Blog de paulafarsoun_25873

Árvore não tem pressa

sexta-feira, 20 de março de 2026
por Paula Farsoun

É tanta informação que me confunde. E, talvez, essa frase nunca tenha sido tão verdadeira quanto agora. Acordamos com notificações. Dormimos com o celular ainda na mão. Entre uma tarefa e outra, deslizamos o dedo pela tela como quem procura alguma coisa que nem sempre sabemos exatamente o quê. Notícias, opiniões, vídeos curtos, análises longas, urgências que surgem do nada. Tudo parece importante. Tudo parece imediato. Tudo parece exigir uma resposta. E, no meio disso, a gente vai ficando cansado sem perceber. Um tipo de esgotamento diferente e até perturbador.

É tanta informação que me confunde. E, talvez, essa frase nunca tenha sido tão verdadeira quanto agora. Acordamos com notificações. Dormimos com o celular ainda na mão. Entre uma tarefa e outra, deslizamos o dedo pela tela como quem procura alguma coisa que nem sempre sabemos exatamente o quê. Notícias, opiniões, vídeos curtos, análises longas, urgências que surgem do nada. Tudo parece importante. Tudo parece imediato. Tudo parece exigir uma resposta. E, no meio disso, a gente vai ficando cansado sem perceber. Um tipo de esgotamento diferente e até perturbador.

Não é só cansaço físico. É um cansaço mental, difuso, que embaralha ideias simples, que tira a clareza das decisões pequenas, que nos faz sentir atrasados mesmo quando não estamos. É como se o excesso de informação criasse um ruído constante dentro da cabeça que não silencia nem quando tudo ao redor está quieto.

A verdade é que fomos tragados por esse movimento de consumir informação como se isso fosse, por si só, sinônimo de evolução. Não fomos ensinados a parar. Cada pessoa que vemos porta um smartphone junto ao corpo, como parte indissociável dele.

Acontece que nosso cérebro também precisa de intervalo. Que o silêncio não é perda de tempo. Que não absorver tudo é, na verdade, uma forma de proteção. E talvez seja por isso que, em algum momento, o simples se torna quase revolucionário. Olhar uma árvore, por exemplo. Pode parecer pouco. Pode parecer até ingênuo. Mas não é.

Uma árvore não tem pressa. Não disputa atenção. Não tenta convencer ninguém de nada. Ela só está ali, suficiente em si mesma. E, quando a gente se permite observar, algo dentro de nós começa a desacelerar também. O vento nas folhas, a textura do tronco, a sombra que se move devagar. Tudo isso acontece fora da lógica da urgência. E, por alguns instantes, a gente também pode sair dela.

Não se trata de ignorar o mundo. Nem de fugir das responsabilidades. Trata-se de lembrar que existe vida para além da enxurrada de estímulos. A pausa não é um luxo. É uma necessidade. Porque, sem pausa, a informação deixa de esclarecer e passa a confundir. Sem pausa, a gente perde o critério. Perde a sensibilidade. Perde até a capacidade de distinguir o que realmente importa.

Chega um momento em que, se conscientemente não praticarmos a pausa, não pararmos de buscar por mais e mais conteúdo, mais estímulos, respostas, explicações, interações, não vamos dar conta. Tenho batido nesta tecla por aqui, mas não apenas nos textos. Venho buscando praticar essas reflexões e os resultados têm sido muito bons, como esperado. Venho priorizando o tempo com mais qualidade, o contato com a natureza como prioridade, menos volume, mais afetos.

De vez em quando, é simplesmente parando e contemplando uma árvore que investimos nossa vida no que interessa, porque ressignificar o que andamos fazendo com nossas mentes conectadas é necessário. O vazio também abre espaço para o  mundo.

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Sigo acreditando

sexta-feira, 13 de março de 2026
por Paula Farsoun

Diante de um enorme desafio sem precedentes, questionou-se a um jovem se ele iria encará-lo, ao que ele respondeu de forma óbvia que sim. Ele não era de se curvar às barreiras. Havia aprendido que ser forte também é uma questão de treinamento, de aprimoramento. Habitava nele uma força interior que impulsionava a energia para a execução e a transposição de qualquer obstáculo.

Diante de um enorme desafio sem precedentes, questionou-se a um jovem se ele iria encará-lo, ao que ele respondeu de forma óbvia que sim. Ele não era de se curvar às barreiras. Havia aprendido que ser forte também é uma questão de treinamento, de aprimoramento. Habitava nele uma força interior que impulsionava a energia para a execução e a transposição de qualquer obstáculo.

Tem gente que olha para o céu e agradece quando as oportunidades surgem ainda que venham acompanhadas de dedicação extrema, de trabalho árduo. Gente que acolhe uma missão e por ela se transforma no melhor que pode ser. Gente que não se acomoda, que encara, vai à luta, mesmo diante das dificuldades e da desconfiança dos outros, das indagações constantes sobre se é ou não capaz de dar conta do que está por vir. É claro que ele é capaz. Ele acredita nisso e faz acontecer.

Dá a sensação de que pessoas com esse perfil de enfrentamento e superação trazem em seu DNA a marca da coragem, apesar de todo medo pelo novo, pela missão grandiosa que pode estar por vir.

Seria bom se os jovens fossem incentivados e encorajados a darem o melhor de si para vencerem a si mesmo e aos desafios impostos pela vida. Podem ser grandiosas oportunidades de crescimento e evolução, instrumentos úteis à formação de uma sociedade em que superar desafios pessoais em prol de um objetivo, de um projeto, de um trabalho seja valorizado.

Não é questão de retorno financeiro. Não apenas. É questão também de repercussão social. De ser exemplo para outras pessoas que continuam investindo sua energia e acreditando que vencer obstáculos pode ser uma forma eloquente de crescimento pessoal e profissional. Ser jovem que ensina jovem; que acredita em jovem; que aprende com jovem; que compartilha com jovem. Ser jovem que vai encarar sim, o que der e vier, com dignidade e hombridade. É disso que estou falando.

Que esse jovem corajoso que vai vencer o mundo – o seu mundo, tenha força e sabedoria para investir o mais nobre de si na construção de algo melhor.

Há que se endossar cada palavra e concordar com Gonzaguinha quando pronunciou a bela canção que diz assim: “Eu acredito é na rapaziada/ que segue em frente e segura o rojão/ eu ponho fé é na fé da moçada/ que não foge da fera e enfrenta o leão. Eu vou à luta com essa juventude/Que não corre da raia a troco de nada/Eu vou no bloco dessa mocidade/Que não tá na saudade e constrói a manhã desejada.”

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Ostentação?

sexta-feira, 06 de março de 2026
por Paula Farsoun

Simplicidade hoje em dia é ostentação. Ausência de complicação. Desnecessidade de dificultar as coisas. Capacidade em atribuir valor àquilo que muitas vezes não tem preço. Apreciar um pôr do sol, por exemplo. Respirar o ar puro do campo. Conversar com pessoas que têm estórias para contar. Contemplar uma árvore, comer um bom arroz com feijão, tomar um cafezinho fresco, receber um abraço de uma pessoa querida, desinteressada, que só deseja a partilha do afeto, fazer uma caminhada, dormir em paz, com a consciência tranquila e deleitar o bom sono dos justos.

Simplicidade hoje em dia é ostentação. Ausência de complicação. Desnecessidade de dificultar as coisas. Capacidade em atribuir valor àquilo que muitas vezes não tem preço. Apreciar um pôr do sol, por exemplo. Respirar o ar puro do campo. Conversar com pessoas que têm estórias para contar. Contemplar uma árvore, comer um bom arroz com feijão, tomar um cafezinho fresco, receber um abraço de uma pessoa querida, desinteressada, que só deseja a partilha do afeto, fazer uma caminhada, dormir em paz, com a consciência tranquila e deleitar o bom sono dos justos.

Viver de forma simples é absolutamente compatível com uma vida próspera e bem-sucedida. É a minha opinião. Aliás, há quem só se sinta no ápice de suas conquistas quando encontra tempo em suas agendas para se aproximar do que há de mais simples e sofisticado que pode haver: a natureza. Natureza das coisas e natureza das pessoas. Essência dos seres.

Talvez estejamos complicando demais. A realidade já anda difícil por si só. Por mais que busquemos a paz interior e um estilo de vida compatível com as mais valiosas virtudes, somos partes de um todo que está desintegrado, problemático, adoentado. Não há como negar. Somos linhas que compõem esse emaranhado complexo, razão pela qual a busca pelo eixo da simplicidade nos reconecta de alguma maneira com aquilo que traz a verdadeira felicidade.

Muitos confundem uma vida simples com uma vida desprovida de condições básicas de existência, o que não é uma verdade absoluta. E é justamente esse ponto que me encanta. Batalhar, crescer, viver em harmonia com o ambiente, prosperar honestamente e ainda assim não precisar complicar tudo para sentir o preenchimento de coisas que não são úteis, não são necessárias, não trazem conforto e nem felicidade. E ainda assim sentir extrema felicidade em poder acompanhar um caminho de formigas no chão. Em ter tempo para preparar bolinhos de chuva no entardecer. Em ouvir cigarras cantando. Em ler um livro.

Sinto um imenso prazer quando troco sorriso sincero com alguém, quando percebo que as pessoas com quem interajo saem melhores do ambiente quando nos encontramos. Maior satisfação sinto ainda quando é a minha tristeza que se esvai pela presença do outro. Mas nada supera a alegria de ver quem amamos sorrindo de verdade. Quando eu observo de verdade, no meu ciclo de convívio, percebo nitidamente que os momentos mais felizes são puramente simples, que as pessoas que ostentam um sorriso real no rosto têm uma maneira de encarar a vida de forma descomplicada. Normalmente, gente que dá valor à essência da vida. Acho deveras maravilhoso.

Definitivamente, para mim, com tantos excessos, materialismo e egoísmo, viver de forma genuinamente simples é um baita luxo.

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Depois da chuva

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
por Paula Farsoun

As tragédias retiram as camadas de verniz social e nos colocam diante do que realmente somos, enquanto indivíduos e coletividade. As fortes chuvas que atingiram a Zona da Mata mineira nos últimos dias trouxeram enxurradas, deslizamentos, perdas humanas e materiais. Trouxeram também o peso do silêncio nas cidades alagadas, o cheiro de barro nas casas invadidas pela água, o desamparo de famílias que, em poucas horas, viram a rotina ser arrastada pela correnteza. Vidas ceifadas, do nada. Famílias que perderam seus entes queridos. Lares derretidos.

As tragédias retiram as camadas de verniz social e nos colocam diante do que realmente somos, enquanto indivíduos e coletividade. As fortes chuvas que atingiram a Zona da Mata mineira nos últimos dias trouxeram enxurradas, deslizamentos, perdas humanas e materiais. Trouxeram também o peso do silêncio nas cidades alagadas, o cheiro de barro nas casas invadidas pela água, o desamparo de famílias que, em poucas horas, viram a rotina ser arrastada pela correnteza. Vidas ceifadas, do nada. Famílias que perderam seus entes queridos. Lares derretidos. Comerciantes que fecharam as portas sem saber quando reabrirão. Trabalhadores que perderam documentos, móveis, memórias. Crianças fora da escola. Estradas interrompidas. Pontes comprometidas. O cotidiano suspenso.

Já vivemos isso aqui na Região Serrana. Somos friburguenses e nos arrepiamos com trovões, tememos as chuvas e guardamos no peito sequelas de perdas inenarráveis. Sabemos a dor que é. O cenário de barro e medo nos é familiar. Infelizmente. Mas se há algo que me chama atenção nessas situações extremamente sensíveis e tristes, é que em meio ao caos, há um movimento de solidariedade que nasce quase instintivamente.

A solidariedade não é discurso. Não é postagem. Não é frase bonita em rede social. Solidariedade é gesto. É colo. Conforto. Ação para minimizar a dor do outro. É o vizinho que oferece abrigo. É a igreja que vira ponto de arrecadação. É o pequeno empresário que, mesmo com prejuízo, doa parte do estoque. É a professora que mobiliza alunos para recolher mantimentos. É o desconhecido que separa roupas em bom estado porque entende que dignidade também se doa.

Nós, que trabalhamos de alguma forma com a palavra sabemos que conceitos podem ser fáceis de definir. Difícil é vivê-los. Praticá-los. Solidariedade não é pena. Não é caridade vertical. É reconhecimento de humanidade comum. É compreender que a vulnerabilidade do outro poderia ser a nossa.

As enchentes e os deslizamentos de terras escancaram também problemas estruturais que muitos insistem em tratar como exceções: ocupação irregular, ausência de planejamento urbano eficaz, drenagem insuficiente, falta de políticas preventivas consistentes. Toda tragédia climática é, em parte, natural. Mas suas consequências comumente são sociais.

E é justamente nesse ponto que a solidariedade precisa ultrapassar o emergencial. Doar água e colchões é urgente e indispensável. Mas também é necessário cobrar planejamento, políticas públicas sérias, investimento em infraestrutura e prevenção. Solidariedade madura transmutada em compromisso.

Vivemos tempos de individualismo performático. Cada um fechado em suas próprias urgências. No entanto, basta a chuva cair com força desmedida para lembrarmos que somos vulneráveis. Que somos interdependentes. Que cidade não se constrói sozinho. Que comunidade não se sustenta sem laços.

Talvez a grande lição das águas seja essa: tudo pode ser levado em minutos, menos aquilo que escolhemos fazer uns pelos outros. Que a lama seque. Que as casas sejam reconstruídas. Que as escolas reabram. Que as estradas sejam refeitas. Mas que a solidariedade não seja passageira como a enxurrada. Que ela permaneça. Que ela se transforme em cultura, em política, em responsabilidade coletiva.

No final das contas, enquanto sociedade, o maior desafio não se resume à intensidade da chuva que enfrentamos, mas a forma como decidimos atravessá-la. Com o desejo de que as coisas melhorem, que vidas sejam salvas e que desfechos trágicos sejam prevenidos, estimamos que a solidariedade não seja apenas resposta efêmera, mas escolha permanente de quem decide construir, todos os dias, uma sociedade que não abandona os seus quando a água baixa.

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O ano já tinha começado

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Todo ano eu ouço a mesma frase: “Depois do Carnaval eu começo”. Como se janeiro e fevereiro fossem uma espécie de prólogo da vida, um tempo em que nada conta muito. Um intervalo tolerável para adiar decisões, planos e responsabilidades. O problema é que, quando o Carnaval passa, a sensação não é exatamente de começo. É de atraso.

Todo ano eu ouço a mesma frase: “Depois do Carnaval eu começo”. Como se janeiro e fevereiro fossem uma espécie de prólogo da vida, um tempo em que nada conta muito. Um intervalo tolerável para adiar decisões, planos e responsabilidades. O problema é que, quando o Carnaval passa, a sensação não é exatamente de começo. É de atraso.

Enquanto as pessoas empurram o ano com a barriga, o calendário segue implacável. O trabalho não espera, os prazos não entram em clima de folia, as contas continuam chegando. A vida não suspende o expediente só porque tanta gente resolve tratar os primeiros meses como aquecimento.

O pós-Carnaval tem algo de interessante, na minha percepção. Ele traz lucidez. De repente, março chega com cara de cobrança. Não porque algo novo começou, mas porque finalmente percebemos que já deveríamos estar em movimento há algum tempo.

Talvez a gente goste tanto dessa ideia de “ano que começa depois” porque ela nos dá um álibi confortável. Um motivo socialmente aceito para não fazer agora. Para não decidir, não mudar, não enfrentar. Afinal, “ainda é começo de ano”. Só que o tempo não reconhece esse acordo informal. Ele passa do mesmo jeito.

O ano começa quando a rotina volta, mesmo sem entusiasmo. Quando a motivação falta, mas a gente vai assim mesmo. Quando entendemos que mudança raramente vem com empolgação — quase sempre vem com disciplina, constância e um certo cansaço no meio do caminho.

Depois do Carnaval não é recomeço. É espelho. Ele mostra o que ficou pendente, o que foi adiado, o que continua exatamente no mesmo lugar. E isso incomoda, porque tira da gente a fantasia de que ainda dá tempo de começar “direito”.

Se o ano já começou, a pergunta não é mais “quando eu vou começar?”, mas “como eu vou seguir daqui pra frente?” Sem culpa pelo que ficou para trás. Sem promessas grandiosas demais. Apenas com a consciência de que adiar a própria vida nunca foi uma estratégia muito inteligente.

Depois do Carnaval, o ano não começa. Ele continua. E cabe a nós decidir se vamos apenas correr atrás do tempo, ou finalmente caminhar junto com ele. É isso, o ano já tinha começado. A questão é quando a gente resolve acompanhar.

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Grama furta-cor

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Pois então. A grama do vizinho é realmente mais verde que a nossa? Por que tanta gente acha que os sonhos realizados pelo outro são mais fáceis de serem alcançados? Que na casa dos outros não tem bagunça, que o casal lindo que vemos pelas fotos das redes sociais não tem contas a pagar? De onde o ser humano tira a ideia de que o melhor está lá e não aqui ?


Pois então. A grama do vizinho é realmente mais verde que a nossa? Por que tanta gente acha que os sonhos realizados pelo outro são mais fáceis de serem alcançados? Que na casa dos outros não tem bagunça, que o casal lindo que vemos pelas fotos das redes sociais não tem contas a pagar? De onde o ser humano tira a ideia de que o melhor está lá e não aqui ?

Acho que falta gratidão no mundo. Percebo uma zona cinzenta em que um contingente incontável de seres habitam. O dia de hoje está aquém do que deveria estar, e ao mesmo tempo, quando a coisa piora, se percebe que aquele dia estava, na verdade, muito bom.

Uma comparação constante e massiva com o colega do lado. Uma observação para o que acontece do lado de fora que cega as pessoas para o lado de dentro de seus lares e seus corações. Dá medo. Eu não quero sentir isso e desejo fortemente que não sintam isso em relação a mim.

Muita gente já não se contenta mais em ter saúde e paz. Faltam as fotos maravilhosas de viagens, o príncipe encantado, o melhor emprego, a casa mais frondosa. A vitrine das redes sociais, a meu ver, tem sido um portal para essa ilusão de que a vida do outro é mais feliz que a nossa. Prosperar é lindo. Amar e ser amado é uma dádiva. A realização profissional é uma alegria. Viajar é uma maravilha. O esquisito é o grau de comparação muitas vezes doentio que mingua algumas pessoas. 

Falta gratidão. Só pode ser. A partir do momento em que uma pessoa agradece por tudo o que é, pelo que faz e pelo que possui, a coisa muda de figura. Na verdade, a grama do outro passa a não ter tanta importância. Quando somos gratos pelas oportunidades que temos, pela vida que nos é dada, pela proteção diária, pelas pessoas que nos cercam, conseguimos olhar para o outro com admiração e alegria por suas conquistas. Não com inveja. Não com cobiça.

Se é para olharmos para o outro lado do muro, que seja então para observarmos o tanto de esforço aquele "vizinho" emprega em prol de suas conquistas. E então, nos esforçarmos também. Empenho precede o resultado. Grandes conquistas decorrem de emprego de energia, preparação, renúncias, investimento de tempo, etc etc etc. Salvo se a grama do vizinho for sintética, ela requer plantio e cuidados. E ainda que seja sintética, requer possibilidade de compra, que demanda trabalho, dinheiro, prioridade e por aí vai. Não é de graça. Não é à toa. Não somos um amontoado de seres aleatórios em que coisas boas acontecem arbitrariamente para os outros e as ruins, para mim.   

Somos resultado do que fazemos para mudar, para melhorar, para aprimorar. São mesmo dias de luta e dias de glórias. É a vida.

Se o vizinho tem um relacionamento saudável e feliz, o que ele fez por merecer? Felicidade no amor não é para qualquer um. Tem que merecer, deve se dedicar, jogar energia boa para o universo, respeitar as pessoas, ser sincero, acolher o lado bom das pessoas. Não dá para ser um caçador de defeitos, andar com uma lupa para o negativo e encontrar pessoas maravilhosas com quem conviver. Somos todos imperfeitos. Todos. A grama alheia também pode ser. Não se pode julgar pela aparência.

Em tempos de terreno ermo, barreado, cheio de lama, a gente desanima. Mas aí é que temos que buscar aquela força que todos temos e poucos sabemos. A força de dentro. A mola da possibilidade de superação e realização.

Falar é fácil, exercer essa ideia é mais difícil. Eu sei. Mas não subestimo nossa capacidade de decidir e perseguir o objetivo. O que eu quero? Ser grata em qualquer circunstância. Amar meu próprio jardim, mesmo quando as ervas daninhas insistirem em castigá-lo. E desejar que o jardim do outro se torne tão garboso quanto eu quero que seja o meu.

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Não aos excessos

sexta-feira, 06 de fevereiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

A coluna de hoje começa com uma citação atribuída ao escritor colombiano vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, Gabriel García Márquez: “O mais importante que aprendi a fazer depois dos 40 anos foi a dizer não quando é não.”

Baita aprendizado. Dizer um “não” dói em muita gente. Há quem sofra a ponto de não conseguir fazê-lo. Há quem diga “sim” para tudo e todos, se gastando por inteiro e fazendo pouco das migalhas de tempo e energia que sobram para si.

A coluna de hoje começa com uma citação atribuída ao escritor colombiano vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, Gabriel García Márquez: “O mais importante que aprendi a fazer depois dos 40 anos foi a dizer não quando é não.”

Baita aprendizado. Dizer um “não” dói em muita gente. Há quem sofra a ponto de não conseguir fazê-lo. Há quem diga “sim” para tudo e todos, se gastando por inteiro e fazendo pouco das migalhas de tempo e energia que sobram para si.

Quem não impõe limites, não conhece as próprias vontades e não aprende a priorizar e selecionar, provavelmente está sempre envolto pela sensação de não ter tempo. E aí o ciclo se vai. E se esvai. Falta energia. Parecem as próprias escolhas. Para cada tarefa nova assumida, um sonoro “não” é ouvido intimamente. Quem sofre de não saber dizer “não”, sabe o peso gerado pelo acúmulo de afazeres assumidos.

Refiro-me àqueles que estão sobrecarregados justamente por não conseguirem respeitar seus limites e assumirem menos do que o mundo exterior demanda deles. Desde as pequenas coisas às grandiosas. Desde futilidades às funções elementares.

Um dia, a vida ensina que a cada “não” sentenciado, podem ser abertas portas para inúmeros “sim”. Sim, a vida é feita de escolhas sob muitos aspectos, e aprender a escolher, a aprender a impor limites, a respeitar sua própria capacidade, inclusive de discernir o que deve e o que não deve, o que pode e o que não pode, o que quer e o que não quer, é mesmo um tremendo e precioso aprendizado.

Para além daquelas coisas que só aprendemos com a preciosa maturidade, com o passar do tempo e as pancadas da vida, tenho por certo que o autoconhecimento ajuda bastante nesse processo. Há “nãos” na vida que não podem ser ditos. Isso é um fato. Porém, há muitos outros que são frutos de escolhas que tomamos sem reflexão alguma. Que dizemos “sim” sem pensarmos.

É preciso refletirmos sobre o que se deve fazer por obrigação de trabalho. O que se deve fazer por amor. O que se deve fazer por missão de civilidade. O que fazer por prazer. Ou por necessidade. Ou pelo querer. Ou por responsabilidade. Ou por compromisso. Ou fazer por fazer. E o que é excesso. Separar o joio do trigo. É bom que o movimento seja cauteloso, porque não duvido que a conclusão a que podemos chegar é deveras angustiante: a de que muito do que fazemos a cada dia pode ser excessivamente oneroso para nossas próprias vidas.

A sobrecarga, o peso, o arrependimento, a culpa pela imperfeição, o acúmulo de tarefas, a falta de tempo são consequências dessa incapacidade de delimitar limites, e aqui me permito a redundância das palavras.

Ao aprender, finalmente, a dizer necessários “nãos” para certas coisas, podemos conseguir nos cuidar mais, amar mais nosso ofício, destinar mais tempo à família, fazer as tarefas com mais paz e a viver com maior qualidade de vida. O tal tempo de qualidade, é verdade. O tão desejado...

Por vezes, é dizendo “não” aos excessos de tudo e às demandas infinitas que estamos escolhendo vivenciar o “sim” para nós mesmos.

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A fadiga das certezas instantâneas

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Não sei em que momento exato passamos a confundir acesso à informação com sabedoria. Talvez tenha sido gradual, imperceptível, como tantas outras transformações que só percebemos quando já estamos imersos demais para recuar.

Vivemos em uma época em que a informação transborda. Cai sobre nós em avalanche. Não pede licença. Não tem critério. Apenas se impõe. E quando nos damos conta, estamos tomados, imersos em tantas imagens, dados, frases, lições, notícias, barulho e vida alheia, que fica difícil de sair. E vamos nos viciando em caos, em excessos.

Não sei em que momento exato passamos a confundir acesso à informação com sabedoria. Talvez tenha sido gradual, imperceptível, como tantas outras transformações que só percebemos quando já estamos imersos demais para recuar.

Vivemos em uma época em que a informação transborda. Cai sobre nós em avalanche. Não pede licença. Não tem critério. Apenas se impõe. E quando nos damos conta, estamos tomados, imersos em tantas imagens, dados, frases, lições, notícias, barulho e vida alheia, que fica difícil de sair. E vamos nos viciando em caos, em excessos.

O mundo nos fala sem cessar. Opina, sentencia, acusa, absolve. Tudo em tempo real, tudo em alta velocidade, tudo com a convicção própria de quem não admite hesitação. As redes sociais transformaram-se em uma espécie de tribunal permanente, onde cada postagem parece exigir uma posição, cada silêncio é interpretado como omissão e cada dúvida, como fraqueza.

Deslizamos o dedo pela tela quase como respiramos e, com ele, pela vida alheia, pelas dores alheias, pelas verdades alheias. Consumimos indignações como quem consome manchetes. Absorvemos diagnósticos como se fossem laudos irrefutáveis. Incorporamos discursos como se fossem convicções próprias. E, sem perceber, vamos nos tornando eco.

A cada rolagem, uma nova verdade. A cada vídeo, uma nova autoridade. A cada postagem, um novo padrão a ser seguido, uma nova causa a ser abraçada, um novo medo a ser incorporado. E, sem perceber, deixamos de pensar com autonomia para pensar por contágio. Talvez este seja o maior risco do nosso tempo: terceirizar o próprio juízo.

Não se trata de negar a importância das redes sociais. Elas informam, aproximam, conectam, partilham, denunciam, mobilizam. Mas também moldam, pressionam, distorcem. São uma fábrica constante de comparações e imposições que podem ser nocivas. A lógica da viralização não é a lógica da verdade; é a lógica do impacto. E impacto não é sinônimo de profundidade.

O problema não está na informação e muito menos em nossa busca por ela. O ponto de questionamento está em se permitir ser moldado por tudo, por todos, o tempo todo, sem pausa para pensamento. Sem reflexão, sem racionalização, sem senso crítico. A lógica das redes não é a lógica da prudência, nem da ponderação, muito menos da complexidade. Ela privilegia o recorte, o choque, a frase de efeito. A nuance não viraliza. A dúvida não gera engajamento. O silêncio não rende métricas. E, no entanto, pensar exige exatamente isso: silêncio, tempo, distanciamento.

Há algo profundamente humano em não saber de imediato, em precisar refletir, em desconfiar da própria reação inicial. A autonomia intelectual nasce desse espaço de demora, desse intervalo entre o estímulo e a resposta. Quando tudo é imediato, quando tudo é reativo, resta pouco espaço para o pensamento autêntico.

Não se deixar influenciar por tudo o que se vê nas redes sociais é, talvez, um dos últimos gestos de liberdade do nosso tempo. É uma forma de resistência contra a uniformização das consciências, contra a delegação do juízo crítico, contra a tentação confortável de pensar por adesão.

As redes gritam. O mundo digital exige posicionamentos instantâneos. Mas a consciência não funciona sob a lógica do algoritmo. Os sentimentos não cabem em recortes, frases curtas ou imagens formatadas. A verdade é que levamos uma vida inteira elaborando nossos sentimentos e às vezes não damos conta.

A maturidade intelectual talvez consista justamente em aprender a filtrar. Compreender que nem tudo merece nossa atenção, que nem toda indignação precisa ser compartilhada, que nem toda narrativa é completa. A sabedoria está menos em consumir informação e mais em digeri-la. Não se deixar influenciar por tudo o que se vê nas redes sociais não é alienação; é higiene mental. É um ato de resistência contra a pasteurização do pensamento. É lembrar que, antes de sermos usuários, somos sujeitos.

O mundo digital fala alto, rápido e sem pausa. Mas pensar ainda exige silêncio. E silêncio, hoje, é quase um ato revolucionário.

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A tal empatia

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Empatia: no dicionário, é definida como a capacidade de se colocar no lugar de outra pessoa, buscando agir ou pensar da forma como ela pensaria ou agiria; compreensão. Você tem a habilidade da compreensão? O lugar do outro te parece confortável?

Empatia: no dicionário, é definida como a capacidade de se colocar no lugar de outra pessoa, buscando agir ou pensar da forma como ela pensaria ou agiria; compreensão. Você tem a habilidade da compreensão? O lugar do outro te parece confortável?

Apenas com o recorte daquilo que se vê, muito pouco ou quase nada de alguém, é possível exercitar ocupar ainda que em pensamentos esse lugar? Com dores, amores e dissabores. Parece fácil ir a um lugar que não é seu avistar paisagem bonita, jardim frondoso, experiência próspera, ao passo de que se faz muito difícil ir até lá se o terreno lhe parece arenoso, encoberto de tristeza e dor. E diante disto que é uma certeza, é possível fingir que nada acontece e viver em uma simbólica ilusão de que tudo está bem quando na verdade o caos habita se não nos nossos lares, nos dos vizinhos, nos vizinhos dos nossos vizinhos e por aí vai.

Você conseguiria ainda exercitar a empatia imaginando a dor de quem não ama? Me parece mais simples compreendermos pelo amor, entendermos melhor quem gostamos, nos colocar nos lugares das pessoas queridas. E dos demais? E quanto aos estranhos, àqueles sobre os quais nada sabemos, com quem nunca trocamos, que nada têm a nos oferecer? Conseguimos nos colocar em seus lugares? Alcançamos a dor de um filho que perde um pai? De um colega que perde o emprego? De uma pessoa enferma no leito de um hospital? De alguém que se separa? Que sofre de uma doença psíquica? Que se sente só? Destilamos atos de compreensão por todos ou seguimos com uma bondade seletiva que pouco ou nada vê além de nós mesmos?

Não faça aos outros aquilo que não gostaria que fizessem com você. É tão simples assim como parece? Deveria ser. Comumente vivemos situações embaraçosas, desconfortáveis, angustiantes e sentimo-nos tristes e sobrecarregados. Situações essas que não raras vezes poderiam ter sido evitadas se nossos interlocutores da vida pensassem em evitar fazer às pessoas aquilo que abominariam que impusessem a elas. Seria bem mais fácil.

Mas, se coabitamos o mesmo planeta, talvez todos já tenhamos entendido ou estejamos próximos de compreender, que essa interação de mentes, de gente, de egos e valores, não é tão simples assim. Não é premissa básica uníssona que evitar impor aos outros coisas que detestaria que nos impusessem pode minimizar o sofrimento e o estresse do próximo. É importante até mesmo considerar que múltiplos que somos, não necessariamente partilhamos de dores semelhantes, de modo que às vezes o agir inconsciente atropela qualquer raciocínio sobre o estado de espírito dos receptores de nossas condutas por eles recepcionadas como negativas.  E por aí vai.

Carecemos de uma percepção mais inteligente. Emocionalmente mais inteligente, que considere também os outros, a sociedade como um todo e mesmo o planeta. Talvez devêssemos perceber que há questões que de maneira geral ferem, causam transtorno, prejudicam e geram sofrimento. Não é tão difícil supor que determinadas ações magoam, desestabilizam, deixam as pessoas em apuros de várias ordens.

Gostaria muito que fosse tão simples quanto parece. Que escolher ser pessoa leve fosse tudo de que precisássemos para efetivamente estarmos envoltos pela leveza todo o tempo. Às vezes, o é. Mas como não vivemos em uma bolha e nossas energias se entrelaçam com as dos outros o tempo todo, passa a ser uma arte e uma habilidade diferenciada sabermos nos defender da negatividade, da injustiça, da grosseria, da sobrecarga que nos impõem e ainda assim, seguirmos gratos e sem disseminar o mesmo nível de pensamentos, sentimentos e condutas por aí.

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A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

​Apuros

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Não faça aos outros aquilo que não gostaria que fizessem com você. É tão simples assim como parece? Deveria ser. Comumente vivemos situações embaraçosas, desconfortáveis, angustiantes e sentimo-nos tristes e sobrecarregados. Situações essas que não raras vezes poderiam ter sido evitadas se nossos interlocutores da vida pensassem em evitar fazer às pessoas aquilo que abominariam que impusessem a elas. Seria bem mais fácil.

Não faça aos outros aquilo que não gostaria que fizessem com você. É tão simples assim como parece? Deveria ser. Comumente vivemos situações embaraçosas, desconfortáveis, angustiantes e sentimo-nos tristes e sobrecarregados. Situações essas que não raras vezes poderiam ter sido evitadas se nossos interlocutores da vida pensassem em evitar fazer às pessoas aquilo que abominariam que impusessem a elas. Seria bem mais fácil.

Mas, se coabitamos o mesmo planeta, talvez todos já tenhamos entendido ou estejamos próximos de compreender, que essa interação de mentes, de gente, de egos e valores, não é tão simples assim. Não é premissa básica uníssona que evitar impor aos outros coisas que detestaria que nos impusessem pode minimizar o sofrimento e o estresse do próximo. É importante até mesmo considerar que múltiplos que somos, não necessariamente partilhamos de dores semelhantes, de modo que às vezes o agir inconsciente atropela qualquer raciocínio sobre o estado de espírito dos receptores de nossas condutas por eles recepcionadas como negativas. E por aí vai.

Carecemos de uma percepção mais inteligente. Emocionalmente mais inteligente, que considere também os outros, a sociedade como um todo e mesmo o planeta. Talvez devêssemos perceber que há questões que de maneira geral ferem, causam transtorno, prejudicam e geram sofrimento. Não é tão difícil supor que determinadas ações magoam, desestabilizam, deixam as pessoas em apuros de várias ordens.

Gostaria muito que fosse tão simples quanto parece. Que escolher ser pessoa leve fosse tudo de que precisássemos para efetivamente estarmos envoltos pela leveza todo o tempo. Às vezes, o é. Mas como não vivemos em uma bolha e nossas energias se entrelaçam com as dos outros o tempo todo, passa a ser uma arte e uma habilidade diferenciada sabermos nos defender da negatividade, da injustiça, da grosseria, da sobrecarga que nos impõem e ainda assim, seguirmos gratos e sem disseminar o mesmo nível de pensamentos, sentimentos e condutas por aí.

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