oferecem assistência e hospitalidade a quantos fogem da guerra e da pobreza. Entretanto, ao longo do caminho, há ainda muitas pedras de tropeço, que tornam árduo e fadigoso este apressarmo-nos para o Ressuscitado. Supliquemos-Lhe: Ajudai-nos a correr ao vosso encontro!

Ajudai o amado povo ucraniano no caminho para a paz, e derramai a luz pascal sobre o povo russo. Confortai os feridos e quantos perderam os seus entes queridos por causa da guerra e fazei que os prisioneiros possam voltar sãos e salvos para as suas famílias. Abri os corações de toda a Comunidade Internacional para que se esforcem por fazer cessar esta guerra e todos os conflitos que ensanguentam o mundo. Neste dia confiamo-Vos, Senhor, a cidade de Jerusalém, primeira testemunha da vossa Ressurreição. Sustentai, Senhor, as comunidades cristãs que hoje celebram a Páscoa em circunstâncias particulares, e lembrai-Vos de todos aqueles a quem é impedido professar, livre e publicamente, a sua fé.

Confortai os refugiados, os deportados, os prisioneiros políticos e os migrantes, especialmente os mais vulneráveis, bem como todos aqueles que sofrem com a fome, a pobreza e os efeitos nocivos do narcotráfico, do tráfico de pessoas e de toda a forma de escravidão. Inspirai, Senhor, os responsáveis das nações, para que nenhum homem ou mulher seja discriminado e espezinhado na sua dignidade; para que, no pleno respeito dos direitos humanos e da democracia, se curem estas chagas sociais, se procure sempre e só o bem comum dos cidadãos, se garanta a segurança e as condições necessárias para o diálogo e a convivência pacífica.

Irmãos, irmãs, voltemos também nós a encontrar o gosto do caminho, aceleremos o pulsar da esperança, saboreemos a beleza do Céu! Tiremos deste Dia as energias para continuar ao encontro do Bem que não desilude. E, se «o maior pecado – como escreveu um antigo Padre – é não acreditar nas energias da Ressurreição» (Santo Isaac de Nínive, Sermões ascéticos, I, 5), hoje acreditemos! «Sim, temos a certeza: verdadeiramente Cristo ressuscitou» (Sequência). Acreditamos em Vós, Senhor Jesus, acreditamos que convosco renasce a esperança, o caminho continua. Vós, Senhor da vida, encorajai os nossos caminhos e repeti, também a nós, como aos discípulos na noite de Páscoa: «A paz esteja convosco» (Jo 20, 19.21).

Fonte: https://www.vatican.va

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Ressurreição: o nosso Deus É um Deus Vivo!

segunda-feira, 03 de abril de 2023

Entre as sombras da dúvida, do nada, do silêncio do peito, do esvaziamento do cosmo, surge a vida! O glorioso Sol rasga as trevas, numa manhã solene de Ressurreição! O túmulo vazio. Os guardas atônitos. Os apóstolos vibrantes de certeza! "Nosso Cristo está vivo!". Os materialistas repetem desde sempre a mesma mentira: "Roubaram o corpo";" Jesus Cristo foi apenas um homem contra o sistema e está morto", Míopes em suas mancas afirmações e adoradores da surda-muda matéria, teimam em não sair de suas cavernas frias para a luz aquecedora do Amor de Cristo.

Entre as sombras da dúvida, do nada, do silêncio do peito, do esvaziamento do cosmo, surge a vida! O glorioso Sol rasga as trevas, numa manhã solene de Ressurreição! O túmulo vazio. Os guardas atônitos. Os apóstolos vibrantes de certeza! "Nosso Cristo está vivo!". Os materialistas repetem desde sempre a mesma mentira: "Roubaram o corpo";" Jesus Cristo foi apenas um homem contra o sistema e está morto", Míopes em suas mancas afirmações e adoradores da surda-muda matéria, teimam em não sair de suas cavernas frias para a luz aquecedora do Amor de Cristo.

Os nossos domingos já não podem ser os mesmos! Existe um brilho diferente no ar, na calma da natureza apoteótica a bradar Aleluia! Como naquele dia luminoso, aos olhos perplexos dos discípulos, o Senhor se elevava aos céus e prometia o seu Espírito e a sua nova vinda para recolher.

Mas se este Jesus está vivo, por que aparece ainda pregado na cruz? Pode alguém perguntar. A cruz é o símbolo do gesto máximo do Amor de Cristo por nós. É a recordação de quanto custou ao Deus feito homem a nossa libertação: sua vida, seu sangue, seu martírio. Se alguém dá a vida por nós, não podemos esquecer tal ato. O sacrifício da cruz é o grande sinal do Amor cristão, o Amor que não só vibra com a festa da vida, mas se solidariza e se doa nos sofrimentos e cruzes do irmão. Para nós, católicos, Jesus está vivo, sim, presente entre nós, Ressurreto, fulguroso e poderoso, mas sabemos o quanto sofreu por nós e, por isso, a sua cruz é para todos um instrumento-símbolo de salvação.

Nestes ventos de Ressurreição, devemos nos perguntar sobre nossos passos, sobre nossos rumos, sobre nossos corações... A luz que se acendeu há quase dois mil anos não se apagou... Ela se multiplica nos círios, no peito, nos sacrários do mundo inteiro, na chama da fé dos povos, na esperança ígnea que não se prostra nem mesmo com as bombas e perseguições, nem com as explosões de néon do ateísmo, do capitalismo selvagem. Ela se expande no brilho simples da verdade que quebra os sofisticados e ocos sofismas, meticulosamente talhados nas indústrias da exploração humana.

Este Deus vive entre nós. Vive em nós. Sua ação pasma a História, abrindo o mar com mão firme, curando toda enfermidade, transformando água em vinho, transubstanciando o próprio vinho em seu sangue, o pão em sua carne: Eucaristia -Ressurreição! Os véus do templo se rasgam de cima a baixo. Seu Sudário permanece de século em século, questionando a análise dos químicos, médicos, cientistas em geral, ou de qualquer cético que queira apalpar a configuração do Senhor.

Ei-lo! Eis o Homem! Como apresentou Pilatos. Todo chagado e marcado por chicotes ferinos. Eis o Cristo de olho vazado pelos espinhos da coroa e sobre esta vista a imagem de uma moeda romana, conforme o costume. Vejam o que queriam ver. Um Deus-homem impresso em negativo em um linho antiquíssimo, com pólen do século primeiro, pela explosão luminosa de sua Ressurreição! Reconheçam que não há pintura em negativo com sangue AB judeu de quase dois mil anos que permaneça nítida após tantas intempéries. Figura que não é pintada e que após fotografia de um pesquisador, curiosamente aparece em positivo e apresenta tridimensionalmente o Senhor sofredor, sem nenhuma distorção em computador (o que normalmente aconteceria), o que só hoje, no século 21, os cientistas conseguiram colocar impresso em 3D.

A precisão dos traços e marcas da Paixão... funduras das chagas, inchações, todo o desenho anatômico das lesões, constatado por renomados cirurgiões, digitais de quem o transportou nas plantas dos seus pés... O que mais falta? O que mais? Frente às exigências empíricas dos que no fundo acham incômodo CRER, Jesus ressuscitado diz ao Tomé de cada século: "Vem e vê. Põe o teu dedo em minhas chagas e no meu lado! Sou Eu! Estive morto, mas venci a morte! Abre teu coração agora e abandona tua soberba! Tu creste porque viste. Felizes aqueles que creem, mesmo sem ver."

Caros irmãos, o nosso Deus é um Deus vivo! E você é convidado a viver e a beber desta fonte e a nunca mais ter sede! Feliz Páscoa!

Padre Luiz Cláudio Azevedo de Mendonça é assessor eclesiástico da Comunicação Institucional da Diocese de Nova Friburgo

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Quem tem medo da cruz? Meditação para a Quaresma e Semana Santa

segunda-feira, 27 de março de 2023

Aproxima-se a Semana Santa. Neste final de Quaresma, façamos uma profunda reflexão-preparação espiritual. Quem tem medo da cruz? Resposta: todos nós. Não fomos feitos para a cruz. Fomos gerados para a luz, para a vida. A cruz assombra, assusta, frustra, entristece. Faz fenecer todo sonho, o brilho dos olhos, a paz do coração. Faz perecer o voo, o projeto da ave, agora amarrada e sangrada. A cruz é terrível. É o nada travestido de dor, o vazio do abandono, o frio do desmonte existencial.

Aproxima-se a Semana Santa. Neste final de Quaresma, façamos uma profunda reflexão-preparação espiritual. Quem tem medo da cruz? Resposta: todos nós. Não fomos feitos para a cruz. Fomos gerados para a luz, para a vida. A cruz assombra, assusta, frustra, entristece. Faz fenecer todo sonho, o brilho dos olhos, a paz do coração. Faz perecer o voo, o projeto da ave, agora amarrada e sangrada. A cruz é terrível. É o nada travestido de dor, o vazio do abandono, o frio do desmonte existencial.

Quem tem medo da cruz? Todo ser sensato tem. Mas a pergunta é outra: quem ou o que venceria o Amor? O que ou quem derrotaria a Luz? E a Luz e o Amor têm nome - Jesus, o Homem-Deus Salvador. Não que a cruz não pese ou não doa. Mas, a presença do seu Amor é mais forte do que a morte! O que é a dor do parto em relação à infinita alegria do filho-fruto? O que é a dor do sofrimento terreno perante a alegria estrondeante da eternidade que já pulsa e vibra dentro de nós?

Cristo venceu a cruz, porque era todo Amor. Ele sabia que o Pai não o deixaria. Até por um momento de solidão estremeceu e oscilou na segurança. Mas seu espírito estava entregue. Ele era plena comunhão de Amor e de Luz com o seu Pai. E o Espírito estava com Ele. Ele atravessou o deserto da fome e da sede, do calor e do vento gélido. Ele perseverou fiel na dureza das tentações. Sempre nos nossos momentos de fraqueza aparecem as portas largas do fácil e do mal. É mais cômodo jogar a toalha. É mais prático também mais covarde abandonar o navio, a luta, a causa. Perder os princípios, compactuar com a mentira. Fazer o jogo, vender a alma, ganhar tesouros, curtir o egoísmo-prazer. Adorar o poder, garimpar o dinheiro. É o movimento-alucinação do mundo, do nosso mundo roleta russa. Salve-se quem puder!

Ao contrário, o Mestre sustentou a caridade com a fibra do despojamento e da humildade, com a força divina da constância. A estabilidade do Bem, sem máscara, sem terceiras intenções, sem hipocrisia, sem autopromoção. A generosidade sempre pronta daquele que tinha no cotidiano de cada dever-missão o tempero do sentido maior do coração: a felicidade do outro, o crescimento do irmão-amigo, a salvação da amiga-irmã.

A cruz só prevalece quando não temos a Luz e o sentido! Quando possuímos um porquê, então fazemos a oferenda, entregamos o sacrifício. Cada dor é doação, é oferta. É "por eles" que caminhamos. É "por eles" que sofremos. É "por eles" que não desistimos e enfrentamos tudo e não cedemos à infidelidade. É "por eles", gratuitamente, já nos dispensando do "obrigado" e da necessidade lógica da gratidão e do retorno. Como é o Amor de Cristo, puro e gratuito, só para que todos nós nos libertássemos. E isso já é uma imensa felicidade!

Se pudermos plantar a semente e fazer crescer alguém, isto já é um bálsamo de Deus que diz a nós ao ouvido e ao coração: "É por aí! Vai, continua, sê feliz!" Não importa o peso do madeiro, mesmo que diário. Transcenderemos o calvário, os chicotes, as cusparadas, as zombarias, a lança da traição, a sensação de abandono... Não fugiremos da missão, pois o nosso sangue é semente, nossa vida é geradora de tantas vidas e esperanças. Se a cada passo o Amor ilumina, a cruz que era nada, se torna instrumento-caminho do Tudo. O que era fim se transforma em meio. O que aniquilava, agora amadurece e reforça o valor da meta. O muro aparentemente intransponível é, na verdade, somente um obstáculo para o corredor que tem como ideal a coroa de louros da vitória. E assim nos libertamos e corremos no certame que nos é proposto rumo à realização eterna de Deus.

Não queremos ser escravos de ninguém, de nada, nem de nós mesmos. Foi para que fôssemos livres que Cristo nos redimiu, que Ele derramou total e resignadamente seu sangue, vendo em cada dor a nossa liberdade, em cada chicotada, o nosso riso, em cada bofetada, a nossa canção, na coroa de espinhos, a nossa glória. Persevera quem ama. De novo retorna a mente a pergunta: Quem tem medo da cruz? Todos nós temos medo da dor. Mas temos muito mais confiança no Amor que vence o tempo, a força, a mentira e a maldade, porque tem o Poder e a perenidade da Verdade - a única estrada que nos pode dar a vitória-felicidade-ressurreição!

Padre Luiz Cláudio Azevedo de Mendonça é assessor eclesiástico da Comunicação Institucional da Diocese de Nova Friburgo

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Quaresma: tempo de confiança e renovação

segunda-feira, 20 de março de 2023

Vivendo a cada ano o tempo da Quaresma, na experiência de 40 dias de preparação para a Páscoa-Ressurreição do Senhor, lembramo-nos dos 40 anos das lutas do deserto do povo de Israel rumo à terra prometida e do outro deserto das tentações de Jesus, quando jejuou e venceu todo mal. No primeiro, o povo escolhido buscava a sua libertação plena, tendo que confiar totalmente no Deus que abrira o mar e que o curava e alimentava a cada passo.

Vivendo a cada ano o tempo da Quaresma, na experiência de 40 dias de preparação para a Páscoa-Ressurreição do Senhor, lembramo-nos dos 40 anos das lutas do deserto do povo de Israel rumo à terra prometida e do outro deserto das tentações de Jesus, quando jejuou e venceu todo mal. No primeiro, o povo escolhido buscava a sua libertação plena, tendo que confiar totalmente no Deus que abrira o mar e que o curava e alimentava a cada passo.

Confiar e caminhar: era o desafio da fé! Não se deixar convencer pelo mais fácil - o desânimo, o desespero, a escolha de outros deuses, ídolos que desviam o fiel de sua entrega, com promessas imediatistas e artificiais de saciedade e prosperidade. Continuar na obediência ao Senhor, arrepender-se das vacilações e pecados, das más escolhas. Retomar a direção da verdadeira Terra abençoada - a vontade divina. Aprender a abandonar-se em Deus, sem questionar a infinita sabedoria salvadora!

O deserto é sempre uma escola, onde temos a oportunidade de amadurecer a nossa fé, na provação, na perseverança, nas perdas, nas quedas e reerguimentos, entregando-nos à Misericórdia do Amoroso Pastor! Por isso, as palavras fortes deste tempo são: conversão, arrependimento, penitência, purificação, perdão, caridade, renovação!

No segundo deserto, Jesus nos ensina a fortaleza, a concentração, a resistência frente às tentações da nossa natureza humana: "...transforma esta pedra em pão!" (buscar a saciedade e o prazer fora da missão do Reino de Deus, priorizando o material); "...atira-te daqui para baixo!" (deixar tudo para a Providência divina, agindo com irresponsabilidade ou se omitindo, abandonando a luta e o esforço pelo Bem e pela Vida); "Tudo isto te darei, se prostrando, me adorares!" (querer o poder, traindo a verdade, deixando-se dominar pela ambição, soberba, vaidade, egoísmo, afastando-se da Igreja serva na humildade e na caridade, a exemplo de Cristo).

Aproveitemos este período propício à nossa renovação espiritual, para, com a graça e a força do Mestre, vencermos todas as sombras e fraquezas do nosso coração e nos fortalecermos com a Luz da Verdade de Deus, vencedores na Cruz do Senhor! Continuemos a nossa peregrinação quaresmal, como Igreja discípula-missionária, a exemplo de Maria, a Virgem Fiel, Estrela da Evangelização, em estado permanente de missão, como comunidade eclesial solidária, numa conversão pastoral, lavando nossos pecados na doação do amor de Cristo, pela Páscoa-libertação de muitos irmãos!

Que São José, homem justo, pai adotivo, amoroso e zeloso de Jesus e castíssimo esposo da Mãe do Senhor, interceda pelo caminho sinodal da nossa Igreja, ele que foi o administrador fiel da Casa de Deus e guia iluminado da Sagrada Família. Por sua intercessão e de Maria, Mãe da Igreja, seja abençoado e fortalecido sempre mais o ministério petrino do nosso querido Papa Francisco, nestes seus dez anos de pontificado, na profecia de seu testemunho do Amor cristão, na pobreza evangélica, no seu esforço de comunhão e de paz, na quaresma de suas dores e desafios, nas diretrizes de seu báculo de pastoreio, da alegria do Evangelho, de conversão e renovação eclesial.

Padre Luiz Cláudio Azevedo de Mendonça é assessor eclesiástico da Comunicação Institucional da Diocese de Nova Friburgo

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Um encontro com Cristo no deserto para reconstruir o homem e o mundo

segunda-feira, 13 de março de 2023

Vivemos num mundo agitado, com muita pressa, desgaste das pessoas, barulho e movimentos de interesse e produção para ganhar dinheiro, poder e prazer. Somos atacados por todos os lados por propagandas, marketing, poluições visuais e sonoras, notícias sobre violência, injustiças, mortes e maldades. A era da informação vai mergulhando os seres humanos num jogo quase inconsciente de conexões, compartilhamentos, aprisionamentos tecnológicos que isolam a pessoa, afastando-a de um verdadeiro "encontro" com o outro.

Vivemos num mundo agitado, com muita pressa, desgaste das pessoas, barulho e movimentos de interesse e produção para ganhar dinheiro, poder e prazer. Somos atacados por todos os lados por propagandas, marketing, poluições visuais e sonoras, notícias sobre violência, injustiças, mortes e maldades. A era da informação vai mergulhando os seres humanos num jogo quase inconsciente de conexões, compartilhamentos, aprisionamentos tecnológicos que isolam a pessoa, afastando-a de um verdadeiro "encontro" com o outro. O próprio pastoreio e a espiritualidade podem ficar perdidos e abandonados em meio a tanto sufocamento de atividades, planejamentos e saturação de material midiático.

É necessário romper este ritmo frenético e inquieto, ansioso e angustiado, que no fundo reflete um vazio na alma. É preciso silenciar dentro do coração o sentido mais profundo de ser e de viver nesta missão terrestre. Fazer uma importante quaresma existencial, numa atitude prolongada de reflexão, oração, contemplação e gratuidade. Rezar... há quanto tempo não paro para, calmamente, sem olhar para o relógio, ficar em oração? Meditar a Palavra de Deus, saboreando sua força e sua sabedoria, alimentando o espírito com a confirmação da graça do Senhor, fortalecendo-me para dizer não ao mal e praticar sempre as boas obras do Reino?

Este é um bom tempo - a Quaresma -, uma ótima oportunidade para pararmos e olharmos para dentro de nós mesmos e percebermos o que deve mudar para sermos mais felizes, nos conformando com a "imagem e semelhança" divina que está gravada em nós, desde a criação e com a dignidade de filhos de Deus que nos foi transmitida pelo sacrifício redentor de Jesus Cristo, lavando-nos de todo pecado e nos abrindo as portas da salvação eterna.

Somente no encontro com o nosso eu, dentro de nós, no diálogo com o rosto amigo do Senhor, é que conseguiremos descobrir a nossa identidade mais pura e verdadeira, sem maquiagens, sem protocolos, sem máscaras. A nossa pessoa autêntica, amada infinitamente por Deus e pronta, segura também para amar o próximo com este amor gratuito. Um retiro. Isto mesmo. Precisamos de uma pausa de quando em quando na caminhada e na luta da vida para nos recompormos espiritualmente, recarregar a bateria do ideal, da missão impulsionada por Cristo, preparando a grande Páscoa do Redentor na nossa história.

Então, estaremos mais aptos para servir como Jesus serviu. Com total entrega e profunda caridade. Tomando a dianteira nos gestos e atos de misericórdia e doação pelos irmãos, especialmente os mais marginalizados e feridos, os mais frágeis e excluídos, os que passam fome, como nos propõe a Campanha da Fraternidade deste ano, na missão conjunta pelo bem comum.

A  partir do exemplo amoroso e libertador de Jesus Cristo, devemos assumir a nossa participação na construção de uma família social mais justa e solidária, onde a cidadania não esteja separada da santidade, mas ao contrário seja a sua consequência e sinal, prefigurando a cidadania do céu, onde, definitivamente, não haverá desigualdades, nem exploração do homem pelo homem, nem violações de direitos, nem discriminações, nem qualquer outro tipo de pecado pessoal nem corporativo ou social. A paz, a verdade e a justiça do Reino de Deus se abraçarão, plantadas já aqui, muitas vezes no deserto das máquinas ou numa selva de manequins. Mas nunca devemos abandonar o cajado e nem perder a alegria do anúncio do Evangelho revitalizador, com a graça do Senhor.  

Esforcemo-nos cada vez mais, nesta conversão pessoal, comunitária, pastoral e "ecológica" para servir mais e melhor à comunicação transformadora do Coração Misericordioso de Cristo.

 Padre Luiz Cláudio Azevedo de Mendonça é assessor eclesiástico da Comunicação Institucional da Diocese de Nova Friburgo

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Quaresma: Tempo também para a conversão ecológica

segunda-feira, 06 de março de 2023

O pecado do homem de virar as costas para Deus, criou desordem não só na consciência, na integridade pessoal, não só na convivência social e relacionamento com o próximo, gerando desigualdades e injustiças, mas também causou um desequilíbrio na sua própria relação com a natureza.

A volta à unidade com a natureza, a casa comum

O pecado do homem de virar as costas para Deus, criou desordem não só na consciência, na integridade pessoal, não só na convivência social e relacionamento com o próximo, gerando desigualdades e injustiças, mas também causou um desequilíbrio na sua própria relação com a natureza.

A volta à unidade com a natureza, a casa comum

O ser humano, saindo da harmonia do Criador, perdeu também o senso de respeito e integração com a casa natural. As agressões cresceram à vegetação, às águas, aos animais, ao ar, à camada de ozônio, aos ecossistemas. Do egoísmo cego surge um galopante desmatamento, uma inconsciente degradação do solo, queimadas, poluição volumosa, contaminando e comprometendo os recursos hídricos, envenenando o ar, causando a maior incidência de raios solares e o aquecimento global. Avança a caça irracional, a pesca predatória, levando a extinção das espécies e a desorganização, o desequilíbrio ecológico. É o pecado de quem olha só para o seu interesse e para o seu imediato lucro ou vantagem, não se importando com os danos ao meio ambiente e consequentemente aos seres humanos.

Todos estes vários cenários estão indicados com profundidade e riqueza na Encíclica Social do Papa Francisco, a Laudato si, como em diversas campanhas da fraternidade da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), recordando e conscientizando de que é preciso preservar o que é de todos, a casa comum, a água, a terra, os biomas, especialmente a Amazônia... e no centro da Ecologia, o ser humano, totalmente integrado à ela, os indígenas, as populações ribeirinhas, os quilombolas, os pobres e miseráveis, os privados dos bens naturais, sedentos e famintos, os excluídos do sistema capitalista materialista, que devem ser resgatados e promovidos em sua dignidade de imagem e semelhança de Deus, filhos do Criador, irmãos do Redentor, templos do Espírito Santo.

É necessário criar uma generalizada consciência de responsabilidade ecológica, como um ato de conversão, de volta à sintonia com o plano da criação no respeito à ordem natural. Preservar a imensa riqueza da biodiversidade. Combater as agressões diversas. Promover a educação ambiental, como valorização e defesa da vida e da saúde de toda a comunidade social. Saber cuidar como o nosso irmão São Francisco da irmã natureza, como sagrado sinal da bondade e graça do Deus-Amor.

É importante protegermos a Amazônia grande reserva de vida da humanidade. Mas, também, devemos identificar as "nossas amazônias" bem perto de nós, na nossa cidade e região, os rios, as bacias, as matas, os impactos ambientais de empreendimentos industriais, comerciais, habitacionais, muitas vezes desastrosos, as campanhas que devemos fazer para manter a casa comum com todo equilíbrio para a vida e saúde de todos. Peçamos perdão ao Senhor pelas vezes em que nos omitimos na defesa da vida e da ordem natural, causando assim um grande mal a tantos irmãos, permitindo que a morte prevalecesse. Pelas vezes em que mesmo praticamos destruição ao meio ambiente, colaborando com projetos irresponsáveis no sentido ecológico. Pelas vezes em que nos esquecemos do ser humano não valorizando e protegendo a sua dignidade e vida desde a concepção até a morte natural, não lutando por seus direitos e integridade.

Queiramos a conversão total, não só um ponto ou outro. Busquemos a libertação integral, até porque não se pode separar uma postura da outra. São uma trindade. É na mudança da mentalidade e atitude fundante da estrutura pessoal que iremos reformar e transformar o social num espírito de comunhão e integração com toda a natureza criada. No respeito ao plano do Criador e seguindo o modelo do Salvador, no sopro do Espírito.

Padre Luiz Cláudio Azevedo de Mendonça é assessor eclesiástico da Comunicação Institucional da Diocese de Nova Friburgo

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Quaresma: Tempo de conversão pessoal, comunitária, pastoral

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

A quaresma é um tempo litúrgico da Igreja de 40 dias de preparação para a Páscoa, que se torna propício para uma reflexão mais aprofundada sobre a nossa vida espiritual, para nos arrependermos de nossos pecados e nos reaproximarmos da graça de Deus, numa conversão pessoal, social e pastoral.

A volta à unidade com Deus e com a própria consciência

A quaresma é um tempo litúrgico da Igreja de 40 dias de preparação para a Páscoa, que se torna propício para uma reflexão mais aprofundada sobre a nossa vida espiritual, para nos arrependermos de nossos pecados e nos reaproximarmos da graça de Deus, numa conversão pessoal, social e pastoral.

A volta à unidade com Deus e com a própria consciência

O afastamento de Deus, a falta de oração, a vaidade, a confiança demasiada nas próprias forças e capacidades, a frieza e indiferença ao projeto de Deus. Tudo isso faz com que nos percamos em nossos próprios planos e interesses e coloquemos pouco a pouco a Palavra de Deus em segundo lugar. Aí servimos não mais ao Senhor, mas a nós mesmos. Sem a referência da verdade de Deus, nos desfiguramos, desintegramos nossa personalidade, quebramos a nossa integridade, desrespeitamos a nossa dignidade, violamos a nossa própria consciência.

É preciso voltar à comunhão com Deus, com humildade, pela entrega na oração, agradecendo pelos dons e capacidades, bebendo da misericórdia divina, harmonizando o coração, reequilibrando a razão interior para ser verdadeiro discípulo e missionário, com a dignidade de filhos de Deus, reluzente, com uma só face, na paz de quem segue o Mestre que é o Caminho, Verdade e Vida. Peçamos perdão ao Senhor por nos afastarmos da Sua Luz e nos enfraquecermos. Por nos distanciarmos da Sua Força e nos enchermos de trevas e confusão. Por nos desintegrarmos, sem a Sua verdade, enchendo-nos de mentiras e justificativas para nossas vaidades.

 A volta à unidade com os irmãos

Quando nos fechamos a Deus, perdemos a nossa referência ética, nos escravizamos ao nosso próprio egoísmo e queremos virar o centro de tudo, relativizando os princípios morais, conforme a nossa conveniência. Isto, é claro, nos afasta também dos outros. Pois, sem vermos Deus como Pai, já não os vemos como irmãos, mas simplesmente como "concorrentes" que devem ser derrotados. Ou por nos sentirmos maiores ou melhores, os vemos apenas como peças manipuladas para o aumento do nosso poder, do nosso prazer ou nosso dinheiro.

Esta tríplice idolatria já fora acusada na III Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano (Celam) em Puebla, em 1979. E a realidade de uma multidão de excluídos e da indignidade da miséria de muitos lázaros no continente latino-americano, com enormes desigualdades sociais, já havia sido apontada na II Conferência em Medellín, em 1968. Tudo fruto da ambição, da soberba, da falta de amor ao próximo, pela falta de amor a Deus e de reconhecimento de sua vontade como verdade da ética pessoal e social.

Também o fechamento em si mesmo, nos torna insensíveis à cultura dos outros, nos achando "superiores", na autoidolatria de nossa linguagem, nossas expressões e valores, querendo impô-los aos irmãos. É o caso das discriminações culturais, étnicas, por motivos físicos, sociais, entre outros. Menospreza-se o negro, o indígena, o pobre, a pessoa com deficiência... E estamos, muitas vezes, bloqueados no coração e na razão para a inculturação do Evangelho, ou seja, a evangelização a partir das "sementes do Verbo", das riquezas e valores próprios do Bem de cada cultura, na autêntica promoção humana.

Sobre isto nos falou a IV Conferência de Santo Domingo, em 1992. Na linha do discipulado missionário, a partir de Cristo, modelo perfeito de amor e doação ao próximo, o qual deve provocar em nossas comunidades uma verdadeira conversão pastoral, como apresentou a V Conferência de Aparecida, em 2007. 

Peçamos perdão ao Senhor e mostremos a Ele que queremos voltar à unidade com os nossos irmãos, na solidariedade, no amor fraterno que nos leva a uma autêntica opção preferencial pelos mais pobres e o abandono de todas as vaidades e ambições. Queremos ser discípulos missionários, despojados de toda ilusão de poder, de toda embriaguez dos prazeres e de todo apego ao dinheiro.

Queremos compreender os valores de cada cultura, de cada irmão, com a humildade e a compaixão de Cristo, aproveitando de cada realidade as sementes divinas espalhadas na sabedoria da criação, livres de toda soberba, preconceito ou sentimento de superioridade em relação aos outros.

Padre Luiz Cláudio Azevedo de Mendonça é assessor eclesiástico da Comunicação Institucional da Diocese de Nova Friburgo

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Apresentação da Campanha da Fraternidade 2023: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14,16)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Caros irmãos, aproxima-se a Campanha da Fraternidade 2023 (CF). Por este motivo, trazemos para a reflexão desta semana a apresentação do Texto Base da CF-2023, de autoria da Presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Caros irmãos, aproxima-se a Campanha da Fraternidade 2023 (CF). Por este motivo, trazemos para a reflexão desta semana a apresentação do Texto Base da CF-2023, de autoria da Presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

A Campanha da Fraternidade é o modo brasileiro de celebrar a Quaresma. Ela não esgota a Quaresma. Dá-lhe, porém, o tom, mostrando, a partir de uma situação bem específica, o que o pecado pode fazer quando não o enfrentamos. Por isso, a cada ano, recebemos um convite para viver a Quaresma à luz da Campanha da Fraternidade e viver a Campanha da Fraternidade em espírito de conversão pessoal, comunitária e social.

Este ano, com o tema “Fraternidade e Fome”, somos convocados a considerar a fome como referência para nossa reflexão e nosso propósito de conversão. Temos, sem dúvida, fome de Deus. Desejamos estar com Ele e poder participar de seu amor e de sua misericórdia. Temos fome de paz, fraternidade, verdade, concórdia e tudo mais que efetivamente nos humaniza. Durante o tempo da pandemia, no qual, por medidas sanitárias que buscavam nos preservar, não pudemos ir às igrejas para comungar, sentimos fome do Pão do Céu.

A fome, bem sabemos, é um ato de preservação. É um sinal para que não nos distraiamos quando nosso organismo sente falta do necessário para viver. O que ocorre, porém, quando o alimento não chega a todo ser humano? O que faz uma sociedade ter filhos e filhas a quem, embora busquem, clamem, gritem e chorem, não chega o alimento? Por isso, a fome é também um desafio social, humanitário, uma situação que não se pode deixar de enfrentar, pois a fome de uns – a fome de uma só pessoa! – onera a todos nós, onera a sociedade inteira. Cada ser humano que não encontra o necessário para se alimentar é, em si, um questionamento a respeito dos rumos que estamos dando a nós mesmos e à nossa sociedade. A fome é um dos resultados mais cruéis da desigualdade. Afeta inicialmente os mais necessitados. Atende, contudo, a todos, diz respeito à sociedade inteira. Esta é a razão pela qual o Papa Francisco, sem rodeiros, afirma que “não há democracia se existe fome".

E o Brasil sente fome. Milhões de brasileiros e brasileiras experimentam a triste e humilhante situação de não poder se alimentar nem dar aos seus filhos e filhas o alimento indispensável a cada dia. Por isso, a CNBB apresenta, pela terceira vez, o tema da fome para a Campanha da Fraternidade (1975, 1985 e 2023).

Que, portanto, esta Quaresma seja vivida em forte espírito de solidariedade. Que nosso jejum abra nosso coração aos irmãos e irmãs que sofrem com a fome. Que nossa solidariedade seja intensificada. Que saibamos encontrar soluções criativas para a superação da fome, seja no nível mais imediato, assistencial, seja no nível de toda a sociedade. Que efetivamente se cumpra a responsabilidade dos governantes, em seus diversos níveis, concretizado políticas públicas, principalmente as de estado, que atinjam a raiz deste vergonhoso flagelo, garantindo não apenas a produção de alimentos, mas também que eles cheguem a cada pessoa, em especial as mais fragilizadas. Que o Senhor Jesus nos possa um dia dizer: “Vinde (...) eu estava com fome, e me destes de comer; todas as vezes que fizestes isso a um destes mínimos que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes!” (Mt 25, 34.40).

Abençoada Quaresma! Intensa Campanha da Fraternidade! Santo caminho até a Páscoa do Senhor, na oração, no jejum e na misericórdia.

Presidência da CNBB

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