As cores de Nova Friburgo

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 08 de abril de 2021

Na coluna de hoje faço um pequeno resumo sobre as características dos povos formadores de Nova Friburgo. Antes mesmo que os suíços se instalassem na colônia de Nova Friburgo havia na região fazendeiros originários de Minas Gerais e colonos portugueses dos Açores e da Ilha da Madeira. Merece destaque Antônio José Mendes, nascido em 1822, natural dos Açores, que se estabeleceu nas Terras Frias atual distrito do Campo do Coelho.

A família Mendes foi proprietária da histórica Fazenda Rio Grande. Além de lavradores organizaram um espaço para comercialização das roças dos pequenos e médios agricultores no Campo do Coelho, conhecido como Barracão dos Mendes. O Ceasa é fruto deste mercado abastecendo o Rio de Janeiro com produtos de Nova Friburgo, Teresópolis e Sumidouro. São inúmeras as famílias descendentes de colonos suíços em Nova Friburgo. Tornaram-se pequenos produtores rurais e hoje estão concentrados em Lumiar, São Pedro da Serra e Amparo, todos distritos agrícolas.

Os Mozer mantêm a tradição da elaboração da broa de milho com legumes crus que foi considerado como patrimônio histórico material pela Câmara de Vereadores. Com relação a comunidade alemã geralmente se confunde a história dos que vieram em 1824 para Nova Friburgo como colonos com os empresários imigrantes que instalaram indústrias a partir de 1911 no município. Os alemães além da atividade econômica deixaram uma importante contribuição, a prática do montanhismo. Criado em 1935, o Centro Excursionista Friburguense promovia excursões, longas caminhadas e escaladas. O centro existe até hoje e foi considerado pelo governo do estado como patrimônio cultural imaterial.

O médico napolitano Carlos Eboli, além de ter influenciado na vinda do Colégio Anchieta para Nova Friburgo estabeleceu em 1872 o Instituto Sanitário Hidroterápico cujo complexo nos dias de hoje é o Colégio N.S. das Dores. Imigrou também para Nova Friburgo no final do século 19 a família italiana Martignoni. Elviro Martignoni pintou afrescos e quadros nas residências dos barões de Nova Friburgo. No Palácio Nova Friburgo, hoje Museu da República, executou afrescos na sala de banquete.

Já os Spinelli se destacaram na construção civil na edificação do palacete do Barão de Duas Barras. Trouxeram para Friburgo na década de 1950 o primeiro avião monomotor para transporte de passageiros. O campo de pouso situava-se ao lado onde hoje se localiza o Batalhão da Polícia Militar. Investiram igualmente na pecuária e produziam o vinho granjinelli.  Foi em Duas Pedras que inúmeros imigrantes italianos escolheram para residir ou instalar os seus negócios.

Os espanhóis exerceram atividades de oleiros, ceramistas e hoteleiros. A edificação do Anchieta deve muito ao imigrante espanhol Francisco Vidal Gomes, natural de Pontevedra, na Espanha. As escadas em peroba, de puro encaixe, não tendo levado um só prego feitas no colégio são um exemplo de sua genialidade. Executou a obra gratuitamente e na sala do reitor existe uma pintura de Francisco Vidal em sua memória.

Como os libaneses ao imigrarem para o Brasil viviam sob o domínio turco-otomano a população os chamava de turcos. Por herança atávica se dedicaram ao comércio abrindo armarinhos, alguns trabalhando antes como mascates. Quase metade do comércio da Rua Alberto Braune era de libaneses. Os japoneses deram imensa contribuição à lavoura nos distritos agrícolas de Nova Friburgo. Outrora a lavoura de legumes era rasteira ficando vulneráveis às pragas. Os japoneses ensinaram os agricultores a usarem estacas verticalizando a planta e ganharam em produtividade. Igualmente instruíram na preparação de estufas revolucionando o modo de plantio.

Toda esta imigração de europeus e asiáticos acabou atraindo um pequeno grupo de húngaros e austríacos para Nova Friburgo que se dedicaram a hotelaria e fazem questão de trazer sempre a memória de seus antepassados. O município tem igualmente matriz africana. Imigrantes forçados chegaram a Nova Friburgo como escravizados. O município foi criado para abrigar uma colônia de trabalhadores livres, uma experiência pioneira no Brasil.

No entanto, Friburgo tinha em duas de suas freguesias São José do Ribeirão e N.S. da Conceição do Paquequer significativo plantel de escravizados. Nos dias de hoje só não possui uma população maior de afrodescendentes porque as regiões com maior concentração de escravos foram desanexadas do município. Cerca de 3,8 milhões de imigrantes europeus entraram no Brasil entre os anos de 1887 e 1930. Os italianos formavam o grupo mais numeroso, vindo a seguir os portugueses e depois os espanhóis.

Nova Friburgo tem tradicionalmente um perfil hospitaleiro em razão de ter sido escolhido por veranistas e pelos que buscavam a cura de doenças. Com os imigrantes percebemos que foi igualmente acolhedora. Todos os anos na celebração do aniversário da cidade os descendentes destes imigrantes trazem a memória e as cores de Nova Friburgo.  

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    As cores de Nova Friburgo. Acervo AVS

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    Friburgo, uma cidade acolhedora.

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    Homenagem da Câmara às colônias. Acervo AVS

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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