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Sono

sexta-feira, 24 de julho de 2026
por Paula Farsoun

Há dias em que a força nos foge. Sentimo-nos, como diz o dito, “o saco vazio que não para em pé”, mesmo tendo nos alimentado. É incrível como nos dias de exaustão os pensamentos escondidos aparecem. Lembramo-nos de cuidar da saúde, valorizamos mais do que nunca uma boa noite de sono, repensamos a qualidade de nossas atividades e pensamos em como damos conta.

Há dias em que a força nos foge. Sentimo-nos, como diz o dito, “o saco vazio que não para em pé”, mesmo tendo nos alimentado. É incrível como nos dias de exaustão os pensamentos escondidos aparecem. Lembramo-nos de cuidar da saúde, valorizamos mais do que nunca uma boa noite de sono, repensamos a qualidade de nossas atividades e pensamos em como damos conta.

A ausência de pausas, os excessos de compromissos, de afazeres, as demandas incessantes nos tomam dias inteiros e às vezes noites. Há quem encontre plena alegria em viver nessa intensidade de multitarefas, muitas relações interpessoais, muitas funções na sociedade. E, de fato, é deveras um privilégio. Desafio interessante é conciliar tudo isso com os ciclos de descanso e o verdadeiro cuidado com o repositório de energia. Da melhor energia.

No final das contas, como diz um outro dito popular, “não existe almoço grátis”, o que significa que essa conta uma hora vai chegar. Dia desses estava lendo um depoimento de um notívago e sua produtividade noturna. Além de brincar que a energia da lua era aliada de sua criatividade, desenhou sua rotina da madrugada como sendo altamente revigorante para justificar seu relógio biológico às avessas. Ele é escritor. E o silêncio da madrugada o conecta com seus mais profundos pensamentos.

Dificilmente eu conseguiria. Aliás, quem conseguiria? Realmente é para poucos. Nossa rotina acorda e deita com nossas necessidades básicas de descanso. Não tem muita escapatória. O meu relógio biológico certamente não obedeceria aos comandos todos os dias. Eu, pelo menos, quando não tenho uma noite de sono ideal, luto ao longo do dia para ser a melhor que posso, apesar disso. Apesar de. Não dormir, para mim, é como cobrar a conta durante 24 horas desse “almoço caro”, é sentir a ausência de forças latente. É lembrar que o bocejo coletivo do dia, começará por mim. Provavelmente puxarei a fila e não conseguirei disfarçar. Até a próxima noite de sono chegar.

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A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

Tempo pra nada

sexta-feira, 17 de julho de 2026
por Paula Farsoun

“De tanto pensar tudo, não consigo pensar em nada”. “Penso tanto que não tenho tempo para pensar”. “Minha mente está cheia, porém está um tanto vazia”. “Tudo sei, mas não sei de nada”.

São sensações do momento. Não minhas (não apenas). De muita gente. As coisas estão profundamente rasas. Inteiramente partidas. Constantemente voláteis. Densamente esparsas. Apertadas de tão largas. Entupidas de nada. Estamos vivendo tempos contraditórios. A começar pela mente.

“De tanto pensar tudo, não consigo pensar em nada”. “Penso tanto que não tenho tempo para pensar”. “Minha mente está cheia, porém está um tanto vazia”. “Tudo sei, mas não sei de nada”.

São sensações do momento. Não minhas (não apenas). De muita gente. As coisas estão profundamente rasas. Inteiramente partidas. Constantemente voláteis. Densamente esparsas. Apertadas de tão largas. Entupidas de nada. Estamos vivendo tempos contraditórios. A começar pela mente.

Muito pensamento desencontrado, influenciado, maculado, desnorteado, desencadeado, acumulado, precipitado, acelerado. Muita informação na mente. Muita inutilidade disputando espaço e atenção com o que verdadeiramente importa. Um cabo de guerra que está difícil de ser equilibrado pelo lado da essência da vida. Do que é útil. Do que acrescenta. Do que ensina. Do que compartilha coisas boas. Do amor.

A prática da meditação tem sido fortemente aconselhada entre pessoas que se querem bem e recomendada por profissionais das mais diversas áreas. E por leigos que tudo sabem. E por praticantes que sabem muito do assunto. E por quem não pratica mas simpatiza. E por quem não simpatiza nem pratica, mas acha legal. Que acha legal e não consegue praticar. Pelo que vive de aparência e finge que acha legal e que pratica. Pelo que tenta e não consegue. Pelo que gosta e pelo que não gosta.  Por quem tem recomendação médica. Ou terapêutica. Ou religiosa. Ou nada disso, ou tudo isso.

Por que? As pessoas estão sem tempo de pensar em nada. De viver o tempo presente. De conseguir alguns instantes da vida, ou do dia, para centrarem-se em si mesmas. Para lembrarem-se que respiram. Entra ar. Sai ar. Quase ninguém nota. Até que chegue a próxima virose, a gripe, a bronquite, a asma, a falta de ar. É verdade, precisamos respirar. E respirar direito. Dar valor ao ar precioso que circula por nossos pulmões. Ar da vida.

E quem se lembra que tem olhos até que a vista embace de tanto fixar o olhar nas telas dos computadores e dos smartphones? Olhos que são o portal do corpo que habitamos para o mundo externo. Eles mesmos. Os que podem contemplar. Apreciar. Admirar. Ver a natureza. Ver as pessoas. Ver o tempo. Ver o belo. Ver a vida. Esses mesmos, que precisamos cuida com zelo e que deixamos embaçar com o excesso de tudo para o que não paramos de olhar. Sem piscar.

Boca e voz para falar coisas boas. Quem se lembra que tem voz que não seja apenas para protestar e discutir política? E brigar? E gritar no trânsito? E esbravejar com o filho, com o colega de trabalho, com o marido, com um estranho na rua? E bater boca sem chegar a lugar nenhum? Que não se restrinja a falar da vida alheia, reclamar, reclamar, reclamar.

Tanta gente perecendo sem se dar conta. Padecendo sem perceber. A vida nos foi dada, o momento presente é o maior presente, um corpo humano para nossa alma habitar está aqui e agora, clamando pela devida atenção aos seus verdadeiros propósitos de existir. Estamos empregando nossa energia vital naquilo que é substancial ?

Parece estar tudo tão complexo. Tão desconexo. O estado natural das coisas talvez seja mais simples. Basta avaliarmos nossa existência pelo nosso próprio olhar, mas como se fôssemos uma terceira pessoa, que nos ama e é imparcial, avaliando o que temos feito de nossas vidas, do que temos recheado nossos pensamentos, do valor que damos ao ar que respiramos, de como utilizamos as palavras para impactar em alguma coisa útil no mundo, do que estamos fazendo com nosso tempo, de como estamos cuidando, sobretudo, dos nossos sentimentos.

Não fomos criados em uma realidade paralela. Não estamos no Planeta Terra sozinhos. Somos bilhões de seres vivos consumindo, interagindo, construindo, destruindo, plantando, colhendo, pensando, amando, odiando, movimentando energia. Saber viver de forma civilizada, no século 21, me parece uma realidade que já devia estar superada. Já era para termos aprendido a viver (e conviver) com respeito, civilidade, compaixão, cooperação e empatia. Mas não sabemos de nada, apesar de acharmos que sabemos de tudo. Vai ver está tudo na mais perfeita ordem. Ou não.

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Três vezes gratidão

sexta-feira, 10 de julho de 2026
por Paula Farsoun

Três vezes gratidão, simbolizando uma sequência sem fim da palavra e do sentimento. Se há algo que realmente nos conecta com toda força do bem que transcende é a capacidade de sermos gratos. Por óbvio, se tudo vai muito bem, obrigada, é mais fácil emanar tal sentimento. Contudo, penso que o maior exercício é sentimo-nos agradecidos diante das adversidades, de modo que quando conseguimos nos conectar com sentimento nos momentos difíceis, nas aflições e incertezas, estamos verdadeiramente manifestando a nobreza que dele advém.

Três vezes gratidão, simbolizando uma sequência sem fim da palavra e do sentimento. Se há algo que realmente nos conecta com toda força do bem que transcende é a capacidade de sermos gratos. Por óbvio, se tudo vai muito bem, obrigada, é mais fácil emanar tal sentimento. Contudo, penso que o maior exercício é sentimo-nos agradecidos diante das adversidades, de modo que quando conseguimos nos conectar com sentimento nos momentos difíceis, nas aflições e incertezas, estamos verdadeiramente manifestando a nobreza que dele advém.

Do que valeria uma existência sem aprendizado, sem oportunidade de evolução, superação, espírito de cooperação? Por vezes nos conectamos com algumas das mais sublimes roupagens de compaixão, perdão, fraternidade, solidariedade, amor puro e amplo, justamente nos momentos de dor. E então, surge a dádiva dessas horas, pois se analisarmos bem, absolutamente tudo tem um lado bom. Cabe a cada um de nós trabalharmos de alguma maneira com o otimismo, a perseverança, a resiliência, a empatia, o amor de todas as formas e principalmente a gratidão.

Como escreveu Mário Quintana, “a vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa”. E não é que é isso mesmo? Grande parte do que fazemos, somos, semeamos, depende do nosso empenho, do comprometimento com o qual realizamos as tarefas, da importância que atribuímos aos estudos de caso, do tempo que empregamos para executar essas lições. Somos zelosos? Estamos preocupados em aprender? Temos nos empenhado em ensinar aos outros? Estamos acertando mais do que errando? É bom pensarmos sobre isso.

De fato, por essa ótica, dá mesmo vontade de deixar rastros de amor por todos os lugares. Vamos ser gratos pelo hoje. Amar e agradecer sempre, todo santo dia, sob toda e qualquer circunstância. Façamos felizes aos próximos e caminhemos de encontro à nossa felicidade. Não há que se ter o mar de rosas para que efetivamente agradeçamos pelo ar que corre pelos nossos pulmões. Sejamos gratos em qualquer circunstância sob a perspectiva de que toda hora é hora para o amor.

A escritora Ana Jácomo escreveu algo de que particularmente gosto muito e por isso peço licença para compartilhar com os senhores leitores: “Economizar amor é avareza. Coisa de quem funciona na frequência da escassez. De quem tem medo de gastar sentimento e lhe faltar depois. É terrível viver contando moedinha de afeto. Há amor suficiente. Há amor para todo mundo. Há amor para quem se conectar com ele. Não perdemos quando damos: ganhamos junto.” E vale a paráfrase: há gratidão também para todo mundo. Sentimento mágico que transforma tudo, melhora a vibração de tudo, acalenta a alma, promove alegria e nos conecta com o que há de mais belo. Quanto mais, melhor. Gratidão, gratidão, gratidão.

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Cabeça erguida

sexta-feira, 03 de julho de 2026
por Paula Farsoun

Abaixe o dedo e não abaixe a cabeça. Guardemos em bom lugar nossos dedos apontados para os outros. Mania essa nossa de julgarmos a tudo e a todos o tempo todo. Não nos ensinaram que não devemos julgar, levantar falsos testemunhos? Não aprendemos a lição? Diz a lenda que se apontarmos os dedos para as estrelas, nascerá verruga em suas pontas. Já ouviram antes? Vai ver essa era uma daquelas histórias dos antigos para ensinar de alguma maneira que devemos tratar os outros com humildade e principalmente respeito.

Abaixe o dedo e não abaixe a cabeça. Guardemos em bom lugar nossos dedos apontados para os outros. Mania essa nossa de julgarmos a tudo e a todos o tempo todo. Não nos ensinaram que não devemos julgar, levantar falsos testemunhos? Não aprendemos a lição? Diz a lenda que se apontarmos os dedos para as estrelas, nascerá verruga em suas pontas. Já ouviram antes? Vai ver essa era uma daquelas histórias dos antigos para ensinar de alguma maneira que devemos tratar os outros com humildade e principalmente respeito.

Os dedos apontados abrem alas para o tom imponente, para o ar inquisidor, para o olhar repressivo e a mente julgadora. São essas as nossas “verrugas” de comportamento que deveriam ser repensadas.

Desconheço qualquer pessoa que sinta contentamento e prazer de conviver com quem tem essa sombra do tal “dedo estendido” em suas ações. Eu, pelo menos, acho um tanto desagradável o convívio com os julgadores de plantão, com os cobradores de comportamento.

Gostaria inclusive de processar uma resposta padrão que saísse automaticamente e corajosamente de cunho informativo para dizer que “não estão na minha pele”. É tão mais fácil julgar o outro e cobrar dele um comportamento compatível com os pensamentos e convicções que não lhe pertencem. Tão mais cômodo enrijecer o tom, reclamar, falar mal, fazer chantagens de cunho emocional, medir a postura alheia com a sua régua. Mas isso não é legal, devo dizer.

Esses dedos levantados pela sociedade constantemente e incessantemente podem fazer mal. Principalmente a quem os levanta. Sinto vontade de dizer: descansem as mãos, relaxem as mentes, cuidem de fazer a sua parte e respeitem as escolhas alheias que não fazem mal a ninguém. E mais, cabeças erguidas. Essas sim, levantadas. Os olhos precisam miras adiante, vislumbrar o horizonte. Cabeças ao alto. Não por soberba nem tampouco por superioridade. Mas por autoestima, por respeito às individualidades, por honra. E se tiverem que se abaixar, que seja pela nobreza da humildade e não por medo das cobranças externas e do julgamento alheio. 

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Rindo à toa

sexta-feira, 26 de junho de 2026
por Paula Farsoun

Rir. Sorrir. Gargalhar. Eis práticas deliciosas de viver. Rir é bom demais. Esboça alegria, faz bem para alma, libera o diafragma, alivia tensões. Sorrir, faz muito bem. A expressão da felicidade, simpatia, bem-estar, muitas vezes transborda o sorriso, vai além do que se pode supor. Gargalhar passa por aquele riso extravasado, que transborda, contagia. 

Rir. Sorrir. Gargalhar. Eis práticas deliciosas de viver. Rir é bom demais. Esboça alegria, faz bem para alma, libera o diafragma, alivia tensões. Sorrir, faz muito bem. A expressão da felicidade, simpatia, bem-estar, muitas vezes transborda o sorriso, vai além do que se pode supor. Gargalhar passa por aquele riso extravasado, que transborda, contagia. 

A verdade é que tudo isso faz muito bem, tanto para quem sorri, ri, gargalha, quanto para eventual interlocutor dessas mensagens corporais que transcendem os movimentos do rosto. Até isso é uma escolha. Sorrir ou não sorrir para a vida. Acolher ou não o outro com uma mensagem de boas-vindas. Tem a ver com simpatia, empatia, otimismo, alegria.

Andando por aí, vou observando os semblantes que por mim passam. A maioria das pessoas carrega olhares sofridos, expressões carregadas. Sobrecarregadas. Vivemos tempos difíceis sob muitos aspectos, não podemos negar. E as faces taciturnas, creio, são o oposto de tudo aquilo que o sorriso sincero expõe. Desânimo, cansaço, antipatia, tristeza.

Por outro lado, o sorriso aberto não significa felicidade. Não necessariamente. Em tempos em que o que se demonstra em redes sociais toma dimensões inimagináveis, não raras vezes o ser mais triste apresenta o sorriso mais bonito. A gargalhada gostosa do vídeo, ensaiada. O riso sem brilho nos olhos. Será que dessa forma, sem verdade, sem consonância entre o que realmente se sente e o que aparenta, sorrir faz tão bem assim?

Tanto se utiliza a poderosa ferramenta do sorriso para vender a imagem da felicidade que no dia a dia está longe de ser perseguida. Gente que sorri para as câmeras, que mostra sua faceta mais aprimorada da simpatia em fotos, mas que é incapaz de sorrir para as pessoas com quem topa na rua, para o porteiro do prédio, para o colega de trabalho. Gente que oferece sua melhor versão às postagens nas redes sociais, mas que é incapaz de sorrir em casa, que oferece ao convívio familiar sua expressão de descontentamento. Sem senti-lo.

São divagações, para não dizer devaneios. Mas fazem algum sentido. Vejo tantas pessoas essencialmente sem brilho que fazem questão de ensaiar o Sol para convencer terceiros sobre uma felicidade que por vezes passa longe. E qual a intenção de tudo isso? O riso é livre. Sorrir transforma, muda a energia, eleva a frequência, transforma o dia de alguém. É livre e ilimitado. Por que não sorrir de dentro para fora? Isso mesmo: de dentro para fora. Rir de a barriga doer. De dentro para fora. Gargalhar sem medo de ser feliz. Sem pose para fotos. Sem necessários registros. Sem foco na aparência. De dentro para fora. Sorrir para mudar o dia, para mudar a si mesmo, para contagiar o outro, para transformar a vibração do mundo.

É isso. Enxergar o lado bom que tudo tem e sorrir para a vida. É deveras transformador. De dentro para fora.

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Lado bom

sexta-feira, 19 de junho de 2026
por Paula Farsoun

O texto vai ser curto. A mensagem, breve. Prometo. Sobre honestidade. Mais uma vez. É necessário, atemporal e eu gosto de falar disso. E por isso repito. Os dicionários dão conta que a honestidade é substantivo feminino (começamos bem). É “ qualidade daquele que é honesto”. Ser uma qualidade, é ótimo. Predicados positivos são de bom grado. Está ligada ao decoro, honradez e probidade. Minhas palavras poderiam se encerrar por aqui. Já é o bastante. Só que não. Nunca será. Precisamos de reiterar as premissas básicas do Ser honesto. De ser honesto.

O texto vai ser curto. A mensagem, breve. Prometo. Sobre honestidade. Mais uma vez. É necessário, atemporal e eu gosto de falar disso. E por isso repito. Os dicionários dão conta que a honestidade é substantivo feminino (começamos bem). É “ qualidade daquele que é honesto”. Ser uma qualidade, é ótimo. Predicados positivos são de bom grado. Está ligada ao decoro, honradez e probidade. Minhas palavras poderiam se encerrar por aqui. Já é o bastante. Só que não. Nunca será. Precisamos de reiterar as premissas básicas do Ser honesto. De ser honesto. E reconhecer aquele que consegue sê-lo, apesar dessa conspiração estranha que parece atrair para o lado oposto.

Desde as pequenas práticas às grandiosas, o indivíduo honesto sente-se incomodado se deixar escapar, ainda que por milímetros, o lado bom da força. Inadmite deixar evadir a blindagem da honra que o cerca e por vezes, o toma por completo. Ele vive e convive com a necessidade de empregar grande esforço para manter-se na posição esguia e admirável da honradez. E da sensatez. Orgulha-se de ser correto. Direciona energia para agir como deve ser, sem pisotear nas premissas básicas da boa convivência nem tampouco fingir que esqueceu que ser honesto é qualidade que demanda vigilância constante.

Não se pode pestanejar. Não dá para esmorecer. Fingir que o troco a mais veio certo no caixa do supermercado? Nem pensar. “Colar” em uma prova para galgar a meta e atingir notas mais elevadas? Também não dá.  Extraviar pertences alheios? Enganar pessoas? Falsificar documentos? Inventar mentiras sobre terceiros procurando beneficiar-se disso? Apropriar-se de dinheiro alheio? Nem pensar. Não dá para negociar com o que é errado.

Afinal, qual é o preço da confiança? Não tem. Seu valor é inestimável e a vida parece se encarregar de demonstrar isso sempre que possível. O chamado às vezes é demorado. Como não sentir incômodo ao presenciar tantas pessoas aparentemente “se dando bem” fazendo coisas socialmente tidas por erradas pelo critério da hombridade?  Esse é o exercício. Não sucumbir. Ser resistência. Dormir em paz, com a consciência leve como uma pluma. Andar de cabeça erguida. Contribuir com bons exemplos. Esperar a retribuição da lei do retorno, das forças do Universo, que hão de ser justas. Que são justas. Acreditemos.

E nós que já nos atrapalhamos tantas vezes na vida? Que já pestanejamos, esmorecemos, andamos pelas bandas de lá? Mudemos, pois. Sempre é hora. A vida é esse emaranhado de escolhas contínuas. Que enxerguemos no que é certo um caminho a seguir. Uma boa opção. A única. Ainda que saibamos que até o conceito de certo e errado é relativo.

De fato, tudo é tão relativo e questionável que poderíamos andar cambaleando sem saber qual rumo seguir. Essa coisa de escolher um lado é tão pueril e superficial. Mas ... para quem pressupõe a existência dessa enorme corda invisível que separa o moral do imoral, o ético do antiético, o probo do improbo, o que semeia a paz do que fomenta o conflito, o que preconiza boas práticas do que as repudia, o honesto do desonesto, penso que seja mais eficiente escolher para qual lado destinar e empregar a força que te move. A hora é agora.

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Vida inteira

sexta-feira, 12 de junho de 2026
por Paula Farsoun

Junho chega trazendo corações nas vitrines, flores nas esquinas e declarações espalhadas pelas redes sociais. É o mês em que o amor ganha data marcada no calendário, como se precisasse de autorização para ser celebrado. Dia dos Namorados – 12 de junho! Uma data um tanto comercial para um símbolo que realmente merece ser celebrado, porque é o amor resistindo e arrancando sorrisos por aí.

Junho chega trazendo corações nas vitrines, flores nas esquinas e declarações espalhadas pelas redes sociais. É o mês em que o amor ganha data marcada no calendário, como se precisasse de autorização para ser celebrado. Dia dos Namorados – 12 de junho! Uma data um tanto comercial para um símbolo que realmente merece ser celebrado, porque é o amor resistindo e arrancando sorrisos por aí.

Mas a verdade é que o nunca coube em datas. Ele mora em instantes ao mesmo tempo em que mora em toda uma existência. Ele se faz presente no primeiro olhar trocado sem querer. Na conversa que se prolonga quando já não há assunto. Na estranha sensação de reconhecer alguém que acabamos de conhecer. Passa pela nossa mente que a alma gêmea existe e, que sorte a nossa, podemos estar diante dela!

O amor começa com uma espécie de encantamento. Uma pequena suspensão da realidade. O mundo continua girando, as contas continuam chegando, os compromissos permanecem os mesmos, mas algo muda silenciosamente dentro de nós. Como uma janela que se abre depois de muito tempo fechada. Os namorados conhecem bem esse fenômeno.

O início de uma história de amor costuma desafiar a lógica da importância. De repente, alguém que até ontem era um desconhecido passa a ocupar pensamentos, alterar planos e influenciar decisões. Tudo parece ligeiramente deslocado do lugar. Como se a vida, sem fazer alarde, tivesse acrescentado uma nova cor à paisagem de sempre.

Os namorados são especialistas em fundar geografias afetivas. Transformam esquinas comuns em marcos históricos, cafés em patrimônios emocionais e bancos de praça em monumentos particulares. Anos depois, ninguém mais se lembrará do que aconteceu naquela terça-feira específica de abril. Eles se lembrarão. Porque o amor tem o hábito de conceder eternidade a dias que, para o restante da humanidade, foram absolutamente comuns.

Acho bonito o amor jovem. Ele é cheio de urgências. Quer viver, ver, ouvir, contar, compartilhar. Quer estar perto. Quer conhecer todos os detalhes da vida do outro. É um amor que corre. Que desfruta. Que anseia. Bonito de ver. Lindo de viver.

Mais lindo ainda é o amor maduro. Ele dura, persiste, resiste. Parece naturalmente mais manso, mais resiliente, mais seguro. A vida, sábia como costuma ser, ensina que os sentimentos também amadurecem. E o brilho disso, poucos veem.  Uma árvore centenária não é menos bela do que uma muda recém-plantada. Pelo contrário. Ela carrega outras formas de beleza que poucos têm o privilégio de ver.

Os anos vão substituindo algumas emoções por outras. A ansiedade dos encontros dá lugar à tranquilidade da presença. A necessidade de impressionar cede espaço à liberdade de ser exatamente quem se é. Chega um momento em que o amor deixa de morar apenas no coração e passa a ocupar a rotina, a casa, os planos e as memórias.

O amor de anos é passado, presente e futuro interagindo dentro da gente e carimbando uma identidade só nossa. Só a gente sabe. Só a gente sente. Hoje brindo esse amor que dura, porque ele exige profundidade, comprometimento, entrega, decisão e a capacidade de reencontrar a mesma pessoa inúmeras vezes ao longo da vida. Amar a vida inteira a mesma pessoa é um aceite de fazer essa longa, linda e imprevisível viagem que é a vida de mãos dadas, literalmente.

Saúdo os que continuam encontrando razões para rir das histórias, para dividir os mesmos sonhos e para construir novos capítulos quando muitos acreditariam que o livro já estava completo. Neste Dia dos Namorados, gosto de pensar que o amor é menos uma fotografia e mais uma narrativa. E entre uma coisa e outra existe uma vida inteira.

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Templo em equilíbrio

sexta-feira, 05 de junho de 2026
por Paula Farsoun

Ele resolveu investir em si mesmo. Pensou sobre como começar. Resolveu, então, traçar o ponto de partida a começar por suas reflexões. Quis pensar na estratégia. Tentou entender-se. Inevitável. Autoconhecer-se antes de tudo. Como se diz, para quem sequer sabe aonde chegar, qualquer lugar pode ser o destino. Ele queria caminhos. Mergulhou, então, no universo quase desconhecido de saber mais sobre o que deveria saber. Atentou-se em buscar o que queria fazer. Esbarrou no desconhecimento sobre quem ele era. Enganou-se por subestimar a profundidade de seus anseios

Ele resolveu investir em si mesmo. Pensou sobre como começar. Resolveu, então, traçar o ponto de partida a começar por suas reflexões. Quis pensar na estratégia. Tentou entender-se. Inevitável. Autoconhecer-se antes de tudo. Como se diz, para quem sequer sabe aonde chegar, qualquer lugar pode ser o destino. Ele queria caminhos. Mergulhou, então, no universo quase desconhecido de saber mais sobre o que deveria saber. Atentou-se em buscar o que queria fazer. Esbarrou no desconhecimento sobre quem ele era. Enganou-se por subestimar a profundidade de seus anseios

Certo estava de prosseguir. Por instante sentiu-se em um beco sem saída, percurso sem volta. Mas decidiu se conhecer melhor, afinal, seria ele próprio o destinatário de todo o investimento projetado, não poderia apostar todas as fichas no desconhecido. Não queria ser a “zebra” da própria vida. Estava disposto a afundar, se preciso fosse. Resistiria de toda forma. Estava esperançoso por descobrir as asas imaginárias que o possibilitassem voar. Já amava o voo  (tanto quanto a metáfora).

Nesse processo, como investidor, percebeu que seus lucros seriam maiores se cuidasse muito bem do seu principal patrimônio, a que apelidou de templo. Referia-se à sua própria saúde. Ao seu corpo físico, mental, espiritual. Concluiu que a mola mestra da máquina, sua mente, estava mal da engrenagem. Enferrujada, em mal estado de funcionamento. Seria ela o início do processo. Começou a aplicar em seus cuidados. O retorno foi rápido. Estava certo de seu propósito e prosseguiu. O equilíbrio pretendido passava pela reforma interior e exterior. Mãos à obra. Logo percebeu que deveria concentrar em si os esforços da reforma, pois só ele se empenharia no nível desejado e conhecia bem o projeto.

Feliz com o resultado, templo em equilíbrio, resolveu transmutar seu olhar sobre o mundo e sobre o outro. Fomentou práticas altruístas e quanto mais útil ao bem do próximo se tornava, mais se deparava com uma sensação até então inédita, que começou a desconfiar que fosse a tal felicidade. Ao olhar-se no espelho, o semblante ranzinza cedia espaço para um sorriso leve que despertava até uma vontade estranha de continuar sorrindo.

Decidiu incrementar suas habilidades. Investir em conhecimento, aprimorar suas habilidades mais técnicas, ler bons livros, priorizar contatos com pessoas a quem admirava. Foi certeiro. O retorno veio à galope. E quanto mais cuidava do seu templo e desenvolvia suas habilidades, mais satisfeito estava por ter feito um bom negócio.  Mudou até seu conceito de riqueza. Sentiu-se detentor de um super poder, voltou a acreditar em si, enxergou seu potencial e percebeu-se habitante de um belo templo, cujas energias sentia-se de longe. Renasceu. Foi o melhor investimento de sua vida.

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Casa não esquece

sexta-feira, 29 de maio de 2026
por Paula Farsoun

Há casas que continuam habitadas mesmo depois que as pessoas vão embora. Nos lares, mesmo depois que os moradores se vão, há versões antigas que permanecem silenciosamente espalhadas pelos cantos, como se fossem impregnadas nas paredes, nas janelas, entre fotografias esquecidas, xícaras lascadas que ninguém joga fora, bilhetes dobrados dentro de livros e perfumes que ainda resistem no fundo de alguma gaveta. Toda casa tem memória. E às vezes ela lembra de nós melhor do que nós mesmos.

Há casas que continuam habitadas mesmo depois que as pessoas vão embora. Nos lares, mesmo depois que os moradores se vão, há versões antigas que permanecem silenciosamente espalhadas pelos cantos, como se fossem impregnadas nas paredes, nas janelas, entre fotografias esquecidas, xícaras lascadas que ninguém joga fora, bilhetes dobrados dentro de livros e perfumes que ainda resistem no fundo de alguma gaveta. Toda casa tem memória. E às vezes ela lembra de nós melhor do que nós mesmos.

Outro dia abri um armário procurando uma caixa de documentos antigos e encontrei uma mulher que já fui. Ela estava ali, guardada entre certificados, cartões com validade vencida, cartas amareladas, bloquinho de anotações, fotografia 3x4 do tempo em que ainda era adolescente e outras reveladas em papel, daquelas que precisavam esperar dias para existir. Pude me lembrar do cheiro de um rolo de filme da Kodak que a gente comprava nas opções 12, 24, 36 ou 48 fotos (esta última, era a melhor opção, porém muito cara). Usávamos nossas máquinas de fotografar com cuidado, o flash, se usado, tinha que ser bem estudado, para não queimar uma fotografia à toa. Não gastar uma chance. Um registro a menos. Uma memória a menos para ser recordada para sempre.

Lembrei-me também do dia de juntar os rolinhos e levá-los para que fossem revelados. Levava dias para a entrega. E quando o envelope de fotos chegava, com aquele álbum da reveladora, com os plásticos para serem preenchidos por memórias, dava até uma emoção. As melhores fotos ficavam na frente. As demais, vinham na sequência. Bons tempos.

Fiquei olhando para aquela caixa com a estranha sensação de visitar alguém conhecido. E era. Só que aquela mulher já não mora em mim da mesma forma. As fotografias sabem disso antes da gente. As casas também...

Sabem quando deixamos de ouvir certas músicas. Quando abandonamos hábitos. Quando paramos de esperar alguém voltar. Há corredores que testemunharam choros abafados de madrugada. Mesas que ouviram despedidas definitivas. Sofás que acolheram silêncios mais dolorosos do que qualquer discussão.

Sabem das flores que colocamos naquele vaso que acabou manchando a madeira. Sabem de cada “parabéns” cantado nas festas de aniversário. Conhecem os sorrisos que foram dados para gente querida. Os abraços. Os momentos partilhados.

Existe uma intimidade entre as paredes e quem vive nelas. Uma cumplicidade inegável. Já parou pra pensar? Talvez por isso seja tão difícil mudar de casa. Não pela mudança em si, mas porque empacotar objetos é também tocar em pequenas arqueologias emocionais. Uma colher qualquer pode trazer de volta um domingo inteiro. Um cheiro antigo pode abrir uma porta que estava trancada há anos dentro da memória.

As casas acumulam tempos. A planta que alguém esqueceu na varanda. A marca de um quadro que já não está mais ali. A gaveta onde ainda existe um carregador de celular de um aparelho que nem existe mais. Pequenas permanências de vidas que foram acontecendo sem percebermos. E o curioso é que, enquanto tentamos organizar a casa, ela também nos organiza por dentro.

Há pessoas que conseguem viver em ambientes absolutamente neutros, sem história, sem afeto visível. Eu nunca consegui. Gosto das casas que parecem vividas. Das que têm livros fora do lugar, mantas sobre a poltrona, fotografias espalhadas e algum perfume emocional no ar. Casas excessivamente perfeitas me dão certa tristeza. Parecem não permitir que ninguém exista de verdade ali dentro. Porque viver desarruma. Amar desarruma. E toda casa sinceramente habitada acaba revelando isso em algum detalhe.

As casas nunca esquecem completamente quem amou dentro delas.

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A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

A arte salva os dias

sexta-feira, 22 de maio de 2026
por Paula Farsoun

Outro dia ouvi uma música antiga em um restaurante.  Dessas músicas que a gente não procura mais, mas que, de vez em quando, encontram a gente pelo caminho. E foi curioso perceber como bastaram poucos segundos para que tudo mudasse dentro de mim. O café continuava quente. As pessoas continuavam entrando e saindo apressadas. O mundo seguia igual. Mas eu não.

Outro dia ouvi uma música antiga em um restaurante.  Dessas músicas que a gente não procura mais, mas que, de vez em quando, encontram a gente pelo caminho. E foi curioso perceber como bastaram poucos segundos para que tudo mudasse dentro de mim. O café continuava quente. As pessoas continuavam entrando e saindo apressadas. O mundo seguia igual. Mas eu não.

A arte tem esse poder de interromper o automático da vida. Às vezes ela chega numa canção esquecida. Outras vezes aparece num filme reprisado numa madrugada insone, numa fotografia antiga guardada na gaveta, numa dança improvisada na cozinha, num livro sublinhado, numa poesia encontrada sem querer. E quando chega, mexe. Nem sempre faz barulho. Quase nunca faz. Mas reorganiza silenciosamente aquilo que estava bagunçado por dentro.

Talvez seja por isso que algumas pessoas sobrevivam graças à arte sem sequer perceberem. Porque há dias em que um quadro explica o que não conseguimos dizer. Há dores que só uma música alcança. Há cansaços que um filme leve consegue amenizar. Há vazios que um texto preenche sem pedir licença.

A verdade é que a arte nos devolve partes de nós mesmos que a rotina vai apagando. Em meio a boletos, notificações, pressa, trânsito, metas, compromissos e telas demais, a sensibilidade vai ficando esquecida em algum canto da semana. E então a vida começa a endurecer sem que a gente note. Os dias ficam úteis, mas deixam de ser bonitos. Funcionais, porém sem encanto. Até que alguma forma de arte atravessa o caminho e lembra que sentir ainda importa.

Uma canção pode trazer de volta alguém que já foi embora. Um livro pode abrir uma janela onde antes só havia parede. Uma peça de teatro pode provocar mais reflexão do que horas inteiras de discussões vazias. Um desenho feito por uma criança pode devolver leveza a um adulto exausto. E talvez esteja aí uma das maiores grandezas da arte: ela humaniza novamente aquilo que o mundo insiste em mecanizar.

Nem sempre percebemos, mas os momentos mais bonitos da vida quase sempre vêm acompanhados de arte. Tem música em comemoração. Tem fotografia em reencontro. Tem cinema em namoro. Tem poesia em despedida. Tem pintura em memória. Tem dança em liberdade.

A arte registra aquilo que o coração sozinho não consegue guardar. E talvez por isso ela seja tão necessária. Não como luxo. Não como excesso. Mas como respiro. Como pausa. Como abrigo emocional para dias difíceis. Porque existem semanas em que a alma também precisa ser alimentada.

Entendo que a arte não serve apenas para entreter. Ela serve para lembrar que ainda estamos vivos. E viver, no fundo, também é conseguir se emocionar com aquilo que não se toca, mas transforma tudo por dentro.

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