O desabafo de Vanor Tassara Moreira - Uma metralhadora nas costas - Parte 1

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 08 de novembro de 2018

Vanor Tassara Moreira possivelmente é um dos prefeitos mais controvertidos na história de Nova Friburgo. Nascido em Conceição de Macabú em 2 de dezembro de 1925, era filho de um dos médicos mais admirados pelos friburguenses, Dermeval Barbosa Moreira, conhecido como o médico dos pobres, em razão da assistência que dava às classes sociais menos favorecidas.

Vanor se candidatou a prefeito de Nova Friburgo e foi eleito pela antiga UDN, mas governou apenas por um curto período de tempo, entre 31 de janeiro de 1963 e 10 de abril de 1964. Foi obrigado a deixar o governo municipal em decorrência do golpe militar no país, cujos agentes viam em Vanor Moreira uma resistência a nova ordem política, ou seja, ao regime ditatorial. Vanor tinha um bom relacionamento com os sindicatos dos ferroviários, têxtil e metalúrgico, e notadamente com os grupos de esquerda de Nova Friburgo. Indicou para líder do governo na Câmara Municipal o vereador comunista Francisco Bravo, que como ele foi igualmente cassado.

Em dois capítulos, reproduziremos alguns trechos de uma entrevista concedida por Vanor Tassara Moreira aos jornalistas Roberto Grey e Paulo Roberto Costa para a Revista Zoom, ano 2, nº 12, de propriedade de Ezídio Barroso. A primeira pergunta foi sobre a sua cassação em abril de 1964, logo no início do regime militar. “Renunciei espontaneamente com uma metralhadora nas costas. A minha renúncia foi tragicômica. Por exemplo, no Inquérito Policial Militar instaurado contra mim, apareceram diversas fotografias e me perguntaram qual a razão de aparecer nelas, na antiga estação ferroviária (hoje sede da Prefeitura de Nova Friburgo), numa feijoada com meus amigos ferroviários. Eu então respondi ao sr. delegado do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) que gostava de feijoada. Mostrou-me ele outras fotografias perguntando o que eu estava fazendo ali. Senhor delegado, antes de uma feijoada uma caninha cai bem; estava bebendo no bar com meus amigos, respondi.”

Indagado sobre as outras acusações que teria sofrido no Inquérito Policial Militar, Vanor Tassara Moreira respondeu: “... comunista, nunca fui. Também tem o caso da bandeira a meio pau. Dei ordem a prefeitura que hasteassem a bandeira nacional à meio pau porque eu achava que numa revolução poderia correr sangue de brasileiros e por isso achava que a nação toda deveria estar de luto. E tomaram isso como uma senha. Só na cabeça deles. Não houve tentativa de reação. Tive uns amigos que se apresentaram lá e se dispuseram. Eu falei não. Houve também o caso do trem da vitória. O Congresso havia aprovado uma lei do deputado Demístocles Batista, beneficiando a categoria dos ferroviários e o presidente, além disso, havia determinado a não extinção do ramal de Nova Friburgo. Os ferroviários organizaram então um comboio especial chamado trem da vitória, para comemorar. Quando digo que os episódios da minha renúncia foram tragicômicos, é que a única participação que tive no trem da vitória foi um ofício que mandei à S. Exa. o presidente da República de então, sr. Jango Goulart, sobre as razões socioeconômicas e políticas que desaconselhavam a extinção do nosso ramal, dizendo e profetizando quase o futuro, da exploração das grandes reservas de calcário [refere-se às companhias de cimento de Cantagalo] e que as rodovias que passam por Friburgo não suportariam o trânsito pesado, a carga. Por outro lado, dizia a S. Exa., que a vida dessas famílias de ferroviários que dependiam do trem sofreria e com elas Friburgo como um todo, economicamente. Então veio este trem da vitória, todo enfeitado com bandeiras nacionais, para Friburgo. Meu filho, Demervalzinho, que na época nunca tinha andado de trem, quis andar e já muito curioso, quis vir na máquina; e eu deixei porque tinha confiança nos foguistas e maquinistas. Ele então embarcou em Mury e ao atravessar a praça, começou a badalar os sinos da máquina sem parar. Criaram um caso enorme disso. Disseram que era eu quem vinha na máquina e que estava fazendo agitação. Mentira. Eu vinha num vagão, acompanhado pelo grande deputado Demístocles Batista, que deu uma vida digna aos ferroviários, cassado pela revolução.”

No entanto, de nada adiantou esse esforço. A linha férrea foi desativada em Nova Friburgo em 15 de julho de 1964. Na continuação da entrevista, Vanor Moreira menciona os seus detratores, entre eles, o seu vice, Heródoto Bento de Melo. 

Continua na próxima semana.

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    Os ferroviários organizaram um comboio chamado trem da vitória

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    Vanor Tassara Moreira, o prefeito mais controvertido na história de Nova Friburgo

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    Vanor Moreira indicou para líder do governo na Câmara Municipal o vereador comunista Francisco Bravo

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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