Blog de Camilla Fiorito

​A beleza da diversidade

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

Diverso, vasto, misturado

Vivemos rodeados de pessoas que pensam, sentem, veem, creem, agem diferente e que possuem uma variedade de características, gostos, gestos, posturas, valores, compreensões, intensidades, latências distintas.

Estou de férias. Viajando com minha família, paro para observar as ruas de Las Vegas, no estado de Nevada, Estados Unidos. A diversidade pulsa, acanha, move, existe e habita de diversas formas. Pessoas dentro da sua multiplicidade são perceptíveis ao meu redor. Estão por toda parte, em todos os olhares e lugares. 

Diverso, vasto, misturado

Vivemos rodeados de pessoas que pensam, sentem, veem, creem, agem diferente e que possuem uma variedade de características, gostos, gestos, posturas, valores, compreensões, intensidades, latências distintas.

Estou de férias. Viajando com minha família, paro para observar as ruas de Las Vegas, no estado de Nevada, Estados Unidos. A diversidade pulsa, acanha, move, existe e habita de diversas formas. Pessoas dentro da sua multiplicidade são perceptíveis ao meu redor. Estão por toda parte, em todos os olhares e lugares. 

Viro para o lado e percebo a famosa esfera que faz parte da cidade. Mexe com a minha imaginação como se eu estivesse dentro de uma bola de grande proporção, com toda beleza que existe. Brilhos se intensificam nas noites rodeadas de luzes, em um lugar que não dorme, não para dentro da sua natureza totalmente movimentada.

Nesse ambiente novo, encontro amigas que trouxe para vida, antes de visões físicas estabelecidas. Somos diversas. As dessemelhanças trazem semelhanças escondidas entre uma ação e outra, onde naturalidade, espera, entendimento, generosidade, acolhimento, abertura se expressam através de nuances profundas. Como a confluência dos rios, onde as águas se juntam e se reconhecem em um só curso.

A beleza da diversidade invade, brilha, desnuda. Ativa o quanto respeitamos, aceitamos, convivemos com aquele que pensamos ser diferente dos modelos padrões ou a falta deles, que cada um de nós predefine, antecipa em possíveis relações.

O respeito invade, não vem acompanhado de “mas”. Ele chega com intensidade, empatia. Uma junção que simplesmente acontece, sem premeditação ou frases prontas que a exclusão traz em sua bagagem.

Na construção diversa, aprendemos mais, sentimos mais, compreendemos mais. Vivemos com a pluralidade mágica que compõe a magnitude do ser e estar continuamente na estrada da vida. Uma estrada repleta de pessoas distintas, que evidenciam as maravilhas que constituem os seres humanos. Nos constituem. 

Enriquece a coletividade, trazendo compreensão, soluções, ideias e desenvolvimento. Nos abrilhanta, trazendo criatividade e riqueza para o nosso interior. Crescemos e desenvolvemos maturidade com verdade, sem camuflagem. 

Melhora a existência, tirando cada um de nós da zona de conforto. Esse lugar quente e acomodado que mostra uma falsa sensação de tranquilidade, em um imaginário que aparenta comodidade. 

O mundo respira diversidade. Estar aberto para ela, traz uma contemplação inimaginável. Experimente!

Até a próxima quarta!

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Quero ser seu par

quarta-feira, 07 de janeiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra

No final de semana, após um almoço gostoso de domingo na casa dos meus sogros, li uma placa com a frase “Por onde for, quero ser seu par”. Um momento nostálgico invadiu minha mente adentro, deixando ares de doçura, que me fizeram lembrar de uma época muito especial e eternizada. 

No final de semana, após um almoço gostoso de domingo na casa dos meus sogros, li uma placa com a frase “Por onde for, quero ser seu par”. Um momento nostálgico invadiu minha mente adentro, deixando ares de doçura, que me fizeram lembrar de uma época muito especial e eternizada. 

O ano era 1990. Colégio Cêfel, 3ª série primária. Estávamos todos na aula de música, divididos em grupo, onde aprendemos uma letra, imersos na doce melodia. Aulas e mais aulas ensaiando cada estrofe, para que fosse apresentada de forma brilhante para os nossos responsáveis no grande dia. A professora nos guiava com maestria e cada palavra entoava meu coração, exalando um perfume inigualável. Os pedaços cantados transbordavam em meu ser um sentimento que, na época, eu não sabia explicar e muito menos entender. Algo novo e indecifrável.
Os anos passaram. Não sou mais aquela menina de 9 anos, de cabelos compridos e castanhos, mas, hoje, aqui me encontro voltando a sensação que essa música transpassa meu ser. Recheada de significados e que sempre me percebo entoando seus versos, que me trazem uma paz interior. 

“Por onde for, quero ser seu par”.

Esse trecho da música “Andança”, cantada na voz maravilhosa e saudosa de Beth Carvalho, traz um pouco de mim, de você, da gente.

Escolher o nosso par nas andanças da vida, aquele que queremos seguir lado a lado, nas tristezas, perdas, conquistas, boas gargalhadas gostosas de doer a barriga, descobertas, indecisões e também nos medos, anseios, receios e desafios é algo que nos tira do centro, desperta sensações e percepções sobre como será a nossa caminhada. 

A escolha não nos remete somente a quem preferimos de forma amorosa nas relações que estabelecemos no dia a dia, mas traz dentro dela os nossos amigos, familiares, seja de laços construídos e escolhidos por nós mesmos ou de sangue. Conduz todos que selecionamos para estarem na carruagem que faz parte da nossa existência, em uma estrada deslizante, sinuosa, com desníveis que nos surpreendem. 

Andança não é apenas uma música. Ela desperta saudade, esperança, conexão. Tudo aquilo que compõe o nosso mais íntimo desejo profundo, despertando o nosso eu interior.

Que possamos continuar escolhendo os nossos pares, seguindo com firmeza e boas expectativas. Pois o que seríamos sem as andanças ao longo da nossa jornada?

Até a próxima quarta!

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O que fica e o que é deixado para trás

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Um ano finda. Um novo ano se aproxima.
Em algumas horas, não estaremos mais em 2025, mas em 2026.

Mudar o ano, para alguns, é sinal de novas metas, promessas, ideias, mas novos caminhos não precisam acontecer quando o ano acaba.

Transformar rotas e rever percursos podem ocorrer em qualquer momento. Temos o poder de escolher o que queremos seguir, manter e terminar. Somos os donos das rédeas das nossas escolhas, mesmo que, às vezes, custemos a entender toda essa dinâmica e certeza.

Um ano finda. Um novo ano se aproxima.
Em algumas horas, não estaremos mais em 2025, mas em 2026.

Mudar o ano, para alguns, é sinal de novas metas, promessas, ideias, mas novos caminhos não precisam acontecer quando o ano acaba.

Transformar rotas e rever percursos podem ocorrer em qualquer momento. Temos o poder de escolher o que queremos seguir, manter e terminar. Somos os donos das rédeas das nossas escolhas, mesmo que, às vezes, custemos a entender toda essa dinâmica e certeza.

O custo pode ser danoso, como as pragas que devastam uma plantação e acabam com a colheita, mas, quando tratada, é erradicada e proporciona produções incríveis e prósperas.

Prosperar em sonhos, conhecimento, sabedoria, entendimento, saúde, amor, alegria, harmonia e todo o sentir que traz paz interior, passa por altos e baixos, que são pesados diariamente em uma balança invisível aos olhos do outro, mas vista por nós mesmos, sem filtros e máscaras.

Isso me faz lembrar de uma boa conversa que tive com meu pai há um tempo não muito distante. Enquanto falávamos sobre os sabores e dissabores da vida, sabiamente, ele me disse que cada um tem a sua “Caixa de Pandora”. Percebo que sim. Todos nós a possuímos, mas, individualmente, o seu real significado não é igual. Dentro das suas metáforas e entendimento, a percepção vai de acordo com a lente que cada um dispõe, de forma singular e única.

Essas mesmas lentes trazem sentido ou não para a imensidão que faz parte da nossa natureza. Dizer o que gostamos, acreditamos, aceitamos ou escolher o que tiramos e levamos na bagagem define o quanto será mais amena ou pesada a nossa jornada, ou seja, todos os nossos dizeres que escolhemos pronunciar, seja em palavras faladas, escritas ou silenciadas, de qual forma for, mexe com o peso da mochila que colocamos nas costas e resolvemos carregar.

No final, não é sobre esperar um ano terminar, mas entender que as rotas podem ser avaliadas, reavaliadas, ajustadas e reajustadas durante o trajeto, por você, que é quem pilota em dias nebulosos, cinzentos, com furacões, ciclones e tempestades, mas também em momentos ensolarados, de céu limpo e noite estreladas.

Siga em frente! Que o novo ano seja leve, suave, repleto de prosperidade, aprendizado, saúde física, mental, social e emocional.

Até a próxima quarta!

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O valor do tempo presente

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

A cada final de ano, desejamos, esperamos, sonhamos, imaginamos. Projetamos, dentro daquilo que acreditamos, o melhor que podemos dar e receber. O tempo e a disponibilidade são disputados dentro dos encontros marcados e realizados, presentes são criados, comprados e trocados. As celebrações no trabalho, na família, com os amigos viram rotina em um mês que traz a sensação de ser menor que todos os outros. Não porque possui menos dias, mas por ter inúmeros compromissos que são marcados apenas por ser o fechamento de um ciclo.

A cada final de ano, desejamos, esperamos, sonhamos, imaginamos. Projetamos, dentro daquilo que acreditamos, o melhor que podemos dar e receber. O tempo e a disponibilidade são disputados dentro dos encontros marcados e realizados, presentes são criados, comprados e trocados. As celebrações no trabalho, na família, com os amigos viram rotina em um mês que traz a sensação de ser menor que todos os outros. Não porque possui menos dias, mas por ter inúmeros compromissos que são marcados apenas por ser o fechamento de um ciclo.

Um ciclo que passa e é sentido por cada um de nós de forma diferente, dentro das nossas crenças, cultura e vida. Para alguns, presentes são comprados, cartões e cartas são escritos e recebidos, comidas são preparadas e servidas, enfeites são colocados, gargalhadas de alegria são marcas registradas de um riso frouxo sem fim ou até mesmo nada disso, evidenciando escassez, solidão, um tempo vazio e de sofrimento, tristeza.

Isso me traz uma singela lembrança da minha infância, com a árvore de Natal branca com bolas de vidro vermelhas, que eu montava no mês de dezembro com a minha mãe, dos programas especiais que passavam na televisão, principalmente, do show do Roberto Carlos, que era algo que a minha saudosa avó Berna assistia ano após ano e que me traz uma bela recordação.

Constato que o melhor desses momentos não são as datas comemorativas em si, mas aquilo que passa despercebido e há de mais genuíno: o tempo presente. O valor do tempo presente se esconde nas lacunas entre um momento e outro, que celebra ou não momentos anuais. O estar com qualidade, em sua totalidade, mexe com as nossas sensações e sentimentos que, aos poucos, vão se tornando memórias que ficam vívidas e repletas de sensibilidade.

É como um rolo de filme Super 8 ou uma fita VHS, que guardamos como se fossem nossas relíquias. São itens raros e com valor emocional intenso, que conservam e resgatam experiências do nosso passado que queremos ou não lembrar.

O tempo junto, experenciado nas relações, deve ser sentido em sua plenitude, de forma real e não superficial, pois, no final, o que há de melhor é o que existiu com verdade.

Aproveite o final do ano e o tempo presente, com o valor que ele realmente merece.

Até a próxima quarta!

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O poder do amor

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

O amor é a correnteza que se adapta e se reinventa continuamente. É a brisa que se faz sentir mesmo na ausência do vento, o silêncio que preenche os vazios com palavras que jamais precisaram ser ditas. Nos envolve nas amizades, nas coisas, nos lugares, nos animais, nas pessoas ou até mesmo em pequenos objetos.

Inúmeras são as manifestações, trazendo dentro de suas raízes uma conexão que fornece o sustento necessário para que possamos passar por grandes tempestades e longas secas.

O amor é a correnteza que se adapta e se reinventa continuamente. É a brisa que se faz sentir mesmo na ausência do vento, o silêncio que preenche os vazios com palavras que jamais precisaram ser ditas. Nos envolve nas amizades, nas coisas, nos lugares, nos animais, nas pessoas ou até mesmo em pequenos objetos.

Inúmeras são as manifestações, trazendo dentro de suas raízes uma conexão que fornece o sustento necessário para que possamos passar por grandes tempestades e longas secas.

O amor pelos lugares guardam pedaços de quem fomos no passado e de quem aprendemos a ser. Ruas, casas, paisagens, cidades, bancos de praça que acolheram despedidas, janelas que escutaram nossos pensamentos mais íntimos, cafés que serviram de abrigo para nossos recomeços difíceis mexem com o nosso interior de forma intensa.

Mas, também se expressa na forma de um abraço apertado, um livro que teve suas páginas sublinhadas, uma fotografia que o tempo desbotou ou mesmo uma xícara lascada. O amor tem o poder de transformar um simples artefato em uma verdadeira caixa de afetos.

Como a potência da lua cheia, capaz de iluminar até os cantos mais escuros da nossa vida, o amor entre as pessoas se torna visível mesmo na escuridão, oferecendo contorno, revelando a beleza complexa dos momentos que são compartilhados.

Amar alguém é aceitar o risco da vulnerabilidade. É conceder ao outro a permissão para que ele veja nossas imperfeições, nossas sombras escondidas e nossos medos. É o ato de reconhecer o outro como um universo próprio, completo com seus sonhos e suas dores, sem a pretensão de moldá-lo à nossa própria imagem e existência.

Igualmente profundo e transformador é ser amado. Quando nos permitimos receber o amor, assim como desenvolvemos amor próprio, algo interno se reorganiza. Passamos a nos recordar, com suavidade, que somos dignos de cuidado, de afeto. Ser amado é descansar na certeza inabalável de que não estamos sós, mesmo quando o mundo exterior se apresenta excessivamente ruidoso e caótico.

E é nessa dinâmica que reside a mágica silenciosa do amor. Ele humaniza as interações, consegue desacelerar a pressa implacável dos nossos dias e nos convida a observar tudo com uma atenção mais aguçada e carinhosa.

Amar e ser amado nos traz compreensão profunda de que, apesar de todas as adversidades do existir, é o amor em todas as suas múltiplas e adaptáveis formas, que confere sentido e torna a caminhada menos solitária, mais humana e viva.

Até a próxima quarta!

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Entre o conforto e o desconforto do abraço

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

O abraço entrelaça, envolve, aquece, acolhe, expressa, responde, cala.

Os corpos se aproximam, trazendo o encontro da pele, com intensidade ou suavidade, de forma rápida como o vento que bate à porta ou demorado como o cultivo de um adorável jardim.

Nos convida, de forma silenciosa, a refletir sobre aconchego, afago, vulnerabilidade, pertencimento, consentimento, invasão, dor, trazendo a profundidade que esse gesto singelo nos entrega a cada dia. 

A entrega do afeto parece ter o poder de trazer uma paz e conforto, que se instala em nosso corpo por aquele instante. 

O abraço entrelaça, envolve, aquece, acolhe, expressa, responde, cala.

Os corpos se aproximam, trazendo o encontro da pele, com intensidade ou suavidade, de forma rápida como o vento que bate à porta ou demorado como o cultivo de um adorável jardim.

Nos convida, de forma silenciosa, a refletir sobre aconchego, afago, vulnerabilidade, pertencimento, consentimento, invasão, dor, trazendo a profundidade que esse gesto singelo nos entrega a cada dia. 

A entrega do afeto parece ter o poder de trazer uma paz e conforto, que se instala em nosso corpo por aquele instante. 

O abraço apertado de quem está longe, o suave de quem precisa de delicadeza, o silencioso de quem não sabe o que dizer, o temeroso que soa como medo. Cada um na sua forma, nos envolve, despertando sentimentos que tomam conta do nosso ser. 

É o ato que nos desafia a ceder e a entender nossos limites. Um movimento natural, como o fluir de um rio tranquilo, mas também pode ser como tempestade, que inunda sem aviso, que invade sem permissão. Nessa hora, o corpo trava, o fôlego some, a mente se distancia. 

O abraço, que deveria ser um momento de conforto, reflete o desconforto, evidenciando um abismo. Fica pesado.

Desperta lembranças que foram impostas, do toque que não foi cuidado, da intimidade que foi violada. Remete à dor que ainda não foi curada, das emoções que não foram resolvidas, do passado que não quer ser revisitado. 

Mostra a ferida aberta, onde a pele arrepia, o corpo treme, o coração acelera.

Ainda tem, aquele que não quer ser abraçado. Que ao invés de afago, traz tormento. O toque causa constrangimento.

O abraço precisa ser consciente. O despertar da capacidade de observar o corpo que fala, que se aproxima, recua ou enrijece, entendendo que a sua força transborda sensibilidade de quem o oferece. 

Uma sensibilidade que está no respeito ao limite, no querer e não querer, no parar e continuar. 

No fim, o abraço é muito mais do que um simples ato de envolver os corpos. Ele é um lugar onde aprendemos a ler as percepções ocultas e nos ensina a olhar com mais atenção para o espaço do outro e para o nosso próprio espaço. Dança com empatia, em uma linguagem que vai além dos nossos olhos de ver.

Até a próxima quarta!

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No desenrolar do ouvir e escutar

quarta-feira, 03 de dezembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Ouço. Ouço o canto dos pássaros eternizar, a buzina do carro ecoar, o motor do ônibus firmar, a campainha tocar, o burburinho da conversa extrapolar, a máquina de café funcionar, a sirene dos bombeiros soar, o assobio do menino passar, as risadas espalhar, a família de micos nas árvores brincar, o bater das ondas do mar estourar, a queda d’água da cachoeira aumentar, a chave na fechadura encaixar, o disco tocar, o filme começar, o trânsito se formar, a chuva cair, o vento soprar, o ar condicionado ligar e desligar, a panela de pressão apitar. 

Ouço. Ouço o canto dos pássaros eternizar, a buzina do carro ecoar, o motor do ônibus firmar, a campainha tocar, o burburinho da conversa extrapolar, a máquina de café funcionar, a sirene dos bombeiros soar, o assobio do menino passar, as risadas espalhar, a família de micos nas árvores brincar, o bater das ondas do mar estourar, a queda d’água da cachoeira aumentar, a chave na fechadura encaixar, o disco tocar, o filme começar, o trânsito se formar, a chuva cair, o vento soprar, o ar condicionado ligar e desligar, a panela de pressão apitar. 

Ouço diversos sons ao longo do meu dia, em uma ação involuntária que acontece sem eu me dar conta ou esperar.

Os barulhos vão fazendo parte da rotina, onde, com o hábito, deixamos de ouvi-los, mesmo sabendo que estão todos ali, diariamente, indo e vindo na jornada.

No desenrolar desse ouvir, surge o escutar.

O escutar atravessa o nosso interior, nos tira do centro. Nos coloca em uma posição de disponibilidade interna para si e para o outro.

Traz consciência da escuta do corpo, do silêncio, do olhar, das miudezas que ficam escondidas atrás da respiração ofegante ou silenciosa que transita o ser, desbravando para além das simples ou tortuosas palavras que saem da boca, emitindo ruídos que precisam ser sentidos na sua plenitude, para serem escutados com o coração.

Essa escuta profunda não nasce de forma rápida. Demanda preparo, como quando nos organizamos para correr em uma maratona. Precisamos de tempo, treino, prática, disciplina, espera, foco.

Me faz lembrar de um adolescente em atendimento, que me contou o quanto se sentiu reflexivo quando conversamos sobre as diferenças entre ouvir e escutar, pois percebeu o quanto escutar com profundidade evidencia empatia. Feito este que demora para entender com totalidade, mas é notado durante o desenvolvimento socioemocional, onde remodelamos a forma que enxergamos e sentimos o mundo.

Escutar também desperta ausência de superficialidade, atenção plena, observação revigorada, bagagem afinada que transborda em ações, avivando um novo significado.

A percepção se transforma de maneira latente, trazendo espaço para caminhos que são moldados através da escuta. Passamos a estar inteiro e não em uma silhueta rasa ou pela metade. As relações ficam mais conectadas, alinhadas, fortalecidas, acolhidas.

Eduque-se! Experimente escutar o outro e se escutar com sensibilidade, ativando a sua nova forma de sentir o mundo.
Até a próxima quarta!

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Uma face que o outro não vê

quarta-feira, 26 de novembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Desejo, vislumbro, imagino. Percebo o outro e o outro me percebe. Me percebo.

Inúmeras são as possibilidades e visões geradas no fundo de uma mente que não para. O pensamento acelerado aponta caminhos, soluções, processos dentro de uma dinâmica que não cessa.

Ao mesmo tempo, a forma como o outro nos enxerga não será como somos de verdade, pois a percepção que projetamos sobre alguém se confunde com aquilo que temos como entendimento de vida, valores morais, comportamento.

Desejo, vislumbro, imagino. Percebo o outro e o outro me percebe. Me percebo.

Inúmeras são as possibilidades e visões geradas no fundo de uma mente que não para. O pensamento acelerado aponta caminhos, soluções, processos dentro de uma dinâmica que não cessa.

Ao mesmo tempo, a forma como o outro nos enxerga não será como somos de verdade, pois a percepção que projetamos sobre alguém se confunde com aquilo que temos como entendimento de vida, valores morais, comportamento.

Essas variações fazem com que as nossas lentes em relação ao outro fiquem impostas, podendo trazer desconforto, desprazer, incômodos sentidos na íntegra.

Os recortes desenhados por um olhar inflexível mostram a não aceitação de como funcionamos na nossa essência. Aquilo que não foi captado ou não deixamos captar, cria nuances que precisam ser descortinadas, mas não por desejo nosso e sim por uma necessidade do outro.

A aceitação de que possuímos especificidades, latência, bagagem, conhecimento, formas de ver o mundo e também de senti-lo é um caminho longo. Requer sensibilidade, empatia, disponibilidade, entendimento de comportamento.

Traz uma lucidez do quanto nos expressamos de diversas formas, onde o que pode ser martírio para um, é tranquilidade para o outro. Assim como uma rotina de suporte pode significar a aceitação do funcionamento de alguém para um e, simultaneamente, trazer uma visão de sofrimento para o lado oposto. Ou até mesmo a ausência de um sorriso visível esconder a felicidade vivida diariamente e gargalhadas soltas se encontrarem com lágrimas que sangram o coração.

A face que o outro não vê precisa ser resguardada, respeitada. Não é visível aos olhos, mas sentida com o coração. Nem todos conseguem enxergá-la.

Isso me desperta um calendário interior, onde, há anos atrás, escutei uma pessoa muito querida por mim, falar algo que nunca mais esqueci. Sinalizou que podemos escutar muitas coisas do outro, pois não controlamos o pensamento que se transforma em ação a qualquer segundo, mas podemos e devemos mostrar com clareza aquilo que ultrapassa a nossa "cerquinha invisível", muito conhecida como as limitações que damos e deixamos ultrapassar.

Na ultrapassagem, as pegadas passam a vir à galope, como em uma grande e tumultuada cavalgada. As madeiras que sustentam a base são quebradas. A grama em volta, arrancadas com raiz e deixadas de lado em um canteiro, sem saber se serão replantadas.

Evidencia um excesso de velocidade que fere, rompendo a linha tênue que envolve as relações, cobrindo com névoa o que antes exalava avença.

Nessa hora, se acolha, mostre os seus limites e traga verdade dentro da sua existência.

Quem determina a sua "cerquinha" é você. Nem todos estão prontos para enxergar a sua face que não é mostrada.

Até a próxima quarta!

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A capacidade de pedir ajuda

quarta-feira, 19 de novembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Não somos infinitos.

Não somos feitos de uma imensidão sem fim, nem de ossos que jamais desmoronam, nem de vitalidade que atravessa mares sem declinar. Somos feitos de limites. Limites esses onde nos deparamos com a porta para irmos de encontro à coragem.

Em uma longa jornada, tentamos nos manter na régua do “muito”, deixando o equilíbrio para trás: muito forte, muito capaz, muito sagaz, como se o mundo fosse ruir se não fecharmos a conta por um breve instante.

Não somos infinitos.

Não somos feitos de uma imensidão sem fim, nem de ossos que jamais desmoronam, nem de vitalidade que atravessa mares sem declinar. Somos feitos de limites. Limites esses onde nos deparamos com a porta para irmos de encontro à coragem.

Em uma longa jornada, tentamos nos manter na régua do “muito”, deixando o equilíbrio para trás: muito forte, muito capaz, muito sagaz, como se o mundo fosse ruir se não fecharmos a conta por um breve instante.

Passamos boa parte da vida com a certeza imbuída que dar conta de  tudo sozinho é valioso ou o certo a ser feito. Fico imaginando em que tempo e momento surgiu essa percepção, e a questiono bravamente.

Com isso, vivemos transportando cargas que não são nossas, responsabilidades que precisam ser divididas e promessas que se amontoam como uma pilha de pedras.

Não, não vamos dar conta de tudo e está tudo bem.

Pare, reflita, respire, recalcule a rota, peça ajuda.

Pedir ajuda é um ato tão profundo e uma das coisas mais difíceis de realizar. É como se despir para o outro, evidenciando que o “está tudo bem” proferido no automático, esconde incontáveis rachaduras, lacunas. Vidros quebrados que cortam e machucam.

 Pedir ajuda requer coragem. Muita coragem. E, com ela, vem um grandioso lembrete: não vamos dar conta de tudo.

O pedido pode vir camuflado de diversas formas. Um olhar desviado, um sorriso acanhado, um “eu não consigo”, uma voz embargada, uma mensagem despretensiosa, uma ligação discreta. E o retorno traz a segurança de que não precisamos dar conta de tudo, pois, simplesmente, não conseguimos. Ninguém consegue. É preciso soltar o controle, que fica apertado com nós cegos que são difíceis de soltar.

Somos seres humanos, com vida pulsante, cheios de erros e acertos, altos e baixos, sem perfeição. Se aceitar é trazer conforto. É ser generoso consigo mesmo.

Assim, a vida fica mais leve, o peso se divide e o caminho deixa de ficar pesado como um piano.

Permita-se ser ajudado. Aceite a generosidade e a compaixão do outro.

Não estamos sós. Nunca estivemos.

O acolhimento existe e pode ser vivido. Se permita!

Até a próxima quarta!

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A esperança que nos move

quarta-feira, 12 de novembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Esperança, esperançar, esperar

A esperança nos move e nos impulsiona. Nasce no âmago, transforma, atravessa o tempo. Não deixa desistir, enquanto todo o resto desmorona.

            Nossos desejos ficam latentes, à espera daquilo que tanto ansiamos, dentro de uma escolha diária. Faz parte do passado, vigora no presente e permeia o futuro.

Esperança, esperançar, esperar

A esperança nos move e nos impulsiona. Nasce no âmago, transforma, atravessa o tempo. Não deixa desistir, enquanto todo o resto desmorona.

            Nossos desejos ficam latentes, à espera daquilo que tanto ansiamos, dentro de uma escolha diária. Faz parte do passado, vigora no presente e permeia o futuro.

            Mesmo quando o mundo parece mais lento e silencioso, seja na infância, adolescência, juventude, vida adulta ou qualquer momento, a esperança fica ali. Guardada, intocável, no respirar profundo que não se rende ao desalento.

A espera demora, desmotiva, faz o sentido se perder, traz vontade de desistir, confunde, tira do eixo, balança, provoca, questiona, silencia, desampara.

            Faz com que deixemos de acreditar em nós mesmos ou até traz dúvidas sobre aquilo que acreditamos, mas também nos dá força, ampara, acolhe, impulsiona, amadurece, traz novas rotas, visões e leituras do mundo vivido e sentido. Não é vazio, mas sim preenchimento se formando para o tempo que ainda está por vir.

            Esperar dentro do esperançar é manter o coração aceso, em chama ardente, profunda. É entender com sabedoria o tempo das coisas e cultivar a paciência, como quando aramos a terra para plantar e florescer. Requer coragem e resistência, sem rigidez, com flexibilidade, sustentando sonhos, desejos e escolhas, mesmo no meio de raios, trovões e tempestades.

            O esperançar soa como um equilíbrio. É agir e esperar, saber e entender que o tempo não se apressa, mas caminha, sem pressa. É compreender que, após o plantio árduo e demorado, há o momento moroso de fortalecer raízes, cultivar e colher. Assim como na vida, onde há hora para observar, ficar, falar, seguir com coragem, permanecer, escolher, pensar. Calar e escutar com profundidade, lembrando que algumas respostas só chegam quando a alma se aquieta, se acalma em relaxamento repleto de tranquilidade e harmonia.

            É uma espera que traz um respirar fundo e intenso, que não se rende ao abatimento, assim como o coração que pulsa diante do amor e da dor. É não ocupar esse tempo com o sentir do tédio, mas com a ternura e a percepção de que respostas estão sendo escritas em silêncio, dia após dia.

            Assim, seguimos cheios de esperança, esperançando e esperando.
Tecendo o hoje, fio a fio, ponto a ponto, confiante, na espera de um futuro repleto de expectativa, pois a esperança sabe esperar.

            Até a próxima quarta!

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