Blog de paulafarsoun_25873

Deu branco

sexta-feira, 24 de outubro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Deu branco. Já aconteceu com você? Estava em meio a uma frase e esqueceu o que ia dizer. Estudou para a prova, estava com a matéria afiada e na hora de responder a questão, você sabia que conhecia a resposta mas não faz a menor ideia de qual seja. Agendou um compromisso importante e simplesmente esqueceu completamente da existência dele. Sabe quem é uma pessoa, mas ao encontrá-la na rua, faz um malabarismo para não transparecer que se esqueceu do nome dela. E por aí vai.

Deu branco. Já aconteceu com você? Estava em meio a uma frase e esqueceu o que ia dizer. Estudou para a prova, estava com a matéria afiada e na hora de responder a questão, você sabia que conhecia a resposta mas não faz a menor ideia de qual seja. Agendou um compromisso importante e simplesmente esqueceu completamente da existência dele. Sabe quem é uma pessoa, mas ao encontrá-la na rua, faz um malabarismo para não transparecer que se esqueceu do nome dela. E por aí vai.

Para além de alguma patologia que possa estar atrelada a esse sintoma, o que não me compete aqui abordar, essa sensação repentina de vazio mental é angustiante. Presenciei o episódio recentemente com uma colega de profissão aparentemente super competente, diante de uma sustentação oral em um tribunal judicial. Foi assim. Ela estava confiante, iniciou sua fala com toda propriedade e no meio de seu dizer ela simplesmente travou, não saía mais nada. Senti angústia por ela. E nem a conheço. Veio à minha mente que ela deveria estar nervosa, que poderia ser uma pessoa ansiosa ou mesmo que ela estaria diante de um episódio de pânico. Mas nada disso eu tenho expertise ou propriedade técnica para afirmar.  Só sei que “deu branco” ali, e foi esquisito.

Então, lembrei-me de um outro episódio. Certa vez, meu marido e eu estávamos em um voo para São Paulo. Ao nosso lado, sentou-se um rapaz que nos perguntou qual era mesmo o destino. Rimos e respondemos. Mas eu fiquei refletindo , por uns dois minutos, se ele havia se esquecido para onde estava indo ou se queria se certificar de que ele estava no avião certo. Acontece. A correria às vezes nos confunde. E então, com o avião ainda sendo ocupado pelos passageiros, ele chamou a comissária de bordo e fez a mesma pergunta para ela e então eu entendi.

Ele não sabia se estava indo para o aeroporto certo em São Paulo: Congonhas, Guarulhos ou até Viracopos. Seu bilhete era virtual e seu smartphone descarregou tão logo entrou na aeronave, e ele não podia abrir para conferir. A funcionária esclareceu. Ufa. Estava tudo certo. Mas eu percebi a agonia ao lado. Ele simplesmente estava com a cabeça cheia ao ponto de não fazer ideia se comprou a passagem para o destino que ele pretendia.

Nossas mentes andam hiper lotadas, hiper conectadas, hiper demandadas. Ao longo de um dia, talvez tenhamos acesso a mais informações, imagens, telas, sons, que nossos ancestrais tenham alcançado ao longo de décadas de existência. Tenho para mim que esse “branco” que a gente tem, possa não ser falta de algo, e sim excesso. 

Talvez esse momento em que sentimos que “deu branco” e por vezes nos assusta, seja apenas o grito silencioso da mente pedindo para respirar — um pedido de pausa em meio ao excesso de demandas, informações e expectativas que despejamos sobre nós diariamente. Não acho que seja falta de capacidade, pode ser um transbordamento. A bacia de água está cheia e quando a gente puxa, a água escapa pelo outro lado.

Quando o pensamento emperra, talvez seja um convite à pausa, ao autoconhecimento. Convite para reorganizar, silenciar o barulho interno, abrir espaço para o essencial. Porque lembrar também exige esvaziar. E, quem diria, às vezes o branco é justamente o ponto de partida para começar de novo — mais leve, mais consciente e com a mente, enfim, habitável.

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A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

Olha pra cima

sexta-feira, 17 de outubro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

            “ – Moça, que céu é esse?”  Ouço, paro e, por dois segundos, penso se ela falou comigo. Ao perceber que sim, fico sem resposta. O que tem o céu? Noto que havia me esquecido de olhar para lá. Não poderia descrevê-lo naquele momento. Não saberia fazê-lo. Que descuido o meu. Logo eu que venho tentando centrar no momento presente. Concentrar. Degustar cada oportunidade de apreciar a natureza. Isso, a natureza. O céu e tudo o que tem nele. Eu deveria tê-lo admirado.

            “ – Moça, que céu é esse?”  Ouço, paro e, por dois segundos, penso se ela falou comigo. Ao perceber que sim, fico sem resposta. O que tem o céu? Noto que havia me esquecido de olhar para lá. Não poderia descrevê-lo naquele momento. Não saberia fazê-lo. Que descuido o meu. Logo eu que venho tentando centrar no momento presente. Concentrar. Degustar cada oportunidade de apreciar a natureza. Isso, a natureza. O céu e tudo o que tem nele. Eu deveria tê-lo admirado.

            Logo eu, não saberia quais as cores do céu! Daquele céu. Parei, olhei. O que tinha de diferente lá em cima? Até agora não sei. O céu estava cinza. Com cara de chuva. Se chovesse, eu seria pega desprevenida. Novamente: que descuido o meu. O dia clareou e a noite estava prestes a chegar e eu sequer percebi, nesse interregno de tempo do dia inteiro, se o Sol havia aparecido para desejar um lindo dia antes de ser encoberto pelas nuvens pesadas.

            Talvez a chuva naquela hora fosse uma boa providência para lavar a alma. Mas nem isso eu podia. A pressa é demais. Rotina que segue. Dor de cabeça dando as caras. Como aos olhos dos atentos, nenhum sinal do propósito perseguido passa despercebido, pude aproveitar a noite extasiada com a presença da frondosa lua cheia. Foi ontem. Foi lindo. Salvou o meu dia.

            Amanheceu. Que belo dia. Recomeçou o ciclo. A vida acontece agora. Nova oportunidade. Dessa vez o “bom dia” foi dado pela janela, para frente e para cima. Sem telas. Sem mensagens. Sem cores artificiais. Eram seis da manhã. O céu já dava os sinais. Dia lindo. A vibração é outra. Energia em alta. A xícara de café sobre a bancada da varanda e os olhos focados em tudo o que era verde. Assim começou. Em meio a todas as múltiplas e muitas tarefas, pude perceber o presente que veio do céu. E assim o acompanhei até que o final de tarde nos contemplasse com o céu rosa. Literalmente. Pareceu um presente. Foi um presente. Foi hoje. E está sendo. A lua lá fora espelha a perfeição desse universo infinito e misterioso que não deve deixar de ser notado e contemplado todos os dias.

             Tenho a sensação de que se aquela senhora cruzasse pelo meu caminho na rua nesse instante e me fizesse a mesma pergunta, eu saberia descrever o céu azul da manhã, as nuvens que passearam por lá ao meio dia, o entardecer avermelhado e deslumbrante e o exato formato com que a lua brilha nesse instante. Para quem anda atento, todo sinal é uma oportunidade de melhora. Provavelmente, se tivesse a oportunidade, agradeceria pela pergunta cotidiana. Sem querer, mudou meu dia. 

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Em (des)construção

sexta-feira, 10 de outubro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Muito já ouvi falar que, para a construção de uma obra nova, devemos preparar o terreno, cuidar da limpeza do local, criar o ambiente ideal, promover as adaptações que se fizerem necessárias. Na verdade, essas medidas são mesmo fundamentais. Mas a metáfora dessa ideia é a que me leva a pensar. Não sobre obras, mas sobre pessoas.

Muito já ouvi falar que, para a construção de uma obra nova, devemos preparar o terreno, cuidar da limpeza do local, criar o ambiente ideal, promover as adaptações que se fizerem necessárias. Na verdade, essas medidas são mesmo fundamentais. Mas a metáfora dessa ideia é a que me leva a pensar. Não sobre obras, mas sobre pessoas.

Passamos muito tempo de nossas vidas construindo ideias sobre os outros. E o tanto que nos enganamos é algo grandioso. Creio que não somos tão bem-sucedidos nessas obras. Inevitavelmente, nos equivocamos. Erramos o cálculo. Confundimos a perspectiva. Mudamos o projeto.

Seres humanos não são esse tipo de projeto que elaboramos com técnica. Somos, na verdade, uma obra sempre inacabada e complexa. Imperfeita por natureza. Em evolução (ou involução). O projeto é de vida e não há nada mais pessoal do que isso. O outro, por mais perito no assunto que seja, não pode precisar com exatidão o que acontece no interior da obra, nem apresentar soluções lapidares.

Esse terreno – que somos nós – não está descoberto a ponto de desvendarmos seus desníveis pelo olhar. Tem até areia movediça por baixo do mato verde. Tem de tudo, como se diz.

Investimos preciosos minutos de vida construindo uma imagem do outro. Supondo coisas. Julgando e prejulgando pelo pouco que conhecemos a seu respeito. Por isso o culto reverenciado pela imagem. Nem sempre a real. Quase sempre a projetada. A que pode ser vista. Isso é uma grande tolice, pois ao construirmos pessoas fictícias em nosso imaginário, empenharemos o dobro de energia para desconstruí-las, pois comumente erramos as análises. Os outros não são o que pensamos deles. Os outros são o que são.

Seria interessante se aceitássemos que o jogo começa com as peças do quebra-cabeça desmontadas, para então, com o tempo, pudéssemos aprofundar e conhecer a imagem real que será formada. Daria menos trabalho e as surpresas talvez fossem mais prazerosas. Ou mais reais.

Mania estranha essa de querermos jogar um jogo ganho. Imagens preestabelecidas. Vencedores determinados. E no final das contas, a frustração da decepção. O girassol que eu estava montando no meu quebra-cabeças não passa de uma forma geométrica e sem sentido. Uma bola amarela. E vice e versa. Quantos girassóis deixamos de descobrir no meio do jogo justamente por, superficialmente, só enxergarmos a bola amarela. Sem essência. Forma e não flor.

Desconstruir é preciso. E se tivermos ânimo, reconstruir. Não sei se me fiz entender. Mas também não é preciso. Referenciando mais uma vez Clarice Lispector: “não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento”. Não me preocupo, pois.

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Vida em movimento

sexta-feira, 03 de outubro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Mudanças impõem movimento na vida. Sejam elas voluntárias ou forçadas. Sejam desejadas ou inesperadas. Fazem parte da vida. Não há como evitar..., e nem como classificar cada mudança em “para melhor” ou “para pior”.  Vejo que é movimento e movimentar, pensando bem, é viver.

Mudanças impõem movimento na vida. Sejam elas voluntárias ou forçadas. Sejam desejadas ou inesperadas. Fazem parte da vida. Não há como evitar..., e nem como classificar cada mudança em “para melhor” ou “para pior”.  Vejo que é movimento e movimentar, pensando bem, é viver.

Reflito sobre isso enquanto observo caixas empilhadas na sala de alguém que decide trocar de casa, ou ainda quando vejo alguém de malas no aeroporto, prestes a partir. Mudança, física ou não, é sempre transbordo: de espaço, de rotina, de certezas. E se, no primeiro olhar, parece só bagunça e ruptura, em silêncio ela sempre guarda um convite — o de se reinventar.

Você já se viu paralisado diante de mudanças inesperadas? Às vezes, é como se alguém tivesse tirado o chão sob nossos pés. O que era confortável não existe mais. E o medo se veste de previsibilidade: queremos que tudo permaneça igual porque acreditamos que ali estamos seguros. Só que não estamos. Não necessariamente. Pode ser que estejamos apenas imóveis, e a vida pode pedir bem mais do que estagnação.

Tem momento pra tudo. Pra gritar e silenciar. Pra correr e repousar. Pra impulsionar e aguardar. Pra chegar e partir. Pra decidir ficar como está. Até isso é movimento. Não fazer nada é decidir permanecer e isso também é movimentar-se. A vida pede movimento. Pede o vento que desloca as folhas e também o que leva embora aquilo que já não serve. Pede o tempo que empurra os ponteiros sem nos perguntar se estamos prontos. Pede coragem para atravessar pontes que não voltam a ser as mesmas depois de pisadas.

As grandes mudanças não chegam sempre anunciadas. Às vezes, vêm sutis, quase imperceptíveis: o café que já não tem o mesmo gosto, o trabalho que perdeu o sentido, a energia que se esgota, o corpo que pede descanso ou novidade. Outras vezes, vêm em explosões: um amor que se despede, uma porta que se fecha, um recomeço inesperado.

No fundo, não importa como chegam. Mudanças são o lembrete de que estamos vivos. Quem não se move, endurece. Não tem jeito. Querendo ou não. E não falo apenas de grandes transformações. O simples gesto de mudar o caminho de todos os dias pode abrir novos encontros. Mudar um pensamento repetido pode clarear horizontes. Mudar o ritmo pode devolver leveza ao corpo.

É claro que nem sempre é fácil. Movimento incomoda. Mudança bagunça. É preciso desapegar do que parecia certo. É preciso confiar no invisível, aceitar não ter todas as respostas. Às vezes, é preciso suportar a travessia escura para, só então, reconhecer a beleza da manhã.

O que aprendi — e ainda aprendo — é que resistir ao movimento não nos impede de mudar. Apenas nos torna mais pesados. Quando aceitamos, quando nos deixamos levar pelo fluxo, descobrimos que a mudança pode ser, sim, um presente.

Há dias em que tudo parece desmoronar, mas, quando a poeira baixa, entendemos que aquilo era a vida abrindo espaço para o novo. Como quem reorganiza uma sala cheia de caixas: no meio da bagunça, há promessa de recomeço.

Mudanças e movimento são isso: convites. Convites para sair do lugar comum, para olhar o céu de outro ângulo, para habitar um corpo que já não é o mesmo, para permitir que a vida seja mais do que rotina repetida. E quando alguém me pergunta se tenho medo de mudar, confesso: tenho. Todos, temos. Mas aprendi que o medo não é inimigo — é só um sinal de que algo está vivo em nós. Afinal, só sente medo quem está prestes a atravessar.

No fim, é o movimento que nos faz. Somos feitos de ciclos, de idas e vindas, de encontros e despedidas, de fases da vida. E, se prestarmos atenção, perceberemos que toda mudança é também um gesto de esperança. Porque quem muda acredita que há sempre algo a ser encontrado do outro lado. Talvez seja isso que a vida pede de nós: não perfeição, não certezas, mas disposição para o movimento. Porque é nele que a vida realmente acontece.

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Florescimento

sexta-feira, 26 de setembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

A primavera sempre chega como quem não tem pressa. Aos poucos, vai colorindo as ruas, abrindo as flores, despertando perfumes que estavam adormecidos no inverno. É uma estação que não exige anúncio, porque se revela sozinha, no detalhe de um ipê amarelo que se cobre de ouro ou no voo apressado de uma borboleta que já anuncia transformação.

A primavera sempre chega como quem não tem pressa. Aos poucos, vai colorindo as ruas, abrindo as flores, despertando perfumes que estavam adormecidos no inverno. É uma estação que não exige anúncio, porque se revela sozinha, no detalhe de um ipê amarelo que se cobre de ouro ou no voo apressado de uma borboleta que já anuncia transformação.

Há algo de simbólico na primavera. Talvez seja a estação que mais conversa com a alma, porque nos lembra que nada permanece frio e cinzento para sempre. Depois de cada inverno — literal ou interior — há sempre um campo pronto para florescer. A vida se renova, mesmo quando não acreditamos mais.

As flores não pedem licença para nascer. Elas brotam, rompem o solo, desafiam o concreto. É como se nos dissessem: “você também pode.” A primavera é o convite para reencontrarmos nossas próprias cores, para trocarmos o peso pelo leve, para lembrarmos que beleza e delicadeza são forças capazes de transformar qualquer ambiente.

Talvez seja por isso que a primavera desperte em nós uma esperança silenciosa. Ela não promete que não haverá novos invernos, mas nos mostra que cada ciclo guarda sua beleza e sua razão de existir. O frio ensina a resistir, e a primavera ensina a florescer. Assim é a vida: feita de estações que se alternam, mas que nunca deixam de trazer a promessa de um novo começo.

Não é à toa que tantas pessoas se sentem mais vivas nessa estação. A luz dura mais, os dias parecem sorrir. A primavera não apenas enfeita a paisagem: ela enfeita a alma. E talvez seja esse o seu maior presente — nos lembrar de que recomeçar é sempre possível, e que dentro de nós também existem flores esperando o momento certo de desabrochar.

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Posso ouvir

sexta-feira, 19 de setembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

A cada dia que passa a vida mostra que saber ouvir é mais que uma habilidade rara, mais do que uma necessidade, mais do que uma demanda social. É um dom. Proponho uma breve observação. Quantas pessoas falam ao mesmo tempo na mesma roda de conversa? E dessas, quantas estão falando sobre si mesmas, sobre suas próprias vidas, seus anseios individuais e seus problemas? Quantas estão a reclamar o tempo todo?

A cada dia que passa a vida mostra que saber ouvir é mais que uma habilidade rara, mais do que uma necessidade, mais do que uma demanda social. É um dom. Proponho uma breve observação. Quantas pessoas falam ao mesmo tempo na mesma roda de conversa? E dessas, quantas estão falando sobre si mesmas, sobre suas próprias vidas, seus anseios individuais e seus problemas? Quantas estão a reclamar o tempo todo?

Em sequência, proponho que observem quantas pessoas ouvem atentamente a história do outro, olham nos seus olhos e efetivamente parecem se importar com as informações compartilhadas.

Hoje me aconteceu algo curioso. E que curiosamente sempre acontece. Comigo! Estive com uma pessoa que pouco vejo e com quem não tenho intimidade alguma. Mas a quero muito bem e ela deve perceber. Estivemos juntas por 20 minutos apenas e em uma circunstância incomum. Pois bem. Nesse interregno de tempo eu pude saber das dores mais profundas pelas quais ela passa, do sofrimento de sua família, sobre suas recentes perdas e dificuldades. Coisas que só contamos a Deus quando colocamos a cabeça no travesseiro. Ela não estava lamuriando. Definitivamente não estava. Abriu seu coração simplesmente por sentir que teria dois ouvidos disponíveis por algum tempo e talvez um coração aberto a acolhê-la de alguma maneira. Talvez um olhar sincero além dos ouvidos atentos.

Confesso que quando ela começou a contar sobre sua vida, olhei no relógio e lembrei-me o tanto de afazeres que ainda tinha por fazer. Por alguns segundos senti medo da demora e pensei em mudar o rumo da prosa, imaginando o tanto que ela se prolongaria. Por pouco não a interrompi. Não daria tempo, eu não tinha realmente disponibilidade naquela hora. Afinal, já sabemos as horas voam.

Não raras vezes eu imagino que “aquela pessoa” poderia ser minha mãe ou minha avó e que eu gostaria de que elas fossem sempre tratadas com zelo, respeito e atenção quando decidissem abrir o coração com alguém. Um pensamento um tanto egoísta que às vezes vem. Não por isso. Muito mais frequentemente eu me coloco no lugar de uma pessoa estranha e procuro buscar entender como ela se sente e volta e meia percebo que ela precisa simplesmente do que mais posso oferecer: atenção (que não necessariamente é sinônimo de tempo) e carinho.

Hoje foi assim. Felizmente eu perseverei alguns segundos, me acomodei melhor na cadeira e me pus a ouvi-la como se tivesse a eternidade à sua disposição. Olhei atentamente para aqueles olhos cansados de um dia de trabalho exaustivo que escondiam por trás dos óculos um semblante triste, abatido e desolado. Senti de forma profunda que ali residia uma enorme dor. E sem que eu proferisse uma palavra (nenhuma palavra!) ela confiou a mim suas profundas aflições.

Enquanto ela falava, eu agradecia. Agradecia por estar ali naquele exato local e momento podendo ser útil a alguém como ela. Agradecia por não ter posto o meu egoísmo e a minha pressa à frente do sentimento dessa pessoa. Agradecia por meu coração naquele momento estar livre daquelas angústias vividas por ela. Agradecia por conseguir me transportar para o lugar ocupado por ela, entender seus anseios. Agradecia por ser eu a estar ali. Agradecia por isso sempre acontecer comigo e apesar de eu não conseguir me vencer sempre, por estar ali tentando, mais uma vez, com mais uma pessoa. Agradecia pelo dom de ainda saber ouvir. Muito mais do que por meio dos ouvidos.

Ao fim da conversa – eu, com os minutos contados e ela, atrasada para pegar seu ônibus - bastou um abraço e sem que eu dissesse nada, encerramos aquela conversa. Que experiência rica. Como estamos carentes de um interlocutor de verdade, com quem possamos simplesmente compartilhar, não só o lado bom da vida, mas também as profundezas da alma. Sem julgamentos.

Lembrei-me de uma frase de Rubem Alves: ‎“As palavras só têm sentido se nos ajudam a ver o mundo melhor. Aprendemos palavras para melhorar os olhos.” Apesar da correria do dia a dia, do ruído e da ansiedade social, não me esqueci de que ainda sei ouvir. E mais uma vez agradeci por não ter ensurdecido a alma. Apesar dos pesares.

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Quando o sonho tropeça na realidade...

sexta-feira, 12 de setembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Frustação pesa na gente, não é mesmo? Eis um sentimento difícil de lidar. Impõe dor, perda de expectativa, sensação de que poderia ter feito mais, perspectiva de como teria sido o que não foi, vazio e até mesmo uma comparação inconsciente e incontrolável em relação a outras pessoas.

Frustação pesa na gente, não é mesmo? Eis um sentimento difícil de lidar. Impõe dor, perda de expectativa, sensação de que poderia ter feito mais, perspectiva de como teria sido o que não foi, vazio e até mesmo uma comparação inconsciente e incontrolável em relação a outras pessoas.

Você já percebeu que às vezes esse sentimento chega de mansinho, sem pedir licença, e se instala como um hóspede inconveniente que não sabemos bem como mandar embora? O sentir-se frustrado com algo pode vir de pequenas coisas ou de grandes acontecimentos: o tempo que passou sem que seu desejo se realizasse, a oportunidade que escorreu pelos dedos, o plano que parecia certo e deu errado, o trabalho que não rolou, a mensagem que não foi recebida, a promessa que não foi cumprida. Não tem manual para lidar com isso.

Receber “não” da vida machuca de verdade. Em uns mais, em outros, menos. Sobretudo quando esperávamos um “sim”. Quando batalhamos por esse sinal verde, ansiamos por levantar a bandeira ao final. E por vezes só nos resta o vazio de lidar com a obrigação de superar que aquilo que desejamos, esperamos ou planejamos simplesmente não se concretiza. É o vácuo entre a expectativa e a realidade.

É engraçado como, às vezes, a frustração parece uma professora rígida. Daquelas que te fazem escrever a lição 100 vezes no quadro até aprender. Ela insiste em mostrar que nem tudo está sob o nosso controle. E isso dói. Porque a gente foi criado para acreditar que basta se esforçar que dá certo, basta querer que acontece, basta sonhar que realiza. Pois é... não basta. Não sempre...

Muitas vezes a frustração não vem do tamanho do problema, mas da expectativa que a gente alimentou antes. É como esperar um banquete e receber um prato raso de sopa fria. Não é sobre a sopa em si, mas sobre tudo o que projetamos nela. Talvez a vida seja isso: aprender a ajustar o olhar, entender que nem sempre teremos o banquete, mas que ainda assim podemos nos alimentar daquilo que nos chega.

A frustração escancara os limites da vida e os nossos também. A gente aprende, às vezes feito pancada, que não é possível ter tudo, nem agradar a todos, nem controlar o imprevisível. Mas se tem algo de bom nisso – e sempre há – é que essa sensação incômoda também pode nos movimentar. Ninguém se reinventa na zona de conforto. É a frustração que cutuca, incomoda, empurra a gente para fora da cama nos dias difíceis. O inesperado tem esse poder.

No fim das contas, talvez a frustração seja só um lembrete de que estamos vivos, tentando, arriscando, desejando. Quem não se frustra é porque não tenta nada. E aí, cá entre nós, viver sem frustrações não seria apenas sobreviver?

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Acordar e Agradecer

sexta-feira, 05 de setembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

 

 

         Caminhamos anos a fio tecendo emendas de sabedoria. Ou melhor, buscando. Dizem que o avançar da idade tem isso de bom, a experiência um tanto convolada em saber. Mas devemos convir que algumas situações têm o condão de ensinar de forma intensa. O sofrimento, a despedida, a demissão, a separação, a perda etc, etc, etc. Creio que momentos que demandam alto grau de superação assemelham-se aos cursos intensivos, daqueles cujo principal desafio é aprender muitas coisas em pouco tempo. Funciona. Não sei quanto aos cursos, mas quanto à vida, invariavelmente há de surtir efeitos.

         O existir por si só requer, além de uma coragem intrínseca, algum nível de sabedoria. Quando só existe dificuldade, parece que a vida trabalha para preparar um novo momento. E ele chega. Ora, se tratarmos essa realidade como uma verdade, cientes de que coisas boas sempre estão por vir, de uma forma ou de outra, por que não sermos gratos desde então? Sem esperar o dia de amanhã. Pode ser tarde demais.

         A gratidão é um sentimento que nos liga à força divina, ao supremo, ao universo, àquilo que transcende à visão humana e, para aqueles que creem nessa força, resguardo a titulação respectiva. Penso que exalar esse sentimento nos resguarda de um monte de maus acontecimentos. Como se o imponderável carecesse desse voto de confiança. Como se o presságio das boas novas estivesse umbilicalmente ligado ao ato de sermos gratos a tudo e a todos, em qualquer circunstância.

         Certa vez um senhor que atravessava sérios problemas, em uma daquelas conversas em que muito ouvimos e pouco falamos, contando suas experiências de vida (e de fé) explicou-me a sua fórmula da longevidade com qualidade de vida.  E desde então, esforço-me para seguir treinando o seu exemplo. O primeiro “obrigado” é proferido pela manhã, ao acordar. Estar vivo já é uma dádiva que merece ser contemplada durante todo o dia.          Ao abrir os olhos e perceber a possibilidade de enxergar a luz do Sol, o segundo “obrigado” do dia. Ao pisar, perceber que pode se locomover, que seus órgãos funcionam, mais muitos gestos de gratidão são proferidos. E por assim dizer – e viver – sua história simples pôde conquistar o patamar de exemplo. Pelo menos para mim.

         Ser resiliente e grato é perceber que os pés doem, mas que podemos andar. Que a coluna não está lá “grande coisa”, mas que sustenta com maestria esse corpo que nos reveste. Que o dia de hoje pode não ser perfeito, mas que é o presente concebido e não pode ser desperdiçado. Que os sonhos não foram realizados da forma como queríamos, mas que temos força para batalhar. E por aí vai.

         Sentir gratidão nesse nível é uma questão também de treinamento. Gratidão gera gratidão. A corrente ganha força e a energia do contentamento, da aceitação, da felicidade se expandem. Coisa chata é essa atmosfera de reclamações por todos os cantos, o dia inteiro. Se chove, está ruim. Se faz calor, piora. Se tem emprego, reclama. Se o perde, piora. Coisas assim.

         Como mensurar a dimensão da força que pode alcançar essa energia massiva de milhares de pessoas reclamando de tudo o tempo todo? Que bom seria se o mesmo empenho em lamuriar fosse empregado em agradecer em qualquer conjuntura. Não quero caminhar com esforço ao longo de uma vida inteira e lá na frente perceber que o passado foi o melhor presente que me fora dado, aquele clássico sentimento de que “era feliz e não sabia”.

         Não quero perder minha vida para a ingratidão. Ser grato é questão de escolha. Uma ótima escolha. A começar por agora.

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Saudade boa

sexta-feira, 29 de agosto de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Outro dia estava aqui escrevendo o tanto que sentir saudade dói. Não há uma dor física que possa ser comparada. É algo que vem lá de dentro, das profundezas da alma, do fundo do coração. Saudade tem suas nuances. Pode nos mover em várias direções. Tem poder de ser mola propulsora para diversas ações. Saudade nos leva ao choro no travesseiro, no banho, na rua, em todo lugar. Conduz a lágrima de canto de olho que insiste em cair quando toca aquela música, quando olhamos aquela paisagem, quando fitamos uma foto. Muitas vezes, é o que nos derruba. É o sufoco sem conforto. A dor sem remédio.

Outro dia estava aqui escrevendo o tanto que sentir saudade dói. Não há uma dor física que possa ser comparada. É algo que vem lá de dentro, das profundezas da alma, do fundo do coração. Saudade tem suas nuances. Pode nos mover em várias direções. Tem poder de ser mola propulsora para diversas ações. Saudade nos leva ao choro no travesseiro, no banho, na rua, em todo lugar. Conduz a lágrima de canto de olho que insiste em cair quando toca aquela música, quando olhamos aquela paisagem, quando fitamos uma foto. Muitas vezes, é o que nos derruba. É o sufoco sem conforto. A dor sem remédio. O grito sem ruído. Outras vezes, é a motivação que nos eleva, a inspiração que nos guia, o amor que preenche o invisível.

Hoje seria um dia propício para falar de saudades, pois tudo o que provoca as minhas, são de estima constante. Logo, todo dia é dia quando se tem do que e de quem sentir saudade – a meu ver, uma dádiva. Mas é também um momento de falar do oposto. Da saudade daquilo que podemos suprir, das pessoas que podemos abraçar, do reencontro com familiares que chegam de longe, das memórias afetivas que podemos revisitar. Ah! É inenarrável o prazer de estar junto novamente, de refazer os votos e os planos, de sentir o cheiro familiar, o aconchego que tem morada certa.

Quais os limites desse sentimento sem limite? Vale a redundância da pergunta para refletirmos sobre o que fazemos com o tempo que temos ao lado de tudo aquilo que, quando ausente, nos faz nostálgicos. Os sentimentos realmente atravessam fronteiras, ultrapassam todas as balizas físicas e imagináveis. Um ente querido vivendo na China continua sendo o ente querido. Esse é o ponto. O que nos faz transcender às barreiras materiais merece nosso tempo, o foco e a direção de nossas vidas. Com amadurecimento e pitadas de autoconhecimento, o sentimento de saudade que não pode ser saciada e daquela que podemos suprir de alguma maneira, pode se tornar um grande aliado.    E se temos a chance de criar novas oportunidades em encontro a tudo o que nos é caro e deixará saudade, que sejamos gratos pela oportunidade e que saibamos cuidar de cada momento novo dessa vida que às vezes sorri pra gente. Privilégio é poder reviver aquilo que nos faz bem. Viver momentos novos, com temperos especiais. Construir a existência sabendo definir o que merece toda a nossa energia e o que vale a pena deixar passar. Sabedoria. Deixar ir e escolher o que deve ficar. Saudade pode ser um bom critério. Do que já foi. Do que é. Do que estar por vir. 

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O amor é lindo

sexta-feira, 22 de agosto de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Ah! O amor é lindo, não é mesmo? Vocês ainda se emocionam com uma história bonita e genuína em que almas se encontram? Eu sigo achando uma maravilha. Aquece o coração, dá cor às coisas, enche a vida de esperança. Por trás da aparente simplicidade das sutilezas do amor, há uma das maiores verdades que podemos experimentar: ele é lindo, mesmo! Não porque seja perfeito, até é justamente na imperfeição que ele floresce.

Ah! O amor é lindo, não é mesmo? Vocês ainda se emocionam com uma história bonita e genuína em que almas se encontram? Eu sigo achando uma maravilha. Aquece o coração, dá cor às coisas, enche a vida de esperança. Por trás da aparente simplicidade das sutilezas do amor, há uma das maiores verdades que podemos experimentar: ele é lindo, mesmo! Não porque seja perfeito, até é justamente na imperfeição que ele floresce. Não está na cena de cinema em que tudo se encaixa, mas no gesto pequeno de quem se lembra do seu café preferido, na mensagem que chega, em meio a um dia cansativo, no abraço que não cobra nada em troca, na demonstração de se estar junto para o que der e vier. Está no sorriso frouxo, no toque que aquece, na presença que preenche, na admiração recíproca, na partilha emocionada, na torcida diária e no desejo de se estar perto. O amor se faz no detalhe, no cuidado quase imperceptível, no olhar que enxerga além da superfície.

É lindo porque nos humaniza. Em um tempo em que tanto se fala em produtividade, em metas, em números, o amor nos devolve ao que é essencial: sentir. Ele nos lembra que a real conquista passa pelo afeto, que não somos máquinas, que não viemos ao mundo apenas para cumprir agendas, mas para construir encontros. O amor, em todas as suas formas, é um exercício de presença — um “estou aqui” silencioso, mas transformador.

O amor também é lindo porque não se limita a romances. Está na amizade que atravessa décadas, na família que segura as pontas quando o chão parece sumir, na comunidade que se organiza para apoiar quem precisa. Está também no amor-próprio, quando finalmente reconhecemos o nosso valor e nos tratamos com a delicadeza que sempre oferecemos aos outros.

É lindo porque resiste. Mesmo depois das perdas, das decepções e das despedidas, o amor insiste em reaparecer. Ele tem uma força de renascimento que desafia a lógica: ainda que o coração esteja ferido, um novo afeto sempre encontra espaço para brotar. Talvez seja esse o maior milagre — a capacidade de, apesar das cicatrizes, acreditar de novo.

O amor é lindo porque nos coloca em movimento. Nos empurra para fora do egoísmo, amplia nossos horizontes, nos convida a ver o outro não como ameaça, mas como espelho e companhia. É nele que aprendemos generosidade, paciência, compaixão. Não é fácil — exige escolhas, renúncias, disposição para ouvir e recomeçar. Mas é justamente esse esforço que o torna tão valioso.

E, se é verdade que tudo na vida é transitório, o amor talvez seja a forma mais bonita de eternidade. Porque ele se prolonga na memória, na marca que deixa em quem passa por nós. Um gesto de amor pode atravessar o tempo e continuar sustentando alguém muito depois da nossa ausência.

O amor é lindo porque nos lembra de que, no fundo, ninguém quer apenas vencer ou acumular. Todos buscamos, de maneiras diferentes, um lugar seguro para ser quem somos — e isso só se encontra no afeto verdadeiro. O amor é a raiz que nos prende ao chão e a asa que nos leva além. Então, sim, o amor é lindo. Não como slogan, mas como certeza vivida. Ele não precisa de aplausos, de palco, nem de poesia rebuscada. O amor é lindo porque é real, porque está nas frestas da vida, porque insiste em nos salvar todos os dias.

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