Nova Friburgo, a Suíça Brasileira

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 06 de maio de 2021

Na coluna de hoje faço uso de uma narrativa escrita por Adolpho Hartmann, aluno de engenharia da Escola Politécnica do Rio de Janeiro e publicada no periódico Brazil Illustado no ano de 1887. Fiz uma adaptação do texto sem prejudicar a sua estrutura em razão de sua extensão e foquei no assunto que nos interessa nesta ocasião. O texto escrito por Hartmann é apenas um exemplo, entre muitos outros que tenho pesquisado, para analisar o tipo de representação, ou seja, a imagem que os cariocas tinham sobre Nova Friburgo no século 19.

A Suíça tem uma história de tradição no turismo da saúde em razão de seu clima favorecer a cura de diversos tipos de enfermidades. Como no século 19 o clima salubre de Nova Friburgo era muito procurado pelos tuberculosos para se tratarem, tudo indica que foi feita uma associação do município serrano com a Suíça por serem ambas estâncias de cura. Consequentemente a mídia apresentava Nova Friburgo como a Suíça brasileira.

A narrativa de Hartmann corrobora com a minha tese pois ele se refere ao clima deste município como recomendado aos doentes, onde se respira ar puro e saudável e onde os pulmões ficam arejados por um oxigênio tonificante. Vamos ao texto. “Éramos um grupo alegre de estudantes da Escola Politécnica em férias. Íamos em exercícios práticos percorrer a estrada de Ferro Cantagalo e buscar um abrigo contra a temperatura candente do alto forno da corte.

Às cinco horas de uma manhã de janeiro tomamos a barca que singrava nas águas tranquilas da Guanabara. Ao longe já se avistava os contornos da Serra dos Órgãos. Saltamos em Sant´Anna de Maruí e seguimos de trem. A princípio a vegetação raquítica e enfezada arrastava-se por uma zona estéril e alagadiça. A planície era coberta de pantanais medonhos. Avistavam-se decadentes povoados e velhas fazendolas na solidão daquelas paragens desertas.

Chegamos a Cachoeiras de Macacu na raiz da serra. O trem seguia o vale do rio Macacu até o alto da serra. Enquanto o monstro de aço contorcia-se soltando gemidos estridentes ao cavalgar, contemplávamos absortos e pensativos a paisagem esplêndida, feérica, cintilante e grandiosa onde avulta a floresta densa das árvores gigantescas. Ouvíamos o sussurro longo e monótono das cataratas, cujos ecos casavam-se ao ruído áspero da locomotiva num dueto estranho.

O trem descia através do vale do rio Santo Antônio até Nova Friburgo. Desde a sua fundação a atraente ex-colônia suíça, que no futuro será a nossa mais célebre cidade de banhos [referência às duchas do Instituto Sanitário] era recomendada sempre por seu clima temperado e pelas suas águas cristalinas. Junte-se a tão propícias condições higiênicas um estabelecimento hidroterápico de primeira ordem, razão porque no caso de certas moléstias os enfermos e convalescentes preferiam ir respirar temporariamente os ares puros e saudáveis de Friburgo.

Da inspeção minuciosa às notas tomadas pelo sr. Carlos Engert, de julho de 1882 a dezembro de 1886, deduzimos uma média climatológica favorável à salubridade desse canto de província privilegiado. Sob o ponto de vista arquitetônico a vila era singela. Existia também uma praça ajardinada e uma outra famosa junto à encosta de um morro; é a pitoresca Fonte dos Suspiros, apelido romanesco, o rendez-vous vespertino em que se reunia a high-life friburguense.

Em nossa estada adventícia em Friburgo, que noites deliciosas. O nosso ponto de encontro era o Hotel Leuenroth. O amplo salão de visitas do hotel transformado para as soirées dadas em nossa honra tinha um aspecto deslumbrante. Havia uma concorrência limitada e seleta de moças que davam àquelas reuniões familiares o tom íntimo de um idílio feérico. Ao som do piano os pares voavam arrastados vertiginosamente pela cadência da música.

As curvas moles dos seios virginais arfavam ao cansaço das danças enquanto lá fora a brisa ventarolava as ramas dos arbustos. Ilusões da mocidade! Tais são as reminiscências confusas e fugazes das noites passadas em Friburgo! Ah se todos os moradores da corte se quisessem compenetrar na utilidade de ir atravessar a fase mais quente do verão em Nova Friburgo. Sim leitores, ide passar o vosso tédio acolá, no alto daquelas montanhas azuladas. Verei como um grupo de gentlemen e senhoras da melhor sociedade esforçar-se-á por vos fazer esquecer um pouco da vossa vida pacatamente burguesa, com uma amabilidade e um espírito verdadeiramente adoráveis. Voltareis de lá alegres, com o coração talvez ferido por alguma louca saudade; mas com os pulmões arejados por um oxigênio tonificante e puro.”

Logo, entendo que a representação de Suíça brasileira não advém do fato de Nova Friburgo ter sido uma colônia de suíços, mas sim, pela associação com a Suíça por serem ambas estâncias de cura.

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    Friburgo na mídia como a Suíça brasileira

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    O clima de Friburgo associado a Suíça

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    Friburgo na mídia como a Suíça brasileira

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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