Blog de Camilla Fiorito

Entre o vazio interno e o desejo de estar junto

quarta-feira, 25 de março de 2026
por Camilla Fiorito

Vazio, vago, frívolo, fútil, junto, unido, reunido, distanciado, isolado, excluído, separado.

Se sentir parte de um grupo ou de um lugar traz o pertencimento. A sensação de um pertencer que, nem sempre, deixa claro o real desejo de estar.

Me lembro da minha juventude, onde não me sentia confortável com as piadas sem graças, as ações inadequadas disfarçadas de brincadeiras, os insultos que não dava para deixar para lá. Não me esforçava para caber. O estar precisava ter sentido e vir de encontro com que eu tinha como escolha de vida.

Vazio, vago, frívolo, fútil, junto, unido, reunido, distanciado, isolado, excluído, separado.

Se sentir parte de um grupo ou de um lugar traz o pertencimento. A sensação de um pertencer que, nem sempre, deixa claro o real desejo de estar.

Me lembro da minha juventude, onde não me sentia confortável com as piadas sem graças, as ações inadequadas disfarçadas de brincadeiras, os insultos que não dava para deixar para lá. Não me esforçava para caber. O estar precisava ter sentido e vir de encontro com que eu tinha como escolha de vida.

Aquela jovem continuou se transformando. Décadas depois, permaneço não gostando das mesmas coisas e um pouco mais. O esforço para me encaixar é quase inexistente. Levo comigo uma certeza ainda maior quando percebo todo conhecimento profissional que busquei e trago à memória o ditado que tanto ouvia da minha saudosa avó Berna: “Para todo pé cansado há sempre um chinelo velho”.

Sim, sempre há, mas, às vezes, não conseguimos perceber e enxergar. Achamos que onde estamos é o único lugar palpável, assim como as pessoas que estão ao nosso redor. Não é sobre perfeição ou não lidar com aqueles que são diferentes daquilo que somos. É sobre o encaixe ideal, real, com imperfeições, erros e acertos, onde o desejo de estar junto preenche o vazio interno que se sobressai quando estamos em um lugar que não cabemos de verdade.

Por mais difícil que possa parecer, o medo de ser não pode ser alimentado pela vontade de pertencer, pois quando realmente pertencemos não precisamos nos diminuir para caber. Não há superficialidade.

Não somos potes fechados com tampas que não fazem parte da coleção, apenas para não deixar o seu interior exposto. Possuímos essência e desejo latente, que nos constitui como ser humano repleto de gostos, vontades e especificidades.

Respeitar quem nós somos de verdade, é estabelecer limites, sustentar os nossos valores morais e éticos. É não deixar os nossos princípios em segundo plano, escorrendo por entre os dedos como a areia fina da praia. É ser forte como a rocha, que sustenta as batidas das ondas na costa do mar.

Não se acomode para pertencer. Seja quem você realmente é. Se acolha e viva com verdade!

Até a próxima quarta!

……..

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Renascendo no caos

quarta-feira, 18 de março de 2026
por Camilla Fiorito

Renascer, renovar, ressurgir no descontrole, na desordem, nos descontrola em um todo, trazendo movimentos que não conseguimos nomear.

O desequilíbrio e a confusão nos tira do centro. Emergir, aflora, desponta aquilo que procuramos guardar na nossa caixa, onde muitas facetas de nós mesmos se encontram. Traz ódio, tristeza, indignação, medo, decepção, cobrança, desalento, desconforto, insegurança que fazem com que a saúde mental fique inteiramente desorganizada.

Renascer, renovar, ressurgir no descontrole, na desordem, nos descontrola em um todo, trazendo movimentos que não conseguimos nomear.

O desequilíbrio e a confusão nos tira do centro. Emergir, aflora, desponta aquilo que procuramos guardar na nossa caixa, onde muitas facetas de nós mesmos se encontram. Traz ódio, tristeza, indignação, medo, decepção, cobrança, desalento, desconforto, insegurança que fazem com que a saúde mental fique inteiramente desorganizada.

O caos desorganiza nossos sentimentos. Nossas emoções se entrelaçam, o entender e nomear aquilo que se mistura dentro do corpo se torna obscuro, o estresse fica fomentado e a intensidade elevada.

É como se estivéssemos nos movendo em terras hostis não habitadas. A coragem de se mover com segurança e bravura diminui. As movimentações ficam como um andar à cavalo sem cela e ferradura em trajetos montanhosos, sinuosos e rochosos. Difícil de seguir e continuar.

As antenas emergenciais e a autocobrança ficam em alerta total, questionando o controle que precisa estar em ordem diariamente, em todos os instantes. Mas, ao mesmo tempo, as transformações são realizadas dentro de um espaço que traz horas, minutos e segundos limitados para autorregulação emocional e comportamental. O relógio não para. A vida precisa seguir, ir à diante, mesmo com todas as adversidades que cercam a nossa trajetória.

Quando o controle desmorona, evidencia um excesso. Excessos que vamos nos permitindo avançar em diversos pontos da nossa rotina. O excesso de trabalho, o excesso de tarefas que desenvolvemos na rotina pessoal, o excesso que a sociedade espera que cada um de nós realize, o excesso daquilo que foi dito e escutado, o excesso em dar conta de tudo e de todos. Não, nenhum excesso é vigoroso. Excede o limite daquilo que é apropriado e saudável.

Dentro desse cenário, o caos se destaca e nos ensina muito. Torna claro o extrapolar. E a percepção dos extrapolamentos é algo necessário e libertador, nos lembra da hora crucial daquilo que não podemos mais deixar passar.

Respire, se conecte. Realinhe a estrutura, acolha as suas emoções com compaixão e calma, organize o corpo e os sentimentos, traga o que é essencial dentro do que precisa realizar.

Cada dia é um novo momento possível para seguir uma nova direção, atraindo mudanças significativas para o seu crescimento.

Seja resistência!

Até a próxima quarta!

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A difícil arte de ser mulher

quarta-feira, 11 de março de 2026
por Camilla Fiorito

Nunca se teve tão em voga os debates e discussões sobre a violência contra a mulher. Uma violência que vem velada de tantas formas e meios, seja de qual natureza for.

As palavras vão surgindo e uma imensidão de pensamentos inundam a minha mente, como se fossem flashes de um mundo que não está muito distante, pois a maior parte das mulheres já sofreu e faz parte de uma vasta estatística que jamais gostaria de estar.

Nunca se teve tão em voga os debates e discussões sobre a violência contra a mulher. Uma violência que vem velada de tantas formas e meios, seja de qual natureza for.

As palavras vão surgindo e uma imensidão de pensamentos inundam a minha mente, como se fossem flashes de um mundo que não está muito distante, pois a maior parte das mulheres já sofreu e faz parte de uma vasta estatística que jamais gostaria de estar.

“Lugar de mulher é em casa”, “Essa profissão não é para mulher”, “Ela não sabe sobre esse assunto. É mulher”, “Como uma mulher pode ganhar mais que um homem?”, “Esse esporte não é para mulher”, “Ela é mulher, não vai conseguir”, “Mulher direita não faz isso”, “Você vai sair assim?, “Se não ficar comigo, não ficará com mais ninguém”, “Ah, você vai gostar. Para de falar não”, “Está demorando para casar. Vai ficar para tia”, “Como assim ainda não engravidou?”. Falas e mais falas escutadas por nós não apenas uma única vez, mas diversas vezes e em muitos contextos diferentes.

O lugar da mulher é onde ela desejar estar, realizando aquilo que tem vontade, se relacionando com quem se sente confortável, com seus reais sentimentos e conhecimentos validados.

As nossas escolhas profissionais, aquilo que usamos ou deixamos de usar, os relacionamentos que verdadeiramente queremos manter mais parecem mercadorias e objetos, que o outro decide se vai comercializar ou não, do que algo que diz sobre as especificidades de cada uma de nós como sujeito, como pessoa, como ser humano que precisa ser respeitado como todos os outros que fazem parte da sociedade que vivemos.

Saímos de casa pensando no caminho de volta, se estaremos dentro de uma condução sozinha, em uma rua com baixa iluminação ou pouco movimentada, com quem encontraremos no elevador, nas escadas, na calçada, com quem estaremos quando chegarmos em casa.

Sofremos em silêncio. A difícil arte de ser mulher demanda muitas facetas e frentes que são invalidadas com diversos questionamentos que ferem de forma avassaladora e desmerecem o medo real e constante que está suscetível no nosso ser. Traz à tona toda dor, vulnerabilidade e a certeza de que algum ato de violência pode acontecer a qualquer momento.

Falar, conscientizar, educar para um mundo mais igualitário e com uma convivência respeitosa, ética e responsável não é um papel específico de uma parcela da população. É um papel que precisa ser exercido por todos nós, diariamente.

Até a próxima quarta!

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Amizade intergeracional

quarta-feira, 04 de março de 2026
por Camilla Fiorito

Convivência, troca de experiências e saberes, encontros inusitados. Tudo isso chega dentro de uma junção de mundos, onde várias pessoas convivem dia após dia, com suas histórias, bagagens de vida, leituras de mundo.

“Ah, essa geração! Na minha época…”.

Uma fala que surge com frequência e vem carregada de tanto sentido e significado para quem transmite, mas, para quem escuta, pode chegar como um incômodo repentino.

Convivência, troca de experiências e saberes, encontros inusitados. Tudo isso chega dentro de uma junção de mundos, onde várias pessoas convivem dia após dia, com suas histórias, bagagens de vida, leituras de mundo.

“Ah, essa geração! Na minha época…”.

Uma fala que surge com frequência e vem carregada de tanto sentido e significado para quem transmite, mas, para quem escuta, pode chegar como um incômodo repentino.

Quem já viveu momentos distintos, acredita que a sua época era melhor que a atual. Mas, em contrapartida, há aqueles que afirmam que o melhor espaço de tempo é o aqui e agora. O hoje com todas as letras e o “Ih, não sabe de nada! Já passou o tempo…”, despertam também o desconforto em tantos outros.

A junção das vivências, o respeito mútuo, a conexão, a empatia, a disponibilidade para perceber e escutar quem é tão diferente, mas que também pode ser muito parecido, afloram conexões que não eram esperadas ou pensadas.

Tenho grandes amigas que possuem mais de 20 anos de diferença para a minha idade. Um número que não me assusta, mas que, por vezes, causa espanto, pois, geralmente, tem pouca probabilidade de acontecer.

Lembro quando comecei a conhecer uma amiga muito querida por mim. O ano era 2013. Um espaço de duas décadas separava a nossa geração. Um mero detalhe dentro de infinitas particularidades que nos conectava cada vez mais. Não havia como parar o percurso natural de tamanha afinidade.

Nascemos no mesmo mês, possuímos gostos muito parecidos e até os nossos maridos possuem o mesmo nome. Os preconceitos etários não se faziam e não se fazem presentes em nenhum dos lados.

Estar aberto a quebrar essas barreiras, que parecem muros inquebráveis, é dar lugar a uma troca de experiência que pode ser incrível para ambos os lados. Enriquece o desenvolvimento pessoal, social e emocional, trazendo inúmeras cores novas para a nossa vida.

E você, Já pensou em furar a bolha geracional? Há inúmeras pessoas no mundo que possuem mais do que você possa imaginar.

Até a próxima quarta!

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Fora de foco

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026
por Camilla Fiorito

Foco. Paro. Perco. Acho. Volto. Recomeço.

Focar em um mundo que se apressa e se perde em uma rolagem infinita em um objeto que passou a ser desejo de consumo de uma sociedade é um desafio constante.

As horas passam e ficamos na inércia que criamos e desenhamos dentro de um escopo que parece perdido.

Pausamos para alimentar nossa alma que clama por descanso. Um descansar que não desacelera e luta como se estivesse em uma grande batalha, onde o ciclo vicioso chega como um forte vilão.

Foco. Paro. Perco. Acho. Volto. Recomeço.

Focar em um mundo que se apressa e se perde em uma rolagem infinita em um objeto que passou a ser desejo de consumo de uma sociedade é um desafio constante.

As horas passam e ficamos na inércia que criamos e desenhamos dentro de um escopo que parece perdido.

Pausamos para alimentar nossa alma que clama por descanso. Um descansar que não desacelera e luta como se estivesse em uma grande batalha, onde o ciclo vicioso chega como um forte vilão.

O corpo recua, contorce contra a força da natureza que não se deixa vencer em um primeiro momento, mas se rende no vão de um espaço que ficou perdido.

O tic tac do relógio continua marcando cada pedaço que se estende em infinitos instantes que escapam, se perdem, se confundem.

A contemplação passa a ser secundária, o perceber o outro e se perceber ficam adormecidos em um sono profundo, que quiçá sabemos se acabará. O ler o livro que gosta, tomar uma xícara de chá à tarde, parar para o café, respirar com calma, escutar a música que relaxa, cuidar do corpo e da mente são ações que escapam de um autocuidado que não pode ficar para depois.

Mas será que conseguimos sair desse ciclo incansável e constante?

Dia após dia, o canto dos pássaros, os raios do sol pairando sobre a face, a brisa nos cabelos, o bater das ondas do mar, a fluidez da cachoeira, o cheiro das flores, os galhos das árvores se movimentando, as folhas caindo, o sol nascendo e se pondo, a lua subindo, a estrela surgindo e a chuva chegando acontecem sem sequer percebermos o deslumbramento de cada momento.

Quando achamos o foco de volta e despertamos o recomeço, o apreço se entrega à reflexão, a paz começa a se aproximar. A respiração, antes curta e acelerada, passa a ser sentida com calma e os detalhes perdidos são resgatados, admirados.

A precipitação e a necessidade de urgência vão dando lugar àquilo que é essencial: nós mesmos.

Se encontrar, olhar para si e se resgatar, mesmo no íntimo profundo, transforma cada dia em uma imersão, traz foco. Foco na própria vida, vivência, escolha, energia, tempo.

Separe os seus minutos mesmo quando a prostração teimar em ir embora, a resistência interna aparecer, o afobamento insistir em ficar. Seja o ponto central do seu momento!

Até a próxima quarta!

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Abre alas

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

“Ô abre alas que eu quero passar”, já dizia a marchinha de Carnaval de Chiquinha Gonzaga, criada em 1899.

Abrir passagem para plumas, paetês, confetes, serpentinas, alegria, encontros, gargalhadas, emoções, superação, criatividade em uma mistura de povos, onde a tristeza dá trégua por um breve instante e um mundo de fantasia passa a fazer parte durante alguns dias.

Me faz lembrar dos meus carnavais na infância, adolescência e juventude.

“Ô abre alas que eu quero passar”, já dizia a marchinha de Carnaval de Chiquinha Gonzaga, criada em 1899.

Abrir passagem para plumas, paetês, confetes, serpentinas, alegria, encontros, gargalhadas, emoções, superação, criatividade em uma mistura de povos, onde a tristeza dá trégua por um breve instante e um mundo de fantasia passa a fazer parte durante alguns dias.

Me faz lembrar dos meus carnavais na infância, adolescência e juventude.

Os biquínis que aprendi a bordar com minha mãe, as fantasias de She-ha, boiadeira e ciganinha para pular nas matinês da SEF e do Country Clube, a minha inesperada saída na ala de passista mirim da escola Alunos do Samba, após ser convidada pela minha fantasia a poucos minutos do desfile começar, a concentração do Bloco Dragões Alcoólatras, na Avenida Campesina, o Bloco dos Malas com sua total irreverência, o Bloco das Piranhas que abria a festa, os carros alegóricos parados após os desfiles, onde subíamos e nos sentíamos parte de uma magia que parecia não ter fim, a farra na Avenida Alberto Braune, os encontros na Rua Portugal para lanchar na Pizzaria Califórnia, o burburinho das escolas perto da minha casa na Rua Leuenroth, a dispersão nas praças Dermeval Barbosa Moreira e Getúlio Vargas, o bailinho no coreto.

São tantas as memórias do Carnaval em Nova Friburgo, que trazem uma singela sensação que passa a ficar indescritível em alguns momentos. O Carnaval traz isso. Um encontro de personagens inusitados, que desnuda, deixando você assumir diversos papéis, inclusive aquele de não querer participar da folia. É um espaço para todos, da forma que vier. Com ou sem máscaras.

É como uma viagem que você não precisa comprar a passagem, apenas escolher se deseja embarcar ou não, sabendo que experiências podem acontecer e transformar algumas percepções que temos da vida. Os dias passam rápido e as cinzas chegam para acalmar, refletir sobre o que passou e ficou. 

Uma combinação que acolhe, que resiste, que transforma, que traz um eu que fica escondido dentro das nossas mais profundas verdades. Mas ali, são evidenciados sem cortinas, onde um novo ser se abre para um palco que traz conforto e paz, onde as verdades secretas são expurgadas em um contexto carnavalesco, acalmando as entranhas que fervilham na vida real. 

Essa manifestação mexe na nossa íntegra, avassala. O batuque do tamborim, a musicalidade, o ritmo que faz os pés e os corpos se moverem em ondas, trazendo uma vivência flutuante, ressalta aquilo que está nos nossos mais íntimos segredos.

Viva! Nessa festividade ou fora dela, seja você. Com suas imperfeições, sentimentos e vontades!

Até a próxima quarta!

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A rigidez em um mundo que pede flexibilidade

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

“Eu nasci assim, sou assim e vou morrer assim”
Essa fala ecoa de forma profunda. Evidencia medo, insegurança, resistência à mudança em um mundo que muda constantemente.

Mudamos de visão, de sentimento, de percepção, de opinião, de aceitação, de gosto, de pensamento, de estilo de vida, de postura, de comportamento, de organização interna e externa.

A nossa mente cria vários mecanismos que são sentidos no corpo, na nossa respiração, temperatura e em sensações que causam desconforto, trazendo constrangimento, seja para si mesmo ou para o outro.

“Eu nasci assim, sou assim e vou morrer assim”
Essa fala ecoa de forma profunda. Evidencia medo, insegurança, resistência à mudança em um mundo que muda constantemente.

Mudamos de visão, de sentimento, de percepção, de opinião, de aceitação, de gosto, de pensamento, de estilo de vida, de postura, de comportamento, de organização interna e externa.

A nossa mente cria vários mecanismos que são sentidos no corpo, na nossa respiração, temperatura e em sensações que causam desconforto, trazendo constrangimento, seja para si mesmo ou para o outro.

O medo que nos silencia paralisa e, com ele, vem um grande barco à vela que pode naufragar a qualquer momento. A insegurança resiste, o “eu sempre fui assim” soa como uma âncora de defesa, mas que pesa mais que o esperado. Faz o barco ficar desequilibrado. A segurança escapa por entre as frágeis tramas da rede de pesca, que não se sustentam na maré agitada.

As inúmeras possibilidades de mudança bagunçam a falsa segurança, que traz a estagnação de forma cômoda, mas o barco precisa seguir. Passar por marés altas, baixas, serenas, confusas e turbulentas nos traz boas oportunidades de lidar com as nossas frustrações e proporciona bons momentos de aprendizagem.

Nosso crescimento e desenvolvimento socioemocional acontece de forma contínua. Dia após dia, vamos aprimorando e refazendo as nossas lentes que, às vezes, parecem sujas, rachadas, arranhadas, quebradas, embaçadas. Precisamos limpar e atualizar as nossas lunetas, para que a navegação fique mais leve, límpida, trazendo boas experiências para essa viagem mágica que é a nossa vida.

A falta de flexibilidade pode gerar muitos conflitos, assim como a flexibilidade em excesso, onde jogamos fora a nossa essência no mar, sem possibilidade de resgate. O oito ou oitenta, faz ou não faz, é isso ou aquilo, funcionamentos rijos ou soltos demais, nos tiram da fase de negociação, que é importante para mantermos o equilíbrio. Nenhum excesso é salutar.

A adaptação entra como uma grande convidada para essa aventura em águas que se modificam de forma incessante, onde a resolução de contingências passa a ser tratada sem a densidade que outrora fez parte.

Ser flexível é estar aberto à renovação, é ser adaptável. Não é ser permissivo ou passivo, mas, sim, se adaptar sem perder a sua essência, pois renovar faz parte desse mundo que vivemos.

Até a próxima quarta!

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Quando tudo precisa ser espetáculo

quarta-feira, 04 de fevereiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Rolando o feed das redes sociais, percebo o excesso
 

A performance parece não ter fim. O compartilhamento de fotos, textos, vídeos, mostrando tudo e mais um pouco invade a tela. Os lugares que passou, o que viu, o que comeu, o que percebeu, o que sentiu, o que pensou, tudo nos mínimos detalhes. A sociedade pede isso. As pessoas esperam por isso. Acompanham o dia a dia, como se fosse uma novela da vida real, repleta de capítulos sem fim, onde a rotina precisa ser explanada, escancarada. Alguns com mais recortes, outros menos.

Rolando o feed das redes sociais, percebo o excesso
 
A performance parece não ter fim. O compartilhamento de fotos, textos, vídeos, mostrando tudo e mais um pouco invade a tela. Os lugares que passou, o que viu, o que comeu, o que percebeu, o que sentiu, o que pensou, tudo nos mínimos detalhes. A sociedade pede isso. As pessoas esperam por isso. Acompanham o dia a dia, como se fosse uma novela da vida real, repleta de capítulos sem fim, onde a rotina precisa ser explanada, escancarada. Alguns com mais recortes, outros menos.
Isso me faz lembrar da primeira vez que assisti "Queda Livre”, episódio da terceira temporada da série Black Mirror. As interações sociais eram avaliadas com zero a cinco estrelas e a nota média definia o status e o acesso aos serviços dentro daquele universo mostrado. Quanto maior a pontuação, maior o prestígio ou a falsa sensação dele, em uma rotina de mentiras, enraizadas em um lugar profundo.
A aprovação esperada pelo outro faz com que o excesso fique cada vez mais exposto. Quanto mais eu performo, mais terei seguidores, mesmo que esse culto ao espetáculo traga superficialidade nas relações e na própria vida.
Mas, ledo engano quem acha que essas ações, que chegam como um jato supersônico, não causam danos à saúde mental, social e emocional.
Diante de tantas perfeições aos olhos escondidas atrás de imperfeições guardadas e represadas que não se sustentam ao longo do processo da nossa jornada, a lucidez de ser quem se é, sem filtros, causa estranheza.
A natureza de um corpo que envelhece, uma perda que acompanha, um erro que faz parte, uma dúvida que paira, um silêncio que bate à porta, uma opção pela privacidade aqui e acolá dentro de um sistema onde nada mais é privado, são luxos dentro de uma competição instalada de forma visível ou invisível, onde vence quem expõe mais. Ou será que a vitória vem para quem expõe menos?
Um vencer e perder impostos, que na verdade camufla a verdade oculta.
Quem define o poder das rédeas dessa história somos nós. Aquilo que queremos mostrar ou guardar, como o que contamos ou guardamos em segredo vem das nossas escolhas, mesmo que algumas possam nos tornar estranhos no ninho, em uma era de atuação constante.
Seja verdade! Siga além das aparências, com leveza e veracidade. A grama do vizinho não é mais verde que a sua. Aliás, todos nós temos uma grama que não foi tratada e cultivada.
Até a próxima quarta!
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Dizer “eu sinto”

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Sentimos.

Sentimos o caos, a vida, o amanhecer, o entardecer, o anoitecer.

As folhas das árvores caindo, a chuva descendo, as ondas do mar batendo, o vento soprando, a alegria transbordando, a tristeza fincando, a raiva desorientando, a ansiedade pulsando. A música vibrando, o carro andando, a roda girando, o sono chegando, o tempo passando.

Somos dotados de sentimentos e emoções que invadem o nosso ser sem pedir licença, transformando um dia sereno em uma tempestade ou vice-versa.

Sentimos.

Sentimos o caos, a vida, o amanhecer, o entardecer, o anoitecer.

As folhas das árvores caindo, a chuva descendo, as ondas do mar batendo, o vento soprando, a alegria transbordando, a tristeza fincando, a raiva desorientando, a ansiedade pulsando. A música vibrando, o carro andando, a roda girando, o sono chegando, o tempo passando.

Somos dotados de sentimentos e emoções que invadem o nosso ser sem pedir licença, transformando um dia sereno em uma tempestade ou vice-versa.

Falar sobre o nosso próprio sentir não é fácil. Às vezes, não conhecemos ou não sabemos nomear e descrever as emoções que transbordam dia após dia.

Lembro, quando mais nova, que a vergonha me encontrava por não conseguir falar com clareza o que eu sentia. Quiçá, por achar que sentia demais, diferente das outras pessoas, e por não entender todos os sentimentos que fazem parte da natureza humana.

Ao longo da minha caminhada pessoal e profissional, esse sentir foi ficando mais cristalino e, hoje, aqui me encontro, falando e trabalhando com desenvolvimento socioemocional. 

Voltar o olhar para o nosso interior, acolher e expressar sentimentos com autenticidade, sem ferir a si mesmo e ao outro, envolve abertura, entendimento, desenvolvimento.

Externalizar o que nos consome, evita que o sentir se transforme em correntes pesadas de chumbo, que carregamos sem precisar. E, se a voz falhar ou faltar, as palavras podem ser organizadas em letras que dançam no papel, para depois serem proferidas, com calma e verdade.

Respire fundo! Se permita dizer “eu sinto”! 

“Eu sinto tristeza quando você fala dessa forma comigo”, “Eu sinto o mundo vibrar quando estou ao seu lado”, “Eu entendo o seu ponto de vista, mas me sinto cansado”. “Eu sinto que não sou mais como antes”.

Frases que deixam de ser ditas e que, quando abraçadas, trazem transparência para a vivência, irradiando saúde socioemocional.

Essa prática pode trazer alguns desconfortos no início, mas, depois, o conforto vem como o passear em uma canoa no lago sereno. O peso carregado vai se dissolvendo, dando lugar a conexões mais puras e profundas.

Abandonar essas amarras, desperta uma comunicação mais assertiva e fluida, garantido que a nossa essência seja respeitada, resguardando o amor próprio e a paz, fortalecendo o bem-estar físico, social e emocional.

Até a próxima quarta!

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Vínculos em tempos digitais

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Navegamos em oceanos, onde fios invisíveis criam pontes de pixels entre pessoas que se conhecem e se tocam sem se ver. Uma versão editada de nós mesmos se conecta ao outro através de uma imagem, um vídeo, uma palavra escrita postada.

Cada clique e rolagem infinita nos envolve em um labirinto de superficialidade, em uma busca por algo a mais que não sabemos ao certo o que é. Mas o toque virtual não substitui o abraço real. O sorriso nas redes não preenche a solidão de um olhar perdido e vazio.

Navegamos em oceanos, onde fios invisíveis criam pontes de pixels entre pessoas que se conhecem e se tocam sem se ver. Uma versão editada de nós mesmos se conecta ao outro através de uma imagem, um vídeo, uma palavra escrita postada.

Cada clique e rolagem infinita nos envolve em um labirinto de superficialidade, em uma busca por algo a mais que não sabemos ao certo o que é. Mas o toque virtual não substitui o abraço real. O sorriso nas redes não preenche a solidão de um olhar perdido e vazio.

A ilusão de estarmos próximos e sempre dispostos gera uma falsa sensação de pertencimento, que nos faz esquecer de refletir sobre o significado real de fazer parte de forma emocionalmente significativa na vida de alguém.

A conexão profunda exige presença. Os vínculos florescem e ganham forma no olho no olho, no sentir e perceber o outro de forma real. Criar e manter conexões sem a profundidade das relações pessoais é um grande desafio. Estar conectado digitalmente, curtindo, enviando e respondendo mensagens de forma rápida e precisa não garante conexão emocional.

Essa semana, me encontrei com uma grande amiga que faz parte da minha vida há 32 anos. Friburguense como eu, estudamos em séries distintas na mesma escola. Dividimos momentos que solidificaram uma amizade que passou por muitas adversidades, assim como cada uma de nós. Hoje, dividimos um oceano de distância.

Cada encontro, evidencia um vínculo mais forte que sobrevive ao tempo e a adversidade. Nossa conexão profunda fica cada vez mais clara quando estamos juntas, trazendo o ontem como se fosse o nosso último encontro.

A era digital, sem dúvida, facilita a comunicação, mas não substitui a profundidade das relações humanas. O vínculo profundo nasce quando dois corações se encontram, o que vai além de qualquer aplicativo. A autenticidade da troca, da escuta empática, do olhar atento que percebe os mínimos detalhes e que lê o corpo sem precisar de uma única palavra acabam ficando esquecidos. Precisamos lembrar que, por mais virtuais que sejam as nossas conexões, nossa essência é humana.

A busca por conexão atemporal, seja em um café entre amigos, seja na tela de um celular ou computador, o que muda é a percepção sobre o que é real, o que é virtual e como escolhemos entrelaçar as duas dimensões. 

No final, são as conexões que atravessam o espaço físico e digital que realmente nos mantém acesos e vívidos, onde o toque nunca deixou de ser o que nos conecta com profundidade.

Até a próxima quarta!

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