Exaustos

Paula Farsoun

Com a palavra...

Paula é uma jovem friburguense, advogada, escritora e apaixonada desde sempre pela arte de escrever e o mundo dos livros. Ama família, flores e café e tem um olhar otimista voltado para o ser humano e suas relações, prerrogativas e experiências.

sexta-feira, 05 de dezembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

Existe uma palavra que, nos últimos anos, deixou de ser neutra e virou quase uma sentença: produtividade. Antes, significava conseguir realizar o que precisava ser feito. Hoje, virou uma régua emocional para medir o próprio valor. Não basta trabalhar. Tem que entregar mais, mais rápido, com sorriso no rosto e zero sinal de cansaço. Produtivo, agora, é quem faz caber três dias dentro de um. O problema é que ninguém fala sobre o preço disso.

Vivemos uma lógica silenciosa de desempenho permanente. Mesmo quando o corpo pede pausa, a cabeça sussurra “só mais um pouco”. E a gente obedece, como se descansar fosse um luxo reservado a quem não quer crescer. No fundo, temos medo de parecer desinteressantes, preguiçosos ou, pior, substituíveis. Então seguimos. Empilhamos tarefas, expectativas, cobranças — externas e internas — até perceber que nossa energia virou pó. E no final das contas, uma verdade não cala: para o sistema que impõe o ser produtivo como mola motriz, somos substituíveis, sim.

A produtividade mudou de significado porque nós mudamos a forma de medir sucesso. Percebo que é quase uma competição invisível sobre quem aguenta mais sem desmoronar. Mas ninguém vence uma maratona correndo como se fosse uma prova de cem metros. A exaustão virou idioma comum. Todo mundo entende. Todo mundo fala. Aprendemos a celebrar o excesso, embora, no fundo, o que a maioria de nós anseia, é por equilíbrio.

Merece ênfase um detalhe que ninguém menciona nas palestras motivacionais: nenhuma meta vale a nossa saúde. Nenhum e-mail enviado às 23h vai nos dar a sensação de vida plena que buscamos. Porque produtividade verdadeira não tem a ver com fazer tudo. Tem a ver com fazer o que importa, com presença. Tem a ver com entregar bem, não com entregar sempre.

Produtivo, hoje, deveria ser quem consegue perceber quando está passando do próprio limite. Quem tem maturidade para dizer “agora não”. Quem entende que o corpo fala, e que ignorar o corpo não transforma ninguém em profissional melhor — só em alguém mais perto de um colapso. Talvez o novo significado da palavra produtividade não esteja nos livros, nem nas empresas, nem no LinkedIn. Talvez esteja nas pequenas decisões diárias que nos devolvem para nós mesmos.

Se existe um medidor que vale a pena acompanhar, não é o de tarefas concluídas, e sim o de vida vivida. Porque, no fim, ninguém se arrepende de ter descansado quando precisava — só de ter continuado quando já estava exausto.

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Paula Farsoun

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Paula é uma jovem friburguense, advogada, escritora e apaixonada desde sempre pela arte de escrever e o mundo dos livros. Ama família, flores e café e tem um olhar otimista voltado para o ser humano e suas relações, prerrogativas e experiências.

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