Encontro de Natal

Paula Farsoun

Com a palavra...

Paula é uma jovem friburguense, advogada, escritora e apaixonada desde sempre pela arte de escrever e o mundo dos livros. Ama família, flores e café e tem um olhar otimista voltado para o ser humano e suas relações, prerrogativas e experiências.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra

O encontro de Natal não deixa de ser esse grande ensaio geral da convivência. Todos chegam com figurino caprichado, sorriso treinado e uma disposição quase teatral para “ficar tudo bem”. É a única noite do ano em que famílias inteiras se sentam à mesma mesa como quem participa de uma foto antiga. Há uma coreografia conhecida. O parente que chega atrasado, mas faz questão de anunciar o atraso. A parente que pergunta coisas demais sob o pretexto de se importar. O outro que surge com opiniões embrulhadas em papel de presente, e a gente agradece, mesmo sem saber onde vai guardar aquilo depois.

O Natal tem cheiro de comida e de memória. Algumas boas, outras requentadas. Certos assuntos voltam à mesa como pratos que ninguém pediu, mas alguém insiste em servir. E ali estão eles: expectativas, comparações, silêncios herdados. Tudo muito tradicional. Há quem diga que o Natal une. Une, sim, como cola forte demais: aproxima o que talvez precisasse de um pouco de espaço. Ainda assim, há beleza nesse esforço coletivo de fingir normalidade por algumas horas. É quase comovente.

Entre um brinde e outro, percebemos que crescemos. Não porque resolvemos nossas histórias, mas porque aprendemos a sentar com elas sem tanto alarde. Já não discutimos como antes. Preferimos observar. O tempo vai ensinando que nem toda verdade precisa ser dita na sobremesa.

Há algo que insiste em sobreviver a cada Natal: a vontade de permanecer juntos. Entre risos desajeitados e silêncios antigos, gargalhadas despretensiosas, surgem abraços que dizem mais do que conversas inteiras, lembranças que aquecem como luzes acesas no fim da noite e uma saudade mansa, daquela que não dói, mas avisa que o afeto existe. Por algumas horas, deixamos as diferenças descansarem na cadeira ao lado e percebemos que a união não é ausência de conflitos, é escolha. Escolha de somar e partilhar, de orar de mãos dadas, de brindar mesmo com o copo meio cheio, de abraçar quem se ama. O Natal passa, mas esses gestos ficam, como bilhetes discretos deixados no bolso da memória.

No fim da noite, quando as luzes piscam e o barulho diminui, sobra aquele cansaço bom. O potinho cheio do afeto daquelas que talvez sejam as pessoas mais importantes da vida, o grupo seleto dos seres mais especiais que se juntam para seguirem unidos vivendo esse momento íntimo e fraterno. O Natal não resolve nada, mas lembra. Lembra de onde viemos, do que evitamos, do que ainda tentamos amar.

Para além de todo o significado da celebração do nascimento de Jesus, culturalmente o encontro de Natal é uma grande oportunidade para reconhecer que a convivência pode até ser imperfeita, mas, ainda assim, a gente volta no ano seguinte. Porque no final das contas, as coisas mais valiosas da vida estão ali, reunidas com a gente na celebração do Natal.

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Paula Farsoun

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Paula é uma jovem friburguense, advogada, escritora e apaixonada desde sempre pela arte de escrever e o mundo dos livros. Ama família, flores e café e tem um olhar otimista voltado para o ser humano e suas relações, prerrogativas e experiências.

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