Dos barões do café aos reis do gado

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 13 de maio de 2021

A partir o terceiro quartel do século 19, os produtores rurais da Região Serrana fluminense foram substituindo progressivamente o café pelo gado em seus tratos de terra. Igualmente começaram a se preocupar com a seleção das raças, na escolha de matrizes, na formação de pastagens com gramíneas nutritivas, com o registro de linhagens objetivando o aprimoramento genético e com a vacinação periódica. As raças existentes no Brasil como a caracu, a mocha, a curraleira e a crioula eram basicamente as mesmas que os portugueses haviam trazido para o Brasil-Colônia.

Foi somente com a introdução do Zebu, raça bovina originária da Índia nas variedades Guzerá e Nelore, que o rebanho nacional se transformou ganhando qualidade. O Zebu era um gado extremamente fecundo e precoce em seu desenvolvimento, de grande rusticidade, prosperava em qualquer pastagem, resistia facilmente as epizootias e era quase refratário a tuberculose, o que não acontecia com o gado europeu. Produzia um leite muito gordo. Enquanto se empregavam 22 litros de leite de vacas europeias na fabricação de um quilo de manteiga, bastavam para idêntica produção 17 litros de vacas zebuínas.

Em 1870, Elias Antônio de Moraes, o segundo Barão das Duas Barras tomou a iniciativa de importar reprodutores zebus. Os primeiros lotes foram exemplares da raça Guzerá criados na Fazenda Ribeirão Dourado, em Macuco, que logo se expandiu para outras propriedades da região. O mesmo ocorreu com Manoel Ubelhard Lemgruber em 1878, que comprou raças Ongole, da Índia. Foi na Fazenda Santo Antônio de Sapucaia, no Carmo, que ele desenvolveu a criação iniciando uma prole que tornou-se conhecida como Nelore Lemgruber.

Júlio César Lutterbach, na Fazenda da Glória, e Sebastião Monnerat Luterbach, na Fazenda Santana, seguiram o exemplo de Manoel Lemgruber, se dedicando a criação do Zebu. O Nelore se difundiu muito no Triângulo Mineiro, Goiás e Mato Grosso. Já o Guzerá teve a preferência dos cantagalenses e a baronesa de São Clemente desenvolveu na Fazenda Areias uma raça quase pura. No entanto, quem mais se destacou na criação do Guzerá foi João de Abreu Junior.

Na Fazenda Itaoca, em Boa Sorte, Cantagalo, João de Abreu Junior possuía um numeroso plantel deste gado e ganhava o primeiro lugar nas competições agropecuárias que participava. Seu touro de nome Pavilhão com 1.050 quilos, recorde que levou mais de 50 anos para ser batido, tinha um retrato no cinema de Cantagalo, orgulho da pecuária local. O gado de João de Abreu projetou novamente o município por todo o país como fizera o café durante o Império.

Planejando as efemérides do centenário da Independência, os pecuaristas decidiram realizar, em Cordeiro, então terceiro distrito de Cantagalo, uma exposição de gado e produtos derivados para que servisse de preparação para a exposição no Rio de Janeiro, comemorativa da independência. Foi destinada uma área de 55.700 metros quadrados para o evento composta por seis pavilhões em forma de chalé para abrigar os animais a serem expostos, um coreto para a banda de música, pista para o desfile dos animais, entre outras benfeitorias.

No dia 4 de maio de 1921, pelo menos 61 expositores de vários municípios fluminenses participaram da primeira Exposição Agropecuária e Industrial de Cordeiro com 508 animais de diferentes espécies, dos quais 401 de grande porte com 370 bovinos e 33 equinos. Na relação dos bovinos não figurava ainda a raça Gir que ocuparia lugar de relevo no gado da região no futuro. Predominava na exposição as raças indianas Guzerá e Nelore em sua maioria pertencentes aos pecuaristas João de Abreu Junior e aos coronéis Júlio César e Sebastião Luterbach.

Este evento foi prestigiado pelo então presidente da República, Epitácio da Silva Pessoa, e pelo presidente do Estado, Raul Veiga. A segunda edição da exposição ocorreu em 1924, cujo resultado foi a criação de um posto de monta, um grande benefício na época. Vinte e um anos depois, em 1943, foi realizada nova exposição contando com a presença do então presidente Getúlio Vargas e do interventor do Estado, Ernâni do Amaral Peixoto. Na realidade, a mídia considerou este evento como a segunda exposição. Participaram os municípios de Cantagalo, Itaocara, Nova Friburgo, Carmo, Sumidouro, São Sebastião do Alto, Santa Maria Madalena, Trajano de Morais, Bom Jardim e Duas Barras.

Quem tomou parte desta exposição foram as famílias Spinelli e Raul Sertã. O plantel da Granja Spinelli era formado pelo gado Guernsey. Já o friburguense José Pires Barroso ganhou o primeiro lugar em apicultura e vários outros friburguenses foram premiados tanto nesta modalidade como na de sericicultura. Porém, com a emancipação do distrito de Cordeiro, em 1943, que ganhou o predicado de município, a exposição ficou sob a sua administração, o que não deve ter agradado em nada os cantagalenses.

Nas últimas décadas, no entanto, a Exposição Agropecuária e Industrial de Cordeiro se tornou muito mais um evento com bailes e atrações musicais do que um espaço de negócios para os pecuaristas.

  • Foto da galeria

    Os Spinelli expuseram o gado Guernsey

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    A primeira exposição de Cordeiro

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    Getúlio Vargas na exposição de Cordeiro

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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