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​Apuros

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Não faça aos outros aquilo que não gostaria que fizessem com você. É tão simples assim como parece? Deveria ser. Comumente vivemos situações embaraçosas, desconfortáveis, angustiantes e sentimo-nos tristes e sobrecarregados. Situações essas que não raras vezes poderiam ter sido evitadas se nossos interlocutores da vida pensassem em evitar fazer às pessoas aquilo que abominariam que impusessem a elas. Seria bem mais fácil.

Não faça aos outros aquilo que não gostaria que fizessem com você. É tão simples assim como parece? Deveria ser. Comumente vivemos situações embaraçosas, desconfortáveis, angustiantes e sentimo-nos tristes e sobrecarregados. Situações essas que não raras vezes poderiam ter sido evitadas se nossos interlocutores da vida pensassem em evitar fazer às pessoas aquilo que abominariam que impusessem a elas. Seria bem mais fácil.

Mas, se coabitamos o mesmo planeta, talvez todos já tenhamos entendido ou estejamos próximos de compreender, que essa interação de mentes, de gente, de egos e valores, não é tão simples assim. Não é premissa básica uníssona que evitar impor aos outros coisas que detestaria que nos impusessem pode minimizar o sofrimento e o estresse do próximo. É importante até mesmo considerar que múltiplos que somos, não necessariamente partilhamos de dores semelhantes, de modo que às vezes o agir inconsciente atropela qualquer raciocínio sobre o estado de espírito dos receptores de nossas condutas por eles recepcionadas como negativas. E por aí vai.

Carecemos de uma percepção mais inteligente. Emocionalmente mais inteligente, que considere também os outros, a sociedade como um todo e mesmo o planeta. Talvez devêssemos perceber que há questões que de maneira geral ferem, causam transtorno, prejudicam e geram sofrimento. Não é tão difícil supor que determinadas ações magoam, desestabilizam, deixam as pessoas em apuros de várias ordens.

Gostaria muito que fosse tão simples quanto parece. Que escolher ser pessoa leve fosse tudo de que precisássemos para efetivamente estarmos envoltos pela leveza todo o tempo. Às vezes, o é. Mas como não vivemos em uma bolha e nossas energias se entrelaçam com as dos outros o tempo todo, passa a ser uma arte e uma habilidade diferenciada sabermos nos defender da negatividade, da injustiça, da grosseria, da sobrecarga que nos impõem e ainda assim, seguirmos gratos e sem disseminar o mesmo nível de pensamentos, sentimentos e condutas por aí.

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A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

Ano novo, vida nova?

sexta-feira, 09 de janeiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

A cada virada de ano, renova-se um pacto coletivo com a ideia de mudança. Repete-se, quase como um mantra socialmente aceito, a expressão “ano novo, vida nova”, carregada de expectativa, mas nem sempre de disposição real para transformar. A pergunta que permanece incômoda — e por isso evitada — é simples: o que exatamente muda quando apenas o calendário muda?

A cada virada de ano, renova-se um pacto coletivo com a ideia de mudança. Repete-se, quase como um mantra socialmente aceito, a expressão “ano novo, vida nova”, carregada de expectativa, mas nem sempre de disposição real para transformar. A pergunta que permanece incômoda — e por isso evitada — é simples: o que exatamente muda quando apenas o calendário muda?

 O tempo não tem poder pedagógico por si só. Ele não corrige escolhas, não amadurece atitudes, não reorganiza prioridades. O tempo apenas passa. A transformação acontece quando há consciência, decisão e, sobretudo, responsabilidade sobre aquilo que se repete. Ainda assim, é comum ver pessoas atravessando anos inteiros mantendo os mesmos comportamentos, os mesmos conflitos e os mesmos resultados, acreditando que a novidade do ano será suficiente para produzir algo diferente.

O discurso do recomeço anual, muitas vezes, funciona mais como anestesia do que como impulso. Alivia, temporariamente, o incômodo de não mudar agora. Adia decisões difíceis. Sustenta a ilusão de que haverá um momento mais adequado, mais confortável, mais favorável. O novo ano vira, assim, uma espécie de promessa abstrata — sempre no futuro, raramente no presente.

Vida nova, no entanto, exige mais do que intenção. Exige ruptura. Ruptura com hábitos que já demonstraram seus limites. Com relações mantidas por medo da solidão ou pela conveniência do conhecido. Com padrões internos que se repetem não por acaso, mas por escolha silenciosa. Não há transformação sem perda, e talvez seja exatamente isso que torna o recomeço tão desejado quanto evitado.

Fala-se muito em metas, mas pouco em renúncias. Em dedicação. Pouco se questiona o que precisa ser encerrado para que algo novo possa, de fato, começar. Porque não se constrói uma vida diferente acumulando as mesmas práticas, os mesmos excessos e as mesmas justificativas.

Talvez o verdadeiro recomeço esteja menos em prometer mais e mais em sustentar melhor. Sustentar limites. Sustentar constância. Sustentar escolhas quando o entusiasmo inicial inevitavelmente se dissipa — porque ele sempre se dissipa. O que permanece, depois, é o compromisso com aquilo que se decidiu mudar.

Não se trata de reinventar tudo, nem de aderir a discursos grandiosos de transformação. Trata-se de fazer diferente o que realmente importa. De assumir que o novo não nasce da passagem do tempo, mas da coragem de interromper ciclos conhecidos.

O novo ano pode, sim, ser um convite. Mas ele não faz nada sozinho. A vida só se torna nova quando alguém está disposto a abandonar versões antigas de si mesmo. E essa decisão, ao contrário do que se gosta de acreditar, não depende do calendário. No fim, talvez a pergunta mais honesta não seja se o ano será novo — mas se haverá, de fato, disposição para viver de outra forma.

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Contagem regressiva

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

         Estamos muito próximos do fim de 2025. Já se foram quase todos os dias desse ano um tanto abarrotado de informações, acontecimentos e mudanças. Enquanto sociedade, vimos de tudo, tememos muito, perdemos esperanças, sentimos muito. Foram tantas notícias estranhas que a exaustão coletiva foi tomando seu espaço de forma surpreendente. A torcida para que termine logo é tão grande que merece o questionamento sincero sobre o que vai mudar na noite de ano novo se nós não formos os protagonistas das ondas de melhora.

         Estamos muito próximos do fim de 2025. Já se foram quase todos os dias desse ano um tanto abarrotado de informações, acontecimentos e mudanças. Enquanto sociedade, vimos de tudo, tememos muito, perdemos esperanças, sentimos muito. Foram tantas notícias estranhas que a exaustão coletiva foi tomando seu espaço de forma surpreendente. A torcida para que termine logo é tão grande que merece o questionamento sincero sobre o que vai mudar na noite de ano novo se nós não formos os protagonistas das ondas de melhora.

Falta pouco, mas ainda há tempo. Tempo precioso que não volta mais. Nos restam poucos dias para o “feliz ano novo”, para o sem fim de promessas, as renovações de sonhos, as prospecções dos projetos novos, a crença na virada milagrosa da meia noite, para tirarmos as superstições das gavetas e as praticarmos sem mesmo nela acreditarmos, verdadeiramente.

         Sob esse ponto de vista, estamos realmente muito próximos do fim deste intenso ciclo. Contudo, devo dizer: ainda falta muito. Faltam as emoções de Natal. Faltam dias de trabalho. Faltam momentos a serem superados. Celebrados. Pergunto se o tempo que nos resta deste ano é deveras curto demais para alguém que esteja enfermo em um quarto de hospital, para aquele que aguarda pelo resultado de uma prova importante, de um exame conclusivo, para o ansioso por uma viagem marcada há tempos, para quem busca um perdão para fazer as pazes com o ente amado, para quem está desempregado à procura de um ofício digno, para quem tem mais contas a pagar do que dias no mês. Creio que a resposta será não. Pois até esse tempo é relativo.

         Então, vos aconselho humildemente: antecipe-se às situações difíceis, crie oportunidades de valorizar todos esses segundos vindouros de dezembro. Como sempre, é tempo de amar, de espalhar fraternidade, de expandir a espiritualidade, de fomentar a caridade, de olhar para o lado, estender uma mão, sufocar de amor toda a maldade.

Talvez seja exatamente agora, quando o ano se despede com pressa e o cansaço coletivo pede descanso, que caiba a nós desacelerar por dentro. Não para negar tudo o que foi pesado, mas para reconhecer que ainda há vida pulsando nesses últimos dias, vida que se manifesta nos gestos simples, nas palavras escolhidas com cuidado, nas reconciliações silenciosas e nas esperanças discretas que sobrevivem apesar de tudo. O Natal, antes de qualquer celebração externa, nos convoca a esse movimento íntimo: resgatar humanidade onde ela foi sufocada, devolver sentido ao tempo que resta e lembrar que, mesmo às vésperas do fim do ciclo, ainda somos responsáveis pelo que fazemos com cada instante que nos foi confiado.

         Proponho um fim de ano diferente, com menos efeito manada e mais união e verdade, em que nós possamos nos inspirar nos preceitos cristãos tão enfatizados por ocasião das celebrações de natal para sermos o amor pelo próximo e pela Humanidade. Estamos bastante carentes desse amor ilimitado que transcende as quatro paredes das casas, as contas bancárias, as sacolas cheias de presentes e as confraternizações com mais bebidas nos copos que amor nos corações. Precisamos é de afeto, olho no olho, coração com coração. Perto ou longe, aonde for. Que seja amor.

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Encontro de Natal

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

O encontro de Natal não deixa de ser esse grande ensaio geral da convivência. Todos chegam com figurino caprichado, sorriso treinado e uma disposição quase teatral para “ficar tudo bem”. É a única noite do ano em que famílias inteiras se sentam à mesma mesa como quem participa de uma foto antiga. Há uma coreografia conhecida. O parente que chega atrasado, mas faz questão de anunciar o atraso. A parente que pergunta coisas demais sob o pretexto de se importar.

O encontro de Natal não deixa de ser esse grande ensaio geral da convivência. Todos chegam com figurino caprichado, sorriso treinado e uma disposição quase teatral para “ficar tudo bem”. É a única noite do ano em que famílias inteiras se sentam à mesma mesa como quem participa de uma foto antiga. Há uma coreografia conhecida. O parente que chega atrasado, mas faz questão de anunciar o atraso. A parente que pergunta coisas demais sob o pretexto de se importar. O outro que surge com opiniões embrulhadas em papel de presente, e a gente agradece, mesmo sem saber onde vai guardar aquilo depois.

O Natal tem cheiro de comida e de memória. Algumas boas, outras requentadas. Certos assuntos voltam à mesa como pratos que ninguém pediu, mas alguém insiste em servir. E ali estão eles: expectativas, comparações, silêncios herdados. Tudo muito tradicional. Há quem diga que o Natal une. Une, sim, como cola forte demais: aproxima o que talvez precisasse de um pouco de espaço. Ainda assim, há beleza nesse esforço coletivo de fingir normalidade por algumas horas. É quase comovente.

Entre um brinde e outro, percebemos que crescemos. Não porque resolvemos nossas histórias, mas porque aprendemos a sentar com elas sem tanto alarde. Já não discutimos como antes. Preferimos observar. O tempo vai ensinando que nem toda verdade precisa ser dita na sobremesa.

Há algo que insiste em sobreviver a cada Natal: a vontade de permanecer juntos. Entre risos desajeitados e silêncios antigos, gargalhadas despretensiosas, surgem abraços que dizem mais do que conversas inteiras, lembranças que aquecem como luzes acesas no fim da noite e uma saudade mansa, daquela que não dói, mas avisa que o afeto existe. Por algumas horas, deixamos as diferenças descansarem na cadeira ao lado e percebemos que a união não é ausência de conflitos, é escolha. Escolha de somar e partilhar, de orar de mãos dadas, de brindar mesmo com o copo meio cheio, de abraçar quem se ama. O Natal passa, mas esses gestos ficam, como bilhetes discretos deixados no bolso da memória.

No fim da noite, quando as luzes piscam e o barulho diminui, sobra aquele cansaço bom. O potinho cheio do afeto daquelas que talvez sejam as pessoas mais importantes da vida, o grupo seleto dos seres mais especiais que se juntam para seguirem unidos vivendo esse momento íntimo e fraterno. O Natal não resolve nada, mas lembra. Lembra de onde viemos, do que evitamos, do que ainda tentamos amar.

Para além de todo o significado da celebração do nascimento de Jesus, culturalmente o encontro de Natal é uma grande oportunidade para reconhecer que a convivência pode até ser imperfeita, mas, ainda assim, a gente volta no ano seguinte. Porque no final das contas, as coisas mais valiosas da vida estão ali, reunidas com a gente na celebração do Natal.

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Poderosa

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

        Muitos de nós têm dificuldades em assimilar a efemeridade da vida, a velocidade com que o tempo passa. Quando muito jovens, achávamos que seríamos, inclusive, eternos. A juventude tem esse frescor, nos ilude ao imaginarmos uma vida muito longa pela frente e sequer vislumbramos que o fim pode chegar. Vai chegar, aliás, um dia. Parece coisa que acontece com os outros, tão distante que não pode nos alcançar.

        Muitos de nós têm dificuldades em assimilar a efemeridade da vida, a velocidade com que o tempo passa. Quando muito jovens, achávamos que seríamos, inclusive, eternos. A juventude tem esse frescor, nos ilude ao imaginarmos uma vida muito longa pela frente e sequer vislumbramos que o fim pode chegar. Vai chegar, aliás, um dia. Parece coisa que acontece com os outros, tão distante que não pode nos alcançar.

        Mas a vida é isso aí, Vida. Ela sendo ela. Cheia de riscos. Poderosa, intensa, surpreendente. E ela tem essa força para mudar tudo da noite para o dia, relativizar convicções, romper com devaneios, desnudar a realidade, impor desafios, apresentar obstáculos algumas vezes intransponíveis. E aí é que começa a complicar. Há surpresas na vida que são implacáveis, arrebatadoras, nos tira o chão, nos coloca no cantinho do castigo olhando para as paredes de forma severa, sem hora para acabar. Não vai adiantar reclamar com os pais, os diretores não vão poder fazer nada.

        E o tempo que parece voar, realmente passa rápido demais. Creio que um dia todos chegaremos a essa conclusão. E não dá para parar o relógio, colocar pilha fraca, sumir com o marcador. Ele não vai parar de passar e esse minuto em que penso essas palavras, também jamais voltará. Já dizia meu saudoso avô: “O relógio só anda para frente”. E é isso mesmo. Temos que aproveitar.

        Chega uma hora, em que precisamos entender que existir significa também tomar as rédeas dessa existência, assumir de alguma maneira as responsabilidades, consentir, abraçar as possibilidades, desfrutar dos segundos, valorizar todos os instantes.

        Precisamos também estar cientes de que acatar a postura ativa diante da vida, significa também não esperar a “papinha na boca”, a mão na testa, alguém como escudo e as respostas prontas para tudo. É aprender sobre amor próprio. A entender-se no mundo, reconhecer seu valor e polir seus defeitos.

        Independente de convicções religiosas, das aspirações que temos sobre o lado de lá, na crença que podemos nutrir sobre a vida depois do “fim”, fato é que essa roupagem assumida por essa vida é única e preciosa e não deve ser desperdiçada. Creio realmente que não estamos aqui a passeio. Temos missões urgentes a cumprir. Precisamos ser úteis ao bem da humanidade. Carecemos de sabedoria para escolhermos as pessoas com quem desejamos caminhar.   Um dia, de uma maneira ou de outra, receberemos todos a conta da vida. Que tenhamos feito boas escolhas.

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Exaustos

sexta-feira, 05 de dezembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Existe uma palavra que, nos últimos anos, deixou de ser neutra e virou quase uma sentença: produtividade. Antes, significava conseguir realizar o que precisava ser feito. Hoje, virou uma régua emocional para medir o próprio valor. Não basta trabalhar. Tem que entregar mais, mais rápido, com sorriso no rosto e zero sinal de cansaço. Produtivo, agora, é quem faz caber três dias dentro de um. O problema é que ninguém fala sobre o preço disso.

Existe uma palavra que, nos últimos anos, deixou de ser neutra e virou quase uma sentença: produtividade. Antes, significava conseguir realizar o que precisava ser feito. Hoje, virou uma régua emocional para medir o próprio valor. Não basta trabalhar. Tem que entregar mais, mais rápido, com sorriso no rosto e zero sinal de cansaço. Produtivo, agora, é quem faz caber três dias dentro de um. O problema é que ninguém fala sobre o preço disso.

Vivemos uma lógica silenciosa de desempenho permanente. Mesmo quando o corpo pede pausa, a cabeça sussurra “só mais um pouco”. E a gente obedece, como se descansar fosse um luxo reservado a quem não quer crescer. No fundo, temos medo de parecer desinteressantes, preguiçosos ou, pior, substituíveis. Então seguimos. Empilhamos tarefas, expectativas, cobranças — externas e internas — até perceber que nossa energia virou pó. E no final das contas, uma verdade não cala: para o sistema que impõe o ser produtivo como mola motriz, somos substituíveis, sim.

A produtividade mudou de significado porque nós mudamos a forma de medir sucesso. Percebo que é quase uma competição invisível sobre quem aguenta mais sem desmoronar. Mas ninguém vence uma maratona correndo como se fosse uma prova de cem metros. A exaustão virou idioma comum. Todo mundo entende. Todo mundo fala. Aprendemos a celebrar o excesso, embora, no fundo, o que a maioria de nós anseia, é por equilíbrio.

Merece ênfase um detalhe que ninguém menciona nas palestras motivacionais: nenhuma meta vale a nossa saúde. Nenhum e-mail enviado às 23h vai nos dar a sensação de vida plena que buscamos. Porque produtividade verdadeira não tem a ver com fazer tudo. Tem a ver com fazer o que importa, com presença. Tem a ver com entregar bem, não com entregar sempre.

Produtivo, hoje, deveria ser quem consegue perceber quando está passando do próprio limite. Quem tem maturidade para dizer “agora não”. Quem entende que o corpo fala, e que ignorar o corpo não transforma ninguém em profissional melhor — só em alguém mais perto de um colapso. Talvez o novo significado da palavra produtividade não esteja nos livros, nem nas empresas, nem no LinkedIn. Talvez esteja nas pequenas decisões diárias que nos devolvem para nós mesmos.

Se existe um medidor que vale a pena acompanhar, não é o de tarefas concluídas, e sim o de vida vivida. Porque, no fim, ninguém se arrepende de ter descansado quando precisava — só de ter continuado quando já estava exausto.

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Vamos juntas

sexta-feira, 28 de novembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

“Não me sinto preparada, mas vou assim mesmo”. A frase tem me acompanhado como quem segura a porta para o vento entrar, sem pedir licença, sem medir consequências. Fico pensando que chegamos à vida adulta achando que, em algum momento, uma sirene invisível tocaria avisando: “agora sim, você está pronta”. Que ilusão mais bem elaborada. Porque a verdade, minha gente, é que raramente estamos prontos. E ainda assim seguimos.

“Não me sinto preparada, mas vou assim mesmo”. A frase tem me acompanhado como quem segura a porta para o vento entrar, sem pedir licença, sem medir consequências. Fico pensando que chegamos à vida adulta achando que, em algum momento, uma sirene invisível tocaria avisando: “agora sim, você está pronta”. Que ilusão mais bem elaborada. Porque a verdade, minha gente, é que raramente estamos prontos. E ainda assim seguimos.

Seguimos porque a vida não aceita aperto de pausa, não concede prorrogação, não devolve o ingresso. Ela acontece e a gente vai acontecendo junto, tropeçando, remendando, improvisando. Desde crianças nos vendem a ideia de que existe um tal “momento certo”: a hora de escolher a profissão, de se apaixonar, de fazer faculdade, de trabalhar, casar, de ter filhos, de guardar dinheiro, de assumir riscos. Crescemos esperando que o tal momento se revele com letreiros luminosos e sinais inequívocos. Mas quando ele chega, se é que chega, vem vestido de dúvida. Vem com medo. Vem com a sensação de que falta alguma peça no nosso quebra-cabeça interno. E a coisa é bem mais profunda, porque esse script que a sociedade nos impõe simplesmente pode não servir pra gente. Esse passo a passo combina com um padrão que não necessariamente somos nós e a vida que levamos. Somos feito um baralho embaralhado que vai se desvendando em uma sequência única.

Ainda assim, carta por carta, dia por dia, a vida vai se desenrolando. E coisas importantes acontecem. E decisões precisam ser tomadas. E o tempo parece voar. As informações começam a transbordar. E a verdade inconveniente é que quase tudo que vale a pena começa assim: com a mão suada, o coração desconcertado e a certeza de que talvez não dê certo. Mas a gente vai. Vai porque precisa. Vai porque desistir pode custar mais caro. Vai porque, lá no fundo, existe um fio de coragem que insiste em sobreviver mesmo nos dias em que mal conseguimos acreditar em nós mesmas.

Talvez a maturidade esteja justamente aí: não em sentir-se preparada, mas em entender que preparo é consequência, não pré-requisito. Que a força chega no caminho, não na largada. Precisamos conviver com o fato de que os desafios virão, que podem se apresentar como mudanças e interrogações em nosso roteiro pessoal, em forma de crises, sobressaltos, rupturas, mudanças, dúvidas. E etc. A sensação de desalinho é quase universal. E, curiosamente, é nessa bagunça que descobrimos do que realmente somos feitas.

Penso nas mulheres, especialmente nelas, que atravessam a vida equilibrando tarefas, culpas, expectativas e sonhos engavetados. Quantas se sentem preparadas antes de dar um passo? Pouquíssimas. Quase nenhuma. E ainda assim, elas vão. Vão porque precisam sustentar casas, vínculos, carreiras, afetos. Vão porque, se não forem, nada se move. Vão porque aprenderam que precisam ir. E se não aprenderam ainda, provavelmente a vida se encarregará de, cedo ou tarde, ensinar.

E é esse “assim mesmo” que nos salva. Assim mesmo, com imperfeições. Assim mesmo, com nervos expostos. Assim mesmo, confiando que, depois da primeira porta, exista outra. E mais outra. No fim das contas, talvez o segredo esteja em trocar a pergunta. Não é “estou pronta?”, mas “posso tentar?”. E se a resposta for sim — ainda que com a voz tremendo — já é o suficiente. Porque a vida não exige preparação perfeita. Exige presença. E coragem. E a delicada disposição de continuar, mesmo quando não nos sentimos dignas da própria história. Então, que seja assim: vamos, ainda que não nos sintamos validadas, aptas, preparadas. Vamos, porque é no caminho que a gente se descobre capaz. E vamos juntas — assim mesmo.

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Vínculos

sexta-feira, 14 de novembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Há vínculos que o tempo não dissolve. Ainda bem. Eles não precisam de presença constante, nem de provas diárias. Bastam o reconhecimento silencioso e a leveza de ser aceito exatamente como se é. Assim nasce a amizade genuína — esse raro encontro entre almas que não disputam espaço, mas se acolhem no mesmo compasso.

Há vínculos que o tempo não dissolve. Ainda bem. Eles não precisam de presença constante, nem de provas diárias. Bastam o reconhecimento silencioso e a leveza de ser aceito exatamente como se é. Assim nasce a amizade genuína — esse raro encontro entre almas que não disputam espaço, mas se acolhem no mesmo compasso.

A amizade genuína é um dos raros vínculos que resistem à lógica utilitarista do tempo. Em um mundo que transforma pessoas em meios e não em fins, ser amigo é reconhecer no outro um valor em si mesmo, não pelo que ele oferece, mas pelo que ele é. Trata-se de um encontro ético e existencial, no qual o ser é aceito em sua inteireza, sem a tentativa de moldá-lo ao nosso espelho. Bem, ao menos eu acho que seja assim.

Não há um formato ideal, nem tampouco único. Pelo contrário. É na pluralidade que os vínculos se tornam singulares, que as pessoas se tornam especiais umas para as outras. A pulverização de nossa atenção a cada dia é tamanha, que as vezes parece não sobrar tempo e energia para viver as conexões que interessam.

A amizade verdadeira é rara. Despretensiosa. Não pede performance, não exige máscaras. Ela floresce a partir de um sentimento de querer bem. De desejar o bem. De se sentir bem. Em um mundo saturado de aparências, ser amigo de verdade é quase um ato de resistência: é permanecer leal à essência, mesmo quando o cenário muda, mesmo quando o outro se desnuda em suas fraquezas.

E talvez o poder da amizade esteja justamente nisso: em ser o lugar onde a alma pode descansar sem medo. Onde não é preciso convencer, nem brilhar, nem se defender. Amigo de verdade é quase um símbolo de fé na permanência, um testemunho de que ainda é possível se encontrar sem se perder.

Certa vez me disseram que um bom medidor para a intimidade entre pessoas é se sentir bem ao lado em silêncio, sem necessariamente puxar assunto, sem precisar justificar porque sumiu, o motivo de não ter ligado. Eu concordo. Relações exigem cuidado. Mas ele pode ser nutrido de diversas formas. Há uma sabedoria tácita nesses laços, uma compreensão que dispensa explicações ou padrões.

O poder da amizade pode também resultar de pequenas presenças. No “como você está?” dito com verdade. No “cheguei” que acalma, no “eu sei” que dispensa justificativas. No “conte comigo” sem ser da boca para fora. Na torcida leal pela felicidade do outro. No abraço que sempre é lar. É nesse cotidiano sutil que a amizade revela sua força: ela sustenta, reergue, ilumina.

E, quando o mundo parece desabar, é a mão do amigo que nos lembra que ainda há chão. A amizade genuína é farol em noite escura, aquela que não muda a tempestade, mas ajuda a atravessá-la.

Com o tempo, aprendemos que a vida não se mede pelo número de pessoas ao redor, mas pela profundidade dos vínculos que construímos. Amigos verdadeiros são raros, mas bastam poucos para que a existência ganhe sentido. Porque a amizade, quando é de verdade, é abrigo. É espelho. É cura.

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Mãos à obra

sexta-feira, 07 de novembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

         Ele resolveu investir em si mesmo. Pensou sobre como começar. Resolveu, então, traçar o ponto de partida a começar por suas reflexões. Quis pensar na estratégia. Tentou entender-se. Inevitável. Autoconhecer-se antes de tudo. Como se diz, para quem sequer sabe aonde chegar, qualquer lugar pode ser o destino. Ele queria caminhos. Mergulhou, então, no universo quase desconhecido de saber mais sobre o que deveria saber. Atentou-se em buscar o que queria fazer. Esbarrou no desconhecimento sobre quem ele era. Enganou-se por subestimar a profundidade de seus anseios.

         Ele resolveu investir em si mesmo. Pensou sobre como começar. Resolveu, então, traçar o ponto de partida a começar por suas reflexões. Quis pensar na estratégia. Tentou entender-se. Inevitável. Autoconhecer-se antes de tudo. Como se diz, para quem sequer sabe aonde chegar, qualquer lugar pode ser o destino. Ele queria caminhos. Mergulhou, então, no universo quase desconhecido de saber mais sobre o que deveria saber. Atentou-se em buscar o que queria fazer. Esbarrou no desconhecimento sobre quem ele era. Enganou-se por subestimar a profundidade de seus anseios.

         Certo estava de prosseguir. Por instante sentiu-se em um beco sem saída, percurso sem volta. Mas decidiu se conhecer melhor, afinal, seria ele próprio o destinatário de todo o investimento projetado, não poderia apostar todas as fichas no desconhecido. Não queria ser a “zebra” da própria vida. Estava disposto a afundar, se preciso fosse. Resistiria de toda forma. Estava esperançoso por descobrir as asas imaginárias que o possibilitassem voar. Já amava o voo (tanto quanto a metáfora).

         Nesse processo, como investidor, percebeu que seus lucros seriam maiores se cuidasse muito bem do seu principal patrimônio, a que apelidou de templo. Referia-se à sua própria saúde. Ao seu corpo físico, mental, espiritual. Concluiu que a mola mestra da máquina, sua mente, estava mal de engrenagem. Enferrujada, em mau estado de funcionamento. Seria ela o início do processo. Começou a aplicar em seus cuidados. O retorno foi rápido. Estava certo de seu propósito e prosseguiu. O equilíbrio pretendido passava pela reforma interior e exterior. Mãos à obra. Logo percebeu que deveria concentrar em si os esforços da reforma, pois só ele se empenharia no nível desejado e conhecia bem o projeto.

         Feliz com o resultado, templo em equilíbrio, resolveu transmutar seu olhar sobre o mundo e sobre o outro. Fomentou práticas altruístas e quanto mais útil ao bem do próximo se tornava, mais se deparava com uma sensação até então inédita, que começou a desconfiar que fosse a tal felicidade. Ao olhar-se no espelho, o semblante ranzinza cedia espaço para um sorriso leve que despertava até uma vontade estranha de continuar sorrindo.

         Decidiu incrementar suas habilidades. Investir em conhecimento, aprimorar suas habilidades mais técnicas, ler bons livros, priorizar contatos com pessoas a quem admirava. Foi certeiro. O retorno veio à galope. E quanto mais cuidava do seu templo e desenvolvia suas habilidades, mais satisfeito estava por ter feito um bom negócio.  Mudou até seu conceito de riqueza. Sentiu-se detentor de um superpoder, voltou a acreditar em si, enxergou seu potencial e percebeu-se habitante de um belo templo, cujas energias sentia-se de longe. Renasceu. Foi o melhor investimento de sua vida. 

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Oito anos com a palavra

sexta-feira, 31 de outubro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Essa semana a coluna “Com a Palavra” completa oito anos. Sou muito grata e acho incrível a oportunidade de me comunicar com os leitores todas as sextas-feiras neste espaço aqui em A VOZ DA SERRA, por quem nutro um apreço todo especial. Fiquei pensando no que escrever para registrar este marco, que para mim, é motivo de muito orgulho. Algo que fosse uma celebração. Queria dar uma boa notícia, escrever sobre algo que pudesse ser um sopro de alegria para vocês. Nada melhor do que contar coisas boas e quem sabe arrancar um sorriso de quem está lendo.

Essa semana a coluna “Com a Palavra” completa oito anos. Sou muito grata e acho incrível a oportunidade de me comunicar com os leitores todas as sextas-feiras neste espaço aqui em A VOZ DA SERRA, por quem nutro um apreço todo especial. Fiquei pensando no que escrever para registrar este marco, que para mim, é motivo de muito orgulho. Algo que fosse uma celebração. Queria dar uma boa notícia, escrever sobre algo que pudesse ser um sopro de alegria para vocês. Nada melhor do que contar coisas boas e quem sabe arrancar um sorriso de quem está lendo.

Mas não consegui. Os dias estão pesados. O Estado do Rio está sob tensão, angústia, apreensão e um mix de sentimentos que não são bons. Na última terça-feira,  28, foi celebrado o dia de São Judas Tadeu, de quem sou devota. Na quarta-feira, 29, foi o Dia Internacional da Flor. Ganhei flores lindas de uma aluna talentosa que preparou um buquê das flores que ela mesma plantou e me entregou em sala de aula. Eu estava feliz. Flor é obra prima de Deus. Transcende. Alegra. Ilumina. Seria ótimo focar em flores. No domingo próximo, 2, será o Dia de Finados. Gosto de me envolver em orações pelos antepassados, nutrir lembranças boas dos amados que se foram, homenageá-los em meu íntimo, florir, partilhar, orar. Queria falar também sobre isso.

Os flamenguistas comemoram a ida do time rubro-negro à final da Libertadores da América. Minha afilhada chega ao Brasil nos próximos dias. E a coluna faz aniversário. Eu iria escrever sobre coisas boas, essa era a minha energia. Mas talvez me sentisse muito egoísta por celebrar uma semana cheia de marcos especiais também marcada pela aflição de cariocas e fluminenses.

Queria escrever sobre alegria. Mas não vai dar. O Estado do Rio de Janeiro, nosso lar, está sob tensão e eu não vou conseguir. Me resta escrever sobre esperança. Olho para a parede e a palavra “esperança” enfeita o canto. Tá aí. Eis o sentimento bom que posso nutrir por aqui. Conseguirei, pois.

Uma frase atribuída a Martin Luther King diz: “Se soubesse que o mundo se desintegraria amanhã, ainda assim plantaria a minha macieira. O que me assusta não é a violência de poucos, mas a omissão de muitos. Temos aprendido a voar como os pássaros, a nadar como os peixes, mas não aprendemos a sensível arte de viver como irmãos.”

Essa é a tônica. Quero continuar regando a minha macieira. E pretendo plantar outras. Apesar dos pesares. Em meio a tantas notícias embaraçosas, crise por todos os lados, colapso em várias ordens da economia, da sociedade e da política, desgoverno, índices elevados de criminalidade, corrupção, desigualdades, preconceitos latentes, problemas aparentemente sem fim, é praticamente senso comum que vivemos período tortuoso de verdadeiro caos.

Mesmo diante desse cenário, precisamos manter a esperança por dias melhores. A desesperança pode ser extremamente nociva a esse processo que estamos vivendo. No fim, talvez a esperança não seja a luz forte feito sol escancarado que a gente insiste em procurar, mas sim uma fresta, discreta, pequena, teimosa, que se abre no meio do caos. Talvez imperceptível, mas se olhar direitinho, está lá. Mesmo quando tudo parece ruído, há sempre um fio de luz atravessando o desatino, lembrando que o mundo ainda pulsa, e nós também.

Por hoje, é isso. Obrigada a cada um de vocês que seguem lendo meus textos e partilhando comigo. Obrigada ao Jornal A VOZ DA SERRA por essa linda oportunidade de permanecer aqui. Que esta coluna seja sempre fresta de luz em meio a todo caos. 

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