Os navios negreiros do Barão de Nova Friburgo

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Na história de Nova Friburgo não podemos deixar de trazer sempre a memória do seu mais importante protagonista, Antônio Clemente Pinto, o Barão de Nova Friburgo. Nascido em Portugal em 6 de janeiro de 1795, no Vilarejo de Ovelha do Marão, veio para o Rio de Janeiro em 1807, com 12 anos, na companhia de seu tio João Clemente Pinto Filho. Antônio Clemente Pinto iniciou o garimpo no município de Cantagalo na década de 1820. Recebeu sesmarias, ou seja, terras do governo devendo em contrapartida desenvolver alguma atividade econômica. Tudo indica que ficou atraído pela possibilidade de encontrar ouro de aluvião nas novas minas de Cantagalo.

Manuel Henriques, o Mão de Luva, em fins do século 18 havia garimpado clandestinamente ouro de aluvião nos córregos dos rios desta região e desde então a procura por este minério precioso povoava a mente de muitos indivíduos. Nesta empreitada Antônio Clemente Pinto contratou o engenheiro holandês Jacobus Gijsbertus Paulus van Erven para a direção dos trabalhos de mineração em Santa Rita do Rio Negro. No entanto, os rendimentos não compensaram o investimento no garimpo onde era necessário dispor de significativa mão-de-obra escrava. Ele, então, abandonou a mineração e iniciou a plantação de café. Tornou-se um dos homens mais ricos no Império.

No entanto a sua fortuna foi oriunda do tráfico de escravos. Antônio Clemente Pinto consta na listagem de traficantes de escravos no Atlântico entre a costa africana e a cidade do Rio de Janeiro, no período de 1811 e 1830. Como Cantagalo se tornou um dos mais importantes municípios produtores de café, é provável que o fornecimento de escravos para as lavouras desta região fosse feito por Clemente Pinto.

Entre 1827 e 1828, encontramos nos periódicos do Rio de Janeiro, cidade em cujo porto havia a maior entrada de escravos no país, registros de algumas transações feitas por ele. No Diário Mercantil do Rio de Janeiro de 20 de fevereiro de 1827, o Bergantim “Vinte e Oito de Março”, vindo de Quilimane, carregou para Antônio Clemente Pinto 446 escravos, ocorrendo duas mortes. Na Gazeta do Rio de Janeiro na seção Notícias Marítimas, o mesmo Bergantim “Vinte e Oito de Março” vindo de Moçambique, após 77 dias de viagem, dá entrada no porto com uma carga de 517 escravos de propriedade de Antônio Clemente Pinto.

Neste trajeto no Atlântico faleceram 137 escravos. O Jornal do Commercio na seção Alviçareiro Mór nos informa que veio de Quilimane a Barca Nacional, trajeto feito em 60 dias, carregando 549 escravos para Antônio Clemente Pinto Pereira, mas não informa o número de mortos. Já no Diário do Rio de Janeiro de 4 de março de 1828, na seção Alviçareiro Mór, o Bergantim Nacional Hercules vindo de Quilimane, cuja viagem durou 58 dias, carregou 592 escravos para Antônio Clemente Pinto. Neste tumbeiro morreram 46 escravos.

Antônio Clemente Pinto ocupava-se tanto da lavoura como da comercialização do café. A firma Friburgo & Filhos era responsável pelo armazenamento, classificação, ensacamento, venda e exportação do café. Sua casa comissária atuava como financiadora e intermediária dos fazendeiros em transações na Praça da Corte. Era identificado como “fazendeiro-capitalista” já que emprestava dinheiro aos outros proprietários rurais. Antônio Clemente Pinto costumava dizer, “As minhas loucuras eu as faço de pedra e cal”.

Além do tráfico de escravos, plantação e comercialização do café, bem como da usura, dava-se ao prazer de construir imóveis luxuosos. De suas inúmeras fazendas no município de Cantagalo a que mereceu atenção na estética da casa-sede foi a Fazenda do Gavião. Trata-se de projeto do arquiteto alemão Karl Frederich Gustave Waehneldt e foi construída no início da década de 1860, no mesmo momento da construção do Palacete Nova Friburgo, no Rio de Janeiro.

Para este palacete foram contratados escultores, estucadores, gravadores, pedreiros, carpinteiros da Alemanha, Portugal e França. Torna-se domicílio da família a partir de 1º de julho de 1866 e era tão suntuoso que na República foi a residência oficial do presidente do país. Em Nova Friburgo possuía a Fazenda de São Lourenço, no atual distrito do Campo do Coelho, dedicada a criação de mulas de tropas.

Outra propriedade na cidade serrana era a Fazenda do Cônego com olaria, máquinas para fabricar tijolos e tubos e imprensar ladrilhos. Possuía a Chácara do Chalet em que a casa de vivenda era igualmente de autoria de Gustave Waehneldt, hoje o Country Club. O projeto paisagístico foi de Auguste François Marie Glaziou, o mesmo que servia ao Imperador. O seu solar em frente à Praça Getúlio Vargas era interligado por uma linha de bonde puxado por burros até a Fazenda do Cônego e a Chácara do Chalet. Em suas fazendas de café em Cantagalo a família já vinha recebendo colonos, principalmente de portugueses.

É bem provável que os filhos de Clemente Pinto tiveram informação privilegiada sobre a data exata da extinção da escravidão no Brasil. Curiosamente em 21 de abril de 1888, pouco antes da abolição da escravidão, na Fazenda do Gavião, declararam livres os escravos de todas as suas propriedades. Os escravos libertos corresponderam manifestando aos ex senhores que não abandonariam o serviço, pelo ato generoso. Em um possível arranjo político, Dom Pedro II retribuiu este gesto elevando os seus títulos de nobreza de viscondes para o grau de condes.

  • Foto da galeria

    Clemente Pinto, Barão de Nova Friburgo.

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    O registro de um tumbeiro.

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    Entrada de escravos no porto do Rio de Janeiro.

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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