Wanderson Nogueira

Palavreando

Aos sábados, no Caderno Z, o jornalista Wanderson Nogueira explora a sua verve literária na coluna "Palavreando", onde fala de sentimentos e analisa o espírito e o comportamento humano.

24/08/2019

São Francisco já dizia há muito tempo: “Onde houver ódio, que eu leve o amor. Onde houver ofensa, que eu leve o perdão. Onde houver discórdia, que eu leve a união”. A belíssima oração é até canção. Mas muitos cantam sem senti-la, muitos fazem dela sua reza, mas nem ao menos tentam praticá-la. Aí, de nada vale sua beleza. Palavras ao vento. Tampouco se aprende com ela quando apenas a boca profere, mas o ouvido não ouve e o coração não sente.

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17/08/2019

Vivo num tempo de saudades. Saudade de minha mãe, do meu pai, dos amigos mestres, dos amigos irmãos. Tenho saudade de quando era criança, mesmo que tenha sido difícil a minha infância. Talvez seja saudade daquela pureza de quem não sabia propriamente definir mazela. 

Tenho saudade daqueles momentos típicos que entram na biografia. E não imagine que é saudade de grandes vitórias ou acontecimentos. Esses também entram, mas não são necessariamente dos que sinto mais saudade. 

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10/08/2019

Pai, tenho sentido falta da sua voz. Temo por estar quase a esquecendo. Dizem que a voz é um dos primeiros esquecimentos que se tem, quando se perde alguém. Mesmo que tenha se tornado mais difícil a cada ano lembrar com exatidão o timbre, as pausas, a sonoridade quase arrastada, sei que ainda me fala... 

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03/08/2019

Fazer aniversário é ter seu ano novo particular. Celebrar a abertura de um novo ciclo de doze meses, cinquenta e duas semanas, trezentos e tantos dias em milhares de novas horas. Fazer contas para se descobrir o futuro na numerologia ou se entender pela astrologia. Mas compreensão mesmo vem no olhar para dentro de si mesmo. A única receita certeira para se descobrir.

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27/07/2019

Minha rua é extensa e se estende para onde os meus olhos não podem ver. Minha rua não termina onde começa o horizonte, mas por mais que eu me esforce, não consigo alcançar o seu fim. Finita em si mesmo, interminável em minhas suposições particulares.

Cheia de esquinas e becos, cada paralelepípedo seu guarda uma história, conta um segredo, esconde um mistério. E assim devem ser todas as ruas, mesmo aquelas menores e as que sequer têm paralelepípedos.

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20/07/2019

Amizade é frase feita. Amizade é canção. Amizade é o exemplo nos famosos que nos vemos. Amizade é amor que a gente chama pelo nome. Difícil definir amizade... Cada amigo é um, assim como é única a relação que temos com cada um deles. Ainda que seja amor tudo aquilo que chamamos de amizade, cada uma tem a sua particularidade e multiplicidade. Por isso, talvez seja amor tão diverso e que nos complete tanto. Talvez, por tudo isso, seja o amor menos complicado, mas também o de mais complexa descrição.

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13/07/2019

Paz só me serve se for para trazer e manter semblante leve, próprio dos que sorriem com as covinhas do rosto, sem necessariamente ter que exibir os dentes. Paz é leveza. Paz é viver a vida abundantemente. Não de coisas materiais que nos pesam os ombros, enchem os bolsos e deixa vazio o coração. Mas abundância no prazer de caminhar com os braços soltos e a mente disposta a aprendizados. Livre de preconceitos. Aberta à escuta. Talvez paz tenha muita proximidade com liberdade. Talvez paz e liberdade sejam tão próximas que sejam uma só. Não há, de fato, como serem contraditórias.    

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06/07/2019

Zero hora. Até o dia começa do zero. Começar do zero. Como começar do zero se trazemos com a gente uma série de histórias e situações? Dizem que até um bebê que acabou de nascer traz consigo as conversas da barriga, as energias da mãe e do ambiente. Mas é possível começar ou recomeçar do zero. Como qualquer dia começa também. Aliás, como eu gostaria de voltar a ter vinte e tantos anos, desde que na condição de retornar uma década com o que sei hoje. Seria bem mais fácil. Cometeria menos erros. Talvez, outros erros.

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29/06/2019

Eu nasci onde havia de nascer. Onde se nasce, inicia-se a construção da pessoa. Não que isso determine de que material serão esses alicerces. Nem que a essência primária produzirá todo o resto dos dias. Estamos em evolução enquanto ebulição. Mas o lugar que surgimos, por óbvio - seu ambiente e lógica própria - nos permite ou não. Talvez, tenha eu confrontado a realidade imposta a mim para ser quem deveria ser. 

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22/06/2019

Será que cada um de nós tem mesmo uma missão? Um motivo objetivo para estar aqui nesse espaço e tempo determinados? Será que somos mesmo tão importantes?

O prazer da vida é não fazer da vida uma tarefa. Por isso, coleciono dias e desses dias – horas. Algumas são fáceis de colecionar, outras nem tanto. Repetidas? Qual o problema das figurinhas repetidas? Sevem para bafo-bafo ou troca.

Não acredito que exista significado para a morte de alguém. Mas acredito que seja significante a vida desse alguém. Muito mais importante é o que representa a sua existência e não o fim dela.

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