Quando tudo precisa ser espetáculo

Camilla Fiorito

Conversas de Dentro

Camilla é friburguense e psicopedagoga. Adora escrever e trabalhar com desenvolvimento socioemocional. Nesta coluna, escreve sobre os encontros entre o social e o emocional - espaços onde a vida, por vezes, nos pede pausa, coragem e escuta.

quarta-feira, 04 de fevereiro de 2026
por Jornal A Voz da Serra
Rolando o feed das redes sociais, percebo o excesso
 
A performance parece não ter fim. O compartilhamento de fotos, textos, vídeos, mostrando tudo e mais um pouco invade a tela. Os lugares que passou, o que viu, o que comeu, o que percebeu, o que sentiu, o que pensou, tudo nos mínimos detalhes. A sociedade pede isso. As pessoas esperam por isso. Acompanham o dia a dia, como se fosse uma novela da vida real, repleta de capítulos sem fim, onde a rotina precisa ser explanada, escancarada. Alguns com mais recortes, outros menos.
Isso me faz lembrar da primeira vez que assisti "Queda Livre”, episódio da terceira temporada da série Black Mirror. As interações sociais eram avaliadas com zero a cinco estrelas e a nota média definia o status e o acesso aos serviços dentro daquele universo mostrado. Quanto maior a pontuação, maior o prestígio ou a falsa sensação dele, em uma rotina de mentiras, enraizadas em um lugar profundo.
A aprovação esperada pelo outro faz com que o excesso fique cada vez mais exposto. Quanto mais eu performo, mais terei seguidores, mesmo que esse culto ao espetáculo traga superficialidade nas relações e na própria vida.
Mas, ledo engano quem acha que essas ações, que chegam como um jato supersônico, não causam danos à saúde mental, social e emocional.
Diante de tantas perfeições aos olhos escondidas atrás de imperfeições guardadas e represadas que não se sustentam ao longo do processo da nossa jornada, a lucidez de ser quem se é, sem filtros, causa estranheza.
A natureza de um corpo que envelhece, uma perda que acompanha, um erro que faz parte, uma dúvida que paira, um silêncio que bate à porta, uma opção pela privacidade aqui e acolá dentro de um sistema onde nada mais é privado, são luxos dentro de uma competição instalada de forma visível ou invisível, onde vence quem expõe mais. Ou será que a vitória vem para quem expõe menos?
Um vencer e perder impostos, que na verdade camufla a verdade oculta.
Quem define o poder das rédeas dessa história somos nós. Aquilo que queremos mostrar ou guardar, como o que contamos ou guardamos em segredo vem das nossas escolhas, mesmo que algumas possam nos tornar estranhos no ninho, em uma era de atuação constante.
Seja verdade! Siga além das aparências, com leveza e veracidade. A grama do vizinho não é mais verde que a sua. Aliás, todos nós temos uma grama que não foi tratada e cultivada.
Até a próxima quarta!
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Camilla é friburguense e psicopedagoga. Adora escrever e trabalhar com desenvolvimento socioemocional. Nesta coluna, escreve sobre os encontros entre o social e o emocional - espaços onde a vida, por vezes, nos pede pausa, coragem e escuta.

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