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Pix, PCC e CV: o que Trump realmente quer?

quinta-feira, 04 de junho de 2026
por Lucas Barros

Poucas vezes o Brasil produziu uma inovação capaz de mudar tão rapidamente a vida das pessoas quanto o Pix. Em poucos anos, o sistema criado pelo Banco Central transformou a forma como brasileiros compram, vendem, recebem e transferem dinheiro. Do pequeno comerciante até a grande empresa, milhões de pessoas passaram a realizar operações financeiras em segundos, sem quaisquer tarifas.

Poucas vezes o Brasil produziu uma inovação capaz de mudar tão rapidamente a vida das pessoas quanto o Pix. Em poucos anos, o sistema criado pelo Banco Central transformou a forma como brasileiros compram, vendem, recebem e transferem dinheiro. Do pequeno comerciante até a grande empresa, milhões de pessoas passaram a realizar operações financeiras em segundos, sem quaisquer tarifas.

Talvez por isso tenha causado tanta estranheza ver o governo americano incluir o Pix em sua lista de críticas ao Brasil. Em meio a discussões sobre tarifas comerciais, concorrência e até combate ao crime organizado, surgiu a narrativa de que o sistema brasileiro estaria prejudicando empresas privadas americanas de meios de pagamento (Visa, Mastercard, entre outras).

O BC respondeu através de nota oficial: “o Pix não é um produto comercializável. Não é uma empresa. Não é uma mercadoria. É uma infraestrutura pública criada para facilitar a vida da população. Não há comercial, mas o modelo de negócio que outros países também pretendem implementar.”

E convenhamos: se já causava indignação a simples possibilidade de o governo brasileiro criar algum tipo de tributação sobre o Pix, imagine aceitar que outro país tente interferir em uma ferramenta desenvolvida e administrada dentro do território nacional. O debate, por si só, já soa estranho.

Preocupações estranhas

Mas talvez o mais curioso seja acreditar que Donald Trump tenha acordado, num belo dia, genuinamente preocupado com o Pix, com o PCC ou com o Comando Vermelho. A história da política internacional mostra que as grandes potências raramente se movem apenas pelos motivos que apresentam em discursos oficiais.

Quando observamos o tabuleiro geopolítico, percebemos que a disputa costuma ser muito maior do que a justificativa apresentada ao público. Os Estados Unidos vivem hoje um momento de transformação global. A China cresce em influência econômica, amplia sua presença em mercados estratégicos, disputa cadeias produtivas, domina terras raras e fortalece alianças em diferentes regiões do planeta. Em paralelo, temas como energia, petróleo, rotas comerciais e segurança de abastecimento voltaram ao centro das decisões internacionais.

Nesse contexto, o Brasil também ganha relevância. Somos uma potência agrícola, energética e de terras raras. Temos reservas estratégicas, recursos naturais abundantes e um mercado consumidor expressivo. Não é difícil imaginar por que determinadas decisões brasileiras passam a despertar tanto interesse externo.

Por isso, quando autoridades americanas misturam Pix, crime organizado e barreiras comerciais no mesmo discurso, vale a pena olhar além da superfície. O PCC e o CV são problemas reais e graves. Combatê-los é obrigação do Estado brasileiro. Mas é difícil acreditar que a maior preocupação de Washington seja exatamente a segurança pública brasileira.

Curiosamente, a história recente mostra que certas regiões do mundo recebem atenção muito maior quando também possuem relevância energética ou estratégica. Petróleo, rotas marítimas, influência regional e segurança econômica costumam ocupar espaço privilegiado nas prioridades das grandes potências. Talvez seja apenas coincidência. Talvez não. Mas a história internacional raramente é movida apenas por altruísmo.

E há uma ironia difícil de ignorar. Os Estados Unidos frequentemente se apresentam como referência mundial no combate ao tráfico de drogas e ao crime organizado. Entretanto, enfrentam em seu próprio território uma das maiores crises de crime organizado, dependência química e população em situação de rua do planeta.

Em Los Angeles, a Skid Row (região conhecida como a Cracolândia americana) tornou-se símbolo dessa realidade. São dezenas de quarteirões ocupados por quase 50 mil de pessoas vivendo em condições extremamente precárias, convivendo diariamente com drogas. Por outro lado, até no SuperBowl, maior evento esportivo televisionado do planeta, grandes artistas e celebridades do esporte fazendo sinais e passos de gangue em TV aberta para todo o planeta.

À distância, é fácil apontar problemas alheios. Mais difícil é resolver os próprios. O Brasil tem desafios enormes na segurança pública. Tem facções criminosas poderosas, fronteiras vulneráveis e problemas históricos que precisam ser enfrentados com seriedade – assim como eles também tem os deles. Mas também é verdade que nenhuma nação do mundo pode se apresentar como modelo absoluto quando ainda convive com crises humanitárias tão profundas dentro de casa.

Taxas para todo o mundo

E há um detalhe que merece atenção. O Brasil não foi o único alvo dessas medidas de taxações. Ao lado do nosso país, dezenas de outras nações também foram atingidas por novas tarifas americanas. Segundo o próprio governo dos Estados Unidos, cerca de 60 países passaram a sofrer sobretaxações por razões que vão desde questões comerciais até alegações relacionadas a políticas internas e mecanismos regulatórios.

O Escritório de Comércio dos EUA (USTR) determinou tarifas de 10% relacionadas à investigação de trabalho forçado sobre as importações do Canadá, Equador, União Europeia, Indonésia, México, Paquistão, Argentina, Bangladesh, Camboja, El Salvador, Guatemala, Malásia, Taiwan e Reino Unido. Em relação ao Brasil, o Escritório de Comércio disse que propõe tarifas de 12,5%.

Ou seja, estamos longe de uma medida exclusivamente voltada ao Brasil. O que se observa é uma estratégia mais ampla de pressão econômica, utilizada como instrumento de política internacional.

Trump joga o jogo

O Pix não é perfeito. Nenhuma política pública é. Mas seu sucesso incomoda porque representa algo raro: uma solução brasileira que funcionou. Uma tecnologia pública que reduziu custos, ampliou o acesso ao sistema financeiro e se tornou referência internacional. Talvez seja justamente isso que desperte tanto interesse.

Durante anos, ouvimos discursos contundentes sobre narcotráfico, segurança regional e combate ao crime organizado na Venezuela. Hoje, o debate internacional parece muito mais concentrado em questões energéticas e petróleo. Talvez seja apenas coincidência. Talvez não. Grandes potências costumam ser muito mais sensíveis a barris de petróleo do que a discursos humanitários.

No fim das contas, a discussão dificilmente é apenas sobre o Pix. Também não parece ser apenas sobre o PCC ou o CV. O assunto é poder. É influência. É a disputa por espaço em um mundo que muda rapidamente. É a eleição brasileira. E talvez a maior prova de que o Pix deu certo seja justamente o fato de ter saído das conversas dos brasileiros para entrar nas preocupações de uma das maiores potências do planeta.

Porque, quando uma simples transferência feita pelo celular começa a incomodar interesses internacionais, provavelmente estamos discutindo algo muito maior do que tecnologia ou segurança pública. Estamos discutindo quem continuará escrevendo as regras do jogo nos próximos anos.

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A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.

Entre vaias e privilégios, parte da Câmara escolheu ao próprio bolso

quinta-feira, 28 de maio de 2026
por Jornal A Voz da Serra

A Câmara Municipal de Nova Friburgo aprovou um auxílio-alimentação de R$ 50 por dia útil para os vereadores da cidade. Ao final do mês, o valor gira em torno de R$ 1 mil por parlamentar. O projeto foi aprovado por 11 votos favoráveis e oito contrários, em meio a vaias da população presente no plenário.

A Câmara Municipal de Nova Friburgo aprovou um auxílio-alimentação de R$ 50 por dia útil para os vereadores da cidade. Ao final do mês, o valor gira em torno de R$ 1 mil por parlamentar. O projeto foi aprovado por 11 votos favoráveis e oito contrários, em meio a vaias da população presente no plenário.

A votação ocorreu com 19 vereadores presentes. Onze votaram a favor: Janio Carvalho (União Brasil), Carlinhos do Kiko (PL), Cascão do Povo (Podemos), Walace Piran (PL), Dr. Bruno Silva (MDB), Tia Karla (Republicanos), Max Bill (MDB), Evandro Miguel (MDB) e Dirceu Tardem (PL). Oito votaram contra: Maicon Gonçalves (Mobiliza), Marcos Marins (PSD), Maiara Felício (PT), Cláudio Damião (PT), Ghabriel do Zezinho (Solidariedade), Romulo Pimentel (Podemos), Christiano Huguenin (PP) e José Carlos Schuabb (União Brasil).

Importante começar essa coluna com muita clareza e lucidez: a indignação popular não nasce exatamente do valor. Mil reais por mês, dentro do orçamento de um município inteiro, não representam um colapso financeiro. Não é esse o ponto central da revolta. O problema é o símbolo. O momento. O recado que se passa quando a prioridade da pauta política parece, mais uma vez, olhar primeiro para dentro da própria Câmara do que para fora dela.

Há menos de uma semana, o Hospital Municipal Raul Sertã foi alvo de autuações pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ). A decisão cita irregularidades graves nas refeições da unidade, incluindo larvas, cabelo e até caramujo em salada servida aos pacientes. Em paralelo, alguns vereadores parecem preocupados em não precisar gastar parte do próprio salário para almoçar.

E é justamente nesse cenário que a Câmara decide mobilizar tempo político para votar um benefício próprio. Talvez por isso a reação tenha sido tão negativa. Porque o cidadão comum olha para a própria realidade e percebe que, quando servidores brigam por reajustes mínimos em auxílio-alimentação, frequentemente enfrentam resistência, discursos de austeridade e debates intermináveis sobre impacto financeiro. Professores, por exemplo, muitas vezes precisam lutar por valores muito inferiores, como se cada pequeno aumento colocasse em risco toda a saúde fiscal do município.

Mas, quando o assunto envolve o próprio Legislativo, a tramitação parece ganhar velocidade diferente. A população não se revolta apenas com números — revolta-se com contrastes.

E aqui cabe um cuidado importante: criticar essa votação não significa defender que vereador tenha que trabalhar sem estrutura ou sem condições adequadas. Política séria exige dedicação, disponibilidade e responsabilidade. O problema não é existir remuneração ou benefício. O problema é quando a prioridade política se desconecta completamente do sentimento das ruas — e da realidade da cidade.

Em momentos de crise, a população espera sensibilidade. Espera exemplo. Espera que os representantes entendam que política também é percepção, timing e responsabilidade coletiva. Porque, no fim, o problema nunca foi apenas o valor do auxílio. O problema é a sensação de que, enquanto a cidade tenta sobreviver às próprias urgências, parte da política continua discutindo conforto.

E talvez o mais perigoso disso tudo seja o desgaste gradual da confiança pública. Porque decisões assim alimentam a percepção de que parte da política local se afastou da realidade cotidiana da cidade. Uma cidade onde há ruas abandonadas, mato alto, buracos recorrentes, dificuldades na saúde e uma constante sensação de improviso administrativo.

A votação simboliza uma classe política que, muitas vezes, parece mais eficiente quando o assunto envolve benefício próprio do que quando envolve o sofrimento da população. Simboliza uma desconexão perigosa entre prioridade institucional e necessidade pública.

No fim das contas, não são os R$ 50 por dia que produzem tanta indignação. É o que eles simbolizam. E isso pesa ainda mais quando falamos de vereadores que já possuem salários superiores a R$ 14 mil mensais líquidos— valor que, para a realidade de Nova Friburgo, está longe de ser baixo.

A discussão, portanto, não deveria ser apenas financeira. Ela é moral, política e simbólica. Porque toda decisão pública carrega uma mensagem. E a mensagem transmitida nesta semana foi péssima: R$ 50 no prato e zero constrangimento no plenário.

Não é o valor — é o recado. E o recado que muitos friburguenses ouviram foi simples e cruel: para alguns vereadores, garantir o próprio almoço parece continuar sendo mais urgente do que enfrentar os problemas reais da cidade.

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Friburgo precisa de voz na Alerj

quinta-feira, 21 de maio de 2026
por Lucas Barros

Nossa cidade se acostumou a reclamar da ausência de investimentos, da lentidão das obras, da dificuldade de conseguir apoio estadual e da sensação permanente de que está sempre correndo atrás do que deveria já ter chegado. Mas talvez exista uma pergunta simples que precise ser feita com mais honestidade: quem, hoje, fala por Friburgo dentro da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro?

Nossa cidade se acostumou a reclamar da ausência de investimentos, da lentidão das obras, da dificuldade de conseguir apoio estadual e da sensação permanente de que está sempre correndo atrás do que deveria já ter chegado. Mas talvez exista uma pergunta simples que precise ser feita com mais honestidade: quem, hoje, fala por Friburgo dentro da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro?

Há algum tempo, a cidade deixou de ter uma representação estadual verdadeiramente ligada à região. E isso não é um detalhe político — é um problema prático. Porque orçamento, articulação, influência e prioridade passam, inevitavelmente, pela capacidade de uma cidade ter alguém que conheça suas demandas e esteja disposto a defendê-las dentro dos espaços de poder.

Não se trata de votar por votar. Nem de transformar eleição em torcida organizada. O voto é livre, individual e deve continuar sendo. Cada pessoa tem o direito de escolher quem quiser — inclusive ninguém. Mas é impossível ignorar que cidades que possuem representantes fortes acabam tendo mais capacidade de articulação política, acesso a recursos e pressão institucional.

E aqui talvez esteja um dos maiores desafios de Friburgo: a dificuldade histórica de construir lideranças regionais duradouras. A cidade frequentemente divide forças, pulveriza votos e termina assistindo outros municípios ocuparem espaços estratégicos enquanto seguimos dependendo da boa vontade política de quem, muitas vezes, sequer conhece a realidade local.

Isso se reflete em diversas áreas. Friburgo é um dos maiores polos de moda íntima do país, movimenta emprego, indústria, turismo de negócios e geração de renda. Ainda assim, o setor frequentemente caminha quase sozinho, sem o suporte proporcional ao impacto econômico que possui. Falta investimento, incentivo, linhas estratégicas de desenvolvimento e presença política capaz de transformar importância econômica em prioridade institucional.

E não é por ausência completa de recursos. Em muitos casos, o dinheiro existe — ou ao menos já existiu, em especial de recursos federais. Ao longo dos anos, diversos repasses estaduais e federais foram anunciados para Nova Friburgo. Alguns sequer saíram do papel. Outros se perderam entre burocracias, disputas políticas e falta de continuidade administrativa. Há recursos que chegam, mas não encontram execução eficiente. Há verbas que viram anúncio, mas não viram transformação concreta.

Um filme repetido inúmeras vezes

No fim, a população sente o resultado nas ruas. Obras que começam e param, assim como o Hospital do Câncer. Projetos que nunca saem do papel. Estruturas que envelhecem sem modernização. E uma cidade com enorme potencial econômico, turístico e universitário que, muitas vezes, parece menor do que realmente é diante do cenário estadual.

Enquanto isso, municípios que conseguem construir representação política regional organizada acabam avançando com mais velocidade. Não necessariamente porque possuem mais potencial — mas porque possuem voz. E, em política, quem não ocupa espaço acaba sendo ocupado pelas prioridades dos outros.

Talvez esteja na hora de Friburgo discutir isso com mais seriedade e menos paixão eleitoral. Entender que representação política não deveria ser apenas disputa de nomes, mas estratégia de cidade. Porque projetos pessoais passam, mandatos acabam, mas a ausência de articulação deixa consequências que permanecem por anos.

Isso não significa apoiar qualquer candidato apenas por ser da região. Pelo contrário. Representação local sem preparo, sem proposta e sem compromisso também não resolve nada. O debate precisa ser maduro. É preciso olhar trajetória, capacidade técnica, propostas reais e compromisso com a cidade.

Mas também é preciso compreender que uma cidade sem representantes fortes nos espaços estaduais perde capacidade de influência. E influência, gostemos ou não, move orçamento, prioridade e desenvolvimento.

Nova Friburgo não é uma cidade pequena em relevância econômica, cultural ou regional. Temos universidades, indústria, comércio forte, turismo consolidado e um dos setores de moda íntima mais importantes do Brasil. O que falta, muitas vezes, não é potencial. É articulação para transformar potencial em prioridade política.

Porque cidade que não ocupa espaço político acaba ocupando apenas a fila de espera das promessas.

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Em qual Nova Friburgo você vive?

quinta-feira, 14 de maio de 2026
por Lucas Barros

Havia ruas, todas muito semelhantes umas às outras. Havia também ruelas ainda mais semelhantes umas às outras, onde moravam pessoas também semelhantes umas às outras, que saíam e entravam nos mesmos horários, pelas mesmas calçadas, para fazer o mesmo trabalho sacal.

E para quem cada dia era o mesmo de ontem e de amanhã, e cada ano o equivalente do próximo e do anterior. Afinal, nada do que foi será, de novo do jeito que já foi um dia. Tudo passa e tudo sempre passará – de um modo para uns e de outro modo para outros. Cada um, com a sua luta e sua jornada.

Havia ruas, todas muito semelhantes umas às outras. Havia também ruelas ainda mais semelhantes umas às outras, onde moravam pessoas também semelhantes umas às outras, que saíam e entravam nos mesmos horários, pelas mesmas calçadas, para fazer o mesmo trabalho sacal.

E para quem cada dia era o mesmo de ontem e de amanhã, e cada ano o equivalente do próximo e do anterior. Afinal, nada do que foi será, de novo do jeito que já foi um dia. Tudo passa e tudo sempre passará – de um modo para uns e de outro modo para outros. Cada um, com a sua luta e sua jornada.

No entanto, Nova Friburgo é uma cidade, mas não a mesma para todos que moram nela. A depender do seu CEP, renda mensal e cor de pele, a cidade revela-se de modos diferentes, numa escala que varia entre ir ou não tranquilamente para o trabalho, acessar ou ter negado seu direito à saúde e manter-se ou não seguro em casa durante uma chuva forte.

Nova Friburgo de uns e de outros

Podemos falar do foco no Turismo. Uma cidade turística que revolucionou os seus índices de visitantes nos últimos anos com as inovações propostas. Festas? E quem não gosta de festas? Festejar significa estar junto de quem gostamos com o único e sincero propósito de ser feliz.

Seria uma hipocrisia negar que a nossa cidade fica ainda mais linda em épocas de festas! Eu como ex-morador da Avenida Alberto Braune e apaixonado por Friburgo, me encantava todos os dias com o que via pela janela. Grandes e pequenos shows. Natal Luz, Carnaval e tudo mais que tivemos em nossa cidade.

Abriram-se muitas oportunidades. Muitas pessoas tiveram oportunidades para mudar de vida nesses tempos de festa. Desde os hotéis que puderam dar um respiro desde a tragédia de 2011 até as pessoas envolvidas nas festividades como os barraqueiros, artistas, produtores artísticos e donos de infraestrutura de eventos.

No entanto, aprendi que não posso me contentar com uma paixão cega e desarrazoada. É preciso também olhar para as outras Nova Friburgo existentes e suas inúmeras dificuldades. Em se tratando de saúde, vemos uma cidade cujas soluções estão distantes de podermos comemorar.

Em uma cidade com pessoas com plano de saúde – que reclamam do serviço – as pessoas que dependem do SUS, já não tem mais para quem reclamar. Um pouco mais tarde, em um passado recente, mais más notícias. O teto da recepção do hospital caiu em meio às chuvas de final de ano. Mais um baque. Meses depois, foram detectados riscos biológicos, como: fezes de rato, pombos, risco de incêndio e de colapso na infraestrutura devido às infiltrações no principal hospital de nossa região.

Há também a Nova Friburgo para quem se locomova a pé, no conforto de morar perto do trabalho ou dos afazeres da vida em bairros próximos ao Centro. Doce é a vida de quem caminha olhando para as vitrines do comércio. Em vários bairros, pessoas se arriscam no meio das ruas escuras, face a falta de calçadas e de iluminação pública.

Há ainda uma outra cidade para quem dirija. Anda, para. Anda, para. Anda para. Uma velha conhecida friburguense: a falta de gestão de trânsito de uma cidade, que apesar de arrecadar muito com multas, pouco investe no trânsito e na locomoção de quem precisa de carro.

Todavia não podemos esquecer que há ainda um município especial para pessoas que necessitam diariamente do transporte coletivo. Pagam caro pelas passagens. Não contam com pontualidade ou muito menos com o mínimo de infraestrutura nos pontos de ônibus que muitas vezes não tem banco, nem teto e nem placa indicativa.

Há também uma Nova Friburgo para os que possuem filhos que estudam na rede privada de educação, que apesar dos altíssimos preços na mensalidade, podem ter a certeza de contar com um ensino de qualidade. Entretanto, há outra cidade para aqueles que não possuem tal condição.

Mas o que faz uma única, pequena e pacata Nova Friburgo se transformar em tantas outras? A resposta é uma só: as políticas públicas. Quem está à frente das decisões da cidade precisa considerar as múltiplas realidades que ela contém. E quem está por trás, enxergar as necessidades além das nossas dores. Nova Friburgo tem potencial para ser exemplo de cidade inovadora para as pessoas e não precisamos de muita inovação para isso.

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O amor que não tira folga

quinta-feira, 07 de maio de 2026
por Lucas Barros

Há datas que chegam com flores, mensagens prontas e fotografias bonitas. O Dia das Mães é uma delas. Mas, por trás das homenagens, no próximo domingo, 10, existe algo que não cabe em legenda: a rotina silenciosa de quem nunca teve a opção de não cuidar. Porque ser mãe não é um evento — é um estado permanente, contínuo, que não se suspende ao fim do dia.

Há datas que chegam com flores, mensagens prontas e fotografias bonitas. O Dia das Mães é uma delas. Mas, por trás das homenagens, no próximo domingo, 10, existe algo que não cabe em legenda: a rotina silenciosa de quem nunca teve a opção de não cuidar. Porque ser mãe não é um evento — é um estado permanente, contínuo, que não se suspende ao fim do dia.

Mãe não bate ponto, não encerra expediente, não escolhe quando pode descansar. Está presente no café apressado antes da escola, no uniforme separado na noite anterior, no remédio dado na madrugada, no conselho que vem sem manual. Está no cuidado que ninguém vê, mas que sustenta tudo o que a gente é. E, muitas vezes, está também no cansaço que ninguém aplaude.

Há uma força quase invisível no gesto de repetir, todos os dias, as mesmas pequenas coisas. Arrumar, organizar, insistir, orientar, acompanhar. Enquanto o mundo corre atrás de grandes conquistas, mães seguem garantindo o básico — e o básico, quando falta, faz falta de verdade. É ali, no detalhe, que a vida se constrói.

Nem sempre é leve. Nem sempre é reconhecido. Há mães que trabalham fora e dentro de casa, equilibrando jornadas que não cabem em relógio. Há mães solo que acumulam funções, responsabilidades e silêncios. Há mães que renunciaram a planos, pausaram sonhos, reorganizaram caminhos. E há também aquelas que aprenderam a ser mãe sem nunca terem sido cuidadas. E, ainda assim, seguem.

Ser mãe não é perfeição. É presença. É tentativa. É erro e acerto no mesmo dia. É fazer o melhor possível com o que se tem — e, muitas vezes, com o que nem se tem. É encontrar força onde não parecia haver, é improvisar soluções, é seguir mesmo quando o corpo pede pausa.

Existe, também, um tipo de amor que só a maternidade revela. Um amor que não exige resposta imediata, que não cobra retorno proporcional, que se constrói na entrega diária. É o amor que ensina, que corrige, que acolhe e que, acima de tudo, permanece — mesmo quando não é compreendido.

E talvez o mais curioso seja que esse amor, tão cotidiano, só ganha destaque em uma data específica. No restante do ano, ele continua ali, firme, sustentando histórias, segurando pontas, evitando quedas. O extraordinário, no caso das mães, é justamente o que se repete. É a constância.

Há mães de todos os tipos. Mães biológicas, adotivas, de coração. Mães que estão presentes fisicamente e aquelas que permanecem na memória, nas frases repetidas sem perceber, nos gestos herdados. Mães jovens, mães mais velhas, mães que ainda estão aprendendo, mães que já ensinaram tudo — e continuam ensinando.

E há também aquelas que, mesmo não tendo filhos, exercem o cuidado de forma tão intensa que ocupam esse lugar na vida de alguém. Porque ser mãe, no fundo, também é sobre cuidar, proteger, orientar e amar com uma intensidade que não se mede.

O Dia das Mães deveria ser menos sobre presentes e mais sobre compreensão. Sobre enxergar o que costuma passar despercebido. Sobre reconhecer que existe um trabalho — emocional, físico, constante — que raramente entra em qualquer cálculo, mas que sustenta famílias inteiras, que molda futuros, que forma pessoas.

Porque, no fim, mãe não é só quem cria. É quem permanece. É quem segura quando tudo parece cair, quem orienta quando falta direção, quem insiste quando o mundo desiste. É quem transforma cuidado em estrutura, afeto em base, presença em caminho.

E talvez o maior erro seja achar que esse amor cabe em um domingo. Que pode ser resumido em uma homenagem, em um presente, em uma postagem.

Porque o amor de mãe não é data comemorativa. Não é gesto isolado.
Não é ocasião. É rotina. É presença. É construção silenciosa.

É o tipo de amor que não tira folga — e que, ainda assim, nunca deixa de estar.

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Trabalhar para viver — e não apenas para resistir

quinta-feira, 30 de abril de 2026
por Lucas Barros

Nesta sexta-feira, 1º de maio, celebramos o Dia do Trabalho. E, antes de qualquer debate, é preciso reconhecer quem sustenta, todos os dias, a engrenagem mais básica da sociedade: o trabalhador. É ele quem acorda cedo, enfrenta rotina, transporte, metas, pressão e, muitas vezes, volta para casa com a sensação de que entregou mais do que recebeu.

Nesta sexta-feira, 1º de maio, celebramos o Dia do Trabalho. E, antes de qualquer debate, é preciso reconhecer quem sustenta, todos os dias, a engrenagem mais básica da sociedade: o trabalhador. É ele quem acorda cedo, enfrenta rotina, transporte, metas, pressão e, muitas vezes, volta para casa com a sensação de que entregou mais do que recebeu.

Em muitos casos, trabalha-se muito — e vive pouco. A pauta da jornada 6 x 1 virou um retrato claro dessa realidade. Seis dias dedicados ao trabalho para um único dia de descanso que, na prática, acaba sendo consumido por tarefas acumuladas, compromissos e a tentativa de recuperar um cansaço que nunca vai embora por completo.

Falta tempo, falta energia, falta espaço para existir além da função que se exerce. E, quando o trabalho deixa de ser um meio de vida e passa a ser apenas sobrevivência, algo está profundamente fora do lugar. Portanto, a pauta é legítima e tem o seu valor para ser debatido.

O trabalhador sente isso no corpo e na rotina. Sente quando o salário não acompanha o custo de vida que cresce no país, quando o descanso não é suficiente, quando o crescimento parece distante. Sente quando precisa escolher entre pagar contas básicas ou ter um mínimo de lazer – se é que é possível.

E, ainda assim, segue. Porque parar não é uma opção para quem depende exclusivamente do próprio esforço para manter a vida funcionando. Mas é justamente aqui que o debate precisa ganhar maturidade. Porque, embora a dor do trabalhador seja evidente — e absolutamente legítima —, ela não existe isoladamente.

Do outro lado dessa relação, há uma realidade que muitas vezes é ignorada ou simplificada: a de quem empreende. A realidade do Brasil de pequenos e médios empresários que não se encaixa na imagem de grandes corporações ou estruturas milionárias e tampouco numa agenda de luta de classes.

São negócios familiares, empresas locais, comerciantes, prestadores de serviço, microempreendedores individuais. Pessoas que também acordam cedo, que fecham tarde, que não têm garantia de renda fixa no fim do mês e que carregam nas costas a responsabilidade de manter não só o próprio sustento, mas o de outras famílias.

Para muitos desses empregadores, a jornada não é 6 x 1 — é 7 x 0. Não há descanso formal, não há estabilidade, não há margem para adoecer. Há risco constante. Há incerteza. Há a obrigação de fazer a conta fechar mesmo quando a conta não fecha. E há, ainda, um fator que tem pesado cada vez mais: o aumento da carga tributária sobre as empresas e a complexidade do sistema.

Nos últimos tempos, criou-se uma narrativa perigosa de que toda empresa é, por definição, lucrativa e capaz de absorver todo e qualquer aumento de custo. Não é. Muitos negócios operam no limite, lidando com impostos elevados, burocracia excessiva e insegurança jurídica. O pequeno e médio empreendedor, nesse contexto, não vive de privilégio — vive de resistência.

Isso não anula, em hipótese alguma, a realidade do trabalhador. Mas revela um ponto essencial: transformar essa relação em um confronto direto é simplificar um problema que é estrutural. Porque, no fim das contas, não existe empresa sem trabalhador — e não existe trabalho sem empresa. Quando um lado enfraquece, o outro inevitavelmente sente.

O erro está em tratar o debate como uma “luta de classes” - o que não deixa de existir no ponto de vista da filosofia e da história. Como a melhora da vida de um significasse, necessariamente, prejudicar o outro. A realidade mostra justamente o contrário: relações de trabalho saudáveis dependem de equilíbrio. Dependem de condições que permitam ao trabalhador viver com dignidade e ao empregador operar com viabilidade.

O Dia do Trabalho deveria ser menos sobre discursos prontos e mais sobre reflexão real. Sobre como estamos estruturando nossas relações profissionais em um sentido lato, mas não apenas num sentido estrito. Sobre como estamos distribuindo esforço, responsabilidade e resultados. Sobre como transformar trabalho em qualidade de vida — e não apenas em manutenção do básico.

Porque há algo de errado quando o trabalhador vive exausto e o empregador vive sufocado. E há uma luta de classes em ambos se entendem como inimigos, embora, muitas vezes sejam vítimas de algo maior. Quando um não descansa e o outro não respira. Quando ambos trabalham muito, mas nenhum sente que está, de fato, avançando. Isso não é equilíbrio.

No fim, trabalhar deveria significar construir. Construir estabilidade, segurança, perspectiva. Construir um futuro que faça sentido. E talvez a reflexão mais importante desta semana seja justamente essa: não basta trabalhar muito. É preciso que o trabalho, para todos os envolvidos, volte a valer a pena.

Talvez o maior erro do nosso tempo tenha sido transformar o trabalho em destino, e não em caminho. Porque viver não deveria caber nas horas vagas. E nenhum descanso, para qualquer das partes, deveria parecer um prêmio.

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Para muitos jovens, o ponto mais bonito da cidade ainda é a saída

quinta-feira, 23 de abril de 2026
por Lucas Barros

Há alguns anos escrevi sobre os jovens que vão embora de Nova Friburgo e, na maioria das vezes, não voltam. De lá pra cá, pouca coisa mudou — talvez só a naturalidade com que essa decisão passou a ser tomada. Ir embora deixou de ser um plano ousado e virou quase um roteiro esperado.

Nova Friburgo continua sendo uma cidade que forma, mas não retém. Temos um dos maiores polos universitários da região, com instituições que preparam gente qualificada, pronta para o mercado, pronta para o mundo. O problema é que, ao terminar a formação, esse mesmo mundo parece começar fora daqui.

Há alguns anos escrevi sobre os jovens que vão embora de Nova Friburgo e, na maioria das vezes, não voltam. De lá pra cá, pouca coisa mudou — talvez só a naturalidade com que essa decisão passou a ser tomada. Ir embora deixou de ser um plano ousado e virou quase um roteiro esperado.

Nova Friburgo continua sendo uma cidade que forma, mas não retém. Temos um dos maiores polos universitários da região, com instituições que preparam gente qualificada, pronta para o mercado, pronta para o mundo. O problema é que, ao terminar a formação, esse mesmo mundo parece começar fora daqui.

A cidade dá base de segurança, ensina, capacita, desenvolve — mas não absorve. É como se crescer, por aqui, tivesse um limite invisível, baixo demais para quem deseja mais.

E não é por falta de talento. É por falta de perspectiva. O jovem que quer construir carreira, empreender, inovar ou simplesmente encontrar oportunidades mais amplas, olha ao redor e não enxerga caminho. Falta ecossistema, falta incentivo, falta integração entre ensino e mercado. Falta, sobretudo, a sensação de que existe futuro profissional consistente dentro dos limites da cidade.

Enquanto isso, seguimos presos a um modelo que gira, mas não evolui. A economia se movimenta em ciclos previsíveis, sustentada por eventos pontuais nas praças, iniciativas que geram fluxo por alguns dias e depois se dissolvem. Há palco, há luz, há público — mas, quando tudo acaba, pouco permanece. Não se constrói continuidade. Não se cria base.

Falta de estrutura

Há uma diferença importante entre uma cidade que recebe e uma cidade que retém. Receber é momentâneo. Reter exige estrutura e base. E Friburgo, hoje, parece mais preparada para o movimento transitório (de trazer pessoas de fora para visitar e estudar) do que para a permanência. Funciona bem no imediato, mas falha no longo prazo. Encanta por alguns dias, mas não sustenta por anos.

O resultado disso é silencioso, mas constante. Jovens arrumando malas, famílias se reorganizando, trajetórias sendo continuadas em outros lugares. Não por falta de vínculo com a cidade, mas por necessidade. Porque chega um momento em que o afeto não compensa a ausência de oportunidade concreta – e eu me incluo nos milhares desses.

E é aqui que o tema se conecta com uma discussão mais ampla que já fizemos: não é falta de dinheiro. É falta de prioridade. Enquanto se fala em arrecadação, em cada vez taxas e empréstimos realizados pelo município, seguimos sem uma política pública estruturada para retenção de talentos. Não há estratégia clara para integrar universidades, empresas e inovação. Não há um plano consistente de desenvolvimento que olhe para o futuro.

Sem evolução

A cidade parece, em muitos aspectos, parada no tempo. Não pela ausência de potencial, mas pela falta de direção. O mundo mudou, as profissões mudaram, a forma de trabalhar mudou — e Friburgo ainda responde com estruturas de outra época. Quem quer acompanhar esse novo ritmo acaba, inevitavelmente, buscando outro lugar.

E isso tem consequência. Uma cidade que não retém seus jovens também não renova suas ideias, não oxigena sua economia, não se projeta para frente. Vai envelhecendo em seus modelos, repetindo fórmulas que já não respondem às demandas atuais. Vai ficando confortável no que já conhece — e cada dia mais distante do que poderia ser.

No fim das contas, a imagem que fica é simbólica. Todos com um sentimento inigualável de paixão pela cidade, mas para muitos jovens, o ponto turístico mais bonito de Nova Friburgo ainda é a Rodoviária Sul — com uma passagem só de ida. Não pela tranquilidade da cidade, não pela paisagem, mas pelo que ela representa: a saída como única alternativa de crescimento.

E isso deveria incomodar mais. Porque cada jovem que vai embora não leva só a própria história. Leva potencial, inovação, energia, capacidade de transformação. Leva consigo todos os grandes planos e o futuro de famílias. Leva consigo um pedaço do futuro que poderia ter sido construído aqui.

Nova Friburgo não precisa apenas formar bons profissionais. Precisa criar condições reais para que eles fiquem, cresçam e se desenvolvam dentro da própria cidade. Porque uma cidade que educa, mas não acolhe o próprio talento, está, aos poucos, abrindo mão de si mesma.

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Procedimento estético para o rosto e maquiagem para a Saúde

quinta-feira, 16 de abril de 2026
por Lucas Barros

Há algo de curioso — e, de certo modo, simbólico — quando um gestor público, no caso, o prefeito de Nova Friburgo, decide aparecer nas redes sociais exibindo procedimentos estéticos como se estivesse protagonizando a campanha de uma clínica de estética da cidade.

Não há ilegalidade nisso. Não há, sequer, proibição. Mas há momentos em que a forma fala mais alto que o ato. E, sobretudo, há contextos que exigem mais sensibilidade do que vaidade.

Há algo de curioso — e, de certo modo, simbólico — quando um gestor público, no caso, o prefeito de Nova Friburgo, decide aparecer nas redes sociais exibindo procedimentos estéticos como se estivesse protagonizando a campanha de uma clínica de estética da cidade.

Não há ilegalidade nisso. Não há, sequer, proibição. Mas há momentos em que a forma fala mais alto que o ato. E, sobretudo, há contextos que exigem mais sensibilidade do que vaidade.

Cuidar da própria imagem é legítimo. Todos cuidamos, em maior ou menor medida. O problema não está no procedimento, mas na mensagem que se escolhe transmitir em um município que enfrenta dificuldades evidentes na área da saúde, onde faltam respostas, estrutura e, muitas vezes, o básico.

Brilho na pele, escuridão na Saúde  

Enquanto alguns buscam atendimento nos hospitais e encontram filas, demora ou ausência, o que se vê na tela é um roteiro leve, bem iluminado, quase ensaiado. Enquanto alguns veem procedimentos estéticos com luvas, tudo limpo e organizado na clínica de estética, o popular encontra o hospital com enfermeiros atendendo sem insumos básicos.

É uma narrativa de quem se diz populista, mas que não dialoga com a realidade de quem depende e vive o sistema público de saúde do município. E é justamente essa desconexão que incomoda. Não pela estética em si, mas pela ausência de total senso de oportunidade em um momento que exige cuidado.

E, nesse cenário, cada gesto comunica. Cada publicação transmite uma mensagem. Quando a cidade vive um momento de fragilidade na saúde, o esperado não é leveza estética, mas firmeza de quem quer fazer acontecer. Não é o brilho de uma lente, mas a clareza de uma resposta para que não enxerga solução. Porque quem está na ponta não enxerga estética — enxerga ausência, dor e desamparo de não conseguir ser atendido.

A vida política exige leitura de ambiente. Exige entender o tempo, o lugar e, principalmente, as dores de quem está do outro lado – especialmente quem precisa de você, prefeito. Não se trata de proibir o gestor de viver sua vida privada, mas de compreender que, ao ocupar um cargo público, a linha entre o pessoal e o institucional se torna inevitavelmente mais tênue — especialmente quando se utiliza a própria rede social como ferramenta de comunicação pública.

Quando o retoque vai além do rosto

Mas ainda há um detalhe que agrava esse cenário e que não pode ser tratado como periférico. Não é a primeira vez que críticas ao governo municipal desaparecem das redes sociais. Comentários são apagados, manifestações de insatisfação são filtradas e o que deveria ser um espaço de diálogo se transforma, pouco a pouco, em vitrine controlada. Isso, sim, revela um problema mais profundo. Trata-se de uma vaidade - que nesse momento não tem qualquer significado estético.

Um agente público que utiliza suas redes como extensão de sua atuação política não pode tratar a crítica como um ruído a ser eliminado. Apagar comentários não resolve problemas — apenas os empurra para fora do campo de visão. E governar não é administrar percepção, é lidar com realidade, inclusive quando ela incomoda.

Esse comportamento, inclusive, já foi objeto de observação nesta coluna em outras ocasiões e voltou a ser destacado recentemente por diferentes portais de notícias da região. Não se trata, portanto, de um episódio isolado, mas de uma prática que se repete. E práticas reiteradas acabam revelando mais do que qualquer discurso cuidadosamente construído em roteiros e edições.

Há uma diferença importante entre comunicação e propaganda. Comunicar é prestar contas, explicar decisões, ouvir a população. Propaganda, por outro lado, constrói uma imagem — muitas vezes distante daquilo que se vive no cotidiano. Quando a segunda começa a substituir a primeira, transforma-se a gestão em narrativa, e não em entrega. Sim, podemos harmonizar o rosto, mas jamais, desarmonizar o debate.

Não é sobre estética, é sobre o que ele ignora

No fim das contas, a questão não é estética. É prioridade. Não é sobre o procedimento em si, mas sobre o momento em que ele é exposto e divulgado quase como uma propaganda. Não é sobre o vídeo, mas sobre o contraste que ele cria diante de uma população que ainda busca respostas básicas para problemas urgentes e o seu gestor está fazendo algo semelhante a um marketing.

Talvez o título dessa coluna diga mais do que parece. Procedimentos estéticos cuidam da superfície. A maquiagem cobre imperfeições, suaviza marcas e cria a ilusão de harmonia. Mas, na gestão pública, não é o rosto que precisa de ajustes — é a realidade que exige transformação.

No final, a população não espera um prefeito bem bonito e bem enquadrado em vídeo. Espera um gestor que encare, sem filtros e sem edição, os problemas que insistem em aparecer fora da tela. E esses, ao contrário de qualquer imagem e comentário, não podem ser apagados.

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O aniversário é de A VOZ DA SERRA, mas quem comemora é Friburgo

quinta-feira, 09 de abril de 2026
por Lucas Barros

Há aniversários que pertencem a uma pessoa, a uma família ou a uma instituição. Mas há outros que pertencem a uma cidade inteira. Quando um jornal completa 81 anos de existência, como A VOZ DA SERRA celebrou na terça-feira, 7, a comemoração deixa de ser apenas de quem escreve, imprime ou distribui. Ela passa a ser, sobretudo, de quem lê. E, neste caso, de quem vive Nova Friburgo.

Há aniversários que pertencem a uma pessoa, a uma família ou a uma instituição. Mas há outros que pertencem a uma cidade inteira. Quando um jornal completa 81 anos de existência, como A VOZ DA SERRA celebrou na terça-feira, 7, a comemoração deixa de ser apenas de quem escreve, imprime ou distribui. Ela passa a ser, sobretudo, de quem lê. E, neste caso, de quem vive Nova Friburgo.

Um jornal com 81 anos não atravessa o tempo por acaso. Entre a primeira edição e a que hoje chega às casas dos leitores, o mundo mudou inúmeras vezes. Mudaram os governos, mudaram os costumes, mudaram as tecnologias e até a forma como as pessoas se informam.

No entanto, semana após semana, edição após edição, A VOZ DA SERRA seguiu registrando a história da cidade, dia a dia, enquanto ela acontecia. Ao longo dessas oito décadas, o jornal testemunhou transformações profundas em Nova Friburgo. Viu crescer bairros, acompanhou momentos de prosperidade e também registrou tempos difíceis.

Contou histórias de gente comum que, com trabalho e perseverança, ajudou a construir a identidade friburguense. Em suas páginas passaram fatos históricos, personagens marcantes, debates públicos e as pequenas narrativas do cotidiano que, somadas, formam a memória de uma cidade.

Não é exagero dizer que, muitas vezes, a história de nossa cidade pode ser revisitada folheando edições antigas do jornal. Ali estão as fotografias que congelaram momentos importantes, os anúncios de outros tempos, as reportagens que retrataram decisões políticas, avanços sociais e desafios coletivos.

Um jornal, quando atravessa gerações, acaba se transformando em algo maior que um veículo de comunicação: torna-se arquivo vivo da própria comunidade. Em tempos de velocidade digital e de notícias que desaparecem em segundos na tela de um celular, há algo quase simbólico no fato de que A VOZ DA SERRA continue existindo também em sua forma impressa. Não é pouca coisa.

Em um cenário em que tantos jornais tradicionais deixaram de circular fisicamente, o periódico friburguense segue sendo entregue diariamente na casa de milhares de leitores e aos olhos de inúmeros friburguenses, seja bancas de revista ou seus trabalhos, na sala de espera do médico à repartição pública.

Essa permanência diz muito sobre a relação entre o jornal e a cidade. A edição impressa não é apenas papel e tinta; ela representa uma tradição que atravessa gerações. Há leitores que cresceram vendo o jornal chegar em casa, que aprenderam a reconhecer o ritmo da semana pela chegada da nova edição. É um hábito que se transforma em memória afetiva coletiva.

E naturalmente, um veículo com tanta história também atravessa momentos de debate e crítica. Em diferentes períodos, vozes surgem dizendo que o jornal favorece este ou aquele lado político. É uma narrativa comum em sociedades democráticas, onde a imprensa, ao noticiar e questionar, inevitavelmente incomoda alguém. Mas o tempo costuma ser um juiz silencioso.

Pessoas passam. Governos passam. Ciclos políticos se encerram. O que permanece é o registro dos acontecimentos. O fato de A VOZ DA SERRA chegar aos 81 anos diz muito mais sobre sua seriedade e compromisso com a informação do que qualquer crítica passageira poderia sugerir. Empresas não atravessam oito décadas sem consistência, credibilidade e trabalho.

Por isso, neste aniversário, talvez seja justo inverter a lógica da celebração. O aniversário é do jornal, é verdade. Mas quem tem motivos para comemorar são os friburguenses. Poucas cidades podem dizer que possuem um veículo de comunicação com tamanha longevidade, capaz de acompanhar gerações inteiras de moradores.

Ter um jornal que resiste ao tempo é também ter um espelho da própria cidade. Um espaço onde a comunidade se reconhece, discute seus caminhos e preserva sua memória coletiva. E memória, afinal, é uma das coisas mais valiosas que uma cidade pode ter.

Que venham muitos outros aniversários. Porque enquanto houver histórias para contar em Nova Friburgo — e sempre haverá — também haverá sentido em registrar essas histórias. E, nesse caso, quem ganha não é apenas o jornal. É a própria cidade que continua se vendo, dia após dia, refletida em suas páginas.

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Geração Z: Cada dia mais longe da casa própria

quinta-feira, 02 de abril de 2026
por Lucas Barros

Sonhar com a casa própria já foi uma das maiores aspirações de quem começava sua trajetória no mercado de trabalho. Contudo, para a Geração Z, os jovens que nasceram entre 1995 e 2010, esse sonho parece cada vez mais distante e menos palpável.

Sonhar com a casa própria já foi uma das maiores aspirações de quem começava sua trajetória no mercado de trabalho. Contudo, para a Geração Z, os jovens que nasceram entre 1995 e 2010, esse sonho parece cada vez mais distante e menos palpável.

Há quem fale que a geração não tenha o sonho de comprar a casa própria para ter maior liberdade de locomoção por um mundo globalizado. Entretanto, a realidade se distancia da afirmativa. O resultado desse cenário? A aquisição de um imóvel deixou de ser uma meta atingível para a maioria dos jovens, transformando-se em um privilégio restrito a poucos.

Perda do poder de salário

A realidade atual revela que os salários perderam substancialmente o poder de compra, enquanto os custos essenciais da vida só aumentaram. Em décadas passadas, era comum que um jovem recém-ingressado no mercado de trabalho conseguisse, com o tempo, juntar dinheiro suficiente para casar, comprar um carro e dar entrada em um imóvel. Esse objetivo, que representava um marco importante na vida adulta, era alcançável por meio de um planejamento financeiro prudente.

No entanto, a vida não é mais como era antigamente. Enquanto os salários cresceram de forma lenta e desproporcional, a inflação disparou, corroendo o poder aquisitivo da população. Itens básicos como aluguel, alimentação, transporte e lazer consomem boa parte da renda dos jovens dessa geração, deixando espaço mínimo para a poupança.

Além disso, as empresas deixaram de ser as grandes corporações centralizadas de antigamente, nas quais os jovens subiam gradualmente até cargos de gerência, com salários mais altos. Hoje, o mercado de trabalho é mais dinâmico e diversificado, com o surgimento de empresas menores, que geralmente oferecem menos estrutura e planejamento de carreira.

Especulação imobiliária

A situação se agrava ainda mais devido à especulação imobiliária. Investidores que compram imóveis em larga escala e os revendem a preços elevados, impulsionados pela busca incessante de lucro, têm ajudado a inflacionar ainda mais os preços dos imóveis. O resultado é que, enquanto uma parcela da população se beneficia desse cenário, quem realmente precisa de um lar digno e acessível encontra opções cada vez mais escassas e inacessíveis.

A chamada “bolha imobiliária” parece se expandir sem controle, colocando a casa própria ainda mais fora do alcance dos jovens. Com isso, muitos se veem obrigados a pagar aluguel por apartamentos cada vez menores, com valores que muitas vezes beiram o absurdo, sem conseguir acumular patrimônio.

A falta de espaço nos grandes centros urbanos também se tornou um obstáculo significativo. Enquanto as grandes cidades continuam sendo os principais polos de emprego e oportunidades, a escassez de terrenos e a saturação do mercado imobiliário tornam o sonho de morar perto do trabalho quase impossível.

Os poucos imóveis disponíveis em áreas centrais estão além do orçamento da maioria dos jovens. Isso força os jovens a tomarem decisões difíceis: ou se mudam para bairros distantes, enfrentando o caos do trânsito, da violência e do desgaste do tempo – e gastos - de deslocamento, ou optam por gastar uma parte significativa da sua renda mensal com aluguel. O que antes era uma escolha natural e até desejada – ter um lar próprio perto de onde trabalham – agora parece mais uma utopia.

Financiamentos cada vez mais difíceis

Comprar um imóvel? Esse objetivo tem tornado viável para a geração por meio de financiamentos, que quando conseguidos, são de valores exorbitantes, cujas parcelas podem atravessar gerações, com valores que, muitas vezes, ultrapassam a capacidade de pagamento de muitos.

Utopia

Em face dessa realidade desanimadora, tanto nas grades cidades como em Nova Friburgo, muitos jovens já desistiram do sonho da casa própria, considerando-o inatingível em suas circunstâncias atuais. Outros buscam alternativas, como soluções de co-living (repúblicas), nos quais dividem espaços com outras pessoas, ou aceitam financiar imóveis por prazos tão longos que parecem quase impensáveis.

Há ainda aqueles que simplesmente se conformam com a ideia de que morar de aluguel será a única opção ao longo de toda a vida adulta. O problema, contudo, não está apenas no fato de que os jovens estão se adaptando a um mercado imobiliário cada vez mais restritivo, mas na necessidade de questionar se esse mercado ainda faz sentido.

Será que o modelo atual, onde imóveis são tratados como meros produtos de especulação, ainda é viável e sustentável para as futuras gerações? Se a tendência continuar, a casa própria, que já foi um símbolo de conquista e estabilidade, pode se transformar, para a Geração Z, em um sonho inalcançável, quase um conto de fadas.

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