Fazenda do Canteiro - O aqueduto e a roda do moinho - Parte 2

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Na coluna da semana passada apresentei João Antônio de Moraes, o primeiro Barão das Duas Barras. Nascido em 1810, era originário da província de Minas Gerais, tendo migrado para Cantagalo, no início do século 19. No ano de 1867, obteve o título nobiliárquico de Barão das Duas Barras em razão da fortuna que acumulara ao longo de décadas, possuindo 22 fazendas. Cerca de um terço de sua fortuna correspondia a terras, escravos e pés de café. Os outros dois terços representavam dívidas ativas, como a atividade usurária com empréstimos aos fazendeiros e aos parentes.

A Fazenda do Canteiro foi uma das propriedades do Barão das Duas Barras. A casa sede dessa fazenda é típica do Centro-Norte fluminense, do Segundo Reinado, construída de maneira simples, sem a opulência das casas sedes de fazenda do município de Vassouras. As paredes são de pau a pique, tingidas com cal branca. Tem grande destaque na fazenda o aqueduto do século 19, pelo qual passa a água vinda dos morros, movimentando os engenhos e a roda d´água.

Próxima à casa sede da fazenda está localizado o moinho para a fabricação de farinha de fubá e da canjiquinha. O moinho ainda conserva a pedra açoriana. A roda do moinho é movimentada por uma tubulação que conduz a água das canaletas. A roda d’água permanece em seu local de origem e tem plenas condições de funcionamento, bem como toda a canalização do aqueduto necessária para mover a roda. Encontram-se ali, também, as engrenagens de tração da usina e algumas máquinas de moer. A água desce pelas canaletas de pedra, atravessando a mata, até atingir o lago de piscicultura, as caixas de limpeza e o antigo tanque de lavagem de café, de onde segue para percorrer o aqueduto.

O café já lavado era levado para o tanque de recolhimento a fim de ser espalhado no terreiro de secagem. A captação de água se fazia no passado nos morros mais altos, atrás da mata, sendo coletada a partir de várias nascentes através de uma banqueta. Foram construídos diversos açudes na fazenda para garantir a reserva nos meses mais secos. Quando a água do açude transborda, ela é coletada para o antigo sistema de banquetas, refazendo todo o percurso existente há mais de um século.

Na segunda década do século 19, o Centro-Norte fluminense, outrora Sertões do Macacu, já estava quase todo ocupado por agricultores mineiros, dos Açores e da Ilha da Madeira, em Portugal. Com o avanço da cultura cafeeira, a região de Cantagalo experimentou um surto de progresso sem paralelo em sua história. A mata cedia lugar às lavouras, com a substituição da pujante flora nativa pelos arbustos de café. Em razão do cultivo do café, Cantagalo passa a possuir um dos maiores plantéis de escravos do país, e consequentemente se tornar um dos maiores fornecedores daquele produto, gerando uma nobreza local.

A Fazenda do Canteiro se estende do pequeno povoado de Barra do Canteiro até a Serra das Almas. A terra é fértil sendo denominada de argila arenosa. Ao longo do caminho, é possível observar o relevo acidentado que caracteriza a paisagem da região. Ocasionalmente, nos deparamos com imensos paredões rochosos. Pelas encostas escorrem expostas abundantes quedas d’águas provenientes das nascentes e lençóis aquíferos, os quais alimentam os rios e córregos da região, como o Córrego das Neves.

A casa de vivenda da Fazenda do Canteiro recebeu intervenções ao longo dos anos, as quais alteraram a sua volumetria, bem como a divisão interna dos ambientes. O conjunto da sede é formado por um majestoso casarão e o antigo terreiro de secagem de café, cercado por um espesso muro de pedra, permite o vislumbre perspectivo do casarão. Adjacentes ao terreiro estão a tulha e a usina.

A propriedade tem currais para o gado, criação de galinhas e porcos. Possui ainda palmeiras imperiais e um pomar como área de transição entre a mata e a área edificada. Ao fundo está a reserva florestal de cerca de 50 hectares, que envolve toda a propriedade, implantado em um vale para onde convergem as águas que provêm dos morros circundantes, garantindo um microclima diferenciado.

Continua na próxima semana

  • Foto da galeria

    A roda d’água permanece em seu local de origem

  • Foto da galeria

    O açude para a reserva de água nos meses secos

  • Foto da galeria

    Tem grande destaque na fazenda o aqueduto do século 19

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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