Sobre afetos e bancos

Paula Farsoun

Com a palavra...

Paula é uma jovem friburguense, advogada, escritora e apaixonada desde sempre pela arte de escrever e o mundo dos livros. Ama família, flores e café e tem um olhar otimista voltado para o ser humano e suas relações, prerrogativas e experiências.

segunda-feira, 06 de abril de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Havia uma pequena praça no centro de uma cidade que ninguém mais reparava. Não porque ela fosse feia, mas porque, como acontece com tudo que é constante, tornou-se invisível.

No meio da praça, existia um banco de madeira antigo, daqueles que rangem levemente quando alguém se senta. Ele já tinha visto de tudo: encontros apressados, despedidas silenciosas, promessas que não resistiram ao tempo e outras que floresceram apesar dele. Ele tinha chicletes grudados e testemunhou conversas que nem podem ser transcritas.

Certo dia, duas pessoas passaram a ocupar aquele banco com frequência. Não havia grandes declarações, nem gestos teatrais. À primeira vista, pareciam apenas companhia uma da outra. Mas, com o passar dos dias, algo curioso aconteceu: o banco deixou de ranger. Não porque estivesse novo, longe disso... Mas porque o peso que ali repousava era leve. Era feito de presença, não de cobrança. De escuta, não de pressa. Era o tipo de encontro que não exige explicação, apenas continuidade.

As estações mudaram. Vieram dias de sol intenso, outros de chuva persistente. Em alguns momentos, apenas um dos dois aparecia. Sentava-se, olhava ao redor e permanecia ali, como quem guarda um lugar não por obrigação, mas por afeto. E, ainda assim, o banco não rangia. Não mais.

Com o tempo, outras pessoas passaram a notar aquela cena. Perguntavam-se o que havia de especial naquele banco. O interessante é que quando os outros ali sentavam, no auge do seu estresse, para descansar as pernas cansadas por cinco minutos enquanto disparavam mensagens pelo celular, o ranger voltava. Porque não era sobre o banco. Nunca foi. Era sobre o que se constrói sem alarde. Era sobre intenção.

Banco na praça arborizada é um convite para pausa, para conversa, para contemplação. E o que vemos além da régua de madeira lascada? Gente esgotada usando de apoio enquanto a próxima tarefa não se cumpre.

E então, com essa mania que tenho de fazer analogia com tudo, pensei que , assim como o banco que silenciava de forma seletiva, os afetos verdadeiros não precisam fazer barulho. Não disputam espaço. Não se provam a todo instante com alardes. Afetos simplesmente são. Simplesmente existe. Simplesmente permanecem .

Amizade, no fim das contas, talvez seja isso: um lugar onde a gente pode chegar com o peso do mundo… e, ainda assim, não fazer ruído. E, se fizer, que seja só o suficiente para lembrar que ainda estamos ali.

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Paula Farsoun

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Paula é uma jovem friburguense, advogada, escritora e apaixonada desde sempre pela arte de escrever e o mundo dos livros. Ama família, flores e café e tem um olhar otimista voltado para o ser humano e suas relações, prerrogativas e experiências.

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