Vivemos em sociedade e principalmente em núcleos urbanos que tendem a crescer e se adensar. Mesmo com todas as facilidades e serviços de cada núcleo, é cada vez maior a necessidade de conectividade e deslocamento entre esses núcleos para diversas atividades como trabalho, utilização dos serviços de saúde, turismo, lazer, etc. Fomos nos acostumando a um padrão de deslocamento próprio dos nossos tempos: velocidade, poluição, congestionamentos e infelizmente, acidentes.
Vivemos em sociedade e principalmente em núcleos urbanos que tendem a crescer e se adensar. Mesmo com todas as facilidades e serviços de cada núcleo, é cada vez maior a necessidade de conectividade e deslocamento entre esses núcleos para diversas atividades como trabalho, utilização dos serviços de saúde, turismo, lazer, etc. Fomos nos acostumando a um padrão de deslocamento próprio dos nossos tempos: velocidade, poluição, congestionamentos e infelizmente, acidentes.
Na época em que as áreas rurais ficavam distantes dos núcleos urbanos o amortecimento proporcionado pela transição entre uma e outra região se dava de forma gradual, minimizando os impactos decorrentes desse fluxo voraz dos deslocamentos rápidos e massivos.
Hoje sabemos que em áreas protegidas da natureza, sejam ou não uma Unidade de Conservação, a consciência das pessoas, os cuidados espontâneos, a preservação desses ambientes naturais nem sempre ocorre como deveria e podemos dizer que raramente ocorre com os cuidados absolutamente necessários à preservação da fauna e flora local, com o atropelamento de animais cada vez mais frequentes, desleixo com o lixo, poluição sonora e introdução de espécies exóticas e até invasoras na nossa Mata Atlântica.
Em áreas protegidas como uma APA (Área de Preservação Ambiental) as estradas também cortam o seu interior trazendo os seus benefícios, mas infelizmente trazendo também todos os prejuízos possíveis daí decorrentes, por não haver os cuidados necessários com o ambiente. Ao invés do desenvolvimento sustentável desejável, temos o desenvolvimento que degrada o ambiente de forma irreversível. Com isso, a perda progressiva da nossa biodiversidade e os impactos ambientais que levam às mudanças climáticas vão se agravando e aos poucos vamos nos aproximando do ponto de não retorno às condições mínimas de sobrevivência do planeta.
O Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) estabeleceu as diversas formas de áreas protegidas e a sua classificação. É um sistema muito funcional e tem servido de modelo para os diversos sistemas estaduais e municipais com as adequações devidas. Isso não significa que não pode ser aperfeiçoado e certamente será.
Uma das possíveis modificações futuras poderá ser a introdução das “Estradas Parque” como unidades de conservação lineares. Muitos já ouviram falar desse conceito, mas sua aplicação ainda é muito incipiente pois frequentemente somos levados a crer que a criação de uma Unidade de Conservação, seja de proteção integral (mais restritiva) ou de uso sustentável (que permite as atividades econômicas), onde normalmente essas estradas estão, bastassem para cumprir essa função. Infelizmente não é bem assim.
Há necessidade permanente de ações complementares e a Estrada Parque é uma delas.
Por que uma Estrada Parque?
“Existem duas formas de mitigar os impactos causados pelas estradas na vida selvagem. Uma delas é modificando o comportamento do homem, por meio do controle de velocidade, utilização de sinalizações e luzes, e a outra é modificando o comportamento dos animais por meio de alterações na estrutura dos habitats. As maneiras de mitigar esses impactos são: construir passagens de fauna, proibir a exploração madeireira, fechar estradas em áreas que possuam importância ecológica, utilizar técnicas que diminuam o ruído, fazer com que o trânsito ocorra prioritariamente nas vias primárias e melhorar as condições dos veículos, das pistas e do tráfego.
Estudos mostraram que a construção de passagens de fauna e a implantação de sinalizações alertando sobre a presença de fauna no local podem ser métodos que minimizam os impactos das estradas na vida silvestre” (“Estradas Parque: de categoria de área natural protegida à ameaça aos parques nacionais na América Latina-Revista Tecnologia e Sociedade-Maysa Helena de Freitas Pinto, Geraldo Majela Morais Sávio e outros). Portanto, medidas educativas e restritivas são necessárias e complementares. Para atingir os objetivos de preservação não podemos abrir mão de nenhuma dessas medidas, para, como dito acima, mitigar os impactos causados pelas estradas num ambiente natural.
Muito se tem debatido sobre o conceito de Estrada Parque em todo o planeta, em parte pela grande diferença das características das localidades onde se implantam, desde locais exclusivos de belezas cênicas, locais de alguma produção peculiar como as vinícolas, locais que já estejam sob proteção por medidas mais restritivas, etc. São áreas de interesse público que buscamos proteger por diversas formas. A Estrada Parque vem se somar a essas iniciativas, inclusive como proposta na Revisão do Plano Diretor de Nova Friburgo em debate, e na Revisão do Plano de Manejo da APA Macaé de Cima, onde poderá servir como novo tipo de Zoneamento, com sua incorporação no cenário da preservação ambiental organizada do município.
No Estado do Rio o decreto 40.979/2007 e a lei 6.371/2012 regulam as Estradas Parque
“Considera-se estrada parque a via automotiva que, inserida no todo ou em parte em unidade de conservação da natureza, possua características que compatibilizem sua utilização com a preservação dos ecossistemas locais, a valorização da paisagem e dos valores culturais e, ainda, que fomentem a educação ambiental, o turismo consciente, o lazer e o desenvolvimento socioeconômico da região onde está inserida”.
Que benefícios trará a Estrada Parque?
Uma Estrada Parque ao ser implementada deve ser debatida com a população direta e indiretamente envolvida, com audiências públicas e reuniões locais e setoriais, acompanhada de uma campanha de esclarecimento sobre os benefícios de tal iniciativa, pois com a sua implantação espera-se o fomento às atividades turísticas e consequente implemento às demais cadeias produtivas locais com o incentivo à participação de todos os envolvidos, como comerciantes, donos de pousadas, airbnb, hotéis, restaurantes, guias turísticos, gestores ambientais e de áreas de atrativos turísticos, profissionais de transporte, prestadores de serviços, etc.
Os benefícios podem ser muito relevantes para a população local, quando organizados e coordenados de forma racional para o melhor aproveitamento do potencial de cada uma das atividades. Um Conselho Gestor participativo tem a função de exercer essa tarefa.
Estrada Parque: estrada boa
Uma das consequências benéficas naturais da implantação de uma Estrada Parque é a necessária e fundamental manutenção das vias de acesso e da própria estrada, de forma a torná-la transitável com conforto e segurança por todo o ano, para cumprir adequadamente os seus propósitos, além de obviamente servir à população local com a merecida dignidade e com eficácia.
Com uma sinalização padronizada, portais de entrada, pontos de observação de atrativos turísticos, passarelas aéreas e subterrâneas para a passagem de animais, limitadores de velocidade, placas informativas, etc., poderá ser feito um trabalho de conscientização e educação ambiental, garantindo e incrementando a sustentabilidade local. Devemos ter em mente que só com o turismo sustentável, ordenado e disciplinado é que a preservação do meio ambiente poderá ocorrer.
Ao trafegar por uma Estrada Parque o motorista, cumprindo as exigências restritivas, além de proteger o ambiente e guiar com maior segurança para si, para seus familiares e para a população local, além da proteção da fauna tão vulnerável, esse motorista e sua família ao adentrar nesse ambiente, encontrará o equilíbrio e paz necessários para uma visita e deslocamento com maior tranquilidade e harmonia, que é o que se busca e o deve ser encontrado numa área de natureza.
Uma Estrada Parque faz de uma via, um simples caminho, uma região viva e orgânica trazendo grandes benefícios para a sociedade.
No próximo artigo falaremos de como transformar esse conceito em realidade.
“Transformar é caminhar,
com ternura, com olhar.
O planeta é nossa morada,
e o amor... a nossa estrada”
Jacylene Ramos Penedo
Assista nossa entrevista de 28-01-2026 na Rádio Comunidade, Programa Momento Cidade: https://youtu.be/vUaQa37u5-4
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