O desfile do bicentenário de Nova Friburgo

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 17 de maio de 2018
Foto de capa
A linha férrea foi um investimento do Barão de Nova Friburgo

Ontem, 16, foi dia de festa. O desfile do bicentenário foi roteirizado pelo jornalista e teatrólogo David Massena, dividido em cinco atos. Instituições, associações, estabelecimentos de ensino e grupos artísticos representaram os principais acontecimentos a cada período de 50 anos, nos dois séculos da história de Nova Friburgo.

O primeiro ato, “Gêneses, todos os povos num só”, iniciou no ano de 1800 e terminou em 1850. O que aconteceu nas cinco primeiras décadas de nossa história? Essa região era denominada de Sertões do Macacu habitada apenas por indígenas nômades das tribos Coroados, Puris, Coropós e Xopotós. O primeiro distrito que surgiu nessa região foi o de Cantagalo, em 1814, em razão da ocupação clandestina dos três irmãos Henriques, liderados por um deles, conhecido por Mão de Luva, para explorar o ouro de aluvião nos rios da localidade.

O bando foi preso e a Coroa Portuguesa promoveu a ocupação da região distribuindo terras gratuitamente a indivíduos de Minas Gerais e portugueses vindos dos Açores e da Ilha da Madeira. Os índios foram paulatinamente expulsos ou dizimados pelos fazendeiros que se instalaram em Cantagalo. Em janeiro de 1820, parte de Cantagalo foi desmembrada para dar origem a Vila Nova Friburgo, que surgiu para abrigar o núcleo de colonos suíços. Esses imigrantes vieram de uma situação de extrema miséria devido a uma crise econômica em seu país.

A vila de Nova Friburgo se desenvolveu graças ao plantio do café em Cantagalo, um dos maiores produtores dessa cultura que gerou uma nobreza local. O mais importante deles foi o Barão de Nova Friburgo, que fez fortuna não somente plantando café, mas igualmente comercializando esse produto e traficando escravos, trazendo muitos cativos em navios de sua propriedade do continente africano para o Brasil.

A passagem por Nova Friburgo de tropas de mulas transportando o café fez desenvolver o seu comércio e muitos fazendeiros da região fizeram investimentos na vila serrana. Por se acreditar à época que o clima frio das montanhas auxiliava no processo de aprendizado, atraindo os melhores educadores, muitos deles estrangeiros, a exemplo do alemão Barão de Tautpheus e o inglês John Freeze. Após esses, vieram  outros, como os jesuítas do Colégio Anchieta, o Colégio Nossa Senhora das Dores, o Colégio Modelo, o Colégio Nova Friburgo e o município recebeu continuamente estudantes de todas as partes do país.

No segundo ato, “Belle Époque, estação de trem, estação das flores”, entre os anos de 1850 a 1900, Cantagalo foi considerado um dos maiores produtores de café do Brasil, principal item de exportação durante o Império e a República Velha. A agricultura representou a atividade econômica mais importante de Nova Friburgo com a produção de café, batata e milho. A maioria dos escravos se concentrou em duas freguesias cafeeiras, Paquequer e São José do Ribeirão. O clima salubre de Nova Friburgo atraía muitos doentes tuberculosos e igualmente cariocas que fugiam das epidemias de febre amarela e canícula do Rio de Janeiro.

Os cariocas permaneceram tanto tempo na cidade que para driblar a monotonia promoviam soirées e representações teatrais. A vida cultural era tão intensa que passamos a denominar esse período como a Belle Époque, ou seja, uma época maravilhosa. O trem sobe a serra e chega a Nova Friburgo. A linha férrea foi um investimento do Barão de Nova Friburgo para transportar o café de suas fazendas em Cantagalo, pois o transporte por meio de mulas nos caminhos estreitos da Serra da Boa Vista lhe causou muitos prejuízos.

No terceiro ato, que representou o período de 1900 a 1950, denominado “O cisne iluminado, tempos modernos”, chegamos no novo século, o século 20. A vinda de novos imigrantes como portugueses, italianos e árabes libaneses impulsionou o comércio. A partir de 1911, Nova Friburgo entrou na era industrial com a implantação de indústrias têxteis por imigrantes alemães, mudando o curso de sua história. Com a instalação dessas indústrias gradativamente a população migrou dos distritos agrícolas para trabalhar nas fábricas no centro da cidade.

Os municípios do Centro-Norte fluminense em razão de uma crise relacionada ao cultivo do café mudaram sua economia para a pecuária que exigia pouca mão de obra. Seus habitantes se deslocaram para Nova Friburgo que proporcionava cada vez mais empregos nas indústrias. Além das fábricas têxteis, as metalúrgicas iniciaram atividades, igualmente por parte de imigrantes alemães.

O quarto ato, de 1950 a 2000, “Friburgo inventando moda, o clímax cultural”. Até a década de 1990, as fábricas eram os maiores empregadores. No entanto, uma crise financeira dessas indústrias levou a sua falência ou redução da atividade de todas elas. Muitos desempregados do setor têxtil, aproveitando o treinamento que tiveram nas fábricas, abrem suas próprias empresas de confecção de peças íntimas. Foram tantas pequenas empresas, que o município passou a ser conhecido como a capital da moda íntima.

No quinto ato, “O fim que inspira novos começos”, que vai do ano 2000 aos dias atuais, desfilaram os alunos da rede municipal. Afinal, são as crianças que darão continuidade à história de Nova Friburgo.

  • Foto da galeria

    Nova Friburgo entra na Era Industrial com indústrias têxteis de imigrantes alemães

  • Foto da galeria

    Índios Puris em Cantagalo. Rugendas.

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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