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Casa não esquece

sexta-feira, 29 de maio de 2026
por Paula Farsoun

Há casas que continuam habitadas mesmo depois que as pessoas vão embora. Nos lares, mesmo depois que os moradores se vão, há versões antigas que permanecem silenciosamente espalhadas pelos cantos, como se fossem impregnadas nas paredes, nas janelas, entre fotografias esquecidas, xícaras lascadas que ninguém joga fora, bilhetes dobrados dentro de livros e perfumes que ainda resistem no fundo de alguma gaveta. Toda casa tem memória. E às vezes ela lembra de nós melhor do que nós mesmos.

Há casas que continuam habitadas mesmo depois que as pessoas vão embora. Nos lares, mesmo depois que os moradores se vão, há versões antigas que permanecem silenciosamente espalhadas pelos cantos, como se fossem impregnadas nas paredes, nas janelas, entre fotografias esquecidas, xícaras lascadas que ninguém joga fora, bilhetes dobrados dentro de livros e perfumes que ainda resistem no fundo de alguma gaveta. Toda casa tem memória. E às vezes ela lembra de nós melhor do que nós mesmos.

Outro dia abri um armário procurando uma caixa de documentos antigos e encontrei uma mulher que já fui. Ela estava ali, guardada entre certificados, cartões com validade vencida, cartas amareladas, bloquinho de anotações, fotografia 3x4 do tempo em que ainda era adolescente e outras reveladas em papel, daquelas que precisavam esperar dias para existir. Pude me lembrar do cheiro de um rolo de filme da Kodak que a gente comprava nas opções 12, 24, 36 ou 48 fotos (esta última, era a melhor opção, porém muito cara). Usávamos nossas máquinas de fotografar com cuidado, o flash, se usado, tinha que ser bem estudado, para não queimar uma fotografia à toa. Não gastar uma chance. Um registro a menos. Uma memória a menos para ser recordada para sempre.

Lembrei-me também do dia de juntar os rolinhos e levá-los para que fossem revelados. Levava dias para a entrega. E quando o envelope de fotos chegava, com aquele álbum da reveladora, com os plásticos para serem preenchidos por memórias, dava até uma emoção. As melhores fotos ficavam na frente. As demais, vinham na sequência. Bons tempos.

Fiquei olhando para aquela caixa com a estranha sensação de visitar alguém conhecido. E era. Só que aquela mulher já não mora em mim da mesma forma. As fotografias sabem disso antes da gente. As casas também...

Sabem quando deixamos de ouvir certas músicas. Quando abandonamos hábitos. Quando paramos de esperar alguém voltar. Há corredores que testemunharam choros abafados de madrugada. Mesas que ouviram despedidas definitivas. Sofás que acolheram silêncios mais dolorosos do que qualquer discussão.

Sabem das flores que colocamos naquele vaso que acabou manchando a madeira. Sabem de cada “parabéns” cantado nas festas de aniversário. Conhecem os sorrisos que foram dados para gente querida. Os abraços. Os momentos partilhados.

Existe uma intimidade entre as paredes e quem vive nelas. Uma cumplicidade inegável. Já parou pra pensar? Talvez por isso seja tão difícil mudar de casa. Não pela mudança em si, mas porque empacotar objetos é também tocar em pequenas arqueologias emocionais. Uma colher qualquer pode trazer de volta um domingo inteiro. Um cheiro antigo pode abrir uma porta que estava trancada há anos dentro da memória.

As casas acumulam tempos. A planta que alguém esqueceu na varanda. A marca de um quadro que já não está mais ali. A gaveta onde ainda existe um carregador de celular de um aparelho que nem existe mais. Pequenas permanências de vidas que foram acontecendo sem percebermos. E o curioso é que, enquanto tentamos organizar a casa, ela também nos organiza por dentro.

Há pessoas que conseguem viver em ambientes absolutamente neutros, sem história, sem afeto visível. Eu nunca consegui. Gosto das casas que parecem vividas. Das que têm livros fora do lugar, mantas sobre a poltrona, fotografias espalhadas e algum perfume emocional no ar. Casas excessivamente perfeitas me dão certa tristeza. Parecem não permitir que ninguém exista de verdade ali dentro. Porque viver desarruma. Amar desarruma. E toda casa sinceramente habitada acaba revelando isso em algum detalhe.

As casas nunca esquecem completamente quem amou dentro delas.

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A arte salva os dias

sexta-feira, 22 de maio de 2026
por Paula Farsoun

Outro dia ouvi uma música antiga em um restaurante.  Dessas músicas que a gente não procura mais, mas que, de vez em quando, encontram a gente pelo caminho. E foi curioso perceber como bastaram poucos segundos para que tudo mudasse dentro de mim. O café continuava quente. As pessoas continuavam entrando e saindo apressadas. O mundo seguia igual. Mas eu não.

Outro dia ouvi uma música antiga em um restaurante.  Dessas músicas que a gente não procura mais, mas que, de vez em quando, encontram a gente pelo caminho. E foi curioso perceber como bastaram poucos segundos para que tudo mudasse dentro de mim. O café continuava quente. As pessoas continuavam entrando e saindo apressadas. O mundo seguia igual. Mas eu não.

A arte tem esse poder de interromper o automático da vida. Às vezes ela chega numa canção esquecida. Outras vezes aparece num filme reprisado numa madrugada insone, numa fotografia antiga guardada na gaveta, numa dança improvisada na cozinha, num livro sublinhado, numa poesia encontrada sem querer. E quando chega, mexe. Nem sempre faz barulho. Quase nunca faz. Mas reorganiza silenciosamente aquilo que estava bagunçado por dentro.

Talvez seja por isso que algumas pessoas sobrevivam graças à arte sem sequer perceberem. Porque há dias em que um quadro explica o que não conseguimos dizer. Há dores que só uma música alcança. Há cansaços que um filme leve consegue amenizar. Há vazios que um texto preenche sem pedir licença.

A verdade é que a arte nos devolve partes de nós mesmos que a rotina vai apagando. Em meio a boletos, notificações, pressa, trânsito, metas, compromissos e telas demais, a sensibilidade vai ficando esquecida em algum canto da semana. E então a vida começa a endurecer sem que a gente note. Os dias ficam úteis, mas deixam de ser bonitos. Funcionais, porém sem encanto. Até que alguma forma de arte atravessa o caminho e lembra que sentir ainda importa.

Uma canção pode trazer de volta alguém que já foi embora. Um livro pode abrir uma janela onde antes só havia parede. Uma peça de teatro pode provocar mais reflexão do que horas inteiras de discussões vazias. Um desenho feito por uma criança pode devolver leveza a um adulto exausto. E talvez esteja aí uma das maiores grandezas da arte: ela humaniza novamente aquilo que o mundo insiste em mecanizar.

Nem sempre percebemos, mas os momentos mais bonitos da vida quase sempre vêm acompanhados de arte. Tem música em comemoração. Tem fotografia em reencontro. Tem cinema em namoro. Tem poesia em despedida. Tem pintura em memória. Tem dança em liberdade.

A arte registra aquilo que o coração sozinho não consegue guardar. E talvez por isso ela seja tão necessária. Não como luxo. Não como excesso. Mas como respiro. Como pausa. Como abrigo emocional para dias difíceis. Porque existem semanas em que a alma também precisa ser alimentada.

Entendo que a arte não serve apenas para entreter. Ela serve para lembrar que ainda estamos vivos. E viver, no fundo, também é conseguir se emocionar com aquilo que não se toca, mas transforma tudo por dentro.

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A conta chega

sexta-feira, 15 de maio de 2026
por Paula Farsoun

Tem gente que não sabe mais responder “tudo bem?” sem mencionar que está cansada. Porque transborda. A exaustão está ali e precisa transcender, como um pedido de ajuda, talvez. E isso diz muito sobre o tempo em que estamos vivendo.

Tem gente que não sabe mais responder “tudo bem?” sem mencionar que está cansada. Porque transborda. A exaustão está ali e precisa transcender, como um pedido de ajuda, talvez. E isso diz muito sobre o tempo em que estamos vivendo.

O cansaço deixou de ser consequência de uma rotina pesada e passou a funcionar quase como um certificado social. Quem vive correndo parece mais importante. Quem está sempre ocupado transmite a sensação de sucesso. Descansar, por outro lado, começou a parecer sinônimo de preguiça, falta de ambição ou desperdício de tempo. Criamos uma geração que sente culpa por parar.

As pessoas almoçam olhando o celular, respondem mensagens no trânsito, levam trabalho para a cama e transformaram a própria exaustão em assunto cotidiano. E o mais curioso é que a gente já não estranha mais isso. Virou normal dizer que dormiu três horas. Virou admirável trabalhar até tarde. Virou bonito viver sem tempo.

Existe hoje uma necessidade constante de provar produtividade. Como se estar disponível o tempo inteiro fosse demonstração de competência. Como se o corpo não cobrasse a conta depois. E cobra. Só que, antes de cobrar no físico, cobra no silêncio.

A pessoa continua funcionando, mas perde a leveza. Perde a paciência. Perde a vontade de estar presente nas próprias relações. Vai ficando irritada, distante, acelerada. O descanso já não resolve, porque o problema não é apenas sono. É excesso de pressão acumulada em alguém que nunca se permitiu desacelerar.

O mais preocupante é que nós começamos a admirar pessoas destruídas pelo excesso de trabalho. Nós passamos a ser essas pessoas e a validar nossos méritos pelo tanto de cansaço que sentimos, como se fosse um selo de produtividade. Como se nosso valor estivesse aí. Só aí. Isoladamente aí. Como se viver no limite fosse prova de determinação. Como se sacrificar a saúde mental fosse parte obrigatória do caminho para vencer na vida. Não é.

Existe algo profundamente errado em uma sociedade que incentiva performance, mas ignora completamente o adoecimento emocional que existe por trás dela. As pessoas estão sobrevivendo em ritmo de urgência permanente. E talvez o maior problema seja justamente esse: ninguém mais consegue descansar de verdade. Quando o corpo para, a mente continua acelerada. Há sempre alguma pendência, alguma cobrança, alguma sensação de que deveria estar fazendo mais. Mais. Sempre mais....

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Quem somos quando ninguém está olhando?

sexta-feira, 08 de maio de 2026
por Paula Farsoun

Há algum tempo, eu tinha a sensação de que as pessoas desejavam construir uma vida. Hoje, desejam construir uma imagem. A diferença parece sutil, mas não é. Ela mudou profundamente a forma como nos relacionamos, trabalhamos, consumimos, amamos e até sofremos. Vivemos em uma era em que, para muitas pessoas, infelizmente, parecer feliz importa mais do que estar em paz. Parecer bem-sucedido vale mais do que sentir-se realizado. Parecer inteligente, elegante, produtivo, forte ou desejável tornou-se quase uma obrigação social. O mundo da aparência não é apenas estético.

Há algum tempo, eu tinha a sensação de que as pessoas desejavam construir uma vida. Hoje, desejam construir uma imagem. A diferença parece sutil, mas não é. Ela mudou profundamente a forma como nos relacionamos, trabalhamos, consumimos, amamos e até sofremos. Vivemos em uma era em que, para muitas pessoas, infelizmente, parecer feliz importa mais do que estar em paz. Parecer bem-sucedido vale mais do que sentir-se realizado. Parecer inteligente, elegante, produtivo, forte ou desejável tornou-se quase uma obrigação social. O mundo da aparência não é apenas estético. Ele é emocional, profissional e moral.

As redes sociais transformaram a vida em vitrine permanente. Tudo precisa ser fotografável, publicável, admirável. O almoço virou conteúdo. A viagem virou prova social. O relacionamento virou exposição. O treino virou performance. Até a dor, hoje, precisa vir acompanhada de filtro, legenda reflexiva e iluminação adequada. Criou-se uma geração que documenta a vida sem necessariamente vivê-la.

Parece que as pessoas não saem mais para descansar; saem para produzir registros de felicidade. Não compram apenas pelo desejo ou necessidade, mas pelo impacto visual e simbólico que aquilo causará nos outros. O consumo deixou de ser material. Tornou-se emocional. Compra-se pertencimento, validação e status.

E talvez um dos aspectos mais tristes desse fenômeno seja a obrigação silenciosa de parecer constantemente bem. Há uma censura emocional contemporânea que impede o cansaço, a vulnerabilidade e o fracasso de existirem de forma legítima. Todos precisam aparentar controle, equilíbrio e sucesso, ainda que estejam emocionalmente exaustos.

A estética da perfeição adoece porque ela é incompatível com a condição humana. Ninguém consegue sustentar felicidade contínua, produtividade absoluta e beleza impecável sem pagar um preço psíquico por isso. Mas, ainda assim, seguimos assistindo pessoas transformarem a própria existência em campanhas publicitárias de si mesmas. E essa lógica não ficou restrita ao universo pessoal. Ela invadiu o ambiente profissional em várias camadas.

Aqui não me proponho a fazer um juízo de valor se isso é bom, ruim, necessário ou qualquer outra coisa. As coisas são como são. E as vejo dessa forma. E claro, por ora, lamento, embora entenda o porquê de tudo isso. Sem dúvida, vejo com preocupação, sobretudo em relação aos mais jovens, às pessoas em formação. Felicidade boa é aquela que a gente sente dentro da gente. Aquela que a gente identifica e sorri. Que compartilha com quem se importa com ela. Felicidade boa é sentida e não fabricada, produzida e compartilhada com quem nem sabem quem somos.

O ponto de reflexão não está em comunicar, posicionar-se ou construir imagem. Isso faz parte do mundo contemporâneo. O problema começa quando a imagem substitui a essência. Quando a embalagem se torna mais importante do que o conteúdo. Quando parecer competente vale mais do que estudar. Quando parecer feliz importa mais do que estar emocionalmente saudável.  Diante dessa realidade que todos estamos vivendo, quem somos quando ninguém está olhando?

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Dia do Trabalho

sexta-feira, 01 de maio de 2026
por Paula Farsoun

O Dia do Trabalho não é apenas mais um feriado no calendário. Não deveria ser, pelo menos. Não é um respiro burocrático entre uma semana e outra. Trata-se de uma data que carrega história, luta e, sobretudo, um lembrete incômodo: o trabalho, que dignifica, sustenta, dá sentindo a muitas coisas na vida, também pode adoecer e excluir.

O Dia do Trabalho não é apenas mais um feriado no calendário. Não deveria ser, pelo menos. Não é um respiro burocrático entre uma semana e outra. Trata-se de uma data que carrega história, luta e, sobretudo, um lembrete incômodo: o trabalho, que dignifica, sustenta, dá sentindo a muitas coisas na vida, também pode adoecer e excluir.

Celebrar o trabalho é também uma maneira de reconhecer a centralidade que ele ocupa na vida humana. É por meio dele que se constrói autonomia, identidade e pertencimento social. Mas é também por meio dele que se revelam, com nitidez, as desigualdades mais profundas de uma sociedade.

No Brasil, o dia 1º de maio expõe um contraste difícil de ignorar. De um lado, trabalhadores formais, protegidos por um arcabouço jurídico que, apesar de imperfeito, ainda resiste. De outro, uma massa crescente de pessoas inseridas em relações precárias, informais ou travestidas de modernidade, onde a promessa de liberdade muitas vezes esconde a ausência de direitos básicos.

Não se trata de saudosismo, tampouco de rejeição às transformações do mundo do trabalho. Pelo contrário. A tecnologia, a flexibilização e as novas formas de contratação são realidades irreversíveis. Precisamos nos adaptar e fazer bom proveito de tudo que as novas formatações nos possibilitam. O problema não está na mudança em si, mas na forma como ela vem sendo conduzida: frequentemente à custa da segurança, da estabilidade e da própria dignidade do trabalhador.

Há, ainda, uma distorção perigosa no discurso contemporâneo: a romantização da exaustão. Trabalhar muito deixou de ser apenas necessário e passou a ser, em certos ambientes, um símbolo de valor pessoal. A produtividade se tornou métrica de existência. E, nesse cenário, o descanso quase soa como culpa.

O Direito do Trabalho, nesse contexto, não é um entrave ao desenvolvimento econômico, como muitos insistem em afirmar. Ao contrário: ele é instrumento de equilíbrio. É o limite civilizatório que impede que o trabalho volte a ser apenas força explorável. É a garantia mínima de que, por trás de cada função, há uma pessoa. Como professora de Direito do Trabalho há muitos anos, vivencio a dicotomia entre presenciar e apreciar toda evolução que o mundo novo nos apresenta e a preocupação com as garantias mínimas de subsistência digna.

Neste 1º de maio, talvez a reflexão mais honesta não seja sobre o quanto avançamos, mas sobre o quanto ainda precisamos avançar. Não basta comemorar empregos; é preciso discutir as condições em que eles existem. Não basta defender o trabalho; é preciso proteger quem trabalha, sob os mais diversos pontos de vista. Olhar para quem oferece a mão de obra e também para quem emprega. Porque, no fim, a verdadeira celebração do Dia do Trabalho não está no feriado, mas no compromisso contínuo com a dignidade de todos os envolvidos nas variadas esferas de trabalho, todos os dias do ano.

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Graça da coisa

sábado, 25 de abril de 2026
por Paula Farsoun

Desapegar-se. Verbo simples. Prática difícil. Nada simples, porém muitas vezes, necessária. É preciso ter o pulso firme e coração leve para não nos prendermos demasiadamente a tudo e todos que têm valor para nós.

Ouvi dizer que o apego ofusca a luz, como se embaçasse a clareza que pudesse existir. Senti também. É verdade, o apego atrapalha, amarra, atravanca, pesa. Sentimento estranho e mal aplicado, por assim dizer.

Desapegar-se. Verbo simples. Prática difícil. Nada simples, porém muitas vezes, necessária. É preciso ter o pulso firme e coração leve para não nos prendermos demasiadamente a tudo e todos que têm valor para nós.

Ouvi dizer que o apego ofusca a luz, como se embaçasse a clareza que pudesse existir. Senti também. É verdade, o apego atrapalha, amarra, atravanca, pesa. Sentimento estranho e mal aplicado, por assim dizer.

Apego é diferente de amor. Diferente de querer. Diferente de zelo. Apego é apego e ponto. Nós sabemos do que se trata e convivemos bastante com esse sentimento.

Há quem lute por uma vida mais livre de apegos, seja aos sentimentos, às pessoas, às coisas, à posição social, ao emprego, à matéria. Levante a mão quem se identifica com esse ato de verdadeira coragem que é buscar um caminho com mais desapego e leveza.

Sei o quão dolorida e difícil é uma existência pautada no apego arraigado à alma. Dóem os ombros só de pensar. Dói a nuca também. E a têmpora direita. Sei o quanto a leveza de desapegar-se aos poucos dos excessos que encobrem o dia a dia é libertadora. E faz bem à saúde, diga-se de passagem.

Atualmente muito tem se falado nas práticas minimalistas, em valorizar um estilo de vida com menos acúmulo, menos barulho, menos objetos e mais espaço para o ar circular. Menos coisas e mais verde, mais contato com a natureza. Tenho percebido como essa tribo está ganhando integrantes. A galera que está valorizando mais o ser do que o ter, mais o tempo do que uma conta bancária recheada às custas de dias e noites de incessante trabalho, andando em corda bamba contra o fluxo do materialismo. Dá gosto de ver. E me parece um processo de desapego também. Desapegar-se do velho mundo e buscar um novo, o seu próprio mundo, mais próximo da verdadeira essência.

Essa reviravolta no meio da vida, esse desapego de tantas coisas e muitas vezes do próprio ego é um processo dos mais bonitos que tenho presenciado. Mas ainda assim, talvez não dê tão certo se não for bem delineado, se não contar com pitadas de sabedoria e um tanto de planejamento. O desapego é bom, traz leveza, mas para muitos, é um treinamento novo, sem precedentes e difícil de lidar. Ainda assim, vale a pena sentir e conhecer melhor o verdadeiro significado do desapego.

Como bem disse a escritora Martha Medeiros: “longa vida aos que conseguem se desapegar do ego e ver a graça da coisa.”

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Vale a pena

sexta-feira, 17 de abril de 2026
por Paula Farsoun

Seguimos pela vida como a costura uma colcha de retalhos. Ou ao menos tentando costurar. O tempo tem a gentileza de nos devolver em forma de sabedoria aquilo que antes parecia apenas experiência acumulada e sem sentido. Certos episódios têm uma força pedagógica muito contundente. A dor, a perda, as rupturas, os recomeços forçados. Situações que exigem de nós uma capacidade quase imediata de adaptação, como aqueles cursos intensivos em que tudo precisa ser aprendido de uma vez. Na vida, isso funciona, ainda que, muitas vezes, à revelia da nossa vontade.

Seguimos pela vida como a costura uma colcha de retalhos. Ou ao menos tentando costurar. O tempo tem a gentileza de nos devolver em forma de sabedoria aquilo que antes parecia apenas experiência acumulada e sem sentido. Certos episódios têm uma força pedagógica muito contundente. A dor, a perda, as rupturas, os recomeços forçados. Situações que exigem de nós uma capacidade quase imediata de adaptação, como aqueles cursos intensivos em que tudo precisa ser aprendido de uma vez. Na vida, isso funciona, ainda que, muitas vezes, à revelia da nossa vontade.

Viver, por si só, já exige coragem e um tanto de lucidez. Há períodos em que tudo parece difícil demais, como se a existência estivesse apenas nos testando. Mas, curiosamente, são esses mesmos períodos que costumam anteceder algo novo. E o novo sempre chega. Se aceitarmos essa dinâmica como parte do caminho, talvez possamos nos permitir um exercício diferente: agradecer antes mesmo da virada acontecer. Sem adiar. Sem condicionar. Porque, às vezes, o “depois” não concede o tempo que imaginamos ter.

A gratidão tem algo de silenciosamente poderoso. Conecta-nos a algo maior, que transcende. É como se esse sentimento nos envolvesse em uma espécie de proteção sutil. Como se, ao agradecer, abríssemos espaço para que o inesperado se tornasse mais leve.

Recordo-me de uma conversa simples, mas profundamente marcante, com um homem que enfrentava grandes dificuldades. Ele falava pouco, mas dizia o essencial. Contou-me, com serenidade, o que considerava ser o segredo para uma vida com mais sentido. Começar o dia agradecendo. Apenas isso, mas com verdade. Acordar já é motivo suficiente. Abrir os olhos, enxergar a luz, perceber o próprio corpo funcionando, cada gesto cotidiano transformado em um reconhecimento do que se tem. Desde então, tento repetir esse exercício. Às vezes, falho miseravelmente. Mas tento e comumente venço o desafio.

Ser grato não significa ignorar as dores. Significa reconhecê-las sem perder de vista o que ainda nos sustenta. É entender que o corpo pode falhar, mas ainda nos conduz. Que o dia pode não ser como planejado, mas ainda assim é uma oportunidade. Que os sonhos podem não ter se concretizado, mas a possibilidade de lutar permanece intacta.

Gratidão também se aprende. Treina-se. Cultiva-se. E, quando praticada, ela se expande. Cria um ciclo que retroalimenta o próprio sentimento. Em contraste, há essa tendência quase automática de reclamar de tudo... do clima, do trabalho, da ausência dele, das pequenas contrariedades que, somadas, parecem ocupar espaço demais. Imagine a força disso, quando multiplicada. Agora imagine se essa mesma energia fosse direcionada ao agradecimento.

Não quero, lá na frente, olhar para trás e perceber que vivi sem perceber o valor do que tinha. Aquela amarga sensação de que a felicidade estava ali, mas passou despercebida. Não quero desperdiçar o presente por falta de reconhecimento.

Ser grato é uma escolha. E, entre tantas possíveis, talvez seja uma das mais transformadoras. Comece agora. Vale a pena.

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Dia comum

sexta-feira, 10 de abril de 2026
por Paula Farsoun

Era um dia comum. Tardezinha. A moça pôs-se a pensar. A premissa: cada dia em que estamos vivos é mais um dia de sobrevivência. Naquela ocasião, teve a oportunidade de tomar com calma a xícara de chá e por incrível que pareça ficou até o amanhecer sem fazer nada que não fosse pensar. Um privilégio, é verdade. A vida tem dessas coisas. Às vezes, se tem a oportunidade de parar... e pensar.

Era um dia comum. Tardezinha. A moça pôs-se a pensar. A premissa: cada dia em que estamos vivos é mais um dia de sobrevivência. Naquela ocasião, teve a oportunidade de tomar com calma a xícara de chá e por incrível que pareça ficou até o amanhecer sem fazer nada que não fosse pensar. Um privilégio, é verdade. A vida tem dessas coisas. Às vezes, se tem a oportunidade de parar... e pensar.

Dois pontos de partida tomaram seu tempo e suas reflexões. Primeiro, refletiu sobre as encruzilhadas da vida. Com o dedo da mão direita, desenhou na toalha de mesa e em seu imaginário, aquele ponto central entre dois caminhos, a plaquinha indicando para a esquerda um rumo, para a direita, outro e ela bem ali, no meio. Sem saber para onde ir. Sem saber para qual direção caminhar. É uma situação poética. A vida tem dessas coisas. A encruzilhada, pelo olhar da moça naquele momento de descontração era uma metáfora. Mas na verdade, sentido na pele o desafio da escolha pelo caminho a perseguir, só conseguia perceber um nó. E a moça, naquele meio distante de um real ponto de equilíbrio, sentia que precisava tomar uma decisão. Só não sabia qual.

A vida tem dessas coisas. E nossa, como é difícil! Aquela velha frase de que cada escolha implica em renúncias é uma verdade sentida no âmago do ser. Há quem viva de olhar pra trás e se arrepender de ter ido pela direita ao invés da esquerda. Há quem olhe para frente e vislumbre um horizonte único que será perseguido em qualquer caminho, desde que se continue a andar adiante.

Às vezes, até mesmo o ponto nevrálgico da dúvida e da decisão pode merecer uma desconstrução. Pode ser que o tamanho do nó, o embaçamento da visão, o peso  preso aos pés e a necessidade de opinião do outro tenham muito a ver com nossas expectativas. Desconstruir barreiras também é um processo. E seguir em frente sem medo de se arrepender pelo que deveria ter sido e não foi é uma baita evolução. Essa foi a segunda reflexão.

A moça percebeu que deveria desconstruir de alguma maneira esse medo de dar errado e o temor de escolher o pior caminho e entender que o processo é assim mesmo e que quanto maior for seu autoconhecimento, maior a probabilidade de celebrar opções que tenham nexo com seus valores e sua trajetória. Percebeu que as questões da vida não vêm com gabarito. E que a encruzilhada não é um enunciado com resposta pronta. Percebeu que mesmo que depois venha a se reconhecer em outro direcionamento na trajetória da vida, aquilo tudo que um dia foi construído, de alguma maneira se permanecerá de pé.

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Sobre afetos e bancos

segunda-feira, 06 de abril de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Havia uma pequena praça no centro de uma cidade que ninguém mais reparava. Não porque ela fosse feia, mas porque, como acontece com tudo que é constante, tornou-se invisível.

No meio da praça, existia um banco de madeira antigo, daqueles que rangem levemente quando alguém se senta. Ele já tinha visto de tudo: encontros apressados, despedidas silenciosas, promessas que não resistiram ao tempo e outras que floresceram apesar dele. Ele tinha chicletes grudados e testemunhou conversas que nem podem ser transcritas.

Havia uma pequena praça no centro de uma cidade que ninguém mais reparava. Não porque ela fosse feia, mas porque, como acontece com tudo que é constante, tornou-se invisível.

No meio da praça, existia um banco de madeira antigo, daqueles que rangem levemente quando alguém se senta. Ele já tinha visto de tudo: encontros apressados, despedidas silenciosas, promessas que não resistiram ao tempo e outras que floresceram apesar dele. Ele tinha chicletes grudados e testemunhou conversas que nem podem ser transcritas.

Certo dia, duas pessoas passaram a ocupar aquele banco com frequência. Não havia grandes declarações, nem gestos teatrais. À primeira vista, pareciam apenas companhia uma da outra. Mas, com o passar dos dias, algo curioso aconteceu: o banco deixou de ranger. Não porque estivesse novo, longe disso... Mas porque o peso que ali repousava era leve. Era feito de presença, não de cobrança. De escuta, não de pressa. Era o tipo de encontro que não exige explicação, apenas continuidade.

As estações mudaram. Vieram dias de sol intenso, outros de chuva persistente. Em alguns momentos, apenas um dos dois aparecia. Sentava-se, olhava ao redor e permanecia ali, como quem guarda um lugar não por obrigação, mas por afeto. E, ainda assim, o banco não rangia. Não mais.

Com o tempo, outras pessoas passaram a notar aquela cena. Perguntavam-se o que havia de especial naquele banco. O interessante é que quando os outros ali sentavam, no auge do seu estresse, para descansar as pernas cansadas por cinco minutos enquanto disparavam mensagens pelo celular, o ranger voltava. Porque não era sobre o banco. Nunca foi. Era sobre o que se constrói sem alarde. Era sobre intenção.

Banco na praça arborizada é um convite para pausa, para conversa, para contemplação. E o que vemos além da régua de madeira lascada? Gente esgotada usando de apoio enquanto a próxima tarefa não se cumpre.

E então, com essa mania que tenho de fazer analogia com tudo, pensei que , assim como o banco que silenciava de forma seletiva, os afetos verdadeiros não precisam fazer barulho. Não disputam espaço. Não se provam a todo instante com alardes. Afetos simplesmente são. Simplesmente existe. Simplesmente permanecem .

Amizade, no fim das contas, talvez seja isso: um lugar onde a gente pode chegar com o peso do mundo… e, ainda assim, não fazer ruído. E, se fizer, que seja só o suficiente para lembrar que ainda estamos ali.

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Rir é bom demais

sexta-feira, 27 de março de 2026
por Paula Farsoun

Rir. Sorrir. Gargalhar. Eis práticas deliciosas de viver. Rir é bom demais. Esboça alegria, faz bem para alma, libera o diafragma, alivia tensões. Sorrir, faz muito bem. A expressão da felicidade, simpatia, bem-estar, muitas vezes transborda o sorriso, vai além do que se pode supor. Gargalhar passa por aquele riso extravasado, que transborda, contagia. 

Rir. Sorrir. Gargalhar. Eis práticas deliciosas de viver. Rir é bom demais. Esboça alegria, faz bem para alma, libera o diafragma, alivia tensões. Sorrir, faz muito bem. A expressão da felicidade, simpatia, bem-estar, muitas vezes transborda o sorriso, vai além do que se pode supor. Gargalhar passa por aquele riso extravasado, que transborda, contagia. 

A verdade é que tudo isso faz muito bem, tanto para quem sorri, ri, gargalha, quanto para eventual interlocutor dessas mensagens corporais que transcendem os movimentos do rosto. Até isso é uma escolha. Sorrir ou não sorrir para a vida. Acolher ou não o outro com uma mensagem de boas-vindas. Tem a ver com simpatia, empatia, otimismo, alegria.

Andando por aí, vou observando os semblantes que por mim passam. A maioria das pessoas carrega olhares sofridos, expressões carregadas. Sobrecarregadas. Vivemos tempos difíceis sob muitos aspectos, não podemos negar. E as faces taciturnas, creio, são o oposto de tudo aquilo que o sorriso sincero expõe. Desânimo, cansaço, antipatia, tristeza.

Por outro lado, o sorriso aberto não significa felicidade. Não necessariamente. Em tempos em que o que se demonstra em redes sociais toma dimensões inimagináveis, não raras vezes o ser mais triste apresenta o sorriso mais bonito. A gargalhada gostosa do vídeo, ensaiada. O riso sem brilho nos olhos. Será que dessa forma, sem verdade, sem consonância entre o que realmente se sente e o que aparenta, sorrir faz tão bem assim? Tanto se utiliza a poderosa ferramenta do sorriso para vender a imagem da felicidade que no dia a dia está longe de ser perseguida. Gente que sorri para as câmeras, que mostra sua faceta mais aprimorada da simpatia em fotos, mas que é incapaz de sorrir para as pessoas com quem topa na rua, para o porteiro do prédio, para o colega de trabalho. Gente que oferece sua melhor versão às postagens nas redes sociais, mas que é incapaz de sorrir em casa, que oferece ao convívio familiar sua expressão de descontentamento. Sem senti-lo.

São divagações – para não dizer devaneios. Mas fazem algum sentido. Vejo tantas pessoas essencialmente sem brilho que fazem questão de ensaiar o Sol para convencer terceiros sobre uma felicidade que por vezes passa longe. E qual a intenção de tudo isso? O riso é livre. Sorrir transforma, muda a energia, eleva a frequência, transforma o dia de alguém. É livre e ilimitado. Por que não sorrir de dentro para fora? Isso mesmo: de dentro para fora. Rir de a barriga doer. De dentro para fora. Gargalhar sem medo de ser feliz. Sem pose para fotos. Sem necessários registros. Sem foco na aparência. De dentro para fora. Sorrir para mudar o dia, para mudar a si mesmo, para contagiar o outro, para transformar a vibração do mundo.

É isso. Enxergar o lado bom que tudo tem e sorrir para a vida. É deveras transformador. De dentro para fora.

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