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Para muitos jovens, o ponto mais bonito da cidade ainda é a saída

Lucas Barros
Além das Montanhas
Advogado com atuação no ecossistema de inovação e pós-graduado em Prática Trabalhista. Colunista, empreendedor e pesquisador em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulados pela ANEEL. Apaixonado por Nova Friburgo, escreve “Além das Montanhas” para mostrar que a cidade não vive isolada, entre suas montanhas, do que acontece ao seu redor.
Há alguns anos escrevi sobre os jovens que vão embora de Nova Friburgo e, na maioria das vezes, não voltam. De lá pra cá, pouca coisa mudou — talvez só a naturalidade com que essa decisão passou a ser tomada. Ir embora deixou de ser um plano ousado e virou quase um roteiro esperado.
Nova Friburgo continua sendo uma cidade que forma, mas não retém. Temos um dos maiores polos universitários da região, com instituições que preparam gente qualificada, pronta para o mercado, pronta para o mundo. O problema é que, ao terminar a formação, esse mesmo mundo parece começar fora daqui.
A cidade dá base de segurança, ensina, capacita, desenvolve — mas não absorve. É como se crescer, por aqui, tivesse um limite invisível, baixo demais para quem deseja mais.
E não é por falta de talento. É por falta de perspectiva. O jovem que quer construir carreira, empreender, inovar ou simplesmente encontrar oportunidades mais amplas, olha ao redor e não enxerga caminho. Falta ecossistema, falta incentivo, falta integração entre ensino e mercado. Falta, sobretudo, a sensação de que existe futuro profissional consistente dentro dos limites da cidade.
Enquanto isso, seguimos presos a um modelo que gira, mas não evolui. A economia se movimenta em ciclos previsíveis, sustentada por eventos pontuais nas praças, iniciativas que geram fluxo por alguns dias e depois se dissolvem. Há palco, há luz, há público — mas, quando tudo acaba, pouco permanece. Não se constrói continuidade. Não se cria base.
Falta de estrutura
Há uma diferença importante entre uma cidade que recebe e uma cidade que retém. Receber é momentâneo. Reter exige estrutura e base. E Friburgo, hoje, parece mais preparada para o movimento transitório (de trazer pessoas de fora para visitar e estudar) do que para a permanência. Funciona bem no imediato, mas falha no longo prazo. Encanta por alguns dias, mas não sustenta por anos.
O resultado disso é silencioso, mas constante. Jovens arrumando malas, famílias se reorganizando, trajetórias sendo continuadas em outros lugares. Não por falta de vínculo com a cidade, mas por necessidade. Porque chega um momento em que o afeto não compensa a ausência de oportunidade concreta – e eu me incluo nos milhares desses.
E é aqui que o tema se conecta com uma discussão mais ampla que já fizemos: não é falta de dinheiro. É falta de prioridade. Enquanto se fala em arrecadação, em cada vez taxas e empréstimos realizados pelo município, seguimos sem uma política pública estruturada para retenção de talentos. Não há estratégia clara para integrar universidades, empresas e inovação. Não há um plano consistente de desenvolvimento que olhe para o futuro.
Sem evolução
A cidade parece, em muitos aspectos, parada no tempo. Não pela ausência de potencial, mas pela falta de direção. O mundo mudou, as profissões mudaram, a forma de trabalhar mudou — e Friburgo ainda responde com estruturas de outra época. Quem quer acompanhar esse novo ritmo acaba, inevitavelmente, buscando outro lugar.
E isso tem consequência. Uma cidade que não retém seus jovens também não renova suas ideias, não oxigena sua economia, não se projeta para frente. Vai envelhecendo em seus modelos, repetindo fórmulas que já não respondem às demandas atuais. Vai ficando confortável no que já conhece — e cada dia mais distante do que poderia ser.
No fim das contas, a imagem que fica é simbólica. Todos com um sentimento inigualável de paixão pela cidade, mas para muitos jovens, o ponto turístico mais bonito de Nova Friburgo ainda é a Rodoviária Sul — com uma passagem só de ida. Não pela tranquilidade da cidade, não pela paisagem, mas pelo que ela representa: a saída como única alternativa de crescimento.
E isso deveria incomodar mais. Porque cada jovem que vai embora não leva só a própria história. Leva potencial, inovação, energia, capacidade de transformação. Leva consigo todos os grandes planos e o futuro de famílias. Leva consigo um pedaço do futuro que poderia ter sido construído aqui.
Nova Friburgo não precisa apenas formar bons profissionais. Precisa criar condições reais para que eles fiquem, cresçam e se desenvolvam dentro da própria cidade. Porque uma cidade que educa, mas não acolhe o próprio talento, está, aos poucos, abrindo mão de si mesma.

Lucas Barros
Além das Montanhas
Advogado com atuação no ecossistema de inovação e pós-graduado em Prática Trabalhista. Colunista, empreendedor e pesquisador em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulados pela ANEEL. Apaixonado por Nova Friburgo, escreve “Além das Montanhas” para mostrar que a cidade não vive isolada, entre suas montanhas, do que acontece ao seu redor.
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