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Dar vez a quem não tem vez, dar voz a quem não tem voz

terça-feira, 30 de março de 2021

É chegada a semana das semanas. Os dias que antecedem a grande solenidade da Páscoa possuem um caráter de grande reflexão e esperança. Celebrar a ressurreição de Jesus é celebrar a vitória da vida sobre a morte. Contemplando os passos da Paixão, somos levados a refletir as dores da humanidade. Olhar o Cristo chagado, escarnecido, humilhado é olhar a condição de muitos irmãos e irmãs relegados a condições subumanas em nossa sociedade.

É chegada a semana das semanas. Os dias que antecedem a grande solenidade da Páscoa possuem um caráter de grande reflexão e esperança. Celebrar a ressurreição de Jesus é celebrar a vitória da vida sobre a morte. Contemplando os passos da Paixão, somos levados a refletir as dores da humanidade. Olhar o Cristo chagado, escarnecido, humilhado é olhar a condição de muitos irmãos e irmãs relegados a condições subumanas em nossa sociedade.

A crise mundial causada pela Covid-19, unida e aguçada pelas chagas da desigualdade social, da devastadora discriminação e do descaso das autoridades com os menos favorecidos, sem dúvida alguma, revela o quanto se faz necessário e urgente pensar e promover, além da cura ao novo coronavírus, a cura ao vírus da injustiça social.

As doenças sociais se agravaram muito neste tempo pandêmico. Todos os dias, somos surpreendidos por inacreditáveis informações que noticiam a corrupção, fruto de corações endurecidos que não veem como sofre o povo. Quantas mortes poderiam ser evitadas com políticas públicas justas e comprometidas com o bem comum?

São histórias estarrecedoras de irmãos nossos que, privados da assistência mínima, veem suas vidas prematuramente ceifadas. Nosso país segue, a cada dia, batendo o recorde do número de mortes causadas pela Covid-19. Isso sem contar aqueles que morrem sem auxílio médico.

A Defensoria Pública do Rio de Janeiro registrou que no período entre abril e junho de 2020, somente em nosso estado, ao menos 730 pessoas morreram à espera de um leito de enfermaria ou UTI. Hoje, de acordo com a Secretaria estadual de Saúde, em todo território fluminense 678 pessoas aguardam uma vaga de terapia intensiva. Número que, apesar de assustador, cresce quando enumeramos a precariedade dos hospitais na falta de insumos básicos.

No início do ano, o Papa Francisco alertou para a instabilidade do tempo presente e advertiu: “Sabemos que as coisas vão melhorar na medida em que, com a ajuda de Deus, trabalharmos juntos para o bem comum, colocando no centro os mais fracos e desfavorecidos” (Angelus, 3 jan. 2021).

O imperativo “estende a tua mão ao pobre” (Eclo 7, 32) ressoa com toda a densidade do seu significado. Precisamos nos responsabilizar no auxílio aos irmãos. Concentrar o nosso olhar no essencial e superar as barreiras da indiferença à dor alheia. Em tempo como este é urgente lançar mão de nossos direitos e deveres cívicos e exigir o mínimo necessário a salvar vidas de tantos irmãos e irmãs.

Façamos o caminho da paixão, consolando nos irmãos o coração de Deus. “Ao longo da via sacra diária, encontramos os rostos de tantos irmãos e irmãs em dificuldade: não passemos adiante, deixemos que o coração seja movido à compaixão e nos aproximemos. No momento, como o Cirineu, poderemos pensar: "Por que logo eu?" Mas depois descobriremos o presente que, sem nosso mérito, nos foi dado” (Papa Francisco, Angelus, 28 mar. 2021).

Lembrando que a pobreza assume sempre rostos diferentes, que exigem atenção a cada condição particular, sejamos nós voz daqueles que foram silenciados pela esmagadora indiferença e injustiça.

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Padre Aurecir Martins de Melo Junior é assessor diocesano da Pastoral da Comunicação. Esta coluna é publicada às terças-feiras.

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Um com todos

terça-feira, 23 de março de 2021

Estamos enfrentando uma das maiores crises da contemporaneidade. Não digo isto em referência apenas à pandemia da Covid-19 e à crise econômica que ela desencadeou. Esta afirmação tende a ser mais abrangente. Todos os dias nos deparamos com situações que revelam o quanto há de maldade em nós e no meio em que estamos inseridos. É muito comum ouvirmos justificativas sobre a atual situação culpabilizando o sistema, a cultura, o governo, a população. A responsabilidade torna-se uma verdadeira “batata-quente”.

Estamos enfrentando uma das maiores crises da contemporaneidade. Não digo isto em referência apenas à pandemia da Covid-19 e à crise econômica que ela desencadeou. Esta afirmação tende a ser mais abrangente. Todos os dias nos deparamos com situações que revelam o quanto há de maldade em nós e no meio em que estamos inseridos. É muito comum ouvirmos justificativas sobre a atual situação culpabilizando o sistema, a cultura, o governo, a população. A responsabilidade torna-se uma verdadeira “batata-quente”.

O ato de transferir a culpa é bastante antigo. No livro do Gênesis, ao ser questionado pelo motivo de ter comido o fruto proibido, Adão transfere a culpa para a mulher, Eva por sua vez para a serpente (cf. Gn 3, 11-13). Contudo, esta dinâmica não muda nada, ao contrário somente tende a agravar ainda mais as divisões e os conflitos.

Não se pode esquecer, em momento algum, de que todo ato humano exercido em sua individualidade tem uma dimensão de abertura para Deus e para o próximo. Disto, concluímos que o pecado tem como consequência a ruptura com Deus e com os irmãos.

Cada indivíduo, no exercício de suas funções, tem a responsabilidade de zelar pelo bem, pela paz e pela vida. Também faz parte de sua missão cuidar para que as estruturas sociais não percam a dimensão da verdade, bondade e comunhão. O papa emérito Bento XVI ao analisar os desvios e o esvaziamento de sentido vividos pela sociedade hodierna, aponta o humanismo integral como única solução. “Só um humanismo aberto ao absoluto pode guiar-nos na promoção e realização de formas de vida social e civil – no âmbito das estruturas, das instituições, da cultura, do ethos – preservando-nos do risco de cairmos prisioneiros das modas do momento” (Caritas in veritate, 78).

O enfrentamento da crise social deve começar pelo questionamento de cada indivíduo sobre sua forma de ação na vivência comunitária. É absurdo o modo como alguns indivíduos, no afã de defender suas ideologias, torcem para que falhem ações que tendem ajudar a outrem. Como também são absurdas as manifestações de alegria quando algo dá errado.

Assim, o Papa Francisco além reforçar a prática do humanismo integral, aponta o diálogo construtivo como ferramenta fundamental para enfrentar os conflitos e divisões. “Entre a indiferença egoísta e o protesto violento, há uma opção sempre possível: o diálogo. O diálogo entre as gerações, o diálogo com o povo, a capacidade de dar e receber, permanecendo abertos à verdade”.

Mais uma vez, cabe a reflexão proposta pela quinta edição da Campanha da Fraternidade Ecumênica, a qual nos convida, pela prática do diálogo fraterno, a construir pontes ao invés de muros de separação. É hora de todos nós assumirmos nosso lugar no enfrentamento da crise atual, exercendo com responsabilidade, diálogo e justiça a missão de ser um com todos.

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Padre Aurecir Martins de Melo Junior é coordenador diocesano da Pastoral da Comunicação. Esta coluna é publicada às terças-feiras.

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Fraternidade e diálogo

terça-feira, 16 de março de 2021

O período quaresmal é um momento de preparação para a grande festa da Páscoa. Durante este tempo a Igreja nos propõe os exercícios espirituais do jejum, esmola e oração. O jejum nos faz experimentar o esvaziamento, a expropriação, a libertação dos bens materiais abrindo nosso coração à fome de Deus e à disponibilidade de saciar a fome dos irmãos. Já a esmola é partilha, misericórdia, cuidado, entrega. O seu exercício é a verdadeira dinâmica do amor divino e nasce do encontro do tesouro escondido (cf. Mt 13, 44-46).

O período quaresmal é um momento de preparação para a grande festa da Páscoa. Durante este tempo a Igreja nos propõe os exercícios espirituais do jejum, esmola e oração. O jejum nos faz experimentar o esvaziamento, a expropriação, a libertação dos bens materiais abrindo nosso coração à fome de Deus e à disponibilidade de saciar a fome dos irmãos. Já a esmola é partilha, misericórdia, cuidado, entrega. O seu exercício é a verdadeira dinâmica do amor divino e nasce do encontro do tesouro escondido (cf. Mt 13, 44-46). A oração é fonte de intimidade entre um coração desapegado do homem e o coração misericordioso de Deus.

A prática destes exercícios nos auxilia no caminho de conversão e mudança de vida, desperta em nós a necessidade de partilha e nos aproxima em fraternidade. Todos os anos, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) nos apresenta a Campanha da Fraternidade como um caminho pessoal, comunitário e social de conversão e culminância das práticas quaresmais.

Num tempo de radicalizações e de polarizações no qual pululam conflitos, violência, racismos, xenofobias e outras práticas de ódio, se faz urgente a reflexão sobre a necessidade de superarmos a diferença e, em diálogo, nos unir na construção e propagação de um mundo mais justo e fraterno.

O tema “Fraternidade e diálogo”, em certa medida, parece ser redundante. Pois é certo que a prática religiosa conduz necessariamente ao diálogo e ao respeito aos irmãos. Infelizmente, para alguns esta certeza ainda não foi alcançada. Podemos, evocando o testemunho da história, enumerar várias situações em que o nome de Deus foi usado em discursos políticos carregados de ódio ou para justificar diversos genocídios. Ou ainda, ao abrir as redes sociais nos deparamos com inúmeros discursos cheios de ódio numa tentativa estéril de defender a fé.

As palavras do Papa Francisco na visita à cidade de Ur, no Iraque, enriquecem nossa reflexão: “os bens do mundo, que fazem muitos esquecer-se de Deus e dos outros, não são o motivo da nossa viagem sobre a terra. Erguemos os olhos ao céu para nos elevarmos das torpezas da vaidade; servimos a Deus, para sair da escravidão do próprio eu, porque Deus nos impele a amar. Esta é a verdadeira religiosidade: adorar a Deus e amar o próximo. No mundo atual, que muitas vezes se esquece do Altíssimo ou oferece uma imagem distorcida d’Ele, os crentes são chamados a testemunhar a sua bondade, mostrar a sua paternidade através da nossa fraternidade.” (6 de março de 2021).

Ao nos entregarmos à prática dos exercícios quaresmais, nos libertamos das paixões terrenas e do nosso próprio egoísmo. Nos tornamos capazes de ouvir o outro e respeitá-lo como um irmão, um igual, que caminha conosco ao encontro do amoroso coração de Deus. Somos chamados a “abrir o coração ao companheiro de estrada sem medos nem desconfianças, e olhar primariamente para o que procuramos: a paz no rosto do único Deus” (Exort. Apost. Evangelii gaudium, n. 244). 

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Padre Aurecir Martins de Melo Junior é coordenador diocesano da Pastoral da Comunicação. Esta coluna é publicada às terças-feiras.

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A você mulher

terça-feira, 09 de março de 2021

Ontem, 8, celebramos o Dia Internacional da Mulher. A data marca as conquistas sociais, políticas e econômicas das mulheres ao longo dos anos. Mas a celebração deste dia não pode perder sua essência de luta por condições mais dignas e igualitárias.

A identidade feminina é marcada pela sua “capacidade para o outro”, isto é, pela intuição profunda de que sua vocação é realizada nas atividades orientadas para o despertar do outro, para o seu crescimento e a sua proteção.

Ontem, 8, celebramos o Dia Internacional da Mulher. A data marca as conquistas sociais, políticas e econômicas das mulheres ao longo dos anos. Mas a celebração deste dia não pode perder sua essência de luta por condições mais dignas e igualitárias.

A identidade feminina é marcada pela sua “capacidade para o outro”, isto é, pela intuição profunda de que sua vocação é realizada nas atividades orientadas para o despertar do outro, para o seu crescimento e a sua proteção.

Doar vida é próprio da personalidade feminina. O que não se restringe somente à capacidade biológica de gerar, pois gerar verdadeiramente vida está além do contentamento de dar vida física.

“Elas possuem uma capacidade única de resistir nas adversidades; de tornar a vida ainda possível, mesmo em situações extremas; de conservar um sentido tenaz do futuro e, por último, recordar com lágrimas o preço de cada vida humana” (Congregação para a Doutrina da Fé, 1 ago. 2004).

Esta capacidade é testemunhada pela história nas inúmeras lutas de mulheres pela preservação da vida e da dignidade humana. Algumas delas se tornaram conhecidas não só por suas ações de defesa pela igualdade, mas também em defesa da vida e dos menos favorecidos. Nomes como Teresa de Calcutá, Dulce, Zilda Arns, Dorothy Stang, Malala Yousafzai e de Maria da Penha são apenas uma centelha do que o poder e a determinação de uma mulher podem fazer no mundo.

O exemplo destas nos faz ver o quanto é preciso reconhecer e valorizar o papel da mulher na edificação de um mundo mais justo e fraterno. Sem dúvida, o lugar da mulher no seio da família já é algo aceito e legitimado por muitas culturas, contudo, se faz urgente perfilar o seu lugar insubstituível em todos os aspectos também da vida social. Isto implica que ela esteja presente no mundo do trabalho e da organização social, que tenha lugares de responsabilidade, onde poderá inspirar políticas concretas e soluções inovadoras para os problemas econômicos e sociais.

O Papa Francisco destacou que “é próprio da mulher tomar a peito a vida. A mulher mostra que o sentido da vida não é continuar a produzir coisas, mas tomar a peito as coisas que existem” (Twitter, 8 de março de 2020). No entanto, a força renovadora da mulher ainda é, por diversas vezes, sufocada pela violência e marginalização. Lamentavelmente no Brasil cresce o número de mulheres assassinadas ou vítimas de violência, são pelo menos cinco por dia, revela estudo (fonte: www.cnnbrasil.com.br, 4 de março de 2021).

Por isso, o Dia Internacional da Mulher, também deve ser marcado pela luta de milhares de outras mulheres que vivem imersas no ciclo de violência e de tantas outras que tiveram suas vidas interrompidas vítimas da violência ocorrida dentro do próprio lar.

Nisto revela-se a fecundidade das palavras de Francisco: “Onde as mulheres são marginalizadas, é um mundo estéril, porque as mulheres não só dão a vida, mas nos transmitem a capacidade de olhar além, de sentir as coisas com o coração mais criativo, mais paciente, mais tenro”. A você mulher nosso reconhecimento e admiração.

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Padre Aurecir Martins de Melo Junior é coordenador diocesano da Pastoral da Comunicação. Esta coluna é publicada às terças-feiras.

 

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Quaresma: Tempo de conversão

terça-feira, 02 de março de 2021

Vivendo a cada ano o tempo da Quaresma, naquela experiência de 40 dias de preparação para a Páscoa-Ressurreição do Senhor, lembramo-nos dos 40 anos das lutas do deserto do povo de Israel rumo à terra prometida e do outro deserto das tentações de Jesus, quando jejuou e venceu todo mal. No primeiro, o povo escolhido buscava a sua libertação plena, tendo que confiar totalmente no Deus que abrira o mar e que o curava e alimentava a cada passo. 

Vivendo a cada ano o tempo da Quaresma, naquela experiência de 40 dias de preparação para a Páscoa-Ressurreição do Senhor, lembramo-nos dos 40 anos das lutas do deserto do povo de Israel rumo à terra prometida e do outro deserto das tentações de Jesus, quando jejuou e venceu todo mal. No primeiro, o povo escolhido buscava a sua libertação plena, tendo que confiar totalmente no Deus que abrira o mar e que o curava e alimentava a cada passo. 

Confiar e caminhar: era o desafio da fé. Não se deixar convencer pelo mais fácil - o desânimo, o desespero, a escolha de outros deuses, ídolos que desviam o fiel de sua entrega, com promessas imediatistas e artificiais de saciedade e prosperidade. Continuar na obediência ao Senhor, arrepender-se das vacilações e pecados, das más escolhas. Retomar a direção da verdadeira terra abençoada - a vontade divina. Aprender a abandonar-se em Deus, sem questionar a infinita sabedoria salvadora. O deserto é sempre uma escola, onde temos a oportunidade de amadurecer a nossa fé, na provação, na perseverança, nas perdas, nas quedas e reerguimentos, entregando-nos à misericórdia do amoroso pastor. Por isso, as palavras fortes deste tempo são: conversão, arrependimento, penitência, purificação, perdão, renovação.

No segundo deserto, Jesus nos ensina a fortaleza, a concentração, a resistência frente às tentações da nossa natureza humana: "...transforma esta pedra em pão!"  (buscar a saciedade e o prazer fora da missão do reino de Deus, priorizando o material); "... atira-te daqui para baixo!" (deixar tudo para a providência divina, agindo com irresponsabilidade ou se omitindo, abandonando a luta e o esforço pelo bem e pela vida); "Tudo isto te darei, se prostrando, me adorares!" (querer o poder, traindo a verdade, deixando-se dominar pela ambição, soberba, vaidade, egoísmo, afastando-se da Igreja serva na humildade e na caridade, a exemplo de Cristo.

Aproveitemos este período propício à nossa renovação espiritual, para, com a graça e a força do mestre, vencermos todas as sombras e fraquezas do nosso coração e nos fortalecermos com a luz da verdade de Deus, vencedores na cruz do Senhor. Façamos a nossa peregrinação quaresmal, como Igreja discípula-missionária, em estado permanente de missão, numa conversão pastoral, lavando nossos pecados na doação de amor, como Cristo, pela Páscoa-libertação de muitos irmãos. 

Padre Luiz Cláudio Azevedo de Mendonça é chanceler da Diocese de Nova Friburgo. Esta coluna é publicada às terças-feiras.

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O castigo da culpa e o alívio da inocência

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Não é fácil lidar com a culpa de nossos erros, ainda mais quando a redenção não pode ser encontrada nos quais esperávamos compaixão. Não estou falando da culpa advinda do crime e das maldades da corrupção. Falo de coisa mais corriqueira: da culpa que nos acompanha quando a consciência nos reprova e traz à tona, pela memória, os momentos onde faltou amor.

Não é fácil lidar com a culpa de nossos erros, ainda mais quando a redenção não pode ser encontrada nos quais esperávamos compaixão. Não estou falando da culpa advinda do crime e das maldades da corrupção. Falo de coisa mais corriqueira: da culpa que nos acompanha quando a consciência nos reprova e traz à tona, pela memória, os momentos onde faltou amor.

O próprio peso da culpa já faz parte do processo de restauração pelo qual precisamos passar se quisermos superá-la rumo à maturidade humana. Temos aqui um princípio muito claro da moral: a consciência como nosso juiz. Ela pode se transformar em um monstro que purga nossas penas de modo positivo, na ordem da libertação. Ou, no pior dos casos, será um pesadelo que só tende a crescer na medida em que não enfrentarmos o monstro. Vou tentar exemplificar através da literatura russa.

O romance de Dostoiéviski, “Os Irmãos Karamazóv”, logo no início traça com muita clareza o temperamento do pai de três filhos bastante diferentes entre si. Fiódor Pávlovitch era um homem entregue aos seus desejos carnais, ganhando dinheiro à custa de heranças alheias. Foi chamado de “um ser parasita”, abjeto aos olhos e ofensivo nas palavras. Apesar da fortuna, era sempre mesquinho em relação aos seus bens e quase nunca teve contato com os filhos. Quando o mais novo, Alexei, puro e casto, aos 20 anos passou a morar e conviver na casa do pai, lugar de orgias e devassidão, tornou-se uma espécie de acusador de seus erros sem nunca ter dito nada. Na mente do pai a culpa levava-o a imaginar que, apesar do silêncio do filho, este não deixava de pensar mal dele.

Primeira conclusão: na consciência do culpado empedernido a culpa é um juiz implacável; é um severo juízo que leva o culpado a um quase verdadeiro inferno de reprovações interiores que ele precisa dar nome. O culpado se acusa sem o perceber, já que a culpa o leva a se defender sem antes ser recriminado. Daí ele passa a interpretar as atitudes daqueles que convivem consigo como suspeitas e cheias de reprovação, e a imaginação flui ao ponto de sabotar o próprio culpado, concluindo que todos estão contra ele por causa de seus erros, mudando o foco da culpa sem sucesso.

Agora, porém, quero fazer notar o posicionamento de Alexei diante do pai devasso que encontrou perto de si a compaixão. Alexei silencia e não quer ser juiz de ninguém, apesar de ficar triste com os erros dos outros, não demonstra nenhuma atitude de desprezo. Com isso, o pai, que antes o acolheu e o interpretou mal, torna-se amável com o filho e passa a chorar em seus braços, desenvolvendo um amor sincero que até então nunca havia sentido por ninguém.

Segundo ensinamento: o castigo da culpa pode ser aliviado pelo amor da inocência. Ao alimentar somente o amor em seu coração, sem querer ser juiz de ninguém, mesmo sabendo o que estava errado, Alexei atrai os pecadores, os quais passam a despertar o melhor que ainda possuem em seu coração. Há pessoas assim, capazes de fazer surgir o melhor que há em nós, sem concordar com nossos erros, mas tão pouco desprezar-nos por causa deles.

Enfim, o verdadeiro puro de coração, antes de ser juiz dos outros, o é de si mesmo e não fica buscando erros alheios para aliviar a culpa dos seus. Antes, sabe se perdoar e, deste modo, perdoa aos outros sem permitir distanciamento ou frieza. E isso acontece de modo espontâneo. É fato: quando a santidade de vida cresce em nós, paramos de enxergar os defeitos dos outros como juízes implacáveis, pois já não os possuímos. Diante desta reflexão, desejo a todos que este tempo quaresmal seja um fecundo período de sincera conversão e vivência profunda do amor.

 

Padre Celso Henrique Diniz é vigário paroquial da Catedral São João Batista. Esta coluna é publicada às terças-feiras.

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Quaresma: nossa faxina anual e a Campanha da Fraternidade

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

A Quaresma é tempo de graça, revisão de vida e conversão que a Igreja anualmente nos oferece. Anselm Grün define a Quaresma como uma “faxina anual do corpo e da alma”. Trata-se, segundo ele, “de purificação, de uma limpeza geral da nossa casa, pensando em tudo o que podemos doar ou jogar fora”. Na faxina, além de se desfazer de tudo aquilo que nos atrapalha, temos a oportunidade de encontrar e reencontrar fatos e lembranças importantes que fizeram parte de nossa vida e ficaram esquecidas no tempo.

A Quaresma é tempo de graça, revisão de vida e conversão que a Igreja anualmente nos oferece. Anselm Grün define a Quaresma como uma “faxina anual do corpo e da alma”. Trata-se, segundo ele, “de purificação, de uma limpeza geral da nossa casa, pensando em tudo o que podemos doar ou jogar fora”. Na faxina, além de se desfazer de tudo aquilo que nos atrapalha, temos a oportunidade de encontrar e reencontrar fatos e lembranças importantes que fizeram parte de nossa vida e ficaram esquecidas no tempo.

A Quaresma é um retiro que nos introduz nessa corajosa aventura de entrarmos em contato com nós mesmos, avaliando como está a nossa relação com Deus, com o próximo, com as coisas e bens. É um itinerário que permite reconhecer e acolher com sinceridade os próprios limites e pedir a Deus a força para superá-los de modo gradativo e constante. O convite para a faxina geral é uma ocasião para reorganizar a nossa casa, transformando-a num ambiente saudável, acolhedor, de contentamento e realização pessoal. Trata-se de renascer para uma vida nova, mais leve e simplificada.

Ambiente “limpo” é ambiente saudável. Saúde interior, espiritual e moral é também saúde física! Penso que esta casa seja a nossa vida interior, que define o nosso modo de ser e agir, e precisa de revisão anual, mensal, semanal e diária. Esta é a proposta de Cristo: entrar com ele no deserto, enfrentar as tentações e renascer para uma vida nova.

No Brasil, há décadas, o percurso quaresmal da Igreja Católica é acompanhado por um tema que favorece a reflexão e a conversão, proposto pela Campanha da Fraternidade. Como o próprio nome diz, trata-se de algo que favoreça a fraternidade entre os seres humanos, tendo consciência de que tudo o que fazemos por amor a Cristo e com amor, favorece e promove a vida do semelhante. Resgatar o conceito de fraternidade é um imperativo, sobretudo numa realidade marcada pela “tentação” da divisão, intolerância, desrespeito, individualismo e indiferença. Fraternidade significa viver como irmãos e irmãs, buscando a unidade na diversidade.

Hoje, mais do que antes, diante de tantas tensões e agressões, precisamos resgatar o conceito de fraternidade. Afinal, “somos todos irmãos” (Papa Francisco). Por essa razão, a Quaresma nos propõe três práticas: esmola, oração e jejum. Esmola ou caridade, diz respeito à relação com o próximo: família, colegas de trabalho, amigos, inimigos, os que pensam de modo diferente de nós, os pobres, vulneráveis e necessitados.

Já a oração acentua a importância de se ter uma constante e saudável relação com Deus, Senhor de nossa vida e de nossa história. O jejum procura melhorar a relação consigo mesmo, por meio de uma vida pautada pelo equilíbrio e temperança, sem excessos. Trata-se de um tripé que, quando bem vivenciado, oferece as condições para que sejamos melhores e cheguemos à festa da Páscoa com um coração renovado, mais humano e fraterno. É o que chamamos de conversão, mudança no modo de pensar, agir e ser.

Neste ano, a Campanha da Fraternidade será ecumênica, com o tema “Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor”, e o lema “Cristo é a nossa paz: do que era dividido fez uma unidade”. O objetivo geral é “um convite às comunidades de fé e pessoas de boa vontade a pensarem, avaliarem e identificarem caminhos para superar as polarizações e violências através do diálogo amoroso, testemunhando a unidade na diversidade”.

Desejo a todos e todas um profícuo tempo de faxina quaresmal e desejo sincero de conversão, com respeito e vivência concreta do tema da Campanha da Fraternidade Ecumênica: “Cristo é a nossa Paz”. Para que a Quaresma seja um tempo de graça (kairótico) é necessário que seja também um tempo kenótico (esvaziamento) de tudo o que prejudica o diálogo e a unidade. Com minha benção e gratidão, unidos no amor de Cristo,

Dom Luiz Antonio Lopes Ricci é bispo diocesano de Nova Friburgo. 

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A sinceridade do coração

terça-feira, 09 de fevereiro de 2021

A liturgia do último domingo, 7, nos apresentou a figura de Jó. O homem justo e piedoso que foi acometido por grandes perdas e é conhecido em nossos ditos populares como uma pessoa paciente. Quem nunca usou ou ouvir alguém usar a expressão “paciência de Jó” ao enfrentar as provações da vida?

A liturgia do último domingo, 7, nos apresentou a figura de Jó. O homem justo e piedoso que foi acometido por grandes perdas e é conhecido em nossos ditos populares como uma pessoa paciente. Quem nunca usou ou ouvir alguém usar a expressão “paciência de Jó” ao enfrentar as provações da vida?

Contudo, as palavras destacadas pela liturgia dominical nos apresentam um homem angustiado e desesperado diante a tanta dor que recai sobre a sua vida: “Como um escravo suspira pela sombra, como um assalariado aguarda sua paga, assim tive por ganho meses de decepção, e couberam-me noites de sofrimento” (Jó 7, 2-3).

Parece uma contradição. Palavras como estas proferidas por quem é conhecido por suportar com resignação os maiores sofrimentos, injúrias e injustiças. Mas não o é!

A angústia de Jó é também a minha, a sua e de toda a humanidade. Ouvimos pela boca do profeta Jeremias que Deus tem um projeto de felicidade para nós (cf. Jr 29,11). Por isso, quando nos deparamos com a limitação, com a dor e com a finitude, é natural que nosso coração se angustie e busque respostas.

Em seu olhar atento e misericordioso, Deus não escuta as palavras proferidas por Jó como uma blasfêmia, mas como fruto da transparência de um coração que confia. A sinceridade expressada nestas circunstâncias são o modelo mais perfeito de oração, pois nela se revela a consciência sobre a própria vida e a reflexão sobre sua condição.

O catecismo da Igreja Católica, repetindo o ensinamento de Santa Teresa do Menino Jesus, afirma que “a oração é um impulso do coração, é um simples olhar lançado ao céu, um grito de reconhecimento e amor no meio da provação ou no meio da alegria” (§ 2558).

Assim, as palavras de Jó são uma perfeita oração que deve ser almejada por toda a humanidade. Modelo de uma alma que se abre totalmente a Deus como um amigo, com quem não se tem segredos.

Infelizmente, ao longo dos séculos fomos preenchendo com formalismos, ressalvas e proibições nossa relação com Deus. Transformamos nossa oração em escolhas polidas de palavras, nos esquecendo que ele é capaz de enxergar nossos corações e conhecer o que está no mais íntimo de nós, conhecendo a nós mais que nós mesmos.

Poderíamos então pensar: qual o sentido da oração? Por que haveríamos então de pedir se Deus conhece o que precisamos? Porque a oração é expressão máxima de humildade e reconhecimento do poder de Deus que tudo pode realizar em nosso favor. “A atitude de pedir deve ser tomada sobretudo por nossa causa, pois quem não pede e não quer pedir fecha-se em si mesmo” (YouCat, 486).

Enfim, a oração é, ao mesmo tempo, fruto do conhecimento de si mesmo manifestado na sinceridade e transbordamento do coração a Deus, em quem confia e se entrega. É como nos disse o Papa Francisco: “A consciência de que nas dificuldades podemos sempre dirigir-nos ao Senhor, e de que Ele jamais refuta nossas invocações, é um grande motivo de alegria” (Angelus, 16 dez. 2020).

Por isso, não podemos negar a nossa dor, ela é, na verdade, a fonte e o alimento de nossa relação com aquele que nos criou para o bem e a felicidade. E assim podemos alcançar a resposta de Deus à nossa angústia, não por palavras, mas por sua constante presença.

 

Padre Aurecir Martins de Melo Junior é coordenador diocesano da Pastoral da Comunicação. Esta coluna é publicada às terças-feiras.

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A perfeição cristã existe

terça-feira, 02 de fevereiro de 2021

Uma das mentiras contadas atualmente para nos fazer esquecer que a santidade é possível em seu estado perfeito na vida dos cristãos é essa: "esse é meu jeito, você precisa aceitar". Já refletiu sobre essa fala? Na boca de quem diz, demonstra soberba, desinteresse pela mudança, desprezo do amor e certeza de que não há o que melhorar. Aos ouvidos, soa como se fôssemos obrigados a aceitar qualquer tipo de mudanças para o melhor de nós mesmos.

Uma das mentiras contadas atualmente para nos fazer esquecer que a santidade é possível em seu estado perfeito na vida dos cristãos é essa: "esse é meu jeito, você precisa aceitar". Já refletiu sobre essa fala? Na boca de quem diz, demonstra soberba, desinteresse pela mudança, desprezo do amor e certeza de que não há o que melhorar. Aos ouvidos, soa como se fôssemos obrigados a aceitar qualquer tipo de mudanças para o melhor de nós mesmos.

Ao contrário, a vida dos santos sempre demonstrou que no início da conversão deve haver um desejo irrefreável de transformação de si mesmo, o qual é o despertar de uma nova forma de ver a meta da vida: ela foi feita para a união íntima com aquele que nos amou primeiro. E essa união é capaz de mudar tudo, pois é amor, entrega e reciprocidade. Aquele que limita sua vida ao seu “jeito de ser” não permite que o outro se introduza em sua história. É o fechamento para tudo que humaniza, pois um coração humano não foi criado para estar sozinho, ele precisa da presença do outro.

Mais uma mentira que impede de vermos a vida como um crescimento no amor e, por isso, uma mudança constante do jeito de ser, é permitir que os erros passados e a dificuldade de desapego dos mesmos se tornem um peso de culpa tão grande que impeça o olhar para a misericórdia divina, a qual é a verdade sobre nós mesmos mais que nossos tropeços.

Desfeitas as mentiras, é preciso ter uma boa disposição para a mudança. O primeiríssimo passo é a confissão dos pecados, meio ordinário para o estado de graça, de amizade com o Senhor, que garante valor para os esforços não serem em vão. O início da vida espiritual é a humilde confissão de nossas faltas graves, a luta para não voltarmos a elas e à firme resolução de desapego das coisas mundanas.

Já fez isso? Se não fez, lembre-se da brevidade da vida, da morte eterna no inferno, que são, pelo menos, meios imperfeitos para entrar no caminho da perfeição. Caso haja muito amor a Deus em você, esses passos podem ser adiantados. Geralmente, não havendo tal amor, alimente o desejo de agradar a Deus o quanto puder, que isso ajudará no desapego de tudo que possa atrapalhar.

No mais, é preciso muita força de vontade e lembrar que, hoje em dia, nem mesmo a ideia de um sofrimento eterno no inferno está causando medo nas pessoas. Quando sentem a necessidade de mudança, é porque tudo está dando errado na vida ou porque descobriram seus pecados mais escondidos, o que sugere falta de fé em Deus, que tudo vê. E já sabemos que sem fé é impossível agradar a Deus. A pessoa de fé, diante de uma decisão, se coloca, antes de tudo, perante a onisciência de Deus, pois teme o Senhor e deseja agrada-lo antes que aos homens.

Aliás, a virtude da fé não pode faltar no início da busca de perfeição, pois justamente ela nos faz enxergar a união com Deus como a verdadeira e única meta da vida. E quem começa uma jornada precisa saber para onde está indo. A fé não é escuridão, mas visão, ainda que imperfeita, do sentido da existência. Para saber se você a tem, pergunte-se: minhas mudanças têm origem em que experiência na vida? Se tudo o que te faz crer em Deus parte de situações mais ou menos desastrosas, é preciso amadurecer a fé por uma experiência íntima com o amor de Deus em Jesus Cristo.

Antes de terminar a reflexão, é preciso esclarecer que perfeição aqui não se trata de impecabilidade, ser politicamente correto, nunca se exaltar (isso é apatia) ou entrar numa forma que despreza a personalidade. Não! Ser perfeito cristão é buscar amar a Deus de todo o coração e não calcular a entrega da vida aos apelos do amor. Claro que é preciso romper com o pecado, todos sabemos (ou deveríamos saber). Mas, diante das diversas misérias humanas, o que prevalece é o amor que vai transformando.

Enfim, na oração, que nunca pode faltar na forma discursiva e apelante na vida dos iniciantes (via de regra, a maioria de nós está no início), peça a Jesus com insistência e esperança, o dom da verdadeira fé através de uma experiência de profundo perdão e amor. Quando tal experiência acontecer, o céu se abrirá, a graça chegará e os passos certos serão dados, pois a meta não será mais obscura. Coragem!

Padre Celso Henrique Diniz é vigário paroquial da Catedral São João Batista. Esta coluna é publicada às terças-feiras.

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“Eu vim pra que todos tenham vida” (Jo 10, 10)

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Há quase um ano, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarava que o surto causado pelo vírus SARS-CoV-2, popularmente conhecido como novo coronavírus, identificado numa província da República Popular da China, havia adquirido proporção mundial. Desde então, somos testemunhas de todos os esforços para combater a doença que se alastrava por todo o globo terrestre. Todas as atenções e preocupações voltavam-se à batalha de preservação da vida e aos colapsos sociais agravados pela pandemia.

Há quase um ano, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarava que o surto causado pelo vírus SARS-CoV-2, popularmente conhecido como novo coronavírus, identificado numa província da República Popular da China, havia adquirido proporção mundial. Desde então, somos testemunhas de todos os esforços para combater a doença que se alastrava por todo o globo terrestre. Todas as atenções e preocupações voltavam-se à batalha de preservação da vida e aos colapsos sociais agravados pela pandemia.

Tornou-se evidente que estamos imersos numa rede viciosa de interesses na qual valores como a dignidade humana, o bem comum e a preservação da vida estão sendo, cotidianamente, massacrados pela corrupção e pelo descaso. Já no início da pandemia, o Papa Francisco denunciava as ações que poderiam agravar ainda mais a situação, advertindo que deveriam ser enfrentadas com o mesmo vigor com que se propunha enfrentar o novo coronavírus.

“A tempestade desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos os nossos programas, os nossos projetos, os nossos hábitos e prioridades. Mostra-nos como deixamos adormecido e abandonado aquilo que nutre, sustenta e dá força à nossa vida e à nossa comunidade” (Mensagem Urbi et Orbi, 27 mar. 2020).

O pontífice tem insistido que a crise mundial deve ser encarada com os anticorpos da fé, esperança e caridade. Somos chamados a exercer nosso protagonismo na luta. Apesar de todos os esforços da comunidade científica em se mobilizar no desenvolvimento da vacina, a grande massa parece não se importar com a crise e os perigos enfrentados pela humanidade.

É isso mesmo, não se pode apontar apenas um culpado para o agravamento da doença e para as incomensuráveis perdas causadas pelo vírus. De certo que cada qual deve ser responsabilizado no que diz respeito à sua função na organização da sociedade. Sem dúvidas, o discurso negacionista levou muitos a desacreditar da gravidade da doença. Entretanto, até mesmo entre os que são conscientes da seriedade da situação atual, movidos pela falta de constância, se vê atitudes irresponsáveis.

O texto bíblico do livro do Gênesis revela que uma das consequências do pecado é o isentar-se da responsabilidade. “A mulher que pusestes ao meu lado apresentou-me deste fruto, e eu comi... A serpente enganou-me – respondeu ela – e eu comi” (Gn 3, 12.13). É hora de deixar de apontar culpados e assumir nossa responsabilidade nesta luta. Tenho falado insistentemente que os pequenos atos podem salvar inúmeras vidas. A prevenção sempre será mais eficaz que o tratamento.

Retomemos, portanto, como aponta Francisco, aquilo que sustenta, nutre e dá vida à nossa comunidade. Na caridade fraterna cuidemos daqueles que nos foram confiados para que em breve possamos juntos celebrar a vitória da vida sobre a morte.

Foto da galeria

Padre Aurecir Martins de Melo Junior é coordenador diocesano da Pastoral da Comunicação. Esta coluna é publicada às quartas-feiras. 

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